Em longos trechos de   uma das atrações de revoluciomnibus.com o narrador Edgar Lessa trata sobretudo de um mas também se refere a outro país sob ditadura no início dos anos 1970.

Um é anacronismo, ainda que não fosse à época o único país da Europa Ocidental sob regime de exceção. Além de Portugal, também Espanha e Grécia estavam sob os grilhões de moscas e moscardos do arbítrio, os três países da cauda do desenvolvimento econômico e social da Europa Ocidental.

O Brasil não. Um e outro à vez, golpe aqui, golpe acolá, desde a Redentora brasileira de 1º de abril de 1964 - congeminada sob os auspícios dos governos Jack Kennedy-Lyndon Johnson - a América Latrina nunca mais teve paz. Ditadura no subcontinente era a regra como rescaldo do rubror da Guerra Fria pós-desastre da Baía dos Porcos, não fossem os Estados Unidos passarem por outro vexame igual ao das eras Eisenhower-Kennedy em Cuba.

 

      ciberzine   & narrativas de james anhanguera

                                                                   

                                    as ditas moles e as ditaduras

          flashes da consciência enlatada e ensanduichada em ditas moles e ditaduras                                            

                                                             

Eram duas ditaduras de cariz muito diverso. Uma nascida na esteira da onda de autoritarismo que avassalou a Europa entre as grandes guerras também sob o impacto da Grande Depressão de 1929-32. Ditadura de um financista louco manso com mentalidade de apascentador de rebanho provinciano do século XIX português (até Eça de Queirós também explica). É bom de ver que por essa época o Brasil também teve esse tipo de Grande Ditador, mais à feição de suas dimensões continentais e da origem gaúcha do homem, mais pro gênero rei do gado de bombachas.

Mas a que resultou da Redentora de 1964 era uma ditadura militar que por esse aspecto tem analogias com a da Grécia e com as tentativas de golpes na Itália ao longo dos anos 1960, com o objetivo de aniquilar o perigo vermelho.

Seja como for ditaduras com os mesmos aparelhos de torção e repressão e quem não dormiu sob essa opressão não tem nem noção do pesadelo.

Ditaduras. Está tudo dito. Faz quase meio século anos que a ditadura militar foi imposta no Brasil e que, com a decretação do Ato Institucional Nº 5, ela endureceu impondo a lei da mordaça. E faz quase 40 anos que a ditadura portuguesa - a mais longa ditadura da história moderna da Europa Ocidental - acabou.

Já é primavera, pá, cá estou contente - manda urgentemente um cheirinho de alecrim

expirava Chico Buarque quando a barra parecia pesar como nunca para quem precisava de liberdade para pensar e falar e agir e cantar. Entre cinco anos de dita muito dura, uma dura como poucas sob o chicote de Médici, e  de seu sucessor Ernesto Geisel, com o governo sob ameaça de levar uma surra numa eleição parlamentar apesar do manietamento do processo, fechar o Congresso e pôr tudo sob ameaça de mais ferro e fogo. De lascar, meu.

Aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock and roll mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui tá preta

reportaria o mesmo Chico Buarque uns dois anos depois ao seu caro amigo no exílio... em Portugal.

Portugal precisou de uma revolução para se enquadrar na Europa do terceiro milênio. O processo a que se chamou Revolução dos Cravos talvez tenha sido apenas o forte abalo nas estruturas necessário para zerar o HD e começar tudo de novo. Foi como que um novo terremoto de 1755, de que alguma gente jovem naquele tempo nunca se recuperou. Vinte e oito dias antes do golpe militar de 25 de abril de 1974 Pier Paolo Pasolini declarou em um artigo de jornal que para os grandes centros capitalistas internacionais Portugal deveria por força deixar de ser aquela sociedade severa, parcimoniosa, arcaica e entrar na roda viva do consumismo hedonista. Considero pior o totalitarismo do capitalismo de consumo que o totalitarismo do velho poder  - precisou o autor de Salò ou Os Últimos Dias de Sodoma dois meses depois, analisando a evolução dos acontecimentos no país.  Seu efeito sobre os ânimos antiditatoriais tupiniquins foi acachapante. Nego ficou de quatro, bolado. Se até Portugal abriu, por aqui também não deverá tardar muito. Com os efeitos dos acontecimentos posteriores ao golpe de 25 de abril de 1974 em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, Portugal passou lá da retaguarda para a vanguarda das ideias no mundo da última flor do Lácio. Para lá afluíram revolucionários e pseudo-revolucionários de todo o mundo, pós-68ards franceses, baader-meinhoffers, brigadistas vermelhos e lotta continuistas italianos, chilenos foragidos da ditadura Pinochet, brasileiros da diáspora... Glauber Rocha foi um dos primeiros, Zé Celso Martinez Correa saiu direto de uma prisão para fazer Oficina Samba dar a volta às cucas afinal muito tacanhas, apesar da abertura à primeira vista para possibilidades impossíveis, e  meio enfezadas, apesar da festa, dos pares lusos... a ponto de a certa altura ter-se visto obrigado a dar um tempo e ter ido filmar o nascimento de Moçambique. Ainda assim, no meio do maior delírio entre as especulações reinantes (que era só o que reinava, além de uma grande balbúrdia), chegava-se a falar em Revolução Tricontinental, o 25 lá levando de roldão dois possíveis grandes potentados da África mais o Brasil e o escambau, a restauração dos ideais do Triângulo do Mar, quando Portugal, Brasil e Angola pareciam uma coisa só. Pequenino mas em posição estratégica sobre o Atlântico Norte, Portugal fez com que a CIA usasse todas as suas artes e manhas para impedir que os barbudos de Sierra Madre fundassem postos avançados no Alentejo e nos Algarves.

O Brasil penou mais uma década de arbítrio e entrou no terceiro milenio vivendo o mais longo período de liberdades democráticas de sua história.

Entre a política dos conchavos que o levaram da escravatura à Lei Áurea da neoescravatura e do Império à Velha República do café com leite e desta a uma ditadura de década e meia, mais uma outra década de conturbação até o oásis dos Anos Durados e uma ditadura militar de 25 anos, os brasileiros com visão, mirando o imenso potencial do país deitado em berço esplêndido de quase um continente, tinham motivos de sobra para acreditar que com a democracia restaurada seu país tinha tudo para corrigir erros seculares e pôr o trem-bala a mil. Mas a instituição da Nova República que culminou com o martírio de Tancredo Neves foi mais um episódio do eterno conchavo, e entre as mazelas da ditadura que logo se tornaram gritantes viu-se que afinal mais uma vez se mudara para tudo continuar como estava e nem  mesmo classe política renovada e/ou competente havia e aos trancos e barrancos o terceiro milênio entrou com o Brasil todo estropiado por séculos de desmando acrescidos de mais despotismo de um regime mordaz de cana brava que mandara seus melhores crânios para o exílio.

Democracia só - e o que é democracia, o regime que se consagrou universalmente como o da alternância do mesmo? - não é tudo.

 

 

A mente audaz e translúcida, e dir-se-ia nietzscheanamente atingida por um treponemazinho pálido, de Glauber Rocha sapecou como que profeticamente:

ESSAS PESSOAS QUE SE DIZEM REPRESENTANTES DA DEMOCRACIA, ESSAS ELITES, SÃO TODOS TELEGUIADOS. O QUE SEI É QUE FALAM EM TORTURA, MAS TORTURA JÁ EXISTIA HÁ SÉCULOS, SOBRE CAMPONESES E OPERÁRIOS. MAS QUANDO OS TORTURADOS PASSARAM A SER OS BURGUESES, OS ESQUERDISTAS DA CLASSE MÉDIA, AÍ BOTARAM A BOCA NO MUNDO. MAS O POVO ESTÁ SENDO TORTURADO NAS SENZALAS. E OS ÍNDIOS ESTÃO SENDO MASSACRADOS HÁ SÉCULOS, ISSO AÍ NINGUÉM FALA.

leia mais de e sobre o pensamento político de Glauber Rocha neste revoluciomnibus em        

   GLAUBER ROCHA

  OU A POÉTICA DA LUZ DO SERTÃO

      NO CINEMA NOVO BRASILEIRO

O entulho autoritário, até então meio camuflado pela poeira dos tempos que uma nova era haveria de varrer do mapa, acabou por se espalhar por toda a sociedade e o jeitinho e a arte de se dar bem sem olhar a meios e contra quem tornaram-se caracteres básicos de uma sociedade em que sempre se vislumbrara apesar de tudo traços marcantes de cordialidade.

Fácil é distinguir nas grandes linhas regime ditatorial de democrático. Difícil é se aperceber dos mecanismos que nas sociedades humanas  os tornam grosso modo análogos.

A mass-médiatisation abêtisante de que falava Felix Guattari é extrapolada por máquinas propagandísticas como as "socialistas" e fascistas, que todavia não são mais massacrantes que a sutil indução das mensagens supra e subliminares da publicidade de governos e marcas em regimes democráticos em que as corporações e os mass media assumem o papel do Big Brother e do Our Ford das distopias de George Orwell e Aldous Huxley. Huxley discorreu amplamente de Admirável Mundo Novo, de 1932, a  Regresso ao Admirável Mundo Novo, publicado em 1958, sobre a UR!!!RRRRHGHrrr das máquinas opressoras, duras ou moles.

               EYELESS IN GAZA 2009

            

Trechos de     huxley na fome no mundo  uma página do banco de dados revoluciomnibus.com do dossiê  A Fome no Mundo e os Canibais   e   ANHANGUERA         PAPERS  com trechos do apêndice
                            

Rumo às ilhas da Utopia - Da Teoria à Prática Ou Vice-Versa
  
de       

   

             [C]om a Europa em convulsão, com o clima amotinado da Frente Popular na França, a guerra civil prestes a deflagrar na7 Espanha, líderes histéricos a despontar de norte a sul do continente e manifestações de fascistas à porta de casa, Huxley destaca-se, como celebridade, nas campanhas da Peace Pledge Union (União de Compromisso Pela Paz). A luta pela paz é também tema primordial das suas colaborações para a Left Review quando sai Sem Olhos em Gaza.
            Baseando-se no primeiro verso do célebre poema Samson Agonites, de John Milton, um dos maiores clássicos da literatura inglesa – Sem olhos em Gaza, remoinhando com os escravos... –, Huxley surpreende agora pela alucinada lucidez de um romance em que mais uma vez a ficção, em movimentos acrônicos, é pretexto para discorrer sobre as questões que o atormentam, como a cegueira que leva os homens a viver acorrentados a instituições anacrônicas e sob constante ameaça da guerra.
            A metáfora da cegueira, concebida a partir da obra de um cego, dá a dimensão de seriedade de um trabalho sobre os medos, preconceitos, discrepâncias e discordâncias da humanidade, num romance-ensaio em que da sua antiga verve satírica só restam algumas cenas estrambólicas, a vincar o absurdo de certas situações triviais do cotidiano enquanto tudo em volta desmorona.
            Nas suas sucessivas tentativas de conceber a Idéia de Liberdade, o homem está constantemente a trocar uma forma de escravidão por outra. Suprimamos a escravidão à natureza e surge imediatamente outra forma de escravidão ... às instituições religiosas, jurídicas, militares, econômicas, artísticas e científicas. Toda a história moderna é uma História da Idéia de nos libertarmos das Instituições – escreve a dado ponto do romance em que, entre uma e outra discrepância, a personagem central envereda pela busca de algo além – ou ‘aquém’ - no misticismo oriental.

...

            Em 1946 é publicado em Londres o livro de ensaios Ciência, Liberdade e Paz, em que o escritor se concentra nos instrumentos de controle e expansão do poder nas sociedades mais evoluídas do Ocidente na que caracteriza como a Era do Barulho – Barulho físico, barulho mental e barulho de desejo, com a tecnologia ao serviço de uma campanha de agressão ao silêncio, criando ânsia de lavagens emocionais a cada dia ou mesmo a cada hora.
            E como os novos meios de comunicação de massa vivem de publicidade, o barulho é levado do ouvido, pelos domínios da fantasia, do saber e das sensações, ao âmago da vontade e do desejo. Propagada pelo som ou impressa, toda comunicação publicitária tem apenas um objetivo — bloquear a vontade do silêncio pleno. Falta de desejo é a condição básica da entrega e iluminação. A condição básica do sistema de produção em massa em constante expansão e tecnologicamente progressivo é a ânsia universal. A publicidade é o esforço organizado para expandir e intensificar as obras dessa força que (como todos os santos e professores das mais altas religiões sempre ensinaram) é a principal causa do sofrimento e do mal-fazer e o grande obstáculo entre a alma humana e o Terreno Divino.

            Aldous escreve ao mesmo tempo a apresentação de uma nova edição de Admirável Mundo Novo, em que diz que, embora tristemente seguro de que no passado a sanidade foi fenômeno raro, está convencido de que ela pode ser alcançada no futuro. E por o ter afirmado em vários livros, e sobretudo por ter compilado uma antologia do que disseram os sãos sobre a sanidade e todos os meios pelos quais ela pode ser alcançada, um eminente crítico acadêmico disse considerá-lo um triste sintoma do desaire da classe intelectual em tempo de crise.
            Implicando isto, suponho, que o professor e os seus colegas são hilariantes sintomas de sucesso. Vamos então erguer um Panteão para os professores. Deveria situar-se entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa e do Japão, e sobre a entrada para o ossuário inscreveríamos em letras de mais de um metro estas simples palavras:

                                                           
 

            Argumenta que ao escrever Brave New World baseou-se na idéia de um estado totalitário eficiente em que os todo-poderosos executivos dos chefes políticos e o seu exército de gerentes controlariam uma população de escravos sem precisar de os coagir, porque eles amariam a servidão.
            Enumera os métodos revolucionários pelos quais os cidadãos do seu mundo utópico globalizado foram domesticados e conclui: parece que a Utopia está mais perto de nós do que ninguém, há apenas quinze anos, poderia imaginar. Parece-me agora bastante possível que o horror que projetei para seis séculos depois nos caia em cima em apenas um século.
...

            O diretor dos laboratórios da Sandoz em Basiléia, Werner Stoll, publica em 1947 na Universidade de Zurique as conclusões das primeiras experiências de LSD no tratamento de pacientes psiquiátricos e com voluntários sem patologias diagnosticadas. Ao designar a droga Stoll usa o termo de Ludwig Lewin, panthasticum. Na sequência da publicação do relatório a Sandoz envia amostras do produto, sob a designação de Delisyd, a institutos de pesquisa europeus e norte-americanos, que começam a publicar os primeiros resultados de experiências com a droga dois anos depois, quando é lançado o novo romance de Huxley, Ape and Essence, e explode no mercado editorial o mais recente de George Orwell, seu antigo aluno na escola secundária de Eton.
            1984 fala de um mundo à primeira vista muito mais aterrorizante que o de Brave New World, porque numa espécie de ditadura do proletariado stalinista o Grande Irmão tudo vê e controla através de câmeras e todos os cidadãos são forçados à obediência não através de uma droga indutora de apaziguamento mas da força bruta. Mas em carta a Orwell o ex-professor ressalta: Acredito que até a próxima geração os líderes mundiais irão descobrir que condicionamento primário e narco-hipnose são mais eficientes como instrumentos de governo que porretes e prisões, e a lascívia do poder será totalmente saciada pela indução das pessoas a amar a servidão e não por forçá-las a obedecer através de açoitamentos e cacetadas.
            Morre Gandhi durante a realização de Ape and Essence e Huxley insere no livro-filme um depoimento sobre o antiherói da não-violência: Matamo-lo porque, depois de por breve (e fatal) período de tempo ter jogado o jogo político, recusara-se a continuar sonhando o nosso sonho de ordem nacional, de beleza social e econômica; porque tentara chamar-nos aos fatos concretos e cósmicos dos povos autênticos e à luz interior.
...

            Em Regresso ao Admirável Mundo Novo, de 1958, Huxley faz um balanço em 12 ensaios da evolução do mundo desde a publicação do seu romance mais famoso. A conclusão a que chega é a de que muito antes do fim do primeiro século depois de Ford está ainda menos otimista do que no tempo em que o imaginou. O pesadelo da organização total, que situei no sétimo século d.F., está nos esperando ao virar da esquina.
            Armas nucleares, Guerra Fria e superpopulação são novos ou antigos problemas a transformar a vida dos cidadãos num pesadelo, acrescidos do cada vez maior poder corporativo no aparelho de Estado e da publicidade e propaganda política sobre a população, através dos meios de comunicação de massa, além do crescente uso de tranquilizantes. Uns exercendo a função da hipnopédia, outros o do soma do Brave New World. Num universo dominado por jingles publicitários os homens perdem toda a noção de liberdade e individualidade e tornam-se presas de prazeres voláteis.
            Dêem-me hambúrgueres e televisão e não me encham a paciência com as responsabilidades da liberdade - eis o lema comum.
            E cita o trecho do episódio de Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, em que o Grande Inquisidor sublinha:
            Porque nada jamais foi tão insuportável para um homem ou uma sociedade humana que a liberdade.
            Ainda assim Huxley insiste em propostas para a melhoria das condições de vida da humanidade, como reformas político-administrativas para uma descentralização do poder num auto-governo responsável através de grupos de representação política direta que teriam por princípios básicos a não-violência e a resistência à guerra.

Os hugos que Uso Chávez e a contrafacção da elite corrupta venezuelana fazem dos recursos legais e virtuais de controle e propaganda no jogo de cartas marcadas para alternância ou perpetuação no poder são bem a caricatura do regime democrático dos Grandes Piratas em que afinal nunca se sabe quem manda em quem ou o quê, como a Rússia de Vladimir Putin é exemplo acabado de como ele pode ser só fachada numa região em que o povão parece gostar tanto de porrete como de vodka. E Cuba não é só um anacronismo. Hoje em dia autoritarismo de fachada e de fato só é compreendido em repúblicas ou califados islâmicos, mas nunca se sabe quando, entre crises e cracks, não haverá de uma nova era de Grandes Ditadores despontar por aí de novo. 

Plus ça change plus c'est la même chose. A geopolítica européia pareceu dar uma volta de 360° entre a I Guerra e "o fim da Guerra Fria", quando voltou a como era antes, embora o Mundo tenha feito um giro de igual ou maior envergadura e as estórias só se repitam como farsa. Será?

uma volta de 360°. O exemplo mais acachapante do inesperado quadro de idêntico clima de tensão, vinte anos após a queda do Muro de Berlim, entre a OTAN e a Rússia em decorrência da secular relação de tapas e beijos (para esquentar orelhas e bochechas) entre a Rússia e suas vizinhas. Back in the USSR? Georgia always on ma ma ma my mind? E é ver o que reportaram as folhas depois da refrega Rússia x Georgia:

ÉPOCA, SÃO PAULO, 7 DE JULHO DE 2008
A VOLTA DA GUERRA FRIA
Enriquecida por conta da alta do petróleo, a Rússia não pára de investir no aumento de seu poderio militar. Os gastos com defesa no ano passado chegaram a US$ 35,4 bilhões.

veja SÃO PAULO 23 de julho, 2008 ENERGIA NUCLEAR
O QUE ERA MEDO SE TORNOU ESPERANÇA
Duas décadas após o desastre de Chernobyl
uma esperança de energia limpa e barata.

o renascimento da energia nuclear é impulsionado por questões geopolíticas
uma maneira de diminuir a dependência em relação ao petróleo e ao gás natural, cujas maiores jazidas se encontram nas mãos de governos que merecem pouca confiança como Rússia, Líbia, Irã e Venezuela

           

Nova cultura, pouco importa a idade - e o  para a cultura contra natura

Lá porque ainda não se encontrou uma alternativa para o capitalismo não quer dizer que se desista de procurar, diz-se sem olhos em 2009 após o eletrochoque 2008. O mesmo se dirá do regime de governo e de vida, embora até quem sabe talvez seja tarde. Ou nunca é tarde?

meio século de psicodelia e bossa nova  e  A Fome No Mundo e os Canibais, neste revoluciomnibus, dão o mote, o bote e o para a cultura contra natura.

O neo-conservadorismo (neocon) imperante, dito fundamentalista - que junta no mesmo saco a antiga direita e a ex-esquerda marxista-leninista messiânica, os discípulos de Alan Bloom e os ex-discípulos de Georg Lucáks - escolheu para bode expiatório de todos os males contemporâneos as heranças dos malfadados anos 60, que só lhe estão a atravancar o caminho da exploração ilimitada dos recursos naturais em nome do lucro fácil, mais as suas ideias de relativismo cultural e o escambau e exploração racional da natureza, que quase puseram e ameaçariam a cada instante pôr a perder os seus velhos e bons valores éticos e morais.

