ciberzine & narrativas de james anhanguera 

   destrincha o pato à Beijing, ou xadrez, ou laqueado

                               

          2008 d.C. O Mundo

          finalmente acorda 

         para a emergência

         alimentar. Mas 

     Que mundo?

          Que emergência

         Que alimento?

Do caviar ao feijão com arroz (branco? preto?

integral?) ou feijão com farinha de mandioca

um universo de inguinorãça e hipocrisia separa 

a humanidade carente.               De comida? 

 Só de comida? 

Ou também de sapiência e vergonha na cara? 

                                                                                                                                                                                          

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dossiê  A Fome no Mundo e os Canibais e ANHANGUERA     PAPERS

  A FOME NO MUNDO E OS CANIBAIS                     

                                                 

                       

                        Afirma uma firma que o Brasil confirma:

                              ”Vamos substituir o Café pelo Aço”.

                   Vai ser duríssimo descondicionar o paladar.

                                                                            Cacaso

acaso                                                                                                                                                                            

                                                                                                   Este Admirável Mundo Louco - Ruth Rocha, 22ª impressão, ...   ilustrações Walter Ono

        

 A FOME  NO MUNDO E OS CANIBAIS

                   

    AFriCa AMériCA EuROPa                                                                     

nossos enviados reportam de três continentes as causas e consequências de duas emergências previstas para nostro domus Terra há milhares de luas, baseados no que vêem e no banco de dados revoluciomnibus

    em A FOME  NO MUNDO E OS CANIBAIS

      huxley na fome do mundo

     CRISE 2008 DE CRACK EM CRACK A COMANDITA ENCHE O PAPO

                                                   

      ALIMENTAÇÃO      ENERGIA

     GUERRA      E      PAZ

 

  Come sono buoni i bianchi

 

A INDÚSTRIA DA SECA

                   

A FOME  NO MUNDO E OS CANIBAIS

Dossiê A Fome No Mundo e os Canibais revoluciomnibus.com

     Huxley na Fome do Mundo

               

    A Fome no Mundo e os Canibais

                   

Armas nucleares, Guerra Fria e superpopulação são novos ou antigos problemas que anteviu transformando a vida em um pesadelo e que abordou em Regresso ao Admirável Mundo Novo, coletânea de ensaios publicada em 1958. 

Huxley protesta contra o peso crescente do poder corporativo no aparelho de Estado e da publicidade e da propaganda política sobre a população através dos meios de comunicação de massa e o uso de tranquilizantes.

Uns exercem a função da hipnopédia (método educacional eletrônico), outros o do soma de Admirável Mundo Novo.

Num universo dominado por ‘jingles’ publicitários os homens perdem toda a noção de liberdade e individualidade e tornam-se presas de prazeres voláteis.

Dêem-me hambúrgueres e televisão e não me encham a paciência com as responsabilidades da liberdade é o lema comum, segundo Huxley, que insiste em propostas para a melhoria das condições de vida através de reformas políticas tendentes a uma descentralização do poder rumo a um auto-governo responsável através de grupos de representação política direta que teriam por princípios básicos a não-violência e a ‘resistência à guerra’.

Em tempos de macartismo Washington não lhe concedeu cidadania americana por ser um notório adversário do Estado corporativista, dos arsenais nucleares e do consumismo.

A militância em prol dos psicodélicos lhe terá custado o Nobel. Mas em 1959 a Academia Americana de Artes e Literatura atribuiu-lhe o Prêmio do Mérito do Romance.

Em fevereiro de 1959 Huxley realizou na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara uma série de conferências subordinadas ao tema A Situação Humana, em que abordava os problemas ecológicos de uma perspectiva inovadora, em que o homem não permanece do lado de fora da natureza, observando-a ou danificando-a, mas integrado a ela, em conformidade com os princípios do hinduísmo e do budismo e com a ‘nova visão’ adquirida através das experiências extra-sensoriais.   

Morre Gandhi durante a realização do filme-livro e Huxley insere um depoimento sobre o antiherói da não-violência: ‘Matamo-lo porque, depois de por breve (e fatal) período de tempo ter jogado o jogo político, recusara-se a continuar sonhando o nosso sonho de ordem nacional, de beleza social e econômica; porque tentara chamar-nos aos fatos concretos e cósmicos dos povos autênticos e à luz interior.’

                    

AVISO AOS NAVEGANTES
MUITOS DADOS CONTIDOS NESTA PÁGINA SÃO INÉDITOS EM LÍNGUA PORTUGUESA

James Anhanguera 2005-2010 com algumas atualizações posteriores

Como relator de um simpósio sobre drogas psicodélicas realizado em Atlantic City no congresso da Associação Americana de Psiquiatria de 1955, Huxley falou quase da mesma forma dos jovens de uma nação bem alimentada mas metafisicamente famintos, em busca de visões beatíficas no único caminho que conhecem, o das drogas

Eles não explicam melhor e não dizem que o mal é de raiz. Qualquer bebê sabe.
Só que desaprende. Aprende a não ver por não querer. Ou porque se tornou incapaz de ver, ok.

    As extraordinárias erudição e inteligência do autor e a atualidade da sua obra são os tópicos das alusões dos mais velhos menos ranzinzas e dogmáticos a Aldous Huxley hoje em dia.

    O que mais poderia desejar um romancista e ensaísta morto vai para meio século, que anteviu em Admirável Mundo Novo (Brave New World) e A Ilha muitos aspectos da realidade política e ambiental contemporânea em suas facetas mais macabras ou utópicas que com o mundo em pé de guerras de toda a desordem é lembrado pelo seu pacifismo incondicional e o pensador que em As Portas da Percepção e Céu e Inferno e obra sucessiva como articulista e palestrante até A Ilha e Experiência Visionária preconizou um mundo em que as drogas sirvam para a promoção do Bem como ferramenta auxiliar do desenvolvimento humano e talvez mal teve tempo e dados para imaginar o clima de Flagelo que se promoveu com a massificação do seu uso no Ocidente.
 

He was an early voice in the ecological movement, wich gathered pace after his death. he warned against the danger of nuclear weapons, over-pop, exhaustion of world's natural resources, militarism and destructive nationalism.
      scrisse uno dei primi tratati di ecologia che ancora adesso inspira i gruppi verdi americani


            Na alvorada da segunda revolução industrial - de que a Primeira Guerra Mundial fora um campo de experiências avançadas - e dos meios de comunicação de massa Huxley teve a coragem de pôr um pauzinho na engrenagem da linha de montagem e alertar against soul-less technology e os danos da vulgaridade e perversidade da cultura de massas na era da reppppprodutibilidade, os efeitos corrosivos do consumer capitalism e da lavagem cerebral das máquinas de propaganda e publicidade, que passaram a estar também no centro das reflexões do pessoal da Escola de Frankfurt seu contemporâneo.
            Henry Ford, Our Ford em Brave New World, personifica o que de pior pode representar o peso do poder corporativo sobre os Estados, em que os governantes são paus-mandados e as Nações uma megaldeia feudal dos novos Grandes Piratas (Buckminster Fuller), o perigo da BIG ENTERPRISE DICTATORSHIP que hoje a cada momento gera PÂNICO GLOBAL e faz da vida sob o seu Sistema uma montanha russa, de crack em crack e cratapack.
            - E como é que vamos sair de mais esta? E como é que vamos sair desta? - é o que ele também sempre se perguntava from respectable agnosticism to bizarre religious and pseudo-sciences escrutinando from the meaninglessness in life to the meaning of existence, understood the power of hidden persuasion, the techniques of mass-suggestion tendo chegado a algumas respostas - "ingênuas", "patéticas", utópicas - é bom de ver.Se teve influência transcendental no que aconteceria nos anos 1960 e suas análises são pertinentes até hoje neste mundo tudo somado ao mesmo tempo também contraculturalizado e psicodelizado isso vem láaaa de trás, da revolta antipuritana, com Joyce, Virginia Woolf, D.H. Lawrence que escandalizam pela recusa da grande hipocrisia da sociedade em que vivem, transformando a angústia existencial do pós-guerra em reação indignada contra um mundo cada vez mais tecnicista e impessoal.
          Seus primeiros livros exprimem as fraquezas e desilusões da "geração perdida". Antic Hay, o segundo, fala da sovrapopolazione, tema caro ao autor, que será retomado em Brave New World, Ends and Means, Brave New World Revisited... e faz já análises corrosivas do papel da propaganda publicitária no mundo moderno, a incidir sobre os medos e fraquezas do consumidor: quem não consome é diferente e estranho à maioria. Em Brave New World a fé no progresso científico e materialista é ridicularizada.
    Over-pop, superpopulação, biogenética e clonagem, alimentação, ENVIRONMENT, degradação do meio ambiente - BNW Revisited.
          DESTACA-SE entre muitos outros o SEU IMPULSO ENTUSIÁSTICO NA BUSCA DE NOVAS FONTES DE ENERGIA ORIENTADAS PARA A SUPERAÇÃO DA INÉRCIA SOCIAL E PSICOLÓGICA DO HOMEM, como a expansão da consciência para exploração do "potencial humano".
        BUSCA DE NOVAS FONTES DE ENERGIA ORIENTADAS PARA A SUPERAÇÃO DA INÉRCIA SOCIAL E PSICOLÓGICA DO HOMEM agora.
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expansão da percepção sensorial para o desenvolvimento mental, da consciência, da inteligência
 

 

 

 

 

 

The Art of Seeing

 

 

      Acometido de cegueira na adolescência por uma inflamação na córnea (ceratite - keratitis punctata) corre a aprender Braille. A cegueira foi passageira (durou 18 meses). Fosse pelo resto da vida, ela não lhe tolheria os meios de satisfazer o apetite insaciável por leitura e conhecimento - sobre o que quer que fosse.
His chronically poor eyesight (near blindness) is indicated by the magnification of his eyes.
            Foi talvez o seu chronically poor eyesight (near blindness) que o levou a magnificar a sua visão do Mundo, como se o míope fosse capaz de ver melhor que o são das vistas.
    I HAVE ALWAYS FELT A POWERFUL CRAVING FOR LIGHT
... HIS ETERNAL QUEST FOR LIGHT AND TRUTH - WANTED TO SEE EVERYTHING HE COULD, WEATHER REAL OR NOT
    Through the spetacle lenses
            Quando toma conhecimento do método de reeducação visual do médico W.H.Bates, que dispensa o uso de óculos, corre aos Estados Unidos. Publica depois The Art of Seeing: o míope (e)vidente que queria ver tudo. A arte de ver. Quem mais se lembraria disso?
    REGARDER DIEU EN FACE

            O que há a fazer? Antes de tudo defender a liberdade. De ação. E de pensamento - é uma das mensagens de Ends and Means/Fins e Meios.
         Uma das vertentes básicas das suas conjecturas é a idéia de que inteligência é passível de desenvolvimento com substâncias psicoativas SE PRECISO. Com elas uma elite esclarecida poderia eventualmente influenciar as massas endogeneizadas... a ver com olhos livres, como propôs o modernista brasileiro Oswald de Andrade, a utopia de A Ilha, em que ele mesmo não insistiu, rendendo-se no final ao pressuposto de que sempre haverá um trust para atrapalhar porque o desígnio, a conditio sine qua non da condição humana é essa mesmo: consumir e destruir até ver o fundo do tacho.
            E tudo o resto - muito do que escreveu - torna-se TABU.
            O economista CELSO FURTADO, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em 5 DE JUNHO DE 1994, 36 anos após a publicação de Regresso ao Admirável Mundo Novo, parece falar pela sua boca falando afinal do mesmo:
            Vemos a televisão no Brasil fazer um barulho tão grande com o futebol. Por que não faz um barulho tão grande com a miséria, para mobilizar a população para lutar contra a miséria? É PRECISO USAR A IMAGINAÇÃO PARA SE ATINGIR UM TIPO DE DESENVOLVIMENTO QUE SEJA CAPAZ DE DESENVOLVER O HOMEM COM SUAS POTENCIALIDADES E FAZER DO HOMEM AQUILO QUE ELE QUER SER, PARTE PRODUTIVA E INTEGRANTE DA COMUNIDADE.
            Tudo e todas as questões assentam numa premissa básica, para Aldous Huxley: educação.
            Em um dos ensaios de Ends and Means, de 1937, afirma que a escola deve desenvolver o senso crítico dos alunos e não ser um curso preparatório de escravidão intelectual em que a pedagogia é mera ferramenta de educação de robôs para a nova desordem mundial. Mas acima de tudo o mundo - a dois anos de novo conflito mundial mas já com a Europa conflagrada - carece de uma mudança de mentalidade e no plano da ética: os fins nunca justificam os meios, clama no deserto da Europa dos Ditadores.
            Vinte anos depois, em Regresso ao Admirável Mundo Novo, alude a uma educação que ensinasse as pessoas to see beyond the easy slogans, efficient ends and anesthetic influences of propaganda a ver além dos slogans fáceis, objetivos eficientes e influências anestésicas da propaganda.
            Talvez as forças que agora ameaçam a liberdade sejam fortes demais para que se lhes possa resistir por muito tempo - pondera, mas sem que isso o leve à idéia de rendição súbita e incondicional:
            É ainda nosso dever fazer qualquer coisa para resistir a elas.
           A educação, ensina, é apenas uma peça da engrenagem, porque lá adiante
os vendedores de política apelam para as fraquezas dos eleitores, não para a sua força potencial.
            Educação e desenvolvimento humano, individual e coletivo - e num sentido lato, que é o que dá sentido a educação e desenvolvimento.  Porque somente com a noção da sua Essência o homem pode deixar de ser muitos macacos - versos de P.B.Shelley que põe na boca de Alfred Poole, professor de Ciências Naturais em O Macaco e a Essência.
            Eis o eixo das preocupações e propostas do estudioso e pensador, que ajudou a lançar as bases de uma estratégia de melhoria da condição humana - from the meaninglessness in life to the meaning of existence - que ainda não foi devidamente compreendida, e menos ainda aplicada.
            A questão da fome e da alimentação, que o sociólogo e teórico político aborda nos seus textos sobre economia e demografia, está também presente nos ensaios em que o objeto de estudo é a superação da condição humana pela via do espírito e em que expõe o próprio apetite insaciável pela cosidetta soul food.
            Do agnosticismo à busca da CLEARLIGHT OF THE VOID, Huxley sempre foi um crente a quem a experiência da vida obrigou a ver o mundo pelas lentes da desilusão e do desencanto, ou mesmo ceticismo. O que de todo modo não o impede de insistir até o fim em suas propostas, ainda que CRENTE da sua inviabilidade.
            1958. July to August travels to Peru and Brazil. Viaja ao Brasil convidado pelo seu ministério das relações exteriores. Mas o que o levou a Iquitos, nas lonjuras dos contrafortes dos Andes? Mentes mais especuladoras interrogam-se sobre se não teria ido em busca do composto ayahuasca, embora não haja qualquer indício disso em seus escritos e nos dos seus biógrafos.
            A viagem ao Brasil mostra-nos o homem maduro em plena ebulição, como sempre sem querer dar trégua à cabeça e ao corpo. Fez questão de ir ao Xingu. Foi acompanhado do escritor Antônio Callado (Quarup) e não deixou Cláudio Vilas Boas dormir. Quis inteirar-se de TUDO. Em outro passo, fez-se sozinho a Recife para visitar um ex-colega do irmão Julian na Universidade de Oxford, Gilberto Freyre, no Solar de Apipucos.

     

        Aldous Huxley no Rio de Janeiro. banco de dados revoluciomnibus.com Foto O Globo, Agosto de 1958


            Huxley e Brasil estão também conectados através de um outro pioneiro no estudo de Geografia Humana e Alimentação, Josué de Castro, que foi diretor-geral da FAO (Food and Agriculture Organization), e do pedagogo Anísio Teixeira, assessor de Julian Huxley quando o irmão mais velho de Aldous H. dirigiu a Unesco, organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura. Por sinal dois proscritos da ditadura militar brasileira de 1964-85 por lutarem pela melhoria da condição humana numa sociedade de proscritos - como ele quase, quase foi proscrito do Establishment literário pelos "desvios" que o status quo intelectual nunca lhe perdoou.

            

            A América não é mais a mesma do imediato pós-guerra e se, apesar da estatura física e intelectual, a máquina conseguisse tirar uma sua foto de corpo inteiro o que se nos revelaria, por incrível que pareça, seria um jovem escritor de origem inglesa mas decididamente americanizado, com uma visão também americana da vida e do mundo. Ou por que não, para resumir e indo à essência dos fatos, um jovem escritor americano - sendo isto precisamente o que mais se lhe recrimina nos meios intelectuais ingleses: ter-se deixado ficar na América e deixado que ela lhe desse a volta à cabeça. O gentleman aristocrático inglês de quatro costados não poderia ser um rock’n’roller mas é já decididamente beat pela forma como escreve e fala para uma América em convulsão, cuja população mais jovem já não quer mais saber apenas e só de subir na vida, realizar-se financeiramente e viver o grande sonho dos solitários subúrbios arborizados da prosperidade material, o que é patente também no livro de poemas Howl, de Allen Ginsberg, que pela turbulência e contundência da linguagem foi alvo de um clamoroso processo judicial.
            Como relator de um simpósio sobre drogas psicodélicas realizado em Atlantic City no congresso da Associação Americana de Psiquiatria de 1955, Huxley falou quase da mesma forma dos jovens de uma nação bem alimentada mas metafisicamente famintos, em busca de visões beatíficas no único caminho que conhecem, o das drogas, e como James Dean, um dos ícones da era, mas obviamente muito mais articulado, fez questão de lembrar aos adultos que o mundo verdadeiro é muito diferente do universo deformado que criaram para si mesmos através de preconceitos condicionados pela sua cultura. Como que possuído por um permanente espírito de contradição, e tal como nos ruidosos anos 20, o míope Huxley teima em enxergar além das aparências de bem-estar de progresso e paz do pós-guerra de guerras na Indochina e macartismo e alertar para cada aspecto negativo da falta de planejamento do desenvolvimento industrial. É um dos arautos da crescente onda de rebeldia contra os mesmos valores caducos, ainda que de feições alteradas, que combateu na juventude.

                                                                                                             

   ETICA, AMBIÇÃO E ECONOMIA - DINHEIRO, GANÂNCIA, TECNOLOGIA bolhas de irracionalidade financeira

              Até hoje, quando pareceria esquecido e embrenhado nas brumas do tempo e, quando lembrado, é também para o acusarem de ter sido o estopim de um movimento de contestação política e social que querem relegar aos escaninhos de um passado como num arquivo morto ou DEAD FILE.
Até numa publicação que se pega por acaso numa pilha da sala de espera do consultório para passar o tempo - Revista IBEF Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (!), Número 17, 2008 - fala-se como que pela sua boca naqueles tempos:
            "Por ganância, a especulação tomou conta dos mercados de capitais provocando efeitos devastadores [e] mesmo nos Estados Unidos cresce neste momento a legião dos famintos, dos marginais, dos loucos e desesperados. (...) Por ganância, o plantio e a industrialização de alimentos [Os] mantêm impregnados dos mais tóxicos componentes químicos (...). Por ganância, os projetos de energia solar, eólica e outras renováveis e limpas permanecem em banho-maria enquanto os lobbies da indústria fóssil fervilham pelos congressos. {...} Fomos educados para o egoísmo, para a mensuração de nosso potencial através do sucesso individual. Essa perspectiva nos coloca um cabresto na consciência, limitando nossa visão e emburrecendo nossas possibilidades de contribuir com o todo. Quem ultrapassa os limites do que é justo está apenas vitimado por essa síndrome do não-ver. Precisa e merece ser despertado, libertado desse medo do fracasso, dessa ilusão de que é possível ser feliz sozinho." (Christina Carvalho Pinto, presidente do Grupo Full Jazz de Comunicação e líder da plataforma multimídia Mercado Ético).
            Trata-se aqui, sim, de alimento em espécie - commodity, mercadoria, comodidades... - mas também do alimento da alma, que não tem valor de mercado. De um mundo que por hipótese até fosse bem alimentado e que ainda assim seria metafisicamente faminto, porque orientado apenas para o consumo. Como a educação tal como a pensava Aldous Huxley, hoje totalmente anacrônica ou apenas cogitada por doidinhos como essa Chris ou este revoluciomnibus, já que a regra de base, segundo os ESPECI ALISTAS é a que reza pela cartilha de que "novas formas de ensino acadêmico são cada vez mais próximas de uma preparação adequada para o mercado de trabalho" - e pensar de outra forma É SUICÍDIO.
            Agora - "novas formas"?!
 

   ETICA, AMBIÇÃO E ECONOMIA - DINHEIRO, GANÂNCIA, TECNOLOGIA

bolhas de irracionalidade financeira


"Dinheiro, ganância, tecnologia", Norman Gall, diretor executivo do Instituto Fernand Braudel in Braudel Papers
 

Nessas horas - o "novo 11 de setembro", "a maior crise econômica dos últimos 80 anos" -, quando como soe dizer-se a porca torce o rabo, finge-se uma caída em si
e brada-se ao primarismo mamífero em que se baseia o Sistema, como se a razão de ser de tudo não fosse o que makes the world go around e o resto são favas contadas e cantadas em prosa e verso. Vai ser difícil descondicionar o paladar...

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           UM MODELO PARA O SÉCULO

            Aos 58 anos o escritor inglês Aldous Huxley, um dos mais famosos e respeitados intelectuais do seu tempo, experimenta pela primeira vez uma droga enteogênia, a mescalina. Menos de um ano depois publica um ensaio sobre a experiência em que reflete uma mudança radical de opinião sobre o consumo de drogas em relação à que expusera no trabalho anterior.
            As Portas da Percepção foi publicado em fevereiro de 1954, um ano após o lançamento do ensaio Os Demônios de Loudon, que trata de um caso de possessão demoníaca de freiras de um convento francês no século XVII. No posfácio do livro Huxley critica a indulgência de ‘moralistas e legisladores’ com o uso de drogas lícitas ou ilícitas, que classifica indiscriminadamente de ‘venenos’ que levam os que as usam à auto-transcendência mas também à ‘estrada descendente’, causando-lhes ‘desconforto, dependência, degeneração e morte prematura’.
            O posfácio de Os Demônios baseia-se no mesmo tipo de argumentos até hoje usados por formadores de opinião hipócritas ou ignorantes dos efeitos de muitas drogas no ser humano, mas é o ponto de partida de um notável testemunho da mudança de conceitos que a experiência pode operar numa cabeça livre, aberta e despreconceituosa quando se depara não com o mal antevisto mas com um elemento capaz de contribuir para o bem-estar individual e coletivo.

            Três meses após a publicação de Os Demônios, quando a experimenta e apressa-se a escrever um ensaio a propósito, Huxley sustenta que a mescalina é ‘a mais extraordinária e significativa experiência de que o ser humano dispõe deste lado da Visão Beatífica’ porque aponta para ‘um grande número de problemas filosóficos, ilumina intensamente e levanta toda a espécie de questões nos campos da estética, religião, teoria do conhecimento’.
            O místico frustrado, que por quase duas décadas procurara em vão a Iluminação através da ascese mística e do ocultismo, diz ter finalmente chegado ‘à contemplação no seu ponto mais alto’, ainda que ‘não na sua total integridade’. A mescalina poderá não levar à Iluminação ou Visão Beatífica que buscava mas é ‘uma experiência de valor inestimável para todos e especialmente para o intelectual’, considera.
            Huxley passa a estabelecer uma clara distinção entre drogas causadoras de dependência e as não-tóxicas e potencialmente benéficas, por possibilitarem uma maior compreensão do significado da existência.
            Publicado dois anos depois, Céu e Inferno, como afirma na sua nota introdutória, é uma tentativa de sistematizar os resultados da ‘nova compreensão’ das questões sobre que se debruçava desde a sua reviravolta existencial na década de 30, quando abandonou o racionalismo da juventude e iniciou a busca de uma explicação da vida através do misticismo e das chamadas ciências ocultas, e a que diz ter chegado através das drogas psicodélicas.
            Situando-se nos antípodas da opinião expressa no posfácio de Os Demônios de Loudon a tese dos dois ensaios é a prova conclusiva de que Huxley foi um dos homens mais livres, corajosos e inteligentes do seu tempo. A ponto de ao ingressar na terceira idade e esboçar uma nova inversão de rota não temer pela reputação construída ao longo de três décadas como um dos mais brilhantes intelectuais do século XX e passar a ser visto como um louco visionário.



Rumo às ilhas da Utopia - Da Teoria à Prática
Ou Vice-Versa
apêndice de  
  
 Trechos

            De uma das ilhas da utopia, a nossa ilha dos tesouros, qual Mr. Livingstone da mente no alvorecer da era cósmica, o infatigável Aldous Huxley partiu para uma longa jornada vida fora ao redor do mundo e dos mundos.
            A terra da dama elétrica e a ilha envolta pelo nevoeiro imaginada pela dama eletroacústica são a ilha do visionário do Surrey, a utopia que se pode captar em sobrevôos psicodélicos, por exemplo, mas não viver em pleno, porque imaterializável – sonho de Atlântidas, Ítacas, Utopias, Lilliputs, Nações de Woodstock; fantasia da terra do nunca, talvez a maior das sonhadas pelo homem; o paraíso em vida, dentro de nós e em tudo ao redor.
            Sua trajetória compõe uma das histórias mais fascinantes do século XX – do racionalismo científico e da revolta contra o espartilho moral vitoriano à consciência cósmica e à defesa da abolição da distinção entre ‘alta’ e ‘baixa’ cultura no Ocidente, ou da prevalência qualitativa de uma sobre a outra, e a proposta de irmanamento delas com outras culturas numa contracultura pro natura, ou filosofia perene. Talvez a história do século de todas as revoluções.
            Um modelo de postura existencial, capacidade de análise e sentido crítico para o século 21.
   
