DE WOODSTOCK AO McROCK

   ciberzine & narrativas de james anhanguera 

 

Tudo começou no Golden Gate Park, em São Francisco, Califórnia, em 1967. Ou então uns três anos antes, quando o rock'n'roll tornara-se grande demais para salões de baile ou de concerto e os Beatles, o primeiro fenômeno inglês, tornam-se o maior fenômeno de sempre lotando estádios e arenas americanos, do Shea Stadium de Nova York ao Hollywood Bowl de Los Angeles. Os ecos do rock se propagavam também ao ar livre.

Até sua primeira digressão aos States vez ou outra os quatro cavaleiros do após-calipso, à boa e velha maneira dos grupinhos de baile do pós-guerra, ainda o praticavam em trechos que por esse e outros motivos permaneceram menos famosos, como P.S. I Love You. Na segunda digressão, em 1964, segundo uma lenda, Bob Dylan os fez provar pela primeira vez a então doce e perfumada marijuana. Em pouco tempo o bardo de Duluth - segundo Paul McCartney a maior influência dos Beatles depois de Elvis Presley - eletrificava suas baladas de menestrel da nova era e o rock and roll deixou de ser só balanço de ancas para também fazer as cabeças - e os neurônios -  balançar.

Perde-se o and roll e nasce o rock, que pelo carisma, os estilos e as mensagens revolucionárias faria muito mais gente pular a cerca, no sentido literal (as que delimitavam os parques e sites dos festivais) e figurado.

A urbanização acelerada pela energia elétrica e o advento dos meios de comunicação de massa e de reprodução mecânica e eletrônica, do Tin Pan Alley à TV, parecem relegar às calendas as figuras do menestrel ou bardo que absorvia pelas estradas e nas ruas e transmitia em feiras e cortes o espírito dos tempos e os ventos da mudança. Leadbelly, Woody Guthrie e Pete Seeger, nos Estados Unidos da Era Atômica, eram anacrônicos.

Dylan os insere na contemporaneidade. O rock deixa de dar só ares de rebeldia; passa a conter também o Verbo do descontentamento ou de desgosto, do protesto e da rebelião. 

Em 1965 Dylan eletrifica o folk e os Beatles madrigalizam / folclorizam o iê-iê-iê. Os novos menestréis que não se integram de imediato ou não se integram nunca no show business são os nômades, ambulantes, mezzo circenses mezzo mambembes da contemporaneidade e sua música engajada (de engagée no original em francês) em um novo espírito e uma nova atitude em relação à vida e ao mundo herdado dos pais faz deles os arautos dA Sociedade Alternativa. Novas mensagens, novas atitudes.


Nada é sagrado, a não ser a integridade de nossa própria mente  - Ralph Waldo Emerson (1803-1882) - Ensaios  Primeira Série.   Os jovens parecem retomar literalmente a lição do fundador do transcendentalismo junto com Henry David Thoreau, tido como o bisavö dos hippies. Inspirado nas vibrações do festival, Abbie Hoffman - que a par do ativismo político como um dos líderes do Yippie, foi um publicista hiperativo - deu-se ao trabalho de escrever seu auto de fé no manifesto The Woodstock Nation às vésperas do julgamento do processo contra os 7 de Chicago:

(...) quero ser julgado não por apoiar a Frente de Libertação Nacional (do Vietnã) - como aconteceu de fato - mas por ter os cabelos compridos. Não por apoiar o Movimento de Libertação negro mas por fumar entorpecentes. Não por ser contra o sistema capitalista mas porque penso que a propriedade é uma pulhice. Não por acreditar no Poder Estudantil mas porque se devia fazer explodir as escolas. Não por ser contra o liberalismo corporativo mas porque penso que as pessoas deveriam fazer tudo o que lhes dá na veneta e não porque tento organizar a classe operária mas porque acho que os guris deviam matar os pais. No fundo deveria ser julgado por só fazer o que estou a fim e não ser sério. Não me encolerizo contra a guerra do Vietnã, o racismo ou o imperialismo. Evidentemente que sou contra tudo o que cheire a porcaria mas o que me chateia VERDADEIRAMENTE é que companheiros meus estejam na prisão por causa da droga e que a polícia me detenha na rua por ter os cabelos compridos. É um fato que conspirei, que sou culpado. Culpado de ter criado uma terra livre onde se pode fazer o que se quiser. Culpado de ter querido estender a NAÇÃO DE WOODSTOCK à terra inteira. Culpado de ter tentado estourar com este sacana governo senil dos Estados Unidos.                         

Tudo começou em 16 de outubro de 1966,  dia em que a Califórnia passa a ser o primeiro estado norte-americano em que o consumo de LSD é proibido e a população de São Francisco da Califórnia foi convocada para o primeiro gathering de tribos no Parque de Golden Gate para um protesto pacífico contra a nova lei.  O local passou a ser chamado de Parque do Povo e, além de gatherings e happenings, foi também palco de algumas batalhas entre jovens e a polícia.

ou como revoluciomnibus expõe em 40 anos de  Flower Power A doce rebelião dos jovens no verão do amor uma condensação do apêndice Rumo às ilhas da Utopia – Da Teoria à Prática ou Vice-Versa de  

o primeiro levantamento global profundo e alargado em língua portuguesa do movimento de juventude dos anos 60 depois da pioneira e tão ou mais global profunda e alargada obra de quase 40 anos de Luís Carlos Maciel.

 

Janeiro de 1967. O jornal ‘alternativo’ The Oracle convoca os jovens de São Francisco da Califórnia para um Human Be-In (‘estar na onda’ humana) no parque de Golden Gate e vinte mil pessoas acorrem ao primeiro de uma série de grandes Gathering of Tribes (congregações de tribos), onde se apresentam bandas da corrente tipicamente californiana do psychedelic ou acid rock - os já notórios Jefferson Airplane e Grateful Dead ou novatos como Big Brother and the Holding Company.

Travestidos com batas indianas o poeta beat Allen Ginsberg e o psicólogo Timothy Leary, guru do psicodelismo, lêem poesia e trechos do Livro Tibetano dos Mortos e entoam mantras.

É o segundo de uma série de eventos que irão dar a idéia de que São Francisco vive um Verão do Amor, quando numa localidade próxima, Monterey, acontece o primeiro grande festival de rock. Ali se revelam dois bambas do psychedelic rock, Janis Joplin, a vocalista da banda Big Brother and the Holding Company, e Jimi Hendrix, um Niccolò Paganini da guitarra elétrica e criador de estilos próprios.

Rock psicodélico ou ácido, reuniões de tribos – o Verão do Amor é marco histórico de um enorme movimento de contestação juvenil que lança uma onda que se espalhará por quase todo o mundo ocidental e que deixou traços profundos nas idéias e no estilo de vida contemporâneos.

Era do Aquário, Nova Era ou ponto de partida da restauração da sociedade de parceria entre os dois sexos num revivalismo arcaico tecnotribal: o poder da flor e a também chamada revolução psicodélica parecem ter vindo para ficar. É o que se v&ecir50 anos depois do tão decantado como denegrido Verão do Amor, com todo um legado de princípios (os da ecologia acima de tudo?) a contrapor-se aos ditames dos cavaleiros do apocalipse iminente, os condottieri da sociedade judaico-cristã androcrática (regida pelos homens ou por mulheres muito viris).

A utopia ainda é possível, clamam os arautos da sempre nova onda contra o pessimismo (ou realismo?) dos que não vêem alternativa ao sistema e a nossos regimes de desgoverno às vésperas da hecatombe inevitável prevista pelo cientista inglês James Lovelock, formulador da hipótese de Gaia, para antes do final deste século.

 

A revolução das flores foi a maior rebelião da juventude da história. Um acontecimento único, de que ainda se tem e se irá talvez ter ecos crescentes através dos tempos.

A Terra vive em ebulição. Em fase de grande prosperidade econômica mas em que os chamados valores tradicionais, que pareciam de pedra e cal, são cada vez mais contestados, com muitos conflitos regionais (mas de âmbito planetário) na África e na Ásia e sob a constante ameaça da hecatombe nuclear.

O mundo é então surpreendido por imagens de jovens com cabelos muito longos e desgrenhados, roupas em estilo, cores e formas estrambólicas,  passeando de mãos dadas ou se beijando sobre um tapete de grama em São Francisco. O rádio transmite a cada instante o que seria um excelente jingle de promoção turística da cidade, a canção San Francisco: se você está indo para São Francisco não se esqueça de pôr algumas flores no cabelo...

 

O repórter Hunter Thompson resumia a quente e ao vivo o que se passava no que foi um dos destaques do noticiário no verão de 1967:

A ‘revolução moral’ entre os jovens deslocou-se nos últimos dois anos da Universidade de Berkeley, através da baía de São Francisco, para o bairro de Haight-Ashbury, a capital do que está rapidamente se transformando numa cultura das drogas. Seus novos habitantes são chamados hippies. Metade deles são remanescentes da chamada Geração Beat. A outra metade da população hippy tem 20 anos de idade.

Desprezam a breguice, querem ser abertos, honestos, carinhosos e livres. Rejeitam a presunção plastificada da América do século 20 e tudo o que possa ser ‘negativo’, como a política, que para eles é ‘apenas mais um jogo’ do sistema.  A qualquer hora do dia ou da noite um cara cabeludo de óculos escuros toca este ou aquele gênero de música com uma capa de Drácula, uma bata budista ou uma roupa indígena. Na percussão estará um louro com chapéu de caubói e um blusão de Búfalo Bill e ao seu lado uma garota dançando ao ritmo da música. Em volta haverá todo o gênero de doidos balançando e balbuciando ao som da música. Usam marijuana e LSD. Uma pílula de ácido custa cinco dólares, o suficiente para se ouvir a Sinfônica Universal com Deus no canto e o Espírito Santo na bateria. Consideram-se ‘uma coisa completamente nova no mundo, bicho’, mas os velhos beatniks, muitos deles faturando alto com a nova onda, prevêem que tudo o que hoje é espontâneo e verdadeiro em Haight-Ashbury irá em breve ser engolido pela publicidade e pelo comercialismo.

O mesmo jornalista faria um balanço distanciado no tempo do que viu e viveu naqueles anos:

São Francisco em meados dos anos sessenta era lugar e tempo muito especial para se viver. Talvez tenha tido algum sentido. Talvez não, a longo andar. Mas nenhuma teoria, mistura de palavras, música ou memórias chega aos pés da sensação de que se estava lá e bem vivo naquele canto do tempo e do mundo. Não importa o que significasse. Havia a fantástica sensação de que tudo o que se fizesse era certo, de que a gente estava vencendo... E essa, penso, foi a alavanca – a sensação da vitória inexorável sobre as forças do Velho e do Mal. Não por meios vis ou num sentido militar; a gente não precisava disso. Nossa energia iria prevalecer por si só. Não fazia sentido algum lutar – do nosso lado ou do deles. Tínhamos todo o ímpeto; estávamos surfando na crista de uma alta e bela onda...

 

Meio século depois não há dúvida de que, como previram os velhos beatniks - tidos como os pais dos hippies – a revolução’ dos anos 60 foi engolida pela publicidade e pelo comercialismo.  Mas com o revival da última década e meia, após um longo período de quase total esquecimento, não só os ícones da estética pop’ mas a própria ética contracultural psicodélica estão por toda parte. Dos anúncios para jovens, papéis de parede de computadores e das Barbies aos cabelos e roupas das mocinhas nas raves e em luaus e ao World Wildlife Fund (de que Paul McCartney foi um dos primeiros apoiantes, em 1971) e Greenpeace.

Mas o próprio Hunter Thompson escreveria antes de pôr fim à vida em 2005:

     Os EUA estão se esfrangalhando rapidamente. Deu-lhe finalmente o amok a esta em tempos orgulhosa nação de desordeiros e meretrizes e do American Way que está efetivamente Fora de controle e não irá se recuperar. A pilhagem, a batota, o roubo e o fracasso tiraram o país dos eixos, do seu orgulho, do seu sucesso e da sua segurança. Os fundos do Tesouro acabaram-se e o mercado de ações nunca irá se recuperar, as nossas tropas no Iraque nunca mais voltarão. Você nunca mais vai arranjar emprego. Os seus filhos irão beber água suja até o fim da vida. Você irá perder sua casa e toda a sua poupança. Nunca irá conseguir se aposentar e até mesmo deixar de trabalhar, e será um servo, mais um serviçal de uma dessas enormes e anônimas e eternamente beligerantes corporações globais que irão governar o mundo por motivos e lucros próprios.

Há 40 anos, guerra no Vietnam. Hoje, guerra no Iraque. O quadro pintado por Thompson da Sede do Império antes de se suicidar é praticamente o mesmo no resto do mundo por ele dominado. Enquanto isso a opinião pública e seus mentores se dividem em renhida polêmica sobre os efeitos na vida contemporânea e para o futuro da ‘radiosa utopiados anos 1960. Para uns, etapa indispensável da evolução do homem. Para outros uma das causas dos seus males atuais, que serviu apenas para provar que a utopia é a antecâmara do totalitarismo e neo-comunitarismos e drogas psicodélicas estão entre os mais nefastos processos de alienação ou lavagem cerebral.

 

Na estação das flores californiana uma das faixas mais tocadas nas estações de rádio de FM, que formam uma rede de transmissão de música alternativa como alternativa é a cultura disseminada pelos jornais alternativos para as comunidades alternativas, como o Oracle, é Love Me Two Times, de uma banda chamada The Doors. Quem nunca até à data ouvira falar de Aldous Huxley passou a conhecê-lo de nome e a procurar conhecer sua obra, porque o líder da banda diz que tirou o nome do título do seu polêmico ensaio sobre mescalina, As Portas da Percepção. Jim Morrison era estudante de cinema da Universidade da Califórnia em Los Angeles quando ouviu falar em testes gratuitos de drogas alucinógenas recém-descobertas feitos em institutos de pesquisa públicos e privados e órgãos do governo norte-americano, empenhados em usá-las como a ‘droga da verdade na luta contra o comunismo.

O rock é a máxima expressão da era eletrônica e do psicodelismo e torna-se a própria razão de ser da indústria multinacional de discos. Bandas e respectivas equipes técnicas são versões modernas das antigas trupes de saltimbancos e protótipos das comunidades alternativas que já proliferavam também na Europa.

Os trovadores contemporâneos cujas vozes e guitarras chegam a todos os continentes através dos meios de comunicação de massa reencarnam o estilo e o espírito idealista dos ‘buscadores de trovasprovençais da Idade Média. Mas vistas à distância no tempo a atitude e a divisão do trabalho nessas micro-comunas e entre os membros da galáxia refletiam ao mesmo tempo as suas ‘revolucionáriasbases de relacionamento, fundadas na criatividade individual e coletiva, na fraternidade e na solidariedade (ou espírito de parceria), e um perfeito enquadramento ao espírito da ‘terceira ondacapitalista tecnocrática. E o pioneiro festival de Monterey – idealizado por John Phillips, membro dos Mamas and Papas e autor de San Francisco (Be Sure To Wear Some Flowers in Your Hair) -, é exemplo paradigmático disso.

                      

                                Monterey Pop                           ficha de produção  

 Ao lado de John Phillips na direção do festival estava o amigo e produtor Lou Adler.  O ‘escritório internacional era dirigido por Andrew Oldham, que lançou os Rolling Stones. No comitê de imprensa, Derek Taylor, futuro chefe do mesmo departamento da Apple, dos Beatles. O conselho diretivo da organização incluía nomes que dispensavam apresentação, como Donovan, Mick Jagger, Paul McCartney (que sugeriu a contratação do novato Hendrix), Roger McGuinn, líder do The Byrds, Paul Simon e Brian Wilson, dos Beach Boys, que cancelaram sua apresentação e foram substituídos à última hora por uma das maiores revelações do festival, Otis Redding. O staff organizativo incluía uma equipe de filmagem dirigida por D.A. Pennebaker, o já notório diretor do documentário Don’t Look Back, com Bob Dylan, que ali rodou Monterey Pop. Roger McGuinn chegou a destacar o eficiente esquema de segurança montado pelo chefe da polícia de Monterey como uma das razões do enorme sucesso artístico e técnico do festival.  

 

     acesse a íntegra de

 40 anos de  Flower Power

A doce rebelião dos jovens no verão do amor

     uma condensação do apêndice

Rumo às ilhas da Utopia – Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

           de       a  partir   DAQUI

                                        

                                 WOODSTOCK 

Feira de Arte e Música  Music & Art Fair

      AN AQUARIAN EXPOSITION
     15, 16 e 17 de Agosto
        Three days of peace and music
Bethel, Nova York, a 130 km
da capital do estado , verdejante prado de 250 hectares da propriedade do sr. Max Yasgur
. Deveria acontecer em Saugerties, a um quilômetro de Woodstock,  uma centena de Nova York e a oitenta de Bethel

John Roberts, Michael Lang, Joel Rosenman, ... - um punhado de gente participou da organização do que já foi definido como o ápice e a lápide da guerrilha cultural gerada pelo movimento de juventude dos anos 1960.

Apenas dois anos mas, em vista de tanta coisa galvanizante que entretanto se passara, uma eternidade depois do Monterey Pop  Woodstock já não foi só fruto da dinâmica do trabalho de um dos jovens trovadores da modernidade revelados pela onda de revolta estudantil e de juventude gerada pelo movimento negro pela igualdade de direitos civis e pela paranóia da guerra (e pela permanente ameaça de um apocalipse nuclear) no mais longo período de prosperidade econômica da história moderna da civilização ocidental. A quarenta anos de distância é mais fácil perceber que a idéia da organização do festival junta a vontade de aplicar uma boa soma de dinheiro herdada por um jovem numa manifestação artística revolucionária nascida de espírito e atitude inovadores  com a exploração de um tipo de atividade empresarial que já fazia escola... e se sobrar um trocado compro o I Ching.  Era mais ou menos esse o espírito da coisa ainda em 1969. Mas os tempos também começavam a mudar drasticamente.  E atividades de garagem em passatempos de adolescência transformaram-se rapidamente em negócios chorudos para uma pá de gente. E as dimensões gigantescas que o projeto passou a ter ainda na fase de pré-produção fez com que a ele se agregassem autênticos profissionais desse novo e muito promissor ramo da poderosa indústria musical americana.

Os festivais de rock ao ar livre, associáveis aos congraçamentos da época das colheitas que marcam a história de todas as sociedades humanas sedentárias, não eram uma novidade absoluta. Sua gênese remonta ao festival de jazz de Newport, realizado desde 1954 no estado de Nova York e palco anual de incontáveis eventos musicais históricos. Também na Europa já nos anos 1950 a tradição de concertos de verão de música dita erudita foi adotada pelos cultores de jazz em festivais como o de Nice. Pioneiro em muita coisa, Newport foi o primeiro a apresentar música folk e rock e um mês antes de Woodstock Jimi Hendrix, Joe Cocker,  Ike and Tina Turner, Creedence Clearwater Revival e Steppenwolf cantaram e tocaram para uma multidão de 150 mil pessoas. Foi a última vez que George Wein, o produtor de Newport, se envolveu com rock, porque onde quer que jovens se reunissem era também para protestar contra a guerra. Aquela edição do festival ficou na história como cenário dos primeiros incidentes de violência em larga escala nesse tipo de evento. Denver Pop, realizado em junho de 1969 para um público de 50 mil pessoas atraídas por nomes como Frank Zappa and the Mothers of Invention e Three Dog Night (que acabara de estourar com a faixa Mama Told Me Not To Come), entre outras atrações, também teve confrontos violentos entre ativistas estudantis contra a guerra do Vietnã e a polícia, que usou gás lacrimogêneo.  Atlanta Pop, outro festival realizado naquele verão, teve um público estimado em 140 mil jovens.