As ideias de Huxley em relação aos mais diversos campos da atividade humana que estudou – política, educação, ciência, filosofia, artes, religião, ecologia, história... ele não deixou escapar quase nada - seguem firmes e fortes no centro da polêmica gerada pela grande cruzada neocon contra o espírito dos anos 60, pela ocupação do Iraque, do Afeganistão ou da Lua de Papel e se for preciso pelo aumento da crise ambiental em nome da consolidação do poder hegemônico das corporações e contra utopias que só levariam à barbárie.

No salve quem puder (a própria pele) atiram à queima-roupa e a esmo, pouco importando dar ou não fundamenta aos argumentos.

Diz-se que o que Aldous Huxley propõe em A Ilha são técnicas de condicionamento bárbaras e que Pala representa uma ditadura tremenda porque nela todos são obrigados a ser felizes. As prontas reações de escárnio ao seu último romance levaram Huxley a escrever de bate-pronto: Divertindo-se com Cogumelos – é assim que um crítico arruma o assunto. Mas o que é melhor: Divertir-se com Cogumelos ou ter Idiotia com Ideologia, Guerras por causa de Palavras, Desfeitas Futuras por Descréditos Passados?

                     EYELESS IN GAZA 2009   

Ou por que não ideias feitas ou chavões como desde as cruzadas ou bem ao estilo da direita já na Era Nixon, já na Era Eisenhower, já na Era George V... apelar aos bons e velhos valores da cultura ocidental. A propósito da guerra na Faixa de Gaza um semanário de informação geral de grande prestígio no Brasil assume desfacetadamente argumentos de pregador de feira-livre, como Israel é uma sentinela avançada da democracia e da civilização judaico-cristã, que não há quem defenda com argumentos cabais. E como já falava mestre Claude Lévi-Strauss

...  não dispomos de nenhum critério para julgar uma cultura em relação a outra...  

e cometer a veleidade de pensar o contrário é beligerância mamífera de quadrúpede ou de picaretas & caretas como o articulista do único jornal diário de grande informação que conta do Rio de Janeiro que a troco de nada e a propósito de dados do dia-a-dia que no lavar dos cestos dão estatísticas como a de 800 denúncias por corrupção feitas pela Justiça no Brasil nos últimos cinco anos e nenhum dos denunciados estar na cadeia ou de coisas como o roubo de donativos destinados às vítimas das enchentes em Santa Catarina em novembro de 2008, i.e., a propósito da impunidade e da desfaçatez geral no Brasil, carrega como a despropósito numa invectiva contra

... causas ideológicas mais profundas para o eclipse de ética e para a explosão das ações criminosas. O relativismo ético e a ausência de limites estão na raiz da patologia social.

"Relativismo ético"...?...!...

De fato - prossegue o paraquedista - quantas correntes ideológicas, quantos modismos intelectuais vivemos nestas últimas décadas? A busca da verdade é frequentemente etiquetada como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor da última novidade, aparece como a única atitude à altura dos tempos que correm. Vai-se constituindo a intolerância do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério apenas o próprio eu.

Intolerância do relativismo... que usa como critério apenas o próprio eu... Intolerância em relação a quê ou quem? E o que tem o eu a ver com a coisa?

...

Após citar o papa Bento XVI ("a renúncia à verdade não soluciona nada, mas ao contrário, conduz à ditadura da arbitrariedade") , o articulista [ Impunidade, Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo (?), O Globo, Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 2009 ] jura que

O relativismo está, de fato, na origem do enfraquecimento da democracia e nas agressões cada vez mais brutais aos direitos humanos.

... as bases racionais da modernidade foram minadas pelo relativismo. Rompeu-se, dramaticamente, o nexo de união entre vontade e razão.

Como num golpe de prestidigitação troca-se os pés pelas mãos, os pês pelos vês e fica-se eyeless onde quer que se esteja, Gaza, enclave palestino, ou Gaza, Rio de Janeiro, ou Gaza, Kuala Lumpur, pois alguém aí sabe de algum Lévi-Strauss que esteja ou tenha estado no poder ultimamente ou afinal de contas o que tem a ver a secular impunidade dos mais fortes no Brasil com relativismo? Ou: não será justamente o contrário?

            LARGO AL FACTOTUM

acorda-se em 2008 e tempo afora como quem não quer a coisa do mesmo lado das trincheiras que antes dos anos oitenta e noventa do século passado

parece uma guerra sem fim que já parecia terminada mas com a violência (só) em aparência mais perto (talvez) bastante mais visível e em aparência quase tudo mais direto e vulgar

                  LARGO AL FACTOIDE

A transição de eras em curso, como tantas antes, não é mole. Talvez mais "não é mole" porque quiçá como nunca antes agora o homem tem clara noção de que está na ombreira do futuro

a era tecnológica e a era cósmica, interior e exterior, ou vice-versa

- a conquista do espaço

e de que o comprometeu e o compromete a cada ação.

Quando começou a globalização? Com os gregos? (É interessante pensar que sim.)

E o que fizeram os romanos, afins com os ex-etruscos? Foram lá e destruíram tudo e converteram os gregos?

São espertos esses romanos. Converteram-se e incorporaram a sapiência, a transcendência, a... do povo conquistado que os conquistara - e afinal gregos e afins eram também os próprios apulheses e sicilianos já incorporados à miscelânea romanista.

Vem a era das trevas - e depois a da barbárie com sinais trocados. Das Cruzadas às conquistas ibéricas, até hoje.

E começou só então a globalização?

Jorge de Sena assina de janeiro de 1956 a agosto de 1958 o prefácio a uma edição portuguesa não datada (a primeira?) de A Condição Humana de André Malraux, que deslancha assinalando que o original foi publicado pela primeira vez

... em 1933, naquele período chamado de entre duas Grandes-Guerras, período que os historiadores do futuro diluirão justamente entre as duas hecatombes, como se ambas houveram sido a mesma, e que foi no entanto, na ordem política e social, um período decisivo na história da humanidade. Durante ele, de fato, descobriu o conjunto dos homens, uns com entusiástico anseio, outros com ansioso temor, que civilização europeia não significava necessariamente, ou deixava de significar, um predomínio econômico e social da Europa política. Nessa época se consumou de resto a unidade humana do Globo; nela, as distâncias são definitivamente anuladas, os meios de expansão e transmissão da cultura desenvolvem-se prodigiosamente, e abre-se a todos os homens, sem distinção de classes, credo ou cor, a possibilidade de uma ascensão efetiva à consciência humana. Não se iniciara, é certo, a era atômica, não se concebia ainda um extermínio em massa, levado a cabo com a comodidade e a simplicidade da campainha que mata o “Mandarim”. Por então, apenas o “krack” da Bolsa de Nova York, em 1929, lançara o mundo na confusão econômica; os nacionalistas chineses triunfavam; o Japão ocupava a Manchúria; o espectro da guerra geral só era uma realidade no espírito dos fautores dela e no de alguns clarividentes.

Como não parece haver nenhum Adolfo Hitler na ombreira, só alguns clarividentes poderiam talvez antever o que nos espera após o “krack” de 2008, 2009 (e tempo afora?).

Não é por acaso que no que enceta o prefácio de Sena fixa o quadro do fatídico 1933 da publicação de A Condição Humana e da ascensão ao poder de Adolfo Hitler e que a propósito do opus magnum do também autor de

                                   La Tentation de l’Occident

                                   Royaume Farfelu

                                   Le Temps du Mépris

                        e         Les Conquérants

todos títulos sintomáticos, fale da consumação, naqueles tempos pré-diluvianos, da unidade humana no Globo.

Relativismo é isso aí: as distâncias são definitivamente anuladas, os meios de expansão e transmissão da cultura desenvolvem-se prodigiosamente, e abre-se a todos os homens, sem distinção de classes, credo ou cor, a possibilidade de uma ascensão efetiva à consciência humana.

Vale dizer tratando-se do autor e do livro de que se trata ascensão efetiva à consciência de que

... não dispomos de nenhum critério para julgar uma cultura em relação a outra

e não será também por acaso que é justamente por alturas da publicação de A Condição Humana que Claude Lévi-Strauss começa suas andanças que logo o levariam à conclusão disso, se é que já não chegara a ela antes, e o resto é... fundamentalismo à la Hernán Cortez. Cristão, católico, careta, picareta, selvagem ou o que seja.

Se o mal é relativo ou é absoluto e absolutista o fundamentalismo em aparência a troco de nada que camufla em retórica teológico-humanista a inconsistência de sistemas caducos à nascença feitos para servir interesses só à primeira vista escusos é o capeta.

Bem a propósito dos ataques fundamentalistas em aparência a troco de nada contra o dito relativismo escreveu Carl Gustav Jung (Psicologia e Alquimia)

A civilização cristã revelou-se rasteira em um grau terrífico: ela não passa de uma tinta exterior, o homem interior ficou longe e por consequência imutado. O estado de sua alma não corresponde à crença que ele professa... Exteriormente tudo está bem, em imagens e em palavras, na Igreja e na Bíblia, MAS TUDO ISSO FALHA POR DENTRO

 

a súmula dos estudos e das conclusões de Aldous Huxley sobre religião e filosofia perene - entre as quais a de que religião só serve para quem não teve uma verdadeira experiência espiritual - está em   huxley na fome no mundo  uma página do banco de dados revoluciomnibus.com do dossiê  A Fome no Mundo e os Canibais   e    ANHANGUERA     PAPERS  com trechos do apêndice  

Rumo às ilhas da Utopia - Da Teoria à Prática Ou Vice-Versa   de     

                                                                                             

                                                                              

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Por outro lado, quanto ao fundo da questão e perspectivas adiante em As ditas moles e as ditaduras e no artigo Impunidade do articulista de O Globo do Rio de Janeiro escreveu Mohandas Mahatma Gandhi

Se parece que participo na política hoje é apenas porque a política nos prende como uma serpente num abraço.

A propósito de argumentos a troco de nada   Política e religião ou vice-versa 

                                                                                        Púlpito, palanque e o mesmo

 

Quando a profissionalização e o uso desenfreado de técnicas de comunicação e marketing na política há muito a desmistificam aos olhos de muitos como hipótese de quase-religião ou religião laica que com o culto da personalidade e do pai fez do mundo no para Eric Hobsbawn curto século XX um ninho de Grandes Ditadores mais que patéticos e as religiões seguiram o mesmo caminho ficaria ainda mais difícil imaginar uma regressão, mas nunca se sabe, porque a memória das sociedades é curta e a História parece um carrossel e como não se cogita outras formas de organização da sociedade bem que se poderia estar na ombreira de um novo ciclo de ditas duras ou a caminho do Governo Mundial puro e duro à semelhança do da Mégalopolis de Herbert Pagani ou do Admirável Mundo Novo, com hipnopédia, soma e tudo.

O panorama visto da ponte é de opressão por carências de toda a sorte e crescentes apelos a excessos, insegurança e angústia. Angústia que se aprofunda quando o clima é de crise econômica, corolário de todas as outras.

Com a frouxidão e a apatia reinantes se diria que está faltando um pai - e aí talvez os "fundamentalistas" tenham lá as suas razões, quem sabem talvez o pai tenha sido morto numa daquelas rebeliões dos anos 1960.

Mas de um trecho de uma dissertação do psicanalista Gerard Mendel, autor de La Révolte Contre Le Père (Bibliothèque Scientifique, Payot, Paris, 1968), citado por Michel Lancelot em Campus (Editions Albin Michel, Paris, 1971) se depreende que era possível entrever uma elipse também nesse processo na própria revolta estudantil de poucos meses antes na França, Alemanha e Itália e no movimento de juventude norte-americano:

... o homem do século XX perdeu o apoio religioso em função de uma certa secularização dos deuses e, por outro lado, ele se acha face à sociedade, face ao poder social, tão destituído, tão desarmado como pode sentir-se o primitivo na selva ou na floresta virgem.

Assim como ele pensou que ganharia confiando sua própria força a personagens paternais externos, a CHEFES, ele chega à conclusão de que afinal isso não lhe serviu de nada, que afinal seu contentamento é nulo e sua angústia extrema.

E essa amargura trágica conduz a um (...) processo, uma (...) fase que seria a da recuperação pelo indivíduo dessa força delegada a chefes ou, se preferir, a fase em que o homem vai tomar o seu destino em suas mãos, já que as promessas dos deuses, as promessas dos chefes não se concretizaram.

É uma decisão monumental.

Nesse momento ele se arma contra esses personagens paternais que falharam e dá-se a revolta do desespero, com uma dupla eventualidade.

Pode ser uma revolta em nome dos valores, em nome do verdadeiro pai.

E pode ser uma revolta completamente desesperada, uma revolta niilista para derrubar tudo.

O que explica o ponto fundamental seguinte, sujeito de nossa época de transição: a juventude é "culpada" ao mais alto nível porque, pela primeira vez na história da humanidade, ela não chega a se desculpabilizar [como sucede no processo da morte do pai investigado por Freud] delegando os seus poderes a personagens paternais externos porque os julga indignos disso. E os jovens são obrigados a assumir sozinhos esses poderes, o que se passa atualmente.

E pela primeira vez, creio, as revoluções ou tentativas de revolução são feitas não em nome de uma ideologia, de um partido político ou de um homem mas de algum modo são a reunião de indivíduos que tentam à sua maneira, com todas as vertigens ideológicas que isso possa implicar, defender os valores que eles vêem mutilados na sociedade a que pertencem.

Aí, os riscos são muitos e variados, particularmente o de que o indivíduo reduzido desse modo a ele mesmo ou se associando a outros indivíduos pode perder de vista a linha diretriz que ele esperaria ver realizada. E por outro lado há o perigo de que, se sentindo de novo extremamente culpado, ele venha a se deparar em seu interior, a um determinado nível inconsciente, com uma nostalgia e mesmo um desejo de cariz religioso extremamente vivo de se amparar em um pai mais forte. 

                  

Será que a coisa se dará mesmo como previu Aldous Huxley? !

... parece que a Utopia está mais perto de nós do que ninguém, há apenas quinze anos, poderia imaginar. Parece-me agora bastante possível que o horror que projetei para seis séculos depois nos caia em cima em apenas um século.

O pesadelo da organização total, que situei no sétimo século d.F., está nos esperando ao virar da esquina.

 Orwell acertou em cheio na vigilância ostensiva dos olhos do Big Brother através das câmeras onipresentes que o rebanho ignaro aceita sem questionar, convencido de que, ao invés de uma invasão de privacidade e cerceamento do direito de ir e vir em liberdade de espírito, aquilo está ali para protegê-lo.

Falhou apenas (por pouco) no prazo. Huxley, de esperto, esticou o elástico até meio milênio depois de 1930.  Mas parece ter acertado no ponto em que o que se vive não é a ditadura do porrete mas a indução a aceitar-se tudo como é porque tem de ser - porque há quem tenha fortes interesses em que assim seja e tem poder para impor o que quer que os outros vivam e desejem. (A Era do Petróleo é só um dos exemplos evidentes.)  Hipnopédia, chamou à técnica de controle da massa através da educação.

 

O rescaldo de 68 foi bem resumido por Jacques Derrida em entrevista publicada no caderno  Mais!  do jornal  Folha de São Paulo  em 3 de dezembro de 1995: a sequência imediata de maio de 68 foram as eleições de resultado mais direitista que jamais tivemos não somente no parlamento mas também na universidade. Após maio de 1968 a universidade ficou mais reacionária... quando vi a universidade  em particular se tornar mais conservadora do que nunca foi que eu tirei as lições de 68 ... para mim o pós-68 foi uma luta contra o novo poder asfixiante que se instalou na universidade.

 

  C'è un buco nella pentola di Marx

reproduzimos trecho de debate promovido pelo semanário italiano L'Espresso entre Lucio Colletti, André Glucksmann e Bernard Henri Levy que deverá ter rolado lá pelos escaldantes anos italianos de 1977-78 e que foi republicado pelo mesmo magazine em 1985 numa coletânea intitulada L'Espresso 1955 - 85  30 anni di Cultura a cura di Valerio Riva em que não é revelada a data de sua publicação original.

 Os nouveaux philosophes causaram furor poucos anos depois do Maio '68 com uma vigorosa crítica ao marxismo e às esquerdas marxistas & derivantes e após a queda d'O Muro Henri Lévi era já um cidadão de meia idade que entre muitos outros declarava A Utopia É A Mãe Do Totalitarismo

 

  Tem um furo na panela de Marx 

GLUCKSMANN. Quel che c'era di nuovo nel maggio '68 è stato completamente cancellato poi dagli intellettuali, che lo hanno marxistizzato. C'era una convergenza tra maggio '68 e insurrezione della gioventù americana contro la guerra; tra maggio '68 e dissidenza sovietica: in tutto il mondo uomini giovani scendevano in azione senza ricorrere né alle grandi organizzazioni né agli apparati di partito né alle grandi teorie che pretendono di fornirci la soluzione finale. Certo, l'iniziativa individuale comporta azioni più limitate, però più efficaci...

LÉVY. Sono più reciso di Glucksmann. Io penso che qualsiasi cosa sia successa nel maggio '68, data da allora la marxistizzazione dell'insieme della vita francese e probabilmente non soltanto della Francia. La cosa "riuscita bene" nel maggio '68 è che per la prima volta il partito socialista si è integralmente allineato al marxismo. Glucksmann dice che la tribune del programma comune sono vuote e che i grandi intellettuali non stanno su quelle tribune; è vero, ma si può dire anche il contrario; a parte i grandi intellettuali (Lacan, Foucault, ecc.), il 99 per cento degli intellettuali, gli intellettuali degli apparati, delle case editrici, ecc. si accalcano sulle tribune del programma comune.  

GLUCKSMANN. O que havia de novo no Maio de 68 foi completamente apagado depois pelos intelectuais, que o marxistizaram. Havia uma convergência entre Maio de 68 e inssurreição da juventude americana contra a guerra; entre Maio de 6 e dissidência soviética: em todo mundo homens jovens caíam na ação  sem recorrer nem às grandes organizações nem aos aparatos de partido nem às grandes teorias que pretendem fornecer-nos a solução final. Certo, a iniciativa individual comporta ações mais limitadas, mas mais eficazes...

LÉVY. Sou um pouco mais incisivo. Eu penso que seja o que foi que aconteceu no Maio de 68 data de então a marxistização do conjunto da vida francesa e provavelmente não apenas da França. O que "deu certo" no Maio de 68 foi que pela primeira vez a partido socialista se alinhou integralmente com o marxismo. Glucksmann diz que os palanques do programa comum estão vazios e que os grandes intelectuais não estão nesses palanques; é verdade, mas pode-se dizer também o contrário; à parte os grandes intelectuais Lacan, Foucault etc.), 99 por cento dos intelectuais, os intelectuais dos aparatos, das editoras de livros, etc. se espremem nos palanques do programa comum 

 Nota bene: Programa Comum, plataforma político-eleitoral do Partido Socialista e do Partido Comunista Francês estabelecida nos anos 1970 e de que ambos desistiram antes da ascensão ao poder de François Mitterrand e dos socialistas na década seguinte. 

 

                                      

                        

William Burroughs centrou sua obra em visões do inferno, numa visão apocalíptica, numa visão apocalíptica de uma sociedade dominada pela tecnologia.

Big Brother, Our Ford ou o que seja, até o final de suas vidas, em 1997, dois dos très maiores ícones da beat generation continuaram a combater o sonho americano como nas obras que os celebrizaram nos anos 1950 e 60, em que Nova York não é New York, New York - o american dream - mas um american dream em alto contraste com o outro, em Walk on the wild side. Co-protagonistas da revolta, pelo caminho foram fazendo atualizações das visões cáusticas de Huxley e Orwell do mundo contemporâneo com vieses do controle totalitarista por via de permanentes lavagens cerebrais da massa através da tecnologia e sua desbragada manipulação pelos meios de comunicação, que segundo Allen Ginsberg em uma entrevista de 1992 "tentam encobrir os estragos e negar o que está acontecendo", o que condiz com uma notificação de Caetano Veloso em entrevista mais ou menos dessa época em que disse que assistia o "Jornal Nacional", o telejornal de maior audiência no Brasil, só para ficar sabendo das notícias que a Rede Globo não dava.