...
                           NOTA DE EDITOR
  
            O editor, a este ponto, tende a mandar o apêndice para a lixeira. Quem irá querer ler hoje sobre a trajetória de um obscuro escritor do século 20 ou sobre os bastidores de uma série de eventos rockambolescos de há meio século, quarenta anos atrás?
        Mas o autor, que parece mais um médium do seu narrador, banca argumentos de peso.
          Diz que até agora a segunda parte da trajetória de Huxley, muito mais polêmica que a primeira, só foi contada em dois ou três compêndios com a história do uso de drogas e da sua explosão na década de 1960.
            Que entre os cronistas literários há até quem reduza toda essa trajetória a duas penadas críticas. Mostrou-me um recorte de jornal em que um deles afirma que dos 47 livros que deixou cerca de metade foi escrita em Hollywood e que pouca coisa se salva desse período.
           Segundo o autor, tal como tantas outras, essa atitude deve-se apenas ao que chama de parti-pris (coisa de escritores muito lidos e viajados). Quer ele dizer que eles partem de preconceitos contra a virada existencial do autor inglês, porque segundo eles Huxley foi um dos grandes responsáveis pela onda insana – e para ele, o autor deste livro, insanável – do relativismo cultural.
            Mandou-me e-mail que diz o seguinte:
            Há entre os culturalistas da velhíssima guarda (não o são todos?), que já era velhíssima no meu tempo, quando de repente eles ainda nem tinham nascido, quem talvez até exagere em elogios à sua enorme erudição e inteligência.
            Em quem acreditar então? Nos que relevam sua literatura sobre drogas, distinguindo o seu relacionamento com elas dos da maioria dos usuários porque sua abordagem delas tinha objetivos sérios, científicos, e não para se divertir, ou os que pensam que só escreveu bons livros na primeira metade da carreira? Não será então de supor que também em relação a Huxley a verdade possa estar no meio e encará-lo como um dos melhores cronistas e modelos do seu – e porque em muitos aspectos ainda é atual, do nosso – tempo? Regresso ao Admirável Mundo Novo chato?! Pois não. Mas talvez tão chato quanto a grande maioria dos ensaios, a que um leitor se submete sabendo de antemão que é sobretudo para aprender alguma coisa com uma suposta autoridade num determinado assunto. Ou vários – múltiplos, como é o seu caso.
            E quantas vezes um leitor não se entrega a autênticos bichos caretas só pelo seu estilo – pela graça com que escrevem esdruxulices.
            Sobre a trajetória de Huxley do berço racionalista à caverna de Platão e à tresloucada utopia – que entretanto, porque não é louco, e se há uma coisa em que se destaca é a de sempre que abraça novas perspectivas nunca deixar de ter os pés bem assentes no planeta em que vive, risca do mapa conjetural com uma bela invasão bélica do seu jardim de delícias:
            Bem vistas as coisas (e isso me parece por demais evidente) não houve uma virada, no sentido de uma ruptura abrupta, em sua vida, mas uma evolução harmônica própria de um ser altamente inteligente e culto de um tipo de visão de certas coisas fundamentais a outro sem que uma ofuscasse completamente a outra. Senão vejamos.
            Escreve em sequência, primeiro - recém-chegado à América -, sobre um magnata da imprensa que à época é e o nec plus ultra do controle da informação e o star system  de Hollywood que fora obrigado a encarar para sobreviver como roteirista. Dá de bandeja a Orson Welles o roteiro de um dos melhores filmes da história. Durante a guerra reflete sobre o segundo grande confronto bélico mundial a que assiste à distância em duas décadas e lê e escreve sobre o que chamou de filósofos perenes. Depois sobre o belicismo e seus efeitos. Em seguida sobre a hierarquia de uma religião pecaminosa que se confunde com o sistema e seus desvios via nomeadamente supostas possessões demoníacas, o que o faz refletir também sobre a busca da transcendência através das drogas. Que encara com preconceito até experimentá-las, quando aí sim procede a uma virada de ponta cabeça mas só em relação a esse ponto, porque logo em seguida aos dois livros sobre a matéria (e que vão muito além dela, de forma esplêndida) publica Regresso ao Admirável Mundo Novo. Que seja o que for me parece até hoje obrigatório quanto mais não seja por conter a súmula do dever de casa que a humanidade deixou de fazer neste meio século, padecendo por consequência do agravamento dos problemas que ele abordava há cinco décadas.
            Enfim, publica A Ilha mas pouco antes de fazer o último trip põe o ponto final num ensaio sobre Shakespeare, e suas famosas últimas palavras, Shakespeare e a Religião, são tidas como de altíssimo nível por muito anti-relativista velho-padrão, nomeadamente um tal que com bom humor desconsidera os devaneios psicodélicos do intelectual, que todavia escreve em seu último trabalho publicado em vida um tratado em defesa da aplicação do uso de determinadas drogas num trabalho de desenvolvimento humano, individual e coletivo.
            Huxley é um – e não o – modelo do século passado e deste início de século sobretudo por ser um dos melhores espelhos refletores das nossas contradições de sempre. E seria curioso ver até onde irá esse sempre. Se nos extinguiremos já ali na esquina pelo superaquecimento global ou se sobreviveremos em guerra e paz aqui e guerra e paz acolá por mais algum tempo.
            O que se depreende do discurso anti-relativista é que um cara como Huxley incomoda muito porque seu dedo, ó, continua lá cutucando as feridas. Que são as mesmas de sempre, talvez só muito maiores.
           Contar sua trajetória enquadrando-a na do século 20, como faz o meu narrador, é importante porque ela desemboca, ele já morto, nas diatribes de há 40 anos, que felizmente deixaram muitas e muito boas histórias e lições.           
 
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  Do Inferno às Portas do Céu

      guia à leitura de As Portas da Percepção e Céu e Inferno
                             The Doors of Perception    Heaven and Hell


O progresso é a realização das utopias
- Oscar Wilde
notas de leitura de Brave New World - Admirável Mundo Novo
leituras associadas: Utopia, de Thomas Morus (More) e Viagens de Gulliver, Jonathan Swift


            Admirável Mundo Novo foi publicado no ano 17 depois de Ford, pelo calendário criado por Aldous Huxley no romance de 1932 - dezessete anos depois de Henry Ford ter lançado a primeira linha de montagem de fabricação em série dos automóveis Ford modelo T, o Ano Zero do mundo imaginado pelo autor.
            Huxley situa a ação em LONDRES mais de seis séculos depois.
            Os habitantes da cidade, então capital da Europa Ocidental, sabem que o sistema social e político em que vivem nasceu dos escombros de uma guerra de nove anos. Após o conflito mais arrasador da história da humanidade os líderes políticos concluíram que era preciso recomeçar tudo do Zero.
            Foram de tal modo radicais nas reformas que os homens passaram a ser gerados em proveta e concebidos para exercer funções específicas, dependendo das castas para que são programados: dos Alfas, no escalão mais alto, aos Ipisilones, no mais baixo.
            A memória da vida antes da era Ford foi apagada. Os habitantes de Londres no ano 632 d.F. têm apenas consciência do que é necessário para exercer funções sócio-profissionais pré-determinadas, de cujas regras são informados enquanto dormem através de um processo eletrônico chamado hipnopédia.
Hipnopédia – o sistema educacional do Mundo Novo.
            Concebidos em proveta, eles não têm família. A família é uma das instituições abolidas pelo sistema nascido dos escombros do conflito quase terminal. Com o susto os dirigentes tomaram consciência de que era preciso antes de tudo evitar que isso aconteça de novo. E apagam da memória a história do próprio conflito e do mundo.
            ‘A história é uma trapaça’, diz a um dado ponto de Admirável Mundo Novo o mais alto representante da lei e da ordem da Europa Ocidental.
            Huxley glosava e gozava de Henry Ford, que disse numa entrevista: ‘A história é mais ou menos uma trapaça’.
            O Admirável Mundo Novo aboliu história, cultura, família, religião e sentimentos para cortar todos os males pela raiz.
            Quando os homens da Era Ford não se sentem bem tomam SOMA, um composto sintético que como por milagre – mas os humanos a essa altura não têm noção de que tal coisa possa existir – instantaneamente os faz esquecer a má onda e ficar numa boa, ou dormir.
            ‘Um centímetro cúbico cura dez sensações de abatimento. Não se poupou esforços para tornar as vossas vidas mais fáceis do ponto de vista emocional, para se evitar na medida do possível que tenham qualquer tipo de emoções’ – informa o Controlador Residente da Europa Ocidental.
            Soma é a droga oficial do mundo na Era Ford. Neutralizador de maus pensamentos, apaziguador social e catalisador de boas vibrações, que faz com que tudo se mantenha na mais perfeita ordem social e a guerra seja apenas mais uma das instituições malignas abolidas pela já não tão nova ordem mundial. Ordem alicerçada num poder central, o Governo Mundial, e dez Controladores regionais, que no regime sob a égide de uma espécie de deus pagão, o Nosso Senhor Ford (Our Ford), limitam-se a vigiar o cumprimento das leis, sem jamais questioná-las. Membros da elite Alfa, são servis e obedientes como os da categoria mais baixa, a dos Ipsilons que trabalham como ascensoristas, num sistema em que tudo é sacrificado em nome da Comunidade, da Identidade e da Estabilidade.

            Alguma semelhança com o mundo no ano 90 d.F.?
           Alguma, sim. Vivemos sob a égide de um Governo Mundial com uma dezena, se tanto, de mandatários servis e obedientes aos seus princípios, entre os quais o de que todo o sacrifício da população é pouco para manter a Estabilidade da desordem política e econômica vigente.
            Alguma diferença?
            Sim. Ainda estamos em guerras.
            E o Prozac – por exemplo - ainda não é uma droga ‘oficial’ e de uso compulsivo para temperar os maus sentimentos ou pressentimentos das populações.
            No início do século I d.F. estamos ainda a um pequeno passo do admirável mundo novo: uma guerra (química? nuclear?) de consequências inimagináveis e que nos levaria inapelavelmente a começar tudo de novo, se tal fosse ainda possível.
            De preferência, não no mundo do Admirável Mundo Novo. Brave New World.

            À época em que escreve o romance Aldous Huxley é um sátiro da sociedade do seu tempo. De admirável o seu mundo imaginário – uma utopia, ou melhor, a anti-utopia - tem todas as maravilhas da tecnologia mesmo para estes tempos incomparavelmente mais modernos, a mais de meio milênio de quando nos fala: a droga modelada em laboratório que em tudo a todos apazigua e mesmo os feelies, o cinema virtual com que começamos a ter contato através da informática. Mas a esse mundo falta tudo o que nos é mais caro: SENTIMENTOS e pequeninos tesouros como LIVROS.
            Aldous Huxley é obcecado por leitura e livros, como os que o Controlador da Europa Ocidental, Mustafá Mond, conseguiu usurpar dos arquivos secretos do Governo Mundial e consulta à sucapa, às escondidas da própria consciência, como uma certa personagem de Ray Bradbury no romance Fahreinheit 451, um sucedâneo de Brave New World.

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SOBRE PROIBIÇÃO DE LIVROS EM DITADURAS

trecho do capítulo     Medo atraso e rock no grotão     de   

    De Farenheit 451, o filme de François Truffaut, um crítico não pode sequer enunciar o tema, por tratar precisamente de um dos aspectos tenebrosos do que aqui se vive, não na evocação de um passado recente e como hipótese num futuro próximo, como no filme e no conto de Bradbury, mas num presente ultrapassado, nos dois sentidos.
    - Antigamente os bombeiros não serviam para apagar fogos, em vez de queimar livros? – pergunta candidamente uma personagem ao ‘bombeiro’, que entretanto os tem bem escondidos em casa para lê-los às escondidas da própria mulher.

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            Dizemos às escondidas da própria consciência porque Mond não é um autômato perfeito. Mantém uma pitada de humanismo inculcado-lhe no caráter por erro laboratorial durante a sua gestação in vitro.
            Em Admirável Mundo Novo Huxley lança um alerta de visionário e destila o seu já proverbial humor sardônico de jovem leão irado das letras britânicas.
            Irreverente como nenhum outro face aos valores e instituições do decadente Império Britânico e pessimista quanto ao futuro do mundo, que antevia um planeta de autômatos homogeneizados pelo processo de americanização iniciado durante a I Guerra Mundial.
            O admirável mundo novo não tem nada de utópico no sentido literal do termo, cunhado por um certo homem de muita fé cristã - ao ponto de submeter-se à autoflagelação - no século XVI.
            Pelo próprio título a conjurar a fina ironia inglesa, o livro é o oposto do que pretensamente enuncia, versando sobre a anti-utopia e calcado na causticidade de Miranda, personagem de um dos últimos dramas de Shakespeare, A Tempestade, que proclama ao ver dar à costa os príncipes de Nápoles, escapados por pouco de um naufrágio: ‘Magníficos espécimes! Admirável mundo novo, que sabe nutrir seres tão perfeitos!’
            Além de Shakespeare, Huxley glosa outro monumento da ironia em letra de forma, o russo Yevgenii Zamyatin, que em My (Nós), publicado uma dezena de anos antes do seu romance futurista, leva-nos a um tempo em que a Terra é dominada por um poder único e em que as pessoas não passam literalmente do número pelo qual se identificam, lançando as bases da chamada distopia. Pela fulgurante pertinência e paradoxal atualidade – mais paradoxal ainda à medida que o tempo passa e a ciência avança -, desde logo Admirável Mundo Novo impõe-se como um novo marco do gênero.

UTOPIA

            Admirável Mundo Novo é um passo de gigante nos cinco séculos que o separam da obra seminal sobre mundos ideais imaginários - Utopia, de Thomas More, Thomas Morus, com escala no humor corrosivo do mais recente (e contundente) Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Morus reproduz em Utopia o relato de um marinheiro que teria participado em três das últimas quatro expedições de Américo Vespúcio às costas da América do Sul sobre como viveriam os habitantes de uma ilha em que teria permanecido por cinco anos e onde o clima de igualdade, justiça e paz seria em tudo contrastante com o da população do reino da França, que com fina ironia inglesa é usado pelo autor como contraponto das maravilhas da ilha perdida a sul do Equador, para não se referir diretamente ao de Inglaterra, de que se afastara, morando na Bélgica, onde diz ter recolhido o relato.
            Na ilha, situada em ‘nusquama’ (lugar impreciso), Raphael Hythoday, um português de nascimento, maravilhou-se com um sistema de vida que, segundo o autor do relato, seria apenas equiparável ao que Platão imaginou nas suas conjecturas sobre o ‘bem estar comum’. Os utopianos não têm religião oficial – alguns são pagãos, outros cultuam uma ‘eterna, invisível, infinita e incompreensível Divindade’ - propriedade ou dinheiro. Governam-se da melhor maneira num regime que se poderia definir como de democracia participativa e descentralizada, baseado num código de leis reduzido ao absolutamente indispensável. Ainda que nem tudo na sua vida seja um mar de rosas, sendo também os utopianos gente de carne e osso como as gentes do ‘reino da França’, até porque destituídos do sentimento de posse – mesmo de familiares: os filhos podem ser educados e aprender um ou mais ofícios noutras casas – e de ganância, reduziram ao máximo a ‘ansiedade e os danos’ por eles causados.
            ‘Só posso entender todos os governos que conheço ou de que ouço falar como uma conspiração de ricos que, alegando cuidar do bem comum, nada mais fazem que cuidar dos próprios interesses’, desabafa o relator, abismado com aqueloutra realidade tão oposta à ‘da França’. Por exemplo.
            Um século e meio depois da publicação de Utopia o irlandês Swift leva o sarcasmo mais longe ao retratar o espanto de Gulliver face ao mundo encantado de Lilliput.
            Em Lilliput seres minúsculos – e massa encefálica reduzida às suas dimensões – vivem em condições impensáveis entre seres humanos ‘normais’.

REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

No mundo imaginário de Aldous Leonard Huxley, um jovem inglês da mais fina extirpe intelectual, não há livros – porque, como dirá três décadas mais tarde na sua verdadeira terra encantada, A Ilha, num sistema sem contradições a literatura deixa de ter qualquer sentido – nem religião.
            A religião foi substituída por uma espécie de culto pagão ao ‘Senhor (Deus) Ford’, onde o sinal da cruz dos católicos foi trocado (e também isso os ímpios e apáticos - porque invariavelmente dopados - ‘cidadãos mundiais’ desconhecem) pelo sinal do... T.
            A maior revelação das letras britânicas da década de 1920, que chega a ser igualado a Evelyn Waugh, um dos mais impiedosos retratistas da decadência dos ‘barões da terra’ da sede do Império onde o sol ainda nunca se punha, não poupa recursos para destilar a grande verve de sátiro com que se impôs desde o primeiro romance, Crome Yellow (Férias em Crome, numa tradução portuguesa).
            No deplorável mundo novo huxleyano não há sentimentos e, por consequência, nem sonhos em que os cidadãos possam refletir e sublimar fantasias, de resto inexistentes. Não há sonhos mesmo porque, quando não em vigília - quando são constantemente bombardeados por slogans de propaganda do governo emitidos dos alto falantes espalhados por todos os lugares públicos -, quase sempre os seus cérebros estão ocupados com as instruções hipnopédicas.

            Filho ilegítimo de um autômato imperfeito, o Controlador Mustafá Mond (sobrenome de um famoso barão da indústria química inglesa), João Selvagem foi criado pela mãe numa reserva especial de ‘selvagens’, uma espécie de Disneylândia de seres como eram os humanos antes do conflito decisivo para a mudança de curso da história. Ela só pode ser vista de helicópteros por privilegiados excursionistas, salvo uma ou outra exceção.
            Na reserva, localizada no Novo México norte-americano, o Selvagem teve o privilégio único de encontrar um livro com as obras completas de Shakespeare. Levado para Londres por um Alfa, destaca-se no Admirável Mundo Novo como aquele que a cada deixa cita de cor trechos da obra do bardo de Stratford-on-Avon. Como um certo Aldous Huxley, que se notabiliza pela erudição e por conhecer a Enciclopédia Britânica verbete a verbete, citando-os pela ordem como se estivesse a lê-la mentalmente.
            Para o Selvagem, o novo mundo é deplorável. Antes de ensaiar uma tentativa de insubordinação coletiva – prontamente contida pela polícia de choque através do lançamento de bombas de gás com o milagroso soma -, o Selvagem dirige-se ao pai – que mesmo que, numa hipótese ‘impensável’, fosse legítimo, não poderia chamar como tal, por tratar-se de termo abolido pela nomenklatura do poder mundial – para protestar contra o status quo do mundo unificado. Mundo em cujo mapa não há lugar para a ilha da Utopia.
            - Mas eu gosto de inconveniências - diz João Selvagem.
            - Nós não - diz o Controlador. - Preferimos fazer as coisas de maneira confortável.
            - Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero poesia, quero perigo a valer, quero liberdade, quero bondade. Quero pecado.
            - Na verdade, você está reivindicando o direito de ser infeliz.
           - Tudo bem, então, estou reivindicando o direito de ser infeliz. Para não falar no direito de ficar velho e feio e impotente, o direito de ter sífilis e câncer, o direito de não ter o suficiente para comer, o direito de ser piolhento, o direito de viver em constante apreensão em relação ao que possa acontecer amanhã, o direito de apanhar febre tifóide, o direito de ser torturado por inenarráveis dores de todo o tipo.
            Há um grande silêncio.
            - Reivindico-os a todos.
            Mustafá Mond dá de ombros. - Seja bem vindo.

            O espírito do discurso do ‘selvagem’ do Mundo Novo no ano 632 d.F. é dos radicais insatisfeitos com qualquer ordem mundial opressora como a que vige no 90 d.F. sob a égide do governo unilateralista da Amerika de mandatários (de corporações como bancos e companhias de petróleo) e dos seus Controladores regionais, que move uma das guerras do petróleo para que o ‘visionário’ Aldous Huxley alertou os seus leitores no início dos anos sessenta com o objetivo de garantir por mais algumas décadas a continuidade dos lucros dos seus mandantes, antes que mais uma fonte energética talvez se esgote. Recurso que, processado e industrializado, é nefasto para todas as outras fontes naturais de energia do planeta, de cuja defesa Huxley foi um pioneiro. E que, em nome do lucro fácil, se insista e chegue-se a mover guerras para a manutenção de um modelo energético catastrófico é apenas uma das aberrações de regimes hegemônicos como este.
            O novo sistema imperial busca consolidar o seu poder também através de uma nova cruzada contra os infiéis muçulmanos em nome de um suposto credo não menos fundamentalista e ainda mais deplorável porque inegavelmente sonso, numa possível nova guerra de religião depois de tantas que ensanguentaram o mapa sem Utopia da história, a par com os conchavos de religiosos hereges com as mais abjetas formas de poder terreno, que Huxley denunciou em Eminência Parda e Os Demônios de Loudon. Guerras de religião de que a humanidade seria finalmente poupada se seguisse o exemplo do escritor em A Filosofia Perene e atentasse para a até hoje quase desconhecida (porque ignorada pelos poderes católico e protestante dominantes neste lado do mundo) Unidade Superior das Religiões, o princípio pelo qual os grandes místicos de todos os credos buscaram e buscam essencialmente o mesmo, dando-lhe nomes diferentes: a Iluminação pela Clara Luz do Vácuo dos budistas, no Brahman (Terreno Sagrado) hinduísta, pelo Alá dos sufistas e pelo Deus cristão, e que pode estar no além como dentro de cada um de nós – aqui, ali e em todo o lugar.
            De enorme utilidade para este regime como igualmente sem nexo são tanto as guerras do petróleo e de religião como a guerra às drogas em curso, que decerto Aldous Huxley estaria a desmistificar com a mesma serenidade e clareza com que escrevia sobre as questões mais polêmicas e complexas, a refletir sensibilidade e inteligência das mais fundas, alargadas e perspicazes do nosso (porque também deste) tempo em textos de permanente atualidade, objetividade e transcendentalismo – dos romances a ensaios como As Portas da Percepção e Céu e Inferno.
            - Huxley deu-nos o belo e tranquilo exemplo de morrer sem maior sofrimento físico - escreveu Antônio Callado, que também morreu de câncer.
            Huxley morreu sob os efeitos de uma poção mágica de que foi um dos descobridores, a que chamou medicina moksha, e com que os jovens do seu tempo fizeram uma revolução. No caso, LSD e psilocibina, os responsáveis pela revolução psicodélica dos anos sessenta e por movimentos em princípio a ela completamente alheios como a Primavera de Praga e a Revolução de Veludo tchecoslovaca, de algum modo inspiradas na ‘visão cósmica’ a que as drogas psicodélicas dão acesso.

            Huxley é uma das personalidades homenageadas pelos Beatles na capa do LP Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, uma das obras magnas da cultura psicodélica, como descobridor e primeiro grande propagandista do papel que esse tipo de droga poderia exercer no desenvolvimento do potencial humano. Para todos os efeitos a revolução que, como o seu sonho de A Ilha, não poderia vingar porque para o poder era uma burrice pegada ou um empecilho inadmissível, é parte do seu precioso legado à humanidade.
            Legado inimaginável para quem o imagina, adolescente, pedalando a bicicleta nos paradisíacos campos do condado de Surrey, oriundo de uma das famílias inglesas mais privilegiadas do ponto de vista intelectual e aluno da elitista escola secundária de Eton, formatando o HD pelo racionalismo agnóstico do seu eminente avô Thomas Henry, o Bulldog, o cão de guarda de Charles Darwin, como era chamado, se bem que também embalado no humanismo incandescente do poeta Mathew Arnold, cuja importância na sua formação o levará a dar ao filho o nome do tio-avô.
            Um legado impensável também a partir da obra do jovem que liderou a revolta antipuritana e iconoclasta dos anos vinte contra a moral vitoriana, quando pensava que a Terra é o inferno de outro planeta e tinha boa parte dos seus romances ‘banidos’ em algumas regiões dos Estados Unidos, Austrália e Irlanda por ofensa à moral e aos bons costumes.
            Por esse prisma seria inimaginável vê-lo chegar a 22 de novembro de 1963, dia em que o presidente J. F. Kennedy foi assassinado, às Portas do Céu, crente em alguma forma de sobrevida, enquanto a mulher, Laura Archera, recita-lhe trechos do Bardo Thödol, o Livro Tibetano dos Mortos - Não é a morte, estás a ir para a Luz...
            Aldous Huxley foi um dos homens mais livres do seu tempo. Uma mente aberta é de tal modo rara que deveríamos talvez hesitar em censurá-la, escreveu um seu biógrafo a propósito dos severos ataques por ele sofridos nos últimos anos de vida da parte da intelligensia européia, ressabiada com o fato de uma mente tão notoriamente privilegiada ter optado por seguir os ‘descaminhos’ da busca de uma solução espiritual, também - e não só - por processos químicos, para os problemas da humanidade.


notas biográficas e de leitura da obra
 UM INGLÊS DA REVOLTA ANTIPURITANA AO PARAÍSO REENCONTRADO

            O irmão mais velho, Julian, também seguirá o destino dos Huxley - um dos nomes mais citados nos círculos culturais e científicos no século da Rainha Vitória - e destacar-se como biólogo e escritor antes de tornar-se o primeiro diretor-geral da Unesco. Ele e o seu meio-irmão Andrew, Prêmio Nobel de Fisiologia, darão importante contributo como consultores nas suas áreas de especialidade à obra do outro gênio da dinastia.
            Sua adolescência é marcada por três dramas: a morte da mãe, de câncer, uma infecção das córneas que lhe causa a cegueira temporária e o suicídio do irmão anterior a ele em idade, Treveren, a quem era mais ligado.
            Aprende a ler e a escrever à máquina em Braille, mas menos de um ano depois de contrair a doença recupera parte da visão. Passa a ter dez por cento da capacidade visual no olho direito. Volta a poder ler mas apenas com o auxílio de uma lupa.
            Ler e viajar é o que fará incessantemente ao longo da vida. Abomina o trabalho, diz-se, mas destacar-se-á também por não dar trégua ao corpo e ao espírito, mesmo quando em supostas viagens de passeio.
            Huxley lê tudo o que lhe aparece ao alcance da lupa, mas a vista curta impede-o de seguir a carreira com que sonhou e que, pelo lado paterno – com a exceção do pai, escritor e jornalista -, parece guindada a um só campo, o das ciências naturais. É obrigado a estudar Letras em Oxford. Ainda calouro, publica um livro de poemas experimentais influenciados pelo simbolismo francês.
            A Enciclopédia Britânica é uma companhia inseparável: quando em deslocações, carrega um exemplar de bolso para se distrair nos tempos mortos. Do leitor incansável nascido e crescido numa família de boa saúde financeira mas cujo maior patrimônio é o cérebro, ao que se diz, quase não há registros de como via o mundo na primeira fase da vida. Mas em Beyond the Mexican Bay (Além do Golfo do México), em que reúne crônicas da sua digressão de 1934 à América Central, deixará uma breve anotação sobre a capital do Reino de meio mundo naquele tempo: ‘Excluindo-se as vilas, as casas de campo e os bairros mais burgueses das grandes cidades, a Inglaterra vitoriana era de uma miséria e feiúra indescritíveis.’

            Apesar da introspecção e ‘superioridade’ inatas e das tragédias, Huxley desenvolve uma personalidade extrovertida e até divertida, patente em atitudes como a de tocar ragtime ao piano e decorar as paredes do seu quarto de colégio em Oxford com fotos de mulheres nuas. E é um bom conversador, que discorre com vagar em monólogos longos mas cativantes sobre os assuntos mais exóticos, e que também sabe ser um bom ouvinte, ávido por novidades, dos temas mais complicados a meras bisbilhotices.
            Enquanto estuda em Oxford frequenta a casa de campo dos Morrell, em Garsington, a dez quilômetros da universidade, cuja governanta é sua parente. Lady Ottoline, a dona da casa, tem-se como uma protetora das letras e das artes e possuidora da Natureza e do Belo.
            Quando começa a I Grande Guerra, reprovado na inspeção militar, Huxley é designado para prestar serviço civil como auxiliar de jardinagem em Garsington, que já se destaca como marco da literatura inglesa, sendo uma espécie de sucursal de campo do grupo de Bloomsbury, plêiade de figuras única na história dos círculos literários: Virginia e Leonard Woolf, T. S. Eliot, Bertrand Russell, John Maynard Keynes, Katherine Mansfield, H.G. Wells, D.H. Lawrence - a lista dos convivas ilustres é extensa. Deles, apenas Lawrence irá tornar-se seu amigo, talvez porque a casa é o cenário do seu primeiro romance, em que Lady Ottoline serve de modelo para uma personagem patética numa sequência tragicômica de tertúlias político-literárias em que até o jardineiro (...) tem um momento de ‘brilho’. Crome Yellow é saudado por Marcel Proust como o despontar de um novo sol na literatura inglesa.
            Garsington terá fornecido a Huxley cenário e modelos ideais para a sua primeira diatribe contra uma aristocracia que tenta manter a pompa do esplendor de antanho entre chás e debates estéreis, fingindo esconder de si mesma a própria decadência e a incapacidade de comunicar entre si e com um mundo a que já não pertence. Mas a maioria dos nomes citados do círculo de Garsington não será por si mesma o retrato acabado de uma fantasmagórica inconsequência. Pelo contrário, na economia, filosofia e nas letras ajudarão a romper o espartilho dos princípios hipócritas e caducos da era vitoriana e a levar a Inglaterra pela senda da modernidade, através de e após mais uma guerra mundial, para chegar à década de sessenta ainda como uma das capitais culturais do mundo e, por consequência, da revolução contracultural da psicodelia.
            Vive-se na tertúlia de Garsington, como em Bloomsbury, em Londres, um clima de permissividade sexual não assumidos com a mesma naturalidade em outros salões e que cedo se refletiria, segundo alguns dos seus biógrafos, na própria vida íntima de Huxley.

