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Astronautas fincam a bandeira americana na Lua, crianças zambudas de fome e subnutrição vítimas da guerra do Biafra, fotos e notícias de chacinas e bombardeios de napalm no Vietnã, jovens peregrinos pelas estradas fora de cabelos longos e desgrenhados com os polegares ao alto pedindo carona a quem passa, John Lennon de longas melenas e barba a Walt Whitman ao lado de uma japonesa feia de cabelos ainda mais longos também divididos ao meio. Entre as imagens de 1969 ficam as de jovens de longuíssimas melenas, como as gravuras de uma cena de rua ou de corte da Renascença. 1969 é ainda o ano de uma nova renascença. E é o ano em que os astros nascentes do rock emitem a palavra de ordem para que os jovens deixem cair as jubas ombros abaixo como fora de regra entre os últimos românticos e esqueçam o barbeador dos país.

1969 é o ano post mortem 1968: Martin Luther King, Bob Kennedy e Cream são agora apenas ícones. O sonho da contracultura, que ia assim ser batizada só nesse ano, talvez tenha morrido com eles. (Mas o que Bob Kennedy tinha realmente a ver com ele, além da cara de garotão?!)
O ano começa com os ecos de With a Little Help From My Friends - Joe Cocker e a repetição à saciedade de Ob-la-di Ob-la-da no rádio, que também faz eco de quase todo o álbum branco dos Beatles, inclusive Revolution, em que Lennon manifesta A dúvida - sempre muito salutar e que sempre, como ainda dessa vez, causou muita polêmica - quanto sua profissão de fé pelo pacifismo e a não-violência e contra modelos políticos obsoletos com sinais baralhados, tomando as devidas distâncias (don't you know that you can count me out - na segunda versão  lançada, no flip-side do single de Hey Jude) OU NÃO dos que "saem por aí empunhando fotografias do chairman Mao" (na primeira versão, incluída no Álbum Branco, canta well you know that you can count me in). Só em poucas vitrolas não se dava a longa aventura de dois discos por encerrada quando a agulha chegava à penúltima e mais longa faixa do segundo LP, Revolution Nº 9, o curta-metragem do ano. No duplo branco, que domina as paradas caseiras ao longo de quase todo o ano de 1969, o quarteto dá uma de ska e outra na ferradura de Stockhausen, uma em Revolution e outra em Revolution Nº 9, Ob-la-di Ob-la-da Stockhausen While My Karlheinz Gently Weeps, Cage e o diabo a oito.
"The Beatles", colagem de depoimentos pessoais dos três compositores da banda, é o mostruário-padrão da sua obra, patchwork - painel - mosaico - da diversidade estilística - de espírito-sensibilidade abertos a todo tipo de música (with a little help from George Martin no que se refere a música escrita - exata - dita erudita) e a todas as novidades. Não é por acaso que como membro do conselho consultivo da produção de John Philips do festival de Monterey Paul McCartney indica Jimi Hendrix, acabadinho de decolar da panela de pressão. Ska, baladas de menestréis nos mais diversos estilos, While My Guitar Gently Weeps ou Birthday com riffs que se tornariam formatos clássicos do heavy rock, Helter Skelter (o som heavy pré-blacksabathiano já quase metal satânico), Revolution Nº 9 JOHNCAGEANO E O STOCKHAUSENBAU.
E como começa com The Beatles 1969 fecha com Abbey Road. E no interim

                                                                                                                                          

 

 

 

       WAR IS OVER WAR IS OVER WAS IT

                                   
                              &                               

1969 foi o ano de The Ballad of John and Yoko. Desde que começou a se reconhecer por gente Lennon foi um agitador, e ao ligar-se a Yoko Trepidação Ono assumiu de fez o capuz, com Two Virgins e logo em seguida o show do bag in Merry Xmas / WAR IS OVER com a que logo se assume como Plastic Ono Band para be-ins de GIVE PEACE A CHANCE, os dois a rentabilizar a fama e o PRESTÍGIO dele sempre em campanha ao longo do ano, quase sempre na cama, de onde até davam entrevistas, e inclusive no casamento (nada mais britânico) em Gibraltar.  

Sim; 1969 foi o ano dos Lennon, de Woodstock, Wight e de Easy Rider, em que Peter Fonda e Dennis Hopper deixavam claro que não adianta tentar escapar e menos ainda sonhar com Routes 66 alternativas.

Edgar Lessa narra em  :

- É. Ridículos ou elegantemente modernos naquela farda de paletó sem lapela e calças cingidas ao corpo, que depois se transformou em uniforme oficial de Roberto Carlos e chusma e de metade dos grupos pop do planeta, logo os Beatles passam à auto-paródia na capa de Sgt. Pepper’s, que é como que um índice de citações das suas influências na música, no cinema, na ciência e na religião, ou nas vestes, letras e sons ainda mais bizarros de Magical Mistery Tour. Lembra-se de que no ano passado dizíamos que os Beatles, os Stones e tantos outros se tinham tornado figuras carnavalescas, pela forma como se vestiam e as coisas que faziam? Lennon abusou mais ainda na campanha pela paz, ao lado da para todos os efeitos patética esposa, em nus frontais na capa de Two Virgins, de pijama e camisa de noite no bed-in no Hilton de Amsterdã e no bed-in e no be-in de gravação de Give Peace a Chance em Toronto, que parece uma macumba pela paz, em The Ballad of John and Yoko, no financiamento do barco que iria difundir mensagens de paz pelos portos do mundo em tempos de Vietnam e Bangla Desh, no concerto War is Over, os dois ridiculamente espontâneos e sinceros na luta por uma causa... perdida? Devolve a MBE, a medalha de honra do Império, e o que vale é o gesto. Foi morar em Nova York com Yoko. Yoko... aparentemente uma visão de pesadelo em comparação com a ex-fiancée do ex-beatle, Cynthia, pelo próprio nome uma espécie de misto de pin-up com princesa – porque estamos na sede do Reino, vivemos ainda uma mistura de pesadelo pós-industrial e fantasias da corte do rei Artur, em que de repente um plebeu pode transformar-se por serviços prestados à Rainha num aristocrata e quem sabe numa revolução impensável ascender ao trono... Um absurdo ainda maior porque o que me espanta é como, num turbilhão de pesadelos de sociedade superdesenvolvida, em que perspectivas de dias melhores estariam apenas nas propostas do movimento a que se chama de contracultura, a monarquia consiga manter-se tão estável, incontestada, à sombra ou acima de um jogo de alternância política Tories-Labour a que ninguém de bom senso deveria dar o mínimo de crédito, mas segue impávida e serena.  