Convidado a comentar a obra do mestre e companheiro William Burroughs dois anos depois Allen Ginsberg destacou que o autor de Soft Machine costumava dizer que

   "o governo  é a linguagem, ou seja, ele é conduzido por palavras, leis, decretos, jornais e declarações; quem controla a linguagem controla as mentes. Controle de pensamento é na verdade palavras e imagens".

E segundo a interpretação de Laurie Anderson de sua linha de raciocínio em Home of The Brave   a linguagem é um vírus.

A verdadeira criminalidade da sociedade contemporânea são os mecanismos estritos de controle cerebral em escala global, denunciou Burroughs. Para Ginsberg esse é aspecto primordial em sua obra, a par com "o combate à dignificação da burocracia, da censura e do estado policial", que é para o que muitas vezes parece que se  continua caminhando galhardamente quase duas décadas depois das declarações que compõem esta resenha.

 "Há uma atitude de recusa em querer ver 'a coisa real' (the real thing) e é isso que esse triunfalismo e essa crise moral significam", comentava o poeta que estreou com o verso livre Vi os melhores espíritos de minha geração destruídos pela loucura - e posto que moral e morães seja só questão de opiniães era o cúmulo da ironia Allen Ginsberg chegar aos 64 anos com moral para protestar contra uma "crise moral".

"Acabaram reduzindo uma população inteira (da Amerika) a uma mentalidade infantil", resumia em tom de "profeta cansado de tantas lutas", na visão com que dele ficou Waly Salomão quando o conheceu já em 1975.

- Isso seria uma forma sofisticada de fascismo? - perguntaram a Allen Ginsberg.

- Não, acho que é mais uma espécie de stalinismo soft - respondeu.

       Soft Machine.  Máquina Branda.  Ditas moles.  Soft Stalinism.  Admirável Mundo Novo.

Questão de linguagem.

Comentando a obra de Jack Kerouac em 1994 Burroughs disse que ela "traz um espírito de liberdade americana que já não existe mais".

Dizia Ginsberg dois anos antes: "Os jovens de hoje não sabem o que significa a velha liberdade, e isso é triste."

Pier Paolo Pasolini, 28 de março de 1974, il Mondo: Para os grandes centros capitalistas internacionais Portugal deveria por força deixar de ser aquela sociedade severa, parcimoniosa, arcaica e entrar na roda viva do consumismo hedonista. Pier Paolo Pasolini, in Corriere della Sera, 10 de junho de 1974, Gli italiani non sono più quelli Considero pior o totalitarismo do capitalismo de consumo que o totalitarismo do velho poder.

Será que a coisa se dará mesmo como previu Huxley?!

Huxley, Orwell, Burroughs e Ginsberg - das máquinas pesadas às mais ou menos brandas ou suaves. 

Pela mesma época dos discursos dos autores de A Máquina Branda e Sanduíche da Realidade, de 1993 a 1996, o Intrépido Encenador Gerald Thomas já tinha esbravejado contra a apatia das novas gerações (década de 1990, a que não existiu após a esfacelamento da URSS, ou não tivessem sido Mandonna e Bono Vox seus ícones máximos).

Mas em crônica publicada na edição do jornal  O Globo  do Rio de Janeiro de 25 de abril de 1996 Gerald deu uma de otimismo incondicional e sonante:

Alegria, alegria, ano 2000 :

Se George Orwell pudesse observar a fascinante revolução na arte de obter informação e de se comunicar no mundo contemporâneo, teria que conceder que suas previsões falharam feio. Afinal, o Big Brother não virou o fantasma temido do sistema e sim nosso servente. Não é só isso. O sistema não nos amedronta e tudo o que o futurismo pregava foi por água abaixo. Se o futuro do passado previa bilhões de homens-formigas vivendo sob anestesia [Gerald troca Huxley – soma – por Orwell - porrete] o nosso futuro real mostrará um ser humano Renascentista, voltando à tona com surpreendente voracidade. Sua individualidade renascerá através da maneira em que cata e acha, fuça e revira a enorme caixa a sua disposição. A procura dependerá de sua personalidade.

A procura dependerá de sua personalidade.

Suas conquistas virão do resultado com que irá digerir a informação no emaranhado de possibilidades a sua disposição.

O ser humano moderno é independente, cínico, pensa em vários níveis distintos, não é fiel a nenhuma crença nem a um produto, reconhece a multiplicidade de significados em cada ato e não descansa enquanto não encontrar a sua própria fórmula de sobrevivência no mundo do consumo e de informação.

A procura dependerá de sua personalidade.

Suas conquistas virão do resultado com que irá digerir a informação no emaranhado de possibilidades a sua disposição.

Papo instigante.

Juntemos-lhe canela toffleriana. Alvin Toffler, entre O Choque do Futuro e Power Shift:

A crítica básica da sociedade industrial nos últimos dois a três séculos era de que o industrialismo criaria seres humanos robotizados e incapazes de se expressar como indivíduos. É o mundo projetado por Orwell e Huxley, que foram gênios e extrapolaram uma visão do futuro a partir do mundo que viam à sua volta. Mas surgiram novas formas de tecnologia e reverteram a direção. No passado a tecnologia levou à homogeneização. O computador pessoal, os novos sistemas de comunicação e as novas tecnologias baseadas nesses sistemas encorajam a diversidade e o individualismo. Ao mesmo tempo eles encorajam uma série de processos econômicos, um dos quais leva à globalização da produção.

Novas tecnologias revertem a direção?

Quinze anos depois se diria: e o que se diria de uma globalização da produção em um globo homogeneizado? Onde um chinês só se distinguirá de um croata pelo olhinho, cor da pele e pelo sotaque do latim moderno? Ou nem isso.

Juntar Orwell e Huxley no mesmo saco só pode ser um erro de retrospectiva e daria em pancada da grossa: um “previu” dita dura, outra uma dita mole regida pela anestesia do soma (dê-lhe o nome que quiser – telenovela, reality show, livro de esoterismo de araque ou auto-ajuda para iletrados, consumo disso (desgoverno, por exemplo) e daquilo precisamente sob um Governo Global. Câmeras espalhadas em cada canto em lojas, ruas ou praças e Big Brother é só força de expressão ou não haverá em sua proliferação sinais de que Tio Sam (ou Big Brother, ou Auntie Victoria, o termo pouco importa) esta(rá) de olho grande em (todos) você(s)?

Gerald parecia escrever só sobre o extrato por assim dizer culto ou cultivado, capaz de “digerir a informação no emaranhado de possibilidades a sua disposição”. 

A procura dependerá de sua personalidade.

Suas conquistas virão do resultado com que irá digerir a informação no emaranhado de possibilidades a sua disposição.

Treze anos depois de sua fala – os anos que iniciam esse novo milênio estão mais para Alegria, Alegria ou Sonho de Uma Noite de Verão – constata-se que mais de um terço dos internautas ao redor do mundo - e 65 por cento deles no Brasil - limitam-se quase que só a acessar sites de relacionamento, o que já tinham à disposição antes pelo telefone ou no bar da esquina. Uma comunidade de troca que hoje a rua ou os corredores de shoppings e megashoppings não concedem. Um espírito de porco diria que o Ouro do Reno pode também ser mais um elo da cadeia (com trocadilho, please) que mantém o cada vez mais vasto (global) rebanho manietado (um pleonasmo). Ok, também um meio de superar o “ruído” na vida do dia-a-dia sob a capa de um nickname.

E bota emaranhado nisso. Haveria que discernir se num universo e meio de opções há de fato livre escolha - ou escolhas orientadas por padrões fora do comum - ou se após um século de inoculação por indução da vulgaridade, mesmo que de griffe, as infovias não são apenas extensões de plataformas ou suportes de propaganda do mundo real do produto médio-baixo mediano. Novas tecnologias revertem a direção?  

 Hermano Vianna, 1994: É ilusão pensar que a Internet vai resolver todos os problemas políticos e culturais com a construção do paraíso anarquista virtual. O ciberespaço não é melhor nem pior que o nosso mundinho real.

por mais descentralização e desterritorialização que incentive sempre vai existir gente chata. autoritarismos de todas as espécies. Ciberespaço é apenas um mundo diferente. Mas - certamente - é mais espaço. E quanto mais espaço melhor.  

Ou como Jean Baudrillard colocava a coisa em 1989, referindo-se ao meio que segundo Neil Postman pode sobretudo nos fazer ficar Amusing Ourselves To Death: Se  se  constrói  uma   televisão  de  alta definição cultural o público fará dela um uso vulgar e redutor.

Será que a coisa não se dará mesmo como previu Huxley?!  

Que se dê como previu ele, ou pouco mais, ou pouco menos. O mundo gira e a lusitana roda. Rosa. No Admirável Mundo Novo do sétimo século depois de Ford há uma reserva de Selvagens situada no Novo México norte-americano, uma espécie de Disneyländia de seres como eram os humanos antes do conflito decisivo para a mudança do curso da História que só pode ser vista de helicóptero por excursionistas privilegiados. Em mais um paradoxo em que a história é pródiga, na nova desordem globalizada o Norte se fecha ao Resto do Mundo, pasto de mão-de-obra barata, baratas e terroristas. O Novo Arbítrio e o o vergonhoso clima de denuncismo (dedurismo) das ditas duras ao velho estilo ou, para talvez não ir tão longe, de regimes de exceção como o macartismo evidencia-se na lei italiana contra a imigração ilegal que vigora desde agosto de 2008, pela qual funcionários públicos são obrigados e a população em geral como que intimada a identificar nos lares, locais de trabalho e ruas em geral e denunciar imigrantes ilegais, os novos (ou eternos) PIEDS NOIRS.   XEnOfoBiA. GLOBAL WORLD APART Estrangeiros Execráveis. Itália xenófoba? Nada a ver. Só um terço dos italianos (e americanos... e...) votam seja no que for. Democracia representativa da minoria. Democracia corporativa.

Europeus "unidos" não se suportam nem mesmo uns aos outros. Estrangeiros todos. Uns europeus de primeira, outros de segunda categoria. Estrangeiros todos entre si. Estrangeiros Execráveis. Ilegais ou não. Imigrantes são oito por cento da população europeia. E que não passem disso. Variações em torno do velho tema: em tempos de crise malha-se o Judas ou judeu. Rastafari ou cafre - é tudo igual. Evviva Burlesconi e burlescones.

novas e velhas formas de arbítrio, fazendo esquecer Drummond: me desculpem mas devido ao adiantado da hora me sinto anterior a fronteiras

e no mais

porque vocês não sabem do lixo ocidental

não precisam mais temer 

não precisam da solidão

todo dia é dia de viver         Para Lennon & McCartney 

                                                              Milton Nascimento-Márcio Borges    1971

 

longe dava por mim

Não precisa ir tão longe?

 

  revoluciomnibus.com reproduz a seguir trechos dos capítulos Por dentro e por fora em Londres, Terra da Dama Eletroacústica e Medo atraso e rock no grotão  de

                                                                        

                                 almanaque das ideias cores e sons

         do maior movimento de juventude da história

                 da era do rock & da contracultura

   janela com vista para a contracultura e para a cultura contra natura

             um vagalume vagamundo  

      na era do rock e da contracultura

     narrativas em f(r)icçao para tempos mornos

        vida aventureira de um jovem viajante

            no underground e no bas-fond

              entre os anos 1960 e 80

 

Cedo me apercebi de que o remédio era cavalgar o tigre em que montara sem pensar muito no destino, cavalgar só para não ficar parado sobre a fera que a todo instante ameaça me engolir.

...

- Mas vem cá, tá tudo muito careta à nossa volta e os caretas desbundando tanto nas ondas mais vergonhosas que a gente até se retrai.

...

      o livro do rock   e da contracultura

com impressões da vida sob uma ou duas ditaduras duras na segunda metade do século XX 

 

SENTE A BARRA PESADA O CLIMA OPRESSIVO UMA AMEAÇA AO DOBRAR A ESQUINA OU ABRIR A PORTA

 

                 

 

                                   Um espeto igual a Ed

                                                      

Oi Duduca meu irmão

como é que vai esse sol

ah que frio e que saudade

do feijão e da terrinha  

...

tou fumando Dunhill

mas já não posso mais

com o tal do chicken pie

                  Tayguara

 

Lá em Londres vez em quando

quando eu me sentia longe daqui

vez em quando quando me sentia 

longe dava por mim

nervoso puxando o cabelo

querendo ouvir Celly Campelo

pra não cair naquela fossa 

em que vi um camarada meu

de Portobello cair

 Back in London Gilberto Gil

 

Um espeto igual a Ed, ar de marinheiro mediterrâneo esquálido, fauces róseo-púrpuras, o cara ultra-famoso, Stephen Georgiou, filho do dono de um restaurante grego das redondezas a que deram o apelido de Cat - Cat Stevens, bate no ombro de Gilberto Gil, que se dá com gregos e troianos no mundo do rock, franzino também após alguns meses de macrobiótica e reflexão sobre a prisão num quartel do Rio de Janeiro a que foi parar não porque roubou ou matou e a distância a que foi projetado no exílio forçado. Reflete horas a fio sentado sobre uma esteira de tatame e só fala quando, após longas sequências de dedilhamento e acordes, num paciente estudo de violão, como que perdendo a paciência grita mas eu tenho que dominar esses dois dedos!, querendo dizer separar o mais possível o mindinho do anelar para explorar ao máximo o potencial da mão na execução do que agora, mais que um meio de vida, é uma arma de resistência aos fantasmas da dúvida que o assaltam, longe da terra em que, ao ser obrigado a abandonar, lançou o seu maior sucesso popular, Aquele Abraço de despedida, temendo que seja a da própria carreira.

Gil acaba de lançar em vinil a necessária aposta numa carreira internacional a partir de Londres, com uma tocante versão solo de Can’t Find My Way Home, que Steve Winwood lançou no lendário LP do Blind Faith e de que fez a mais perfeita tradução do sentimento em relação ao difícil momento político que o seu país, sob ditadura militar, e existencial que ele, no exílio, vivem: Desça do seu trono e esqueça o seu corpo, alguém tem de mudar.

...

Na fila do self-service vemos Ivan Lessa, fundador e correspondente do Pasquim, primeiro e por enquanto único órgão da imprensa alternativa brasileiro, que conhecemos de vista de uma incursão ao Zepelim, um bar de Ipanema. O português nos apresenta como dois amigos brasileiros.

- E alguém duvida? – ironiza o jornalista, cujo mau (ou, de um outro ponto de vista, bom) humor é já lendário, apontando de longe para o passaporte entalado entre o cinto e a blusa de lã de Shetland roxa que acabo de comprar numa loja das imediações. – Brasil gigante, tricampeão do mundo de futebol, Sérgio Mendez and Brazil sixty-six, tudo bem! Mas não precisa exagerar! – alfineta, me jogando à cara o estigma de um outro ex-preso político no exílio, se bem que de certo modo voluntário, e acertando no alvo, logo enrubescido, porque ditadura à parte, e a gente já tinha uma base mínima de formação política, dias antes em Santa Teresa me jactava de estar em trânsito para o berço do football mal o capitão Carlos Alberto Torres ergueu a taça no Estádio Azteca da Cidade do México e interrogava-me sem empáfia se haveria ufanismo patriótico em se sentir orgulho de ser do país que levara também a famosa cantora  a sugerir anos antes: so listen to the rhythm of the gentle bossa nova.

...

     João Saavedra, uma das duas notórias vozes mais encorpadas da seção portuguesa da BBC, recebe em seu apartamento de basement de Chelsea, com jardim condominial nos fundos, José Afonso, em Londres para gravar um disco, e convida um pequeno grupo de amigos a que nos juntamos à última hora. Até aqui não tínhamos sequer ouvido falar do cantor e compositor português e ficamos impressionados com a simplicidade do homem, que não parece nem de longe um artista e que ao que nos dizem é ainda também professor de ginásio, mais as baladas que ouvimos numa fita Ampex que trouxe debaixo do braço, que nos fazem lembrar Bob Dylan do início da carreira, embora as músicas de um e do outro não tenham nenhum parentesco. Quando Zeca, como é tratado, fala, não para de coçar os braços cobertos pelas mangas da camisa de flanela enxadrezada. Os brasileiros lhe fazem lembrar Caetano Veloso e Gilberto Gil, que conheceu há menos de um ano em Lisboa. Telefona-lhes e nos sugere que o acompanhemos a Notting Hill Gate. Mais uma cortina que se abre em Londres, esta sobre a trupe de tropicalistas exilados compulsórios ou voluntários, entre músicos, poetas, cineastas e pintores que, entre idas e vindas, frequentam o local.

Vamos de tube pela linha amarela. Guilherme Araújo, empresário e produtor dos dois e um dos responsáveis pelo escandal tropicalista, de robe de seda e lábios pintados, abre a porta e ao abraçá-lo tasca um beijo no rosto de Zeca, que congela e a custo acede em dar um passo para o interior da casa.

        Ali mesmo resolvo o meu problema da venda da passagem de volta ao Rio, porque entre os exilados há os que como nós aqui chegaram por livre e espontânea vontade para tomar ar entre campos de morangos, longe do clima atabafante da ditadura, e que cedo ou tarde, quando a grana acaba, são obrigados a voltar. A vitória da seleção de futebol na Copa inflou o ego da classe média reinante no bananão, como o chama Lessa, o Ivan, e que muitos convivas ingleses mal sabem onde fica, em lua de mel, essa classe média reinante no bananão, com o regime militar, pela prosperidade econômica que ele lhe proporciona graças à subida em flecha do volume de empréstimos contraídos no exterior, todos indiferentes a prisões, torturas e atitudes no mínimo discriminatórias mesmo em relação a quem usa o cabelo um pouco mais comprido, que é posto no mesmo saco dos militantes políticos na clandestinidade, vistos como porcos desestabilizadores da boa ordem, gente que não quer é trabalhar e ver o país crescer, almoçar em casa de família nos dava náuseas ao ouvir as mesmas lenga-lengas recitadas pela televisão sobre como o Brasil em breve será uma grande potência mais os conceitos vazios e hipócritas que destilavam sobre como agir – trabalhar para o progresso do país e do mundo –, riem de barriga cheia, que a nós nos dá é vontade de chorar, o que ainda nos salvava é que Roberto Carlos e Caetano Veloso, que acabavam por ser queridinhos de todo mundo, a cada semana surpreendiam e abriam um pouco mais as comportas pelo que vestiam ou como usavam o cabelo, Caetano já com caracóis sobre as orelhas.

...

    

     Sob     o     sol     de     Parador

               Barco Negro: tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado

 

     Na terceira saída de casa após a chegada as sabrinas à la Bolan já não saem do armário. Nos primeiros meses como que flutuo sobre as ruas de gente lúgubre, velhos e novos, homens, mulheres e até crianças me insultam com olhares e expressões de escárnio pelas roupas que uso e os cabelos cacheados caindo sobre os ombros, ar angelical-endemoniado de jovem caravaggio em fuga, fora do tempo e do lugar. As radiosas auroras tropicais arquivei-as na memória em Londres mas não há meio de me adaptar às manhãs tardias. Recém-chegado, o acaso - companheiro constante do caminhante errante - volta a operar mudança. Numa manhã ensolarada de domingo de início de outono, ainda na cama ouvindo uma emissão de uma tal Rádio Universidade através da Emissora Nacional, minha vida sofre uma guinada decisiva.

     És estudante universitário ou pré-universitário? 

     Gostas de rádio? 

     Queres aprender a fazer rádio? Então vem inscrever-te.

       Vou de jato no dia seguinte. Uma oportunidade servida de bandeja de fazer algo que jamais pensei fazer: adentrar o universo mágico que desde sempre povoa o meu imaginário. Fico espantado na primeira aula de edição e montagem, em que o professor João David Nunes passa um trecho do programa Pop 397 Metros como exemplo de como se edita e mistura sons, com a colocação de voz e a dicção, o timing, o ritmo e a técnica de mistura de voz e sons de um jovem disc-jóquei português, Nuno Martins. Que parece melhor que os melhores de Londres. Como no melhor cinema.

       Mergulho de cabeça na concepção, escrita, produção e sonorização de programinhas de quinze minutos, porque as emissões são muito curtas. Meu lugar não é aqui. Lisboa é a alternativa mais viável e mais próxima a Londres, onde não poderia sobreviver só lavando pratas. Vou ver com calma se há meios de voltar com o mínimo.