            O jovem bem educado, cordial e afável na vida social revela-se um arrasa-tradições em literatura. Não em termos formais mas de conteúdo, desnudando e ridicularizando a elite da sede do Império, com o moral e a moral em frangalhos logo após o conflito mais sangrento da humanidade mas que tenta dar a aparência do fulgor dos tempos em que as aparências eram tudo.
            Antic Hay, seu segundo romance (1923), dá escândalo pelo tom quase panfletário do escárnio. Desta vez Huxley conta libertinagens de jovens ‘bem’ do circuito Oxbridge (universidades de Oxford e Cambridge) mas em conflito aberto com o Establishment. Causa escândalo, polêmica e muitas vendas. O sucesso é proporcional ao estrondo de aplausos e vaias que Huxley provoca com as suas ferroadas de sátiro no traseiro do status quo.
            Mas Antic Hay dá também ar de seriedade à abordagem pioneira de problemas como o da superpopulação do planeta e da crescente influência da propaganda na sociedade moderna, explorando os pontos fracos do consumidor e do eleitor, ou vice-versa, porque dariam no mesmo. Por toda a vida Huxley escreverá sobre essas questões, dois dos focos centrais de suas preocupações.
            Em carta ao pai diz ter procurado refletir em Antic Hay o ‘violento despedaçamento de quase todos os padrões, convenções e valores prevalecentes’ até a guerra.

 

            Logo estará ao volante da Bugatti vermelha com que o casal passa a percorrer as estradas do sul da Europa, cumprindo uma etapa do grand tour europeu de aprofundamento da já alta ilustração huxleyana em cultura e arte no museu a céu aberto italiano. Os Huxley assentam base em Forte dei Marmi, na Ligúria, onde Aldous diz sentir-se ‘como a viver numa poesia de Shelley’, o poeta romântico morto num naufrágio aos 29 anos e cremado na praia do então vilarejo de pescadores num ritual pagão promovido pela sua mulher, Mary Shelley, e o ilustre amigo Lord Byron.
            A coletânea de contos Little Mexican (1924), o livro de Notas e Ensaios de um Turista, como define Along the Road em subtítulo, e o seu terceiro romance, Those Barren Leaves (ambos de 1925), estão entre os frutos da estadia de seis anos do casal na Itália, intercalados por temporadas em La Gorguette, na Côte d’Azur, onde também tem casa, uma volta ao mundo e visitas a Londres.
            Na Itália, a insolência do agnóstico evolucionista, que de um momento para o outro tornou-se ponto de referência da luta dos jovens ingleses contra a velhacaria vitoriana – ‘ele foi um deus da minha adolescência’, chegará a afirmar um deles –, começa a defrontar-se com as questões de ordem metafísica com que se debate o amigo D. H. Lawrence, doublé de um ainda mais polêmico transgressor da moral puritana.
            É o que se reflete no novo romance, tido como primeiro divisor de águas da sua carreira. Nele, acentua-se o desencanto, expresso sempre com bom humor em críticas corrosivas a comportamentos individuais e coletivos da elite política e intelectual inglesa. Lá está de novo a que tende a ser a maior vítima pessoal da sua salutar acidez, Lady Ottoline, agora no papel de uma inglesa de ‘nome impossível’ (Aldwinkle) refugiada em Vezza, na Toscana, num palacete que para variar é cenário de intensas discussões políticas e literárias que o autor satiriza. Mantém-se o cinismo mas o cepticismo radical cede espaço aos primeiros indícios de uma busca de sinais de vida além das aparências e dos discursos transbordantes de incomunicabilidade e vazio da era do foxtrot, do ragtime e do jazz de New Orleans, os buliçosos anos vinte. O poeta W. B. Yeats dirá que com ele a filosofia volta ao romance.
            Um dos segredos do sucesso do jovem romancista é o de expressar como poucos o mal-estar social e político após uma guerra de proporções inauditas que só serviu para tornar mais aberrantes as discrepâncias de um continente sem rumo. ‘O mundo em que os nossos corpos estão condenados a viver é tão esquálido e vulgar quanto maligno’, diz o milionário Calamy nas ‘folhas (dir-se-ia, a forçar o trocadilho, sobre pensamentos) inúteis’. Pela fala da personagem, Huxley dá a entender que, embora num lugar paradisíaco e, como se fosse pouco, ‘a viver num poema de Shelley’, sente-se no mínimo num purgatório.
            O casal percorre a Itália de uma ponta à outra mas os pensamentos de Huxley voam já para muito além da Europa. Estudos de William Blake e Jacob Boehme a que se dedicara anos antes em Londres despertaram-lhe o interesse pelo misticismo e a filosofia oriental. Não é apenas Lawrence que o incita a explorar novos caminhos. E os Huxley partem para uma volta ao mundo que compreenderá duas etapas decisivas na sua biografia, Índia e Estados Unidos. Do que apreende de fato na colônia britânica e noutros pontos do Oriente não se terá idéia tão cedo. É a América que lhe causa maior impacto, pelo que se depreende de Jesting Pilate: An Intellectual Holiday, título sintomático tratando-se de um workaholic, onde registra tanto o agrado pela ‘extravagante generosidade’ e vitalidade dos americanos como o desencanto com a forma como se comportam em público: ‘Em nenhum outro lugar, talvez, se conversa tão pouco... Tudo é movimento e barulho, como água do banho a escoar – pelo ralo. Sim, pelo ralo.’
            Aumenta o pessimismo de Huxley em relação ao futuro da Europa com a constatação a olho nu de que, com a americanização do mundo, haverá ‘uma radical alteração para pior dos padrões estabelecidos’ nomeadamente no campo da cultura e da arte, que segundo ele tendem a mediocrizar-se com a progressiva massificação através dos meios de reprodução mecânica.

            O livro é publicado logo após o regresso à Europa, em 1926, quando já engendra os próximos lançamentos. Em Proper Studies, coletânea de ensaios publicada no ano seguinte, aborda questões de natureza política de que se ocupa também em crônicas para jornais e revistas. Fala do impacto da automatização na sociedade e critica o excessivo investimento em especialização no ensino, baseado na produção em massa de cidadãos alienados e frustrados pelo próprio embrutecimento.
            ‘O ascetismo perdeu o direito de cidadania e a auto-gratificação excessiva tornou-se uma virtude social’, reclama, aturdido com a desumanização da sociedade em função do aumento da competitividade e do consumo.
            Questões que desloca para a ficção em Point Counter Point (Contraponto), publicado em seguida já como obra de mestre, desta vez tão ousado na forma como no conteúdo, ambos de vanguarda. A crítica mais conservadora continua a patear o destempero do escritor ao discorrer com o ‘pensamento à solta’ sobre sexo, política e organização social. Mas para ela Huxley agora foi além da conta, ao romper também com o romance tradicional. Ele é um dos primeiros romancistas a refletir os efeitos de uma revolução chamada James Joyce.
            Phillip Quarles é um escritor que tenta um romance a que pretende dar a estrutura e a fluência narrativa da Suíte Número 2 de Bach, com a ‘arte da fuga’ a servir de esteira para uma tentativa de ‘transformar um distanciado cepticismo intelectual numa vida rodeada de harmonia’. Com a sua contraparte, Mark Rampion - moldado no aplomb mais espiritual de D. H. Lawrence -, em contraponto, Quarles discute a impossibilidade do amor, da comunicação e da arte numa sociedade excessivamente racionalista e materialista. Para o romancista dentro do romance, a humanidade caminha ‘diretamente para o inferno’ e o papel dos políticos, ‘todos, sem exceção’, é o de ‘nos levar para o abismo’. Com o progresso industrial e o homem reduzido ao papel de extensão da máquina, o problema passa a ser de ‘psicologia individual’, isto é, de um reencontro do homem com os princípios da sua natureza, para que ‘não viva apenas como trabalhador industrializado mas também como ser humano’, como pondera um romancista pela boca do outro.

            Esqualidez, abismo, inferno... O problema já nem é tanto os seus ‘pontos de vista pervertidos’, considera o eminente articulista Lytton Strachey, um dos alvos das suas farpas ao grupo dos salões de Garsington. Pior é que, com o livro, o autor provou que ‘não sabe mesmo escrever’. Já André Gide não se contém e prevê que, a continuar assim, Huxley ainda irá parar no manicômio.
            Mas o escritor não se dá trégua, porque não faltam leitores ávidos de questionamentos. Além do romance e de editar um volume sobre o avô e outro de cartas de D. H. Lawrence, entretanto falecido, em cinco anos publica dez livros de contos, poesia e ensaios, além de um drama. E é já uma lenda viva da literatura inglesa quando lança Admirável Mundo Novo, que escreveu em apenas quatro meses e vende um milhão de exemplares em um ano, entre muita polêmica.
Huxley irrita os cientistas com as suas mirabolantes antecipações biotecnológicas e faz troça de empresários e políticos de todos os quadrantes através dos nomes das personagens: Benito Hoover (inspirado no ‘Duce’ e nos mil e um Hoovers da política, da polícia e das finanças americanas), Morgana Rotschild, Mustafá Mond (em que o nome próprio é o do líder nacionalista turco Ataturk), Poly Trotsky, Sarojini Engels, Herbert Bakunin, Lenina Crowne e Bernardo Marx. Para ele, ‘socialismo e marxismo, últimas variantes do racionalismo científico, só se distinguem de outras tendências políticas pela arrogância e pelo fanatismo.’
            Torna-se evidente que o racionalismo científico em que apoiou o seu arranha-céu de erudição poderá estar por um fio. Com a idade e a popularidade aumenta a sua impertinência, definindo-se o retrato de um intelectual irriquieto e intranquilo numa era de grande aceleração do ritmo de vida e aprofundamento dos paradoxos e contradições de sempre.

            Na busca de uma forma superior de vida, como as personagens de primeiro plano dos seus romances, sonha com um governo de uma hipotética oligarquia iluminada, em que a elite do poder econômico desse lugar a uma aristocracia da inteligência.
            Um sátiro de primeira linha, não é todavia um partidário do bota-abaixo. Em um ensaio cita o poeta romântico Coleridge para se dizer de uma linha conservadora ‘que recorre ao passado de algum modo idealizado como ponto de referência para julgar o presente’, segundo ele muito diferente do conservadorismo do partido no poder no seu país. ‘O Estado ideal seria uma democracia material controlada por uma aristocracia intelectual em que a homens e mulheres seja garantida uma existência digna e todos possam desenvolver os talentos próprios’, é a sua idéia de uma ‘república platônica’ resumida através de uma das personagens mais burlesca
s de Crome Yellow. Como a dizer que, ao menos quando mais jovem, essa teoria era apenas uma hipótese e não linha programática.
            Antes de uma suposta invasão da sua casa de Forte dei Marmi por um bando de ‘camisas negras’ de Mussolini, num dos episódios mais obscuros da sua biografia, chegou a escrever que ‘ditadura e propaganda devem prover a humanidade dos únicos meios capazes de salvá-la das misérias da anarquia’. Haverá quem diga que Huxley é um intelectual ‘afiliado à esquerda com conotações de direita’.
            O princípio dos direitos individuais e da necessidade de se criar condições para que cada um os exerça plenamente será uma das traves mestras da utopia huxleyana, ao lado do seu ‘incompreensível elitismo’, que o fará defender até ao fim da existência a necessidade de uma profunda reforma no ensino de modo a dar a cada indivíduo acesso aos instrumentos do saber e da livre imaginação que lhe permitam almejar a um lugar entre a tal ‘elite esclarecida’.
            Huxley não renunciará à crença, reafirmada num artigo de 1927 para a revista Harper’s, de Nova York, de que a solução da questão do poder estaria em ‘oligarquias inteligentes e ativas’. No mesmo artigo chega a contestar o princípio básico da democracia americana pelo qual todos os homens nascem iguais ‘e eu sou tão bom como você’. Para ele – ainda um ferrenho darwinista – essa é uma ‘premissa cientificamente infundada’ porque ‘a desigualdade humana é um dado natural, resultante de diferenças hereditárias de inteligência e capacidade’.
            Huxley é ‘um humanista que não gosta da humanidade’, define-o o romancista E. M. Forster, a acentuar o paradoxo.
            Em pouco tempo, segundo um biógrafo influenciado pelo jornalista americano HL Mencken, um dos mais maiores divulgadores da obra de Nietzsche, irá repudiar a democracia representativa e o sufrágio universal, que para ele só levam à proliferação de demagogos e fraudadores políticos e ao aumento do poder dos publicitários e donos de jornais. Mas ao ver as primeiras manifestações de ‘camisas negras’ em Londres, em 1934, condena todo o tipo de totalitarismo e protesta contra as ‘loucas blasfêmias da idolatria ditatorial’, o que levará alguém a afirmar que a ‘única coisa’ de que não se poderá acusá-lo é a de ter apoiado o Fascismo e a lembrar que ele foi um dos primeiros a denunciar os horrores da ditadura soviética.

            Sua aplicação na forma como a apresenta em Admirável Mundo Novo é uma chalaça, mas a esta altura Huxley é um acérrimo defensor da eugenia.
            A defesa do controle da natalidade para evitar uma explosão demográfica e o desequilíbrio social e ecológico do planeta - mesmo porque para ele gente mal nutrida não tem capacidade de escolher os governantes - é e será uma das suas preocupações permanentes e acentuaram-se quando Benito Mussolini lançou uma campanha contra o controle de natalidade alegando que a Itália precisava de mão-de-obra para progredir (e como carne para canhão nas campanhas militares para a restauração do Império Romano).
            Em texto publicado em 1930 pelo jornal londrino Evening Standard Huxley chega a defender a esterilização compulsória de mulheres com problemas genéticos. Mas na introdução a uma coletânea dos artigos mais polêmicos desta fase da vida do escritor, David Bradshaw, o compilador, ressalta que o controle genético era defendido por muitos cientistas e intelectuais progressistas da época, como o psicólogo norte-americano Havelock Lewis.

            Como se não bastasse, antes mesmo da publicação da sua ‘terrificante distopia’ (na definição de André Maurois) sobre um mundo escravizado pela máquina e dominado pela tecnologia, Huxley – que, sentindo-se ‘estrangeiro’ na própria terra, decidiu fixar residência no sul da França – surge como paladino da busca de um ‘produto sintético imaginário que tornaria as futuras gerações felizes e dóceis’. Uma droga como a que imagina para o seu livro, misto de fonte de divertimento e prazer, tranquilizante e soporífera, mas que, ao contrário do soma, não crie dependência física ou psíquica.
            Uma droga que colmasse os nossos anseios de ‘tirar férias da realidade’, como escreve de La Gorguette no artigo Wanted: A New Pleasure (Procura-se: Um Novo Prazer), publicado meses antes do lançamento de Admirável Mundo Novo.
            Férias muito regulares, propõe no artigo, em que revela o que lhe passa pela cabeça enquanto modela a droga ideal para um mundo sem vida: ‘Se pudéssemos aspirar ou engolir algo que durante cinco ou seis horas por dia abolisse a nossa solidão, nos irmanasse aos companheiros numa intensa exaltação de afeto e fizesse a vida em todos os aspectos não só merecedora de ser vivida mas divinamente bela e significativa... todos os nossos problemas seriam inteiramente solucionados e a terra tornar-se-ia um paraíso.’
            Huxley reflete sobre o impacto da leitura de uma obra seminal consultada durante a pesquisa para o que será um dos componentes básicos do Admirável Mundo Novo, fornecendo-lhe o único misticismo nele admitido: segundo o Controlador Mond, ‘o cristianismo sem lágrimas’.
            Trata-se do primeiro estudo de etnobotânica com um mapa geral das drogas usadas pelos mais diversos povos do mundo, Phantastica, de Ludwig Lewin, farmacologista e o mais conceituado toxicólogo alemão, que lhe desperta a atenção para a ‘curiosa história do consumo de drogas’, que passa a encarar ‘como um dos capítulos mais significativos da história natural do homem’. ‘O homem primitivo – sublinha – explorou as avenidas farmacológicas para escapar do mundo com uma meticulosidade estarrecedora. Os nossos antepassados não deixaram quase nenhum estimulante natural, alucinógeno ou entorpecente por descobrir.’
 

 

            A essa altura a mescalina causa já verdadeiro furor junto da comunidade científica e nos círculos artísticos e culturais da Alemanha, o que se depreende dos vários estudos sobre a substância publicados naquele país na segunda metade dos anos vinte e das pesquisas realizadas nas últimas décadas em torno dos manuscritos do filósofo Walter Benjamim e de outros integrantes da Escola de Frankfurt sobre as suas experiências com drogas endógenas, como a mescalina e o haxixe.
            A partir desses estudos vieram de novo a público detalhes de uma operação montada por Adolph Hitler logo após a tomada do poder para o combate ao consumo de drogas na Alemanha. A operação, em que a polícia de Heinrich Himmler empregou as mesmas tácticas aplicadas na repressão ao consumo de drogas nos Estados Unidos, foi chamada

Rauschgiftbekämpfung           

guerra ao delírio das drogas   e é uma antepassada da guerra às drogas atualmente em curso sob o comando do governo americano. Com ela os nazistas poderão ter evitado uma revolução psicodélica no III Reich – e talvez uma forte oposição à guerra - trinta anos antes da que a própria Alemanha irá também vivenciar, tendo como fontes de inspiração substâncias como a mescalina e outra ‘poção mágica’ prestes a ser descoberta, o LSD-25.

            O estilo está formado, a estrutura específica de referência e interpretação da vida é clara e o público amontoa-se para comprar os produtos que este artesão sabe produzir em suprimentos constantes. E de repente a fórmula parece falsa, o ângulo desesperançosamente impreciso, as análises desprezivelmente insípidas. Os hábitos da família Huxley e os seus genii ancestrais desafiavam o seu próprio gênio. A sátira podia entreter mas não infundia confiança. O humor sardônico, para manter-se no cume, deve afiar-se na pedra de amolar da verdade plena do homem-homem, o animal inacabado; o incomparável ensinável; não-ensinado, menos que uma besta; mal ensinado, pior que uma besta; bem ensinado, criatura de promessas infindas, de potencial sobrehumano.
            Este é considerado um texto típico de Gerald Heard – ‘praticamente ilegível’, como o próprio Huxley define a sua produção literária. Mas é a melhor fotografia do que se passará pela cabeça do escritor a caminho da meia-idade como uma das celebridades da Europa e com o continente a atravessar um dos períodos mais conturbados de sempre. A melhor fotografia da sua cabeça mesmo porque, desde que se conheceram, por alturas do lançamento de Ponto Contra Ponto, tornaram-se inseparáveis – salvo os longos períodos de viagens ou de trabalho em La Gorguette do infatigável Huxley.
            Gerald Heard é o homem que levou o amigo Aldous Huxley do cinismo do seu período inicial, até Admirável Mundo Novo, para o misticismo de Filosofia Perene’, segundo o teólogo Huston Smith, futuro amigo de ambos. Filho de um cônego da Igreja de Inglaterra, formado em História em Cambridge, apesar do estilo Heard marca época como escritor de duas faces. De um lado, como H. F. (dos seus primeiros nomes próprios, Henry Fitz) Heard, o autor de livros policiais e de terror. Do outro, Gerald Heard, o filósofo místico que assina obras como Dor, Sexo e Tempo e Deus é Evidente? Um Prefácio Para a Oração. Apesar do estilo, é best-seller e ganhou um prêmio literário como H. F. e faz escola como ensaísta místico, a começar pela influência exercida sobre Huxley.
            Quando se conhecem Heard é o editor da revista The Realist, em que Aldous e Julian Huxley colaboram. Na época em que Huxley faz a viagem ao Golfo do México Heard realiza e apresenta um programa da Rádio BBC em que noticia e comenta as últimas novidades da ciência à luz da sua visão metafísica do mundo.
            A memória, o poder de sedução e o brilhantismo intelectual de Heard chegam a obscurecer os do próprio Huxley, ao ponto de este admitir que entre as pessoas que conhece ele é quem mais sabe de tudo, sendo capaz de numa tirada discorrer sobre assuntos relacionados a uma ‘vasta área do conhecimento’ com tudo quanto é informação na ponta da língua, da pré-história e antropologia à astronomia, física, parapsicologia, mitologia e o que mais se lembre de expor e debater. O seu primeiro livro, por exemplo, tratava das relações da arquitetura com o vestuário.

            Beyond the Mexican Bay é talvez o último e mais típico exemplo do Huxley da primeira fase. Pega-se o livro pensando-se em algumas horas de distração com observações sobre diversões ou atropelos do dia-a-dia de um escritor em viagem e o que se lê na maior parte do tempo é uma enxurrada de reflexões de um intelectual que não se permite uma folga na busca de soluções para os problemas da humanidade.
            Huxley não se cansará de dar-nos muito em que pensar. Mas, após o empurrão inicial de Lawrence, cabe a Heard abrir definitivamente a sua perspectiva de visão para outros horizontes. E com a Europa em convulsão, com o clima amotinado da Frente Popular na França, a guerra civil prestes a deflagrar em Espanha, líderes histéricos a despontar de norte a sul do continente e manifestações de fascistas à porta de casa, Huxley destaca-se, como celebridade, nas campanhas da Peace Pledge Union (União de Compromisso Pela Paz). A luta pela paz é também tema primordial das suas colaborações para a Left Review quando sai Sem Olhos em Gaza.
            Baseando-se no primeiro verso do célebre poema Samson Agonites, de John Milton, um dos maiores clássicos da literatura inglesa – Sem olhos em Gaza, remoinhando com os escravos... –, Huxley surpreende agora pela alucinada lucidez de um romance em que mais uma vez a ficção, em movimentos acrônicos, é pretexto para discorrer sobre as questões que o atormentam, como a cegueira que leva os homens a viver acorrentados a instituições anacrônicas e sob constante ameaça da guerra.
            A metáfora da cegueira, concebida a partir da obra de um cego, dá a dimensão de seriedade de um trabalho sobre os medos, preconceitos, discrepâncias e discordâncias da humanidade, num romance-ensaio em que da sua antiga verve satírica só restam algumas cenas estrambólicas, a vincar o absurdo de certas situações triviais do cotidiano enquanto tudo em volta desmorona.
            Nas suas sucessivas tentativas de conceber a Idéia de Liberdade, o homem está constantemente a trocar uma forma de escravidão por outra. Suprimamos a escravidão à natureza e surge imediatamente outra forma de escravidão ... às instituições religiosas, jurídicas, militares, econômicas, artísticas e científicas. Toda a história moderna é uma História da Idéia de nos libertarmos das Instituições – escreve a dado ponto do romance em que, entre uma e outra discrepância, a personagem central envereda pela busca de algo além – ou ‘aquém’ - no misticismo oriental.

Rumo às ilhas da Utopia - Da Teoria à Prática
Ou Vice-Versa
  apêndice de       
 
Trechos

            Com Heard, Huxley passa a estudar a teoria de sucessores do darwinismo como o filósofo francês Henri Bergson, para quem o processo de evolução é controlado por um élan vital pelo qual a espécie humana estaria buscando a cada passo atingir um mais alto grau de complexidade e competência de raciocínio e ação. O universo segundo Bergson seria uma máquina de criar deuses através de um processo de progressiva evolução mental, premissa básica para o Superhomem nietzschiano e a teoria do psicólogo canadense Richard Bucke de que, após uma caminhada de milhões de anos para a percepção da consciência e depois da auto-consciência, o próximo passo do homem seria o da percepção da consciência cósmica.

        A heresia darwinista de Bergson começa a popularizar-se após a primeira grande guerra, com a chegada à Europa do guru indiano Krishnamurti e do parapsicólogo armênio Georges Gurdjieff, anunciando novas formas de se atingir níveis superiores do poder da mente.
            As grandes capitais européias tornam-se ‘supermercados do esoterismo’, na expressão de Jay Stevens, autor do livro Storming Heaven: LSD and the American Dream, que nos conduz em longos trechos neste e em outros pontos da trajetória da dupla Huxley-Heard. Brotam por toda a parte escolas mais ou menos secretas de teósofos, budistas, vedantistas e ocultistas de todo o tipo, inclusive o de aspectos mais delirantes de um certo Aleister Crowley, cujas cerimônias macabras em Cefalù, na Sicília, o tornaram alvo de um dos primeiros atos de Benito Mussolini ao assumir o poder da Itália, em 1922: expulsá-lo do país. Na Alemanha, a misteriosa sociedade Thule deu origem ao Partido Nacional Socialista.
            Em busca de resposta para os seus questionamentos Huxley e Heard travam contato com Krishnamurti e conhecem Gurdjieff e o seu discípulo Ouspensky, que promovem em Londres uma série de conferências subordinadas ao tema A Psicologia da Possível Evolução Humana. Haverá meios, mecanismos ou um sentido a mais de percepção pelo qual o homem possa evoluir para um estágio espiritual superior que lhe permita entender melhor a vida e a si mesmo?
            No seu ‘grand tour do esotérico’, ainda na expressão de Stevens, recitam cânticos, meditam, estudam hipnose, hipnose profunda e a técnica de Gurdjieff, que a Huxley sabe a ‘demasiado nirvana e compota de morango’. Não se contentam com nada que lhes chega ao conhecimento, segundo um dos gurus em voga porque ‘estão seguros demais das próprias idéias para trabalhar sob orientação de alguém’.
            E decidem partir para as suas próprias formulações. Heard chama à sua Third Morality (A Terceira Moralidade). Huxley intitula o seu novo livro de ensaios de Ends and Means (Fins e Meios), cuja mensagem básica é a de que o desprendimento é a essência da sabedoria.

            Com o subtítulo de Um Inquérito Sobre a Natureza das Idéias e Sobre os Métodos Aplicados Para a Sua Realização, Ends and Means é uma bóia de sinalização de inversão de rota na obra de Huxley. Nele o escritor abandona de vez o racionalismo que o caracterizou desde as blasfêmias contra os ‘bons’ costumes burgueses e vitorianos e arma as velas para o sopro da desejada iluminação mística. Mas o abandono da lógica racionalista dá-se com toda a pompa do formalismo inglês, e ao enunciar novos princípios fecha as contas com os do passado.
            Inspira-se no prefácio de George Bernard Shaw a Back to Methusaleh, de 1921, em que o dramaturgo irlandês renega a própria trajetória no que chamou de ‘meio século infiel’ de desacato aos valores do seu tempo de juventude – afinal a mesma longa era vitoriana -, para dizer que, de todo o modo, teve fortes ‘motivos para não querer que o mundo tivesse um significado’:
 ... a filosofia da falta de significado era essencialmente um instrumento de libertação de um certo sistema de moralidade. Fazíamos objeções à moralidade porque ela ia interferir na nossa liberdade sexual. Os apoiantes deste sistema diziam que ele incorporava o significado – o significado Cristão, insistiam – do mundo. Havia um método admiravelmente simples de contestar essa gente e nos justificarmos na nossa revolta erótica: negaríamos que o mundo tivesse algum significado.
            Huxley defende uma revolução no ensino para que as escolas invistam no potencial humano, deixando de ser fábricas de produção em série de especialistas despersonalizados e passando a criar cidadãos educados para a liberdade, inteligência e cooperação responsável e voluntária e não para a aceitação passiva da tradição, tendo apenas como escolha as vias do poder ou da subordinação. O pensador não abdica, implícita ou explicitamente, do antigo conceito proto-iluminista de poder de uma ‘elite esclarecida’ mas tão pouco renuncia ao do primado da individualidade sobre a uniformidade do rebanho de autômatos. A aposta no potencial humano, baseada no poder criativo e de imaginação de cada indivíduo, é e continuará sendo um ponto cardeal da filosofia de Huxley, baseada na necessidade de uma mudança profunda na formação dos cidadãos para a mudança de rumo de toda a sociedade. Uma utopia desmedida que ainda o irá deixar a bradar como louco no deserto. Ou no manicômio.
            No capítulo A Natureza da Guerra o autor aponta para a maior contradição dos estatutos da Liga das Nações, antecessora da Organização das Nações Unidas: a de só admitir como membros países que tenham exércitos, pressupondo que devem estar preparados para a guerra e não para a paz. Um claro sinal do verdadeiro espírito dos governantes, estando-se, como tudo indica em 1937, na iminência de um novo conflito bélico. Mais uma prova de que o homem nunca se prontificou a encontrar uma alternativa para a guerra, argumenta.
            Quanto aos meios de comunicação de massa Huxley é radical: sua qualidade média é tão baixa que deveriam ser controlados ou proibidos. A alternativa seria educar as pessoas para terem sentido crítico em relação às mensagens que eles transmitem.
            Mas a sua mensagem de fundo é a de desprendimento. Para mudar a condição humana é necessário que, participando intensamente do jogo da vida, o indivíduo aprenda a distanciar-se e a desembaraçar-se dos laços emocionais e materiais que arruínam a sua existência. Huxley, que assume sem pejo uma nova utopia – agora positiva, se o quisermos -, declara que, para todos os efeitos, os fins nunca justificam os meios. E que há outros meios e fins a ser alcançados, além das malhas das emoções baratas e dos bens materiais em que estamos enredados.