Realizado nos dias 15, 16 e 17 de agosto, Woodstock anunciava 30 entre algumas das maiores atrações e novidades da hora do já então chamado progressive rock em diferentes feições: do pós-acid-rock de Jefferson Airplane, Janis Joplin ou Jimi Hendrix a Blood, Sweat and Tears, um dos prenunciadores do jazz-rock, ao rock-chicano de Santana e ao chamado soft rock de Crosby, Stllls and Nash e Joni Mitchell.  As atrações seriam por si só motivo de sobra para Woodstock superar as expectativas dos organizadores ainda na fase de produção, quando do próprio site onde deveria se realizar - nas imediações da cidadezinha de Sautergies, a dois passos do basement de Bob Dylan - só já tinha ficado o nome. Bastaria pensar que Wight '69, realizado por aqueles mesmos dias numa ilhota no sul da Inglaterra, foi o fenômeno que foi apenas por causa do retorno de Bob Dylan à cena após três anos de reclusão.

Locação é também importante nesses contextos - e Woodstock é o primeiro evento do gênero programado numa pradaria na região de Nova York. A localização, a uma centena de quilômetros de Manhattan, não é de modo algum um elemento desprezível. A Califórnia é apenas a capital do showbizz e da agroindústria; Nova York, capital do mundo, sede das principais cadeias de TV e dos mais influentes jornais e revistas do planeta. Na semana do festival Time dizia que os hippies eram "a maior minoria da história da humanidade". Parece que ainda por cima a célula-mãe americana decidiu reunir-se toda ali. O engarrafamento monstro formado naqueles dias nas estradas ao redor da quinta de Max Yasgur foi coberto ao vivo e transmitido em rede via satélite para todo o país pelas majors de rádio e TV.  Isso também ajuda a explicar que o festival se tenha tornado um caso único na história.

A gana com que todo o pessoal cantou e tocou sob sol e chuva fortes, de manhã à noite, explica outro tanto, porque se a multidão também se manteve firme e alegre e suja contra sol e chuva e fome num território livre decretado pelas autoridades em estado de emergência foi pelas promessas de que assistiriam aos melhores concertos de suas vidas. Pode-se dizer que gente como David Crosby, oriundo do The Byrds, Stephen Stills e Neil Young, ex-Buffalo Springfield, Country Joe McDonald, que atuava com o panfletário Fish desde a fase em que, segundo Hunter Thompson, a baderna moveu-se de Berkeley, na área da baía de Frisco, para o centro de São Francisco, e Jefferson Airplane eram até que meio veteranos no lance. Mas o seu espírito de guerrilha - não só musical - seguia ainda firme e forte. Crosby, Stills e Young iniciavam fase nova, magnífica, em quarteto. Saídos dali, Grace Slick e Paul Kantner fundaram o Jefferson Starship e Jorma Kaukonen e sua sub-célula o Hot Tuna, que ainda fariam correr muita tinta. Esse pessoal estava no apogeu das suas carreiras. Isso pra não falar em Janis, Hendrix e Joe Cocker, que apenas seis meses antes viu suas viscerácidas versões de standards instantâneos estourarem como um lindo balão up, up and away ao redor do mundo. A Carlos Santana Band estava acabadinha de sair do forno com uma receita musical das mais apuradas feita num caldeirão em que misturaram salsa a jazz e rock e bolero (Samba Pa Ti) ou vice-versa. Note que esse pessoal era já parte do Sistema - e nem eles talvez o ignorassem - mas entusiastas e militantes como se tivessem acordado para a Aurora da Revolução ao descer do helicóptero, a que muitos tiveram de recorrer para não faltar ao compromisso. Joni Mitchell não: ficou presa no engarrafamento. Os amigos Crosby, Stills and... contaram-lhe o que viveram e sentiram. E ela saiu-se com Woodstock, a melhor crônica de um dos acontecimentos que mais fizeram rolar tinta no século XX. A milhares de quilômetros do site e dias passados sobre o extraordinário acontecimento. Tamanho afã também explica boa parte do fenômeno - até hoje, porque tudo foi gravado e filmado, só faltando saber o que ali ocorreu, entre os medalhões, com Blood, Sweat and Tears.

E é aí que entra o big business que a matilha ávida de encontrar defeito em tudo e sobretudo nessa coisa tão a despropósito como a viagem de multidões da "maior minoria" que o mundo já viu, florida, risonha e alegre apesar dos pesares, fazendo um furor tal no seu "regresso às origens" que obrigou a maioria a quedar-se silenciosa e embasbacada com tanto desplante - jovens nus e peludos como macacos - isso é que era regressão -, mal se apercebeu do engodo passou a condenar feito o capeta.  

Já havia quem pressentisse que no final das contas aquilo tudo era um regresso ao mesmo, como o nosso professor John Peel. Porque ao mesmo tempo em que revela uma Nação dentro de outra Woodstock logo põe a nu também suas fraquezas, a começar pelo fato de estar dentro de outra nação e neste planeta, entre multidões de outros terráqueos (esses sim verdadeiramente) alienados, e não a bordo de uma supernave espacial rumo à Lua para formar lá, sobre o solo pedregoso que Neil Amstrong e Edwin Aldrin tinham pisado exatos trës fins de semana antes, a sua Sociedade Alternativa. De tão grande, ali em Bethlen, na quinta do velho Yasgur, e na repercussão obtida, como tudo na vida ele contém o verso e o reverso. É o anúncio da New Dawn

it's a new dawn, diz em verdade a Slick numa tirada de duplo sentido antes do marido Kantner atacar a introdução de Volunteers - o hino de Woodstock do voluntariado pela paz e contra a guerra - que sem imagens só se entende pela poderosa metáfora produzida pelo acaso a partir do espírito geral da coisa, do palco para o público e vice-versa, todos volunteers of America contra a guerra

one generation got new
one generation got old
this generation got nothing to hold
We are Volunteers of America
Volunteers of America
-
ou para a paz e guerra sim, se preciso for ainda tear down the walls, derrubar mais muros

e do perigeu da Nação nos woodenships afundados no mar de lama em que as chuvaradas transformaram os verdes prados de Max Yasgur.

Os trovadores da modernidade são como Abbie Hoffman genuinamente sinceros. A força da versão de Jimi Hendrix do hino americano está justamente na sinceridade da sua desconstrução e reconstrução do cenário da guerra e pela explosiva (sem trocadilho) criatividade do artista, que parte da total abstração (a arte dos sons) para o que não poderia haver de mais concreto (o bombardeio aéreo), dispensando legendas. Woodenships de Crosby, Stills and Nash, outro hino da Nação de Woodstock, é puro lirismo, e vale até hoje por isso. Como o até hoje jovial e dócil discurso de John B. Sebastian (outro veterano de grandes sucessos com o Lovin' Spoonful) em I Had a Dream ou do Canned Heat em Going Up The Country.
Joan Baez, a mãe de todos, é como sempre redundante, rebarbativa até.  - Como esperam vocês acabar com a guerra se nem conseguem cantar alto esta canção? -  chega a bradar Country Joe McDonald a meio de I-Feel-Like-I'm-Fixin'-To-Die-Rag, crente de que, como o violão de Woody Guthrie, sua arma também matava fascistas tendo um refrão como projétil
and it's 1, 2, 3, 4
why are we fighting for
don't ask me I don't give a dam
'cause next stop is Vietnam

Mesmo Dance to the Music de Sly and the Family Stone galvaniza pelo tom militante, porque a nova cidade se faria também na negação da exploração pelo trabalho de linha de montagem e pela festa comunitária. Por esse ângulo I want to take you higher pode ser um manifesto tão "engajado" quanto The Times They Are a Changin'.

MAS Após algum tempo de sucesso você passa não só a defender o Sistema mas a ser o próprio Sistema, como diria anos depois o insuspeito Pete Townshend, que também por lá semeou suas centelhas de protesto elétrico.

                                                           

          DE WOODSTOCK AO McROCK

                       1910-20         1920-30          1930-40                1940-50-60
                                cinema             rádio                TV            indústria fonográfica

Com a cidade elétrica e os meios de comunicação de massa e de reprodução nasce a chamada música popular, que logo assume função preponderante na vida dos cidadãos. O rock, que brota da urgência dos jovens de falar de si, das coisas e do mundo, é o jornal diário, semanal, mensal, bimensal, trimestral, semestral, anual com notícias, crônicas e comentários sobre os mais diversos assuntos na ordem do dia do planeta e do universo dos mais variados pontos de vista ou prismas e Woodstock é apenas talvez a mais famosa expressão disso.

Desde os primeiros gathering of tribes e num meio em que jovens envolvidos com o trabalho de amigos músicos e cantores muito criativos tornam-se bons produtores e logo eficientíssimos empresários, como Bill Graham, os concertos e festivais tornam-se apenas mais um ramo do bom e velho show business. Os trovadores da terra da dama eletroacústica são ativistas (a)políticos que se envolvem com uma máquina que naturalmente produz e embala sua mensagem sintonizada com uma a cada dia mais vasta platéia de bom nível econômico e seu trabalho torna-se um grande produto comercial como qualquer outro. Nestes tempos pragmáticos e cínicos nada mais natural do que se pensar - e daí? Mas aquela é uma era de novas idéias e os mais extravagantes ideais, focos de uma rebelião diferente pipocam em quase todo o mundo ocidental e até além da Cortina de Ferro. A lenda nasceu e morreu ali em Bethel e quem não dormiu no sleeping bag nos prados de Max Yasgur nem sequer sonhou - mas seus ecos repercutem até hoje pelo talento de cronistas como Joni Mitchell e por terem reverberado por tudo quanto é estrada do mundo dito civilizado a partir do instante em que a gravadora Warner Brothers lança  o primeiro triplo LP da história (logo seguido de um duplo) e alguns meses depois a produtora e distribuidora de cinema Warner Brothers distribuiu o filme de Michael Waldeleigh montado por T. Shoonmaker e Martin Scorsese que ganhou o Oscar de melhor documentário de 1972. Woodstock, a celebração da juventude dourada de uma das épocas de apogeu do capitalismo mas muito rebelde, é em simultâneo também uma grande operação de marketing inteligentemente bolada pelos conselhos de administração da Warner Brothers Records e Warner Brothers Pictures logo que se apercebem do que poderão ter entre as mãos.

Vinte anos depois Michael Lang e Joel Rosenman alegam que gastaram US$ 3 milhões na organização do festival, tiveram US$ 1,6 milhão de receita e ficaram 15 anos correndo atrás do prejuízo. Logo se aperceberam, na fase de preparativos, que o festival planejado para 50 000 pessoas ia ser muito maior do que isso e trataram de se precaver contratando alguns dos melhores profissionais do ramo para assessorá-los. Com meio milhão de cabeludos nas porteiras de entrada não houve cerca que resistisse. As cercas vieram abaixo e o prado ficou às escancaras. O festival, cujos ingressos custavam 13 dólares, virou gratuito (free festival).

É claro que os membros dos boards of direction da Warner tinham ordens precisas para pechinchar ao máximo nas negociações dos direitos de gravação e filmagen do evento com os jovens empreendedores que viam uma pequena fortuna dissolver-se no que viria a se transformar num mar de lama e precisavam fazer um pouco de caixa a todo custo. E como Janis Joplin e Blood, Sweat and Tears, por exemplo, eram astros de primeira grandeza de uma major concorrente, a CBS, então dirigida por um dos magos do ramo, Clive Davis, não havia até o lançamento em 2009 do DVD Woodstock: 3 Days of Peace, Love and Music - The Director`s Edition (Warner Home Video) o menor registro da sua participação no festival de gala do prenúncio da Era de Aquário, que até 2008 e 9 e tempo afora é, não a da Sociedade Alternativa, mas a da apatia, do egoísmo e da gastança desenfreada de tudo quanto é recurso material e imaterial do planeta - inclusive a paciência dos ainda mais sãos de espírito. A ausëncia de Janis Joplin da versão original do filme (1970) é ainda dada como inexplicável mas questões de rivalidade para todos os efeitos sem importãncia tornavam-se brigas de vida ou morte nos tempos em que só as gravadoras ditavam as regras do mercado discográfico. E Janis 1969-1970 (oh Lord won`t you buy me a colour TV) ERA Janis. Santana também gravava para a CBS e outros para outras gravadoras, mas o chicano estava em plena rampa de lançamento e sua apresentação pode ter sido apenas mais um passo na campanha promocional do seu bombástico disco de estréia. E não há dúvida de que se a marca do Pernalonga entra na jogada é porque ela tinha tudo para ser um big business. 
 

Escrevia-se 20 e 25 anos depois:
Woodstock foi celebrado, e com razão, principalmente pela atitude que o caracterizou - um espírito de cooperação voluntária, tolerância e companheirismo. (Jon Pareles, The New York Times, que foi lá com um irmão mais velho quando tinha 15 anos)                                                                                

A nova geração celebrou na chuva, ao som de grupos de rock, sua vitória sobre a geração anterior. Um triunfo contra as invenções demoníacas dos caretas, o trabalho, o dinheiro e o serviço militar obrigatório.
No encontro de 1969, entre uma banda e outra, o apresentador dava informações sobre a qualidade do LSD vendido na área. Acabou a comida e a desorganização era tanta que ninguém se preocupou em recolher os ingressos. Entrou quem quis.
Woodstock foi ápice e lápide da era do protesto
Definitivamente descobriu-se, naquele exato momento, o outro poder dos jovens - sua força de mercado de consumo. Woodstock foi ápice e lápide da tática de guerrilha cultural.
Woodstock é visto como o evento que abriu os olhos de fabricantes e anunciantes para o potencial de consumo da geração dos anos 60, os baby boomers.
A Warner foi a que mais ganhou com o evento. O filme rendeu 80 milhões de dólares (mérito da poderosíssima Kinney Organization, que pegou os últimos suspiros do flower power e fez a custos baixíssimos um filme que rendeu aquela fortuna em royalties) e  ninguém sabe realmente quanto a gravadora lucrou com os dois pacotes de discos.
As gravadoras dobraram as vendas
[no início dos] anos 1970 e a onda pop-rock era responsável pela quase totalidade do seu faturamento, como se ela fosse quase a única razão de ser do próprio disco, para não falar da indústria.

E não havia nada demais nisso, se se pensasse em eventos do gênero, como hoje, apenas como mais um ramo do showbizz - and there's no business like SHOW business. Mas não era assim que se pensava até então - e tão logo acabava e já se gastava mais tinta e saliva com a questão da "recuperação", "assimilação" ou deglutição do rock - porta-voz do mundo novo - pelo Sistema do que com o resto.
Woodstock mudou a ordem de grandeza dos eventos de rock. Da noite para o dia o rock, que era underground, foi detectado como uma nova tendência da música e guindado ao gosto comum e ao consumo em muito mais larga escala. Os promotores passaram a pensar em concertos maiores, concertos que seriam chamados festival seating, em condições semelhantes às de Woodstock.
É claro que Woodstock é apenas o cúmulo de uma forte tendência de mercado: a enorme apetência de um a cada dia maior número de jovens por aquela forma de expressão então ainda cada vez mais galvanizante. Enfant-fleuris / flower children ou apenas jovens burgueses sem a mínima queda para a rebeldia nos padrões daquela estação, embora muitos tenham sido por ele revirados de ponta-cabeça.
O sucesso inchara os concertos e a grande turnê dos Rolling Stones em outubro e novembro de 1969 - primeira de uma série de megatours da banda que prossegue até o século XXI a dois mil anos-luz de casa - foi também reflexo disso.

                   

 


Woodstock mudou a ordem de grandeza dos eventos de rock. Da noite para o dia o rock, que era underground, foi detectado como uma nova tendência da música e guindado ao gosto comum e ao consumo em muito mais larga escala. Os promotores passaram a pensar em concertos maiores, concertos que seriam chamados festival seating, em condições semelhantes às de Woodstock.
Não foi nada disso. Festivais de rock ao ar livre eram já em 1969 um avassalador item mercadológico não só nos Estados Unidos. Na Inglaterra, todo o potencial de mercado do gênero para todos os efeitos revolucionário foi também revelado uma semana depois em Wight. Wight, de novo, e Bath foram os maiores de uma série de eventos do gênero realizados no verão seguinte de norte a sul da ilha. Reading decolou em 1970 revelando Wishbone Ash, entre outros portentos, para se manter firme e forte até o século XXI. O sul da França foi outro cenário de muito bons festivais, como o de Arles e Orange. Nos  EUA como na Inglaterra, enquanto aquela geração não cresceu e teve filhos, cada qual pretendia vir a ser maior ou melhor que o outro, e o pico do fenômeno deu-se no verão de 1973 no autódromo de Watkins Glenn, num festival que reuniu mais de meio milhão de pessoas.

                   
Os organizadores do festival de Wight de 1969 tiveram de desembolsar 84 mil dólares (Que valor teria esse bolo hoje?) para conseguir tirar Bob Dylan de uma reclusão de três anos alegadamente em virtude de um acidente de motocicleta (alvo de toda a sorte de conjecturas, como cada verso ou passo do bardo), de que só saía para algumas gravações, pois por lá mesmo, no basement, fazia a festa com The Band.
Dylan teria sido o maior responsável pela reunião no local de 250 mil loucos, ávidos pelo fulgor do seu folk rock eletroacústico, a quem decepcionou concedendo uma hora de show acústico.
A segunda edição do festival, realizada no final de agosto de 1970, com 400 mil assistentes em cinco dias de desfile de todo o tipo de gente e estilos, inclusive os brasileiros A Bolha (desde então The Bubbles), Caetano Veloso e Gilberto Gil, teve como principais atrações Jimi Hendrix, Joan Baez, Leonard Cohen, Ten Years After e Miles Davis,  ensaiando as primeiras arremetidas do jazz-rock. E muita baderna também. Um grupo de anarquistas franceses postados num morro comandou a derrubada das cercas e Wight '70 logo passou a ser mais um free festival, donde tamanha audiência. Festivais em espaços delimitados por cercas, como os de Wight e Bath, eram palcos de grandes shows mas também de um clima de tensão permanente entre a assistência e seguranças - então, não raro virulentos motoqueiros Hell's Angels. A invasão do site de Wight '70 "pelos anarquistas franceses" deu muito mais que falar na mídia que os espetáculos em si, que de resto pouco interessavam à grande imprensa, não fosse por isso ou por cenas de consumo de drogas ou de nudez em seu redor.

Woodstock Barra 69 é então a cara e a coroa de um fenômeno de duas facetas como ainda naquele ano Altamont, em Livermore, Califórnia, iria revelar addirittura o lado satânico do rock, segundo as crônicas da época.

Mas já uma semana antes de Woodstock Charles Manson assassinou seis pessoas num "ritual de violência hippie", entre elas a promissora atriz Sharon Tate, grávida de Roman Polanski, o cineasta polonês autor dos sinistros e belos A Faca na Água, Cul de Sac (O Beco), O Inquilino e Rosemary's Baby, este rodado no Dakota Building onde pouco mais de uma década depois John Lennon e Yoko Ono moravam quando o ex-beatle foi baleado por Mark Chapman COM UM EXEMPLAR de Um Apanhador no Campo de Centeio (Catcher on the Rye), de J.D. Salinger. Manson-Polanski-o-sádico-Sharon-Tate.  Foi por acaso? Não foi por acaso? Pouco ou nada se falou nisso. O que de resto pouco importa. Entre os sons ao redor de 1969 - que Serge Gainsbourg cognominou de année érotique - predominaram os do duplo álbum The Beatles e a carnificina teria sido perpetrada ao som de Helter Skelter, imagine-se, um dos primeiros hard rocks ou horror rocks da história.
Registrou Luís Carlos Maciel em crônica em cima da hora reproduzida em sua coletânea Nova Consciência - Jornalismo Contracultural que Altamont, em Livermore, dá-se
Quatro meses depois de Woodstock, dia 8 de dezembro de 1969. Para comemorar uma bem sucedida excursão pelos Estados Unidos que lhes rendeu mais de um milhão de dólares os Rolling Stones resolveram oferecer um concerto de graça aos fãs da Califórnia, contrataram alguns grupos famosos (Santana, que acabara de estourar, além dos já medalhões do som californiano Grateful Dead e Jefferson Airplane) e deram aos Hell's Angels um caminhão cheio de cerveja como pagamento pelos seus serviços de segurança. Compareceram cerca de trezentas mil pessoas - e o desastre foi total. Bebidas alcoólicas e bolinhas de anfetamina tiveram amplo consumo, ao contrário de Woodstock, onde essencialmente só ácido e maconha teriam rolado. A violência estourava a cada momento em discussões e brigas sangrentas. Chamados de fascistas pelo público, os Angels espancavam quem pintasse na frente. Quatro pessoas morreram, um afogado e dois atropelados "pelos automóveis irritados" com o congestionamento de um rush não de hora de entrada ou de saída do trabalho mas para a diversão mais anti-rush do mundo e o estudante negro Meredith Hunter foi esfaqueado por um Angel no momento em que apontava um revólver na direção do palco enquanto os Stones se apresentavam.