 

                                 

 

- A ida dos Lennon para Nova York é o sinal mais claro de que, depois das jornadas do Congresso sobre Dialética da Libertação na Roundhouse, com debates e happenings sobre toda a sorte de matérias alternativas que chegaram a fazer parte do currículo das universidades sublevadas, do tipo como lembra aqui o Richard Neville..., olha só esta, Das Histórias em Quadrinhos à Dança de Shiva: Amnésia Espiritual e Filosofia da Auto-Alienação... que loucura... em que o Pink Floyd deu show de som e luzes, transplantando para a Inglaterra as inovações cênicas dos grupos da Costa Oeste, em San Francisco, e com o fim do british boom nos EUA, em 67, o centro dos acontecimentos – embora o pólo de maior agitação política tenha sempre estado lá – deslocou-se para Oeste, onde no entanto a dramática evolução das coisas, em que cada vez mais se vê que os EUA não conseguem sair do atoleiro do Vietnam, parece ter tornado inútil maiores mobilizações contra a guerra, no fundo, como diz aqui o Neville, o leitmotiv do Movimento ou objeto em que se condensou um ódio sem forma definida ao Sistema.

 1969                          O ROCK EXPLODE EM ZIL ESTILOS 
é o ponto a que chegara o rock: primal + eletrônica, de Dylan a The Beatles, quando muito naipes de cordas e um órgão barrock (Procol Harum e uma das revelações de Woodstock, Santana, com uma levada muito afro-salsera). Ano do hard e do progressivo.
A trilha sonora de Easy Rider dá boa conta da qualidade e diversidade do american sound 1969. Mas a diversidade estilística era extraordinária: Zappa a fazer picadinho ao mesmo tempo da sociedade de consumo e da alternativa em plataformas estilísticas as mais extrovertidas (porque ele mesmo era um dicionário de bolso ou um liquidificador dos estilos em parada, que também parodiava), o  psychedelic rock indo para o California sound, de Love a The Doors e os já aqui citados, e núcleos de experimentadores de garagem ou de bandas de universidade dando origem a ramos que se estendiam ao clássico e ao jazz - Blues Project: Seatrain-Al Kooper-Blood, Sweat and Tears só como exemplo.

Mas o que fervilhava mesmo era a british scene e o british sound, por sinal - como seria lógico - bem americano e até mesmo negro na sua feição mais criativa, o blues-rock, de Led Zeppelin e Ten Years After além de Jeff Beck, Yardbirds e John Mayall's Bluesbreakers (Bluebreakers e Yardbirds por onde quase todos tinham passado) mais um monte de muito boas revelações como Stone The Crows, Savoy Brown Blues Band, Climax Chicago Blues Band e, da Irlanda, Taste, que revela uma outra lenda, Rory Gallagher.  Com eles nasce o progressive rock, côté hard rock. Menção à parte merece a formação original do Fleetwood Mac, talvez o mais blues band à velha e nova maneiras, que se lançara em 1968 com a singela e bela Albatross e Man of the World, de Peter Green, e em 1969 se sai com The Green Manalishi, que como o follow up Oh Well foi extraído do LP Then Play On, lançado no outono daquele ano, e galgaram céleres hit parades do meio mundo de cá. Numa noite de abril de 1968 na Escola Politécnica de Londres a banda de Peter Green e Jeremy Spencer (coadjuvados por uma seção rítmica de respeito, Mick Fleetwood-John McVie) gravam suas obras completas, a que dão retoques em poucas sessões de estúdio e a história quase acaba ali, em 1968, o ano que não acabou, quando Cream se despede e Peter Green, outro rapaz de gênio dividido entre o virtuosismo, a timidez e a fama, se destaca em elipse na banda que em 1969 recebe o reforço de Danny Kirwan e, entre gigs e sessões de retoques em estúdio, explode e logo depois estoura, quando P.A. Green decide dizer adeus à carreira e ser coveiro de guitarras elétricas em 1970. Mas 1969 é o ano em que os três mosqueteiros da guitarra da Fleetwood Mac Blues Band, e sobretudo Peter Green, fazem a sua lenda. A ponto de 26 anos depois a revista Mojo ter dito o seguinte em relação aos maiores guitarristas da história: 1º - Jimi Hendrix, 2º - Steve Cropper (Booker T. & the MG's), 3º - Peter Green.

                           

os três mosqueteiros da guitarra da Fleetwood Mac Blues Band, e sobretudo Peter Green, fazem a sua lenda, na foto alternados com Mick Fleetwood e John McVie.

E como é que tudo começa?...

Quando Peter Green, Mick Fleetwood e John McVie, egressos do John Mayall's Bluesbreakers (que perdia assim, em várias levas, jovens talentos em penca, quando o espírito era de lança-los ao mundo) se unem a Jeremy Spencer e formam a Fleetwood Mac Blues Band, para ir direto ao assunto. 