            O escritor escandaliza a esquerda britânica ao declarar-se neutro em relação à guerra civil espanhola e é despedido da Left Review porque, segundo os editores, escreve ‘como um fantasma falando no vácuo’. Do fundo do seu pacifismo radical – que é confundido com a posição de quem defende que a Inglaterra não deve envolver-se em guerras alheias – ele sustenta que até a data os únicos vencedores de guerras foram os industriais e banqueiros.
            A partir da Espanha toda a Europa parece caminhar para o abismo que as personagens dos seus livros sempre visualizaram - no caso, mais uma guerra geral. Huxley decide voltar aos Estados Unidos. Tem lido muito sobre um oftalmologista famoso pela sua nova técnica de tratamento ocular. Baseado num inaudito horror a óculos, W. H. Bates desenvolveu um método revolucionário de reeducação visual. O escritor parte para consultá-lo e, no caminho, fazer palestras em universidades norte-americanas sobre Ends and Means. Com ele vão Maria e... Gerald Heard.
            O tratamento dá resultado positivo em muito pouco tempo. Ele voltará a ter sérios problemas de visão mas nunca mais irá usar os óculos de lentes e aros grossos que se tornaram a sua marca registrada, além da ‘altura de um Deus’, das ‘feições aquilinas’ e da ‘inteligência multidirecional’, como é caracterizado. Visão é algo muito importante para quem sabe o que é não tê-la, vive dela e pretende ver cada vez mais longe e mais fundo a paisagem geográfica e humana exterior, enquanto mergulha no seu próprio interior. O prolífico Huxley decide escrever um livro dedicado a W. H. Bates e à sua assistente, The Art of Seeing (A Arte de Ver), que tanto nos ajuda a desenvolver. O historiador de arte Kenneth Clark dirá que aprendeu a entender os quadros do renascentista italiano Piero Della Francesca ao ler um texto do escritor ‘visionário’ sobre o pintor.

            Suspeita-se que o motivo de fundo da viagem seja o seu desapontamento com o movimento pacifista inglês e a ‘Europa dos ditadores’. Segundo médicos que a consultaram, Maria contraiu tuberculose e precisa de permanecer em clima seco. De passagem por Los Angeles o escritor apercebe-se de que poderá trabalhar como roteirista para Hollywood e decide instalar-se na Califórnia. ‘O pensamento é inútil nesta cidade de Aterradora Alegria e onde não se conversa’, escreve, mas segundo a mulher ele ficou fascinado com Los Angeles, as colinas de Hollywood e as montanhas descendo para o Pacífico. ‘Encontra-se de tudo em Los Angeles’, maravilha-se. Para ele a cidade é como Veneza no século XVII – ‘onde Oriente e Ocidente se encontram e tudo pode acontecer’.
            Maria estuda quiromancia e astrologia e Aldous faz uma dieta de vitaminas e peixe e lê o Rig Veda, uma das bases do hinduísmo. Huxley não subestima nenhum método potencialmente válido de melhorar a sua qualidade de vida e adotou também a técnica Alexander, criada por um ator shakespeariano após ter perdido a voz e descoberto que a saúde depende muito da postura física. Através da técnica Alexander o escritor pretende acabar com problemas derivados da altura e da magreza.
            Mas não para de escrever. Colabora na elaboração do argumento do filme Madame Curie e produz quatro ensaios, um deles para a inauguração de uma livraria do amigo Jake Zeitlin (O Vício Mais Agradável) e outro para um livro de desenhos de crianças espanholas publicado no âmbito de uma campanha de auxílio aos flagelados da guerra civil (Eles Ainda Desenham Imagens). Não se aparta das tragédias européias, mas toma outra decisão polêmica ao recusar-se a subscrever uma denúncia da perseguição aos judeus pelo regime nazista da Alemanha. Numa folha datilografada em 19 de Novembro de 1938 discorre sobre a futilidade de redigir um depoimento sobre o assunto.

           
                                                          

            Huxley escreve o seu novo romance, que será publicado em 1939 sob um título extraído do verso de Tennyson After Many a Summer Dies a Swan, em que debate o valor da busca da espiritualidade em contraponto com a sede de poder.
            O escritor frequenta com Heard o ashram da Sociedade Vedanta do Sul da Califórnia, em Hollywood, dirigido pelo Swami Prabhavananda, o modelo do místico iluminado de O Fio da Navalha de Somerset Maugham. O ashram parece uma miniatura do Taj Mahal rodeada de jardins com limoeiros e garotas meditando vestidas com saris, enquanto Prabhavananda discursa para os ingleses e o ex-diácono anglicano Alan Watts sobre a doutrina Veda - relata Jay Stevens. Com a guerra a meca do cinema torna-se a capital da intelligensia e a casa dos Huxley em Pacific Palisades é frequentada por celebridades como Charles Chaplin, Greta Garbo, Edwin Hubble, Bertrand Russell, os gurus Rajagopal e Krishnamurti, Thomas Mann, W. H. Auden, Christopher Isherwood e Stravinsky. Tão obcecado com o novo estilo de vida baseado no ascetismo, Heard vive recriminando a sociabilidade de Huxley. Para ele o tempo é precioso demais para se perder com trivialidades.

            Em 1941 é lançado Grey Eminence, uma biografia do padre Joseph du Tremblay, confessor e conselheiro do cardeal Richelieu, em que Aldous denuncia o envolvimento da igreja católica com os jogos políticos mais torpes e como por esse meio prelados como a eminência parda do título perdem todos os sinais da Graça Divina
. Num período de guerra Huxley dedica-se exclusivamente a estudos sobre misticismo e religião, que o levam a concluir que ela só serve para gente que ainda não teve uma experiência espiritual.
            Após o ataque a Pearl Harbor e a entrada dos Estados Unidos na guerra os Huxley decidem se juntar a Heard em Trabuco Canyon, no deserto de Mojave. A saúde de Maria continua abalada e o clima mais seco do deserto poderá ajudar no seu tratamento.
            Quando fazia o doutoramento o teólogo Huston Smith leu toda a obra de Gerald Heard. Aprendi com o Protestantismo que se viver decentemente encontrarei Deus além do cemitério, mas ambos clamam que Ele pode ser encontrado nesta vida, surpreendeu-se ao conhecê-los. Heard meditava seis horas por dia para chegar a Deus. Huxley, que fazia regime de abstinência sexual na busca do total auto-controle, passara um semestre na escola, onde dividiu o tempo entre meditações e a escrita de A Filosofia Perene. A seriedade e sabedoria dos monges da sociedade hollywoodiana fizeram com que o vedanta (a expressão filosófica do Hinduísmo tal como é ensinado no Ocidente por monges da ordem Ramakrishna) desse um notável impulso ao projeto místico de Huxley e Heard, relata Huston Smith.
            Sob a luz do deserto, num antigo abrigo de viajantes, o escritor encontra a expressão da alegria divina e do amor contido no âmago das coisas, contava Maria Nys.

                                                                                                                               

 

 

 

 

 

 

 

 

            Na tarde de 16 de Abril de 1943, num oásis de paz no continente europeu, o químico Albert Hofmann se prepara para prosseguir a vigésima quinta série de testes de rotina com a dietilamida do ácido lisérgico. Após a descoberta da substância a equipe do laboratório da Sandoz isolou dois alcalóides da ergotina que deram origem a vários remédios para o tratamento de hemorragias pós-parto e problemas circulatórios e geriátricos. Nada foi feito com uma terceira substância isolada porque, segundo o relato dos testes, ela provoca apenas forte atividade no útero e uma certa inquietação em animais, não parecendo ter nenhuma utilidade médica.
            Todavia, num intervalo de trabalho o químico teve a estranha idéia de sintetizá-lo de novo para testes posteriores. Foi mais que um pressentimento! A estrutura química da substância me agradava muito e foi isso que me levou a dar esse passo inusitado. E durante a repetição da síntese o acaso atravessou-se no caminho. Após a sua conclusão Hofmann foi tomado por um estranho estado de consciência. Algum resíduo da substância entrou por acidente no seu corpo e, decidido a confirmar essa suposição, três dias depois fez a primeira auto-experiência planejada com LSD.
            Às 16:20h ingere 250 microgramas do composto LSD-25, disposto a aumentar a dose se necessário, pois nenhuma substância conhecida surte efeito em doses tão diminutas, e anota no seu bloco: Não tem gosto de nada. Meia hora depois faz outra anotação: Nenhum efeito. Às 17h começa a ter sensações de alteração da percepção acompanhadas de ânsia e decide ir para casa. No caminho, pedalando a bicicleta, sente crescentes distúrbios visuais e dificuldade de concentração, agitação, leves tonturas... vontade de gargalhar... e algum pavor. Dirá depois que foi uma viagem horrorosa. Pudera. Um quarto de miligrama é uma dose e tanto de LSD – e os efeitos da substância são desconhecidos, pelo que Hofmann chega a pensar que irá perder o juízo ou morrer. Aos 37 anos, faz a primeira viagem de LSD da história, numa data assinalada a partir de 1960 como o Dia da Bicicleta.
            O cientista interroga-se sobre quanto a descoberta do LSD foi obra do destino ou fruto do livre arbítrio: Se o composto fosse descartado não haveria nenhuma história do LSD e considerando a sua descoberta no quadro de outras descobertas significativas do nosso tempo nos campos médico e técnico fica-se com a noção de que ele não veio ao mundo por acidente mas no âmbito de algum plano mais alto.
            Na década de 40 foram descobertos os tranquilizantes, que são os antípodas farmacológicos do LSD, porque escondem os problemas psicológicos enquanto o LSD os revela, tornando-os acessíveis ao tratamento terapêutico. Nessa época descobriu-se também o uso da energia nuclear e foi desenvolvida a bomba atômica. Comparando-as às fontes de energia e armas tradicionais, uma nova dimensão de ameaça foi atingida, o que em termos de energia agregada corresponde à da psicofarmacêutica quando se compara o poder da mescalina ao do LSD.

            Hofmann conclui que a coincidência poderá ter sido encenada pelo Espírito da Era: A descoberta do LSD poderia estar destinada a ser um poder mais alto a se erguer justamente numa era em que o predomínio do materialismo com todas as suas consequências estava sendo inferido e ser um psicofármaco iluminador no caminho para uma nova era espiritual.
 

                                                                                                                                      

 

 

 

 

 

 


            Mas o pensamento é servo da vida e a vida um joguete do tempo/ E o tempo que é senhor do mundo deve parar. Time Must Have a Stop: depois de Milton e Tennyson, Shakespeare é o inspirador do título-tema do novo romance em que o autor reflete sobre passado, presente e o futuro, para ele seriamente comprometido pelo contínuo repisar de erros do passado por um sistema político-religioso que faz com que a razão, o respeito pelos outros, os valores do espírito estejam nas fímbrias da vontade coletiva, que tem o vigor físico de uma divindade mas mentalidade de um delinquente de 14 anos.
            Questão que passa a ser central na vida e obra de Aldous Huxley: Em nome do que a sua Fé lhes diz do Futuro que sabem que o Progresso lhes trará ... os homens sacrificam a sua única possessão tangível, o Presente. Quais têm sido as consequências da recente mudança da atenção do homem Ocidental do passado para o futuro?, questiona-se e argumenta: Um progresso intelectual do Jardim do Éden para a Utopia e a Sociedade Sem Classes; um avanço moral e político da ortodoxia compulsória e do direito divino dos reis para o recrutamento militar e industrial obrigatório para todos, a infalibilidade do patrão político local e a deificação do Estado.
            Finda a guerra é publicado A Filosofia Perene, estudo dos principais textos religiosos do mundo, pioneiro pela abordagem transcultural das teologias com uma visão unificadora dos princípios em que elas se baseiam. Partindo da teoria de Richard Bucke pela qual a visão básica, ética e moral de todas as religiões é a mesma, Huxley discute o conceito de progresso pela ótica dos poderes político-religiosos estabelecidos e do Higher Common Factor, ou Fator Superior Comum – nova base para sua interpretação dos aspectos mais profundos da vida humana –, que será também o tema da introdução da edição americana da tradução por Prabhavananda e Christopher Isherwood do Bhagavad-Gita (Baghavad-Gita – The Song of God), outra coletânea dos textos sagrados hindus, publicada em 1954.
            Segundo o Gita na interpretação de Huxley a auto-abnegação pode ser atingida pela prática de duas virtudes pleni-abrangentes – amor e desprendimento, que é a mesma sagrada indiferença em que São Francisco de Sales nunca se cansa de insistir.
            A Filosofia Perene ensina ser desejável e mesmo necessário conhecer o Terreno espiritual das coisas, não apenas no interior da alma mas também no mundo exterior e, além do mundo e da alma, no seu outro-ser transcendente – no céu. É perfeitamente possível ser-se bons Cristãos, Hindus, Budistas ou Muçulmanos unidos em total acordo pelas doutrinas básicas da Filosofia Perene.
            Porque as máquinas poderiam tornar-se progressivamente mais e mais eficientes, o homem Ocidental passou a acreditar que homens e sociedades iriam automaticamente atingir um desenvolvimento moral e espiritual equivalente, mas a única via de escape da auto-necessidade auto-imposta de auto-destruição num mundo sem pré-requisitos intelectuais e espirituais para a paz é a apontada pelo Baghavad-Gita, talvez o mais sistemático testemunho escrito da Filosofia Perene.

            Em 1946 é publicado em Londres o livro de ensaios Ciência, Liberdade e Paz, em que o escritor se concentra nos instrumentos de controle e expansão do poder nas sociedades mais evoluídas do Ocidente na que caracteriza como a Era do Barulho – Barulho físico, barulho mental e barulho de desejo, com a tecnologia ao serviço de uma campanha de agressão ao silêncio, criando ânsia de lavagens emocionais a cada dia ou mesmo a cada hora.
            E como os novos meios de comunicação de massa vivem de publicidade, o barulho é levado do ouvido, pelos domínios da fantasia, do saber e das sensações, ao âmago da vontade e do desejo.
            Propagada pelo som ou impressa, toda comunicação publicitária tem apenas um objetivo – bloquear a vontade do silêncio pleno. Falta de desejo é a condição básica da entrega e iluminação. A condição básica do sistema de produção em massa em constante expansão e tecnologicamente progressivo é a ânsia universal. A publicidade é o esforço organizado para expandir e intensificar as obras dessa força que (como todos os santos e professores das mais altas religiões sempre ensinaram) é a principal causa do sofrimento e do mal-fazer e o grande obstáculo entre a alma humana e o Terreno Divino.

            Aldous escreve ao mesmo tempo a apresentação de uma nova edição de Admirável Mundo Novo, em que diz que, embora tristemente seguro de que no passado a sanidade foi fenômeno raro, está convencido de que ela pode ser alcançada no futuro. E por o ter afirmado em vários livros, e sobretudo por ter compilado uma antologia do que disseram os sãos sobre a sanidade e todos os meios pelos quais ela pode ser alcançada, um eminente crítico acadêmico disse considerá-lo um triste sintoma do desaire da classe intelectual em tempo de crise.
            Implicando isto, suponho, que o professor e os seus colegas são hilariantes sintomas de sucesso. Vamos então erguer um Panteão para os professores. Deveria situar-se entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa e do Japão, e sobre a entrada para o ossuário inscreveríamos em letras de mais de um metro estas simples palavras:

                                                    
           
Argumenta que ao escrever Brave New World baseou-se na idéia de um estado totalitário eficiente em que os todo-poderosos executivos dos chefes políticos e o seu exército de gerentes controlariam uma população de escravos sem precisar de os coagir, porque eles amariam a servidão.
            Enumera os métodos revolucionários pelos quais os cidadãos do seu mundo utópico globalizado foram domesticados e conclui: parece que a Utopia está mais perto de nós do que ninguém, há apenas quinze anos, poderia imaginar. Parece-me agora bastante possível que o horror que projetei para seis séculos depois nos caia em cima em apenas um século.

            O diretor dos laboratórios da Sandoz em Basiléia, Werner Stoll, publica em 1947 na Universidade de Zurique as conclusões das primeiras experiências de LSD no tratamento de pacientes psiquiátricos e com voluntários sem patologias diagnosticadas. Ao designar a droga Stoll usa o termo de Ludwig Lewin, panthasticum. Na sequência da publicação do relatório a Sandoz envia amostras do produto, sob a designação de Delisyd, a institutos de pesquisa europeus e norte-americanos, que começam a publicar os primeiros resultados de experiências com a droga dois anos depois, quando é lançado o novo romance de Huxley, Ape and Essence, e explode no mercado editorial o mais recente de George Orwell, seu antigo aluno na escola secundária de Eton.
            1984 fala de um mundo à primeira vista muito mais aterrorizante que o de Brave New World, porque numa espécie de ditadura do proletariado stalinista o Grande Irmão tudo vê e controla através de câmeras e todos os cidadãos são forçados à obediência não através de uma droga indutora de apaziguamento mas da força bruta. Mas em carta a Orwell o ex-professor ressalta: Acredito que até a próxima geração os líderes mundiais irão descobrir que condicionamento primário e narco-hipnose são mais eficientes como instrumentos de governo que porretes e prisões, e a lascívia do poder será totalmente saciada pela indução das pessoas a amar a servidão e não por forçá-las a obedecer através de açoitamentos e cacetadas.
            Morre Gandhi durante a realização de Ape and Essence e Huxley insere no livro-filme um depoimento sobre o antiherói da não-violência: Matamo-lo porque, depois de por breve (e fatal) período de tempo ter jogado o jogo político, recusara-se a continuar sonhando o nosso sonho de ordem nacional, de beleza social e econômica; porque tentara chamar-nos aos fatos concretos e cósmicos dos povos autênticos e à luz interior.

            Após trinta anos de viagens aos infernos da condição humana sob a tirania dos estados nacionais e clericais e da tecnologia Huxley, sem Dante ou Virgílio à cola, decide aprofundar a descida para descrever um estranho caso de possessão demoníaca coletiva perto de Toulon, no século XVII, em Os Demônios de Loudon. Mais uma amostra de como o poder clerical católico é a própria imagem acabada do Inferno que inventou.

                                                  
            Mas o que mais nos interessa aqui é o epílogo do livro publicado em 1953, em que Huxley analisa o uso generalizado de álcool, narcóticos naturais, estimulantes e alucinadores, os mais comuns substitutos da Graça, com que homens e mulheres têm tentado escapar da tormentosa consciência da miséria de serem eles mesmos.
          Para ele alterações mentais induzidas por drogas levam à estrada descendente, podendo acarretar as piores consequências e originar o desconforto presente e a viciação, degeneração e morte prematura, sendo todos e cada um deles venenos capazes de levar à auto-transcendência:
            Para o consumidor de drogas, o momento de percepção espiritual, se alguma vez acontece, cedo dará lugar ao estupor, frenesi ou alucinação subhumanos, seguidos de uma ressaca horrível e, a longo andar, de um permanente e fatal prejuízo à força da saúde física e mental. Ocasionalmente poderá ocorrer uma singular anestésica revelação, mas que algo do gênero aconteça jamais justifica o recurso a métodos químicos de auto-transcendência.
            Huxley baseia-se ali e então nos mesmos argumentos dos formadores de opinião hipócritas ou ignorantes dos efeitos das drogas naturais ou sintetizadas a partir de matrizes geradas pela Mente Vegetal do planeta no homem. Mas o texto é também um documento histórico por se tratar da máxima expressão do que o Fato pode produzir em mudança de conceitos numa cabeça livre, aberta e despreconceituosa em relação a aspectos da vida do homem e da natureza em que, após a experiência temerária de todo grande explorador - maior ainda porque é corajoso mas não louco, e ao se lançar à empreitada apóia-se em informações fundamentadas de quem entende do assunto -, acaba por vislumbrar não o mal antevisto mas elementos catalisadores do bem-estar pessoal e coletivo. É a página inicial da prova eventualmente mais palpável de que ele foi de fato um dos homens mais livres, corajosos e inteligentes do seu tempo.

    No primeiro relatório científico sobre o LSD Werner Stoll disse haver semelhanças entre a estrutura química do novo composto e a da mescalina. Três anos depois da sua publicação uma dupla de pesquisadores emite o primeiro relatório norte-americano sobre o emprego da droga na terapia de distúrbios mentais. O termo mais usado pelos especialistas para definir as suas funções é psicotomimético, porque para eles a grande novidade da droga é criar artificialmente nos pacientes efeitos similares aos distúrbios que apresentam em condições normais, numa espécie de mímica da demência. Os relatórios seguintes descrevem os efeitos da aplicação de LSD no corpo humano em doses diversas, comparam a nova droga com a panacéia de uso corrente e discutem o seu emprego sobretudo no tratamento da esquizofrenia.
     O médico Robert Hyde é um dos primeiros cidadãos americanos a testar a droga alucinógena. Hyde prontificou-se a servir de cobaia a um colega, o psiquiatra Max Rinkel, que pretendia comprovar se ela realmente enlouquece as pessoas por algumas horas. Após uma série de outros testes com pacientes, em 1951 Rinkel apresenta na Convenção da Associação Psiquiátrica Americana um relatório em que afirma ter encontrado notáveis semelhanças entre as psicoses-modelo induzidas pelo LSD e a esquizofrenia.
            Os pesquisadores criaram uma série de testes de personalidade a que submetem os pacientes durante as sessões de loucura simulada e em que irão insistir apesar de a maior parte das pessoas submetidas a pesquisa reagir de forma negativa, achando-os aborrecidos, estúpidos e irrelevantes. Para Rinkel isso se deve a que, durante as experiências, eles parecem mais interessados nos seus próprios sentimentos e experiências interiores do que em interagir com o examinador, indicando um elevado grau de auto-centramento. O que anos depois seria explicado por outro estudioso da seguinte forma:
            Se eu fizesse um teste de QI com vocês durante a administração da droga e uma das paredes se abrisse dando-lhes uma visão do glorioso resplendor dos sóis da galáxia central e num outro plano a vossa infância começasse a desbobinar perante o vosso olhar interior como um filme colorido em três dimensões, certamente o teste de inteligência não daria bom resultado.
 

                                                                                                                                        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


            Por essa altura Aldous Huxley assesta a lupa num artigo dos psiquiatras britânicos Humphrey Osmond e John Smythies, que trabalham num hospital de Saskatchewan, no Canadá.
            Osmond e Smythies pesquisam o uso de mescalina no tratamento de distúrbios mentais e tentam há anos identificar as possíveis causas orgânicas da doença, que é objeto de pesquisas infrutíferas desde o final do século XIX.
            Descobriram num livro sobre o peiote que a fórmula molecular da mescalina tem semelhanças com a da adrenalina. Passaram então a ponderar sobre a hipótese de que em situações de stress moléculas de adrenalina se transformem num composto químico ainda mais parecido com a mescalina. Hipótese improvável dado que quando começaram a pesquisa não havia indícios de que, a exemplo de algumas plantas, animais fossem capazes de produzir alterações no seu metabolismo. Para aprofundar o estudo Osmond tomou 400 miligramas de mescalina. O resultado das pesquisas foi resumido no artigo Esquizofrenia: Uma Nova Abordagem, publicado em abril de 1952, em que afirmam que quanto maior a quantidade de adrenalina gerada em estados de ansiedade maior é a quantidade produzida pelo organismo de um alucinogênio endogâmico chamado adrenocromo. Esta substância altera a percepção e aprofunda o nível de estado psicótico do cérebro, cuja última defesa é desligar-se da realidade.
           Em Fevereiro de 1953 o Hibbert Journal reproduz um artigo em que a mesma dupla afirma que ninguém poderá ter verdadeira competência para tratar da esquizofrenia sem vivenciá-la, o que se tornaria bastante possível tomando-se mescalina. Smythies e Osmond citam o phantasticum lewinii também ao arriscar uma nova teoria da mente baseada em dois pontos: o desenvolvimento de estudos comparativos do design e funcionamento dos computadores com a estrutura e o funcionamento do cérebro e os últimos avanços da parapsicologia, que para eles levaram à consolidação do princípio de que a percepção Extra-sensorial é um fato científico.
            Os psiquiatras surpreendem Huxley com sua nova chave de interpretação da doença e ao associá-la a uma droga que poderá levar um indivíduo artificialmente aos mundos descritos por William Law, Jacob Boehme e outros filósofos perenes. Escreve-lhes para cumprimentá-los pelo trabalho e comunicar-lhes o seu empenho em testar a mescalina no âmbito das suas pesquisas sobre misticismo e a psique humana e convida-os para hospedarem-se em sua casa quando quiserem ir a Los Angeles.
            Huxley e Heard perfilham a teoria de Henri Bergson e do filósofo inglês C. D. Broad pela qual o cérebro possui um mecanismo que funcionaria como um filtro de dados sensoriais considerados inúteis para o dia-a-dia, reduzindo o uso da capacidade mental, e tentam por todos os meios conhecidos encontrar formas de driblar a ‘válvula redutora’, que segundo Bergson seria o maior obstáculo para que o homem atinja um estágio superior de evolução. E também, pensam eles, para que tenha acesso à iluminação mística.
            Artistas e místicos com dotes excepcionais conseguiriam ultrapassar o obstáculo por meios naturais ou através de técnicas de exercícios físicos e mentais desenvolvidas no Oriente, que não seriam mais que ferramentas para abrir a dita válvula. Huxley busca a todo custo operar uma profunda transformação na sua mente. O que nunca imaginou desde a época em que fazia as pesquisas para modelar o soma e até ler o artigo de Osmond e Smythies é que o atalho para uma experiência que por meios naturais só se completaria após muitos anos de auto-controle e disciplina pudesse partir da etnofarmacologia.

            Huxley muniu-se de um gravador para registrar sua primeira experiência com a droga. Na manhã de 4 de Maio de 1953 Humphrey Osmond dissolve 400 miligramas de cristais de sulfato de mescalina em meio copo d’água e, muito apreensivo, dá-o ao escritor. Desde a partida do Canadá Osmond não via com bons olhos a possibilidade, ainda que remota, de ser o homem que levou Aldous Huxley à loucura. Pensava na estranheza que lhe causara uma nota do escritor na carta de confirmação do convite sobre a sua expectativa em relação à experiência:
            No atual regime de desleixo a grande maioria dos indivíduos perde no curso da sua educação toda a abertura para a inspiração, toda a capacidade de apreender a existência de outras coisas além das enumeradas no catálogo Sears-Roebuck; será esperar demais que haja um dia um sistema de educação planejado para dar resultados, em termos de desenvolvimento humano, equivalentes ao tempo, dinheiro e esforço despendidos? Em tal sistema de educação a mescalina ou outra substância química poderia ter a função de possibilitar aos jovens provar e ver o que aprenderam de segunda mão, ou diretamente mas a um nível de mais baixa intensidade, nos escritos de religiosos ou em obras de poetas, pintores e músicos.
            Até receber a carta, embora já tivesse pressentido que talvez pudesse ser usada para outros fins, Osmond pensara na mescalina apenas como um mímico da demência, capaz de reproduzir cada um dos maiores sintomas de esquizofrenia aguda, nunca como catalisador de mudança da consciência e menos ainda como ferramenta educacional. E como que a reforçar essa perspectiva inusitada Huxley acaba de dizer-lhe que espera atingir o mundo do heróico do que foi talvez o mais delirante poeta inglês, William Blake!