Segundo Maciel,
Ao ser absorvida pelo consumo, servindo de assunto para jornais e televisões e enriquecendo promotores dos festivais e as fábricas de discos - entre muitos exemplos - a contracultura teria sido irremediavelmente inoculada com os venenos mais letais do sistema que ela negou. Segundo Eisen (Jonathan Eisen em Altamont: Death of Innocence in the Woodstock Nation) a comunidade hippie ainda não existe porque até aqui não conseguiu criar novas instituições capazes de enfrentar o aparato repressivo que a cerca, asfixia e finalmente neurotiza. Contentou-se com ilusões róseas mas de vida curta e a grande ilusão de Woodstock só poderia resultar na realidade decepcionante de Altamont.
Heaven and Hell. Nada mais humano e natural.
O dado mais inexplicável e um dos mais notáveis do fenômeno é que quase meio milhão de pessoas tenham conseguido conviver por quase uma semana numa área em estado de emergência sem vestígios de uma força de segurança e sem produzir nenhum incidente grave. Um acaso extraordinário, talvez, mas ainda assim exemplar de que o homem é capaz de conviver pacificamente por algum tempo mesmo sob o risco de afogamento num mar de lama. Rolasse a coisa por mais um dia ou dois e tudo talvez mudasse de figura, porque a fome é negra e a carne, fraca. 

PAULO FRANCIS FOI PRO CÉU

Vinte anos depois o cronista da grande solidão nova yorkense Paulo Francis relembrou as impressões que teve do fenômeno de longe e à chegada à Grande Maçã, em 1971.

"Acho que foi Time a grande responsável pela mitificação de Woodstock. ... Afinal, quantos concertos de qualquer música atraem cerca de 400 mil pessoas (nunca se soube ao certo quantas pessoas havia) e Time sai na semana seguinte com uma capa, se não me engano, sobre "a nação de Woodstock", ou seja, os jovens daquela geração teriam abandonado os ideais "américanos" clássicos, fazer negócio, ganhar dinheiro e competir com teu irmão (o que há, realmente) e se entregando ao desbunde, do todo mundo nu, da maconha, do "hippismo", da vagabundagem jovem e fraterna. Time deu também uma capa sobre as "crianças flor" de Haight Ashbury, da suposta geração "paz e amor". Fortune, da mesma empresa, mais interessantemente, deu uma história em que identificara por pesquisa 1,2 milhão de jovens, filhos de ricos, que não queriam seguir os pais nos negócios, que queriam "drop out", sair da sociedade competitiva, da "rat race", da corrida de ratos, que é os EUA. E se declararam de esquerda.

Conheci muita gente que participou de Woodstock-Bethel. ... Se queixavam do som ruim, do excesso de pessoas, do cheiro de fezes e urina (entre as quais nascemos, segundo Santo Agostinho, fruto do pecado criados na corrupção), mas que, maconhados, acabaram achando tudo bom. ... Um desses jovens, mais letrado, me disse que finalmente entendeu a sensação de Fabrizio Del Dongo em A Cartuxa de Parma, no meio de uma confusão tremenda que depois descobre ser a batalha de Waterloo, que mudou a história da Europa consideravelmente."

Pelo sim e pelo não, o que foi tudo aquilo - ou no mínimo como perguntou Pete Townshend em 1993 em  Psychodelerict  no que poderiam ser as famosas últimas palavras de Tommy - E o que aconteceu com o sonho? E o que aconteceu com toda aquela coisa hippie? 

 

 

DE WOODSTOCK AO McROCK   é uma webpage  revoluciomnibus.com  

 da série       so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

                narrativas de rock estrada e assuntos ligados

                               notas & narrativas dos notebooks de jimi sawyer, edgar lessa e james anhanguera

 

         

 

                                   

                                  

                                  

Astronautas fincam a bandeira americana na Lua, crianças zambudas de fome e subnutrição vítimas da guerra do Biafra, fotos e notícias de chacinas e bombardeios de napalm no Vietnã, jovens peregrinos pelas estradas fora de cabelos longos e desgrenhados com os polegares ao alto pedindo carona a quem passa, John Lennon de longas melenas e barba a Walt Whitman ao lado de uma japonesa feia de cabelos ainda mais longos também divididos ao meio. Entre as imagens de 1969 ficam as de jovens de longuíssimas melenas, como as gravuras de uma cena de rua ou de corte da Renascença. 1969 é ainda o ano de uma nova renascença. E é o ano em que os astros nascentes do rock emitem a palavra de ordem para que os jovens deixem cair as jubas ombros abaixo como fora de regra entre os últimos românticos e esqueçam o barbeador dos país.

1969 é o ano post mortem 1968: Martin Luther King, Bob Kennedy e Cream são agora apenas ícones. O sonho da contracultura, que ia assim ser batizada só nesse ano, talvez tenha morrido com eles. (Mas o que Bob Kennedy tinha realmente a ver com ele, além da cara de garotão?!)
O ano começa com os ecos de With a Little Help From My Friends - Joe Cocker e a repetição à saciedade de Ob-la-di Ob-la-da no rádio, que também faz eco de quase todo o álbum branco dos Beatles, inclusive Revolution, em que Lennon manifesta A dúvida - sempre muito salutar e que sempre, como ainda dessa vez, causou muita polêmica - quanto sua profissão de fé pelo pacifismo e a não-violência e contra modelos políticos obsoletos com sinais baralhados, tomando as devidas distâncias (don't you know that you can count me out - na segunda versão  lançada, no flip-side do single de Hey Jude) OU NÃO dos que "saem por aí empunhando fotografias do chairman Mao" (na primeira versão, incluída no Álbum Branco, canta well you know that you can count me in). Só em poucas vitrolas não se dava a longa aventura de dois discos por encerrada quando a agulha chegava à penúltima e mais longa faixa do segundo LP, Revolution Nº 9, o curta-metragem do ano. No duplo branco, que domina as paradas caseiras ao longo de quase todo o ano de 1969, o quarteto dá uma de ska e outra na ferradura de Stockhausen, uma em Revolution e outra em Revolution Nº 9, Ob-la-di Ob-la-da Stockhausen While My Karlheinz Gently Weeps, Cage e o diabo a oito.
"The Beatles", colagem de depoimentos pessoais dos três compositores da banda, é o mostruário-padrão da sua obra, patchwork - painel - mosaico - da diversidade estilística - de espírito-sensibilidade abertos a todo tipo de música (with a little help from George Martin no que se refere a música escrita - exata - dita erudita) e a todas as novidades. Não é por acaso que como membro do conselho consultivo da produção de John Philips do festival de Monterey Paul McCartney indica Jimi Hendrix, acabadinho de decolar da panela de pressão. Ska, baladas de menestréis nos mais diversos estilos, While My Guitar Gently Weeps ou Birthday com riffs que se tornariam formatos clássicos do heavy rock, Helter Skelter (o som heavy pré-blacksabathiano já quase metal satânico), Revolution Nº 9 JOHNCAGEANO E O STOCKHAUSENBAU.
E como começa com The Beatles 1969 fecha com Abbey Road. E no interim

                                                                                                                                          

 

 

 

       WAR IS OVER WAR IS OVER WAS IT

                                                           &                                             

1969 foi o ano de The Ballad of John and Yoko. Desde que começou a se reconhecer por gente Lennon foi um agitador, e ao ligar-se a Yoko Trepidação Ono assumiu de fez o capuz, com Two Virgins e logo em seguida o show do bag in Merry Xmas / WAR IS OVER com a que logo se assume como Plastic Ono Band para be-ins de GIVE PEACE A CHANCE, os dois a rentabilizar a fama e o PRESTÍGIO dele sempre em campanha ao longo do ano, quase sempre na cama, de onde até davam entrevistas, e inclusive no casamento (nada mais britânico) em Gibraltar.  

Sim; 1969 foi o ano dos Lennon, de Woodstock, Wight e de Easy Rider, em que Peter Fonda e Dennis Hopper deixavam claro que não adianta tentar escapar e menos ainda sonhar com Routes 66 alternativas.

Edgar Lessa narra em 

:

- É. Ridículos ou elegantemente modernos naquela farda de paletó sem lapela e calças cingidas ao corpo, que depois se transformou em uniforme oficial de Roberto Carlos e chusma e de metade dos grupos pop do planeta, logo os Beatles passam à auto-paródia na capa de Sgt. Pepper’s, que é como que um índice de citações das suas influências na música, no cinema, na ciência e na religião, ou nas vestes, letras e sons ainda mais bizarros de Magical Mistery Tour. Lembra-se de que no ano passado dizíamos que os Beatles, os Stones e tantos outros se tinham tornado figuras carnavalescas, pela forma como se vestiam e as coisas que faziam? Lennon abusou mais ainda na campanha pela paz, ao lado da para todos os efeitos patética esposa, em nus frontais na capa de Two Virgins, de pijama e camisa de noite no bed-in no Hilton de Amsterdã e no bed-in e no be-in de gravação de Give Peace a Chance em Toronto, que parece uma macumba pela paz, em The Ballad of John and Yoko, no financiamento do barco que iria difundir mensagens de paz pelos portos do mundo em tempos de Vietnam e Bangla Desh, no concerto War is Over, os dois ridiculamente espontâneos e sinceros na luta por uma causa... perdida? Devolve a MBE, a medalha de honra do Império, e o que vale é o gesto. Foi morar em Nova York com Yoko. Yoko... aparentemente uma visão de pesadelo em comparação com a ex-fiancée do ex-beatle, Cynthia, pelo próprio nome uma espécie de misto de pin-up com princesa – porque estamos na sede do Reino, vivemos ainda uma mistura de pesadelo pós-industrial e fantasias da corte do rei Artur, em que de repente um plebeu pode transformar-se por serviços prestados à Rainha num aristocrata e quem sabe numa revolução impensável ascender ao trono... Um absurdo ainda maior porque o que me espanta é como, num turbilhão de pesadelos de sociedade superdesenvolvida, em que perspectivas de dias melhores estariam apenas nas propostas do movimento a que se chama de contracultura, a monarquia consiga manter-se tão estável, incontestada, à sombra ou acima de um jogo de alternância política Tories-Labour a que ninguém de bom senso deveria dar o mínimo de crédito, mas segue impávida e serena.  

 

                                 

 

- A ida dos Lennon para Nova York é o sinal mais claro de que, depois das jornadas do Congresso sobre Dialética da Libertação na Roundhouse, com debates e happenings sobre toda a sorte de matérias alternativas que chegaram a fazer parte do currículo das universidades sublevadas, do tipo como lembra aqui o Richard Neville..., olha só esta, Das Histórias em Quadrinhos à Dança de Shiva: Amnésia Espiritual e Filosofia da Auto-Alienação... que loucura... em que o Pink Floyd deu show de som e luzes, transplantando para a Inglaterra as inovações cênicas dos grupos da Costa Oeste, em San Francisco, e com o fim do british boom nos EUA, em 67, o centro dos acontecimentos – embora o pólo de maior agitação política tenha sempre estado lá – deslocou-se para Oeste, onde no entanto a dramática evolução das coisas, em que cada vez mais se vê que os EUA não conseguem sair do atoleiro do Vietnam, parece ter tornado inútil maiores mobilizações contra a guerra, no fundo, como diz aqui o Neville, o leitmotiv do Movimento ou objeto em que se condensou um ódio sem forma definida ao Sistema.

 1969 
é o ponto a que chegara o rock: primal + eletrônica, de Dylan a The Beatles, quando muito naipes de cordas e um órgão barrock (Procol Harum e uma das revelações de Woodstock, Santana, com uma levada muito afro-salsera). Ano do hard e do progressivo.
A trilha sonora de Easy Rider dá boa conta da qualidade e diversidade do american sound 1969. Mas a diversidade estilística era extraordinária: Zappa a fazer picadinho ao mesmo tempo da sociedade de consumo e da alternativa em plataformas estilísticas as mais extrovertidas (porque ele mesmo era um dicionário de bolso ou um liquidificador dos estilos em parada, que também parodiava), o  psychedelic rock indo para o California sound, de Love a The Doors e os já aqui citados, e núcleos de experimentadores de garagem ou de bandas de universidade dando origem a ramos que se estendiam ao clássico e ao jazz - Blues Project: Seatrain-Al Kooper-Blood, Sweat and Tears só como exemplo.

Mas o que fervilhava mesmo era a british scene e o british sound, por sinal - como seria lógico - bem americano e até mesmo negro na sua feição mais criativa, o blues-rock, de Led Zeppelin e Ten Years After além de Jeff Beck, Yardbirds e John Mayall's Bluesbreakers (Bluebreakers e Yardbirds por onde quase todos tinham passado) mais um monte de muito boas revelações como Stone The Crows, Savoy Brown Blues Band, Climax Chicago Blues Band e, da Irlanda, Taste, que revela uma outra lenda, Rory Gallagher.  Com eles nasce o progressive rock, côté hard rock. Menção à parte merece a formação original do Fleetwood Mac, talvez o mais blues band à velha e nova maneiras, que se lançara em 1968 com a singela e bela Albatross e Man of the World, de Peter Green, e em 1969 se sai com The Green Manalishi, que como o follow up Oh Well foi extraído do LP Then Play On, lançado no outono daquele ano, e galgaram céleres hit parades do meio mundo de cá. Numa noite de abril de 1968 na Escola Politécnica de Londres a banda de Peter Green e Jeremy Spencer (coadjuvados por uma seção rítmica de respeito, Mick Fleetwood-John McVie) gravam suas obras completas, a que dão retoques em poucas sessões de estúdio e a história quase acaba ali, em 1968, o ano que não acabou, quando Cream se despede e Peter Green, outro rapaz de gênio dividido entre o virtuosismo, a timidez e a fama, se destaca em elipse na banda que em 1969 recebe o reforço de Danny Kirwan e, entre gigs e sessões de retoques em estúdio, explode e logo depois estoura, quando P.A. Green decide dizer adeus à carreira e ser coveiro de guitarras elétricas em 1970. Mas 1969 é o ano em que os três mosqueteiros da guitarra da Fleetwood Mac Blues Band, e sobretudo Peter Green, fazem a sua lenda. A ponto de 26 anos depois a revista Mojo ter dito o seguinte em relação aos maiores guitarristas da história: 1º - Jimi Hendrix, 2º - Steve Cropper (Booker T. & the MG's), 3º - Peter Green.

                           

os três mosqueteiros da guitarra da Fleetwood Mac Blues Band, e sobretudo Peter Green, fazem a sua lenda, na foto alternados com Mick Fleetwood e John McVie.

E como é que tudo começa?...

Quando Peter Green, Mick Fleetwood e John McVie, egressos do John Mayall's Bluesbreakers (que perdia assim, em várias levas, jovens talentos em penca, quando o espírito era de lança-los ao mundo) se unem a Jeremy Spencer e formam a Fleetwood Mac Blues Band, para ir direto ao assunto. 

Nota bene: Jimmy Page e John Paul Jones, uma asa de uma das lendárias formações do Yardbirds. Green, Fleetwood e McVie, asa, tronco e membros de uma das lendárias formações do Bluesbreakers.

Nem precisavam gritar - I'm goin' down to Chicago, como Robert Plant com Led Zeppelin duas primaveras depois. Quem não era chicagoano em Londres, entre o tronco e espinha dorsal do bluesrock?  A primeira formação do Fleetwood Mac dura de 1967-68, um ano antes de Danny Kirwan completar o trio de guitarras feéricas, a 1970, quando Peter Green decidiu cair fora - da carreira - e ser coveiro de guitarras elétricas e Kirwan e o chicagoano Jeremy Spencer cairam fora do grupo. Seu sucesso do ano foi o single com The Green Manalishi - crítica radical aos gurus hindus que se multiplicavam em Londres na sequência da onda provocada pelo Maharishi dos Beatles - e Rattlesnake Shake, que como seu follow up Oh Well foram extraídos da antológica despedida em álbum, Then Play On. O grupo irá dar muuuito que falar nos anos 1980, com Christine Perfec McVie. Mas para os fãs de blues, bluesrock e de Peter Green aquele Fleetwood Mac é que valeu como um dos picos do rock em toda a história. O que caracteriza sua excelência é a qualidade da bluesband, ou seja, seu amor e fidelidade aos blues de raiz, à falta de melhor expressão, que como Clapton, Ten Years After, Chicken Shack, Climax Chicago Blues Band, Savoy Brown, Taste (da Irlanda...) e Led Zeppelin flagram para além de todas as medidas nos momentos em que os blues descambam primeiro para o rhythm and blues e depois para o rock and roll (o que no caso de Fleet Mac pode-se degustar no auge ao vivo nas decantações de Jeremy Spencer de clássicos de Elmore James e em Sandy Mary ou numa versão de quase vinte minutos - muita jam e vibração entre os três - de Rattlesnake Shake, ambas d)e P.A. Green, cuja verve é muito mais que outros cinquenta por cento da glória da banda. Que grava o histórico Memphis Slim London Sessions com um dos pais dos Chicago blues. E por conta dele, P.A. Green, faz até bolero.

(mas para ler mais sobre isso acesse a webpage revoluciomnibus.com/FleetwoodMac.htm)

 

                                        

sobre Led Zeppelin em 1969 ver abaixo trecho sobre festival de Bath 1970 porque dá no mesmo, tudo foi uma coisa só com a banda atéeee.... a morte da arte de John Bohan.


  1969   é o ano dos SUPERGROUPS. Como Blind Faith, um dos exemplos máximos, apesar de Ginger Baker e de se ter mostrado apenas em um LP de estúdio, suprassumo de Cream (Clapton) e Spencer Davis Group e Traffic (Steve Winwood). Ou, do outro lado do mar, Crosby, Stills, Nash and Young.

Em Edgar Lessa fala do que respingou do estonteante final do arquiexplosivo 1968 em seu vizinho:  

      Rompi o cordão umbilical ao trocar o Rio por Londres, alegadamente para praticar inglês mas já com a idéia de ficar para me deliciar devagar com uma fatia do bolo da capa de Let it Bleed dos Stones sobre um prato de vitrola - o sonho pop que já se diz acabado e de que de um certo modo me despedi ao ver a

                                 

                        foto de Jack Bruce à esquerda e Eric Clapton no outro extremo, de olho nos dedos no instrumento, e Ginger Baker ao meio, olhando de lado com os braços sobre os ombros dos já ex-colegas no show de despedida do Cream no Royal Albert Hall, em dezembro de 1968.