Nota bene: Jimmy Page e John Paul Jones, uma asa de uma das lendárias formações do Yardbirds. Green, Fleetwood e McVie, asa, tronco e membros de uma das lendárias formações do Bluesbreakers.

Nem precisavam gritar - I'm goin' down to Chicago, como Robert Plant com Led Zeppelin duas primaveras depois. Quem não era chicagoano em Londres, entre o tronco e espinha dorsal do bluesrock?  A primeira formação do Fleetwood Mac dura de 1967-68, um ano antes de Danny Kirwan completar o trio de guitarras feéricas, e 1970, quando Peter Green decidiu cair fora - da carreira - e ser coveiro de guitarras elétricas e Kirwan e o chicagoano Jeremy Spencer caíram fora do grupo. Seu sucesso do ano foi o single com The Green Manalishi - crítica radical aos gurus hindus que se multiplicavam em Londres na sequência da onda provocada pelo Maharishi dos Beatles - e Rattlesnake Shake, que como seu follow up Oh Well foram extraídos da antológica despedida em álbum, Then Play On. O grupo irá dar muuuito que falar nos anos 1980, com Christine Perfec McVie. Mas para os fãs de blues, bluesrock e de Peter Green aquele Fleetwood Mac é que valeu como um dos picos do rock em toda a história. O que caracteriza sua excelência é a qualidade da bluesband, ou seja, seu amor e fidelidade aos blues de raiz, à falta de melhor expressão, que como Clapton, Ten Years After, Chicken Shack, Climax Chicago Blues Band, Savoy Brown, Taste (da Irlanda...) e Led Zeppelin flagram para além de todas as medidas nos momentos em que os blues descambam primeiro para o rhythm and blues e depois para o rock and roll (o que no caso de Fleet Mac pode-se degustar no auge ao vivo nas decantações de Jeremy Spencer de clássicos de Elmore James e em Sandy Mary ou numa versão de quase vinte minutos - muita jam e vibração entre os três - de Rattlesnake Shake, ambas d)e P.A. Green, cuja verve é muito mais que outros cinquenta por cento da glória da banda. Que grava o histórico Memphis Slim London Sessions com um dos pais dos Chicago blues. E por conta dele faz até bolero

(mas para ler mais sobre isso acesse a webpage revoluciomnibus.com/FleetwoodMac.htm)

                   

                                             

sobre Led Zeppelin em 1969 trecho de    no festival de Bath 1970 incluído na webpage  revoluciomnibus.com 

DE WOODSTOCK AO McROCK 

porque dá no mesmo, tudo foi uma coisa só com a banda atéeee.... a morte da arte de John Bohan

Os amplificadores do Zeppelin produzem um estrondo equivalente ao de uma centena de canhões em Waterloo mas com o máximo de apuro sonoro. Tecnologia de ponta, de grande qualidade e potência, é o sustentáculo de grande parte do prestígio de uma banda hoje em dia. Estampido, potência, peso. Os LZ estão em turnê de lançamento de Led Zeppelin II, em que o que mais sobressai é a impactante (para dizer o mínimo) Whole Lotta Love, que parece um Je T’Aime... Moi Non Plus gravado pela tripulação de um B-52 durante um bombardeio no Vietnam e numa boate de Saigon, mas em que todo o resto é até melhor que o seu primeiro hit single, como se sente aqui, entre outros sons turbilhônicos como os de Good Times, Bad Times ou Living Loving Maid, do seu primeiro LP, lançado há apenas oito meses – como Fleetwood Mac ou Jethro Tull, devem ter entrado pela primeira vez no estúdio já com as obras completas ensaiadas e o sucesso do primeiro permitiu-lhes lançar dois longas-durações em menos de um ano.

Com o calor do bafo da horda pela primeira vez sinto-me à noite ao ar livre de camiseta na Inglaterra. 250 mil pessoas são duas ou três vezes a população de Bath. Um gigantesco exército como este poderia varrê-la do mapa em poucas horas.

Som pesado mas não rígido. Ao contrário, muito maleável. Metade do grupo foi durante um tempo uma asa do Yardbirds, sigla abençoada que gerou parcela considerável do bluesrock. E o que é mais admirável é que, apesar da fama de melhor banda de hard rock do mundo, eles não se prendem a uma fórmula. Vão desde o tronco folk a um dos seus ramos, o country, o folk americano. No conjunto, talvez o som mais bem produzido no momento. Tonitruante mas de grande riqueza tímbrica graças ao inteligente jogo de alternância entre o guitarrista e o vocalista, entre as marteladas da seção rítmica claramente distinguíveis nos contratempos entre si e com o guitarrista, alternando-se nas acentuações com muito vigor e souplesse.

                                    

Tudo é novidade. A guitarra de dois braços com afinações diferentes de Jimmy Page. A jovialidade, o vigor e a beleza de Page e Robert Plant, a voz às vezes esganiçada mas que nunca extrapola além do que de momento definirei como bom gosto. O balanço ondulante do mais puro rock’n’roll e do blues mais autêntico, bem urbano, muito longe dos campos de algodão, mas como se Londres pudesse ter clima do South Side de Chicago, o que está longe de ter. Led Zeppelin Blues Band - como ingleses tão brancos e sardentos conseguem vestir tão bem a pele de lobo, incorporando o feeling e a manemolência dos negros? Hard? Heavy? Ok. Mas sempre muito cadenciado, sensual. Led Zeppelin é único porque, leve ou pesada, é a banda mais sensual do mundo. Como apenas quatro gatos pingados produzem essa explosão sonora tão rica de timbres e tão cheia de volume? Não é só milagre da eletrônica, embora este contribua em grande escala para a qualidade do conjunto, que se baseia no virtuosismo dos músicos e na potência e maleabilidade da voz do cantor mas também no apuro dos seus engenheiros. O concerto decorre sob o signo do êxtase. Qual é então a melhor banda do mundo?