            How absolutely incredible! - exclamou o escritor meia hora depois de ingerir a droga, quando olhou para o vaso de flores sobre a mesa e deu-se conta de uma mudança de percepção sensorial e visual. As cores das flores estavam muito mais vivas e as próprias flores pareciam vibrar. Ao focá-las, as luzes douradas do escritório pareciam ondular. Ao cerrar as pálpebras era como se o seu cérebro projetasse um filme de animação em que figuras geométricas mudavam lenta ou abruptamente de cor e forma. Até que atravessa uma tela ou algo parecido – como uma porta que se tivesse aberto na parede - e passa a ver o que Adão viu na manhã da criação – o milagre, momento a momento, da existência nua.
            Como se nunca, mesmo antes da cegueira, tivesse tido olhos e depois óculos para ver como deveríamos ver, como as coisas são de fato, como repete de vez em quando ao gravador entre descrições dos objetos em volta nos contextos alterados a que irá fazer referência mais tarde - a Eternidade numa flor, a Infinidade numa cadeira de quatro pernas e o Absoluto nas pregas de um par de calças de flanela!
           Apercebe-se também que palavras e conceitos verbais tornam-se supérfluos, porque sente as emoções perpassarem cada célula do seu corpo em sensações intraduzíveis por palavras, e menos ainda de maneira automática. Irá constatar entretanto o alto grau de condicionamento de uma cultura dominada pela contextualização verbal de tudo – ou quase: devemos preservar e se necessário intensificar nossa capacidade de olhar o mundo diretamente e não através do processo algo opaco dos conceitos.
            Ao assomar o jardim, quando a mudança de ambiente dá-lhe a súbita sensação de deslocamento, tem um surto de paranóia e de loucura. Mais tarde, ao chegarem à rua, diverte-se muito ao ver os carros que passam e com a idéia de que são o retrato falado do homem do século XX. Descem a colina a caminho de um drugstore. Os novos óculos de lentes poderosíssimas dão-lhe uma visão translúcida e mais abrangente: as palmeiras alinhadas ao lado das ruas na área de Sunset Boulevard tremem às margens do sobrenatural e as casas nas colinas para os lados de Hollywood lampejam ao sol de fim de tarde como fragmentos da Nova Jerusalém. Ao aproximar-se do drugstore apercebe-se de que a transfiguração das coisas é proporcional à distância: quanto mais perto, mais divinamente outra coisa. Huxley sente-se como um guri a quem tivessem dado um telescópio e, como que a seguir sugestão antiga do avô ultra-racionalista, vê-se sentado diante dos fatos como uma criança.
            O mystique manqué não terá conquistado ainda o reino do misticismo mas começa a apossar-se do domínio do fato objetivo. Escreverá depois que o homem que volta pela Porta na Parede em que entrou no final da manhã nunca mais será como o que saiu. Realiza enfim o antigo ideal de tirar férias da realidade – de um mundo de egos, de tempo, de julgamentos morais e observações utilitárias, o mundo de auto-afirmação, presunção, palavras sobrevalorizadas e noções idolatricamente adoradas. Ou de ver a realidade por outros prismas.
            O infatigável Huxley não perde tempo e apressa-se a escrever um ensaio sobre a experiência intitulado As Portas da Percepção a partir do aforismo de Blake se as portas da percepção forem abertas tudo aparecerá ao homem como é, infinito.
            A mescalina é a mais extraordinária e significativa experiência de que o ser humano dispõe deste lado da Visão Beatífica, porque aponta para um grande número de problemas filosóficos, ilumina intensamente e levanta toda a espécie de questões nos campos da estética, religião, teoria do conhecimento, escreveu ao seu editor.
            O místico frustrado não encontrou ainda a via excelsa para a Iluminação: Agora conheço a contemplação no seu ponto mais alto. No seu ponto mais alto, mas não ainda na sua total integridade, assinala no ensaio, publicado em Fevereiro de 1954.
            A primeira experiência mostrou-lhe que a mescalina poderá não levar à Iluminação ou Visão Beatífica, mas sendo uma dádiva da Natureza (de Deus?), ainda que não necessária à salvação, porém potencialmente útil, deve ser aceita com gratidão por ser uma experiência de valor inestimável para todos e especialmente para o intelectual.
            Os princípios de graça e das drogas como suas substitutas artificiais e da importância da experiência visionária, ainda que não mística, para a expansão da consciência e consequente melhoria das condições de vida da humanidade passam a estar no centro da sua filosofia de vida.
            Na sequência do posfácio de Os Demônios de Loudon, que o deve ter feito sentir os olhos arderem, Huxley faz questão de distinguir entre drogas maléficas, porque viciantes, e eventualmente apenas benéficas, porque delas só se irá tirar lições as mais profundas sobre a vida e o seu universo sem limites. Faz questão também de alertar os leitores para o fato de as drogas poderem levar tanto ao céu como ao inferno, dependendo de quem as toma e como o faz. Deve-se tomá-las – prescreve - de boa saúde, em condições apropriadas e com o espírito adequado.
            O neófito Huxley lança a base da teoria que levará à consolidação da carreira de ‘guru do LSD’, o seu futuro amigo e de certo modo ovelha negra da família dos pioneiros da era psicodélica Timothy Leary. O set and setting (postura e cenário) learyano afinal nada mais é que a súmula hiper-sintética do preceito básico huxleyano para qualquer explorador da mente que se preze.
            Até ele e Anaïs Nin no Volume V dos seus Diários quase sempre os escritos sobre drogas estavam limitados ao campo da poesia ou da prosa poética de cariz abstrato, surreal ou hiperrealista e a sua clareza e objetividade são ainda mais notáveis pela dificuldade de se expor e narrar certos conceitos e estados de percepção na língua inglesa que, quando se trata de mundos interiores – quase alienígenas para o homem ocidental -, como diz Gerald Heard, é muito mais limitada que o sânscrito, que teria quarenta termos apenas para definir estados alterados de consciência, tendo já portanto uma linguagem mais afeita à expressão da visão cósmica do mundo.

            A reação da crítica e dos intelectuais a As Portas da Percepção é de perplexidade ou mesmo indignação. O Prêmio Nobel de Literatura Thomas Mann, que em tempos teve-o como uma das mais belas florescências da intelectualidade ocidental, especialmente nos seus ensaios, tomou-a como a sua mais audaciosa expressão de escapismo, que nunca pude apreciar no autor. O misticismo era apesar de tudo razoavelmente honroso, mas chegar agora às drogas é para mim assaz escandaloso, escreveu.
            Huxley lamenta que outros escritores possam tecer loas ao álcool (responsável por cerca de dois terços dos acidentes de automóvel e três quartos dos crimes violentos) enquanto alguém que se aventura a sugerir que possa haver atalhos para a auto-transcendência menos danosos é tratado como um perigoso viciado em drogas e um cruel perversor da humanidade descerebrada.

            Maria Nys é vítima de um tumor maligno fulminante e morre em Fevereiro de 1955. Nas suas últimas horas de vida, com as lágrimas a rolar-lhe pela face mas a voz firme, Aldous intercala recordações da vida aventurosa do casal nos últimos trinta anos com a leitura de trechos do Bardo Thödol, o Livro Tibetano dos Mortos, e o refrão Vai para o interior da luz. Para Gerald Heard o modo sereno como o amigo lida com a morte da mulher é a prova definitiva da sabedoria por ele conquistada graças à mescalina.

           A partir da experiência com mescalina e da morte de Maria em pouquíssimo tempo a sua vida dá mais uma reviravolta. Mas muda somente por uma ou... terão sido várias experiências a mudá-lo? Nunca se saberá ao certo porque a discrição em torno do assunto – trata-se, tudo somado, de ao menos uma droga cujo uso é autorizado apenas para fins terapêuticos – leva a não haver duas fontes concordantes em relação à frequência com que Huxley passa a tomá-la(s). A maioria das fontes diz que tomou mescalina duas vezes em 1955. Uma delas que também tomou LSD duas vezes naquele ano. Outra garante que até a publicação de Céu e Inferno, em 1956, tomou drogas psicotomiméticas ou alucinógenas uma dúzia de vezes, além de ergine, sementes de ipoméia, carbogênio (mistura de dióxido de carbono com oxigênio) e outras. Quem quer que o acompanhe nas experiências destaca a seriedade com que ele as vive. Segundo um amigo o clima não é do tipo vamos tomar um pouco de LSD como quem diz vamos tomar um pouco de whisky e soda.
           Poucas ou muitas vezes que Huxley tenha passado por aquela Porta já não é o mesmo de antes – e a intelligensia européia aposta em que agora sim é que ele vai parar no manicômio.
           Uma pista para se entender em que medida os hábitos do escritor foram alterados é a que se abre em 1955, quando Humphrey Osmond apresenta-lhe um novo conhecido que passará a ter papel determinante na história de Huxley e de Hollywood, Alfred M. Hubbard, dono de uma empresa de produção de urânio do Canadá que se interessou pelo trabalho do psiquiatra inglês com mescalina no tratamento de distúrbios mentais e fez questão de conhecê-lo.
           Não se saberá jamais ao certo o que há de verdade ou mentira na história do Capitão Al Hubbard. É ele quem a narra e nunca da mesma maneira a duas pessoas diferentes. Seja qual for a verdade o seu percurso é dos mais bizarros, dando à biografia de Huxley aspectos anedóticos.

 

            Hubbard caiu do céu: a falta de abastecimento de alucinogênios tornara-se um problema de difícil solução para Huxley, que com ele experimenta pela primeira vez a grande sensação dos laboratórios de pesquisa de meio mundo.
            Hubbard permite-lhe atingir um patamar superior de compreensão de si mesmo e do mundo, o que se terá acentuado quando pediu a Laura Archera, psicoterapeuta e cortadora de filmes, como diz no jargão de Hollywood, que conheceu em 1948, viu pela última vez quando esteve de férias na Itália com Maria em 1954 e a quem telefonou num momento de maior solidão, que o acompanhasse numa nova experiência com LSD, e finalmente atingiu a Oneness, a plenitude do ser unido ao Todo e a Tudo. O que entrou pela porta fechada foi a realização, a direta, total percepção, do interior, por assim dizer, do Amor como o fato cósmico primordial e fundamental. As palavras, claro, têm um quê de indecência e devem necessariamente parecer falsas, soam a tolice. Mas o fato subsiste – descreveu em carta a Osmond.
            Aldous e Laura casam-se em 1956, ano de publicação da sua tradução de L’Après Midi d’un Faune de Stephane Mallarmé e de Céu e Inferno.

            A maior parte dos que usam mescalina experimenta apenas a parte celestial da esquizofrenia. A droga traz inferno e purgatório apenas àqueles que tiveram um caso recente de icterícia ou sofrem de depressões periódicas ou de ansiedade crônica.
            Lição básica de que Huxley parte em Céu e Inferno, que ao que escreve é uma tentativa de sistematizar os resultados da nova compreensão das questões com que lida desde que conheceu Gerald Heard e que diz ter atingido a partir dos primeiros contatos com as drogas psicodélicas.
    Como escrevera em The Doors of Perception, a maioria dos homens e mulheres levam vidas, se vistas pelo pior lado, tão dolorosas, e quando vistas pelo lado melhor tão monótonas, pobres e limitadas que a ânsia para escapar, o desejo de transcendência de si mesmos, ainda que por breves momentos, é e tem sido sempre um dos maiores apetites da alma. História que nos conta em Heaven and Hell com sensibilidade e saber próprios de quem, como poucos, não divisa limites no desejo de ampliar o seu universo de referências culturais e existenciais em regime permanente.
            Pilar do psicodelismo, nas passagens sobre os mecanismos de entretenimento como a lanterna mágica e dos fogos de artifício ao estroboscópio Céu e Inferno prefigura um prontuário para a arte de melhor viajar com o auxílio suplementar de objetos visionários, sendo assim também pioneiro de alto coturno num gênero que irá fazer correr muita tinta nos anos 60.

 

Rumo às ilhas da Utopia - Da Teoria à Prática Ou Vice-Versa

 Trecho de   Era uma vez a revoluçã  capítulo 4 de      

               scenas ambientais

 

    Um grupo de jovens formado por um publicitário muito bem sucedido e esposa, que fizeram pé-de-meia do salário do emprego do homem numa multinacional do ramo, de que ele pura e simplesmente se demitiu, um jornalista em licença sem vencimento de uma empresa ocupada e quase falida, ex-militante da LUAR, e uma operadora da Marconi (uma companhia telefônica) partem de trem para Paris rumo à India, onde pretendem permanecer por tempo indeterminado. Foto de grupo de dezenas de amigos à saída do prédio, os quatro com excelentes mochilões, camisetas, agasalhos, jeans e calçados novos em folha. Freaks, sem dúvida, porque protagonistas de um autêntico drop-out tendo tudo para ficar in. Mas nada a ver com freaks, ou então hippies de butique a entrar numa de ir para a India em onda mística do tipo que já não se usaria desde o caso Maharishi Iogi-The Beatles. Mas a onda também é essa ainda em meados da década de 70, renovada através de figuras polêmicas como o guru Rajneesh e que se reforça no grupo ao som de músicos que exploram o encontro de múltiplas culturas, como Collin Walcott e Oregon, Devadip Carlos Santana e Alice Coltrane no tributo ao guru Sri Chinmoy em Illuminations, Mahavishnu John McLaughlin em Shakti, em viagem transplanetária a reproduzir também o gosto médio da juventude contemporânea com coisas para que torço o nariz como Pink Floyd, hoje em dia clássico de supermercado, e os mais palatáveis mas ainda assim medianos Supertramp (quem diria, desde o Coliseum...), que em Crises?... What Crises?!... fazem uma digressão pelo mundo tormentoso da esquizofrenia.

    Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos pelo SG Filtro – é uma das melhores tiradas do Bom Gigante, filho de um artista plástico que se sai melhor que a encomenda no quesito perfeccionismo, com extraordinário dom para relações humanas, quase sempre em público de excelente humor e disposição, porque quando não está bem, como bom filho único, rapidamente se retira de forma peremptória. É na Ricardo Espírito Santo que se fuma as cônicas e os beises mais bem confeccionados da cidade, apertadíssimos para se ser obrigado a puxar muito forte ao ponto de quase não se avivar a chama e inalar bem o fumo para os pulmões. Graça e simpatia do anfitrião – que, aparentemente arredio, tem uma rara habilidade para conquistar as pessoas - são contagiantes. E os serões na sua casa estão entre os mais divertidos da cidade em que se vive entre uma aparente normalidade e o caos político-administrativo.

 

                                                   La Victoire / Magritte

 

    De repente lá está ele entre Pauwels, Castañeda, Lobsang Rampa, os transes de Teresa Dávila e João da Cruz e contatos com outras fontes de luz, erzats, bodhisattvas, jivanmuktas, tergiversando e fazendo a platéia gargalhar numa leitura alucinógena da história de Portugal. A base científica para uma tal proposta está exposta de sobejo por Huxley a partir das conclusões do ‘eminente filósofo de Cambridge Dr. C. D. Broad’ por ele citadas em Heaven and Hell de que deveríamos levar mais a sério as teorias de Bergson sobre memória e percepção dos sentidos. Broad sugere que a função do cérebro e do sistema nervoso é essencialmente eliminatória e não produtiva.

     Todo indivíduo é em cada momento capaz de recordar tudo o que lhe aconteceu e de se aperceber de tudo o acontece em qualquer lugar do universo. A função do cérebro e do sistema nervoso é a de prevenir-nos contra a possibilidade de sermos esmagados e baratinados por essa massa de conhecimento em grande parte inútil e irrelevante, barrando a maior parte do que, de outro modo, nos aperceberíamos e lembraríamos a qualquer momento, e deixando entrar apenas essa muito pequena e especial seleção que poderá ter utilidade prática em nossa vida. De acordo com essa teoria, cada um de nós é potencialmente Mind at Large (de mente aberta a tudo). Mas, por sermos animais, o nosso objetivo é o de sobreviver a todo custo. Para que a sobrevivência biológica seja possível a Mind at Large tem de ser afunilada através da válvula de redução do cérebro e do sistema nervoso. Pelo aprendizado de linguagens a maior parte das pessoas na  maior parte do tempo tem apenas consciência do que lhes chega através da válvula de redução pelo que foi estatuído pela linguagem local como genuinamente real. Alguma pessoas entretanto parecem ter nascido com uma espécie de by-pass, ou desvio, que engana a válvula de redução. Em outras, by-passes temporários devem ser obtidos espontaneamente ou através de ‘exercícios espirituais’ propositais ou hipnose, ou ainda por meio de drogas. Que não é que abram totalmente à Mind at Large, apenas um pouco mais que o normal, e acima de tudo a algo diferente do material utilitário cuidadosamente selecionado que as nossas mentes espartilhadas têm como uma completa, ou ao menos cabal, imagem da realidade.

     Huxley volta à Idade Média, quando em metade do ano as pessoas não comiam frutas e vegetais e consumiam muito pouca proteína animal. No início da primavera a maior parte sofria de escorbuto por falta de Vitamina C e de doenças provocadas por escassez de complexo B. A consequência inicial de uma dieta inadequada é um decréscimo da eficiência do cérebro como instrumento de sobrevivência biológica. Com o passar do tempo ele ficava sujeito a  visões; porque quando a válvula de redução cerebral tem sua eficiência reduzida a maior parte do (em termos biológicos) material inútil flui para a consciência ‘lá de fora’, na Mind at Large. Some-se a isto os 40 dias de abstinência da Quaresma, num período do auge do fervor religioso e de menor ingestão de vitaminas. Êxtases e visões eram o pão nosso de cada dia, concluiu o bravo Huxley.

     Daí a D. Juan na História de Portugal vai um passo:

     - D. Fuas Roupinho cruza léguas e  léguas no lombo do cavalo tendo por alimento básico pão de centeio. Vá que o pão já não fosse lá muito fresco ou que o centeio armazenado já estivesse a criar fungo, põe-lhe mais uns dias de jornada em cima e o fungo do centeio nos dará o quê mesmo? A ergotina fermentada! A essência do ácido lisérgico, alucinação pura! Que espanto então que tenha visto lá no alto a Senhora de Nazaré?!... Assim também se explica as alucinações dos lapônios com os famosos cogumelos de chapéu vermelho com pintas brancas, Amanita muscaria, ou visgo de mosca, que lhes deu até para ver Santa Claus voando num trenó puxado por renas!

      ‘Drogar-se’ é, neste capítulo das nossas vidas, algo muito diferente de sessões de perdição ou desatino. Ao contrário, encontro com sigo mesmo e com os outros, além de excelente fonte de relaxamento.

 


            Sessenta anos é uma idade em que normalmente se faz o balanço de uma vida, preparando-se para o seu desfecho. Mas o escritor faz nova inversão de rota sem temer pela reputação construída em três décadas como um dos mais famosos e respeitados intelectuais do seu tempo e passar a ser encarado como um louco visionário.
            Não dá para ver Aldous Huxley destacado do contexto em que vive, como normalmente se faz. Aos 62 anos Huxley está na mesma passada – e como vidente também alguns passos à frente – da América, que mudou profundamente no pós-guerra. Quando ele já há muito fala de transcendentalismo e começa a falar de drogas, entre os best-sellers americanos encontram-se os livros de D. T. Suzuki sobre zen budismo, com uma sagaz visão de como os americanos poderão ser atraídos para aquela filosofia de vida, The White Negro, em que o jovem astro da literatura Norman Mailer expõe as bases ético-existenciais de um novíssimo substrato populacional, minoritário mas em franca expansão, que diz chamar-se hipster, Um Apanhador no Campo de Centeio, de um pupilo de Suzuki, J. D. Salinger, em que é narrado um fim de semana alucinado de um adolescente, e os livros em que Jack Kerouac anuncia que o hipster de Mailer quer ser beat, por ser aquele que pretende ter a Visão Beatífica do mundo e do chamado grande sonho americano.
            Em 1956 o fenômeno Elvis Presley escandaliza a América com seu meneio de ancas e o rock’n’roll e nas caves de São Francisco músicos negros e brancos, também sob influência de drogas, expandem os horizontes ilimitáveis do jazz com o novo estilo West Coast.
            A América não é mais a mesma do imediato pós-guerra e se, apesar da estatura física e intelectual, a máquina conseguisse tirar uma sua foto de corpo inteiro o que se nos revelaria, por incrível que pareça, seria um jovem escritor de origem inglesa mas decididamente americanizado, com uma visão também americana da vida e do mundo. Ou porque não, para resumir e indo à essência dos fatos, um jovem escritor americano - sendo isto precisamente o que mais se lhe recrimina nos meios intelectuais ingleses: ter-se deixado ficar na América e deixado que ela lhe desse a volta à cabeça. O gentleman aristocrático inglês de quatro costados não poderia ser um rock’n’roller mas é já decididamente beat pela forma como escreve e fala para uma América em convulsão, cuja população mais jovem já não quer mais saber apenas e só de subir na vida, realizar-se financeiramente e viver o grande sonho dos solitários subúrbios arborizados da prosperidade material, o que é patente também no livro de poemas Howl, de Allen Ginsberg, que pela turbulência e contundência da linguagem foi alvo de um clamoroso processo judicial.
            Como relator de um simpósio sobre drogas psicodélicas realizado em Atlantic City no congresso da Associação Americana de Psiquiatria de 1955, Huxley falou quase da mesma forma dos jovens de uma nação bem alimentada mas metafisicamente famintos, em busca de visões beatíficas no único caminho que conhecem, o das drogas, e como James Dean, um dos ícones da era, mas obviamente muito mais articulado, fez questão de lembrar aos adultos que o mundo verdadeiro é muito diferente do universo deformado que criaram para si mesmos através de preconceitos condicionados pela sua cultura. Como que possuído por um permanente espírito de contradição, e tal como nos ruidosos anos 20, o míope Huxley teima em enxergar além das aparências de bem-estar de progresso e paz do pós-guerra de guerras na Indochina e macartismo e alertar para cada aspecto negativo da falta de planejamento do desenvolvimento industrial. É um dos arautos da crescente onda de rebeldia contra os mesmos valores caducos, ainda que de feições alteradas, que combateu na juventude.
            Parece às vezes enrodilhado num transe de ioga. Como no congresso dos psiquiatras de Atlantic City, em que começou um discurso dizendo: Aqui estou eu nesta Cúpula de Prazer, flutuando no meio de uma onda. Talvez estivesse apenas de gozação com os Rapazes do Eletrochoque, os Clorpromazinadores e as 57 Variedades de Psicoterapeutas que lhe causam profunda repugnância.

            Se por um lado é apartado do universo da intelligensia européia, a partir da publicação de As Portas da Percepção Huxley passa a estar no centro das atenções num universo paralelo, recebendo uma enormidade de convites para realizar palestras e conferências em universidades e institutos de pesquisa. No seu currículo passa a constar até um seminário sobre parapsicologia numa universidade americana.
            Após a primeira experiência com mescalina desenvolveu um projeto de certo modo relacionado com as reformas no sistema de ensino e formação dos indivíduos que preconizava desde a primeira juventude, baseado no princípio de que o valor ético, sociológico e espiritual da experiência visionária consiste em que, sendo bem explorada, resulte numa mudança importante e significativa no modo de consciência e talvez também em uma mudança de comportamento ou no sentido do bem.
            Planejou introduzir de forma descontraída à mescalina uma centena de cientistas, artistas e filósofos e usar os seus relatos para avaliar a melhor e mais segura maneira de empregar essa ferramenta de expansão mental em projetos de desenvolvimento humano.
            Apresentou o projeto à Fundação Ford, que recusou-se a financiá-lo, assim como outras instituições a que o propôs.
            Boa parte das suas colaborações para publicações periódicas é dedicada a esse tipo de questões, o que o leva a ser visto sobretudo como um advogado dos alucinogênios. Ou dos psicodélicos, termo que ajudou a cunhar numa troca de correspondência com Osmond, quando manifestou desagrado pelo uso de uma expressão médico-psiquiátrica de significado limitado à utilização de drogas como indutoras de psicoses-modelo ou de alucinações e excluindo os seus efeitos sobre os relativamente sãos. Ao tentar descrever uma experiência de LSD recorre à rima:
Para tornar este trivial mundo sublime
Tome meia grama de fanerotime
- o neologismo fanerotime derivando de um termo grego com o significado de tornar a alma visível. Mas Osmond não se dá por satisfeito e responde nos mesmos termos e à altura:
Para contemplar o inferno
Ou fazer um vôo angélico
Tome uma pitada de psicodélico
- cunhando afinal o termo a partir da junção de outras duas palavras gregas: psyche (mente), e delos (o que manifesta) - o que manifesta a mente.
Explicou Osmond:
            Até aqui o nosso interesse em drogas psicotomiméticas tem sido psiquiátrico e patológico mas os nossos antepassados estavam interessados nestas coisas de pontos de vista muito diferentes. Através de diversas técnicas, das danças dos dervishes à contemplação oratória, do confinamento solitário na escuridão à inalação de ar carbonizado no oráculo Délfico, de mascar peiote à fome prolongada, os homens perseguiram ao longo de séculos certas experiências que consideraram mais valiosas que todas as outras.
            Os que tiveram este tipo de experiências sabem e os que não as tiveram não podem saber e, o que é mais, os últimos não estão em posição de dar uma explicação útil. Ela tem sido procurada e estudada desde tempos remotos e assumiu papel relevante no desenvolvimento da arte, religião, filosofia e até da ciência. Sistemas como o ioga brotaram dela.
            Os psicanalistas pensam que suas idéias não podem ser completamente entendidas sem uma análise pessoal. O telescópio mudou toda a nossa idéia do sistema solar e revolucionou a navegação. Os agentes psicotomiméticos são parecidos com os radares telescópicos agora em construção para varrer as profundezas do espaço exterior e invisível.
            Eles exploram uma pequenina porção de um enorme vácuo. Levantam mais questões que as respostas que oferecem e para entendê-las temos de inventar uma nova linguagem. O que aprendemos não é tranquilizante e nem sempre compreensível. Como astrônomos, todavia, temos de mudar o nosso pensamento para explorar as potencialidades dos novos instrumentos.

            Palestras, conferências e artigos evidenciam a busca incessante por Huxley da Clara Luz do Vácuo, do Todo, do Terreno Sagrado ou do Céu na Terra, a sua preocupação em distinguir drogas saudáveis das danosas e em propagar a convicção de que, se bem exploradas, a partir de um trabalho sério sobre os seus efeitos e forma de aplicação, elas poderão servir para a elevação do homem a patamares superiores de compreensão de si mesmo e do universo.
            A maior parte de nós funciona a cerca de quinze por cento da capacidade mental. Como elevar nossa lamentavelmente baixa eficiência um degrau acima? Existem dois métodos disponíveis – o educacional e o bioquímico. Poderemos pegar em adultos e crianças como são e dar-lhes uma aprendizagem muito melhor que a que lhes damos. Ou, por meio de métodos bioquímicos apropriados, transformá-los em indivíduos de nível superior.
            A um custo fisiológico e social negligentemente baixo em relação ao do uso do álcool e de opiáceos o LSD produz auto-transcendência em duas vias - introduz o utilizador no Outro Mundo da experiência visionária e dá-lhe o sentido de solidariedade para com seus companheiros adoradores, para com os seres humanos como um todo e para com a natureza das coisas.
            Surtindo efeito em doses incrivelmente reduzidas o LSD diminui as barreiras entre o consciente e o subconsciente e permite ao utilizador olhar com mais profundidade e compreensão para o interior dos recessos da própria mente.
           