Cultura adolescente na era da juventude e música em toda a sua novíssima dimensão eletrônica. A caminho dos 15 anos, li a notícia e recortei a fotografia ao som da eletrizante versão de Joe Cocker de With a Little Help From My Friends, um canto estraçalhado de sirene do rock num ano explosivo, com Street Fighting Man, dos Stones, Electric Ladyland, de Jimi Hendrix, e Hello I Love You, do The Doors, e o álbum branco dos Beatles, entre uma porrada de sons siderais. Nunca é tarde, para mim o sonho apenas começara. Ouvia música pop e rock o dia todo. Em menos de dois anos estava em Londres, até porque lá estão dois exilados eméritos que sobre mim exerceram influência extraordinária em termos comportamentais, Gilberto Gil e Caetano Veloso, os ‘papas’ da Tropicália.

 

Quando entramos está tocando o Occasional Word, a que se segue Mike Hart, um ex-cantor de um grupo obscuro chamado Liverpool Scene, com os já familiares Business. Impressionante a quantidade de músicas do repertório do Cream que o pessoal toca em 1970:Crossroads,Politician, Sitting On The Top of the World. Algumas nem sequer connheço – identifico-as pelo título ou pelas letras de Pete Brown, o letrista parceiro de Jack Bruce, colega de Lennon na escola técnica de arte de Liverpool.

   Blind Faith Sea of Joy   Can't Find My Way Home   Presence of the Lord

  1969  

 Eric Clapton Steve Winwood Rick Grech Ginger Baker

 

trecho de  Por dentro e por fora em Londres  capítulo de

Gil acaba de lançar em vinil a necessária aposta numa carreira internacional a partir de Londres, com uma tocante versão solo de Can’t Find My Way Home, que Steve Winwood lançou no lendário LP do Blind Faith e de que fez a mais perfeita tradução do sentimento em relação ao difícil momento político que o seu país, sob ditadura militar, e existencial que ele, no exílio, vivem: Desça do seu trono e esqueça o seu corpo, alguém tem de mudar.


A guerra de superegos se manifestou primeiro nos Rolling Stones, que menos apegados ao côté Elvis Presley e de banda de ballroom ou inferninho à velha maneira como os Beatles e mais (Keith Richards) aos blues ou rhythm and blues dos pretos retintos se afirmavam também por suas caras e atitudes de vilões, acentuando os meneios e requebros (Mick Jagger) e carregando nas tintas da rebeldia (Street Fighting Man) enquanto os Beatles se rebelavam e como (os sons de Magical Mistery Tour e The Beatles, o Álbum Branco) mas sem nunca deixar de passar, histeria das fãs na puberdade e devolução da medalha da Ordem do Império por Lennon à parte, uma imagem de bons mocinhos com direito a perfilar na referida Ordem e, quanto a rebelião, quando muito arriscavam teorias NA DÚVIDA de uma outra ordem de valores (Revolution). Jagger e Richards chegam a ir em cana por posse de maconha. Não havia lugar na banda para três personalidades tão fortes como as de Jagger, Richards e o côté mais acid rock do quinteto, Brian Jones, que de tão atordoado talvez pelo sucesso após ser despedido foi encontrado morto na piscina do seu resort. O acaso trágico gerou um histórico show gratuito (sem cercas) no Hyde Park que também é parte obrigatória da iconografia do ano: pétalas de rosas brancas lançadas sobre a platéia, leitura de P.B. Shelley e um grupo de negões nigerianos que nas tumbadoras deram em Sympathy for the Devil o primeiro toque afro ao rock. Jagger-Richards assumem a ponta e contratam Mick Taylor, oriundo da melhor escola de british blues, o John Mayall's Bluesbreakers, e que já no single com Honk Tonk Women e You Can't Always Get What You Want, que estourou no final da primavera inglesa, mostrou ao que vinha: ser o sustentáculo estilístico da segunda e talvez melhor fase dos Stones (de Get Your Ya-Yas Out a It's Only Rock and Roll, passando por Exile On Main Street), quando estes dão ainda mais ares de Rolling Stones Blues Band ela também.


                 

Não se deverá descurar também os ramos que brotam pujantes de bumbum virado para a música clássica, como o que se revela com o trio Nice, de Keith Emerson, ou entre o acid e a música contemporânea (Ummaguma, Pink Floyd) ou entre esta e o jazz - Soft Machine, uma das prenunciadoras do jazz-rock. A vertente a que se associaria mais os termos progressive sound ou rock progressivo, que haveria de deixar outras excelentes (sobretudo Curved Air e Yes nos três primeiros discos) e algumas péssimas recordações (Genesis e Pink Floyd daí em diante, segundo esta coluna, que também tem opinião). Tommy, do The Who, que etiquetado pioneiristicamente de rock-opera (cabendo-lhe muito bem a etiqueta no mindinho), abriu uma temporada de caça ao casamento do rock com a dita clássica ou eru-dita - a título de uma '''dignificação" que ele nunca quis nem pediu, com sucessos monstruosos como Deep Purple In Concert, com Deep Purple + Royal Phillarmonic Orchestra sob a regëncia do comPOSE(U)R Sir Malcolm Arnold ao vivo no Royal Albert Hall, tanta realeza, e sobretudo Jesus Christ Superstar, a pioneira dos náo menos inefáveis Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, por sinal também com o lead vocalist do Purple, Ian Gillan, no protagonista. Bleeergh! Tommy - rock-opera por ser a primeira opera rock com libreto, mas sem sinfonismos, pelamordedeus, como o das versões da trilha sonora do filme do excessivo Ken Russell. 1969, ano da consolidação do prestígio da guitarra Gibson Les Paul, é também aquele em que se começa a temer pelo fim das orquestras. No afã das novas sonoridades a todo o custo e qualquer preço nego vende a alma ao diabo. Led Zeppelin ressuscita o Theremin. Surgem as primeiras trapizongas sintetizadoras - mellotron, VCS3, moog synthesizer, tataravôs do  DX7 e do Synclavier. Usa-se muitas vezes para dar o efeito remotamente parecido a naipe(s, como se o som fosse produzido por um monte) de cordas. Um dos resultados mais espetaculares do seu uso em efeitos synphonicos é audível em In The Wake of Poseidon, obra-prima seminal de King Crimson, de onde sairia o baixista Greg Lake para se juntar a Keith Emerson (em 1970 Emerson, Lake and Palmer), que tirou o maior sarro da invenção do Doc. Moog já com Nice em Quadros de Uma Exposição (Pictures at an Exhibition) de Modesto Mussorgsky.
Goste-se muito ou um pouco menos, em termos de estouro comercial 1969 foi sobretudo o ano de CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL, que estreiam em 1968 com um clássico instantâneo, Proud Mary, e emplacam em sequência uma rajada de megahits. Deu até para logo encher o saco, sabia? CCR foi o maior fenômeno de country rock.
Eis uma resenha dos primeiros lugares da parada de vendas de LPs do New Musical Express, de Londres, em 1969:

THE BEATLES
"The Beatles" (Apple) 4 semanas
DIANA ROSS & The Supremes Join The Temptations (Tamla Motown) 6
THE CREAM
"Goodbye" (Polydor) 6
BOB DYLAN
"Nashville Skyline" (CBS) 4
FRANK SINATRA
"My Way" (Reprise) 2
ELVIS PRESLEY
"Flaming Star" (RCA) 1
JETHRO TULL
"Stand Up" (Island) 6
JOHNNY CASH
At San Quentin (CBS) 2
THE BEATLES
"Abbey Road" (Apple) 13          NME's charts - Top One LPs - edited by Derek Johnson
a souvenir history of possibly the most momentous ten years in the history of pop - New Musical Express, November 11, 1972 - shows that the
Longest stay at Nº 1 by any individual artist or group are The Beatles (164 weeks). This is the equivalent of the Beatles being at Nº 1 for over three years.
 

Entre os americanos da parada há um Elvis redivivo com o estrondoso sucesso de In The Ghetto em 1968, um Johnny Cash com a cartucheira cheia numa prisão de segurança máxima e um dos ápices da Tamla Motown, a reunião dos seus dois vocal ensembles de maior sucesso. Da parte britânica dá brado a consistência da reputação do Cream, que estraçalha até depois do rompimento permitindo-se dar um tchauzinho na própria capa, e o impacto inicial do Jethro Tull e do selo discográfico que o lança, Island, um exemplo do pioneirismo de jovens ligados no som que se tornam produtores de discos, lançam os seus próprios pequenos selos, a que chegam a acoplar outras micro-empresas (Trojan, no caso do jamaicano Chris Blackwell, que assim torna-se também o principal responsável pelo estouro do ska e depois do reggae), fazendo distribuir os seus produtos pelas majors, de que os seus selos passam a ser subsidiários antes de quase fazerem das majors suas subsidiárias. O exemplo de Chris Blackwell e da Island é o de maior vulto na transição de uma fase (a guerrilha cultural) para outra (o big business) que o rock vive precisamente em pleno année érotique e de Woodstock.

Outra ilustração pertinente de como uma nova atitude a partir de velhos processos (o artesanato, ainda que através da indústria e em escala industrial, passe o contra-senso) gera novos modos de produção tendo por toque de saída a guerrilha (mesmo que individual, passe o contra-senso) e acaba por ser o marco fundador dos atuais modos de produção da maioria dos agentes culturais é a de Frank Zappa. Cedo ele passa a auto-produzir-se e em 1969 a produzir outros artistas, que lança através de um dos dois selos (micro-empresas) que funda. Pela marca Straight (careta, quadrado, direito ou, bem a propósito tratando-se de Zappa, direto) bota na rua uma das mais antológicas produções do universo rock, o duplo LP Trout Mask Replica, de Captain Beefheart and the Magic Band - e pouco haverá de mais anti-straight que esses discos. E pelo selo Bizarre publica os seus próprios discos. Tudo distribuído pela Warner Records. Ao morrer, aos 53 anos, Zappa tinha produzido 69 discos próprios. A quase totalidade da sua própria lavra e safra.

1970 passará à história sobretudo como o ano do estouro do chamado soft rock (Crosby, Stills..., Carole King, Joni Mitchell, James Taylor, Elton John). Em 1971, enquanto flores do pântano como Al Green e Marvin Gaye encantam e como com o seu suingue e versos preciosos, Don McLean sai-se com American Pie, em que fala do dia em que a música morreu no distante ano de 1959. Mas é a partir de 69 que muitos bambas, como o professor John Peel, começam a fechar o caixão. Espontaneidade e sinceridade passam a ser pendões raros. O rock, enfim, deixa de ser também um ritual. Pelos anos 70 fora ainda haverá muitas honrosas exceções, mas o que se ouvirá mais em salões de baile ou de concertos ou festivais tem gosto de sanduba padronizado ao gosto do freguês. The Dream Is Over, disse o ex-agitpropagandeador da chance à paz. Um tiro seco de J.D. Salinger e cai o pano. Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou.


 HERANÇAS DA NAÇÃO DE WOODSTOCK
1989: o militarismo está sendo questionado até pelas grandes potências. A defesa do meio ambiente se tornou lugar-comum nas pregações políticas de todas as tendências. A divisão do espectro ideológico entre direita e esquerda tomou contornos ainda mais nebulosos, como previsto no slogan da época "left is right" (a esquerda é a direita). Até os alucinógenos estão de volta.
Os hippies são história encerrada, mas deixaram alguns traços por aí, como a utopia comunista.
Aquela geração se despiu de uma história milenar de inibições.
God Shave The Queen.
 

  o que aconteceu com alguns protagonistas de Woodstock:
Tim Hardin (também Hardin and York) morreu por causa de uma overdose de drogas em 1980
Jimi Hendrix morreu por causa de uma suposta mistura de barbitúricos com álcool e talvez maconha (na forma de haxixe?)
Janis Joplin morreu duas semanas depois de Hendrix por causa de uma overdose de heroína (ou de uma mistura de heroína com cocaína, ou de uma ou outra ou uma e outra misturadas com Southern Comfort)
Al Wilson (Canned Heat) morreu de overdose de drogas em 1970. Bob Hite, o baterista do Canned Heat, morreu de uma overdose em 1981.
Keith Moon, baterista do The Who, morreu de coma alcoólico
David Crosby esteve em cana por posse de drogas em 1985

 

               DE WOODSTOCK AO McROCK

    leituras associadas neste    revoluciomnibus:
 

              electric ladyland 

                     40 anos do último disco da trilogia básica de jimi hendrix

                                                                            &

                                   50 anos de  Flower Power

             A doce rebelião dos jovens no verão do amor   uma condensação do apêndice Rumo às ilhas da Utopia – Da Teoria à Prática ou Vice-Versa de    o primeiro levantamento global profundo e alargado em língua portuguesa do movimento de juventude dos anos 60.

          e leia abaixo as narrativas de Edgar Lessa ao vivo ou de fontes diretas

                        desses e de outros festivais em trechos de  

  

  Circulo em High Street olhando as vitrines, olhos abismados para a horda de operários-ciclistas passando de saída das fábricas. Alguns deles vê-se no pub onde tomo um ou dois pints quando estou por aqui. Se os ingressos para um show dos Faces, o The Small Faces renovado, com dois dos antigos e um cantor que se diz de estalo, Rod Stewart, que trabalhava no Jeff Beck Group, não estivessem esgotados, ainda teria ido a Londres. Vou jantar à guest house e, sem o que fazer, invisto 60 pfennings para ver no Civic Theatre dose tripla, como é hábito, de rock, Judy Blue Eyes (ô,ô...), Stackridge e Stray, um grupo do gênero power trio, tipo Free, que vai muito de moda, e que acaba de lançar pela Transatlantic um LP intitulado Suicide, anunciado como um portento do heavy rock.

  Nada imaginativos esses Blue Eyes, já pelo nome. Stackridge faz country-folk. O seu único compacto vendeu seis cópias worldwide - ao largo e à volta do mundo, diz-me à inglesa o baixista depois do set de 45m. O seu highlight chama-se Slarck e começa com uma jiga que faz o público levantar-se das cadeiras batendo palmas. Fala de uma garota que é raptada por extraterrestres numa praia. O cara ao meu lado acende um jointão de hash e, após dar três ou quatro tragadas que enchem o ar em volta de fumo, pergunta-me se quero. Pergunto-lhe de que se trata. Enquanto me responde arregala os olhos entre o espanto e o susto. Não recuso. Não fumo há meses e nunca fumei haxixe e parece que sou eu que vou com os ETs para Slarck, onde quer que isso seja, e nem dou pelo intervalo até que sou prensado contra as costas da cadeira pelo impacto das zoeira atordoante do som de suicídio que vem do palco, a uns 30 metros, que ouvi com o meu fonezinho, no quarto, no Kid Jensen Show da Radio Luxembourg, e que já esperava ser pesado, mas não EARBLASHING rock – de estourar os tímpanos. Com tanto fumo de gelo seco e hash – porque o delinquente ao lado, que é como se afigura, acaba de acender o rappel -, é só excitação, têm razão os velhos gagás quando dizem que isto não é música, é o dobro do ruído suficiente para causar pânico aos ouvidos de ouvintes menos abertos a qualquer tipo de excitação, quase todo o público foi como que projetado das cadeiras para as passadeiras onde move-se como possuído pelo demo, tento ver se batendo os pés no chão com toda a força consigo fazer com que minha cabeça não exploda de tanta dor, mas é impossível. Só passa quando chego ao quarto, me deito e fico um monte de tempo ouvindo o silêncio. A melhor coisa da banda é o lightshow, que embala o ritmo em estilo terremoto, ainda para mais acompanhado de explosão de bombas que, para mim, é superior em qualidade ao som dos Stray, que Deus os proteja. MC5 – que dizem ser o que há de mais pesado - deve ser menos torturante. Tentativa de fuga de um mundo doido e só interessado em progresso material, desligado da mente humana, em que hoje se vive? – pergunto ao bloco de notas antes de dormir, depois de ainda piores sobressaltos.

  A pé, de regresso após o show, ainda atordoado pela sessão de tortura mais as preocupações permanentes com a dureza total iminente e com a barriga roncando depois de tanto haxe fumado e aspirado, entoo baixo America, de Paul Simon, uma das melhores companhias nessas horas de solidão e incertezas

         Let us be lovers

         we’ll marry our fortunes together

         I’ve got a real estate here in  my bag...

quando ouço uma risada rouca e barulho num arbusto por que acabo de passar e três gorilas pulam para a calçada onde surgem, quais personagens macabros de um tiquetaque de laranja, avançando para mim, agora decididamente em estado de suicídio, e por milagre consigo inventar um estratagema quando, após declarar que não sou inglês, desato a falar na língua de Camões com sotaque de Jorge Ben, expediente de improviso que dá certo, porque noto que a sua primeira reação ao ouvir um idioma de que não sabem sequer a origem é de espanto, que de jato produz um curto circuito nos respectivos neurônios e logo o impasse, o vacilo, o embaraço, na dúvida tratam de se mandar porque até aqui só lidaram com cockney e olhe lá. Escapo da boa, como por milagre.

  Tremo só de vê-los andando imponentes nas suas carcaças de naus almirantes, musculosos, sempre com feições de maus e tatuados, pelo hall e pelo cais da estação e fazendo ribombar o chão dos vagões com suas botas cardadas, com que se pegam de ponta algum gagá ou cabeludo solitário ou em franca minoria estouram-lhe os miolos. São covardes, claro, os skinheads, só pegam pessoas sós ou em minoria, desprevenidas, mas quem houvera de dizer – pularem assim de trás do arbusto à meia-noite e meia, numa pacata cidade em que o maior acontecimento é o desfile diário de centenas de operários de bicicleta no ir e vir das fábricas, especialmente belo quando um sinal de trânsito obriga o bando a parar numa faixa de pedestres.

  Jonathan King escreveu há um ano que a era dos skinheads já passou, como tantas outras modas, mas quem pode garantir que já passou ou passará, quanto mais ele que nem anda de trem pela periferia? Davam caça incessante aos mods até serem expulsos da cidade, franja direitista (?) do Movimento, como os não menos temíveis Hell’s Angels, e que sobreviverão e irão impor-se como facção política por gerações a vir.

  A que sistema e, já agora, a que cisma pertencem estes tipos tão contrastantes com os pacíficos hippies e com os mods, já passados com a integração dos seus toques de mestre vitorianos e eduardianos à moda do cidadão comum à la page, calças sem cós e apertadas, uma mais ou menos discreta boca-de-sino, um ou outro floreado nos punhos ou na fileira central de botões, nada demais. Belicosos ao mero olhar, intoleráveis, intolerantes, violentos como os piores sujeitos da sociedade estabelecida, autoritária, truculenta e materialista, porque também roubam. Punks, delinquentes, nobodies. Skinheads.

  Jimi está lendo enroscado no cobertor quando chego ao cubículo. Arregala os olhos ao ver o meu aspecto. Depois disso, um refresco. Vou ao Queen Elizabeth Hall assistir Taste e Cochise. Estes vêm da safra de excelentes músicos que a produção de Elton John está gerando e surpreendem pela sabedoria na perfeita dosagem de lirismo e pancadaria sonora. Taste, liderado pelo guitarrista Rory Gallagher, e que promove o seu disco de estréia, é mais uma benção dos pródigos céus irlandeses. Desde já o melhor power trio da minha vida. Caminho milhas e milhas até o trem do leite e chego à cama às três e meia com a sensação de que os pesadelos da véspera foram há vários anos.

 
   

  

  

  

  

  

        Underground e music hall: Londres 3 visões   

 

A aura tipo introspectiva de Peel baseia-se numa lenda ancorada ao largo das águas territoriais britânicas, Radio London, onde fez a fama.

No dia 29 de Março de 1964 começa a operar de um navio ancorado ao largo de Frinton, no condado de Essex, a primeira estação de rádio ‘livre’, tendo por objetivo transmitir a música que a programação da conservadora BBC, única estação de rádio com potência para cobrir todo o território britânico, não permitia. Alguns meses mais tarde, Roman O’Rahilly, o responsável pela empreitada, adquiriu o Frederyka e deslocou a emissora ‘pirata’ para a Costa Sul da Inglaterra, onde a Radio Caroline passa a transmitir em força, ocupando durante 18 horas a banda dos 201 metros de Onda Média. O seu mastro principal era uma antena.