O impacto da música é tanto que Plant nem precisa de inventar truques de cena, limitando-se a dar de vez em quando umas corridinhas como a fugir de um tiroteio.

O fulgor do som quase faz esquecer o de som e luz do Floyd, que maravilham pelo encantamento mas para mim passa definitivamente a fazer parte de um outro departamento, a anos-luz do vigor e entusiasmo do velho rock’n’roll. Um triunfo no que entra para a história como o maior festival da Inglaterra, depois de Wight.


  1969   é o ano dos SUPERGROUPS. Como Blind Faith, um dos exemplos máximos, apesar de Ginger Baker e de se ter mostrado apenas em um LP de estúdio, suprassumo de Cream (Clapton) e Spencer Davis Group e Traffic (Steve Winwood). Ou, do outro lado do mar, Crosby, Stills, Nash and Young.

      Rompi o cordão umbilical ao trocar o Rio por Londres, alegadamente para praticar inglês mas já com a idéia de ficar para me deliciar devagar com uma fatia do bolo da capa de Let it Bleed dos Stones sobre um prato de vitrola - o sonho pop que já se diz acabado e de que de um certo modo me despedi ao ver a

       

                                        

                        foto de Jack Bruce à esquerda e Eric Clapton no outro extremo, de olho nos dedos no instrumento, e Ginger Baker ao meio, olhando de lado com os braços sobre os ombros dos já ex-colegas no show de despedida do Cream no Royal Albert Hall, em dezembro de 1968.

Cultura adolescente na era da juventude e música em toda a sua novíssima dimensão eletrônica. A caminho dos 15 anos, li a notícia e recortei a fotografia ao som da eletrizante versão de Joe Cocker de With a Little Help From My Friends, um canto estraçalhado de sirene do rock num ano explosivo, com Street Fighting Man, dos Stones, Electric Ladyland, de Jimi Hendrix, e Hello I Love You, do The Doors, e o álbum branco dos Beatles, entre uma porrada de sons siderais. Nunca é tarde, para mim o sonho apenas começara. Ouvia música pop e rock o dia todo. Em menos de dois anos estava em Londres, até porque lá estão dois exilados eméritos que sobre mim exerceram influência extraordinária em termos comportamentais, Gilberto Gil e Caetano Veloso, os ‘papas’ da Tropicália.

 

Quando entramos está tocando o Occasional Word, a que se segue Mike Hart, um ex-cantor de um grupo obscuro chamado Liverpool Scene, com os já familiares Business. Impressionante a quantidade de músicas do repertório do Cream que o pessoal toca em 1970:Crossroads,Politician, Sitting On The Top of the World. Algumas nem sequer connheço – identifico-as pelo título ou pelas letras de Pete Brown, o letrista parceiro de Jack Bruce, colega de Lennon na escola técnica de arte de Liverpool.

   Blind Faith Sea of Joy   Can't Find My Way Home   Presence of the Lord

  1969  

 Eric Clapton Steve Winwood Rick Grech Ginger Baker

 

trecho de  Por dentro e por fora em Londres  capítulo de

Gil acaba de lançar em vinil a necessária aposta numa carreira internacional a partir de Londres, com uma tocante versão solo de Can’t Find My Way Home, que Steve Winwood lançou no lendário LP do Blind Faith e de que fez a mais perfeita tradução do sentimento em relação ao difícil momento político que o seu país, sob ditadura militar, e existencial que ele, no exílio, vivem: Desça do seu trono e esqueça o seu corpo, alguém tem de mudar.


A guerra de superegos se manifestou primeiro nos Rolling Stones, que menos apegados ao côté Elvis Presley e de banda de ballroom ou inferninho à velha maneira como os Beatles e mais (Keith Richards) aos blues ou rhythm and blues dos pretos retintos se afirmavam também por suas caras e atitudes de vilões, acentuando os meneios e requebros (Mick Jagger) e carregando nas tintas da rebeldia (Street Fighting Man) enquanto os Beatles se rebelavam e como (os sons de Magical Mistery Tour e The Beatles, o Álbum Branco) mas sem nunca deixar de passar, histeria das fãs na puberdade e devolução da medalha da Ordem do Império por Lennon à parte, uma imagem de bons mocinhos com direito a perfilar na referida Ordem e, quanto a rebelião, quando muito arriscavam teorias NA DÚVIDA de uma outra ordem de valores (Revolution). Jagger e Richards chegam a ir em cana por posse de maconha. Não havia lugar na banda para três personalidades tão fortes como as de Jagger, Richards e o côté mais acid rock do quinteto, Brian Jones, que de tão atordoado talvez pelo sucesso após ser despedido foi encontrado morto na piscina do seu resort. O acaso trágico gerou um histórico show gratuito (sem cercas) no Hyde Park que também é parte obrigatória da iconografia do ano: pétalas de rosas brancas lançadas sobre a platéia, leitura de P.B. Shelley e um grupo de negões nigerianos que nas tumbadoras deram em Sympathy for the Devil o primeiro toque afro ao rock. Jagger-Richards assumem a ponta e contratam Mick Taylor, oriundo da melhor escola de british blues, o John Mayall's Bluesbreakers, e que já no single com Honk Tonk Women e You Can't Always Get What You Want, que estourou no final da primavera inglesa, mostrou ao que vinha: ser o sustentáculo estilístico da segunda e talvez melhor fase dos Stones (de Get Your Ya-Yas Out a It's Only Rock and Roll, passando por Exile On Main Street), quando estes dão ainda mais ares de Rolling Stones Blues Band ela também.