        A nova e vibrante atividade alivia um pouco a angústia e os engulhos que me assaltam desde a chegada. Quem sabe Lisboa não há de ser melhor do que se pensa, dizia Jimi. Não é, escrevo-lhe, e me parece ainda mais incaracterística e feia vista das avenidas novas, como chamam a zona mais moderna. Soa melhor do Miradouro da Senhora do Monte, a que me levaram um dia após a chegada para ter uma idéia de como é vista do alto, e de fato aqui ao menos os horizontes são bem amplos, não atarracados e simplórios como os de lá de baixo, onde a cidade parece mais velha do que antiga, muito suja e pobre. Não conheço ninguém da minha idade fora da RU. Tudo parece... fuleiro, cafona, retrógrado, atrasado. Como a quase inexistência de grandes anúncios luminosos, que aos meus olhos quase infantis tornam a noite lisboeta ainda mais soturna.

Não que o país esteja totalmente isolado do resto do mundo - ainda não estamos na Albânia. Ao contrário, na falta de noticiário interno, porque as notícias das guerras nas colônias africanas, de que nem me apercebo, são censuradas e além dela só é dado ler sobre um famoso processo judicial que se arrasta há anos com um belo nome de policial, o Caso Sommer, e de que não percebo bulhufas porque já peguei o folhetim a meio, ou as inaugurações de obras do presidente gagá almirante Américo Thomaz, os jornais publicam tudo o que podem de noticiário do exterior e exclusivos de jornais e revistas ingleses e franceses.

      As circunstâncias me obrigam a deixar passar o tempo apesar do marasmo e me deleitar com as perspectivas insuspeitáveis e excepcionais que a RU me abre, porque apesar de iniciante e amador o pessoal leva o trabalho muito a sério, a maior parte encarando-o como um trampolim para uma carreira que todavia poucos seguirão, porque os caminhos são muito estreitos e não compensa, em termos financeiros... e lá se vai o bichinho (como é chamado o estranho vício que logo assalta quem experimenta fazer rádio) pro brejo. Ponto assente básico e de princípio é respeitar as regras do jogo e jamais pisar o risco. Em termos ético-existenciais no entanto acabo por me sentir totalmente fora dos padrões. O clima de camaradagem nos estúdios e sobretudo quando aos domingos, após a emissão, se vai em grupo ao Café Tarantela tomar um mata-bicho almoçarado, é muito bacana. Mas o ambiente em volta, embora não inamistoso, é quase sempre pesado, pelas insinuações torpes e os risinhos de troça com que sou frequentemente brindado pelo meu aspecto, a refletir o clima nas ruas.

Nem sei o que veio antes: o cabelo e as roupas que me dão ares de menino selvagem e que me põem à margem num país em que, por questões políticas e morais incrustadas no inconsciente coletivo e reforçadas pelo regime vigente, não há espaço para um mínimo de contestação de qualquer tipo de valor, ou se já era a própria cabecinha talvez insana que me empurrou para a perdição, que sem que me aperceba tenha nascido já torto, a contestar além do próprio raciocínio tudo o que cheire a star system, primarismo comercialóide ou alienação. E não será assim apenas porque estou em Portugal. Afinal, até Peter, Paul and Mary cantavam há anos que if I really say it the radio won’t play it, unless I lay it between the lines, se ouso falar a rádio não irá tocar, a menos que o diga entre as linhas. Entre as linhas engreno numa profissão. Sendo o sistema o mesmo, a diferença é apenas de amplitude de controle. O ambiente é sinistro e por isso escrevo em tradução de uma canção, em vez de revoltos, meus cabelos revoltados.

Só compensa - e muito - o prazer maluco, como me disse shakespearianamente Peel certa vez em Londres e fiz questão de anotar, de estar ‘twixt the turntables pulling the triggers on the forty-fives and thirty-threes and seventy-eights, entre os pratos engatilhando os quarenta-e-cinco e trinta-e-três e setenta-e-oito.

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Sempre que posso sintonizo o meu velho Crown que agora tem um elástico segurando a tampa na Radio Luxembourg quando ela é captável em Lisboa, às vezes já a partir das quatro da tarde, quando a sintonia é muito melhor mas quase intolerável, porque toda a emissão até o Kid Jensen Show, à meia-noite, é perfeitamente dispensável. Mas sempre fico a par do lixo pop e de alguma coisa melhorzinha que se produz. Alterno Luxemburgo com a Radio Nord See International, uma ou outra rádio portuguesa e muita onda curta. Em longas noites sombrias sintonizo as seções portuguesa e brasileira da BBC e de quando em vez as Rádios Albânia e Portugal Livre, que transmite de Argel, sempre magicando em clima de 1984 se a Pide terá de fato hipotéticas unidades móveis de que captaria os comprimentos de onda sintonizados por aparelhos domésticos, como se chega a especular.

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Entre os programinhas que faço na RU em pouco tempo decido dar uma de Eric e lanço um mais à minha imagem e semelhança – Écloga, de início para transmitir o sentimento de bonomia e bucolismo em que baseio minha atitude de partida para cada dia (o resto se verá), com o apoio bibliográfico de April e música apropriada, ‘clássica’ ou rock tipo acid, folk ou country. Num ‘apontamento’ um naco de prosa de Kerouac, em outro trecho do Cântico dos Cânticos, em mais outro um protesto manso contra a reação das pessoas ao meu cabelo ‘revoltado’, enfim, até Samuel Usque em Saudações às Atribulações de Israel.

       Daí parto para o sociologismo e, numa tirada inédita em Portugal, desato a tentar difundir ideias da contracultura. O passo é mais longo que as pernas, sobretudo pelas limitações do meio.

Liberdade de reunião - zero, mas nos nichos giza-se a contestação em uma ou outra faculdade e célula clandestina. Não tenho nem perfeita consciência do que se deve ou não dizer, calar ou insinuar nas entrelinhas. E como que inconscientemente começo a chutar ideias.

Numa tarde um técnico lembra-se, vai ao arquivo e mostra uma gravação de uma das raríssimas transmissões ao vivo durante as breves emissões da RU, em que se me revela em pleno até onde pode chegar o poder da metáfora. Trata-se de um jogo de rugby CDUL-Direito em plena campanha grevista Direito 69 e Adelino Gomes, que nunca foi de gostar de bola, faz o relato como se fosse uma extensão do prélio político-estudantil entre a Reitoria da Universidade de Lisboa (o regime, representado pelo Centro Desportivo Universitário de Lisboa) e a associação de estudantes da sua Faculdade de Direito (a oposição).

Écloga me permite sentir pela primeira vez na carne os limites do exercício da profissão. Álvaro Gonçalves Pereira, com toda a jactância e sem lápis azul mas com uma Bic ponta fina da mesma cor que lhe estendi, inclinando-se sobre o pequeno maço de folhas de emissão pautadas com o símbolo das quinas da bufa ao alto à esquerda e descerrando a cortina para abrir a grande e alva dentadura:

- Isto, convenhamos, não tem lógica, não pode ser dito assim.

Tem toda a lógica, associada à subversão, num campo mais vasto e perigoso, porque em princípio apolítico e – pior – também político. O texto – ingênuo, patético? Delírios? Devaneios? Seja como for, cortam porque querem afastar qualquer hipótese de uma idéia do gênero ganhar força.

Écloga 18-3-71 – a evolução do homem e, agora, o seu incansável procurar; a pesquisa do que há a fazer para que o Homem possa acompanhar as rotações que ele mesmo imprimiu à vida dos que nesta era vivem, a partir de recém-editado The Human Zoo e de The Naked Ape de Desmond Morris – as comunidades pseudo primitivas; o retrocesso do Homem às suas origens; o incessante procurar na certeza do passado a resposta à incógnita que se lhe apresenta ao olhar para o seu futuro.

O que ele corta com riscos em círculo para borrar:

Pergunta:

Qual é a diferença entre um grupo de nativos negros esquartejando um missionário branco e uma turba de brancos linchando um negro desprotegido?

  Com uma grande cruz:

     Os feriados pagos, o trabalho, o seguro no desemprego, nada disso lhe diz respeito. Ele é de outro mundo, vai mais além do que nós, simplesmente para afirmar que a nossa vida não lhe interessa.

     Ao fazê-lo exprime a sua oposição constante a um modo de vida, uma civilização que a todos os níveis lhe inspira náuseas.

       Prossegue logo, mas aí acaba a cruz em X e há um traço até o fim do trecho antes da música:

     Ele tem a constante preocupação de exprimir o seu profundo desacordo com uma civilização que apenas considera o indivíduo em função do seu poder de compra, e portanto de consumo.

     O beatnik, puro produto de uma sociedade super-desenvolvida, não gosta desta civilização ao ponto de querer modificá-la radicalmente e de fazer tremer as bases do novo continente. A sua ambição limita-se a exigir uma sensível modificação das estruturas sociais, com o único objetivo de permitir a expressão dos seus próprios valores no quadro de uma civilização industrial.

E mais adiante, com um risco mais fraco a circundar:

     Organizados segundo uma forma tribal copiada dos Índios em ‘comunas rurais’, os hippies reaprendem a viver em sociedade, mas fora das leis que regem a sociedade oficial americana. Assim nasceram quarenta aldeias do Canadá ao México, ao longo dos Estados Unidos; os membros da tribo cultivam as hortas, trabalham a madeira, entregam-se à serigrafia, fabricam objetos, redigem e compõem  magazines.

     Os diggers fornecem gratuitamente alojamento e alimentação aos adeptos desindinheirados de São Francisco, Los Angeles, Greenwich Village e Boston. Na Costa Oeste, a cooperativa Hip Job, onde estão inscritos 6 000 hippies desempregados, esforça-se por não competir com o Halb (serviços jurídicos de Haight-Ashbury) que se propõe ir em socorro dos drogados.

Tenho a sensação de que está me tirando um pedaço da pele e dá ainda mais raiva porque ri. O primeiro corte. Poderia fazê-lo longe, numa sala da direção ou em outro lugar qualquer, não ao meu lado, com a minha caneta, pondo a mão no meu ombro...

...

O recalcamento está incrustado na população há várias gerações, há entre os mais velhos quem ainda viveu sob democracia na primeira juventude. O branco véu da saudade cobre o teu rosto linda princesa, olhaaaiii senhores, esta Lisboa doutras eras... Há tempos também de que é melhor nem ter saudade. Vale a pena viver na trincheira, nos subterrâneos de um sonho de liberdade e sem poder sequer imaginar como seria, se fosse possível? Uma realidade penosa e um imaginário de sonhos. E de pesadelos. Gente que vê a vida a pastar na pasmaceira, sem meios de expressão. Quase sem forma de expressão porque a ditadura repele tudo o que parta de uma outra ideia. Vejo a clara demarcação, que inclui também ideias da chamada contracultura de contestação já não só deste poder discricionário específico mas de todo tipo, corporativo, burocrático e tecnocrático, feitas substância as ideias que absorvo de jornais como o Rolling Stone e de livros que trouxe de Londres, como The Greening of America e The Making of a Counter-Culture, de dois acadêmicos americanos, mais John Peel. Ideias do underground anglo-americano são também refutadas por princípio e sem contestação como uma nova forma de sub(no sentido de baixa)cultura de massas, embora também falem de um mundo ideal impossível, pela vacuidade mesma da(s) proposta(s). Sagração da Primavera, Kerouac, beat e Zoo Humano.

...

 

No sétimo céu, nas nuvens, em êxtase pelo clima excepcional que me provoca o enlace com April Sun, logo crispo com cenas de ter...rir. Baldeando-me do ônibus que me traz de Alfavila para a Estefânia, à aproximação do ônibus o chofer finge que vai parar para me deixar subir e acelera. Alço a mão e ponho só o dedo médio em riste, o primeiro gesto que aprendi em Lisboa.

     ...

    Escrevi ainda em Lisboa a April Sun dando-lhe o contato de Jimi em Londres, porque me escrevera dizendo que passaria uma temporada aqui. Nos encontramos num pub em Pimlico, próximo ao trabalho de Jimi. Ela, de cabeça muito mudada, publica crônicas sobre rock numa revista semanal de Lisboa – acha interessante escrever mas não se vê fazendo carreira de jornalista, com todas as suas limitações. É um passatempo interessante que leva muito a sério porque faz o que mais gosta e diz o que pensa sobre o que entende mas não se vê a envolver-se mais nisso. Faz alfabetização na clandestinidade, não me diz em que organização, e cursa Letras para talvez ser professora.

- Pois é verdade – diz, quando se olha mais nos olhos e se fica mais à vontade. Vegeto-ambulante nesta cidade-paraíso de todos os apaixonados da música, como eu e vocês, da vida agradável, o paraíso do ‘arrume-se sozinho e não olhe para o lado’. Vivam os direitos individuais acima de tudo o resto, é ou não é? Há até aqui um cantinho num parque onde se pode dizer tudo, desde que não se diga nada que ponha em perigo os ‘valores fundamentais’, e onde todas a espécie de comerciantes de ideias cosidas às pressas exibem, para turista ver, as maravilhas da democracia burguesa.

- Falas assim à-vontade, da boca para fora, porque estás aqui, na sede da democracia burguesa. Mas imagina lá, no teu Portugal, ou no nosso Brasil, falando assim abertamente –intromete-se Jimi querendo polêmica, mas ela fica por isso mesmo porque um velho com ar de marinheiro dá um, dois e três acordes numa violão e ataca uma balada sobre James Connaly e os bravos homens que no início do século fizeram de uma parte de uma colônia ocupada a República da Irlanda, e sobre os brave young kids que de Free Derry lutam pela libertação do que ainda está anexado.

     Estamos num irish pub. Ao passar por nós, ficamos sabendo que o homem é de verdade um marinheiro irlandês aposentado em Londres.

- Tá vendo. Sem saber, de repente você está num coivo do IRA e é aqui que estão congeminando os ataques – diz Jimi algo à chacota e meio a sério, nunca se sabe, porque aparenta estar envolvidíssimo na questão da Irlanda, que parece reduzida a um problema religioso e me pergunto e lhes pergunto: quererão os irlandeses ultra-católicos, ao que parece, arcar com o fardo da questão do Eire, de que se apartaram com a independência, ainda por cima tendo de lidar com uma pequena maioria de etnia protestante no enclave? E by the way, como se identifica uma etnia religiosa?!

Fica-se por aí mesmo. Jimi vai ao balcão buscar mais dois pints de ale para nós e uma gingerbeer para a comparsa e de regresso fala de uma antiga colega na pizzeria do pai de Renata, uma mulher grega que cantava canções que de início pareciam apenas melancólicas, como seria toda a música grega, mas que logo assumiam um tom muito amargo que depressa se transformava em ódio e raiva, pelo que ele apreendia das traduções.

Lembro-me das crônicas de April que lia antes de deixar Lisboa, falando do ‘evasionismo’ e ‘demissionismo’ de canções tipo Woodenships e dos easy riders, que segundo ela agora seriam jovens burgueses montados em motorizadas em luta contra supostos novos moinhos de vento – quem diria...

- Escrevi e sustento ainda que aquilo não foi mais do que uma vaga que arrastou milhares de jovens para a inércia e a inutilidade através da droga. Easy Rider transforma-se em repositório de antigos heróis transformados em anti-heróis que o não são de fato. Um artifício comercial, a explorar um filão pseudo-revolucionário, e nada mais que isso.

    - Muuuito prazer, April, Guinevere arrependida – torce o nariz e agarra-lhe uma mão com as duas Jimi.

À sua maneira, April continua exercendo a diferença ao optar por uma certa clandestinidade em campanhas de alfabetização e em leituras pseudo-marxistas, maniqueístas e dogmáticas – a linha que adotarei também à distância, em diálogo com os apesar de tudo brilhantes textos que publica como cronista de rock na revista de espetáculos.

Os devaneios e delírios dos nossos tempos de April e Eric Sun foram um interregno e talvez o mais belo momento da sua biografia desconhecida. Porque, como muita outra gente na minha, desaparece para sempre numa nuvem de distante galáxia, como os meus mortos prematuros. Revejo-a uma vez antes do 25 e depois sei que se casou e é professora do ensino secundário numa cidade da periferia. E sempre penso: destino opaco para uma estrela radiosa - será que ainda escreve? Será que um dia emergirá da obscuridade? Interessa-lhe isso? Lembro-me também – e rio com ele quando nos lembramos – da última coisa que me disse sobre Jimi no pub em Pimlico:

- É um deslumbrado, como dizem vocês na vossa terra.

...

                       

                        CLANDESTINIDADE: NOTAS DO SUBTERRÂNEO

- coligidas a partir da correspondência de Edgar Lessa, em Lisboa, com Jimi Sawyer, em Londres, entre Novembro de 1971 e Outubro de 1972, como as das seções seguintes

 

No regresso não de todo contra a vontade mas ainda a contragosto revejo Easy Rider no CineTeatro São Luís. Born to be Wild, The Pusher, do Steppenwolf, If 6 Was 9, de Hendrix – ao menos uma grande trilha sonora num remake dos grandes clássicos, uma crônica romanceada dos humores de uma era, um western moderno ao longo das Autoestradas 61.

Os protagonistas andam desarmados e sua ética aponta exatamente no sentido oposto à dos foras-da-lei/outlaws, pistoleiros/gunmen, como a dos protagonistas de Shane e Johnny Guitar. Como os antiheróis de Stevens e Nick Ray onde chegam provocam repulsa à população, motos, roupas, cabelos compridos e drogas são as suas armas.

Sabe-se por relatos da imprensa importada que essas cenas são o pão nosso de cada dia nos States profundos, a liberdade instintiva de Wyatt Earp e Billy cutuca com vara curta o fanatismo anti-sexual e a recusa sistemática de toda manifestação do prazer instintivo dos puritanos da Nova Inglaterra e seus sucedâneos que exterminaram o ser natural e dizimaram a natureza selvagem do Novo Mundo, ao denunciar a sexualidade reprimida que gera fenômenos como Bonnie & Clyde e My Lai, o fumo a manter um aparente equilíbrio e placidez nos antiheróis.

Ainda não é muito claro sobretudo quando se tem de buscar informação séria sobre o assunto em fontes tão distantes como a revista Ramparts, de Palo Alto, Califórnia, que é o próprio Sistema, através dos seus ramos mais extremados, como a Máfia e inclusive as Forças Armadas, imiscuída no comércio das drogas pesadas, de que eles também estão municiados, e que serviriam nomeadamente para neutralizar o potencial de revolta dos oprimidos (No hope in dope, nenhuma esperança nas drogas, dizem os ativistas do Black Panther Party, que parecem até tão reacionários como os que combatem, mas dizem que a CIA foi encarregada de espalhar heroína nos guetos para aplacar sua raiva), e me levanto com as luzes do luxuoso cine-teatro acendendo com vontade de chutar a poltrona da frente e dizendo com Peter Fonda antes de morrer: shit man, we blew it... We’re fucked, man! – e entre os visados como inimigos, porque acólitos inconscientes do Sistema, estão os próprios colegas que pensam e agem como os porcos chóvinistas do interior americano, tão retrógrado como aqui. Aqui ou lá dá no mesmo, créditos finais: All he wanted was to be free and that’s the way it turned out to be, go river go where I wanna be – Ballad of Easy Rider por the Byrds.

 

Quase não se fala do regime e do regime de mordaça e espartilho a que ele obriga, que é como um fato consumado e um fardo com que se tem de viver – por toda a vida?, pergunta-se de si para si. Aliás, quase não se fala - por quanto tempo ainda? Depois de Salazar ter demorado tanto até para morrer, não se pensa nem mesmo em algo além de Marcelo Caetano. Pela lógica uma nova mudança só virá com o desaparecimento inesperado do herdeiro de Salazar, o delfim não designado, que só poderia cair de maduro, teme-se, porque por mais de quarenta anos Salazar conseguiu criar uma intrincada rede de informadores - ou ‘moscas’, como são chamados na Espanha os agentes da polícia política de Franco - que não deixam passar nada na sua malha fina de ouvidos.

     Um dos maiores sucessos no rádio é Construção/Deus lhe Pague de Chico Buarque – por esse pão pra comer por esse chão pra dormir, Deus lheee pagueee... – por uma vez quase sem exemplo um sucesso comercial diferente da cafonice costumeira e uma forma diferente de protesto em português.

 

       As 168 maiores empresas portuguesas, que controlam metade da riqueza do país, pertencem a apenas dez famílias-donatárias, contra toda a lógica da livre concorrência capitalista. Para a maioria da população portuguesa a Idade Média não acabou.