Uma rádio muito mais dinâmica do que a inglesa até então, que sacou os tiques & os toques do modelo americano de estação Top 40, concebida para passar apenas discos que chegam às tabelas de classificação de vendas. Surge na Europa a maquineta de jingles, através da qual os disc jockeys lançam pequenos spots cantados ou instrumentais que lhes dão tempo para engolir a saliva, molhar os lábios e continuar apresentando hits em velocidade estonteante.

Surge entretanto uma outra estação flutuante a transmitir fora das águas territoriais britânicas, no Mar do Norte, com um programa chamado Perfumed Garden (a partir do título de um espécie de Kama Sutra árabe), que foge ao esquema Top 40, transmitindo uma música menos ‘instantânea’, apresentada de maneira completamente diferente da fórmula dos d.j.s. O seu realizador, John Peel, trouxe da América, onde trabalhou em estações Top 40, o modelo das estações de FM que surgiram na esteira da pioneira KMPX-FM, de Tom Donahue, em São Francisco. A exemplo da Caroline, em pouquíssimo tempo a Radio London virou lenda – the Big L.

Lei da Rainha de 1967 põe os piratas definitivamente na clandestinidade e as estações fecham. Em troca a BBC oferece-lhes nove horas de emissão do seu primeiro canal, Radio 1, que passa a ser a primeira pop music radio station européia. Mas o monopólio da BBC continua e em 1969 surgem no Mar do Norte outras três estações piratas: Radio Nord See, com potência para cobrir toda a Europa, e Radios Veronica e Capital, que mal cobriam o território britânico. Na guerra que volta a desencadear-se o British Post passa a bombardear a banda dos 270 metros da North Sea com sinais de mil ciclos e a rádio sai do ar, para voltar com muito menos potência em 1970, quando nasce a Radio Geronimo, que transmite de Andorra com uma potência de 400 watts, oito vezes superior à da Radio London.

O fenômeno das rádios piratas pop irá durar ainda alguns anos com a Veronica, a Nord See International e a nova Radio Caroline operando a cerca de cinco milhas da costa holandesa, por alturas de Scheveningen, com antenas de 10 KW que mal dão para atingir o sul da Inglaterra. O seu pessoal recebe salários com meses de atraso e só pode deslocar-se a terra de três em três semanas. Operando 24 horas por dia a Radio Caroline transmite em holandês (6h-18h) e inglês (18h-6h). O trabalho de estúdio é feito por quatro locutores, que também fazem a limpeza e vigiam da torre os movimentos da polícia costeira, tal como acontece com a tripulação do Mi Amigo, o barco da Radio Nord See.

 

            Piratas radiofônicos. Cresci a pensar, em simultâneo com o ato ilícito de fumar ma-co-nha – e ao que tudo indica aquela brotou espontaneamente (na base do que dizia Caminha na carta a El-Rei, com a diferença de que, em vez de em se plantando, deveria ter escrito em se lançando à terra, dá) -, que aqueles jovens aparentemente muito honestos estavam cometendo infração penal. Crime de pi-ra-ta-ria, com um estilo de vida fora dos padrões, embora se saiba que a tripulação se comprometia a não usar drogas a bordo. Se gente tão diferente como Peel ou Jonathan King, superstars avant la lettre e superegos, não a tivessem já, saíam de lá com a cabeça virada. Além do mais a lidar com bootlegs – discos piratas, que Peel é um dos poucos a passar na rádio inglesa, como agora o do concerto dos Rolling Stones de homenagem a Brian Jones no Hyde Park.

 

 

 

 

O encontro é às dez. Com cuidado, o porteiro põe a mão no ombro e olha bem na cara de Jimi. Parece hesitar e chega a causar pânico com a ameaça de pedir os nossos documentos e nos barrar a entrada.

Lá embaixo uma equipe de televisão grava cenas para um programa sobre um livro que acaba de ser publicado, Groupie, de que nem ouvi falar. À entrada e espalhados por toda a sala posters de publicidade do livro. ‘fuzz’ (penugem), ‘speed’ (...), ‘spliffs’ (?!). A sensacional história de Kathie, Groupie de 19 anos enquanto ela “pulls” (com aspas) de grupo pop em grupo pop.

     - Como é? – pergunto a John.

     Faz ar de enjôo.

- A coisa mais interessante, aparte a agilidade da heroína, é que parece que foi escrito por uma máquina.

     Winwood está numa mesa com duas gorgeous ladies, uma loura, outra mulata, que parecem saídas da capa de Electric Ladyland. Peel vai até lá e limita-se a cumprimentar e trocar duas palavras com o ex-colega de Spencer Davis e Eric Clapton, a que nos apresenta. Ficamos ali por perto, no meio da confusão. Deve-se ter sabido que haveria gravação de um programa de TV e dezenas de groupies ocupam mais de metade da sala. Uma espécie diferente de profissionais do sexo? – pergunto-me, pela primeira vez face a tal aspecto da vida sócio-econômica do rock. Groupies são galinhas que giram em torno dos astros do rock, supostamente sem nenhuma pretensão a carreira(s), mas quantas já não se casaram/se emancebaram com eles? – e quantas não vão passar a vida rodando a bolsa? Talvez as que estão com Steve também o sejam, embora pela discrição não aparentem. Tudo muito apropriado tratando-se de um speakeasy.

     Não parece relevante que banda esteja a tocar. Se Cristo reaparecesse aqui ninguém daria por isso. Juicy Lucy é entusiasmante, mas nada justificaria os puxões e empurrões das Lucys sumarentas à nossa volta, lutando desesperadamente para aparecer na TV.

     - É bom ver Glenn Campbell readquirindo a forma de quando o seu trabalho de guitarra podia transformar metal básico em ouro – comenta John ao pé do meu ouvido, na primeira vez que o ouço a altear o tom de voz. Claro que o Campbell da guitarra não tem nada a ver com o porta-voz das maravilhosas canções de Jim Webb.

Peel assiste apenas a um set e despede-se dizendo que está desorientado pelo roça-roça de veludos e ensurdecido pelos gritos estridentes das ‘damas da coelheira’, ao mesmo tempo em que quase no tapa, dando tudo por tudo para parecerem cool e indiferentes nas câmeras de TV.

    - Uma pena, realmente, porque o Speakeasy é um bom lugar para encontrar amigos e ouvir novas bandas.

Dá o seu número de telefone dizendo que gostaria de nos mostrar alguma rough, raw, raucous music. Música rude, crua, rouca... Notei nos seus escritos que tem especial predileção por esses termos. E por esse tipo de música.

Ficamos a pensar em pegar o ‘trem do leite’ das duas da manhã porque este sempre é o primeiro concerto de rock da minha vida – fora o dos Mutantes.

 

 

 

 

‘Fumar’ já é um programa em si. Ir a um parque até um ponto em que se fica a uma distância razoável das pessoas mais próximas e atento a todos os quadrantes para ver se alguém se aproxima ou ir para uma ponte e temerariamente atravessar de um lado a outro à aproximação de alguém. O mais das vezes, no quarto, isolando as frestas debaixo da porta de entrada e das de comunicação com os aposentos anexos com cobertores, nos lembramos de como ‘tudo’ era mais simples e natural na floresta, onde bastava cruzar o portão e se ficava à vontade, sem temer a aproximação de alguém. ‘Temer a aproximação’, diz-se. E pela força da expressão penso se esta atividade ilícita não estará por si só também nos ajudando a conviver com a nossa solidão, isto é, com cada um de nós se havendo consigo e só consigo mesmo e ver cabimento e ter prazer nisso, e se isso não nos poderá ser... fatal, aqui neste banco em Kensington, de onde fico admirado admirando o gramado com a largura de dois campos de futebol e lá no fundo, de entre as árvores que delimitam o park, o Royal Albert Hall, onde ontem assistimos a um show do Blood, Sweat & Tears que nos deixou bestas, três dias após meu regresso do norte, sempre num third stall, de binóculo, ainda bem que o som chega mais que forte aqui em cima, viemos para ver mais uma daquelas catarses de rock e não houve esse tipo de catarse, o que aconteceu foi uma jam quase permanente de muito rhythm & blues, quase free jazz, porque a gig não é totalmente free e só um músico tem em cada música aqueles 32, 64 ... compassos para improvisar na sucessão de peças/canções do noneto que se desenvolve como qualquer show de rock ou music hall, só que por metade da longuíssima apresentação do clássico God Bless The Child, por exemplo, o conjunto, ensaiadíssimo, desata num improviso coletivo que parece totalmente anárquico, aparentemente tão free como poderia ser, com um desencadeamento em turbilhão vulcânico de sons destoantes e ensurdecedores, produzindo no entanto uma harmonia por isso mesmo absolutamente singular, percebendo-se só de vez em quando lá no fundo que todos estão atentos a não perder o fio inaudível da sequência à meada e a aguentar, ora uns, ora outros, a ‘malha’ sutil do tema ao mesmo tempo em que em alguns instantes vai cada um por si ao ponto do mais completo desvencilhamento/destrambelhamento – jazz de sensações inexprimíveis e que não têm nada dos estereótipos do rock, e em que os textos são longamente estudados por cada solista para compor uma espécie de caos ensaiado a partir da estrutura de base, sem uma extrapolação ou desatino. O nosso primeiro contato com o jazz a anos-luz de entendê-lo. Chegamos em casa a pé ainda em desassossego: seria de David Clayton-Thomas a voz de Gary Puckett que com o Union Gap produziu um enorme sucesso pop, Young Girl, que ajudou a encher de encanto o nosso Inverno brasileiro de 1967?

  

Minha atitude em geral é de êxtase contido, em contraste com a natureza expansiva de Jimi, de absoluto encantamento com Londres em 1970. Que o sonho já não mais exista, torrado pela máquina que a ela tudo molda, que esta não seja mais a Swinging London dos anos 60, tudo o que dela resta é já em demasia, diz. Time Out - um roteiro indispensável para saber o que se passa em Londres em qualquer ramo de arte -, Melody Maker e outros periódicos publicam listas infindáveis de shows de música de todos os gêneros para todos os gostos, na cidade e arredores, que é afinal toda a Inglaterra, um pequeno país ainda efervescente, apesar de gente como Peel dizer que o ritmo de novidades diminuiu muito e tudo não passar de um grande negócio, com milhares de iniciantes buscando a sua vez de brilhar sob as luzes da ribalta, e só. Só folclore? Mas que folclore.

Conversamos sobre isso e os reflexos disso em nossa presença aqui em tempos mortos nas estações de Liverpool St. e Chelmsford e nas viagens de uma hora entre cá e lá. Tempo o mais das vezes nublado e frio, apesar da estação, e ambiente radioso, apesar das dúvidas e incertezas. Mais que diálogos, dependendo da disposição de cada um, são solilóquios em tentativas quase desesperadas de ordenar idéias geradas pelo turbilhão de manifestações tão desconexas do circo do rock and roll, como o chamaram os Stones, e que apesar da visão crepuscular de Peel parece-nos ainda assaz efervescente. Numa delas a edição do dia do Melody Maker com a foto do tamanho da primeira página de um bando de cabeludos desembarcando em Heathrow, três deles de camisas indianas e calças brancas e sandálias e empunhando caixas de guitarras, sob o título Mac’s Back From Triunph Tour, e a última edição de uma nova revista, Oz, com papel quase de jornal, ao mesmo tempo bela e bem feita mas muito underground, dão-nos pano para mangas e colete.

- Aos 16 anos estamos no pomo da maçã. Bichada, já? Sou novo e ingênuo demais para digerir e alinhar os pensamentos contraditórios que me assaltam a cada instante a partir do que lemos e ouvimos e vemos à nossa volta. Há meses Paul McCartney convocou a imprensa pela última vez na sede da Apple Corp. – não é assim que se chama agora, Apple Corporation?... -  para anunciar o fim dos Beatles, segundo ele por sua vontade... Os outros ficaram mudos, mas tudo indica que acabaram mesmo. Harrison está no estúdio gravando um disco solo. O anúncio foi uma manobra de Mc para vender mais cópias do seu disquinho em família, mas de qualquer modo é o fim de uma era. Imagina; já Brian Jones ter saído, ou ter sido posto fora!, dos Stones, e logo depois ser encontrado morto na piscina... É como se Erasmo e Roberto Carlos se separassem! Irmãos que, mais do que brigados, como Solemar e Lu Silveira quase sempre, só se comunicam através de advogados. Um fim de sonho, não? Pop, rock, contracultura... Três anos parece uma vida quando se tem 16, mas no fundo será só um piscar de olhos. Se aos 16, quase 17, vejo toda a vida à minha frente, três anos, como os que nos separam da ascensão da contracultura, representada pelo famoso Verão do Amor... Summer of Love... e a que seria, agora, a nossa estação de florescimento, não equivalem sequer à primeira infância...

- É. Ridículos ou elegantemente modernos naquela farda de paletó sem lapela e calças cingidas ao corpo, que depois tornaram-se uniforme oficial de Roberto Carlos e chusma e de metade dos grupos pop do planeta, logo os Beatles passam à auto-paródia na capa de Sgt. Pepper’s, que é como que um índice de citações das suas influências na música, no cinema, na ciência e na religião, ou nas vestes, letras e sons ainda mais bizarros de Magical Mistery Tour. Se lembra de que no ano passado a gente dizia que os Beatles, os Stones e tantos outros tinham-se tornado figuras carnavalescas, pela forma como se vestiam e as coisas que faziam? Lennon abusou mais ainda na sua campanha pela paz, ao lado da para todos os efeitos patética esposa, em nus frontais na capa de Two Virgins, de pijama e camisa de noite no bed-in no Hilton de Amsterdam e no bed-in e no be-in de gravação de Give Peace a Chance em Toronto, que parece uma macumba pela paz, em The Ballad of John and Yoko, no financiamento do barco que iria difundir mensagens de paz pelos portos do mundo em tempos de Vietnã e Bangla Desh, no concerto War is Over, os dois ridiculamente espontâneos e sinceros na luta por uma causa... perdida? Devolve a MBE, a medalha de honra do Império, e o que vale é o gesto. Foi morar em Nova York com Yoko. Yoko... aparentemente uma visão de pesadelo em comparação com a ex-fiancée do ex-beatle, Cynthia, pelo próprio nome uma espécie de misto de pin-up com princesa – porque estamos na sede do Reino, vivemos ainda uma mistura de pesadelo pós-industrial e fantasias da corte do rei Artur, em que de repente um plebeu pode transformar-se por serviços prestados à Rainha num aristocrata e quem sabe numa revolução impensável ascender ao trono... Um absurdo ainda maior porque o que me espanta é como, num turbilhão de pesadelos de sociedade superdesenvolvida, em que perspectivas de dias melhores estariam apenas nas propostas do movimento a que se chama de contracultura, a Monarquia consiga se manter tão estável, incontestada, à sombra ou acima de um jogo de alternância política Tories-Labour a que ninguém de bom senso deveria dar o mínimo de crédito, mas segue impávida e serena.

- A ida dos Lennon para Nova York é o sinal mais claro de que depois das jornadas do Congresso sobre Dialética da Libertação na Roundhouse, com debates e happenings sobre toda a sorte de matérias alternativas que chegaram a fazer parte do currículo das universidades sublevadas, do tipo como lembra aqui o Richard Neville..., olha só esta, Das Histórias em Quadrinhos à Dança de Shiva: Amnésia Espiritual e Filosofia da Auto-Alienação... que loucura... em que o Pink Floyd deu show de som e luzes, transplantando para a Inglaterra as inovações cênicas dos grupos da Costa Oeste, em San Francisco, e com o fim do british boom nos EUA, em 67, o centro dos acontecimentos – embora o pólo de maior agitação política tenha sempre estado lá – deslocou-se para Oeste, onde no entanto a dramática evolução das coisas, em que cada vez mais se vê que os EUA não conseguem sair do atoleiro do Vietnam, parece ter tornado inútil maiores mobilizações contra a guerra, no fundo, como diz aqui o Neville, o leitmotiv do Movimento ou objeto em que se condensou um ódio sem forma definida ao Sistema.

- Mas o rabo do cometa british boom deixou rastro: com as crescentes exigências de produção de shows e equipamentos de som ninguém se sustenta só com o mercado europeu. E é ver os grupos que regressam de tours triunfais aos Estados Unidos, que é como que um diploma indispensável de avaliação do seu fôlego comercial. Business, Business! Mas agora, após ter provado o gosto para ele amargo do estrelato, Peter A. Green, um dos três guitarristas dos fabulosos Fleetwood Mac, volta anunciando, para o meu mais profundo desgosto – porque me dá uma sensação de orfandade -, o abandono não só do grupo mas de toda a extraordinária carreira que pelos dotes e-méritos tinha pela frente. Como pode alguém que por anos a fio lutou consigo mesmo para saber o que sabe de música e do seu instrumento renunciar a tudo justamente quando começa a ser reconhecido? A recusa assusta e, a meus olhos, enobrece, pela coragem e desfaçatez do gesto. É o que você quis dizer. Nós ainda de chegada e tanto ido e tantos idos e indo.

  

NOS PEEL ACRES

 

Cinco minutos antes da hora combinada estamos à porta de Peel. Desta vez, cavanhaque bem desenhado por falta de pelos nas extremidades do lábio inferior e nada de bigode. Tem um pequeno badge redondo no peito do pulôver com um I’m a Super Bore pintado à mão.

  Vive em Hampstead numa casa de dois andares numa fileira de prédios vitorianos.

  - Benvindos aos Peel Acres – diz ao abrir a porta. - Normalmente isto aqui fervilha com grupos de visitantes e desalojados - informa, como que estranhando que tudo esteja tão calmo. John produz cantores e grupos debutantes que lança no seu selo, Dandelion - The company that doesn’t quite make it, como a define. Um avião que não decola...

  - Mal os Forest, eufóricos porque acabam de publicar o seu primeiro LP pela Harvest, se mandaram, depois de terem levantado as não negligenciáveis pilhas de pó da casa com os seus sapatos roubados e bem escambados, hoje de manhã pulo da cama com uma vigorosa disposição para enfrentar o dia e encontro remanescentes de três grupos espalhados pela minha sala de pintura estilo Louis IV: Principal Edwards Magic Theatre, Business, excelente grupo de Liverpool, do tipo de músicos bem lépidos, e o duo Medicine Head. Devem estar aí estourando de novo.

  Diz que vai fazer um chá e pede que o acompanhemos à cozinha.

  - A casa seria enorme não fosse o constante entra e sai de gente que acampa num ou nos dois quartos de hóspedes up in the roof, o andar de cima, ou onde dá para ficar.

  Seria ampla o suficiente, noto de volta à sala, não fosse o espaço estar apinhado de aparelhos de som e os cerca de dois mil LPs, EPs, compactos e 78 rpm que Peel diz colecionar há 16 anos e para que está  construindo um ‘sistema de encaixe bem elaborado’ que calcula poder estar pronto por volta de 1980, além de ‘milhas e milhas’ de fitas de gravação que enchem quase todas as paredes da casa, inclusive as dos quartos de hóspedes no ‘telhado’.

  - Ouçam isto. Stack Waddy, de Buxton. Vão tocar lá num festival semana que vem. Se quiserem vir, lhes dou carona. Tenho aqui uma fita deles que aliás, ao saber que vinham, pus no ponto para mostrá-la a vocês que vêm do Brasil, porque eles fizeram como que numa espécie de piada uma coisa que penso que acharão interessante.