                 

Não se deverá descurar também os ramos que brotam pujantes de bumbum virado para a música clássica, como o que se revela com o trio Nice, de Keith Emerson, ou entre o acid e a música contemporânea (Ummaguma, Pink Floyd) ou entre esta e o jazz - Soft Machine, uma das prenunciadoras do jazz-rock. A vertente a que se associaria mais os termos progressive sound ou rock progressivo, que haveria de deixar outras excelentes (sobretudo Curved Air e Yes nos três primeiros discos) e algumas péssimas recordações (Genesis e Pink Floyd daí em diante, segundo esta coluna, que também tem opinião). Tommy, do The Who, que etiquetado pioneiristicamente de rock-opera (cabendo-lhe muito bem a etiqueta no mindinho), abriu uma temporada de caça ao casamento do rock com a dita clássica ou eru-dita - a título de uma '''dignificação" que ele nunca quis nem pediu, com sucessos monstruosos como Deep Purple In Concert, com Deep Purple + Royal Phillarmonic Orchestra sob a regëncia do  comPOSE(U)R Sir Malcolm Arnold ao vivo no Royal Albert Hall, tanta realeza, e sobretudo Jesus Christ Superstar, a pioneira dos náo menos inefáveis Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, por sinal também com o lead vocalist do Purple, Ian Gillan, no protagonista. Bleeergh! Tommy - rock-opera por ser a primeira opera rock com libreto, mas sem sinfonismos, pelamordedeus, como o das versões da trilha sonora do filme do excessivo Ken Russell. 1969, ano da consolidação do prestígio da guitarra Gibson Les Paul, é também aquele em que se começa a temer pelo fim das orquestras. No afã das novas sonoridades a todo o custo e qualquer preço nego vende a alma ao diabo. Led Zeppelin ressuscita o Theremin. Surgem as primeiras trapizongas sintetizadoras - mellotron, VCS3, moog synthesiser, tataravôs do  DX7 e do Synclavier. Usa-se muitas vezes para dar o efeito remotamente parecido a naipe(s, como se o som fosse produzido por um monte) de cordas. Um dos resultados mais espetaculares do seu uso em efeitos synphonicos é audível em In The Wake of Poseidon, obra-prima seminal de King Crimson, de onde sairia o baixista Greg Lake para se juntar a Keith Emerson (em 1970 Emerson, Lake and Palmer), que tirou o maior sarro da invenção do Doc. Moog já com Nice em Quadros de Uma Exposição (Pictures at an Exhibition) de Modesto Mussorgsky.
Goste-se muito ou um pouco menos, em termos de estouro comercial 1969 foi sobretudo o ano de CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL, que estréiam em 1968 com um clássico instantâneo, Proud Mary, e emplacam em sequência uma rajada de megahits. Deu até para logo encher o saco, sabia? CCR foi o maior fenômeno de country rock.
Eis uma resenha dos primeiros lugares da parada de vendas de LPs do New Musical Express, de Londres, em 1969:

THE BEATLES
"The Beatles" (Apple) 4 semanas
DIANA ROSS & The Supremes Join The Temptations (Tamla Motown) 6
THE CREAM
"Goodbye" (Polydor) 6
BOB DYLAN
"Nashville Skyline" (CBS) 4
FRANK SINATRA
"My Way" (Reprise) 2
ELVIS PRESLEY
"Flaming Star" (RCA) 1
JETHRO TULL
"Stand Up" (Island) 6
JOHNNY CASH
At San Quentin (CBS) 2
THE BEATLES
"Abbey Road" (Apple) 13          NME's charts - Top One LPs - edited by Derek Johnson
a souvenir history of possibly the most momentous ten years in the history of pop - New Musical Express, November 11, 1972 - shows that the
Longest stay at Nº 1 by any individual artist or group are The Beatles (164 weeks). This is the equivalent of the Beatles being at Nº 1 for over three years.
 

Entre os americanos da parada há um Elvis redivivo com o estrondoso sucesso de In The Ghetto em 1968, um Johnny Cash com a cartucheira cheia numa prisão de segurança máxima e um dos ápices da Tamla Motown, a reunião dos seus dois vocal ensembles de maior sucesso. Da parte britânica dá brado a consistência da reputação do Cream, que estraçalha até depois do rompimento permitindo-se dar um tchauzinho na própria capa, e o impacto inicial do Jethro Tull e do selo discográfico que o lança, Island, um exemplo do pioneirismo de jovens ligados no som que se tornam produtores de discos, lançam os seus próprios pequenos selos, a que chegam a acoplar outras micro-empresas (Trojan, no caso do jamaicano Chris Blackwell, que assim torna-se também o principal responsável pelo estouro do ska e depois do reggae), fazendo distribuir os seus produtos pelas majors, de que os seus selos passam a ser subsidiários antes de quase fazerem das majors suas subsidiárias. O exemplo de Chris Blackwell e da Island é o de maior vulto na transição de uma fase (a guerrilha cultural) para outra (o big business) que o rock vive precisamente em pleno année érotique e de Woodstock.

Outra ilustração pertinente de como uma nova atitude a partir de velhos processos (o artesanato, ainda que através da indústria e em escala industrial, passe o contra-senso) gera novos modos de produção tendo por toque de saída a guerrilha (mesmo que individual, passe o contra-senso) e acaba por ser o marco fundador dos atuais modos de produção da maioria dos agentes culturais é a de Frank Zappa. Cedo ele passa a auto-produzir-se e em 1969 a produzir outros artistas, que lança através de um dos dois selos (micro-empresas) que funda. Pela marca Straight (careta, quadrado, direito ou, bem a propósito tratando-se de Zappa, direto) bota na rua uma das mais antológicas produções do universo rock, o duplo LP Trout Mask Replica, de Captain Beefheart and the Magic Band - e pouco haverá de mais anti-straight que esses discos. E pelo selo Bizarre publica os seus próprios discos. Tudo distribuído pela Warner Records. Ao morrer, aos 53 anos, Zappa tinha produzido (número emblemático) 69 discos próprios. A quase totalidade de sua própria lavra e safra.