      Algo surpreendente é que quase todos os lusíadas que conheço, homens ou mulheres, acumulam poemas na gaveta. Há quem os organize em pastas e até os leve a passear ao café, quando sem conteúdo político explícito, ou os mostre à socapa em casa às visitas, os livros sobre marxismo ou similares escondidos atrás dos romances. E o que dizer dos telefones, em que, quando se quer dizer alguma coisa, não se diz coisa com coisa?

     É como um permanente recolher obrigatório, recolhimento de alma, pensamentos, sentimentos mais profundos. Passa-se horas no papo sobre uma música, um poema, livro, filme, artigo ou entrevista, falando-se por subentendidos. E quase só se fala em surdina, como Miles faz soar sua trompete. Nunca se fala de livros proibidos, além de uma ou outra menção en passant com sorriso e olhar de subentendido, como do Delfim, do Dinossauro Excelentíssimo ou dAs Três Marias, cuja interdição seguida de processo às autoras deu brado na imprensa internacional. Ninguém é louco de andar com livros comprometedores. Compra-se, quando se encontra, e vai-se direto para casa arrumá-lo atrás de um ‘clássico da literatura universal’. Quem gosta não sai de casa sem um livro, de preferência importado, que o mais das vezes alguém mudo pega para olhar e mudo devolve ou põe de novo onde o pegou. Notícias como as do Vietnã são mudas. Porque o Vietnã parece muito longe e ninguém é besta de se pôr a comentar a tragédia provocada por um povo branco que foi ao outro lado do mundo lutar contra amarelos para defender a terra que roubou ao povo vermelho, como resumiram os autores de Hair. A foto da garotinha correndo nua na estrada, da ponta dos dedos à cara convulsionada clamando por ajuda, é muda (e é assim que os americanos perdem a guerra). O Vietnã é mudo, sem som, vanguarda das inclementes guerras de autóctones contra invasores. Os vietcongs estão na mais pura clandestinidade também em Portugal. Mas os jornais reportam (quase) tudo do que se passa no ‘lado de fora’, enquanto a Radiotelevisão Portuguesa, que não vai além dos teleteatros naturalistas e das sacrossantas variedades musicais, pretende nos congelar num tempo de Histórias Simples da Gente Cá do Meu Bairro ou dos grotões à luz de querosene e ao redor do fogo.

     Vive-se de tertúlias de café. A cada um o seu estilo. Granfino, em Entrecampos, onde estudantes se encontram para estudar ou papear ou subir juntos à Universidade. Estuda-se também no Itau, um self-service de comida naturalista instalado numa cave ali ao lado, e num outro Itau na Alameda D. Afonso Henriques, que serve para o mesmo fim e também como entreposto de maconha trazida da África por militares em fim de comissão de serviço. No eixo Avenida dos EUA-Avenida de Roma, um núcleo duro, formado pela Sul América, mais arredada e ponto de encontro das minas do ginásio logo atrás e dos jovens que as paqueram, o Nova Lisboa, o Supremo e o Vavá, que é decididamente o melhor point do setor, com artistas de quase todos os ramos, entre os quais modelos e aeromoças da TAP, e lá adiante um outro eixo, de cariz diverso, formado pelo Roma, o Londres, que deu muito nas vistas no final dos anos 60 com uma grande pista de autorama na sua cave, e a Mexicana. Cada um com sua tribo, os índios do quarteirão. Ainda nas Avenidas Novas, quem quer ir paquerar meninas do Colégio Acadêmico para na Versalhes. A caminho da Baixa Pombalina, o Monte Carlo e a Mourisca. No Rossio, o Café Gelo, o Nicola e a Pastelaria Suíça. No Chiado, Ferrari, Benard e A Brasileira. Nos cafés e pastelarias algumas da grandes maravilhas da cidade, porque de uma coisa ao menos a gente pode se gabar: além das iguarias dos conventos, uma das suas maiores criações, são os portugueses os melhores imitadores da pâtisserie e, entre babás, duchaises, éclairs, palmiers e outras delícias quase ímpares no mundo, cada qual se notabiliza por uma especialidade. O café mais próximo é a sucursal de casa, para o cafezinho, a galhofa em torno deste ou daquela enquanto se passa os olhos pelos jornais e se engraxa os sapatos, em alguns dá até para cortar o cabelo e fazer a barba, unhas das mãos e dos pés e em muitos a gente se esquece da marcha lenta do tempo em modorrentos torneios de sinuca ou bilhar, dando umas caramboladas no rame-rame – café com leite ou chá de limão, copo d’agua e uma tarde ou serão inteiros de bazófia, cada café é um refúgio na cidade sitiada e tudo somado muda.

     A pequena noite lusitana é solidão só amainada por discos, jornais, revistas, livros, filmes e uma ou outra boa peça de teatro. Fátima, touradas com Mestre Baptista e a pantera negra do Campo Pequeno, Ricardo Chibanga, Joaquim Agostinho, Eusébio e Benfica, conversas em família, inaugurações de obras públicas.  Vá lá, no meio da pasmaceira, embora cá a nos roer também o juízo porque sempre são mais uns americanismos nos invadindo a contragosto, drugstores como o Apolo 70, com a boa livraria logo à entrada, o snack no subsolo e um cinema-estúdio de última geração, e cada vez mais snack-bares como o do Apolo, o do Londres e o Galeto, eis o Portugal português cada vez menos portuguêsmente, apesar de TUDO...

Dá brado a chegada do primeiro supermercado, por sinal de brasileiros (entre aspas), o Pão de Açúcar, com que se teme pelo fim das mercearias.

 

Há dinheiro pra chuchu, mas como é natural não em certos círculos, sobretudo onde se assume uma atitude de condenação ao mau uso que dele é feito. A guerra subtrai um terço do PIB mas a economia cresce muito. Champallimaud, um capitalista à antiga portuguesa, da casta dos beneficiados pela pax ou bellus salazarista, com interesses em vários setores de atividade, é o sexto homem mais rico do mundo. Portugal é também à sua maneira e dimensão uma terra de oportunidades, mas só para aves de rapina. As de arribação têm de emigrar em massa com a famosa mala de papelão, muitas dando "o salto" e conhecendo assim também a clandestinidade entre as fronteiras da Espanha e da França à conquista do próspero mar europeu, numa grande e triste vaga de dimensão épica, e é dessa massa ignara que vem grande parte do pilim que dá alguma saúde financeira cá à malta, que os lucros do petróleo e dos diamantes angolanos são sugados pelas multinacionais e pela guerra. O drama do ‘salto’ é devidamente explorado numa peça de teleteatro hipocritamente repisada a cada ano como mau exemplo pela RTP, sendo só para alguns o único retrato de um drama pessoal, familiar e social, porque quase não há casa em que não se sinta de perto o seu impacto.

Findo o ciclo da emigração para o Brasil e com a exploração colonial da África a meio gás por causa das guerras de independência a Europa para que no fundo o país do minifúndio agrário continua de costas acaba por ser também uma forma do pequeno país-jardim à beira-mar implantado manter os olhos em horizontes mais largos, quando para os muito analfabetos não há cá isso de a Terra ser redonda e o homem ter posto os pés na lua. Mas do Brasil à África e à Austrália já são muitos os pontos de referência além das terras atrás dos montes, embora quase ninguém tenha ideia de como por lá se vive.

O trágico imaginário contemporâneo português é feito da lembrança de quem ‘por lá anda’, a fazer o Brasil, África, a Europa ou na faina artesanal do mar territorial, da Mauritânia e da Terra Nova, de que os bacalhoeiros trazem um acepipe a mais que se juntar ao fabuloso manancial de frutos do mar da culinária local, acrescido das gambas ao alhinho de Moçambique.

Na questão da guerra não se toca, pelo que em termos genéricos ela se resume aos boletins de ocorrências do Ministério da Defesa e às quase sempre dramáticas imagens das mensagens de Natal transmitidas pela RTP, não só pelo nervosismo e tensão dos soldados mas pelo temor do que se pressente estar no mato atrás das clareiras. Os programas do Ministério da Defesa e do Ultramar são apresentados por um mulato de carapinha. Mostram desfechos de ações em que invariavelmente se vê cubatas de turras a arder. Mas o olhar para tais imagens não é totalmente ingênuo, depois de tantos relatos de chacinas no Vietnã, e que se reflete em pequenos grandes dramas de cada círculo familiar, onde quando não há um filho ou dois combatendo na África ou de férias na afinal paradisíaca comissão de dois anos em Timor-Leste, há os recém-nascidos quiçá para ainda servir de bucha-de-canhão ou adolescentes a ‘dar o salto’ para alguma terra distante quando a incorporação militar se aproxima.

Toca-me cá um fadinho... deixa-me cá chorar um pouco. Que espiga! A mitologia do fado, do mar de onde se parte e a que se chega, Barco Negro – entretanto também gares ferroviárias de Santa Apolônia e de Austerlitz -, da saudade, que não é só nostalgia, nem to miss, nem régreter l’absence ou é tudo isso, como explica Octavio Paz. A emigração dos anos 60 abriu horizontes para o que estava atrás das costas do país, como uma outra assombração sem tamanho, além do mar, indumentária sempre de luto, ondas a carcomer dias e noites, o imaginário em lonjuras inimagináveis, inalcançáveis, inconcebíveis, lenços brancos, lágrimas, despedidas. É o que captam as fotos das pessoas do país. Terra de brandos costumes mas sentimento trágico profundo, histórias trágico-marítimas agora também ferroviárias.

Ainda é uma diversão ir ver aviões decolando e pousando na aerogare da Portela de Sacavém, a um passo da cidade, mas não ver barcos ancorando ou partindo do terraço do cais de Alcântara apinhado, como me ocorreu recentemente, num rio-mar de lenços brancos esvoaçando sobre rostos banhados em lágrimas e gritos dilacerantes à partida dos navios para Bissau, Luanda, Lourenço Marques e Dili. Portugal produz três mini-Vietnãs. Lá, 45 mil americanos mortos, 500 mil mutilados. Acolá, 8300 tugas mortos e 26 mil mutilados. Fora os que dão no pé, desmembrando muitas outras famílias.

 

O que não falta, como já lhe disse, é poesia, por quem somos e ainda porque, mesmo quando ‘de intervenção’, subsiste pelo poder da metáfora, mas a ficção portuguesa praticamente feneceu, além de um ou outro exemplo menor de sucedâneo do neo-realismo e da produção autóctone e independentista do angolano Luandino Vieira e do cabo-verdiano Manuel Ferreira, o teatro está reduzido ao sempre espetacular mas ultra-conformado e passadista fenômeno da revista, aos vaudevilles e a um gueto de microcompanhias que a custo encenam Strindberg, Dürrematt ou Ionesco (de Brecht quase nem se fala), o cinema subsidiado de qualidade é pouco ou nenhum, não fosse a vitalidade apesar de tudo demonstrada por Manoel de Oliveira quando o rei faz anos e a força quase telúrica de uma ou outra produção do chamado novo cinema.

Vive-se de convívios ginasiais e saraus de sociedades culturais e recreativas ou de futebol, touradas e marchas populares, sangue e touros, putas e vinho verde.

A música popular dá uns vagidos com a chamada nova música portuguesa, quase toda má descendente da nouvelle chanson, com a exceção de um ou dois discos de Adriano Correia de Oliveira, da obra irregular, na periodicidade, de José Afonso e de uma ou outra revelação como a dos angolanos Fausto e Ruy Mingas, dois outros raros mestres de vozes naturais. Que já fazem música angolana, no entanto, pelo idioma.

Neste contexto, numa espécie de liturgia de corpos ausentes, tornou-se acontecimento de monta o lançamento do primeiro LP de José Mário Branco e do compacto de estreia de Sérgio Godinho, exilados na França e no Canadá, numa noite de novembro de 1971, no Cinema Roma, em discos tecnicamente impecáveis se comparados às produções portuguesas e de espantar até porque neles – Romance de um Dia na Estrada e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – ninguém copia ninguém e nada é tão limitado como os trovadores domésticos. O de Godinho surpreende também porque o tema é baseado num riff tipo rock pesado, embora acústico, e pela temática, além da voz natural do cantor – o primeiro português a não empostá-la desde Zeca e os pseudo-rockers José Cid e Carlos Mendes. Mudam-se os Tempos: mexer com Camões é quase como bulir com Pessoa, um tabu, por causa da carga simbólica de referências e identificações forçadas pelo salazarismo, que dele se apropriou – primeira vez no campo da oposição, como que a dizer que o vate inconteste e incontestado também poderá ter sido a seu tempo um contestador. Os violeiros portugueses seguem a linha neo-fadista de Adriano Correia de Oliveira, de voz empostada, quase todos no entanto (com a exceção de Manuel Freire cantando Antônio Gedeão, um dos maiores sucessos dos últimos anos por aqui) não lhe chegando aos calcanhares. O rock português ficou-se por uma só miragem dos tardos anos 60, na famosa neo-madrigalista Lenda de El-Rei D. Sebastião, do Quarteto 1111 – até hoje a coqueluche dos convívios ginasiais – e uma simples promessa, I’m Missing You, dos Sheiks, em que se revelaram Fernando Tordo, Carlos Mendes e Paulo de Carvalho.

Cultura é essencialmente o que se faz aí fora – cinema, teatro, artes plásticas e literatura. Até uma apresentação de Maurice Béjart na Gulbenkian foi proibida porque ele fez declarações contra a guerra portuguesa na África. Ah, sim, há a Fundação Gulbenkian, os extraordinários edifício e jardins e memoráveis retrospectivas cinematográficas, concertos e recitais.

A censura não permite a exibição em Portugal de toda cinematografia produzida, mas em compensação é cada vez maior o número de retrospectivas com que também se perde a noção de se estar fora do mundo: de Farenheit 451 de Truffaut um crítico não pode sequer enunciar o tema, por tratar precisamente de um dos aspectos tenebrosos do que aqui se vive, não na evocação de um passado recente e como hipótese num futuro próximo, como no filme e no conto de Bradbury, mas num presente ultrapassado, nos dois sentidos.

Antigamente os bombeiros não serviam para apagar fogos, em vez de queimar livros? – pergunta angelicamente uma personagem ao ‘bombeiro’, que entretanto os tem bem escondidos em casa para lê-los às escondidas da própria mulher.

Como muita gente do meio vejo até seis filmes por semana, antigos ou novos, de alta intensidade e densidade, grande arte também de se manter mudo, só a olhar.

 

    Ainda sem estro no discurso articulado, mais ouço que falo. Mas o pessoal é também muito lacônico. Fala muito para dentro para meus hábitos auditivos e muito por subentendidos, deixando frases pelo meio e dizendo tás a ver? - e eu a ver cataratas..., donde essa abstrusa falta de entendimento claro do que se passa. Mas quem o tem afinal? Vive-se ceguinho tateando terreno à cata de referências para captar algum elemento vivo.

Em Portugal, simbiose raríssima. Como se, ao adquirir estilo próprio também em inglês, um escritor russo emigrado como Nabokov passasse subitamente a ser inglês ou americano. A língua me dá a sensação de estar num outro estado de um Brasil alargado a todo mundo da língua portuguesa, embora nunca me passe pela cabeça que também na África se fala português. Rapidamente, por ambição profissional – escrever e falar como os portugueses - mesmerizo a visão, a vivência, o modo de ser português, embora os vícios de sotaque quase sempre sobressaiam. Em Portugal há também mais informação sobre o Brasil, o que me dá a permanente sensação de - sem saber quanto tempo permanecerei longe -, estar só vivendo uma fase a milhas de problemas de que entretanto me informo como posso, lendo nas entrelinhas, embora sejam de outra ordem e escala no Brasil. Sou até por incipiência um outsider. Lutar contra as injustiças – belíssima proposta. Todos os que o fazem, no meio muito meio, tiveram de um modo ou outro um pé ou os dois na pobreza. É a mesma luta de classes: uns quantos pés-rapados, no máximo enjeitados, e um ou outro borra-botas solidário, e a mim me dá para a vergonha na cara ou então não há alternativa mesmo, nem penso duas vezes: continuo underground nos subterrâneos portugueses.

     Como nos anos 60 os cinemas Monumental, Império e S. Jorge foram palco de shows de music hall e concursos de conjuntos de rock, em 72 o Alvalade é balão de ensaio de uma experiência inusitada, três shows de rock com o ótimo Brian Auger’s Oblivion Express, o deutsche rock do Embryo e Beggar’s Opera, pobre representante do progressive sound, já em decadência. Sente-se ao menos uma lufada d’ar diferente no ambiente claustrofóbico de primavera marcelista, que é de arrancar os cabelos (compridos). No cenário nacional, Jorge Lima Barreto faz experiências do arco-da-velha, sobretudo ao redor do Porto, com a sua Anar Jazz Band e no livro A Revolução do Jazz, caso único na modalidade. Foi lançado recentemente um jornal quinzenal de cultura, & ETC., revolucionário na forma e no aspecto gráfico, mas que apesar de osanar sobretudo o surrealismo ainda me parece bastante sisudo. E ainda em português, no RCP-FM Nuno Martins toca quase todos os dias mais uma aula de contestação nas entrelinhas de Chico Buarque, ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça, inútil dormir, a dor não passa.

   ...

              República

Hora da sopinha, almoço frugal do velho militante republicano e jornalista a serviço do pequeno-grande baluarte da oposição à ditadura, o jornal República, o único puro e – na medida do possível – duro, que lá resiste muito mal impresso no chumbo, com uns dez mil exemplares de vendas quando a maré vai pelo melhor e que sobrevive de fundos angariados por Mário Soares do exílio em Paris, onde hora e vez vai alguém levar e receber informações sobre o rumo das coisas e indicações.

Eu e um ex-colega da RU decidimos procurar trabalho como críticos de música ligeira nas publicações possíveis, e lá subimos as velhas escadas da Rua da Misericórdia.

A Raul Rego só faltam a viseira e as mangas de alpaca para ser um jornalista do tipo dos antigos filmes B americanos, mas à redação não falta nada. Aliás, estatura, modos, calvície e óculos – é Peter Sellers em Dr. Strangelove sem tirar nem pôr, só que Rego mais maltratado pelos anos de militância e algumas prisões. Enquanto come a sopa, após desculpar-se por fazê-lo, mas é assim que tem de ser, ainda tem de pôr o jornal na rua e no trem da uma e meia para o Porto, que lê cedo no dia seguinte o da véspera, ouve a dupla e marca encontro para dois dias depois, quando qual Edward G. Robinson, embora muito magro e envelhecido, nos recebe já sentado no seu pequeno gabinete – o único da minúscula redação – face ao seu prato de sopa subido da taberna do Manel, onde o pessoal costuma ir almoçar belas pratadas de comida alentejana de primeira, dizendo tudo bem, podem escrever quanto quiserem mas não temos dinheiro para nada e a única coisa que lhes posso oferecer é uma ajuda de custo para o transporte e o pagamento de eventual despesa com alguma reportagem, mas nada de exageros.

De reportagem, a bem dizer, só fazemos uma, na Praça de Touros de Alcochete, onde num sábado se realiza como que um fantomático festival de rock só com bandas portuguesas, entre as quais os inevitáveis Chinchilas de Filipe Mendes, tido unanimemente como o melhor guitarrista destas plagas. Na redação escreve-se à mão em tiras de 12x30cm porque só três ou quatro redatores mais velhos ou conceituados têm direito a máquina de escrever ou a trazem de casa. A disputa do espaço de mesas em que chegam a alojar-se dois redatores é a parte visível de uma luta em surdina pelas vagas de estagiário.

A redação tem uma linha direta com a censura através de um telefone de manivela pendurado na parede que só é acionado por Raul Rego e pelo chefe de redação, tudo caindo aos pedaços, porta de vai-e-vem para a oficina de composição de onde se vê a tipografia embaixo através do buraco deixado por uma tábua corrida do chão que falta. Aparentemente desenquadrado do contexto, entra às segundas-feiras Artur Portela Filho, jovem publicitário muito janota que assina a coluna Feira de Vaidades, causa dos maiores atritos do diretor com a censura.