Sobre a interminável polêmica com setores religiosos que condenam a sua apologia do ‘misticismo instantâneo’ escreve: Os que se ofendem com a idéia de que engolir uma pílula pode contribuir para uma experiência genuinamente religiosa deverão recordar que todas as mortificações normais - o jejum, a vigília voluntária e a auto-tortura - que os ascetas de todas as religiões infligem em si mesmos com o objetivo de adquirir mérito, são também, tal como as drogas alteradoras da mente, poderosos dispositivos para modificar a química do corpo em geral e o sistema nervoso em particular.
            O imediato envolvimento do escritor como articulista na causa da divulgação de aspectos relacionados à experiência extra-sensorial através de substâncias alteradoras da consciência é evidenciado pela publicação na edição de Janeiro de 1954 da revista Life de um artigo intitulado A Case for ESP, Pk and Psi, estando ESP para percepção extra-sensorial e Pk para peak (pico), um dos aspectos fulcrais da terapia com o auxílio de LSD que começa a ser testada por psicólogos, psicanalistas e psiquiatras como Abraham Maslow.
            O principal objetivo da terapia psicodélica é o de criar as melhores condições para o paciente experimentar a morte do ego e a subsequente transcendência para a chamada experiência de pico, estado extático caracterizado pela perda do sentido de limites entre o mundo objetivo e o subjetivo, com os consequentes sentimentos de unidade com outras pessoas, a natureza, todo o universo e Deus – explica o psicólogo Stanislav Grof, que entre 1957 e 67 trabalhou no Instituto Psiquiátrico de Praga em experiências do gênero.
Huxley estabelece clara distinção entre experiência visionária e mística: A experiência mística está além do domínio dos opostos. A experiência visionária situa-se no interior desse domínio. Seja como for a experiência visionária é uma manifestação simultaneamente do belo e do verdadeiro, de beleza e realidade intensas e não carece de ser justificada de nenhuma outra maneira. Afinal, o Bom, o Verdadeiro e o Belo são valores absolutos, e num certo sentido podemos dizer que a experiência visionária sempre foi considerada um valor absoluto, que sempre se sentiu ser intrinsecamente de grande significado e importância e que valia a pena obter mesmo a um custo elevado. Ir além do eu insulado é uma tal libertação que mesmo quando a auto-transcendência ocorre através de náusea ou frenesi, cãibras ou alucinações e coma, a experiência induzida por drogas tem sido vista seja por povos primitivos como pelos mais altamente civilizados como intrinsecamente divina.
            Dirá numa entrevista em 1960 que a experiência mostra que o mundo em que habitualmente vivemos é apenas uma criação deste convencional e apertadamente condicionado ser humano que somos e que há muitos outros tipos de mundos além dele. O universo bastante obtuso em que passamos a maior parte do tempo não é o único que existe. Se as pessoas tivessem essa experiência seriam muito mais saudáveis.

Rumo às ilhas da Utopia - Da Teoria à Prática Ou Vice-Versa

Trechos de  Droga Loucura e vagabundagem  capítulo 5

Compromisso no mirante para tomar um orange. Há um preceito primordial. Toma-se ácido, como eu com Afonso na FIL, sabendo-se quando se vai tomar e com quem. Não é como dar uma tragada ou três num beise. Fazemo-lo com quem queremos estar ou não vemos problemas em estar, por causa da tal da bad vibe. Set e setting a postos. Se sozinho já se fica tão exposto ao acaso, como me senti em Paris, em grupo só vale a pena com malta fixe, para que eventuais cortes não sejam mais fundos ou duradouros. E como é uma viagem de no mínimo oito, dez horas, tudo é combinado e preparado a preceito com antecedência. Como uma viagem ao cosmos da NASA. Nada nos escapa. Com cintos de segurança. Porque ninguém aqui é louco. Ao menos até prova em contrário.

 Decola-se com uma cônica de haxe às onze e meia da noite. Velvet Underground nos ouvidos, The Gift, que história.

Marco Antônio fala como que em elipse ascendente de um simulacro de sistema cósmico que a mim que, finda a estrambólica história de Lou Reed, acabo de sintonizá-lo, e talvez por analogia com alguma coisa que me passa pela cabeça, parece situar-se no espaço sideral algures entre Saturno e Urano, numa algaraviada conceitual de se lhe tirar o chapéu.

- ... que as apreende conceitualmente no seu encadeamento cósmico... e está ciente de que a totalidade do conteúdo da experiência... tem por forma o ser em si mesmo do espírito, estabelecendo um estado... é... de turbulência... composta de interação... multiplicativa... de infinitos campos de agregação, tás a ver?... ééé... numa dimensão cósmica... extraterritorial... e... atemporal.

Cosmografia, meu?! O ‘interlocutor’, rindo com ar de lelé e às vezes, por esgares, dando a entender não estar sacando bulhufas do que lhe é dito, mas que de lelé não tem nada, quando finge captar algum sinal inteligível do emissor limita-se a dizer iá e a fazer hum-hum e a mover a cabeça de baixo para cima e vice-versa. E o outro, impávido, disparatando uma catadupa de considerações pré-ou-pós-conceituais sobre o ser cósmico em si e face ao espaço intergalático, porque alguma coisa sobre Urano ou Plutão me parece ter ouvido. Demonstra profundo incômodo pela minha ‘sintonização’, como no acê do ateliê com Ivan, enquanto supostamente discutia o seu futuro com Cleo e o meu se postou agachado e apoiado no seu próprio joelho acompanhando tudo – parece perseguição! Esforço-me para desviar a atenção e concentrar-me noutra coisa mas sequer consigo mover a cabeça e nem pisco, embora arreliado com o seu ar misto de doutoral e demente e ao mesmo tempo, já agora, empenhadíssimo em saber do que se trata no solilóquio, mas não atino – Que besteira! Tá lelé!

Mas ao mesmo tempo, em ácido, tal como é difícil sair-se de uma ‘onda’ em que se mergulha a parâmetros insondáveis também não há gentio que aguente por muito tempo botar ou ouvir discurso, porque mal se enceta, para a contraparte, ‘noutra onda’, tudo tende a soar como sendo o que efetivamente é: puro abstracionismo. Não tarda muito e cada qual fica na sua, a ouvir-ver música e folheando len ta men te livros de arte, e vice-versa, ou a contemplar a(s) paisagem(ns).

         Ivan, uma vez ou outra, murmura num esgar, só para não ficar calado ou para dar a entender que a ‘sua’ é a melhor e a maior:

- Meu... que ácido! Edinho, que loucuuura!

E ponto. Ou reticências. Talvez porque não haja viagem mais profunda para dentro e fora de si quase não se vai além quando se está em ácido, e um relato cabal sobre o que se passa na cabeça de cada um só seria possível falando sozinho para um gravador, como fez Huxley no decurso da sua sondagem com mescalina, em cujo relato acerta a mão no que se refere a vício, dissociando-a (e por força faço o mesmo em relação ao LSD ou à cannabis) dos opiáceos, por exemplo, pelo seu reduzido grau de toxicidade, não causando ressaca e portanto não compelindo o usuário a uma recarga da dose. Incrível é entretanto a extraordinária semelhança de quem escreve e consegue descrevê-las com acuidade com as minhas experiências extra-sensoriais em ácido, e portanto – imagino - de muita gente.

 

Começa-se, segundo Huxley, pela percepção de formas geométricas coloridas ‘animadas’ – o que faz do caleidoscópio e do estroboscópio delícias para quem ‘viaja’ -, em contínua e permanente mudança. Vêm a seguir ‘figuras heróicas’ a que Blake (em ergotina fermentada?) chamou ‘Os Serafins’ e depois os animais fabulosos, nada relativo ao passado do ‘visionário’ nem por ele inventado, por tratar-se de algo que não é produto do self mas de ‘um compartimento mental altamente diferenciado’, e então pontos estelares, o que a alguns parece fragmentos de vitrais, ‘fluxos incontáveis de focos de luz (muito) branca’, linhas ziguezagueantes de cores ultrabrilhantes, torres góticas de desenhos elaboradíssimos e enormes pedras preciosas em bruto.

Pelos anais de Anaïs Nin e os meus olhos quando se foca o carpete ele não é plano e sem vida mas campos alvoroçados ou ondulantes; portas, paredes e janelas parecem liquifazerem-se, objetos perdem a rigidez como se se estivesse num mundo submarino ondulante, de repente um pegador de fechadura parece uma serpente, como se tudo fosse elemento vivo e animado e respirasse, inclusive árvores, nuvens e gramados e passasse por metamorfoses como as de Alice no Jardim das Maravilhas, lendo, adormecendo e caindo na toca do coelho, uma dentada no bolinho de cogumelos alucinógenos e... FLASH!

         Refrão com Huxley, para quem as ‘criaturas psicológicas que habitam as mais remotas regiões da nossa mente’ são como os marsupiais para um habitante do Velho Mundo, por demais bizarros mas tudo somado aceitáveis, apesar da sua inverosimilhança, porque a sua existência ‘obedece a leis reconhecíveis’:

   Every mescalin experience, every vision arising under hypnosis, is unique; but all recognizably belong to the same species. The landscapes, the architectures, the clustering gems, the brilliant and intricate patterns – these, in their atmosphere of praeternatural light, praeternatural colour ,and praeternatural significance, are the stuff of wich the mind’s antipodes are made. Why this should be so, we have no idea. It is a brute fact of experience wich, whether we like it or not, we have to accept – just as we have to accept the fact of the kangoroos.

   Toda experiência com mescalina, toda visão que brota da hipnose, é única; mas todas pertencem inegavelmente à mesma espécie. Paisagens, as arquiteturas,  gemas cacheadas, brilhantes e intrincados padrões – estes, com sua atmosfera de luz transcendental, cores transcendentais e significado transcendental são os materiais de que são feitos os antípodas  mentais.  Por que há  de  ser  assim, não sabemos. É  um  grosseiro  dado  da  experiência  que temos  de  aceitar,  quer gostemos  ou  não  -   da mesma forma como temos de aceitar a existência dos cangurus.

Decido mais uma vez dar uma de d.j. e passo a primeira parte do AC pondo música, uma sequência com Heroin e Waiting for the Man do VU, Sunday Morning com Nico, sempre May I de Kevin Ayers, duas ou três coisas de Paris 1919 de John Cale, Frontera de Phil Manzanera e outras tantas de Pin Ups e Young Americans de David Bowie.

Anaïs, de tão picuínha na sua tentativa de fazer uma literatura analítica nos diários acabou por, na única experiência de LSD que nos conta, ser altamente concreta e específica sobre algo tão subjetivo, e como é belo lê-la traduzindo à lupa o que sinto agora

My senses were mutiplied as if I had a hundred eyes, a hundred ears, a hundred  fingertips. The music vibrated through my body as if I were one of the instruments and I felt myself becoming a full percussion orchestra, becoming green, blue, organe. The waves of the sound ran through my hair like a caress. The music ran down my back and came out of  my fingertips. I was a cascade of red-blue rainfall, a rainbow.

Meus sentidos multiplicaram-se como se eu tivesse cem olhos, ouvidos e pontas de dedos. A música vibrava pelo meu corpo como se eu fosse um dos instrumentos e senti-me a tornar-me toda uma orquestra de percussão, verde, azul, órgão. As ondas de som lambiam os meus cabelos como uma carícia. A música lambia as minhas costas e saía pelas pontas dos dedos. Era uma cascata de chuva rubro-azul, um arco-íris

 

 

Quando amanhece colo Stairway to Heaven a Moon in June e ponho-me a olhar o Tejo me projetando em flashback na houseboat de Kevin Ayers sobre o Tamisa. How I miss the rain – ticky-tucky-ticky!...

Após a performance Ivan vem ao meu encontro no ‘miradouro’. É fuxiqueiro e embora esse tipo de assunto não venha nada a propósito sob a influência de ácido lisérgico revela-me a falar lentamente, como procurando a cada sílaba não perder a própria linha de raciocínio, que após o rompimento com Cleo Marco envolveu-se com um padeiro, função que, segundo ele mesmo, tem exercido com outro morador da casa. É a primeira vez que em tom acintoso e que parece de provocação fala sobre sua pretensa bissexualidade. Mulato afinal mal assumido, na praia discute comigo sobre quem está mais bronzeado, e é claro que sou eu, branco quase seráfico no inverno, talvez também pela palidez de todo aquariano, mas com pigmentação em que o sol produz uma extraordinária metamorfose, fruto da infância carioca. Discorre lentamente sobre isso, como é mal aceite pelos pretos, porque seria filho de uma vendida aos brancos, e como é incómodo viver só entre brancos.

- Minha terra é Cabo Verde – augura olhando o fio d’água do Tejo em frente.

         Questão afinal inerente a muitos filhos da antiga África portuguesa, que nunca se habituaram a ser tratados nem como uma coisa nem como outra. Eu só o vejo em Moçambique, embora seja impossível imaginá-lo lá nas atuais circunstâncias, tão assombrosamente contrastantes com a imagem de cartão postal dylanesca. Outro reflexo do 25, Portugal multicoloriu-se. Antes só se via dois mulatos na RTP e uma porção deles na região do Poço dos Negros. Agora estão cada vez mais por todo lado. Com muitos negros também. Ivan começa a ter gente com que se identifica também pela cor, em que reconhece a sua cor de apátrida, de caboverdiano fadista que em Paris, Amsterdam ou Lisboa só fala crioulo e ouve e dança mornas, coladeras e reggae. Mas não é a mesma coisa. Penso em mim caso não pudesse prospectivar-me de volta ao Rio, excluindo-o da minha vida. E a cidade de Ivan já mudou até de nome. Está condenado a onde quer que esteja ser um estrangeiro.

O seu tom – monocórdico e quase em sussurro - não é confessional nem de desabafo. Explana-se apenas. Começa a exteriorizar, embora não aparente, uma ferida profunda que dificilmente irá sarar. Nem preto nem branco. Filho de filha de vendida, também vendida – rendida – aos brancos. De um país que ainda não o era e que já não lhe pertencerá. Questão que começa a levantar-se.

            Ívan, café com leite às vezes quase claro, pálido, às vezes mais escuro, nem carne nem peixe, mas over assumido. Como o Dr. G. do Repórter X pavoneia-se ‘pelo mundanismo, dandizado, com prosápias de fidalgo e de árbitro da elegância, do bom gosto, em todos os assuntos de espírito e arte’. Se alguém age de forma que julga incorreta, numa lógica fora dos nossos padrões anormais, é sumariamente epitetado de careta, numa acepção que aos meus olhos é em si mesma careta, embora a sua atitude dandizada, displicente, possa lembrar precisamente a dos hipsters que inventaram os conceitos de square ou straight, que aliás aqui também adaptamos para c’treite. Até que ponto consciente do papel de clown de Fellini ou pierrot ou negróide de Picasso ou de commedia dell’arte envoltos em chamas? Afigura-se agora herói sem nenhum caráter em busca de identidade e pretensamente a querer obrigar os outros a assumir-se... ou sumir. Que ainda se sustenta com a imagem de dandy de bom gosto e uma insolência que no entanto ninguém leva a sério.

Com ele e o poeta filósofo saio na manhã radiosa e entro na Flor do Calhariz para tomar um suco de laranja. Decidimos ir ao Barreiro como se fôssemos atrás do sol nascente mas ele ultrapassa-nos quando atravessamos o Tejo admirando as barcas cor de laranja. Voltamos admirando o sol quase poente cor de laranja, a natureza como que brincando com nossas cabecinhas sugestionadas. When I drew a long orange line, it emitted its own orange tone, Anaïs – sim, penso orange, a cor-símbolo lisérgica, e é como se a cada momento ela irradiasse um tom alaranjado.


            Em Busca do Cogumelo Mágico, reportagem publicada na edição de Julho de 1957 da revista Life, causa sensação entre os iniciados em substâncias psicoativas. O seu autor é Gordon Wasson, um ex-jornalista que se tornou vice-presidente do banco JP Morgan Guaranty e que por três décadas, desde que se casou com uma russa apaixonada por cogumelos, dedicou todo o tempo disponível à micologia. Quatro anos antes da publicação da reportagem, convencido de que apesar da sua repressão pela Inquisição o culto dos cogumelos não fora erradicado, Wasson foi ao México com a esposa e o famoso micólogo francês Roger Heims, diretor do Museu de História Natural de Paris. A reportagem trata da redescoberta do teonanácatl pelo seu grupo em Oaxaca quatro séculos depois dos primeiros e últimos relatos a seu respeito.
            Com a publicação da reportagem o trio Huxley-Heard-Hubbard passou a assediar o escritório nova-iorquino de Wasson, que acabara de publicar por conta própria um álbum intitulado Os Cogumelos, a Rússia e a História, em que com a mulher levanta a hipótese de que cogumelos alucinógenos estiveram na origem dos cultos da civilização de Ur e as cerimônias celebradas no templo de Elêusis a que historiadores e filósofos da Grécia antiga fazem referência eram realizadas em louvor ao cogumelo visgo de mosca. Apesar da insistência o trio não convence Wasson a iniciá-los no cogumelo mágico. Tentei desenganá-lo, mas ele gosta de sentir-se dono e senhor do Primeiro e Único psicodélico, reclama Huxley em carta a Osmond quando dá por encerradas as tentativas de conhecer o potente expansor de consciência natural do México.
            No regresso à França Roger Heims enviou amostras do cogumelo à Sandoz onde segundo Albert Hofmann a encomenda não foi bem recebida porque os administradores dos laboratórios suíços já não viam com bons olhos tudo o que se relacionasse ao LSD, que para o seu descobridor começava a ser uma cria problemática. Coube ao próprio Hofmann analisar o teonanácatl, de que extraiu dois indóis semelhantes ao neurotransmissor serotonina e a que deu os nomes de psilocina e psilocibina, parentes mais fracos do LSD.

            Em Regresso ao Admirável Mundo Novo, de 1958, Huxley faz um balanço em 12 ensaios da evolução do mundo desde a publicação do seu romance mais famoso. A conclusão a que chega é a de que muito antes do fim do primeiro século depois de Ford está ainda menos otimista do que no tempo em que o imaginou. O pesadelo da organização total, que situei no sétimo século d.F., está nos esperando ao virar da esquina.
            Armas nucleares, Guerra Fria e superpopulação são novos ou antigos problemas a transformar a vida dos cidadãos num pesadelo, acrescidos do cada vez maior poder corporativo no aparelho de Estado e da publicidade e propaganda política sobre a população, através dos meios de comunicação de massa, além do crescente uso de tranquilizantes. Uns exercendo a função da hipnopédia, outros o do soma do Brave New World. Num universo dominado por jingles publicitários os homens perdem toda a noção de liberdade e individualidade e tornam-se presas de prazeres voláteis.
            Dêem-me hambúrgueres e televisão e não me encham a paciência com as responsabilidades da liberdade - eis o lema comum.
            E cita o trecho do episódio de Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, em que o Grande Inquisidor sublinha:
            Porque nada jamais foi tão insuportável para um homem ou uma sociedade humana que a liberdade.
            Ainda assim Huxley insiste em propostas para a melhoria das condições de vida da humanidade, como reformas político-administrativas para uma descentralização do poder num auto-governo responsável através de grupos de representação política direta que teriam por princípios básicos a não-violência e a resistência à guerra.
            Albert Hofmann dirá que a militância em prol dos psicodélicos custou-lhe o Prêmio Nobel de Literatura. Há quem diga que os seus ataques ao Estado corporativista, aos arsenais nucleares e ao consumismo foram determinantes para que não se tornasse um cidadão americano.
            Em 1959 Aldous Huxley realiza na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara uma série de conferências subordinadas ao tema A Situação Humana, em que fala sobre questões ecológicas de um ponto de vista revolucionário, em que o homem não está de fora, a observá-la ou a danificá-la, mas em plena integração com a natureza. O pensador discute a relação do homem com a natura de uma forma a que não são alheios o hinduísmo, o budismo e experiências extra-sensoriais, com que se pode aprender que no reino de Deus não existe hierarquia e tudo e todos estão irmanados ao Absoluto.

            De regresso à América após uma temporada no Oriente o teólogo Alan Watts, que se notabilizara como divulgador do budismo através de livros e programas de televisão de grande audiência, é introduzido a experiências psiquiátricas de cariz muito diferente, porque Huxley publicou As Portas da Percepção e está explorando os mistérios do LSD, como relata na sua autobiografia. Gerald Heard juntou-se a ele nessas investigações e nas minhas conversas notei uma mudança substancial em sua atitude espiritual. Para resumir, deixaram de ser Maniqueístas. A sua visão do divino inclui agora a natureza e eles tornaram-se mais calmos e humanos, pelo que me vi a falar com homens da minha fé. Pareceu-me todavia ser altamente improvável que uma verdadeira experiência espiritual pudesse acontecer após a ingestão de uma substância química especial.
            Mas como em termos de planícies interiores Watts diz-se de uma natureza aventureira decidiu seguir o conselho do escritor e procurar o psiquiatra chefe do departamento de pesquisas com LSD da Universidade da Califórnia em Los Angeles para fazer sua primeira experiência com a droga.
            Os livros de Huxley sobre mescalina e o trabalho de Wasson sobre cogumelos alucinógenos têm um notável efeito na cena norte-americana. Os três H das colinas de Hollywood fazem também história porque o infatigável Al Hubbard é um dos principais divulgadores do LSD entre os psicoterapeutas que não trabalham com a droga em laboratórios de pesquisa financiados pelo governo americano, através das universidades públicas, ou pela CIA. As suas relações com lideranças políticas e empresariais americanas e canadenses lhe possibilitariam encomendar grandes quantidades de alucinogênios que distribui gratuitamente a amigos e pesquisadores e em que investiria duzentos mil dólares/ano.
            Um agente catalisador com uma tarefa especial para que foi escolhido (por Deus, naturalmente...), é como Hubbard se define, mas sua própria estatura no meio artístico-intelectual e médico-científico de Los Angeles e nas altas esferas do poder norte-americano gera muita especulação sobre seu verdadeiro papel no alvorecer do movimento psicodélico.

            Alvorecer psicodélico porque de uma maneira ou de outra logo o LSD se propaga pelos consultórios de analistas e deles pelos salões dançantes da cidade, frequentados pela aristocracia do cinema e das artes em geral.
            Um dos primeiros a usá-lo foi o psiquiatra Oscar Janiger, que ao saber da pesquisa de Humphrey Osmond e John Smythies em torno do adrenocromo e da dietilamida do ácido lisérgico decidiu encomendá-la à Sandoz, experimentar o LSD e testá-lo com artistas antes de usá-lo na terapia de pacientes. Como Huxley, Janiger notou que os artistas têm propensão natural a adequar-se a drogas alteradoras da consciência pela sua maior propensão a explorar a terra ignota do subconsciente.
            Um dos seus pesquisandos chegou a equiparar o aumento da percepção de aspectos da criação artística a quatro anos numa escola de arte. Muitos analisados disseram que em estado alterado por drogas sentiram-se mais perto da que poderia ser a matriz essencial de que deriva o processo criativo. Como escreveu o romancista e poeta beat William Burroughs sobre uma droga análoga, ainda que menos poderosa, sob a influência de mescalina tive a experiência de ver um quadro pela primeira vez e vi depois que poderia revê-lo sem usar a droga. A mescalina transporta o usuário a áreas psíquicas inexploradas e ele pode encontrar o caminho de regresso sem um guia químico.
            Sem conseguir extrair dos pintores relatos expressivos das suas sensações e sentimentos Janiger decidiu trabalhar com escritores, mais habituados à comunicação verbal. Acertou em cheio na primeira escolha, a romancista Anaïs Nin, há muito iniciada em psicanálise e que buscava desvendar as profundezas da psique através da narrativa literária.
            Ao aplicar o LSD em terapias o psiquiatra Sidney Cohen, do Hospital Neuropsiquiátrico de Los Angeles, cedo notou que a droga tem a capacidade de levar os pacientes a agir como se de um momento para outro conseguissem transcender tudo o que normalmente os perturba, surtindo efeitos terapêuticos de grande significado.
            Um dos aspectos essenciais nas LSD therapies é a interatividade médico/analista-paciente. Alguns terapeutas tomam uma dose menor que a dos analisados para com eles estabelecer um grau mínimo de sintonia, rompendo com um dos preceitos básicos de todas as escolas de análise: a clara demarcação dos papéis analista-analisado, de forma a que o primeiro possa ter uma visão neutra e objetiva do quadro psíquico do segundo. Mas como notou Albert Hofmann uma das características básicas do psicodelismo é a de configurar a mente para um modo totalmente novo de encarar os fatos, em total sintonia com os próprios avanços da ciência, que com os princípios da relatividade atômica e da incerteza quântica acabou com o primado da lógica objetiva e do princípio da neutralidade do observador.
            A insistência de alguns terapeutas na abordagem ‘científica’ das questões levantadas na exploração dos territórios quase desconhecidos do inconsciente levam o antigo darwinista Aldous Huxley a indignar-se com os idiotas pavlovianos que não entendem que Ivan Pavlov nunca viu um animal no seu estado natural e pretendem seguir-lhe os passos com os pacientes. Não admira que encontrem psicoses, revolta-se. A polêmica em torno destas questões chega ao rubro quando o psiquiatra inglês Ronald David Laing publica o livro The Divided Self, em que afirma que experiências como a esquizofrenia e o êxtase podem ser uma benção para quem as vive e que viver-se sempre no chamado estado normal é que não é normal.
            Ao longo dos anos 50 são desenvolvidos vários métodos de análise e terapia com LSD, como o criado por Al Hubbard tendo por objetivo levar o paciente a uma experiência mística e se possível à sua conversão. Um tratamento de choque, porque prevê a administração de LSD na dose necessária para evitar que o sistema de defesa do ego impeça a sua dissolução, a ponto de serem noticiados casos em que pacientes ouvem cores e vêem sons – um fenômeno chamado sinestesia, pelo qual todos se interessam. Humphrey Osmond foi um dos pioneiros na cura de alcoolismo com LSD, em que alcançou um índice de 50 por cento de renúncia à bebida entre cerca de mil pacientes que tratou. Dava LSD aos pacientes sem que eles soubessem que droga tomavam e sem procedimentos psicoterapêuticos durante e após as sessões.
            Mas o método destinado a fazer escola é o chamado psicolítico ou de afrouxamento da mente, em que a droga serve apenas de instrumento de apoio à análise convencional, sendo administrada em doses moderadas e em várias sessões para acelerar a exploração da psique através da redução das defesas do ego do paciente, permitindo uma mais rápida manifestação de traumas e memórias reprimidas.

            Em pouco tempo a terapia com LSD torna-se uma mania no star-system hollywoodiano, para o profundo desgosto de Huxley, que em carta a Osmond descreve o panorama que descortina na meca do cinema em torno da sensação do momento: Que tipos medonhos existem na sua profissão. Um dia desses conhecemos dois psiquiatras de Berveley Hills que se especializaram em terapia de LSD por cem dólares a dose – e, realmente, poucas vezes encontrei gente de tão baixa sensibilidade, de cabeça mais vulgar. Pensar em pessoas vulnerabilizadas pelo LSD sendo expostas a esse tipo de gente é perturbador.

            Artistas, intelectuais e cientistas transformam as alucinadas festas de whisky-com-soda nos casarões das colinas ao redor de Hollywood em menos eufóricas reuniões de grupos de iniciados no novíssimo esoterismo cósmico psicodélico, em que poderia estar a vanguarda de uma nova era para a humanidade. Ao recordá-las nos seus Diários Anaïs Nin descreve-as como experiências esotéricas que deveriam ter continuado a ser esotéricas. A escritora pressente de imediato que um dos mais preciosos dons da natureza, a chave da porta de acesso a um universo quase indevassável, redescoberta por acaso por um alquimista moderno após séculos no segredo dos deuses, e que deveria ser compartilhada apenas pelos mais aptos a desvendá-lo e entendê-lo, poderá transformar-se em mero instrumento de diversão ao alcance de todos, num joguete dos frankensteins do supermercado do subconsciente e, quem sabe, em mais uma arma letal da ciência, que tudo molda aos seus ditames infernais.
            Também por isso Huxley não se cansa de buscar meios de as drogas psicodélicas serem estudadas e desenvolvidas como antídoto da crise de consciência de uma juventude para a qual crescer e amadurecer numa sociedade desumanizada pela tecnocracia e pelo consumismo do pré-fabricado, do pronto-a-vestir e da pronta-entrega é um absurdo, como denuncia o psicoterapeuta Paul Goodman no seu livro Growing Up Absurd, e a apatia da quase totalidade dos adultos, para quem o conformismo tornou-se como que um décimo primeiro mandamento, segundo o psiquiatra Robert Licher no ensaio Must We Conform?
           Huxley não desiste da ideia de fazer do LSD o catalisador do desenvolvimento humano. Não pela sua distribuição de forma indiscriminada mas passo a passo, a começar pelo convencimento das suas benesses por parte da elite cultural e científica mais aberta e sensível, para não alertar os filisteus, os gestores da consciência – do Vaticano e Harvard – que estão no ramo há muito tempo e que não pretendem abrir mão dos seus negócios. Recusa-se a ir a um programa de televisão para falar sobre mescalina por entender que essa publicidade indesejada seria particularmente aborrecida depois de um programa de TV. Mescalina, parece-me, a exemplo de outros aspectos da mente, é assunto sobre o qual deve-se escrever para um público pequeno, não para ser discutido na TV na presença de uma vasta audiência de batistas, metodistas e gente sem rosto, além de uma imensa franja lunática.