  Pelo ampli Akai estoura um hard rock inconcebível. ‘Feroz’, digo, só para corresponder a uma sua insistente interpelação com o olhar aos dois. Trabalham na construção civil, informa, o que nos ajuda a entender a razão daquele som de britadeira.

  - Todo o disco que deveremos lançar é assim, com a única diferença que, no final, por brincadeira, eles gravaram uma sua versão – adivinhem de quê?

  E após um hiato entra no ar uma versão de... Girl from Ipanema! Qual João Gilberto... O vocalista parece ter querido seguir à letra um dos supostos pressupostos da bossa nova – desafinar, e o acompanhamento tosco dá a entender que o executante pôs-se a gravar a base de violão logo após ter posto de lado a britadeira. Mas a mensagem dos Stack Waddy é clara: querem musiquinha bonitinha e bem tocada, seus burgueses de merda?!

  Não dá para de primeira captar o sentido da letra da faixa que Peel põe a seguir, a pedidos, porque lá no Rio líamos a sua coluna no Disc and Music Echo – que comprávamos quase que exclusivamente por sua causa - e volta e meia ele falava nele, compacto que põe no prato do Goldring Lemco com uma canção chamada 1917 Revolution, de um certo Beau. Olhos nos olhos continua-se a não se perceber se ele fala a sério ou de brincadeira quando confirma, entre risos, que chegou ao topo das listas de vendas de discos no Líbano.

  Estamos sentados no carpete da sala de pintura Luís IV à volta de uma grande mesa de vidro baixa onde se vê alguns livros de farmacologia de Pig, como chama a sua namorada, uma grande coleção de joaninhas magnéticas coloridas e uma gaiola com uma espécie de rato branco que diz ser uma gerba.

  - Apresento-lhes Uproar, assim chamada porque não deixa ninguém dormir pulando a noite inteira de um lado para o outro. O meu manual de tratamento de gerbos e hamsters diz que eles não mordem, mas não aconselho ninguém a chegar perto desta.

  Num grande armário baixo encostado a uma parede circula outro animal do gênero, Biscuit, uma hamster. Sobre o armário, uma outra gaiola com três hamsters chineses.

  Toca o telefone. John Walters na linha. Peel ri muito. O seu produtor é de Manchester e telefona para tirar um sarro do amigo, um fanático torcedor do Liverpool, que voltou a perder de goleada, desta vez para o próprio Manchester United, por 4 a 1. Ultimamente os red devils têm prodigalizado os torcedores com exibições do gênero, e Peel mostra-se perfeitamente adequado à fase de baixa, permitindo-se gozar com a situação.

  - O céu aqui em cima encheu-se de raios e estranhas criaturas, bruxas velhas voando baixo em longas, obscenas e borbulhantes cerimônias – sussurra ao aparelho, quando pára de rir e antes de convidar o interlocutor a vir a sua casa.

  Ao voltar põe uma faixa de um LP do Burnin’ Red Ivanhoe, grupo que conheceu na Dinamarca e de que faz muita publicidade. Informa que tocaram antes com dois músicos de jazz que vivem lá, John Tchcai e Don Cherry. Digo yeah como quem reage a um mugido de vaca. Mal sei quem é Cherry e nunca ouvi falar de Tchcai. Como se não bastasse, Penal Reform – que Peel apresenta como réus confessos de ser influenciados por música turca e Ornette Coleman. Eis-nos no mundo bizarro de Peel.

  Diz que Walters deverá estar chegando com um bando e convida-nos para comermos alguma coisa enquanto esperamos. Tira do forno um carneiro assado que serve com batatas e cenouras esquentadas em banho maria.

  Choca em Peel de forma um tanto quanto negativa a simplicidade e singeleza dele, da sua casa e dos utensílios, a comer de colher e a agarrar um pedaço de carneiro com a mão, sem nada daquela aura de brilhantismo que se espera dos grandes astros.

  É noite de Monty Python’s Flying Circus na BBC e comemos entre risos. A insolência do grupo, totalmente fora dos parâmetros normais, me leva a pensar em como a estação oficial admite uma coisa do gênero, porque não respeitam a Rainha nem os hábitos mais consagrados dos seus súditos. Spam, spam, spam... é o bordão de um deles, num quadro de restaurante, segundo Peel de gozação com a monotonia da culinária local, em que o único tempero de todos os pratos é um molho de spice (especiarias) e ham (presunto). A origem da presuntada enlatada que alimentou muitos americanos na Grande Depressão, base da pirâmide do junk food e suprassumo do fast food. Monty Pythons não é para iniciantes como nós.

  Ding-Dong soa a campainha. Chega Walters mais um bando de cabeludos e a noite fervilha.

  Ouve-se Nothin’ Shakin’, de Eddie Fontaine, numa cópia toda picada que Peel diz ter comprado a um homem em Chettenham, Principal Edwards Magic Theatre, Zoot Suit pelo High Numbers, a primeira formação do The Who, Chuck Berry, Johnny and the Hurricanes, Little Richard, Fats Domino, Hey Doll Baby, pelos Everly Brothers, vários membros do Principal e do Business rolando excitados como macacos no chão do salão dos palacianos Peel Acres até que finalmente, para acalmar os ânimos e pôr fim à pândega, o senhor dos domínios põe a balada Take Into Your Eyes, de Roy Harper.

  Numa das idas à cozinha Jimi topou com parte do bando a fumar um cigarrão de hash, em que deu umas belas tragadas. Bela farra para começar.

 

 

Fica em Derbyshire, a 48 milhas de Chester, 24 de Chesterfield, 34 de Derby, 35 de Huddersfield, 12 de Macclesfield, 25 de Manchester, – ah, sim! - 28 de Sheffield, 24 de Stock-on-Trent e a 159 milhas de Londres...

   

no extremo sul dos Peninos, no coração do Parque Nacional de Yorkshire do Sul.

 

 

 

 

 

  

Lay-abouts, hippies, skinheads, capitães de times de cricket, rockers, mods, empregados de lavandaria, Hell’s Angels em crise num drama de investigação sobre doping de cavalos – tudo continua sendo alvo de sermões do vigário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

          Joni Mitchell   Grécia  1971

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

  Grace Slick in Wonder   land

 

After Bathing at Buxton’s

  A excursão a Buxton cai em excelente hora. Dinheiro no bolso e fumo na bolsa.

  - Onde fica isso? – pergunto a John.

  - De brincadeira - apesar da sisudez britânica, com o não menos típico humour dá-lhes muito para a brincadeira infanto-juvenil -, tive a paciência de fazer os cálculos no mapa que talvez inclua na minha coluna do Music Echo (outra brincadeira, porque em tom de chalaça ainda mais baixo que o normal diz que de boa música, ali, só se tem ecos). Fica em Derbyshire, a 48 milhas de Chester, 24 de Chesterfield, 34 de Derby, 35 de Huddersfield, 12 de Macclesfield, 25 de Manchester, – ah, sim! - 28 de Sheffield, 24 de Stock-on-Trent e a 159 milhas de Londres... Local improvável para um fim de semana de alegrias. Serão duas noites de música da Dandelion, associada a vários pequenos produtores, e curiosamente patrocinadas pelo clube de futebol e rugby da cidade.

  Vamos na sua kombi com a doce e gentil Pig, de longos cabelos pretos lisos e escorridos, que estuda Farmácia e costuma fazer desenhos em nanquim no estilo dos de Lennon, e que aproveita a carona para seguir até Bolton, além-Manchester, para passar o fim de semana com a família, e – se tivermos sorte com o carro – descer com a gente na volta. Peel chama carinhosamente a viatura de Peelmobile. É uma Bedford Dormobile. Na traseira fez um original arranjo com o banco traseiro e dois pequenos estrados de sobe e desce, fixados por rolamentos às laterais e com que compõe camas que segundo ele dão para quatro pessoas. Diz que está muito desgastada e que já nem se arrisca a sair com ela de Londres – este talvez seja o seu último passeio.

  Acaba por ser uma viagem de seis horas, com paragens para almoço e chá na beira da estrada, quando aproveitamos para recalibrar as baterias com o hash do Business às escondidas de John, que não sabemos se fuma ou não, mas se o faz é às escondidas de nós, talvez por especial cautela em relação ao fato de sermos menores de idade. Por curiosidade nossa o resto da manhã e a tarde decorrem sob o signo de uma das grandes invenções da década, os festivais de rock.

  - Houve tão bons concertos, festivais e reuniões nesses anos. Alguns atraíram centenas de milhar, outros só uma mão cheia de pessoas. Alguns gratuitos, outros caros demais. Alguns com ampla publicidade, outros acontecendo de forma quase espontânea para uns poucos amigos. Com eles houve uma vasta revolução musical e a música popular nunca mais será a mesma, mas imprensa, rádio e televisão não se dão conta disso.

  Cansou, diz, e para ele nada de big festivals.

  - Dou todo meu apoio a qualquer tipo de manifestação de resistência ao Sistema, mas não há mais espaço para o sonho. Concertos em Fairfield Halls, Albert Halls, Free Trade Halls e coisas do gênero só funcionam se não forem ‘estruturados’ demais, e isso é impossível. Também os pequenos e aconchegantes teatros das faculdades, com a sua atmosfera formal, não parecem funcionar bem para grupos. Há duas semanas fui ao University College Theatre para ver parte de uma série de mixed media evenings. Desde meados dos anos 60 tem-se abusado do termo, como foi o caso, porque não houve teatro, mímica, poesia, shows de luzes e coisas do gênero. O problema é que desde o ano passado os festivais, que poderiam ser uma excelente alternativa aos teatros tradicionais, inadequados para o gênero, passaram a ser tentativas de negócios chorudos. Todos a querer ser mais importantes que Woodstock mas, como se viu em Altamont, a história não se repete. Nem Wight em 69 foi tão bom.

  - Para você Woodstock foi só business?

  - Não, pelo contrário, os tipos lá nem tinham idéia do que estavam fazendo e de quão grande e importante a coisa ia se tornar, e foi importante porque reuniu quase meio milhão de pessoas mas sobretudo pela atenção que o enorme engarrafamento que provocou e a falta de comida despertaram em todo o país, e também no mundo, sobretudo porque não houve um incidente sequer. Os ‘quadrados’ ficaram pasmos que se possa viver numa cidade sem polícia. O problema é quando se organiza uma coisa do gênero e, aspectos técnicos à parte, já se tem na cabeça o que será: um caça-níqueis. É claro que as pessoas devem poder aspirar a viver da música rock e usá-la também como um negócio, mas não abusar e tentar enganar os outros com um produto absolutamente novo que logo se desvirtuou.

  Trouxe para Londres um artigo reproduzido num jornal do Rio:

  Não sei se a ‘imaginação está no poder’ no seio da juventude americana mas Jean-Jacques Rousseau sim, sem dúvida. ‘O bom selvagem’, a não-violência, a não agressividade agressiva, a droga agradável, o homem nu e aperfeiçoável. A radiosa utopia. Woodstock, a cerca de 4 horas de N.Y. Dois rapazes empreendedores, um hippy sem chavo e um futuro herdeiro de milhões tinham dito ‘Faz-se lá um festival de rock e ganha-se uns trocados’. Ganharam foi 2 milhões e meio de prejuízo e 400 000 jovens em cima. Na véspera do festival os organizadores acordaram: 30 mil jovens acampam no recinto (teórico) do teatro ao ar livre em frente do estrado... John Roberts tinha gasto a sua herança em 12 horas. ‘Já não tenho nada a não ser dívidas, mas os jovens foram formidáveis e isso vale por tudo.’

  O médico-chefe do serviço sanitário disse: ‘Nunca vi nada como isso aqui. Os kids foram formidáveis.’ Afirmou Joan Baez: ‘Foi fantástico. Na chuva, na lama, sem teto, uma cidade gigante de jovens, dormindo por toda a parte.’

  Richard Reeves, do N.Y. Times Sunday Magazine

  - E Wight?

  - Fui lá. Legal. Mas muita confusão e atrapalhação, com horas de espera entre uma apresentação e outra. E Bob Dylan desiludiu. Se não quer tocar, para quê cobrar 42 mil libras ou o que foi para fazer de conta que toca, de trombas? Não ganhou já dinheiro suficiente?

  Por uma vez, a abrilhantar o primeiro passeio pela Inglaterra, além da monótona viagem ida-e-volta pelos subúrbios fabris na linha de Chelmsford, quase não se vê uma nuvem no céu. Em dia excepcional a temperatura beira os 30 graus e o Dormobile tem problemas de radiador. Peel receia ter de deixá-lo em Buxton e pegar uma carona. Nesse caso teríamos de voltar de trem, o que já não seria tão divertido. Duas vezes paramos e na segunda aumenta o fervor com que o acompanhamos em murmúrios de encorajamento à valiosa máquina enquanto se enche o radiador que parece a ponto de explodir.

  Fala-se – fala ele, a pedidos – de rádio.

  - A coisa mais engraçada que me aconteceu na vida foi ano passado. Nas minhas primeiras férias em 14 anos fui com Pig e meu irmão Allen no Grand Tour do Continente. Estávamos com o Peelmobile e ele também teve problemas até chegarmos a Luxemburgo, onde tivemos de ficar dois dias esperando o conserto. Como bem sabem aqui não dá para ouvir Radio Luxembourg em boas condições. Aproveitamos para saber como seria ouvindo-a de perto. Quatro da tarde, Teenybopper Turn-On Time – Hora da Sintonia Teenybopper, não sei o que é propriamente um teenybopper mas deve ser um painfully abused group – um grupo penosamente espinafrado... Quando a sintonia é melhor Radio Luxembourg parece ainda pior do que quando se ouve entre aqueles ruídos e altos e baixos de volume da má captação.

  Radio Luxembourg em inglês funciona das quatro da tarde às duas da manhã, e serve apenas para se dizer que existe uma alternativa à BBC, porque toda a programação até meia-noite, quando entra no ar o Kid Jensen Show, feito por um disc jockey canadense com muito bom gosto, beirando o underground, tudo é igual ou pior que a Radio One, com puro plástico de usar e jogar fora.

  Peel esteve apenas seis meses na Radio London. Em 1969, no segundo aniversário da Radio 1, britain’s only pop music station (enquanto na América elas as há aos montes há muito tempo), foi eleito em sondagens o melhor disc jockey britânico com o dobro de votos dos segundos colocados, gente como Kenny Everett e Emperor Rosko.

  - As pessoas tendem a pensar que existia mais liberdade nas piratas que na Radio One. Mas nas duas, Rádios London e Caroline, havia uma rígida grade musical a ser seguida e era muito comum a proibição de discos. Desdemona, do John’s Children, o segundo grupo de Marc Bolan, por exemplo, foi proibida. As piratas tinham a vantagem de dar a ilusão de liberdade e também a de haver uma genuína amizade entre os seus disc jockeys. Pudera, vivendo praticamente um em cima do outro por meses a fio, não fosse assim e o barco iria a pique...

  Buxton fica no extremo sul dos Peninos, no coração do Parque Nacional de Yorkshire do Sul. Eu e Jimi vamos dormir no... Dormobile, John numa casa que estava abandonada e que foi ocupada por membros do que ele chama de gozação de Principal Edwards Magical Trousers, onde poderemos tomar uma ducha e comer.

  - Recentemente Scene, uma seção do Disc, descreveu o Paradiso de Amsterdam como um ‘hive’ (cortiço) para ‘lay-abouts’ (andarilhos sem eira nem beira). Ora, alguns dos meus melhores amigos são ‘lay-abouts’. Lay-abouts, hippies, skinheads, capitães de times de cricket, rockers, mods, empregados de lavandaria, Hell’s Angels em crise num drama de investigação sobre doping de cavalos – tudo continua sendo alvo de sermões do vigário. Vocês vão poder testemunhar em Buxton a hordas de grupos nunca vistos. Ao fim ao cabo bandos de ‘lay-abouts’ – promete-nos.

  Nem perguntamos, e ficamos surpresos – e de certo modo desiludidos, porque nunca estivemos em um – ao saber que o festival não é ao ar livre mas num ginásio de esportes. Mais uma vez acorreu muito mais gente do que o previsto e uma multidão tem de ficar do lado de fora espreitando pelas janelas ou ouvindo das caixas de som instaladas na cafeteria, sempre abarrotada. Não é propriamente um festival mas uma série de duas noites de shows mais alargadas que o normal, que é a apresentação de três artistas por noite. Quando entramos está tocando o Occasional Word, a que se segue Mike Hart, um ex-cantor de um grupo obscuro chamado Liverpool Scene, com os já familiares Business. Impressionante a quantidade de músicas do repertório do Cream que o pessoal toca em 1970:Crossroads,Politician, Sitting On The Top of the World. Algumas nem sequer connheço – identifico-as pelo título ou pelas letras de Pete Brown, o letrista parceiro de Jack Bruce, colega de Lennon na escola técnica de arte de Liverpool. O som é muito ruim, pouco mais se ouve além de um ritmo viril e muitos entre os de espírito mais fraco são levados a procurar alívio e conforto no bar.

  A primeira noite fecha com Spirit of John Morgan, que é o nome do líder e organista do grupo, que usa uma capa que de longe parece uma cortina velha. Blues do melhor, mas à inglesa. Spirit não apresenta nenhum clássico do gênero. Morgan está de muito bom humor:

  – Look serious, man, this is the blues! – grita entre duas músicas, em reação a urros da platéia. – Don (o vocalista) gostaria de cantar sobre campos de algodão mas nunca esteve em nenhum – alfineta os cultores do estilo mais tradicionalistas.

  Entrar de graça, ser parte da cena. Jimi delira enquanto se fuma num jardinzinho atrás de uma igreja em estilo neo-gótico que deve ser o monumento mais importante da cidadezinha, na fronteira da região altamente industrializada de Sheffield, Manchester, Merseyside e Liverpool e com a mítica Nottingham nas costas, mantendo ares de pequena cidade de montanha com longos declives gramados que devem ser uma delícia para se deslizar de tobogã no inverno. Quase não dormimos, na conversa fiada, rindo das cenas da noite, excitadíssimos.

  Saímos de manhã cedo, fechamos a kombi, deixamos a chave pendurada num gancho ao lado da porta da cozinha e vamos passear pela cidadezinha. Tomamos banho e almoçamos em casa das Calças Mágicas, para variar um stew vegetariano como o dos indianos de Londres em que comemos estufado de legumes com molho de soja e muito chá preto. Noto no entanto que sobretudo dois membros dos Trousers, com os curiosos nomes de Root e Bindy, dão-lhe bem direto do gargalo de uma garrafa de gin. Comunidade alegre e engraçada, esses Principal, um bando que, por analogia sugerida pela nossa localização, parece saído de uma aventura de Robin Hood, embelezado por três garotas muito jovens e cheias de garbo que parecem bem integradas ao grupo. Passamos a tarde jiboiando atrás da igreja.

  - O cenário seria perfeito para nossa estréia em LSD, ahn? Dá para imaginar quantas tocas de coelho haverá nessa encosta – põe-se Jimi a delirar. O dolírio, como logo o apelidei, começou quando nos preparávamos para a viagem em Londres e depois do banho ele se pôs a fazer um trocadilho com o título do terceiro disco do Jefferson Airplane, After Bathing at Baxter’s, que ouvíamos no Rio em sessões contínuas, como em mini-seminários ou cerimônias iniciáticas, à luz de velas e perfume de incenso fornecido por Lu Silveira para lhes dar uma atmosfera mais consentânea com o clima psicodélico de que fazíamos também boa idéia pelas descrições em flashback do Rolling Stone das jams em salas como o Matrix e o Fillmore West de San Francisco, no auge da era flower power.

  - Mesmo sem ácido temos a base material e teórica para um verdadeiro After Bathing at Buxton’s, embora ainda também nos falte ler o monólogo de Molly Bloom, de Ulisses, em que Grace Slick e Paul Kantner se inspiraram para fazer o disco – viajava enquanto enrolava e arrumava as camisetas na mochila.