 

O verão de 72 é um dos mais marcantes do fim do século. Nos EUA, George McGovern (marca registrada e morta à nascença) protagoniza eleições presidenciais de tirar o fôlego como suposto representante de um quase anti-poder, reunindo em torno do seu nome todos os que se opõem à guerra do Vietnã e à arrogância ilimitada de Henry Kissinger, o secretário de Estado de Nixon, numa desesperada tentativa de arredar os doutores estranhoamores de Washington, e que acaba por ser vítima da própria falta de punch, como atesta Hunter S. Thompson no Rolling Stone e no livro Fear and Loathing on the Campaign Trail. A campanha eleitoral norte-americana e o alinhamento de Paul Simon, Carole King, Joni Mitchell, Crosby, Stills, Nash & Young e o diabo a quatro com Mc(ops!)Govern é um dos temas recorrentes da estação. Mark Spitz dá um banho de medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique, quando o mundo vê pela primeira vez em ao vivo pela televisão um atentado terrorista, fruto do terror palestino e israelense.

Meus textos começam a resvalar para o pseudo-marxismo que se intromete entre os fumos da rebeldia. Na minha insipiência de raciocínio a lógica igualitária sobrepõe-se a tudo o que se relaciona à vida, num primarismo de bradar aos céus. Não se produz nada em que não fale do engajamento político de alguns artistas e da falta de engajamento de outros em prosa feita à imagem e semelhança do jornal, politicamente corretíssimo em 1972. Mas até Joni Mitchell entra em clima de autocrítica ao interrogar-se sobre o sentido de ‘cantar para as cortinas’ em quartos de hotéis cinco estrelas e auditórios sofisticados enquanto ali na rua um músico anônimo dava melhor ar de sua graça, iluminando um trecho da caminhada dos passantes com uma performance muito mais justificável, do ponto de vista social, ao tocar real good for free, sem cobrar nada. O personagem homenageado em For Free, de For the Roses, é o clarinetista inglês Lol Coxhill, notabilizado na Europa como membro das trupes de Kevin Ayers e do mago das Tubular Bells Mike Oldfield e que nem por isso deixou de criticá-la por não o ter convidado para a gravação.

 

Logo obtenho o aval dos mais velhos e sou abordado em tom tu cá tu lá que me faz sentir um pavão pelo editor de espetáculos me informando de que tem de ir à França por quinze dias para visitar o filho fugido ao exército e me pergunta se topo editar as páginas na sua ausência. Pergunta-me também se estaria disposto a substituí-lo numa palestra sobre rádio numa sociedade de cultura e recreio do Barreiro, pelo que só me pagariam as passagens.

Minha primeira descida aos subterrâneos da resistência antifascista tem mais aspectos gogolianos que dostoievskascos. Lá vai Ed, 18 anos, uma noite, de barco, para a mui feia, poluída e fabril edilidade, da estação de ônibus por ruas cercadas por altos muros de unidades febris, um ambiente de neve carbônica que não se sabe se provocado por nevoeiro ou por fumaça industrial, mal descortinando o que está atrás, nem uma habitação, e lá se vê sentado na primeira fila de um salão com quase todas as cadeiras ocupadas por gente com ar humilde, sisuda, de cinzento ou marrom vestida e na grande maioria para lá da meia idade, enquanto o cantautor José Jorge Letria palestra sobre a chamada nova música portuguesa em notável tom de equilíbrio entre alfinetadas políticas de entrelinhas, humor sardônico e contenção. Ato seguinte, lá está Ed de pé e de frente para a plateia de umas cinquenta pessoas a discursar...

... a discursar é modo de dizer. Balbucio, tremo que nem garrafas vazias em grades num caminhão de transporte sobre piso de macadame, o nervoso faz com que olhe mas não veja nada nem ninguém na frente e, até por inexperiência, as palavras saem aos borbotões, como que acionadas por um automatismo, como se algum abestalhado mais besta que eu estivesse falando por mim. Mandaram-me e fui... Mal sei para quem falo, não estou preparado, embora saiba muito bem do que deveria tratar. Mas em muitos aspectos sou um bobo alegre. Há governo, ditatorial, e eu claro sou contra. O rádio português, salvo muitíssimo honrosas exceções, é uma merda e lá estou eu dizendo-o por outras palavras. Quer saber de uma coisa? Acho que a um dado momento passou uma nuvem de todo o tamanho pela cabeça e eu me vejo qual Stevie Wonder cantando olhando fixamente para um ponto indefinido no alto da parede e vendo o quê?, talvez um turbilhão em negro ou amarelo, vermelho e marrom em círculos, como quando se olha para o sol e se fecha os olhos ou a capa de Songs In the Key of Life, acho que até falto ao respeito à digníssima plateia e que sai da minha boca um palavrão do gênero, já nem sei, dois minutos depois de ter começado a falar vou por ali porque os ‘mais velhos’, que me merecem todo o respeito, assim o fazem, mas não sei de nada. E a plateia, quando a consigo ver ou me apercebo dela, ou cabeceia entre a vigília e o sono, mais pra lá do que pra cá, ou olha de queixo caído e atônita para aquele pivete de barba mal crescida e cultivada de cabelos encaracolados até os ombros expressando-se em pretoguês num discurso cujo único nexo é o de uma espécie virulenta de protesto contra o rádio alienante que nos é servido, enfim, o que é que se há de dizer, também com tantas limitações, além do mais a censura e este regime, me dá quase vontade de rir, devo até esboçar um ou outro riso de nervosismo descontrolado, sobretudo quando vejo o pessoal já para lá da terceira idade da direção que me recebera e apresentara tomado de pãnico trocando sinais também cada vez mais nervosos até que três avançam para mim, um dizendo num sussurro raivoso ó homem, o que é que está para aí a dizer, outro interrompendo quase num grito dirigido à plateia e esfregando as mãos que já se faz tarde, e já se deve fazer mesmo, a alocução do nosso convidado estava muito... e interrompe-se, enfim, é hora de nos despedirmos, muito obrigado, dirigindo-se a mim, que do outro ouvido ouço uma enorme reprimenda do camarada..., perdão, membro da direção que me diz mas você perdeu o controle, não vê que há pides aí entre o pessoal, o que é que pretende que aconteça a si e a nós, que falta de responsabilidade, como quem diz veja lá se não volta a fazer isso, se não quem lhe dá uma sova somos nós, não sabe o que lhe pode acontecer, e dando-me muito claramente a entender que ali não volte a pôr os pés, como de fato nunca mais pus, se me perguntassem que sociedade é aquela e onde fica nem saberia dizer, de resto só volto ao Barreiro para pegar o trem da meia-noite para Albufeira ou em transbordos etílicos e quejandos do Algarve ao raiar do sol e uma vez em ácido e, sei lá, se até aqui não tinha ficha na Pide com certeza agora tenho e data de um possível relatório de um esbirro sobre esta noite.

 

O país é todo ouvidos. Tudo na moita. Comentar um fato ou boato político é uma temeridade. Uma noite, num encontro casual com colegas de ofício e a bem dizer já também de resistência à saída da Rádio Renascença, conheço uma jovem que após uma ou outra troca de impressões genéricas sobre a situação política e a informação diz que quer conversar mais comigo. Dou-lhe o meu número de telefone e em poucos dias me chama para um encontro.

Diz que milita numa organização de que não revela o nome nem aos três pastorinhos de Fátima e de resto quando fala sobre isso mostra-se extremamente renitente em revelar qualquer detalhe, mantendo sobre sua militância uma aura de mistério que afinal é o maior elo de atração e ao mesmo tempo de repulsa, porque sabe-se lá se ela não é informadora da Pide. O meu papel é claro – mas, e o dela? Quer recrutar-me e só abre o jogo se eu me predispuser a juntar-me à organização. Diz que tem um namorado com quem milita no misterioso grupo e eu magicando, que romântico, o amor na clandestinidade, um amor à Daniel Filipe, autor de uma das bíblias da resistência, A Invenção do Amor, de que me oferece um exemplar num café da Rua Castilho com um recorte de um artigo da minha autoria em linguagem cifrada criticando a visão ‘alienada’ de Missa Leiga, uma peça de Chico de Assis que está sendo representada no Teatro São Luís por uma companhia brasileira, publicado na primeira página do República talvez para cobrir à última hora espaço deixado em branco por uma notícia censurada.

Vive-se ao fim e ao cabo o mais possível clandestino mesmo em relação a quem se é mais chegado, sempre tentando ‘pôr um pauzinho na engrenagem’, do lado de cá (de baixo, do subterrâneo, underground), tentando trazer alguém do lado de lá para a causa, que não é outra: a da liberdade e igualdade social. Não tenho muita consciência dos riscos que corro e nem penso nisso, até porque a Pide-DGS terá muito mais com que se preocupar do que com um gato pingado feito eu, mas dar um passo para a militância política direta e a clandestinidade não me passa sequer pela cuca. Cumpro meu papel como posso, na luta linha a linha, palavra a palavra, entre as linhas.

 

Um colega coleciona telexes proibidos, que cola uns nos outros, enrola e pendura com um barbante ao teto da sala da sua casa até um grande cesto.

Em Portugal espera-se que as tiras com as provas tipográficas ou de offset voltem da censura para proceder aos eventuais cortes ou adaptações ou simplesmente os jogar fora. Ninguém é besta de se pôr a escrever panfletos na redação, sob pena de ser despedido por improdutividade. Aprende-se depressa até onde se pode ir, embora os departamentos da censura, exercida por militares ou esbirros da polícia política aposentados, sejam imprevisíveis, e daí frequentes conversas ao telefone em que se ouve, em tom de ironia: Mas, coronel... A grande maioria se autocensura e os mais ‘tendenciosos’ lá lançam uns apartes para deixar alguma coisa subentendida.

     As cenas mais hilariantes dão-se quase sempre quando o República deve publicar Feira de Vaidades. Talvez conscientes da arma que têm em mãos porque a coluna ocupa mais de meia página três do pequeno diário oposicionista os censores fazem trinta por uma linha antes de aprová-la com cortes ou proibi-la na íntegra, para desespero de Raul Rego.

     A ligação direta do jornal à censura é feita através do telefone a manivela afixado ao lado da entrada do gabinete do diretor a uma altura que, para chegar o mais perto possível do bocal, ele tem de se pôr em pontas de pés ou urrar de onde fica sua boca, também pelos ataques de nervos que lhe provocam as ‘implicâncias’ dos homens da tesoura, ou lápis azul.

     - É hoje que lhe dá o badagaio - diz alguém sempre que sua cabeça, pequena e meio careca, enrubesce e as veias inflamam-se à beira da apoplexia.

- Ma... mas o se... o senhor... o senhor não... não... não pode fazer isso! O senhor não tem esse direito! Eu estou aqui que perco o trem para o Porto e o senhor a pedir-me que espere mais um pouco? O quê? Para consultar um superior?! Mas quem está acima do senhor, o senhor secretário de Estado?! O primeiro-ministro?! Não! Não tenho só de ficar esperando e acatar, eu tenho a responsabilidade de pôr o jornal no trem daqui a uma hora e... o quê?! Pois o senhor quer saber o que mais? Quer saber? Ora, vá para a puta que o pariu!!! A puta que o pariu, ouviu o senhor?! Ora! – e bate o fone no gancho e, a seguir, a porta do seu gabinete com fúria de capitão Haddock e figurinha e jeito de professor Girassol.

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     Cascais Jazz 72

Nenhuma geração de jovens quis e lutou como a dos anos 60 to do its own thing, tentar subverter a ordem social para fazer o que lhe desse na gana no pleno gozo dos seus direitos naturais, sem o dinheiro e as mercadorias de plástico que lhe ofereciam. A ditadura salazarista coíbe até o esboço de qualquer movimento do gênero em Portugal, onde a exemplo da Espanha, como ressalta Eric Hobsbawn, a prioridade é outra: o derrube da ditadura. Em tudo ainda o tosco artesanato incaracterístico. E no mais o atraso de que eu mesmo sou reflexo. O galo de Barcelos e o margalho das Caldas no poder.

 

Um ano e meio depois de Vilar de Mouros o Festival Internacional de Jazz de Cascais, ou Cascais Jazz, coloca finalmente Portugal na rota dos grandes acontecimentos musicais do mundo. Ainda que com condições acústicas deploráveis o ginásio de esportes de Cascais vive momentos fascinantes, abrindo com um lendário concerto de Miles Davis na primeira apresentação do septeto com que revida no chamado jazz-rock e lança Keith Jarrett, Dave Holland e Jack DeJohnette.

     O já veterano Manuel Vilas Boas está a ponto de enfartar uma hora antes, quando lhe comunicam que Miles se recusa a fechar a noite após o quarteto de Ornette Coleman. Volta do hotel com a mão na testa, bufando impropérios enquanto conta que o trompetista trancou-se no guarda-roupa do quarto até ter a garantia de que Ornette aceitara trocar a ordem de entrada no palco. Imagino Miles argumentando em surdina de dentro do armário – quem o ouvia?

A música? Cachos de sons dissonantes em dodecacofônicos funkeados eletronicamente. Usina de timbres quase inéditos, sendo a segunda formação em que o bruxo experimenta a mistura eletroacústica que lançou em In a Silent Way com Joe Zawinul e que a Soft Machine reciclou e implementou em Third à mistura com o hipnotismo de Terry Riley e Steve Reich.

     Keith Jarrett parece Angela Davis, a pantera negra, com o cabelão russo encarapinhado e redondo como um tufo de algodão doce de açúcar mascavo. No dia seguinte à exibição do não menos emocionante videoteipe do concerto no segundo canal da RTP, quando tento ouvir bem o que ali se passara, uma senhora idosa comenta com uma amiga numa mesa do Café Supremo:

     - Viste aquilo?! Que pouca vergonha! Olha, não se pode dizer porque não se tem a certeza e é até pecado, mas aquela camisa esquisita toda cingida ao corpo, aquele cinturão... O pianista, menina! Só pode ser homossexual!... As calças... Prestaste atenção? Verde-alface, menina! É como diz o pároco, final dos tempos! Onde é que isto vai parar!

     O quarteto de Ornette quase provoca o encerramento à nascença da história dos grandes shows internacionais em Portugal. Entre duas peças o contrabaixista Charlie Haden apresenta uma sua criação dizendo apenas this song is dedicated to the african liberation movements of Angola... Ainda atordoado pela miscelânia de sons desconexos que acabo de ouvir e distraído pelo burburinho em volta não atino e sou surpreendido pelo clamor crescente da maior parte das dez mil pessoas presentes, quase tudo muito jovem, enquanto Charlie já grita para se fazer ouvir, com a mão direita segurando o contrabaixo e a esquerda, de punho fechado, ao alto do braço esticado para a frente... Mozambique and Guinea-Bissau! o público em polvorosa aplaudindo e reagindo à exortação gritando o nome dos movimentos, a sessão de música momentaneamente transformada no primeiro comício de massas de apoio aos combatentes anti-regime na frente colonial.

     Findo o show Haden é levado à Antônio Maria Cardoso, onde borrou-se todo, segundo relato irado repetido vezes sem conta por Vilas, madrugada alta, na esplanada quase deserta do Vavá, com a reprimenda que levou dos pides, que apesar de tudo não iam ser loucos ao ponto de prender um cidadão americano branco com aspecto de estudante universitário e o levam sob escolta ao aeroporto onde lhe é dito que nunca mais ponha os pés em Portugal, mas ele os porá, quem diria, em 1981, quando compõe com Jan Garbarek o trio de Egberto Gismonti que se apresenta na Aula Magna da Universidade de Lisboa, e placidamente sentado a uma mesa comprida da Trindade solenemente reivindica:

     - I want some lobster tails!

 

     Novembro de 1972. À porta do Vavá, fechado, Vilas não se cansa de alardear sua fúria contra aquele maluco, que não há dúvida é um excelente músico mas tem cabeça de minhoca, tás a ver, pá, política, pá, não tenho nada contra, cada um vá fazer comícios e assumir as consequências onde e como quiser, mas eu não me meto em política, pá, já é uma dificuldade enorme pôr o festival de pé e convencer aqueles gajos de que podem estar tranquilos que não vai acontecer nada de mal e pregam-me uma rasteira dessas, tás a ver, pá, no fundo EU é que sou o responsável!

Responsável por, pela primeira vez, uma multidão ter podido despejar o saco e urrar contra a primavera marcelista.

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Como Mia Farrow em Radio Days, só que ciceroneado pelo capeta de Asas do Desejo, faço o meu ingresso no telão ao outro lado da vida para conhecer uma das faces mais duras, cruas e reais da existência, a da minoria dos banidos e proscritos, mesmo que por artes mágicas do intelecto bem ou mal consigam exercer alguma atividade regular remunerada durante o dia, que quase sempre sem outra opção singraram a via do desregramento dos sentidos, buscando no álcool e na noite a luz que lhes é negada por convenções ou espartilhos, amenizar o desatino, desatinar. Jornalismo e boemia são ainda nesta pré-história da pseudo-academização da profissão elementos indissociáveis, quase que como se certos homens que de dia supostamente dão conta às massas anônimas de como é a vida e como vai o mundo convencional, nos seus aspectos quase sempre mais ridículos ou bárbaros, sendo os que mais vendem, tivessem de pagar o altíssimo preço de, por ossos do ofício e limitações políticas, aceitar o silêncio do indizível. Chiiiiu... pode-se ouvir o silêncio... – seria um bordão de JCP, qual um Van Morrison ainda insuspeitável: Can you feel the silence? And it’s always been NIGHT...It’s always been night quando, longe dos cabarés e do bulício, serena e revela sua faceta de pescador de palavras, imagens, sensações imemoriais na calada da noite ou da tarde de ressaca das noites brancas, quer dizer, muito escuras. Quando os homens montam quebra-cabeças de palavras e imagens que vão mostrar certos aspectos da existência que, por limitações várias, como diria Chico Buarque, ‘não saem no jornal’. Pela sua própria formação e por tratarem precisamente disso, da procura da luz, beleza na penumbra ou esclarecimento no terreno do imperscrutável, os repórteres de cultura e espetáculos, como JCP e eu, se sentem uns privilegiados, porque não tratam de forma vil, hipócrita, da matéria viva e (auto)censurada, ao contrário, revelando o que é possível de sinais luminosos no mundo ensombrado, a natureza caótica de seres e coisas na arte do improviso, a razão de ser do pecado, a desburocratização e descompartimentação dos seres no terreno movediço dos sentimentos e emoções, numa palavra, a arte, embora também de forma circunstancial, superficial, banal.

Quase uma década nos separa em idade como dois rios de fontes absolutamente diferentes – JCP formado no movimento grevista estudantil de 1962 e quase, quase da geração de poetas daquela era, a do embrião das revoltas do final do decênio, eu nas brasas do rock. Mas não há entre nós azeite indissolúvel. No fundo é a mesma guerra, luta, busca de beleza, lirismo e paz. É um novo e importante campo de pesquisas entre os muitos – livros, discos, filmes, teatro pouco, sendo uma das artes mais perseguidas pela ditadura e não intercambiável entre fronteiras em tempos muito anteriores ao videocassete e ao DVD – de quem se lança à aventura na estrada do auto-aprendizado que me predispus a percorrer ao fazer-me a Londres, ou seja, ao desconhecido.

     Minha escrita incipiente levou não raro um editor sem peias a amassar alguns manuscritos e jogá-los no cesto do lixo enquanto bradava: por que não voltas para a escola?!

     Para não me melindrar e ser melindrado não ouso perguntar se aquela Rosa Luxemburgo de quem nos livros à venda não há – porque não convém – maiores referências não seria por acaso um homem, se Lênin era Ulianov tudo é possível – e nem a /o sei viva /o ou morta/o.

     Mas não estou aqui por acaso. Minha imaturidade é compensada precisamente por trabalhar sobre matéria obscura por aqui, muito longe do eixo Londres-N.Y.-S.F.-L.A., em que é talvez mais evidente a tentativa de consolidação de uma cultura sem preconceitos, tabus ou convenções, a chamada contracultura, terreno de que, através de uma pesquisa constante, operada em casa como num laboratório, com muito afinco e sem dores de cabeça, até porque quase não bebo e não trago o fumo dos poucos cigarros que fumo só por fumar, sou um verdadeiro especialista. Ainda sem vícios, entendidos como dependência de qualquer produto para a concretização de um objetivo, como ‘esquecer’ algum problema ou aumentar a percepção sensorial para aspectos da realidade. Essa atinge-me de chofre – e me maravilha – mesmo careta. A catadupa de informações que recebo de fontes cada vez mais diversas é em si mesma avassaladora.

   ...