1970 passará à história sobretudo como o ano do estouro do chamado soft rock (Crosby, Stills..., Carole King, Joni Mitchell, James Taylor, Elton John). Em 1971, enquanto flores do pântano como Al Green e Marvin Gaye encantam e como com o seu suingue e versos preciosos, Don McLean sai-se com American Pie, em que fala do dia em que a música morreu no distante ano de 1959. Mas é a partir de 69 que muitos bambas, como o professor John Peel, começam a fechar o caixão. Espontaneidade e sinceridade passam a ser pendões raros. O rock, enfim, deixa de ser também um ritual. Pelos anos 70 fora ainda haverá muitas honrosas exceções, mas o que se ouvirá mais em salões de baile ou de concertos ou festivais tem gosto de sanduba padronizado ao gosto do freguês. The Dream Is Over, disse o ex-agitpropagandeador da chance à paz. Um tiro seco de J.D. Salinger e cai o pano. Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou.

                                                         

Frank Zappa and the Mothers of Invention a Mothers of Prevention

1969

Mothermania

Mothermania (1969), subtitled The Best of the Mothers, is a compilation album by the Mothers of Invention. While the songs were previously released on Freak Out!Absolutely Free and We're Only in It for the Money, it contains unique mixes or edits done specifically for this compilation. fonte: en.wikipedia.org

 

 

Uncle Meat

Uncle Meat is the fifth studio album by The Mothers of Invention, released as a double album in 1969. Uncle Meat was originally developed as a part of No Commercial Potential, a project which spawned three other albums sharing a conceptual connection: We're Only in It for the MoneyLumpy Gravy and Cruising with Ruben & the Jets.
The album also served as a soundtrack album to a proposed science fiction film which would not be completed, though a direct-to-video film containing test footage from the project was released by Frank Zappa in 1987. The music is diverse in style, drawing from orchestral, jazz, blues and rock music. Uncle Meat was a commercial success upon release, and has been highly acclaimed for its innovative recording and editing techniques, including experiments in manipulation of tape speed and overdubbing, and its diverse sound. fonte: en.wikipedia.org


Hot Rats

Hot Rats is the second solo album by Frank Zappa, released in October 1969. It was Zappa's first recording project after the dissolution of the Mothers of Invention.
It features the work of several artists in addition to Zappa, including several former members of the Mothers of Invention, Captain Beefheart, and Don "Sugarcane" Harris. Five of the six songs are instrumental; the other, "Willie the Pimp", features vocals by Beefheart. In his original sleeve notes, Zappa described the album as "a movie for your ears". fonte: en.wikipedia.org

francesco zappa 

contra o garni du jour

            

Francesco Zappa, nascido em Baltimore, estado de Maryland, a 21 de dezembro de 1940, é um clown com uma incerta semelhança física com Groucho Marx. Não tardou muito que o definissem como o Lenny Bruce do rock.

Parece não se levar muito a sério mas não está para brincadeiras, ou vice-versa. De Freak Out!, que começa com um roquinho de protesto com a cara de 1966 (Hungry Freaks, Daddy, de Carl Orestes Franzoni) e termina com repiques de Edgar Varèse, a Boulez Conducts Zappa - The Perfect Stranger, o filho de emigrantes da Calábria que ainda tem muitos primos por lá, talvez na Austrália e certamente no Brasil, deu a volta ao mundo em ritmos e estilos. Músico auto-didata (....composer, blah, blah, blah, como descreve em sua Biographical Trivia) só não tocou o que não quis.

Zappa é por definição o compositor cuja obra é indefinível. Quer dizer, a maior parte dos 69 álbuns que publicou em vida (diz-se que deixou outras 500 horas de gravação), excluindo-se os que contêm peças únicas com um formato (o que no seu caso é também um contrassenso), são quebra-cabeças estilísticos que abrangem quase todos os formatos e sonoridades explorados com o instrumental pós-moderno. Só não lança mão de efeitos de som de estúdio como câmaras de eco. Quebra-cabeças ou mantas de retalho mesmo quando os álbuns se baseiam num determinado tipo de som, como por exemplo Overnite Sensation e One Size Fits All, as duas obras centrais de sua fase de colaboração com o tecladista e cantor George Duke, que adota à nascença. One Size Fits All parece já dizer isso mesmo. Dentro, como sempre espécie de centrífuga que tudo mistura (fusion é com ele mesmo)  o homem vai de paródias ao hard rock a galopadas country and western e lieder cantados - isso mesmo - em alemão. Jazz From Hell, claro, não tem uma faixa em 4/4, mas também quantas faixas de discos de free jazz são em 4/4. Seja onde for esse inferno, é jazz - dê por onde der. Ou seja o que isso for. Mesmo quando o ás faz uma faixa só com um solo de guitarra bluesy gravado em um show em Saint Etienne (e com esse título). Em seus discos de gozação com o rock ou o que seja, porque Francesco Zappa está sempre de gozação (é impossível levá-lo a serio porque parece que ele nunca está se - e nos - levando a sério), existe quando muito um padrão determinado pela formação que explora - e é assim que ele trabalha, a cada momento explorando o potencial de uma formação, inclusive o estilo de cada instrumentista/compositor, porque F. Zappa, monstro de superego, é um ser muito gregário. Ou, de outro modo, depende. Obra sacramental da safra de 1969, Hot Rats, que abre nova fase depois da enxurrada inicial com Mothers of Invention (Ray Collins, Jim Black e Carl Estrada) e após o interregno de 200 Motels, trilha sonora do filme lançada com Mothers of Invention e a Sinfônica de Los Angeles sob a regência de Zubin Mehta que ninguém levou a sério, é exemplo-padrão do patchwork zappaeano quando assim tem de ser. 