  - And if you go chasing rabbits and you’re going to fall, tell ‘em... ah... a smoking... E se daqui a gente fosse caçar coelhos e caísse numa toca... diríamos a eles que... a smoking caterpillar... UMA LAGARTA FUMADORA!... – dá uma tragada mais funda e no vácuo da sua pausa entro na atmosfera do travesseiro surrealista de Jefferson:

  - A smoking caterpillar has given you the call!! – destoo urrando acima da sua voz fanhosa. – E CHAMA A ALICE QUANDO ELA ESTAVA DO MESMO TAMANHO! – após o que caio no sono, talvez sonhando com Alice ali com a gente, encosta abaixo, procurando tocas de coelho para dar umas baforadas num narguilé bem temperado, e só acordo na hora de irmos correndo para o encontro com Peel, que já entrou, e ficamos horas olhando de fora esperando que alguém o chame, mas qual nada, até que ele estranhe nossa ausência já é muito tarde, e nem nos apercebemos de quem toca, porque mal entramos e já estamos de saída para o regresso.

  Peel não quer arriscar-se a ficar no meio da estrada de madrugada com o Peelmobile enguiçado. Arruma uma carona para nós no caminhão do equipamento do East of Eden, que tocou antes de chegarmos ao ginásio, e segue no carro de John Morgan.

  É impressionante a estrutura que mesmo uma pequena banda tem de manter e carregar. Um caminhão de equipamento, no mínimo um engenheiro de som para ligar as engenhocas e garantir a qualidade do espetáculo e dois road managers, que se revezam entre contatos sobre questões logísticas e técnicas de produção com os promotores locais e a função básica de carregar e descarregar equipamento.

  Este East of Eden já está num escalão mais alto, com um LP no mercado com que adquiriram uma certa projeção. Os três road managers vão na cabine. Eu e Jimi num vão livre da carroçaria onde estão um sofá velho de um lugar e um divã com colchão para fazer face a imprevistos. Morto de cansaço, Jimi estende o seu saco-cama, mete-se dentro dele e cai em sono profundo ao cerrar os olhos. Me enfio no meu e fico estirado no sofá com as pernas sobre os pés da cama. Custo a pregar olho, apesar da estafa e de tanto hash na cabeça. O aparelho de rádio do caminhão sintonizado na Radio 1 só transmite flashbacks e jingles pré-gravados. Quando entram Baby, Now That I Found You e Any Old Time You’re Lonely And Sad, sucessos de um e dois anos atrás do Foundations, pretensa réplica inglesa do Four Tops, dou por mim mais alerta que antes dançando e batendo palmas ao ritmo delas num recanto da floresta de onde se divisa o Pão de Açúcar entre as árvores, longe de sonhar em vir para a Inglaterra. Entra Dizzy, de Tommy Roe, que ouvi pela primeira vez em dezembro de 1968 num pacote de compactos que Lu Silveira levou de Londres, juntamente com o primeiro de Joe Cocker e Fire, de um tal de Crazy World of Arthur Brown. No conjunto, por coincidência, a trilha sonora de minhas primeiras festinhas. Somos acordados pelo motorista ao amanhecer ao lado do parque de Battersea.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  – Look serious, man, this is the blues!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

  Grace Slick in Wonder land

   

 

Rumo   a   Sunderland   &    Northumberland

  Telefono a Peel, que está subindo para Sunderland com Marc Bolan – do you know him, don’t ya? –, e pergunta se não estou disposto a ir, havendo lugar no carro.

  - Sunderland?! Where’s that?!

  - A sul de Newcastle, sobre o mar, na região de Tyne e Wear.

  Fog on the Tyne... fantástico! – lembro-me da brincadeira de Jimi, a bem pensar só uma dúzia de semanas atrás no Rio, estranha é a obra do acaso. Hesito ao pensar no dinheiro curto:

  - Tenho ingresso garantido? Onde nos encontramos e a que horas? – Aqui em casa amanhã às 10, são 250 milhas, oito horas para chegar lá devagar, porque Marc deve estar em forma para a sua performance. Comeremos alguma coisa na estrada.

  Não há lugar para dois mas Jimi, que quase endoida por ficar em Londres lavando prata enquanto me delicio com o que classifica de uma verdadeira expedição ao norte, também não poderia ausentar-se por dois dias, porque perderia o emprego tão perto de casa.

  Longa estirada por toda Inglaterra até quase à Escócia a partir da Motorway 1, muito tempo para ouvir o ‘papa’ da cena inglesa. A propósito dos oito anos de luta de Marc Bolan por um lugar ao sol fazendo a música que faz, Peel discorre sobre o seu ceticismo em relação ao underground:

  - Dois ou três anos atrás as pessoas iam assistir bandas de que nunca tinham ouvido falar. Isto parece muito revolucionário, não? Talvez os meus ouvintes e leitores mais velhos ainda se lembrem desses dias anárquicos em que as platéias aplaudiam atuações e não reputações. É até bom que as bandas mais conhecidas estejam cobrando tanto pelos seus serviços, porque muita gente sem dinheiro vê-se obrigada a trocá-las por outras e isso poderá pôr fim à atual onda de estagnação da cena.

  - Mas aqui não houve a bem dizer uma contestação política, como nos EUA, que ao que se diz gerou-se do medo dos jovens de irem para a guerra.

  - Mas havia um clima que poderia levar a algum lugar além da luta dos partidos políticos e dos sindicatos. Como, não sei, porque por aqui nunca houve movimentos espontâneos, dissociados de uma corporação. Seja como for, na nossa Bretanha o modo tradicional de lidar com a discordância é o de tolerá-la até a morte (o que explica muita coisa em relação à maneira de ser dos ingleses). Esta tática, a par com uma subreptícia campanha de feroz apoquentação, deverá mais uma vez dar frutos e fazer do Underground apenas mais uma etiqueta comercial. No início um pequeno grupo quis criar uma espécie de sociedade alternativa não-egoísta. Na verdade sempre houve um underground. Os primeiros cristãos, por exemplo, difundiram sua mensagem de alegria e amor enquanto sofriam uma violenta perseguição. Com o tempo foram desenvolvendo estruturas e preconceitos que fizeram da igreja uma das instituições menos religiosas do mundo. Cristo teria permissão de entrar na Capela Sistina com o cabelo tão comprido? Quanto amor e alegria emanam de Ian Paisley? O progressivo desvirtuamento do movimento de ocupação dos prédios abandonados do centro de Londres (squatting), que revela insensibilidade, falta de miolos e egocentrismo, é um bom exemplo. Em pouco tempo passou a ser guiado por gente que não tem o que fazer e que no primeiro momento de perigo telefona ao papai ou à mamãe pedindo socorro e faria melhor se pensasse a sério naqueles que nunca tiveram oportunidade de drop-in (inserir-se), quanto mais de drop-out (abandonar o Sistema). Exemplos como esse e outras situações paralelas mostram que a melhor maneira de agir será por meios individuais ou de pequenos grupos trabalhando numa espécie de esquema de guerrilha. Os inimigos não são o dinheiro, o Estado ou os mass media, porque os seus males estão bem à vista. Os inimigos são de ordem interna - o egoísmo, a preguiça, a falta de sinceridade e a aparente inevitabilidade de estruturar. Elege-se um representante e logo começa a decadência. E assim é também na música. Os indivíduos, postos na roda viva dos mecanismos da indústria parasita, vêem-se cercados e prensados contra a parede por toda a sorte de jogos de interesse e, se não renunciam à causa, deixam ao menos de pô-la na frente de tudo o resto.

  Quem nos guia é a mulher de Bolan, Junechild, que pilota por estradas sonolentas enquanto Marc e John lêem Marvel Comics e não desprego os olhos da paisagem. Comemos rubbish em restaurantes de beira de estrada. A viagem decorre sem incidentes. Tommy Vance debita What’s New, que conheci há pouco tempo através de Maria Bethânia, e o entusiasmo cresce quando entra Joe Cocker em Delta Lady. Passamos pelo descampado de Yorkshire, de gloriosa e sanguinolenta fama na guerra pela possessão do território entre saxões, normandos e vikings e depois entre brits e scots, quando se ouve Juicy Lucy. O rádio está sintonizado no canal de televisão da BBC e todos reagem como se o Liverpool tivesse feito um gol, mais pela surpresa de ouvir algo do gênero na TV do que pela música em si.

  - Será que nos enganamos de emissora?! – admiram-se os convivas, cujo entusiasmo faz com que a música passe quase despercebida. A surpresa leva John a falar sobre a relação dos meios de comunicação de massa ingleses com a música do seu país:

  - Se formos olhar para o lado econômico de tudo isso, todos esses grupos trazem ao país uma pá de grana que depois é gasta de todas as formas estúpidas e assassinas em que os governos costumam usar o dinheiro, mas não têm o mínimo apoio da mídia. Ninguém é profeta na própria terra...

  Até aqui, penso. Lembro-me a propósito das cartas enviadas para os semanários de música dos lugares mais recônditos e inesperados e falo-lhe da do Perera de Sri Lanka. Ele pede-me para procurar na sua pasta uma que recebeu há dias de Praga, que pego e leio em voz alta, enquanto o pessoal ri com o inglês capenga:

I wanted ask you if you would be interested in visit of three the Prague beat festival in March. Well in the case the things are going O.K. till then. Sorry ‘bout  my typing. I have to admit they are getting worse till now as you probably see in your papers, in the case you read them. I better stop now. It makes no difference now as we are not allowed travel anyway. Please if you or any of your friends get any of U.S. valuable records, even older. Send them over here just for few fans in little club.

Eu queria saber se estaria interessado em visita de três o festival beat de Praga em março. Bem caso as coisas estejam indo O.K. até lá. Desculpe a datilografia. Tenho de admitir que eles estão piorando até agora como talvez você veja nos vossos jornais, caso os leia. Melhor ficar por aqui. Não faz nenhuma diferença agora porque não temos autorização viajar. Se você ou um amigo conseguir algum disco valioso americano, mesmo antiquado. Mande para cá só para alguns fãs em pequeno clube.

   - Mais uma prova de que a boa música tornou-se mais importante como fator de ligação entre os povos do que a mídia imagina – comenta John.

  - E a música de qualidade dá mais dinheiro, talvez, do que o pop comercial, que só vende muitos compactos e, vá, alguns LPs, mas de repente não rende tanto dinheiro como o das turnês que as melhores bandas fazem por toda a Europa e os EUA – arremata Bolan.

  - Certa vez Steve Ellis, dos Love Affair, escreveu que eu era musicalmente intolerante, o que me deixou muito entristecido, porque o que procuro criar é precisamente um clima de tolerância musical.

  - E de fato você parece ter um gosto bastante eclético.

  - Só não toco certos hits que até acho bastante bons porque os outros já o fazem e não há tempo, num programa de apenas duas horas por semana. Infelizmente muitas pessoas erram o alvo e acham que tudo deve ser progressive, o que quer que isso seja – meros artifícios para dar respeitabilidade à música rock, que ela não quer nem precisa, com casamentos arranjados com o jazz, o clássico e outras coisas. Deep Purple In Concert com a Royal Phillarmonic Orchestra – que necessidade há disso?! Não é por acaso que Ian Gillan está também nessa produção de Jesus Christ Supestar, a rock-opera de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. Pior ainda são os exageros que se comete com essa nova mania do moog synthesiser. Led Zeppelin, por exemplo, sabe usá-lo na dose certa. Não estou seguro de se o LP Five Live Yardbirds ainda está no mercado – é provável que não. Mas é um autêntico tratado. Foi gravado ao vivo no Marquee. Muito mal gravado por sinal. Mas a atmosfera é tão boa! Prefiro mil vezes um disco ruidoso e tosco que todo um balcão de bar lotado de truques de estúdio antisséticos e polidos.

  Charnecas acima em planícies a perder de vista, aqui e ali uma floresta, longos trechos de centros fabris, em geral sem árvores, com vegetação rasteira de musgo e grama. Quase tudo muito inóspito, longe do famoso countryside dos filmes, que deve ficar no sul.

  Peel lembra-se de Nothin’ Shakin’ de Eddie Fontaine e Bolan ataca uma versão a capella. Diz que depois de Sunderland vai para um festival em Bellingham e pergunta-nos se não queremos ir.

  - Eu não posso, como te falei vou tentar conseguir uma carona com algum colega lá em cima, por que você não vai? – rebate Peel e olha para mim.

  - Meu único problema é que tenho pouco dinheiro.

  - Não é problema. Dorme no carro – convida Bolan. – Você tem um saco-cama, pode perfeitamente dormir aqui, não?

  Nem sei onde fica Bellingham. Em Northumberland... Nortúmbria... Pego no Baedeker, um dos bons investimentos que fiz com o dinheiro da venda da passagem, numa rara edição inglesa que tem trechos sobre a história de cada lugar. No sétimo século, sob a liderança dos condes Edwin, Oswald e Oswy, a região proclamou sua autoridade sobre todos os anglo-saxões, dando início ao processo de unificação política da ilha.

  Chegamos a Sunderland, estância balnear sobre o Mar do Norte. O local do show, o Locarno, é chamado pela população de Fill-i-more North, em referência aos famosos Fillmore East e West dos EUA, porque também é um antigo salão de baile com uma atmosfera surreal. Ao seu redor há um jardim com palmeiras de cimento, que segundo Peel foram recentemente ‘alvo’ de Roger Chapman, vocalista dos Family, que já devia estar bem tantã.

  - O Nordeste é uma das melhores regiões do país. O pessoal por aqui é tão simpático e amável. Nunca vi tantas damas assombrosas num só lugar. Qual sul de Espanha! O lugar para passar férias é Sunderland! - entusiasma-se ao sermos recebidos por uma relações públicas da produção, sem sombra de dúvida uma dessas wondrous ladies de que fala.

  Marc precisa encontrar o seu parceiro, que veio de Londres na véspera com a equipe da estrada, e afasta-se rindo e abanando a cabeça abraçado a Junechild.

  O primeiro grupo a tocar chama-se Stone the Crows, banda escocesa de que nunca ouvi falar, e que quase me deixa louco sobretudo por causa da sua vocalista, Maggie Bell, uma espécie de Joe Cocker de saias abaixo do joelho e botas. Penso estar ouvindo a melhor cantora de bluesrock do mundo. Faz lembrar Janis Joplin mas demonstra ter muito mais controle da sua possante voz que a rainha do Texas, que à quarta ou quinta música de Cheap Thrills, do Big Brother and the Holding Company, parece uma máquina de cortar aço.

Após o choque Tyrannossaurus Rex esfria o ambiente quase ao ponto do congelamento, porque sua música pouco ou nada tem a ver com a vibração do bluesrock elétrico e eletrizante, impelindo a sonhos de ambientes diáfanos e etéreos com uma atmosfera que nos transporta aos primórdios de Eddie Fontaine, sim, Buddy Holly, Gene Vincent e Eddie Cochran. Surpreendo-me ao ver Bolan/Ariel, como o idealizo, empunhando uma Fender Stratocaster, porque o clima das longas horas de viagem me fez imaginá-lo um Donovan ou um Caetano Veloso que em pleno palco tiraria da caixa o violão e daria um recital de baladas impressionistas ou surreais. Sua música está a meio caminho entre o rock’n’roll e a balada, e só ele com um outro anjo caído sentado no chão em frente a um par de bongôs marroquinos e uma caixa de onde tira guizos e sinetas não poderiam fazer a sala fervilhar como no set do Stone. Mas apesar de não pretender ser nenhum Eric Clapton, Marc/Ariel faz soar uma porrada de coisas interessantes e originais nos seus solos de guitarra. Micky Finn, por seu turno, parece mal na própria pele no acompanhamento. O set me faz lembrar Sally Robinson e seus big brass and back e madrigais, com um grande encantamento, e desilude. Parece ter sido pensado justamente para trazer o público do frenesi a um clima mais consentâneo com a música do Pink Floyd, que no entanto faz os meus ouvidos estalar pela diferença de decibéis e ao décimo compasso da sua atuação me sinto transportado de Sunderland - em quadrantes nórdicos inimagináveis por toda minha vida – a Urano. Cada música, alucinatória, soa como um risco de vida - Interstellar Overdrive projeta a minha dose de ecstasy a um nível excessivamente perigoso. São três da manhã quando, após quase morrer de frio a fumar um joint de hash atrás de uma sebe, olhando para as palmeiras de pedra e pensando que teria de fazer um esforço dos diachos para me sentir no Posto 8 de Ipanema, reencontro Marc e Junechild para seguir até Bellingham, em Northumberland, a uns 80 km daqui.

   Tyrannossaurus Rex & Macbeth

Quem diria, eu aqui com um quase desconhecido e encaracoladíssimo jovem cantautor que conheci em sessões obscuras, à noite, à luz de velas, para dar-lhes um ambiente mais surrealista, com Jimi e Solemar, ouvindo dois discos que encomendamos a Lu Silveira pela enorme curiosidade que a insistência de Peel em falar dele nos despertou. Por nada deste mundo me passaria pela cabeça estar no banco traseiro do carro do futuro precursor do chamado cosmic rock e, pior, da glitter music do inefável Gary Glitter. Sempre pensei, até pelos longuíssimos títulos dos seus primeiros discos, com Steve Peregrine-Took no lugar de Finn, que ele sequer sonhasse com sucesso de vendas - My People Were Fair and Had Stars In Their Hair, But Now They’re Content To Wear Stars On Their Brows; Prophets, Seers and Sages - The Angels of Ages; (She Was Born To Be My) Unicorn. Está em turnê de lançamento de A Beard of Stars, gravado com Finn.

   Relato-lhe baixinho as minhas impressões e rindo ele me fala da reação de Hendrix nos bastidores do programa da BBC Ready, Steady, Go: - Hey, man, you’ve got a funny voice!

     Só engraçada?

A caminho de Bellingham passamos pelos arrebaldes de Newcastle através da região entre as bacias do Tyne e do Wear, um dos berços da indústria moderna, a massa amedrontadora de galpões imensos do que resta das primeiras fábricas e chaminés do planeta a olhar-nos do outro lado, antes de entrarmos na mítica Northumberland, território macbethiano, como dissera Peel de brincadeira. Mas não se vê nem bruma sobre o Tyne...

Atravessamos Northumberland antes do amanhecer, o ambiente perfeito para um filme de mistério e terror. Olmos negros parecem avançar sobre nós à medida que o casario desaparece e começa-se a ver uma ou outra pequena casa isolada como que saída da história da Branca de Neve, com paredes caiadas e sólidas portas e janelas em estilo rústico, sobre a estrada estreita e sem sinalização. Numa colina de um dos lados vê-se as ruínas de um velho castelo em cujas imediações as três weird sisters, as estranhas feiticeiras consultoras do rei, que poderiam muito bem continuar morando ali perto numa gruta, estariam preparando a poção em que fervem os condimentos de uma tragédia sem fim, como sussurra Marc quando falo do alto poder sugestivo da longa brincadeira de Peel em torno das mil e uma peças de Ol’ Will Shakes, como o chamava. Bruxas velhas voando baixo em longas, obscenas e borbulhantes cerimônias, quase também o universo das viagens bolanianas, não fosse ele só mirar entes do bem.

Marc quer dar uma olhada no local do festival onde irá tocar de noite antes de voltar para dormir num hotel por que passamos, à saída de Bellingham. Pensando na voz metálica que entoa melopéias repetitivas e turvas, mais as bizarras letras do bardo que me guia, dou por mim inesperadamente em estado próximo ao terror e, no regresso, quando me vejo sozinho estirado no banco traseiro do Range Rover, penso na estória de ódio, vingança e muito sangue de Shakespeare a que Peel se referiu em detalhe na véspera, entre risadas, sugerindo a possibilidade de scots e brits poderem de novo engalfinhar-se em lutas terríveis como as que viveram em boa parte da história, com emboscadas e chacinas do escurecer à aurora.