 

Cabarés e nostalgia, até porque a faceta ainda sorridente do mundo ocidental empalidece, com o prenúncio da primeira grande crise econômica do pós-guerra, vive-se como se o mundo fosse acabar ao amanhecer, na porta do cabaré. Como na Berlim de Goodbye Berlin, de Christopher Isherwood, base de Cabaret, e Before the Flood, de Otto Friedrich, parece que se vive o final dos tempos em que todos os valores são postos a nu pela intelligensia e pelas aberrações dos donos do poder, na iminência do extermínio atômico, só faltando ver quem irá apertar o botão primeiro. Reestreia Gone With the Wind restaurado, roda-se uma versão água-com-açúcar de O Grande Gatsby, revê-se o tempo da brilhantina e dos soquetes em American Graffiti, estreia o não menos lamechas Summer of ‘42, Marlene Dietrich volta à ribalta, That’s Entertainment, Play it Again Sam, Woody Allen ressuscita o mito de Casablanca As Time Goes By, Cabaret de Bob Fosse vai mais longe aos tempos da ascensão do nazismo, com Liza Minelli revelando-se clone ampliado (em tamanho) da mãe, reacendem-se os grandes mitos de George Stevens (Giant, A Place in the Sun), Vincente Minelli (Um Americano em Paris/Sinfonia de Paris, Some Came Running/Deus Sabe Quanto Amei), Richard Brooks (Gata em Telhado de Zinco Quente, Sweet Bird of Youth) , Elia Kazan (Esplendor na Relva, On The Waterfront, The Arrangement), Nick Ray (Rebel Without a Cause/Fúria de Viver/Juventude Indômita, Johnny Guitar).

     A fúria das novidades avassaladoras dos anos 60 varreu o passado do mapa. Nunca se curtiu tanto o presente com os olhos no futuro, tentando-se alhear do que ele pode ter em reserva de terror. Até os americanos riem das trapalhadas do Nixon-dos-truques no Vietnã através de uma paródia em pleno campo de guerra na Coréia em M*A*S*H* de Robert Altman. Mal começam os anos 70 e é como se o fim do sonho, da era da prosperidade e das grandes ilusões obrigasse a um flashback aos anos anteriores ao baby boom até o ‘período de ouro’ do beat e do rock’n’roll.

     Vive-se entre a nostalgia e a decadência dos valores hipócritas que resistiram às grandes guerras. Parece que sua era acabou mas ainda se acredita em revoluções. Tempo de revisões. Recebo uma série de discos de revival, com músicas até aqui alojadas no meu subconsciente desde a mais tenra idade - The Platters, Chuck Berry, Bo Diddley.

         Décadance, oui, mas avec muita élegance.

     No rock decadência e ambiguidade são um achado de última hora. Com muito make up, roupas superfantasiosas e caras de mau os Brian e Bryan Eno e Ferry e Phil Manzanera na Roxy Music, David Bowie, Nico, Lou Reed, Marc Bolan/T. Rex e Alice Cooper mostram que o estilo ainda pode reservar algumas surpresas, ainda que ele mesmo decadente nos anos que quase tudo leva a crer de pré-apocalipse. E ainda assim o gênero continua alargando horizontes em termos musicais e comportamentais, pois se os roqueiros da segunda geração eram tidos como efeminados apenas por usar cabelos compridos, roupas mais ou menos espampanantes e a voz em falsete, estes passam ostensivamente ao deboche.

     Também para Hunter S. Thompson o sonho alucinado dos anos 60 acabou, e o que resta ao jornalista free-lancer extraviado naqueles tempos quando se arvora ao Fear and Loathing in Las Vegas, com que me defronto entre o maravilhamento, o estupor e nenhum embaraço, é o confronto em tom histriônico de deboche (acentuado pelas ilustrações de Ralph Steadman) com a autoridade hipócrita e corrupta. 

     Do sul, apesar do arbítrio, chegam mensagens totalmente opostas, com a energia solar da chamada MPB, explosiva mistura de ritmos e estilos que faz Ed e Jimi se concentrarem quase que exclusivamente nas novidades em música do Brasil, juntamente com novos termos de gíria. Depois do estouro de Construção, que se seguiu a um breve período de entressafra, a energia que parece esvair-se no rock, apesar de uma ou outra explosão crepuscular, tem de sobra na geleia geral brasileira, que pelas notícias que lhes chegam à Europa transborda para a poesia e o teatro, apesar da censura política e de costumes.

   ...

 

1973 dá nos nervos do regime porque até os subterrâneos estão mais agitados. Católicos ditos progressistas reunidos em janeiro na Capela do Rato se arriscam a subescrever um abaixo-assinado contra a guerra colonial e é grande a mobilização em torno das candidaturas da CDE para fazer algum ‘ruído’ na engrenagem propagandística do regime até as eleições-farsa de outubro. A Pide teme uma investida em grande escala dos ativistas e simpatizantes no 1o de Maio e faz uma varredura entre intelectuais e escribas, como J.P.R., que é intimado a comparecer nas instalações da Antônio Maria Cardoso.

     - Já pus até a mulha de sobreaviso para preparar o enxovalito caso vá de lá para Caxias ou o rai-que-os-parta – conta antes do primeiro tête-à-tête com a repressão.

      É uma quarta-feira de embate decisivo do Benfica na Copa dos Campeões Europeus. Pede dispensa dos jornais e vai ao Chiado sob o peso de quem sobe o Gólgota.

- Ainda por cima o inspetor me deu um chá de cadeira no corredor do gabinete para pôr o meu moral debaixo da sola, eu ali cada vez mais aflito, carago, que de galego só tenho um pouco de sangue, e à medida que passava o tempo cada vez mais tremeliques, ora se não, e a perguntar-me: será que esses gajos serão capazes de me dar uma carga de porrada e mandar-me pra enxovia? E o que é que eu fiz pra isso, porra? O inspetor sai e entra, entra e sai do gabinete e nada. Quando sai mais uma vez eram quase sete horas e vem me dizer que eu não devia me preocupar mas tinha de me levar para Caxias porque lá íamos ficar ‘mais à vontadinha’, olarilas, mais à vontade ficava ele, porque eu quase me borrei nas calças de medo, porque a impressão que me dava de repente era a de que já não ia voltar para as minhas filhinhas. Tou fodido – disse de mim para mim, crente que com sorte ficaria num apartamento com vista para o Tejo. Descemos, entramos num Opel preto, eu, ele e o chofer, e eu só pra ver se conseguia apurar alguma coisa ainda lhe mando com um senhor inspetor, será que lá chegados eu não poderia fazer uma chamadinha para a minha mulher a dizer que está tudo bem, para ela não ficar ainda mais em apuros, coitada, ela sofre do coração e pode ter um problema se eu me atraso mais. O senhor acha que a gente se despacha ainda antes do segundo tempo do jogo? Sabe como é, eu até que sou da Acadêmica mas o Benfica sempre é o Benfica, e cá pra mim: ai sim que vais ver o Benfica!... Tou é frito, pá... Nada disso! – retruca-me ele. Fique tranquilo que é rapidinho. Eu também não queria perder o jogo nem por nada, mas o que é que se há de fazer? Lá chegados puseram-me numa sala tipo cela pequena com duas cadeiras e uma mesa e o tipo põe-se a perguntar-me sobre o que eu pensava disto, o que achava daquilo, se tinha contato com algum grupo político oposicionista, e eu nervoso como o raio mas a querer dar ares de que nem ligava ainda sorria ao gajo e mandava-lhe umas para o mato, tipo qual o quê, tenho a minha tarimba que me ocupa de manhã à noite, fora alguma costura em casa para fora, mais três filhas e uma cadela, e ele a puxar daqui e dali a ver se me pegava em alguma falha e, ó, quando eu menos esperava, olha pro relógio, diz com escárnio que já são oito e meia e quê, ainda perdemos mas é o jogo todo, o amigo quer uma carona? E não é que o sacana me deixa à porta de casa, eu ainda sem saber se ria ou se chorava por não ter ido para a enxovia, por conta disso dei-lhe forte numa pinga que tinha lá em casa e apanhei um pileque de todo tamanho e só me recompus depois de acordar, tomar um banho, olhar-me no espelho e ver que foi só um bruto de um pesadelo acordado, hijos de puta! Tou livre, é o que importa. Vamos mas é comemorar lá embaixo com umas taças de vinho verde e esquece!

     Ele está livre mas Zecafonso lá fica em Caxias, como depressa se saberá de viva voz da temerária e fiel Zélia, que desdobra-se em visitas às redações para recolher assinaturas para um pedido de libertação do marido. Diz que de nervoso o homem nem come, está quase afônico, queixa-se de dores nas costas, mal crônico agravado em prisões anteriores e nem agradece a solidariedade que pela primeira vez sinto como obrigação cedida de forma assaz diferente de esmola, a cabeça bem atrás do coração estufado de orgulho por estar entre os melhores – e ninguém menos que o Bob Dylan português -, mesmo não sendo um deles, sem medir consequências, e se as houver pior para elas.

     Passa-se o 1º de Maio e mais uns dias e após um mês de prisão é a vez de Zeca agradecer aos que o apoiaram em ronda pelas redações. Os tique nervosos acentuados. Mantém-se de pé, como sempre de braços cruzados. Pisca muito os olhos atrás dos óculos grossos enquanto fala em tom quase inaudível e ritmo acelerado, ora e vez passa indicadores e polegares nos lóbulos ou as mãos no cachaço antes de ajeitar os óculos no nariz. À noite vai-se ao cinema. Zeca mora em Setúbal e aproveita as idas a Lisboa para se atualizar com o que se passa. O filme não lhe agrada, pois antes do intervalo sai e não volta. Está no lobby olhando o movimento da rua.

     - Não estás a gostar do filme?

     - Bom, o filme não é lá grande coisa, mas não é isso, pá. É que depois de um mês de cela custa-me muito ficar fechado – e comprime os braços contra o tronco. – Sinto-me sufocado em espaços fechados. A prisão aumenta a minha claustrofobia.

 

     Não se pensa sequer em entrevista com José Afonso porque seria proibida. Metade das faixas do seu último LP, Cantigas de Maio, está proibida. Cabelos quase grisalhos com duas grandes entradas frontais, camisa xadrez de flanela e calças de terilene, vive uma espécie de clandestinidade, como se no anonimato. Mas em muitas casas não há reunião que não inclua a audição dos seus poucos discos e de Filhos da Madrugada, do primeiro depois que deixou de cantar fados de Coimbra, espécie de hino da resistência. Deixou de dar aulas de português em ginásios, a sua profissão formal, e sobrevive com o dinheiro dos contratos com o selo Orfeu, da Editora Arnaldo Trindade, do Porto - que nem se dá ao trabalho de projetar gastos em campanhas promocionais, inúteis e desnecessárias, porque os textos poderiam até ser apreendidos como material de propaganda clandestina e, na melhor tradição política, a divulgação do seu trabalho é feita boca-a-boca -, de eventuais cachês simbólicos que receberá por uma ou outra das atuações quase clandestinas em sindicatos e coletividades de cultura e recreio e do salário de professora de Zélia.

 

O fim da ditadura projeta-se em conversa numa tarde na redação. Dez anos parece um prazo suficientemente longo, até por ser o de limite para o passamento de Marcelo. A esperança parece eterna a cada dia sob ditadura. Aqui ninguém sabe como é viver em democracia. As únicas testemunhas são uns pouquíssimos velhos ‘republicanos’, quase imberbes ainda quando do advento da dita, dura. ‘Republicanos’... e por acaso estamos numa monarquia?! Sim. Que não diz o nome – plebéia da mais baixa ralé, que não tem sequer como se gabar do sangue azul.

     À mercê do destino? Nada depende de nós? Da vontade própria?

     Alberto Seixas Santos fez há anos o filme Brandos Costumes, cristalizando a imagem idiomática do país.

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Não sei o que ele ‘é’. É claro que é um dos ‘nossos’ – é-se do contra, ‘tem-se’ de ser, quem não for está morto e não sabe. Tudo é tão óbvio, apesar de muito escondido por véus e mais véus de proibição. Detalhes como filiação político-partidária (e já os há, os partidos na clandestinidade) não parecem importar muito – mas será que não importam?

     Último dia útil do mês, encontram-se muitos trabalhadores da SNT a levantar o chequezinho do salário no banco de Jorge de Brito na Avenida Fontes Pereira de Melo, encontro marcado com JCP, bolsos recheados seguimos para almoço ajantarado no Gambrinus. De táxi damos a volta larga à Rotunda. No rádio um sucedâneo do Roberto Carlos messiânico de A Montanha e Jesus Cristo, Antônio Marcos, debita um ei, irmão, vamos seguir com fé tudo o que ensinou o homem de Nazaré. Jogo-lhe à cara:

     - És amarelo?

O outro olha embaraçado, passa os dedos curvos da mão esquerda na mecha frontal de cabelos, ri um riso abobalhado e chuta a meia voz e inclinado como se falasse a uma puta horas mais tarde:

     - Amarelo?! Nããão!... Que ideia!... Mas que pergunta!... Por que me perguntas isso?!... Mas quem é que te disse que sou amarelo?!...

- J.P.R.

- Ah sim?! Não, que tontice! Não sou tal coisa. E tu?

- Também não. (E sei lá eu o que sou?!).

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        opressão política e social       HISTORIA DE CABELOS  I

                                                                                                                      Lisboa, 1973

Noite invernosa, confortavelmente acolchoado em casaco de cotelê preto com gorro forrado de lã e cachecol vermelho, azul e branco, comprados semanas atrás no El Corte Inglés de Madri (iconologias...), entro na Avenida de Roma rumo à Praça da Londres pensando em Kerouac e no que será de mim aos 43, 46, 48 anos, idade em que o escritor morreu de cansaço. As meias-noites do Londres estão exibindo às sextas e sábados uma série de Filmes Malditos. Hoje, A Palavra (Ordet), de Carl F. Dreyer. Minha juba é bastante grande, mas não o monumento que portava quando cheguei de Londres. E nada que se compare à do protagonista do filme.

     Saio, quê?, umas duas horas da manhã, e mal vejo o que se passa em volta, se não me concentro sou atropelado por um desses malucos que costumam acelerar à doida do Areeiro ao Campo Pequeno sem respeitar semáforos, fazendo da João XXI uma pista de autorama, atordoado pela porrada na cuca, caramba, que fita mais doida, o protagonista convencido de que é Cristo ou coisa que o valha opera o milagre da ressurreição da morta, não dou por nada, envolto no turbilhão de idéias confusas que me assolam, tentando me desbaratinar do estranhamento que este outro transe me causou quando, por alturas da Sul América, sou despertado dos devaneios pelo chacoalhar de garrafas, olho para trás e vejo vir à toda um caminhão de distribuição de leite de que, ao passar, ouço gritos, olho de novo e vejo o homem do lugar do carona gritando em voz de falsete: Aí Jesus, meus caracóis! Ai minha Santa Maria! E com tom de macho: Vai cortar o cabelo, sua bicha de merda!

Já me acostumei com situações do gênero. Desde o primeiro impacto da chegada de Londres tornou-se rotina ouvir piadinhas em relação ao meu aspecto, e sempre me lembro do que John Peel me contou certa vez ao voltar de uma das suas viagens à Dinamarca, que ficou besta quando, à ida no ferryboat, à saída de Harwich, alguém ao seu lado gritou Is that a boy or a girl? – obviamente, acrescentou, alguém que tem parentes do sexo feminino com barba e bigode... Anyway, prosseguiu, não ouvia algo do gênero desde que deixei Oklahoma, pelo que foi como saudar um velho amigo. Penso de novo: acontece no ferry em Harwich e em lugares como Oklahoma, porque não aqui? Mais recentemente um homem conseguiu arrancar três quartos da manga do meu pulôver quando, nas Grutas de Santo António, eu de um lado da passarela e ele no outro, começou a dirigir-se à família com insultos do gênero relativos à minha pessoa e sem titubear porque pensei que não tinha maneira de me alcançar, apliquei-lhe a mão no ar com o dedo médio ereto e os outros fechados.

     E nem penso. Como qualquer anti-heroi do chamado novo cinema americano, espicho o dedo enquanto marcho e o caminhão já vai quase na rotunda do cruzamento com a Avenida da Igreja, mas eis que trava e dois gorilas começam a descer da viatura. Estaco já a ver como poderia me salvar, se entro pela Marquesa de Alorna eles me alcançam lá embaixo, quando ouço voz de macho atrás de mim: Fique calmo. Não faça nada. Continue a andar – e aproxima-se. Ao ver que agora também somos dois, os leiteiros retornam à sua lida.

     Solidariedade de galgo da noite, das fímbrias dos sistemas e regimes.

 

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     opressão política e social       HISTORIA DE CABELOS  II

    Torquato Neto, jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 1971

                  in Os Últimos Dias de Paupéria, Editora Max Limonad, Rio de Janeiro, 1982

 

     Pois eu vou contar uma história.

     Sem pé nem cabeça: você sabe com quem está falando? Eu respondi que não e a autoridade mostrou-se ofendidíssima. Foi por isso que explicou assim:

     - Polícia.

     Ora, eu agradeci, mostrei meus documentos, o cara conferiu que tudo era legal e estava em ordem e em seguida iluminou-se:

     - Ora, bicho, esse teu cabelo está muito grande.

     Aí eu fui alugar um apartamento para morar. Quem não precisa de um? (...) o jeito é aquele mesmo: primeiro enfrentar os porteiros olhando desconfiadíssimos para a minha cara enquanto entrega as chaves. Vai e descarta:

     - Acho que nem adianta olhar. Parece que já está alugado.

     Pelo telefone os caras não me vêem, de modo que a informação é batata:

     - É conversa de porteiro.

     Aí eu fui lá, acertar a transa, assinar os papéis e tal. Aí o cara olhou para a minha. Aí ele conferiu muito e aí ele decidiu:

     - Tem gente na frente.

     Aí eu saí na rua. Primeiro na Tijuca, onde as pessoas se divertem olhando. Depois na cidade, onde as pessoas me cercaram na Rua da Assembléia e gritavam corta o cabelo dele e tal. A gente pensa: vou tomar muita pancada dessa gente. Eles olham com ódio para o meu troféu. Meu cabelo grande e bonito espanta, espanta não, agride (a tal palavra) e eu me garanto que eu não corto.

     Um cara suado e de gravata, cara de ódio, passa por mim na Conde do Bonfim, cara de uns quarenta anos, cara de pai de família classe média típico nacional, passa no seu fusquinhasinho e quando me vê dá um berro:

     - Cachorro cabeludo.

     Inteiramente maluco, o cara. Doido de pedra. Ou não?

     Desci do ônibus e saí andando pela Gomes Freire. Vinha uma senhora gorda fazendo compras com um garoto e um tipo - filho com jeitão de funcionário, sei lá o quê. De longe, enquanto eu vinha, eles já sorriam e cochichavam tramando. Eu vi. Bem na minha frente os três pararam e a vanguarda do movimento adiantou-se - era o garotinho.

     - É homem ou mulher?

     - Mulher.

     O rapazinho, o outro, gritou. Atenção: gritou.

     - Cala a boca, cabeludo desgraçado.

     A mulher deu uma gargalhada e eu passei.

     Inteiramente malucos, doidos varridos, doidos de pedra. Ou não?

     Aí, crianças, a gente declara novamente: são uns malucos. São uns loucos. São uns totalitários: cabeludo não entra. São uns chatos, são loucos, totalmente loucos, e perigosos. É assim que eles estão: doidos, malucos, loucos e perigosos. Ou não?

 

  ...

 

Antônio Castro é contratado para trabalhar na montagem de uma peça de John Osborne por Luzia Maria Martins no Teatro Estúdio de Lisboa. Antes dos ensaios vai a Barcelona para uma operação corretiva de um descolamento de retina que o ameaça de cegueira.

No regresso vem com nova e já longa barba grisalha e passa a transportar na bolsa um livro da Seix-Barral sobre Proudhon, cuja expressão facial em foto de capa pretende copiar para compor sua personagem, um velho pescador solitário que vive a divagar numa praia e em quem descortina uma mentalidade individualista muito próxima de certo tipo de anarquista e que, ao estrear, interpreta com maestria, como se na plateia quase cheia do teatro da Feira Popular não descortinasse gente mas um mar a perder de vista.

A propósito da sua atuação no rádio e do regresso à cena participo numa entrevista com o colega para o Cinéfilo, em que o intrépido misto de locutor, jornalista e ator decide não medir palavras.