 
 

de  e de DE WOODSTOCK AO McROCK da série
revoluciomnibus.com 

Outra ilustração pertinente de como uma nova atitude a partir de velhos processos (o artesanato, ainda que através da indústria e em escala industrial, passe o contra-senso) gera novos modos de produção tendo por toque de saída a guerrilha (mesmo que individual, passe o contrassenso) e acaba por ser o marco fundador dos atuais modos de produção da maioria dos agentes culturais é a de Frank Zappa, cuja carreira se baseia na auto-produção e que em 1969 passa a produzir outros artistas, que lança através de um dos dois selos que funda em regime micro-empresarial. Pela marca Straight (careta, quadrado, direito ou, bem a propósito tratando-se de Zappa, direto) bota na rua uma das mais antológicas produções do universo rock, o duplo LP Trout Mask Replica, de Captain Beefheart and the Magic Band - e pouco haverá de mais anti-straight que esses discos. E pelo selo Bizarre publica os seus próprios discos. Tudo distribuído pela Warner Records. Ao morrer, aos 53 anos, Zappa tinha produzido 69 discos próprios. A quase totalidade da sua própria lavra e safra.
Zappa was a composer and a extreme good salesman -
He tried to sidestep traditional distribution by doing mail order in areas where the stores refused to stock his music and succeeded - that used gravity of modern trends to profit in a way that he can afford do a compromise in between what he wanted (classic) and what he still resonates with (prog rock). - lido em
Frank Zappa - How Did That Get In Here? (Lumpy Gravy Orchestral Suite)

(é impossível levá-lo a serio porque parece que ele nunca está se - e nos - levando a sério) também é só maneira de dizer. Não fosse por outras coisas (e o que dizer então de outras coisas) A cada vez que a fera tira a guitarra do cavalete é um deus nos acuda e sem pensar nego se prostra de joelhos na direção de Meca.

 Em Inca Roads, abertura de One Size Fits All, inova ao inserir um solo de guitarra gravado previamente, sim - pinçado de uma apresentação em Helsinque. E quantas vezes parece que ele só faz as músicas para mandar ver na guitarra elétrica. E que guitarra toca o maestro autodidata e instrumentista que absorve sons de todo mundo. Literalmente. E é curioso: o desbravador dos limites - que em The Return of The Son of Monster Magnet, de Freak Out!, já cometia o desplante de propor uma aventura de música experimental eletroacústica de 12:17m, e cujas referências cruzadas vão de Varèse e Stravinski, música atonal, dodecafonia, rock modal e o mais poli(no sentido de tera)tonal que existiu - quando se trata de tocar guitarra não ultrapassa os "limites" da tradição do gênero entre o blues e o rock, como a querer dizer que grandes estilistas do instrumento já havia aos montes e com ele só lhe interessava mostrar QUANTO o sabia tocar. Muito. 

 
 

O self-taught musician, composer, blah, blah, blah... inclui o letrista ou chargista de imaginação desenfreada - suas charges ao capitalismo incluem um empreendedor que se imagina criando e fazendo grana com uma plantação de fio dental em Montana - e o vendedor da mercadoria de manufatura própria e até de terceiros, de que rapidamente desistiu de resto.

Um dos aspectos mais assinaláveis em Francesco Zappa é o sucesso do criador a partir do universo rock (como se fosse um "suporte" natural e meio de sustento possível) que nunca se rendeu (seria impossível) ao comércio da música e jamais produziu droga, embora muitas de suas faixas (inclusive Peaches in Regalia, de Hot Rats) até pudessem ter figurado sem grande motivo para espanto em paradas de sucesso. Nada mais antizappaeano, porém, e a grande maioria de suas letras não foi feita para tocar no rádio.

Zappa não cedia à facilidade e como se vê por exemplos como Lenny Bruce a sátira quando tem endereço certo só rende dissabores. Zappa fez 30 por 1ma linha (de fio dental?) para firmar contrato com a Verve para o lançamento do seu primeiro (duplo) álbum, conseguindo passar para trás o Velvet Underground (era um ou outro), que tinha o pistolão de Andy Warhol. Lou Reed nunca o perdoou por essa (e talvez por outras) e ao saber da sua morte comentou: Menos um cretino na face da Terra. 

... E O QUE ACOMPANHA?

Nunca se desligou ou dessintonizou de nada, interessando-se por todo e qualquer tipo de fenômeno apenas para ter mais um motivo de chacota. Seguiu altivo e criativo na sua sem nunca se render ao formalismo do que um dia chamou garni du jour - objetos de consumo (música ou o que for) "pelos quais as pessoas reforçam sua ideia sobre o que é o seu estilo de vida",

Incluiu entre "relevant quotes" num quadro do encarte de Freak Out! uma citação de um depoimento de Edgar Varèse de julho de 1921: O artista de hoje se recusa a morrer.

Incluiu o country-rock (em meados dos anos 1970) no rol das "guarnições do dia", mas executa-o (inclusive na guitarra) da melhor forma. Para que o escracho faça TODO o sentido.

We're only in it for the money...