            Para um vasto grupo de escritores mais jovens as drogas poderão ser também instrumento catalisador da crescente rebelião jovem e deles mesmos contra o conformismo da cultura Americana – todo e qualquer tipo de drogas... e para todos... São jovens radicais e vão muito além de Huxley trinta anos depois da revolta contra o espartilho vitoriano, tão lembrada desde as primeiras rebeliões pós-II Guerra Mundial, iniciadas quando Rosa Parks, uma mulher negra de

Montgomery, Alabama recusou-se a sentar-se num dos bancos traseiros de um ônibus e um jovem pastor batista, Martin Luther King, liderou um movimento não-violento de 81 dias contra o segregacionismo nos transportes públicos da cidade. Chamam-se beatniks, os jovens intelectuais rebeldes, e para eles as drogas, como o zen budismo, o jazz e o rock and roll, são hip – expressões de uma revolta que pretendem beatífica.
            Allen Ginsberg está decidido a experimentar e, se for o caso, divulgar através dos seus poemas-panfletos todo o tipo de drogas. Já conhece a mescalina e tem trabalhado numa seleção de cartas trocadas com o escritor William Burroughs em 1953, quando o autor de Naked Lunch fez uma expedição ao Peru para experimentar o yagé ou ayahuasca, uma infusão com que os índios do Alto Amazonas exploram os efeitos da triptamina contida na liana banisteria caapi em cultos xamânicos. Conhecido em meio mundo pelo impacto da sua revolução nas letras chamado Uivo e do escandaloso processo judicial de que foi alvo na sequência da sua publicação, em 1958 Ginsberg apresenta-se ao Departamento de Saúde Mental do Hospital de Veteranos de Palo Alto, na Califórnia, como cobaia voluntária num teste de LSD. Entra em paranóia porque obrigam-no a sujeitar-se a testes de personalidade e inteligência, mas faz de sua iniciação mais um famoso poema que encerra dizendo que desejaria ser Deus.
            Um ano depois Ken Kesey, estudante de literatura de São Francisco, base editorial dos beatniks, começa a frequentar o Hospital de Veteranos de Menlo Park para tomar LSD, peiote, DMT, fenciclidina e todas as drogas que a instituição lhe ofereça em troca de se sujeitar a testes de personalidade e inteligência.
            Órgãos civis e do governo e a CIA, que chega a abrir um posto avançado de pesquisa de campo a que chama Operação Clímax da Meia-Noite num bordel do centro de São Francisco, promovem por toda a América testes públicos gratuitos com drogas a que os estudantes afluem em massa, muitos deles influenciados pelos próprios professores mais jovens, que lhes falam das delícias das drogas lícitas ou ilícitas com que entram em contato como cobaias de experiências de consequências imprevisíveis.
            Enquanto isso a CIA busca por todos os meios descobrir se o Candidato da Manchúria, como o chamou Richard Condon no seu best-seller de 1959, é de fato a droga da verdade, o que a leva a lançar um programa de testes voluntários com indivíduos de alta capacidade física e mental, como candidatos a astronautas, ou cidadãos comuns e com cobaias involuntárias, como prisioneiros e pacientes com distúrbios mentais. O programa MK-ULTRA passa a ter aspectos idênticos às experiências da Luftwaffe em Dachau.
            No início da operação MK-Ultra a inteligência americana recebia cem gramas de LSD por semana da filial da Sandoz em Nova Jersey. A essa altura a produção da droga era já muito inferior à demanda, em função das dificuldades de implementação de culturas do fungo de centeio, precursor indispensável para a sua fabricação. Mas para alívio da CIA em 1954 cientistas americanos conseguiram produzir um composto sintético ainda mais poderoso que o LSD. Seis anos depois os laboratórios Farmitalia, de Milão, desenvolveram o cultivo da cravagem de centeio in vitro.
            Nesse período foram publicadas quinhentas comunicações sobre os efeitos e os benefícios da droga, a maior parte divulgada em conferências promovidas por fundações subsidiadas pelos serviços secretos norte-americanos. Os estudos garantem que o LSD é eficaz no tratamento do alcoolismo e de dependência de opiáceos e que é farmacologicamente seguro (mesmo em doses muito elevadas não causa danos ao organismo), mantém o paciente consciente, cooperativo e melhor capacitado para fornecer dados com significado psicodinâmico, levando-o a sofrer um distúrbio do ego essencialmente efusivo acompanhado por um impulso de interatividade (donde não poder ser considerado um narcótico), que não provoca adição e que em geral os pacientes gostam de tomá-lo.
            Quando muitos dos laboratórios de pesquisa que financia transformam-se em centros recreativos animados por festas psicodélicas em que funcionários chegam a pôr LSD sintético no café de colegas sem que eles percebam, finalmente a CIA, que apostara todas as suas fichas na comprovação de que o LSD gera ansiedade e torna um indivíduo exposto a estímulos estressantes mais vulnerável, convence-se da inutilidade de um agente que produz acima de tudo contentamento e desiste de pensar no ‘candidato da Manchúria’ como a droga da verdade.
            Como modelador do soma Aldous Huxley sempre teve consciência dos perigos de um eventual desenvolvimento de técnicas de controle e alterações de comportamento e lança sucessivos alertas sobre a possibilidade de estarem a ser cometidos abusos em pesquisas com drogas.


            No outono de 1960 Huxley realiza um ciclo de conferências no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Há também nesta passagem como que um acaso cósmico ou a conjunção de um conjunto de circunstâncias que levam a um ponto predeterminado, ainda que imprevisível, pelo qual o escritor mais uma vez vê-se no centro de uma série de eventos históricos. No mesmo semestre em que ali trabalha o psicólogo Timothy Leary inicia um contrato de três anos como professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Harvard, próximo ao MIT. No tempo livre entre as conferências acompanha o trabalho de Leary e do seu colega Richard Alpert no Projeto de Drogas Psicodélicas do Departamento de Relações Sociais de Harvard.
          Leary singrava a trilha normal de todo scholar como professor na Universidade de Berkeley até reencontrar Frank Barron, um antigo colega de faculdade que testara o cogumelo sagrado dos astecas redescoberto pelos Wasson em 1953. A experiência mística proporcionada pelo teonanácatl foi tão profunda que Barron garantiu a Leary que o cogumelo é o passaporte para a metamorfose psicológica com que ambos sonhavam nos tempos de estudantes. Em pouco tempo Leary está à beira da piscina de um hotel em Cuernavaca realizando várias experiências com o cogumelo, que se revela de tal modo mágico que ao assumir o cargo em Harvard já não é mais a mesma pessoa que assinara o contrato antes da viagem e propõe a realização de um projeto de estudo do potencial da mescalina na terapia de distúrbios no comportamento humano.
            O proibicionismo da Lei Seca e o fato de o pai e a primeira mulher terem sido alcoólatras têm peso determinante na atitude com que o de resto jovial e muitíssimo carismático psicólogo encara a nova atividade, calcada nos princípios básicos de que as drogas psicodélicas são a chave da evolução humana e do livre arbítrio. Leary hasteia a bandeira do psicodelismo como uma nova cosmogonia: pela experiência psicodélica o homem abandona o estágio de primata mental, ascende a um estado de percepção cósmica da existência a que chama misticismo aplicado e rompe com o monoteísmo judaico-cristão, o seu complexo de dogmas culpabilizantes e castradores e a instituição familiar patriarcal. Sustenta em suma que a revolução psicodélica irá demolir os pilares da civilização ocidental e debelar os seus males.
            Fica desde logo claro que o objetivo de Leary e Alpert, com quem executa o projeto a que chama de Experiências Visionárias, é o de aferir o potencial da mescalina – e de substâncias alteradoras de consciência análogas - no desenvolvimento do potencial humano e não apenas na terapia de distúrbios mentais e do alcoolismo. Os próprios estudantes de Harvard passam a ter acesso à droga. Huxley acompanha e dá um valioso contributo à fase inicial das experiências, guiando-nos a nós, noviços Americanos, pela história do misticismo e no cerimonial de cuidado e manejo da sua graça gratuita, relembra Leary.
            O Projeto de Drogas Psicodélicas é o posto avançado com que Huxley sonhou para a realização de experiências com intelectuais e espiritualistas. O programa atrai ao Departamento de Relações Sociais os melhores espíritos da geração beat, como Alan Watts, William Burroughs, Allen Ginsberg, Peter Orlovsky, Jack Kerouac, Neal Cassady (o Dean Moriarty de Pé na Estrada, de Kerouac) e os músicos Thelonious Monk e Dave Brubeck.
            Leary e Alpert decidem aplicar o preceito básico de set and setting no departamento de Harvard, decorando-o de forma a dar-lhe um ambiente mais adequado às experiências em curso. Mas tendo cerca de duzentos alunos se submetido às experiências e alguns passado a trabalhar no projeto ou a fazer parte da sua roda social em pouco tempo as instalações do departamento tornam-se exíguas, pelo que ele se estende informalmente a uma mansão cedida por um próspero cidadão da vizinhança que se transforma no modelo-padrão de uma comunidade alternativa, ou comuna, no estilo de vida e na decoração de interiores. Os psicólogos de Harvard iniciaram-se em LSD através do inglês Michael Holligshead, estudante de filosofia da universidade que um dia apareceu no Departamento de Experiências Visionárias com um frasco de maionese cheio de açúcar em cubos contendo ácido lisérgico. Uma experiência crucial, segundo Leary: Abri caminho para o deleite, como os místicos o fizeram por séculos, quando descortinavam que este mundo tão manifestamente real era de fato um pequenino palco construído pela mente. Graças ao LSD descobrimos abruptamente que tudo o que aceitamos como realidade não passa de uma montagem social.
            O jogo da vida e os papéis artificiais que as pessoas são obrigadas a nele exercer é um dos ditames da filosofia transcendental que Leary irá propagandear pelos quatro cantos do mundo. Sobre o método aplicado no Departamento de Experiências Visionárias escreverá mais tarde:
           Não iríamos limitar-nos ao ponto de vista patológico. Não iríamos interpretar o êxtase como mania, ou a calma serenidade como catatonia; não iríamos diagnosticar Buda como um esquizóide desligado; nem Cristo como um masoquista exibicionista; nem a experiência mística como um sintoma; nem o estado visionário como uma psicose-modelo. Desenvolveu-se o plano de um estudo piloto naturalista no qual os pacientes seriam tratados como astronautas, cuidadosamente preparados, informados de todos os fatos disponíveis, e de quem se esperava que guiassem as suas próprias naves, fizessem as suas observações e na volta relatassem suas experiências à central de controle. Os nossos pacientes não eram pacientes passivos mas heróis exploradores.

            Com a rápida propagação de iniciados Harvard torna-se um dos primeiros grandes centros de venda de drogas a retalho dos EUA, componente mais visível e extremado de um conjunto de eventos que levam à eclosão do primeiro grande escândalo de drogas do país, à não-renovação do contrato de Leary e Alpert e ao seu afastamento compulsório do Departamento de Experiências Visionárias.
            Os filisteus acordaram e ao despertar para a fama nacional e internacional Timothy Leary vê-se no centro de uma grande polêmica em que é apontado como o principal responsável pelo fato de o governo ter passado a exercer um controle mais rígido da distribuição de psicodélicos e pela má fama que seu uso em psicoterapia adquire a partir da disseminação de profissionais questionáveis usando drogas questionáveis em busca de curas questionáveis, como resume Jay Stevens, que ressalva no entanto, ao falar sobre o contexto em que ela se processa: Descobrir nos recessos da mente algo que se parece muito com Deus não é uma perspectiva agradável para a ciência e para a religião organizada. E é isto que está implícito na pesquisa psicodélica em toda a parte, não só em Harvard.
            Leary lembra-se de um diálogo com Huxley no início das suas experiências em que ficaram claras as suas diferenças de posição em relação à difusão de drogas - uma elitista, outra populista: Não sabe então o que fazer com esta maldita pedra filosofal em que tropeçamos? No passado este poderoso saber foi guardado em privacidade, transmitido no obscurantismo difuso e metafórico de acadêmicos, místicos e artistas. Estas são questões evolucionárias. Não é possível apressá-las. Trabalhe em privado. Inicie artistas, escritores, poetas, músicos de jazz, cortesãos elegantes, pintores, ricaços boêmios. E eles iniciarão os ricaços inteligentes. É assim que tudo o que possui cultura e beleza e liberdade filosófica tem sido transmitido – aconselhou o inglês.
            No afã de defender o livre arbítrio e o acesso irrestrito da população à revelação psicodélica, durante o conturbado processo de Harvard Leary pôs de tal modo em evidência a diferença entre aqueles que querem explorar o campo do novo cérebro e os que pretendem evitar o desafio, como a definiu, que Huxley equiparou o comportamento do psicólogo ao de um rapaz travesso com o diretor de sua escola. Não lhe agradam as notícias que chegam de toda parte, e não só de Harvard, sobre o uso indiscriminado de psicodélicos não para a elevação da consciência mas em contextos meramente recreativos. Agora sim vê motivos para preocupar-se com sua reputação junto à intelligensia, fortemente abalada quando tornara público o seu envolvimento com a questão, cada dia mais polêmica. Em carta a Osmond diz que a última coisa que desejo é criar a imagem de Senhor LSD. Nem tenho o menor anseio (sendo desprovido de qualquer talento para este tipo de coisa) de envolver-me na política dos psicodélicos.

            O escândalo de Harvard é a gota d’água que leva a uma rápida mudança de estratégia das autoridades norte-americanas em relação ao LSD, cuja distribuição para pesquisa científica passou à tutela da Food and Drugs Administration (FDA), órgão do governo federal de controle e vigilância do fabrico e comercialização de alimentos e remédios. Ao ordenar a cientistas e terapeutas que trabalhavam por conta própria que devolvam aos laboratórios todo o LSD em sua posse e prometer total controle da sua distribuição a FDA começa a pôr fim à existência legal de terapias com psicodélicos e à sua pesquisa para outros fins.
            O LSD-25 passa a ser mais uma droga produzida em laboratórios clandestinos, como o que Augustus Owsley III, neto de um senador do Kentucky, abre em 1961 em Berkeley, de onde o distribui em doses embaladas em cápsulas de comprimidos brancas estampadas com figuras de Batman e Robin e que passarão à história como as renomadas tabletes Owsley. O psicodelismo ganha as ruas a partir do mercado negro – sem certificado de garantia.

            Desde a publicação de As Portas da Percepção e Céu e Inferno Huxley passou a deslocar-se sem cessar de uma costa à outra da América e uma vez por ano à Europa para fazer palestras e conferências. Em 1961 fez uma escala na Suíça para conhecer Albert Hofmann, que na sua autobiografia LSD: My Problem Child dá-nos impressões pessoais e transmite pontos de vista do escritor em relação a alguns tópicos do trabalho que desenvolve desde os pioneiros ensaios sobre a experiência psicodélica, que segundo o químico suíço contêm observações fundamentais sobre a essência da experiência visionária e o significado desta maneira de entender o mundo – na sua história cultural, criação de mitos, origem de religiões e no processo criativo de que se faz a obra de arte. O cientista diz ter encontrado em As Portas da Percepção a exposição mais significativa da experiência induzida por drogas alucinogênicas e um insight mais aprofundado das suas próprias experiências com LSD.
           O casal foi obrigado a encerrar abruptamente a digressão à Europa quando o escritor teve uma crise de saúde provocada por um tumor na garganta. Enquanto se trata, termina o romance que mais lhe custou escrever e que contém um resumo de praticamente tudo o que viveu, escreveu e disse desde Fins e Meios. Ou desde o estudo de Blake e Boehme em Londres e as conversas com D. H. Lawrence na Itália, quando começou a olhar a vida de outro modo. Leary conta que quando se conheceram em Harvard Huxley estava lendo Hermann Hesse, com quem o escritor inglês disse-lhe compartilhar o mesmo tipo de evolução espiritual e intelectual – da contestação racionalista dos valores da sociedade no século XIX e de um mundo em que a idolatria teológica medieval passa a confundir-se com a idolatria tecnológica do início do século XX para a irracionalidade racionalizada, como define a sociedade da ilha de Pala, cenário do seu livro.
           Aí encontramos no mesmo tempo e lugar os princípios de reforma educacional enunciados desde Fins e Meios, o Fator Superior Comum das Religiões dos filósofos perenes, o projeto de auto-governo responsável exposto em Regresso ao Admirável Mundo Novo, muito parecido com o da organização política da ilha da Utopia de Thomas Morus, de que Pala herda também o regime de trabalho em tempo parcial e adaptado ao potencial criativo e à compleição física de cada um, como a estrutura econômica, baseada no princípio de só serem produzidos e importados os bens indispensáveis à sobrevivência da população.
            Também como em Utopia a sagrada e sacrílega instituição da célula familiar (e cela de prisão perpétua), que nas sociedades ocidentalizadas não passam de empresas em que os velhos, inúteis na unidade de produção, são relegados ao abandono e à solidão, é substituída pelos que em Pala são chamados de Clubes de Adoção Mútua, em que as crianças podem ter quantas famílias desejem ou de que necessitem e os idosos também se ocupam da sua educação.
            Aí está o controle demográfico por que Huxley tanto se bate, como a imprensa não manipulada e não sectária (um único jornal com pluralidade de opinião, é quanto basta) e a noção de ecologia pela qual o homem vive integrado e em total consonância com a natureza, ensinada desde as primeiras letras, além do princípio de solidariedade humana. E está também a medicina moksha (libertação em sânscrito), que leva os seus habitantes aos mesmos lugares a que se chega na meditação.
            Pala é enfim a utopia de Huxley. O resumo de tudo o que apreendeu e defende como o melhor para si e para o mundo. Uma ilha assente sobre uma jazida de petróleo que não explora por considerá-lo desnecessário para o seu bem-estar, porque não produz bens supérfluos e tem tudo o que precisa para a sobrevivência de cada um e para que todos vivam em pé de igualdade.
            Em Pala, decorridas três gerações após a reforma, não existem rebanhos de carneiros nem bons pastores para tosquiá-los e castrá-los. Também não existem rebanhos de bovinos e de suínos e tão pouco açougueiros (da realeza, das classes militares, do capitalismo ou das revoluções) com permissão para marcá-los a fogo, confiná-los e retalhá-los. Existem somente associações voluntárias de homens e mulheres que buscam uma humanidade integral.
           
Budismo, taoísmo, hinduísmo e cristianismo são ali aplicados pelo que cada um terá de melhor, como da cultura de Pala diz-se que procurou ter o que há de melhor no Oriente e no Ocidente.
            Mynahs (espécie de gaivotas) gritam o tempo todo Aqui e agora! e Atenção! Atenção!
            Atenção a quê?, pergunta um visitante. A estar atento, responde taoística e confucionisticamente o neto de um dos fundadores da nova cultura criada em Pala. Uma contracultura. Como dá claramente a entender um dos discursos do livro – a exemplo de quase todos os anteriores não tanto um romance quanto um expositório de ideias do autor:
            Após um século de pesquisas com o moksha chegamos à conclusão de que pessoas inteiramente comuns são capazes de ter visões, estando capacitadas para sentir-se inteiramente libertadas. A este propósito, tanto os homens como as mulheres que fazem ou apreciam a cultura não são melhores que os incultos. Um alto nível de cultura é perfeitamente compatível com a pobreza de expressões simbólicas. As expressivas imagens criadas pelos artistas de Pala não são melhores do que as que foram produzidas pelos artistas de outras partes do mundo. Sendo produto da felicidade e de um sentimento de completa realização são provavelmente menos vivas, e talvez nos satisfaçam menos do ponto de vista estético que as trágicas figuras criadas como motivo de compensação pelas vítimas da frustração, ignorância, tirania, guerra e de todos os crimes culpabilizadores que alimentam as superstições. A superioridade palanesa não repousa em imagens simbólicas mas numa arte que, embora mais elevada e de maior valor que todo o resto, pode ser executada por qualquer um - a arte de ter uma experiência adequada. A arte de se tornar mais intimamente familiarizado com todos os mundos que habitamos. A cultura palanesa não é para ser julgada pelos mesmos critérios (e ainda nos falta coisa melhor!) com que julgamos as outras culturas. Não é para ser julgada pelos feitos de uns poucos manipuladores privilegiados das imagens simbólicas ou artísticas. Deve ser julgada pelo que todos os seus membros (os comuns e os superiormente dotados) fazem e experimentam em cada contingência e a cada interseção do tempo com a eternidade!
           
Em Pala não há literatura porque não há dualismo: com ele, a possibilidade de uma vida boa não pode existir; sem ele, é dificílimo haver boa literatura.

            E o que é moksha? É a droga com que Huxley sonha desde 1931: um alucinógeno feito de um cogumelo, portanto, uma espécie de psilocibina, que é receitado ao protagonista em crise existencial como ferramenta de apoio à psicoterapia, porque também em Pala ninguém é perfeito ou totalmente ‘são’, e que ajuda os moribundos a abandonar o corpo para transmutar para um outro tipo de existência, como o Bardo Thödol, o guia da passagem sem padecimentos para moribundos e seus familiares, que é recitado à mulher de um dos fundadores da cultura de Pala enquanto esta morre de câncer: Vai para o interior da luz. Moksha é também um instrumento de contemplação, tal como preceituado por Huxley através de um diálogo entre duas personagens após uma cena em que foram abordadas as virtudes da meditação:
            ‘Há alguma ligação’, perguntou Will, ‘entre o que falavam e o que vi lá em cima no templo de Shiva?’
            ‘Claro que sim’, respondeu ela. ‘A medicina moksha leva-nos aos mesmos lugares a que se chega na meditação.’
            ‘Então, para quê preocuparmo-nos em meditar?’
            ‘Poderia também ter perguntado, Para quê se preocupar com o jantar?’
            ‘Mas, pelo que diz, a medicina moksha é o jantar.’
            ‘É um banquete’, disse ela enfaticamente. E é precisamente por isto que tem de haver meditação. Não podemos banquetear-nos todos os dias. Os banquetes são muito ricos e prolongam-se por muito tempo. Além disso, os banquetes são providenciados por fornecedores, não se tem papel algum na sua preparação. Para o dia a dia é necessário que se faça a própria comida. A medicina moksha é um prazer ocasional.’

            Diz uma outra personagem:
            Não inculcamos crenças nos nossos rapazes, nem os disturbamos com símbolos emotivos. Quando é chegado o momento de aprenderem as verdades mais profundas da religião, fazemo-los escalar um precipício e damos-lhes quatrocentos miligramas de revelação... e desse modo podem fazer uma idéia muito precisa da realidade.
            No ritual de iniciação, os adolescentes de Pala são levados a ter a mais vívida idéia da presença da morte e da precariedade da existência, assim como da Iluminação, ou Nirvana – a um só tempo a inevitabilidade da passagem e a possibilidade de verem a Clara Luz.
            Noutro ponto do livro Huxley deixa um dos seus últimos testemunhos sobre a experiência psicodélica: ouvir boa música, diz uma das suas personagens referindo-se a Mozart, é o mesmo tipo de experiência que se tem com a medicina moksha, ou através da oração e jejum ou exercícios espirituais. Mesmo que não se relacione com nada fora dela, ainda assim é a coisa mais importante que nos acontece. ... E dando-se uma oportunidade à experiência, estando-se preparado para ir adiante com ela, os resultados são incomparavelmente mais terapêuticos e transformadores [que com a música]. Desse modo, talvez tudo aconteça dentro do esqueleto de cada um. Talvez seja privativo e não haja nenhum conhecimento unificador de nada além da fisiologia de cada um. O que importa? O fato é que a experiência pode abrir os olhos a cada um de nós e fazer de todos nós seres abençoados e transformar completamente nossas vidas.

            A ironia implícita na fala da personagem que diz damos-lhes quatrocentos miligramas de revelação... é afinal a mesma, embora com sentido oposto, da do Controlador Mustafá Mond de Admirável Mundo Novo ao afirmar que um centímetro cúbico de soma cura dez sensações de abatimento. A verve sardônica de Huxley permanece intacta, embora há três décadas quase sempre de reserva. Pala é um sonho: Ainda não existiu uma sociedade que, sendo criada por Bons Seres, fosse constantemente atualizada, diz uma das suas vozes em ficção. Isso não quer dizer que uma sociedade do gênero não possa existir e que sejamos idiotas por tentar pô-la em prática aqui em Pala. Que não sejam idiotas - mas são apenas personagens de uma fantasia, de mais um domínio da Utopia que, por estar longe de ser um idiota, embora idealista, Huxley destrói com um ataque das tropas de uma ilha vizinha, baseada no modelo corporativo-industrial-militar que tanto combate, e para a qual tanto petróleo inexplorado é um desperdício. Não há guerra porque Pala não tem armas, mas há invasão bélica pela posse do chamado ouro negro.
            Não há lugar para o sonho nem maneira de realizar o progresso ideal de Oscar Wilde através da realização das utopias?
 

  Atenção! Atenção!

 Atenção a quê? - pergunta um visitante. A estar atento, responde taoística e confucionisticamente o neto de um dos fundadores da cultura de Pala.

  HUXLEY  A CONTRACULTURA  E A ESCOLA DE FRANKFURT

 I’m a highbrow – fez questão de realçar Aldous Huxley. É um intelectual – e o que se entende por isso traz pano para manga e colete. Jean-Paul Sartre diz que o intelectual é aquele que mete o bedelho onde não é chamado. O que dá palpites em uma civilização regida pela idéia da competência técnica. Huxley é  um intelectual de leste a oeste e do início ao fim.

Quando se sente com forças e não lhe falta a voz, Huxley grava num ditafone os seus últimos textos, entre os quais Shakespeare e a Religião, que será publicado pela Show Magazine em 1964, e uma adaptação da sua conferência ‘Experiência Visionária’, que seria publicada sob o título Hallucinogens: A Philosopher’s Visionary Prediction (Alucinógenos: A Visionária Profecia de um Filósofo) na edição de novembro de 1963 da revista Playboy.

Com o agravamento da doença e o escritor acamado, o casal Huxley lê o Livro Tibetano dos Mortos na versão de Timothy Leary e Ralph Metzner.

Huxley e a Religião, Hallucinogens, Livro Tibetano dos Mortos... Um daqueles intelectuais que o rebaixaram quando, como se não bastasse o misticismo, começou a escrever sobre drogas diria: que salada.