Surjo também em destaque nas fotos da entrevista mas estranhamente não me acontece nada. Suspenso por três meses pela RR Antônio reage com o sorriso de muitos significados de sempre e surpreendente tranquililidade. Pode até ser despedido. Embora longe de ver a vida como uma questão de estabilidade laboral ainda assim me preocupo:

- E se te despedirem, o que é que vais fazer?

- Sei lá, posso até vender laranjas à porta do Jardim Zoológico – responde ele, que agora mora em São Domingos de Benfica, ali a dois passos.

 

Integro o núcleo duro da resistência ao regime nos meios de comunicação, que se adequam como podem às limitações – alguns, no rádio, são obrigados a emigrar para a Alemanha para trabalhar na Deutsche Welle, e entre os que ficam, no grupo muito restrito, não há, é óbvio, camaleões.

3 de janeiro de 1974 – Quinta-Feira. Ed está de serviço das dez da noite à uma da manhã. Faz o noticiário das onze e fica folheando o L’Express por absoluta falta do que fazer num turno sem notícias. Três para a meia-noite, vai à cabina onde ficam as três máquinas de telex ligadas às agências de notícias e numa delas passa os olhos por um pequeno despacho acabadinho de sair informando que o Kuwait anunciou a nacionalização de cinco por cento do petróleo que produz, explorado por uma empresa do grupo Calouste Gulbenkian. Destaca a notícia e angelicamente decide dá-la abrindo o noticiário sem esperar pelo telex em que a agência notificaria se ela está ou não autorizada pela censura. Cinco por cento não é nada, pensa, a bem dizer sem saber da importância do emirado na produção mundial de petróleo e que Gulbenkian era também conhecido como Mr. 5% - quase tudo o que possuía quando morreu era dividido em quotas desse porte em ações numa miríade de empresas. Mas cinco por cento valem ao menos uma raríssima notícia de assuntos internos, porque as que interessam são cortadas pela censura e as autorizadas não as dá. Volta a lê-la no noticiário da uma da manhã, num intervalo do programa Limite, o substituto do Tempo Zip, que foi proibido, arquiva o pouco trabalho feito na pasta de noticiário dado e vai à vida.

Na tarde seguinte, de regresso ao trampo, o chefe recebe-o com uma mão no bolso e a outra fechada, raspando o queixo com o polegar, sorrindo entre o embaraço e a ironia e andando nervoso de cá para lá num pequeno espaço entre as mesas na sala dos serviços.

- Então o menino ontem fez das boas, hein?

- O quê? Eu? O que é que eu fiz?

- Uma burrada monumental. Deu uma notícia sem esperar pela censura – e estende-lhe a metade da folha A4 com a notícia.

- O quê? Esta notícia foi censurada?!

     - Censuradíssima. Para a sua informação cinco por cento do petróleo produzido no Kuwait representa uma parcela importante do orçamento da Fundação Calouste Gulbenkian, o sustentáculo da atividade artística e cultural de alto nível neste país. O menino deu a notícia sem esperar pela censura, o seu colega da manhã, vendo-a dada, dá-a às oito, oito e um quarto e por aí adiante até as nove horas, quando lhe dizem que a notícia está proibida e por causa da sua veiculação o Conselho de Ministros está reunido. Agora, não sei o que vai ser de mim, que sou o chefe desta droga, e com o menino, que meteu a pata na poça.

     Aos 20 anos não se pensa na perda de um emprego como aos 30 ou 40, e no fundo não é essa possibilidade que o abala. Não lhe passa pela cabeça nem mesmo eventuais consequências ainda mais graves para a sua vida pessoal. O repórter de nenhuma reportagem – porque a censura leva à total inatividade do rádio nesse campo, o que é um absurdo, um repórter de rádio que se limita a escrever e ler notícia – está dependente de uma sentença determinada por interesses de altíssimo baixo nível, a ser comunicada a qualquer hora.

     Passam-se os dias e algumas semanas até que os jornalistas são convocados pelo chefe para uma reunião em que seriam inteirados da decisão tomada pela administração, Ed intimidadíssimo até saber que ela decidira acatar imposição do governo, através do secretário de Estado da tutela, Pedro Feytor Pinto, de submeter toda a programação da RR a uma censura oficial interna, em moldes a ser deliberados e comunicados oportunamente. A sua cabeça está a salvo. Aparentemente. A conta-gotas são comunicadas as inovações. O trabalho sujo de limpeza será feito por três profissionais destacados para a emissora, que trabalharão um à vez 18 horas por dia. Pouco a pouco é construída bem ao lado da sala de noticiários uma cabina onde os censores internos se instalariam, para nos ouvir melhor, comenta-se, não se vai nem mesmo poder conversar à vontade.

Antônio Castro regressa após três meses de inatividade e participa numa reunião em que o chefe comunica a proibição do termo guerrilheiro para designar os combatentes dos movimentos de libertação das colônias africanas, que por ordem dos esbirros só poderão ser chamados de terroristas.

- Então, para quem não concorda com a imposição, e eu não estou de acordo, é claro, acabou-se a guerra... Não sei o que vocês pensam, mas por mim não se dá mais notícias da guerra. Para mim é como se tivesse acabado – sugere. E é o que se faz. Para a RR a guerra colonial acabou em fevereiro de 1974.

 

Spínola lança Portugal e o Futuro e, sem que se saiba, reuniões de suboficiais descontentes com as longas missões de soberania no Ultramar, o baixo soldo, o prolongamento da guerra em três frentes e a derrota numa delas começam a gerar a sublevação do regime.

A publicação do polêmico livro do ex-governador e comandante geral das tropas na Guiné cria um clima de expectativa de mudança. Sussurra-se em casas e cafés sobre quanto tempo (meses – anos?!) passará até ela acontecer. O livro - que mais do que avançar a derradeira proposta de mudança anuncia que o regime poderá estar por um fio - é um best seller instantâneo.

 

     A 17 de março estou de serviço e como todos os domingos preparado para passear os olhos com mais tempo pelo Nouvel Obs mas ao chegar dou de cara com o chefe, que deveria estar de folga, com ar meditabundo e apertando o queixo com o polegar e o indicador.

- O que se passa?

- Não sabemos. Uma tentativa de golpe talvez. Tanques saíram do quartel das Caldas aparentemente rumo a Lisboa mas estranhamente deram meia-volta e recolheram à base. Diz-se que houve uma rebelião ou algo assim no regimento de comandos de Lamego mas não se sabe. Aparentemente o golpe foi sufocado. Vou telefonar para lá, só para ver.

Põe a rodar o Ampex quase caindo aos pedaços, recém-instalado sobre uma imensa estrutura de madeira e que só é usado pelo editor e locutor das notícias de inauguração do presidente Américo Thomaz ou congêneres, disca o telefone e pede para falar com o oficial de dia, que lhe diz que por lá não há nada de anormal. Se assim é não se pensa mais nisso. Mas os jornais do dia seguinte confirmam em notícias de primeira página com poucos detalhes que houve mesmo uma tentativa de golpe, aparentemente abortada mas sem rusgas entre tropas, como se não tivesse tido a adesão esperada pelos insurretos ou coisa que o valha. Sente-se no meio um clima quase geral de frustração pelo insucesso da primeira suposta rebelião de que se tem notícia desde a quartelada de Beja em 1962.

     Logo tudo volta ao rame-rame de sempre, enquanto na RR os jornalistas, quase todos de sorriso amarelo, tomam os primeiros contatos com os três homens que trabalharão ombro a ombro para reduzir a zero o impacto do seu trabalho. A cabina onde deverão trabalhar foi instalada e permanece vazia como uma bolha de vidro até 24 de abril.

     O maior sucesso comercial do rádio português é E depois do adeus, uma cançoneta dos Josés Calvário e Niza saída do acontecimento de maior relevância destes anos de pasmaceira, o Festival da Canção da RTP, na voz de Paulo de Carvalho. Uma cafonada que não me pega nem por acabar por dar notícias de mim mesmo.

   ...

 

Noite de 24 para 25 de Abril, de serviço entre dez da noite e uma da manhã, quando mais uma ‘manha’ dos noticiaristas – ou só de alguns, que entre os que trabalham no RCP e na RR costumam dividir os noticiários em dois blocos, entre a inserção do spot Beba Sagres, a sede que se deseja, um com informações pontuais de fatos de política internacional (nacional, porque censuradas, ou apenas de cunho promocional-propagandístico, quase não se dá) e, antes ou depois, assuntos de algum modo associáveis à ordem política e social portuguesa, mesmo que, como em relação ao Caso Watergate, não diretamente conotáveis/conectáveis, quase sempre o que a censura deixa passar de acontecimentos noutros países sob ditadura, como Chile, Grécia, Espanha e Brasil - já foi descoberta pelos ‘peritos’ da censura. Descoberto o estratagema, os censores fazem saber ao chefe do Serviço que passarão a embaralhar as notícias.

Antônio e eu decidimos em um jantar que se é assim o melhor é dar as mesmas notícias ao longo de todos os períodos em que trabalharmos.

Por acordo tácito entre a meia-dúzia de noticiaristas dos quadros da RR as notícias oficiais e oficiosas da vida política portuguesa – pronunciamentos do primeiro-ministro Marcelo Caetano ou inaugurações de Thomaz - são dadas apenas no jornal do meio-dia e meia pelo mesmo jornalista, a quem o expediente cai como uma luva. Além da rádio, o referido sr. – de longe o mais velho da turma – trabalha também num matutino e na RTP, realizando a façanha – ao que se diz pelas costas, porque tem de sustentar duas famílias... – graças ao famoso recurso muito comum nas repartições de deixar agasalhos nas costas das cadeiras. O trabalho do turno na RR acaba por lhe tomar apenas uma hora – porque nada do que veicula importa realmente.

Escrevo o meu primeiro e único noticiário porque após três meses de preparativos finalmente começa a funcionar o serviço oficial de censura interna, que neste período inaugural de inaugurações cabe ao próprio chefe dos esbirros, que o endossa já ‘embaralhado’. Leio-o às onze horas e à meia-noite. Sem mais o que fazer, até porque a cena se passa não ao lado do seu gabinete mas em plena parte da sala reservada aos noticiaristas, fico acompanhando uma arenga do censor, muito altivo e cheio daquele pique de quem começa trabalho novo, ao diretor comercial da emissora, Albérico Fernandes, que exerce também as funções de conselheiro informal dos profissionais, jornalistas e produtores e realizadores de programas da casa ou independentes, sobre esses assuntos, ou seja, é o censor interno informal. Noto que, contra o que é hábito, desde o início da emissão, à meia-noite, o programa Limite, cujos produtores e realizadores, entre os quais Leite Vasconcelos – também da equipa de noticiaristas – e Carlos Albuquerque, oriundos de Moçambique, são muito criticados pelos poucos radialistas do contra por se terem prestado a substituir um programa proibido e pelo conteúdo anódino das suas emissões, que vão ao ar há pouco mais de dois anos, está tocando apenas faixas da chamada ‘nova música portuguesa’, por sinal da melhor, e quando lá para a meia-noite e quinze entra o tema da Gare d’Austerlitz de José Mário Branco, o censor, qual João Metralha, está disparando uma saraivada de balas sobre os princípios que irão nortear o seu trabalho e o método a adotar, face a um – só a modos de dizer – interlocutor impossibilitado de emitir sequer um balbucio, estático, de braços cruzados, até que entram os passos no saibro do pátio do Château de Herrouville, na França, incluídos pelo mesmo José Mário Branco no início da versão de José Afonso de Grândola, Vila Morena.

- Isto, aqui, por exemplo; há que saber o que querem dizer com isto...

Ainda está ele esboçando um sorriso entre o embaraçado e o cúmplice quando Leite Vasconcelos me deixa atônito ao se pôr a declamar num estilo de jogos florais ou tom de tertúlia das antigas bem diferente do que lhe é habitual, que é o mais coloquial possível, a primeira quadra da canção tradicional alentejana.

Último noticiário dado trato de ir para casa pra me pôr no quentinho porque a véspera foi de farra. Quatro horas depois sou acordado por Jimi:

- Joaquim Furtado está dizendo no rádio que está havendo um golpe de Estado.

Mal saído do sono, nem penso em 17 de março.

- Mas que golpe e golpe, eu quero é dormir.

- É verdade. Ora escuta.

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas...

Nem penso no tom afetado com que o Leite disse a quadra de Grândola – e porque houvera de fazê-lo? Ligo e religo para o RCP para saber o que se passa. Todos os telefones ocupados, e o amigo insiste:

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Informamos que está em curso... Pedimos à população que se mantenha em suas casas... – entre uma marcha militar e Grândola.

     Tomo banho, mal engulo o café da manhã e corro para pegar um táxi para a rádio. No caminho, movimento menor que o habitual mas ainda assim muita gente na rua. Não se se diria que há algo de anormal. Mas a Rotunda do Marquês está quase deserta. Só se vê um carro blindado do exército em marcha lenta.

 

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trechos do capítulo Era Uma Vez A Revolução

 

                

       

       Acontecimentos imprevistos, inéditos, cada golpe é um golpe, e normalmente os putschen militares acontecem para impor, não derrubar ditaduras. Gestos inéditos desde a mãe de todas as revoluções, 1789, 1830, 1848, o daguerreótipo, o cinema, o automóvel, a rádio, a TV, a Bomba H, o Sputnik, a máquina de escrever Underwood, o barbeador elétrico, a guitarra elétrica, os sit-in contra o Establishment e a guerra do Vietnam, 1968. Gestos inéditos. Que se comete ou se vê em primeira mão absoluta. As calças e camisas justas ao corpo, floridas. Gravatas-babadores de nós enormes, floridas ou com padrões psicodélicos multicoloridos. Calças de boca-de-sino, a retomar uma tradição de marinheiros e fadistas. Os três acordes básicos dos blues amplificados e sustentados por baixo e bateria. O pedal wah-wah. Os sons de Hendrix. Sons de comoção, em que todo o corpo é tomado de um frêmito como de um choque de prazer, um orgasmo bem conseguido ou dar a primeira tragada num baseado de haxixe fresco ou sentir o ácido subindo devagarzinho e apossar-se do cérebro, todo ele, cosmos interno, conhecido ou indesvendável. Só desvelado talvez através de uma meditação de ioga. Pássaros de Fogo, Sagrações da Primavera, gimnopedias astrais.

 

       Não é o meu primeiro golpe. 1o de abril, dia da mentira, dizem os milicos que agiam com boas intenções, acabar com a baderna do governo João Goulart, com raízes mais  profundas, mas segundo alguns porque, pressionado por todos os flancos, o presidente não era firme nos propósitos e não tinha pulso forte, um indeciso... Ou pela equação mais simples: para Washington, tempo de “pôr ordem” no quintal latino-americano. Tinha eu dez anos, recomendação de que a população não saísse de casa também teve, não houve aulas, fiquei vendo na TV na hora dos desenhos animados parte dos acontecimentos ao vivo porque os estúdios de uma emissora ficavam quase na frente do Forte de Copacabana, onde estavam as tropas cujo comando se mantinha leal ao governo constitucional, para mim nada daquilo tinha grande significado, mas de qualquer modo o clima era outro, da agitação quase permanente do governo que se diria de centro-esquerda, compelido a implementar um programa de ‘reformas de base’, para uma outra fase, que o clima no ar e as caras velhas dos altos oficiais sublevados já faziam pressentir opressora.

            Aqui não. Os sinais são de sentido oposto. Os comandantes operacionais, como Salgueiro Maia no Carmo, são jovens, e tudo neles leva a sentir serem gente como nós, decidida a pôr fim à opressão. Seja como for, orientados por quem? Sob que orientação? As pessoas nas ruas temerariamente a acompanhar lado a lado com os soldados a evolução dos acontecimentos, a vibrar pelo sucesso da insurreição e já a festejar a queda do regime que as manteve enjauladas toda a vida.

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     Lembro-me de repente da ameaça de extradição de que não soube até 25 de abril. Não será o caso de voltar agora. Se estava preparando a expulsão a Pide poderá muito bem ter trocado figurinhas sobre isso com o compadre brasileiro, o Dops. Nem pensar!

     - Até que é tentador! – soletra Jimi, que pela expressão facial viajadona dá a entender ainda estar sob efeito do ácido, ou ao menos de um speed muito forte.

     - Tentador é o caralho, bicho. Do que é que você precisa? Se tá afim de ir, entra no avião e que se foda!

- Eu não vou – digo veemente, já numa tentativa de demover Jimi da ideia maluca e de me deixar ainda mais órfão. – Quero muito voltar, ultimamente penso nisso quase sempre, mas não é a hora. Há também o problema da minha extradição, vai ver o Dops já tem a minha ficha corrida de atividades aqui em Portugal antes e depois do reviralho. Há também a crise econômica – e depois, o que é que eu vou fazer lá? Solemar morreu e, vai-se a ver, até já me esqueceram no Rio – e ir pra São Paulo, fazer o quê?

- Qualquer coisa, bicho. Você pode fazer qualquer coisa. Meio mundo me conhece lá, bicho, você pode trabalhar na indústria de discos, como produtor, sei lá, eu te apresento ao pessoal. O que é que eu vou fazer também? Recomeçar, como sempre, no teatro... Mesmo quando se tem uma carreira normal, sem interrupções, acaba uma peça, sai-se de cena, e ou se tem um projeto em vista com bases de produção, ou... – e abre os braços.

- Tá. Mas preciso fazer muita coisa ainda antes de ir. Talvez nem aqui em Portugal mas em outro lugar da Europa ou do mundo, sei lá... Ainda não estou preparado para voltar. Não é a hora. Quem sabe a hora é aqui, agora.

- A hora é lá também. Tenho a certeza. O Geisel já tá falando em abertura política, porque com a crise do petróleo a farsa do milagre econômico através de crédito a rodos tornou-se insustentável. Como os homens não podem mais se apoiar no mito do milagre não vão ter como aguentar a barra, mais cedo ou mais tarde vão ter de apear do poder, não tem outro jeito. E o Brasil, com o potencial que tem de riquezas e de gente vai arrebentar, vocês vão ver. Aqui é como aquela imagem do Quarup, do Callado, quando Francisca escreve para Nando dizendo que a Europa é uma pintura velha prestes a rachar. Tudo bem. Agora abrem-se novas perspectivas em Portugal talvez para algo novo, diferente... Diferente será sem dúvida, mas não é nem provável que se instaure uma, digamos, ditadura do proletariado, porque os americanos não vão deixar. Vai acontecer o quê, então? Ninguém pode dizer nada mas na melhor das hipóteses talvez isso acabe numa democracia burguesa à imagem e semelhança dos outros países ocidentais. A alternativa também, ditadura stalinista do bloco de leste, é foda, né? O Brasil vai pelo mesmo caminho, mas o potencial de riqueza e criatividade é muito maior. Não posso falar por você, mas eu também aqui, como é natural, não tenho o que fazer. A minha é lá.

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trecho do capítulo Droga Loucura e Vagabundagem

 

        Da droga ‘doce’, se não ‘inocente’ no mínimo menos danosa para corpo e mente que outras ‘lícitas’, à marginalização a todos os níveis – e até a eliminação física - por um regime escroto de quem se lhe opõe, noção de clandestinidade por coisa alguma e daí um passo para, invertendo a equação cínica, considerar tudo legítimo. Até certo ponto, claro, porque como diz o outro só se Deus não existisse é que tudo seria permitido...

Nem droga. As próprias ditaduras nos ensinam que estar na clandestinidade, do outro lado, mesmo que porventura errado, não significa necessariamente estar-se com o mal, do lado nefasto. O hábito da resistência antifascista ‘empurrou-me’ para a margem e inexoravelmente lá me deixou – sem medo do escuro e do abismo de experiências ‘ilegais’ e transcendentais. A ilegalidade oficial da ditadura e da corrupção político-governamental, como nos ensinam os enciclopedistas dos anos 60, faz com que qualquer coisa aparentada ao ‘sistema’ - supermercado, companhia telefônica, posto de gasolina – pareça campo de caça legítimo, embora nas relações pessoais nos conservemos perfeitamente honestos. Ou como disse Anaïs Nin, ao situar a questão em outro ponto:

Apesar de serem considerados ladrões e serem humilhados a ponto de terem de recorrer à pedinchice, o orgulho dos ciganos não é corroído. Permanece forte e refinado, como se para eles a nossa moral é que não fosse admissível, como se guiados por outros valores, e não se sentissem envergonhados pelas suas atividades.

  

         

 

 

      

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