 
 

Nenhum disco de Frank Zappa se limita ao que se convencionou chamar rock. Usa, conforme a conveniência, diferentes formatos sem jamais deixar de explorar - até por autogozação - todas as vertentes que possam surgir no ato da composição, em laboriosos contorcionismos em progressões - e reversões - harmônicas, pluritonalidades, reversões do fraseado (da capo a coda e da coda a capo) para chacoalhar os espíritos e mantê-los a consideráveis distâncias dos padrões "normais", "estabelecidos". Se rock, para des/acordar o rock e o ouvinte roqueiro e sair explorando - e acordar o roqueiro para - outras trans(a)tonalidades. Não embarca em - antes, apressa-se em satirizar - contestações teóricas e práticas ao Establishment, tendo embora sempre a cara delas e nunca a Dele. Autoproduz e lança discos em catadupa e um após o outro e todos muito acima da média, muitos (Hot Rats está entre as dezenas deles) clássicos instantâneos e quase sempre chocantes pela rapidez de mudança de "proposta" em relação à anterior. 

O espírito de achincalhe é tal que indo totalmente contra as regras de marketing sua discografia inclui Mothers, com gravações ao vivo no Fillmore East, Nova York, em junho de 1971, e Just Another Band From LA, com gravações ao vivo no Pauley Pavillion, Los Angeles, em agosto de 1971. São excertos do mesmo show que montara - mais uma soberba gozação - com Mark Volman e Howard Kaylan, que como The Turtles protagonizaram cinco anos antes um dos maiores estouros da música pop, Happy Together - presente no show e em Mothers, claro. Assim, temos o espetáculo inteiro em duas bolachinhas (hoje em dia). Conta-se que, pouco antes de sua morte em 1992, um engenheiro de som disse a Zappa que o público não iria comprar um disco com a quinta versão de Sharleena que pretendia lançar. Ao que ele ponderou: 

- Você não conhece os meus fãs. Claro que eles não irão comprar qualquer coisa que eu faça, mas eles adoram ouvir diferentes versões das músicas e sacar as diferenças.

Porque elas são muitas. Quase nem fazem lembrar as anteriores e pensar que possa haver mais alguma coisa TÃO diferente.

Faixas, músicas, peças são muitas vezes nitidamente pretextos para exercícios criativos, e nomeadamente para exercícios estilísticos com sua guitarra elétrica em torno de temas, tonalidades ou andamentos os mais (a)variados. E assim as letras que escreve para que as faixas, músicas, peças soem (apenas soem) mais de acordo com as regras, não raro revelando o jogo com apartes ou denunciando-o no próprio texto, como em Stink Foot, de Apostrophe, em que no final o cantor pergunta: ain't this boogie a mess? - mas depois de ter dado o seu recado guitarrístico naquele padrão. E não é de admirar que em ao menos metade delas letras, histórias, não façam nenhum sentido. Mesmo porque ele não tá a fim de enganar ninguém. Ain't no great revelation / but it wasn't too long..., esclarece e desculpa-se por ter tomado o precioso tempo do ouvinte com a balela em 50/50, de Overnite Sensation. Let's Turn The Water Turn Black, de We're Only In It For The Money, é uma absurda história sobre diarreia. Na charge ao "empreenditorialismo selvagem" capitalista, o cara sonha ser "um magnata do fio dental" e George Duke no coro no final da faixa emenda "um magnata do fio mental". 

              

 
 

 

O sucesso de Peaches In Regalia quando lançado em formato de videoclip na MTV 30 anos depois do seu lançamento como faixa de abertura de Hot Rats mostra a perenidade da prolífica, heterogênea e multifacetada obra de Francesco Zappa. Cada faixa do disco não tem nada a ver com a outra e essa peça orquestral ao estilo de big jazzband atualizada ao tempo das guitarras elétricas  muito menos com Willie the Pimp, sua primeira entre várias gozações ao hard rock, protagonizada pelo amigão de toda a carreira até então, desde quando tocava "em beer joints e passava muita fome", o primeiro e único Captain Beefheart.
A partir de então Mothers of Invention passa a ser uma força de expressão, determinada mais pelo hábito dos fãs que por uma necessidade de manter viva uma marca (nada mais antizappaeano - veja-se a própria obra legada). As Mothers de Collins, Black & Estrada ficam no passado e por duas ou três temporadas seu som será criado, salvo exceções, tendo em mente Ian - nas ditas madeiras - e a dita Ruth - marimba e vibrafone - Underwood, Ainsley Dumbar - bateria -, Don Preston - teclados - e Jim Pons - baixo -, alguns vindo já de aventuras anteriores. A pimenta (i.e. cereja) de mais um disco zappaeanamente heterogeníssimo fica por conta do emprego dos violinos elétricos ecléticos de Jean-Luc Ponty e Don
"Sugarcane" Harris, este também oriundo de digressões anteriores do patrão. Que até o violino se pode fazer suingar como um javali se alguém o souber dominar com maestria já se sabia por um certo Grappelli. Mas, para quem não o conhecia de gravações europeias e do próprio Jean-Luc Ponty plays Zappa (1970), o suingue demoníaco daquele gaulês louro como as manhãs da Provence fez nego se alourar de encanto. Jean-Luc era jazz-rock desde o berço mas talvez o rock nele esteja apenas pela ideia luminosa de ligar seu irmão gêmeo univitelino à corrente elétrica e detonar uma torrente que é certo que em carreira individual ele iria deixar por ali mesmo - as colaborações com F. Zappa (mas por coincidência logo pintaria como em alternância o patrício Didier Lockwood). A química entre Ponty e o boss nas sessões de Hot Rats foi tamanha que se estendeu em bis que atinge o paroxismo em Apostrophe, gravada com Jack Bruce (ex-companheiro de Eric Clapton - Are You Hung Up?, na abertura de We re Only In It For The Money - no Cream) e Jim Gordon (que não se pode dizer ex-companheiro de Clapton em Derek and The Dominos porque este foi uma fantasmagoria de Clapton) no disco homônimo. Em Apostrophe - uma bomba H de música elétrica - o violino do francês volta a suingar mais que a nega do leite.

                                                                                         

                                                                                    

francesco zappa 
contra o garni du jour 

francesco zappa 
contra o garni du jour
2

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