           A nova cultura criada em Pala. Uma contracultura. Como dá claramente a entender um dos discursos do livro – a exemplo de quase todos os anteriores não tanto um romance quanto um expositório de idéias do autor:
            Após um século de pesquisas com o moksha chegamos à conclusão de que pessoas inteiramente comuns são capazes de ter visões, estando capacitadas para sentir-se inteiramente libertadas. A este propósito, tanto os homens como as mulheres que fazem ou apreciam a cultura não são melhores que os incultos. Um alto nível de cultura é perfeitamente compatível com a pobreza de expressões simbólicas. As expressivas imagens criadas pelos artistas de Pala não são melhores do que as que foram produzidas pelos artistas de outras partes do mundo. Sendo produto da felicidade e de um sentimento de completa realização são provavelmente menos vivas, e talvez nos satisfaçam menos do ponto de vista estético que as trágicas figuras criadas como motivo de compensação pelas vítimas da frustração, ignorância, tirania, guerra e de todos os crimes culpabilizadores que alimentam as superstições. A superioridade palanesa não repousa em imagens simbólicas mas numa arte que, embora mais elevada e de maior valor que todo o resto, pode ser executada por qualquer um - a arte de ter uma experiência adequada. A arte de se tornar mais intimamente familiarizado com todos os mundos que habitamos. A cultura palanesa não é para ser julgada pelos mesmos critérios (e ainda nos falta coisa melhor!) com que julgamos as outras culturas. Não é para ser julgada pelos feitos de uns poucos manipuladores privilegiados das imagens simbólicas ou artísticas. Deve ser julgada pelo que todos os seus membros (os comuns e os superiormente dotados) fazem e experimentam em cada contingência e a cada interseção do tempo com a eternidade!
           
Em Pala não há literatura porque não há dualismo: com ele, a possibilidade de uma vida boa não pode existir; sem ele, é dificílimo haver boa literatura.

Foi um dos mais notáveis highbrows do século XX e isso não se deleta. Em A Ilha – como nos apêndices de Heaven and Hell – pode dar o menu de uma subcultura mas como é óbvio não propõe uma sub(no sentido de “baixa”)cultura de massa. Cita a música de Mozart e basta. E sua obra mantém um glossário completo do cardápio huxleyano – de Bach a Milton, Shakespeare e Shelley, arquitetura e artes plásticas.

Nesta página expõe-se em profusão seus protestos ao longo de todo o trajeto contra o extravasamento ou extrapolação à saturação da mídia de massa, que criticou desde a nascença com o rádio, quando anteviu a mediocrização da cultura precisamente por sua massificação. Médio - média - medíocre. Foi contemporâneo e espécie de primo da Escola de Frankfurt, com que diferiria ao centrar suas preocupações como crítico da civilização na queda da cultura como valor pela uniformização mercantil e banalização da arte, na ótica radical de Adorno e Horkheimer em Dialética do Esclarecimento (1947), em suma, a começar por sua condenação, igualmente à nascença, dos governos ditos marxistas. E se os frankfurtianos o condenaram por banalizar o improviso também não há nenhuma indicação de alguma simpatia de Aldous Huxley pelo jazz.  MAS no entanto para ele também

A cultura palanesa não é para ser julgada pelos mesmos critérios (e ainda nos falta coisa melhor!) com que julgamos as outras culturas. Não é para ser julgada pelos feitos de uns poucos manipuladores privilegiados das imagens simbólicas ou artísticas. Deve ser julgada pelo que todos os seus membros (os comuns e os superiormente dotados) fazem e experimentam em cada contingência e a cada interseção do tempo com a eternidade!   

 

 

           Em 1965 o Congresso aprova uma lei proibindo as substâncias psicodélicas e põe mais uma pá de hipocrisia e cinismo sobre um assunto que continua sendo tratado pelas autoridades com tanta leviandade quanto ignorante preconceito. Ou de repente nem é disso que se trata mas de ostentarem preconceito de velha raposa, por saberem que ao fecharem com uma mão as vias legais, com a outra estão abrindo e abrindo-se às ilegais, com o potencial de corrupção ativa e passiva e concussão inerentes. Nada mais cabal talvez quanto a este ponto que a saga de Lucky Luciano, preso havia vários anos por chefiar o tráfico de opiáceos e uma rede de prostituição na região de Nova York antes de ser libertado por ter posto a máfia siciliana abrindo caminho à invasão da Itália pelas tropas aliadas na II Guerra Mundial. Ou recordar a péssima lição da Lei Seca, que permitiu a consolidação do poder de Al Capone e a corrupção de boa parte da corporação policial, de agentes do fisco e do aparelho judiciário da América.
              Intelectuais e cientistas empenharam-se a fundo em campanha para levar o Congresso a desistir da inclusão dos derivados do fungo de centeio e do cacto mexicano na lista de substâncias proibidas. A campanha contra a proibição gerou uma série de documentos históricos como Request For a Public Hearing, de Richard Alpert, e os testemunhos do trabalho até então realizado por pesquisadores como o psicólogo checo Stanislav Grof ou os psiquiatras Humphrey Osmond e Bernard Aaronson, que escreveram em Psychedelics and the Future, capítulo final do livro Psychedelics, publicado em 1970:
            Homens e mulheres mais velhos que exercem autoridade moral e estrutural, chamados coletivamente Establishment, estão há anos alarmados com os psicodélicos. Enquanto isso, sempre no centro de todo o movimento anti-establishment, os jovens impetuosos correm atrás deles com ardor e ousadia de Romeu e Julieta.
             A caixa de Pandora foi inesperadamente aberta. Não importa quanto se lhes avise, os establishments sempre são surpreendidos e, quando se apercebem de que alguma coisa está errada, o mais das vezes agem precipitadamente, sem pensar muito ou sem tomar cautela, acabando por transformar uma inconveniência de somenos importância e até possíveis benefícios numa catástrofe. Houve muitos avisos de que os psicodélicos poderiam ser facilmente distribuídos. Não era preciso ser profeta para prever isso, porque a história demonstra que o homem tem sido um experimentador inveterado de químicos, normalmente derivados de plantas, que o tornam mais feliz e vivaz ou alteram a sua percepção ou o seu estado de consciência.
         Antes de planejar e aprovar legislação implementando novos procedimentos de vigilância teria sido mais sensato aquilatar a utilidade de tais ações e ponderar se atitudes de polícia não teriam consequências inesperadas, tão más ou piores que os males remediados.
             Uma das consequências mais notórias da proibição nos anos 20 foi a da desobediência à lei por parte de quem não pensava que tomar álcool fosse imoral, mesmo que se tivesse tornado ilegal. É um preço alto a pagar por um benefício social no mínimo duvidoso.
            Drogas são apenas um dos muitos caminhos possíveis para se atingir a auto-transcendência e que de modo algum pode ser considerado o mais condenável do ponto de vista médico.
           Desde os tempos mais remotos os psicodélicos são vistos como estranhos e sagrados e fazem parte de grandes cerimônias religiosas. Perduram há tanto tempo e têm tido tanto interesse para a humanidade como o álcool, que com o advento da agricultura moderna tornou-se de mais fácil acesso. Por outro lado, a cannabis tem sido usada há muitos séculos. O interesse dos Índios por drogas sobreviveu à força bruta da Inquisição Espanhola. Tais substâncias têm grande interesse para a psicologia e a psiquiatria e há um grande número de provas da sua utilidade terapêutica.
           O Establishment terá de decidir se desaprova os químicos que produzem a experiência ou a experiência em si mesma.
           As consequências da experiência psicodélica pela maioria ou mesmo por uma minoria substancial da população pós-industrial, em termos sociológicos, psicológicos, políticos ou a outros níveis, tendem a afetar muito mais a sociedade que uns quantos passeios espaciais para heróis e heroínas cuidadosamente selecionados.

 

 


trechos do apêndice Era uma vez as revoluções de
 

            Em verdade, mal passada uma década parecia que os anos 60 tinham acontecido à época do nascimento de Huxley. De drogas psicodélicas, por exemplo, nem pó. Mas pó havia aos montes. Cada vez mais heroína e cocaína, a droga da eficiência que ajudou a polir as pujantes bolsas de valores interligadas por computadores na era de Thatcher e Reagan e do FIM DA HISTÓRIA de Francis Fukuyama.
            No paraíso materialista neoliberal não há cá pano para sonhos e o lema é: quem busca a utopia traz consigo a barbárie. Os yippies foram substituídos pelos yuppies, com Jerry Rubin de terno e gravata como consultor de investimentos na mesma Bolsa de Valores de Nova York em que nos anos 60 queimara uma nota de dólar simbolizando a brusca transição da inocência para um pesadelo de Wall Streets em sessão dupla que abria com um filme série B do tempo em que Huxley chegou a Hollywood: Nancy e Ronald Reagan como atrações num bangue-bangue em que a dada altura surge um misto de presidente de república de bananas e poderoso traficante de cocaína ao serviço dos cartéis de Cali e Medellin colaborando com a CIA na luta anticomunista na América Central. Como nos anos 60, quando aeronaves militares americanas transportavam heroína do Triângulo Dourado para o Laos em troca da ajuda dos narcotraficantes locais na luta contra os vietcongs e os khmers vermelhos do Camboja.

            Mas de onde vêm os computadores pessoais que interligam as bolsas de valores do novo Governo Global que caiu no colo de George Bush Pai, formatado por Reagan e pelo papa polonês, permitindo-lhe desencadear a II Guerra do Petróleo da Era Ford?
            Do Vale do Silicone, na região de São Francisco, a eterna Fraternidade do Amor Eterno.
            Para Eric Davis, em Technognosis, por exemplo, não é pura coincidência que a era da tomada de consciência cósmica seja a da cibernética.
          O próprio termo PC foi criado por Stewart Brand, um ex-membro da comunidade Merry Pranksters que lançou em 1968 o Whole Earth Catalog, a primeira publicação alternativa tipo almanaque com anúncios de compra e venda de toda espécie de artigos de segunda mão, entre os quais, em pouco tempo, componentes de computadores.
            Outra ponte do psicodelismo para a cibernética foi Steve Jobs, notório acidhead, budista e vegetariano, que associando-se a Steven Wozniak para construir e vender computadores numa garagem em Stanford, também na região de Frisco, deu origem e nome à nova Apple. Hippies saem na frente (da IBM), alardearam os jornais.
Escreveu Davis:
           Os modems forçam a abertura da ‘válvula redutora’ de Huxley para a entrada da Mind at Large (ou Mente Expandida). Computadores e media eletrônica estão pondo todo mundo na onda e o ciberespaço configura-se como a paisagem virtual, mutável da consciência mental coletiva. As libertadoras energias do êxtase, definidas como a explosiva expansão do self para além das suas amarras cotidianas e hipervalorizadas pelos ideólogos da contra cultura dos Sixties, são agora um dado tecnológico.
            Já em 1952 o visionário Humphrey Osmond chamava a atenção para as semelhanças entre a estrutura e a mecânica de funcionamento dos computadores e as do cérebro humano e dezesseis anos depois o mago da aldeia global Marshall McLuhan previu que o computador seria o LSD do mundo dos negócios. Palmilhando esses rastos, de Inimigo Público Número Um da era Nixon à era Reagan Timothy Leary adaptou a sua política do êxtase à cibernética criando a Exo e depois a Info-Psychology, pela qual ela é mais um instrumento de reprogramação constante do cérebro a juntar às drogas psicodélicas.
            O trabalho de pesquisa de Leary na busca de uma base de integração psique-cibernética tem a ver com os projetos desenvolvidos a partir do estudo das novas ferramentas químicas num dos primeiros frutos do trabalho do Huxley, o Instituto Esalen, centro de estudos multidisciplinares que funcionava perto de Big Sur e que unia em palestras, debates e seminários e em projetos de pesquisa expoentes da ciência, literatura, arte e estudo das religiões. Com isso ele foi uma das bases de lançamento espacial das idéias transculturais, ou holísticas, da revolução psicodélica, que desembocaram na chamada Nova Era. Donde quem quer que com ele se envolveu ser o ponto de partida e de chegada dos ataques do neo-conservadorismo imperante - que junta no mesmo saco a antiga direita e a ex-esquerda marxista-leninista messiânica, os discípulos de Alan Bloom e os ex-discípulos de Georg Lucáks - às heranças dos malfadados anos 60, que só lhe estão a atravancar o caminho da exploração ilimitada dos recursos naturais em nome do lucro fácil, mais as suas idéias de relativismo cultural e exploração racional da natureza, que quase puseram e ameaçariam a cada instante pôr a perder os seus velhos e bons valores éticos e morais.

            É espantoso como as idéias de Huxley em relação aos mais diversos campos da atividade humana que estudou – política, educação, ciência, filosofia, artes, religião, ecologia, história... ele não deixou escapar quase nada - estão firmes e fortes no centro da polêmica gerada pela grande cruzada neoconservadora contra o espírito dos anos 60, pela ocupação do Iraque, a crise ambiental e a consolidação do poder hegemônico das corporações e contra as utopias que só levariam à barbárie.
            Outro aspecto da questão é a própria Nova Era, cuja faceta mais evidente, a da velha exploração da ignorância nas questões do espírito pelo comércio, de livros de auto-ajuda a assessorias esotéricas pseudo-científicas, é em si mesma e apesar de tudo uma expressão da permanente necessidade do ser humano de desatar as amarras do jogo da vida materialista que continuamos galhardamente a jogar quase sem escapatória. A do Edward Said, por exemplo, é a mesma do Huxley, a dizer que o Oriente precisa de uma revolução de secularização e o Ocidente de religiosidade. Mas daí a chamar Huxley de guru da Nova Era...

            Continuamos nos anos 90 depois de Ford reféns da cultura contra natura e, claro, contra a própria natureza humana - o antigo pensamento de direita reforçado por muitos dos antigos partidários do socialismo real na defesa das instituições que, apesar de cada vez mais desacreditadas, parecem ter saído ainda mais fortalecidas das refregas dos anos 60. O ensino por exemplo, bem ao contrário das reivindicações do Maio de 1968, é cada vez mais um mero ramo de negócios da iniciativa privada, situando-se a uma ainda maior distância do ideal de Huxley de instrumento de elevação humana e não apenas de aprendizado de técnicas de sobrevivência na selva tecnológico-mercantilista. Por outro lado a guerra às drogas de múltiplas faces movida a partir de Washington fez do fenômeno de explosão do seu consumo, com o consequente aumento do tráfico, uma dos terrores do mundo moderno. O proibicionismo enriquece os traficantes e por tabela muitos representantes da lei e da ordem e do sistema financeiro que embranquece o seu dinheiro e o da corrupção.
            Até Milton Friedman, mestre dos Chicago Boys, era favorável à legalização das drogas – o que segundo ele diminuiria a violência e levaria ao consumo de drogas leves em detrimento das pesadas.
            Da profusão de micro-pílulas ou papel embebido em LSD produzidos por laboratórios clandestinos europeus e americanos a partir dos anos 70 avançou-se para um consumo cada vez mais dilatado de drogas duras e os guetos americanos - e nos últimos anos até o Rio de Janeiro -  foram inundados de crack enquanto para muita gente as chamadas drogas leves passaram a ser como que a refeição do dia-a-dia, instrumento natural de combate ao stress ou ferramenta de auxílio à criatividade, por exemplo, e o banquete da medicina moksha psicodélica tornou-se um luxo até o seu relativo revivalismo, a partir dos anos 90, quando se dá a redescoberta da Me-ti-le-no Di-ó-xi-do Me-ta An-fe-ta-mi-na, MDMA, ou ecstasy, até então usada como moderador de apetite ou desinibidora de pacientes em psicoterapias. Hoje a onda prevalecente é a da excitação provocada por estimulantes químicos de neurotransmissores.
           A problemática das drogas é só uma das facetas do jogo cínico dos algozes do sistema, em pouco mais de um século a transformar-se de questão de gosto, estética ou religião em mais um dos grandes flagelos da humanidade por conta de interesses políticos inconfessáveis, sendo hoje também uma questão de importância geoestratégica para o Império. Tivemos aí as pressões político-econômicas de Washington sobre governos de países como o Brasil para que escancarassem as fronteiras à grande guerra ao narcotráfico, potencialmente tão útil ao complexo industrial-militar e outros lobbies como a III Guerra do Petróleo da Era Ford em curso no Iraque. Não vem ao caso que uma minoria relevante das populações consumidora de drogas viva uma semiclandestinidade em certos aspectos aterradora, pela ameaça que o seu hábito – e na maioria dos casos não dependência física ou psíquica – acaba por acarretar à sua integridade física e moral, pelo contato direto com marginais, nos bom e mau sentidos do termo, e os absurdos riscos de se ir para a cadeia ou poder-se morrer por ingestão de produtos adulterados. Somos apenas drogados que com a dependência alimentam essa entidade sem rosto chamada narcotráfico. Nos EUA, onde se contabiliza mais de meio milhão de delitos ligados à posse de marijuana por ano, instituiu-se o direito de confiscar todos os bens de quem tenha uma plantaçãozeca de cannabis na sua propriedade.
           O uso da cannabis para fins terapêuticos já é permitido em alguns países mas o mundo continua desperdiçando os benefícios comprovados das drogas psicodélicas em psicoterapia e no tratamento de pacientes terminais, a que pode ajudar diminuindo a angústia pela iminência da morte, como a Huxley, que morreu viajando. As pesquisas sobre os benefícios terapêuticos do LSD e da psilocibina ficaram praticamente no ponto em que estavam à época da sua proibição nos EUA. Mas o estudo etno-antropológico dessas e de outras substâncias evoluiu muito graças às pesquisas de campo feitas a partir de levantamentos históricos e ensaios sobre o trabalho de psicólogos, psiquiatras e teólogos por pesquisadores como Terence McKenna e Jeremy Narby. Viagens em si mesmas visionárias que nos levam às origens da vida e da sociedade humana e sem exceção acabam no ponto de onde sempre se parte: que desde sempre o homem procurou nas drogas, como escreveu William Wordsworth, um entendimento de algo mais profundamente interligado - um dos versos mais citados por Huxley quando escrevia sobre essa constante histórica de meticulosidade estarrecedora - e que é nas drogas que ele encontra um dos elos mais fortes com a sua natureza.
           Encontramos recentemente na grande rede uma dica a esse propósito: Como o telescópio é ilegal não podemos pedir às pessoas para olharem através dele, diz um dos terapeutas que consideram os enteogênios os instrumentos mais corretos e instantâneos para se entender o modelo racional da morte do ego e que lamenta que até hoje a cultura ocidental só os tenha experimentado sob uma severa combinação de supressão legal, tabu cultural, estúpida ignorância, desinformação, mentiras, distorção e poderosa antipropaganda pelo Establishment.
           Na carta que enviou com uma cópia de A Ilha ao que chamava de descobridor original da medicina moksha, Huxley dizia a Albert Hofmann: Espero que este e outros trabalhos do gênero resultem no desenvolvimento de uma verdadeira História Natural da experiência visionária, em todas as suas variações, determinadas por diferenças de estrutura física, temperamento e profissão, e ao mesmo tempo de uma técnica de Misticismo Aplicado – uma técnica para ajudar indivíduos a aproveitar ao máximo a sua experiência transcendental e para usar os insights no Outro Mundo nos assuntos deste mundo. Meister Eckhart escreveu que o que se obtém pela contemplação deve ser devolvido em amor. É essencialmente isto o que se deve desenvolver – a arte de doar em amor e inteligência o que se obtém da visão e da experiência de autotranscendência e solidariedade com o Universo...
           Hofmann acompanhou sua participação numa conferência sobre superpopulação, recursos naturais e escassez de alimentos que se realizou em Estocolmo dois meses antes da sua morte e recordou-a da seguinte forma:
             Huxley propôs a exploração e aplicação das capacidades ocultas e ainda inexploradas do ser humano. Uma raça humana com mais capacidades espirituais altamente desenvolvidas, com consciência expandida da sagacidade e da incompreensível maravilha do ser, teria também uma maior compreensão e maior consideração pelas fundações biológicas e materiais da vida na terra. Sobretudo para a população ocidental, com a sua racionalidade hipertrofiada, o desenvolvimento e expansão de uma profunda experiência emocional da realidade, desobstruída de palavras e conceitos, seria de grande significado para a evolução.
              Até hoje idéias do subterrâneo.
 
             A obra de Huxley choca pela inadequação aos padrões vigentes fosse no seu tempo como na atualidade, quando seria ainda mais evidente que só há uma via para o futuro entre as que apontou: a do Admirável Mundo Novo, embora com tantas câmeras de vigilância nos rodeando ainda pareça que estejamos no rumo de uma organização político-social orwelliana, ou a de A Ilha. Em tempos de opressão e desordem neoconservadora assistimos também a um revivalismo do espírito da era do neoarcaísmo psicodélico. Após décadas de estudos sobre a natureza e a história das relações humanas com as drogas Terence McKenna passou a defender a atualidade das propostas de Huxley em A Ilha e dos hippies ao sustentar que o único caminho possível para a humanidade é o do chamado revivalismo arcaico, que acabe com a cultura de domínio patriarcal e reinstaure a que Riane Eisler, em O Cálice e a Espada, definiu como sociedade de parceria – que era o que no fundo se procurava reinstaurar naqueles tempos.
            Para a maior parte do Establishment intelectual, nos seus últimos anos de vida como na atualidade, Aldous Huxley foi um lamentável caso de mutação que levou um dos mais brilhantes pensadores do século XX a tornar-se um tipo estranho e excêntrico que exagerou no envolvimento com drogas e cultos bizarros. Chega-se ao ponto de dizer que o que ele propõe em A Ilha são técnicas de condicionamento bárbaras e que Pala representa uma ditadura tremenda porque nela todos são obrigados a ser felizes. As prontas reações de escárnio ao seu último romance levaram-no a escrever: Divertindo-se com Cogumelos – é assim que um crítico arruma o assunto. Mas o que é melhor: Divertir-se com Cogumelos ou ter Idiotia com Ideologia, Guerras por causa de Palavras, Desfeitas Futuras por Descréditos Passados?

 No último trabalho publicado em vida Huxley faz um resumo dos seus pontos de vista em relação à experiências mística e visionária para chegar à sua ‘profecia’ sobre a aplicação das drogas psicodélicas no desenvolvimento psíquico e intelectual de indivíduos com capacidade para servir de agentes de uma gradual transformação da sociedade. Segundo ele, através da experiência psicodélica os indivíduos envolvidos no processo poderão partir de um estado de ‘consciência estética e visionária’ para um outro, mais aprofundado, de ‘consciência mística’.

O mundo é então visto como uma diversidade infinita que é ainda uma unidade e o contemplador sente-se um com a infinita Oneness que se manifesta, totalmente presente, em todos os pontos do espaço, a todo o instante, no fluxo do perecimento perpétuo e da perpétua renovação. A nossa consciência normal condicionada pela palavra cria um universo de distinções acentuadas, preto ou branco, isto e isso, eu e você e aquele. Na experiência mística de ser um na Oneness existe uma reconciliação de opostos, uma percepção do Não-Individual nas individualidades, uma transcendência das nossas ainda problemáticas relações sujeito-objeto com coisas e pessoas.

Para um indivíduo em estado de consciência normal a frase ‘Deus é Amor’ não é mais que ‘um pedaço de uma racionalização positiva de um desejo’, mas ‘para a consciência mística é uma verdade em si mesma’, considera.

Mudanças tecnológicas e demográficas de uma rapidez sem precedentes aumentam paulatinamente os perigos que nos rodeiam, pelo que ‘um treino amplo na arte de derrubar tapumes culturais é agora a mais urgente das necessidades’, defende, antes de se/nos interrogar:

Pode um treino desse tipo ser acelerado e tornar-se mais efetivo através do uso judicioso dos fisicamente inofensivos psicodélicos hoje disponíveis?

Como deveriam ser usados os psicodélicos? Em que condições, com que tipo de preparação e acompanhamento?

Segundo ele, tais questões devem ser respondidas empiricamente, através de uma experiência em larga escala.    

[N]um mundo com um aumento populacional explosivo, em precipitado avanço tecnológico e de nacionalismo militante, o tempo à nossa disposição é muito limitado. Devemos descobrir, e descobrir muito rapidamente, novas fontes de energia para suplantar a inércia psicológica da nossa sociedade, melhores solventes para dissolver a nossa grudenta tacanhez de um estado mental anacrônico.

Os indivíduos envolvidos num processo de desenvolvimento do seu potencial psíquico e intelectual com a ajuda de substâncias alteradoras de consciência deveria[m] tornar-se apto[s] a adaptar-se melhor à sua cultura, rejeitando os seus males e o que nela haja de estúpido e irrelevante, aceitando com gratidão todos os tesouros do aprendizado acumulado, de racionalidade, interioridade humana e sabedoria prática. Se o número de tais indivíduos for suficientemente grande, se a sua qualidade for suficientemente alta, eles poderão estar aptos a passar do estágio da perspicaz aceitação da sua cultura para o de uma  perspicaz mudança e reforma.

Será isto um esperançoso sonho utópico?, pergunta-se/nos Aldous Huxley, para arrematar:

A experiência poderá dar-nos uma resposta, porque o sonho é pragmático; a hipótese utópica pode ser testada empiricamente. E nestes tempos opressivos uma pequena esperança não é seguramente uma visita indesejada.


            Pela via do misticismo e das drogas psicodélicas Huxley transitou de uma longa temporada no inferno da cegueira, dos tabus vitorianos, do racionalismo e dos horrores da primeira grande guerra para a perspectiva da união do homem com a (sua) natureza numa existência cósmica que em verdade nenhuma sociedade humana poderá almejar, como testemunhou com a destruição de Pala pelo lobby da indústria petrolífera, numa das suas memoráveis antevisões do futuro próximo, que logo se revelaria também o do revivalismo arcaico – que de Samuel Usque e Rousseau a Henry David Thoreau e Huxley é um sonho que não morreu e não morrerá – e da psicodelia, ou seja, do advento da consciência cósmica previsto por Richard Bucke.
            No dia da sua passagem, horas depois da morte do J. F. Kennedy, nascia a contracultura, diz-se. Mas das tribos nômades a J. Cristo, Rousseau e Huxley a contracultura sempre existiu. Fato sempre negligenciado pelos seus biógrafos mas evidenciado até pela reação irada de intelectuais da velha guarda como Thomas Mann à sua obra a partir de The Doors of Perception, Huxley é um mestre da contestação da cultura contra natura ocidental e – talvez malgré lui-même – da contracultura, vale dizer, da cultura pro natura de todos os seres e coisas.
            Do inferno do Governo Mundial do Admirável Mundo Novo a um Magical Mistic Tour e à sua Pepperland, Pala (que se a viva então em sonhos), do racionalismo atávico a uma tão desaustinada que se diria insana busca da iluminação pela via mística e à revelação cósmica das drogas psicodélicas, ele cumpriu uma das trajetórias mais excêntricas do século XX, incorporando e destrinchando os seus paradoxos e contradições, o que fez dele um dos seus mais emblemáticos e paradigmáticos protagonistas e um modelo para o século XXI.

            - Mas vem cá, tá tudo muito careta à nossa volta e os caretas desbundando tanto nas ondas mais vergonhosas que a gente até se retrai. Haverá alguma semelhança entre o Mundo Novo e este mundo no ano 90 d.F.?
            - Alguma, sim. Vivemos sob a pata de um Governo Mundial com uma dezena, se tanto, de mandatários servis e obedientes aos seus princípios, entre os quais o de que todo o sacrifício da população é pouco para manter a Estabilidade da desordem política e econômica vigente. Mas há também diferenças abissais. Ainda estamos em guerras. E o Prozac, por exemplo, ainda não é uma droga oficial e de uso compulsório para temperar os maus sentimentos ou pressentimentos das populações. Nos anos 90 d.F. estamos ainda a um pequeno passo do admirável mundo novo: uma guerra química? nuclear? de consequências inimagináveis e que nos levaria inapelavelmente a começar tudo de novo, se isso fosse ainda possível. De preferência não no mundo do Admirável Mundo Novo. E há ainda a cruzada contra os infiéis muçulmanos radicais, loucos de pedra, mas não mais que os que os pretendem combater também em nome de um suposto credo não menos fundamentalista e ainda mais deplorável porque inegavelmente sonso.
 

 

Será isto um esperançoso sonho utópico?, pergunta-se/nos Aldous Huxley, para arrematar:

A experiência poderá dar-nos uma resposta, porque o sonho é pragmático; a hipótese utópica pode ser testada empiricamente. E nestes tempos opressivos uma pequena esperança não é seguramente uma visita indesejada.


                         

                                    

 

 

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