Para espantar fantasmas e ver se durmo abro o mapa do Baedeker. Estamos num parque nacional na fronteira com a Escócia, a noroeste das terras de Humber e a dois passos de Fife, num baixio próximo à cadeia dos Cheviot. Cenário de guerras constantes por centenas de anos.

O estado entre o encantamento e o pânico não irá me abandonar até a madrugada seguinte, quando entro no Rover para um dia de viagem de Bellingham a Londres em que eu e Marc passamos quase todo o tempo dormindo guiados por Junechild, que quando não está ao volante deve dormir o tempo todo, porque não a vi desde que chegamos a Bellingham.

   Brancas de Neve, louras, ruivas ou de longos cabelos negros e uns poucos milhares de gnomos e duendes, freaks, um filme absurdo, entre o maravilhante e o aterrador, sobretudo no site do festival, que começou na véspera, cercado por tapumes na orla de uma floresta de urze e olmos cujas manchas negras, entre músicos e roadies de longos cabelos e barbas, vestidos com roupas cada qual mais bizarra, me transportam a um passado remoto de que acordo para mirabolantes viagens eletrônicas ao som de ‘grupos nunca vistos’ nem ouvidos, a começar por Blosson Toes, que faz uma espécie de rhythm and blues bem tosco sob a impecável direção do guitarrista Jim Creegan. Estou no bar após o concerto, comendo um gorduroso sanduiche de carneiro com a boca ardendo por causa do estranho molho de mostarda com pickles com que estragaram o pernil quando se aproxima um cara com ar de mendigo suando em bica, ninguém menos que o próprio guitarrista dos Toes, que pede uma Guiness e um gin puro (!) e que ao pôr os olhos em mim me pergunta:

– Você não é inglês nem escocês, pois não?

Arregala muito os olhos ao saber de onde venho, bate no meu ombro e agradece o cumprimento pela ‘excellent gig’.

- Mas Blosson Toes (Dedos dos Pés, Biqueiras de Sapatos Florescentes) -, o que quer dizer? – engato súbito em sequência.

Nada de especial – responde quase em sussurro.

– Estávamos procurando um nome sem achar nada que prestasse até que certa vez um tipo do management office acordou, disse ‘Blosson Toes’ e voltou a dormir. Achamos ótimo e assim ficou.

Dá uma golada no gin e manda o que sobrou para o copo onde verteu parte da Guiness (!!!) e diz que acabo de ver sua última atuação com a banda, porque acaba de ser contratado para tocar com Family, de Roger Chapman. É a minha vez de arregalar os olhos.

Estamos quase ao lado do palco onde agora atua Chicken Shack, protagonista de um extraordinário sucesso meses atrás com o blues I’d Rather Go Blind, cantado pela mulher do baterista e fundador do Fleetwood Mac, John McVie. Christine Perfect acaba de deixar a banda, que voltou a ser liderada pelo guitarrista Stan Webb, que também atua como vocalista e está à frente de mais uma das inúmeras impagáveis bandas de blues britânicas. Só lamento não ouvir de novo o seu maior sucesso pela voz de Perfect McVie.

O que vem a seguir insere-se no capítulo dos momentos inenarráveis. Um trio chamado Edgar Broughton Band, com o meu homônimo na lead guitar e em vocais de arrepiar defunto e seu irmão Steve na bateria, mais um baixista. Creegan, que se mantém ao meu lado se ‘refrescando’, apesar de esta ser a noite mais fria de minha vida, ri às bandeiras despregadas enquanto aos urros, no meio de uma trovoada constante e ensurdecedora, Edgar Broughton lança o que parece ser uma sucessão de palavras de ordem políticas, e quase não se aguenta em pé quando o ‘cantor’ esbraveja: American army, wait till the Russians get hold of you!!!! – entre um tonitruar de guitarra, baixo, pratos e tambores de jogar os olmos por terra.

     Quem já não se aguenta em pé sou eu, e sentado no chão encostado ao balcão do bar dormito quando não sou acordado pelo estrondo do grupo seguinte, Blodwyn Pig. Creegan já se foi quando me levanto e faço um esforço tremendo para não dormir enquanto Marc e Micky oferecem um esplêndido show, se comparado ao da véspera, talvez porque as dimensões do palco de madeira, bem mais exíguas do que as do Fill-i-more de Sunderland, se afeiçoem mais ao seu estilo de música, entre o rock’n’roll mais puro e sereno e a melopéia algo tântrico-madrigalista que é a imagem de marca do T. (ops!) Rex. Muita gente não ficou até o final, quase às três da manhã. Junto-me a Junechild no carro para, no banco traseiro, passar do sonho encantatório e/ou terrível de um dia de meio-Verão ao sono profundo, entre duas paradas até Londres.

       

      Interstellar

       Overdrive

     

     

     

           

     

       

     

     

    

    

    

     

     

    

     

 

 

 

 

 

 

 

com muito vigor e souplesse

 

        

 

 

 

    

     

 

 

   

      DOWN TO BATH / PARA BATH

Big Festivals. 1970 é o ano deles. Em Wight, Bath, Lincoln ou Reading, festivais de música e de ideais parecem esboroar-se em gigantescos empreendimentos comerciais.

Bath, a 150 km de trem em linha reta para oeste através dos campos de Berkshire e Avon, mochila e saco-cama às costas para quedar-me ao relento onde dê e assistir a dois dias do festival pela nada módica quantia de ₤5, que junto com viagens e refeições é o orçamento de quase uma semana de sobrevivência mínima em Londres, mas faz parte do planejamento de despesas extras.

Jimi tem de trabalhar e trocou uma folga para estar lá no último dia do festival e ver Led Zeppelin, doido por perder Pink Floyd e Frank Zappa, de quem também não ouço ecos porque chego ao site uma hora após sua exibição.

O impacto de Interstellar Overdrive no incomensurável descampado onde se delimitou, nem sei como, o recinto do festival é muito maior do que no comparativamente minúsculo Fill-i-more de Sunderland, mas já dá para ficar tonto ao chegar à estação e ver a manada de caras que tomaram a cidade e a estrada campestre rumo a Trowbridge, onde se realiza o festival, e duas horas depois com a visão do mar de gente que se concentra no site.

Interstellar Overdrive De fato.

Aqui não há nem binóculo, como nos terceiros balcões dos teatros londrinos. Moído da viagem no trem cheio de freaks decido não abrir caminho e fico onde estou. Haverá no mínimo vinte mil pessoas na minha frente. O som vem de meio caminho para trás, alto e claro, mas os músicos, rodeados de uma parafernália de que se destaca um imenso gongo, parecem estar em outra galáxia.

Fog de hashish: pairam ao redor nuvens de fumo durante o show da estratosférica banda, que surpreende também pelo ambiente cênico de luzes, numa sugestão de viagem espacial.

Na maior parte do tempo não há música. Diz-se que 250 mil pessoas estão presentes, mais uma vez muitíssimo mais do que os organizadores esperavam.

Hell’s Angels de porte e expressões ameaçadoras põem ordem na imensa fila em que perco quase uma hora para me abastecer dos hot dogs e da Coca-Cola que compõem a minha única refeição em doze horas, e no meio da confusão quase não ouço e vejo Peter Green, que pela primeira e ao que diz última vez se apresenta com banda própria – e lá descortino o chicagoano Jeremy Spencer, seu ex-colega - num longo set de blues após John Mayall e o Bluebreakers, onde se revelou.

O que se fuma à minha volta me dispensa de sacar os dois cigarrinhos muito mal enrolados que trouxe para me divertir até a chegada do reforço de Jimi. Durmo um sono profundo de quatro horas. Os seguranças não deixam sair ninguém que queira entrar de novo, um absurdo em vista da duração do festival e do caos imperante, e só demovo o jovem que interpelo quando, aos gritos, ameaço arrear as calças e mijar e cagar onde estou.

Quase nem curto a belíssima paisagem da estrada rumo à cidade enquanto não me enfio por um terreno baldio para desanuviar o intestino grosso e a bexiga.

Refúgio de aposentados Bath será muito bela e rica em arquitetura georgiana e nas reparadoras águas termais que lhe deram nome e fama desde os romanos, mas os prédios estão muito sujos. Li no Baedeker enquanto repousava da estirada até o cagador, as pernas ainda tremendo, que há quase 200 anos Jane Austen já dizia que O aspecto geral do lugar é quase só de vapor, sombra e confusão. Imagina se visse o local do festival, só fumaça e confusão.

O encontro com Jimi é na ponte coberta de Tilteney. As ruas estão tomadas por hordas de jovens com aspecto de maldormidos e subalimentados como eu. Muitos freaks. Entro num Wimpy e satisfaço o apetite com o costumeiro hambúrguer com queijo e alface e café com leite. Os únicos habitantes da cidade que se vê são os empregados do snack. Devem estar todos atrás das cortinas olhando os bárbaros invasores.

Jimi é pontual como o trem do leite. Estando morto de fome voltamos ao Wimpy. Lembro-me de que no site vai ser quase impossível comer alguma coisa. Reforçamos o desjejum e compramos sanduíches e refrigerantes to take away - para viagem.

Vamos ver o conjunto da obra dos John Wood de há 300 anos, a região central do Circus – onde rimos imaginando como pai e filho se divertiram ao planejar uma praça tão redonda -, e o Royal Crescent, a meia-lua complementar do grande desenho arquitetônico, de que só nos apercebemos com exatidão através de uma foto aérea no Baedeker.

Muita confusão nas entradas do recinto do festival, onde chegamos quase mortos da estirada. Os porteiros dizem que não podem deixar entrar mais ninguém. Um grupo de cinco Hell’s Angels quase mata de porrada dois jovens que não queriam perder Led Zeppelin de maneira nenhuma e ao perder as estribeiras perderam tudo, porque são evacuados num Austin 1200 de passagem pelo local para o hospital mais próximo, um deles em cuecas e aparentemente com tíbia e perônio quebrados, grasnando de dor, uma nuvem de raiva paira entre minhas orelhas, seguranças piores que os policiais porque sem lei e sem ética, quando decidem abrir o portão para deixar entrar a multidão, e ao entrar, apertados, deparamos com o que só se poderia comparar a um quadro de Bosch que vimos na National Gallery, gente suja e descabelada antibritânicamente às cotoveladas e aos esbarrões enquanto pula e dança ao ritmo cadenciado do grupo de Julie Driscoll, dirigido pelo novo marido da cantora, o pianista Keith Tippett. Fora Pink Floyd – e talvez Zappa – um festival caótico ao som dos british blues, porque a seguir apresentam-se os reis do gênero e do hard rock.

A espera é longa. Um dos aspectos mais assinaláveis destes festivais será a calma e paciência das multidões. Ouve-se Tommy in-tei-rinho no enorme intervalo, em que eu e Jimi, deitados sobre os sacos-cama, fumamos os meus dois cigarrinhos mais um dos dele antes do infernal quarteto aparecer no imenso palco, quando todos parecem esquecer-se do cansaço, da fome e da brisa fria de uma noite de Verão à inglesa.

Os amplificadores do Zeppelin produzem um estrondo equivalente ao de uma centena de canhões em Waterloo mas com o máximo de apuro sonoro. Tecnologia de ponta, de grande qualidade e potência, é o sustentáculo de grande parte do prestígio de uma banda hoje em dia. Estampido, potência, peso. Os LZ estão em turnê de lançamento de Led Zeppelin II, em que o que mais sobressai é a impactante (para dizer o mínimo) Whole Lotta Love, que parece um Je T’Aime... Moi Non Plus gravado pela tripulação de um B-52 durante um bombardeio no Vietnam e numa boate de Saigon, mas em que todo o resto é até melhor que o seu primeiro hit single, como se sente aqui, entre outros sons turbilhônicos como os de Good Times, Bad Times ou Living Loving Maid, do seu primeiro LP, lançado há apenas oito meses – como Fleetwood Mac ou Jethro Tull, devem ter entrado pela primeira vez no estúdio já com as obras completas ensaiadas e o sucesso do primeiro permitiu-lhes lançar dois longas-durações em menos de um ano.

Com o calor do bafo da horda pela primeira vez sinto-me à noite ao ar livre de camiseta na Inglaterra. 250 mil pessoas são duas ou três vezes a população de Bath. Um gigantesco exército como este poderia varrê-la do mapa em poucas horas.

Som pesado mas não rígido. Ao contrário, muito maleável. Metade do grupo foi durante um tempo uma asa do Yardbirds, sigla abençoada que gerou parcela considerável do bluesrock. E o que é mais admirável é que, apesar da fama de melhor banda de hard rock do mundo, eles não se prendem a uma fórmula. Vão desde o tronco folk a um dos seus ramos, o country, o folk americano. No conjunto, talvez o som mais bem produzido no momento. Tonitruante mas de grande riqueza tímbrica graças ao inteligente jogo de alternância entre o guitarrista e o vocalista, entre as marteladas da seção rítmica claramente distinguíveis nos contratempos entre si e com o guitarrista, alternando-se nas acentuações com muito vigor e souplesse.

 

Tudo é novidade. A guitarra de dois braços com afinações diferentes de Jimmy Page. A jovialidade, o vigor e a beleza de Page e Robert Plant, a voz às vezes esganiçada mas que nunca extrapola além do que de momento definirei como bom gosto. O balanço ondulante do mais puro rock’n’roll e do blues mais autêntico, bem urbano, muito longe dos campos de algodão, mas como se Londres pudesse ter clima do South Side de Chicago, o que está longe de ter. Led Zeppelin Blues Band - como ingleses tão brancos e sardentos conseguem vestir tão bem a pele de lobo, incorporando o feeling e a manemolência dos negros? Hard? Heavy? Ok. Mas sempre muito cadenciado, sensual. Led Zeppelin é único porque, leve ou pesada, é a banda mais sensual do mundo. Como apenas quatro gatos pingados produzem essa explosão sonora tão rica de timbres e tão cheia de volume? Não é só milagre da eletrônica, embora este contribua em grande escala para a qualidade do conjunto, que se baseia no virtuosismo dos músicos e na potência e maleabilidade da voz do cantor mas também no apuro dos seus engenheiros. O concerto decorre sob o signo do êxtase. Qual é então a melhor banda do mundo?

O impacto da música é tanto que Plant nem precisa de inventar truques de cena, limitando-se a dar de vez em quando umas corridinhas como a fugir de um tiroteio.

O fulgor do som quase faz esquecer o de som e luz do Floyd, que maravilham pelo encantamento mas para mim passa definitivamente a fazer parte de um outro departamento, a anos-luz do vigor e entusiasmo do velho rock’n’roll. Um triunfo no que entra para a história como o maior festival da Inglaterra, depois de Wight.

A cabine do trem em que regressamos à estação de Paddington é um excelente dormitório.

 

Foi-se Bath, dois ou três dias em Wight que fossem tornam-se proibitivos. Roo-me de inveja de centenas de milhar que foram, os jornais com páginas e mais páginas sobre o acontecimento, os sensacionalistas denunciando e se deliciando com tantos exemplos de feeble (decrépitas) e scary (medonhas) cenas, que escarrapacham entre letras garrafais. Regresso de Hendrix? Não. As chamadas dos noticiários de rádio e dos telejornais destacam a derrubada das cercas e invasão do site por uma legião de anarquistas franceses. Estar em Londres ou no Rio este fim de semana é o mesmo. A cidade parece vazia de gente e de razão de ser. A capital do mundo é a ilha bem menor a sul.

Só nos semanários lê-se sobre o festival em si, que se nos afigura como mais uma sucessão de show-offs, como o do set de Hendrix com novo grupo, a Band of Gypsies, com o negro Billy Cox no lugar do baixista Noel Redding e Mitch Mitchell na bateria. Talvez porque não estivesse numa daquelas noites ou – como dizem alguns críticos – pela falta de entrosamento da nova seção rítmica, a atuação do gênio não fica na história. 

 

 

 

 

 

a 150 km de trem em linha reta para oeste através dos campos de Berkshire e Avon

 

 

Whole Lotta Love

Je T’Aime... Moi Non Plus

B-52 durante um bombardeio no Vietnam e numa boate de Saigon

 

 

 

 

South Side Chicago

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Led Zeppelin Blues Band

T.Y.A. Blues Band

The Rolling Stones Blues Band

 

 

 

  Quando, por causa do filme de Truffaut, me chamam de menino selvagem, se poderá incluir nisso também esse aspecto.

  Certo; também na contracultura existe a velha luta do bem contra o mal, nem o guri mais ingênuo poderia pensar na possibilidade de paraíso em vida, embora aparentemente April o faça, e Eric sabe que a por ela tão osanada Nação de Woodstock tem também sua faceta de Altamont, Hell’s Angels-gorilas que matam quem aparentemente alveja Mick Jagger, doidão sobre o palco em pleno transe de Under my Thumb. Ou assim passado em montagem no documentário Gimme Shelter, que aumentou o mito do lado satânico, diabólico do rock.

 

 

 

Os Panteras Negras e os Weathermen adotam a luta armada. A palavra de ordem é matar para não morrer na luta contra o imperialismo e o racismo yankees na sua própria terra. Um comando das Weatherwomen, braço feminino dos Weathermen, protagoniza uma das mais espetaculares ações armadas do período: a libertação de Timothy Leary da prisão em 1970. Um ano antes realizara-se o mega-festival de Woodstock, em que segundo os seus promotores na maior reunião do gênero cerca de meio milhão de pessoas viveram três dias de paz e amor e segundo outras versões viveu-se apenas um fim de semana de paz e lama. Os barcos de madeira da utopia psicodélica afundaram nas poças da chuva que caiu na quinta de Max Yasgur quando para a mídia nascia a Nação de Woodstock.

  O sonho acabou, decretou John Lennon dois anos depois de Woodstock no obituário da era da utopia. No fundo as coisas não mudaram. Apenas vestimos roupas mais vistosas e coloridas e há muita gente de cabelo comprido a passear. Os mesmos pulhas, as mesmas pessoas de sempre continuam a mandar em tudo, justificou.

 
 

 

   Viajei até o mundo de nossos pais, os beatniks... Dos beats aos easy riders e a Woodstock... O templo deles era um bar com whisky e garotas... um outro mundo de perdição... o nosso deus é o vento e as grandes árvores sagradas da floresta onde fundaremos a comunidade dos meus sonhos e viajaremos através dos tempos em que as pessoas eram puras e dançavam em volta da fogueira para reverenciar o seu deus.

                        ...

 

   Ao pegar na caneta para lhe escrever e deixar os meus pensamentos se desenrolarem me sinto como se estivesse numa cerimônia secreta. Sei que estou a um passo do Novo Mundo Livre. Sou uma Voluntária do Novo Mundo Livre. Nossa bandeira um sorriso e a nossa lei um beijo e uma canção. Nosso presidente é o segredo das noites ventosas e nosso exército um bando de guris com longos cabelos livres e caras sorridentes; nossa batalha é uma dança de pés descalços e uma margarida nossa arma. Lutamos pela felicidade, não por dinheiro ou ouro. Você sabe como para mim sangue é algo quase sagrado. Ele me fascina. Amo meu sangue e também o seu. Acho que é demasiado puro e sagrado para ser derramado por uma causa vã. O sangue deve escorrer nas nossas mãos quando prometermos amar-nos um ao outro para sempre mas somente Deus pode dizer quando ele deverá escorrer, porque foi Ele quem o fez, não nós. Como podem alguns poucos imbecis sentados nos seus gabinetes decidir por algum motivo imbecil quem vai morrer, quem vai matar o seu irmão? Penso que somos de fato uma geração muito importante. De nós irá brotar um novo mundo. E o faremos se acreditarmos nisso. Sei que ainda não me entreguei a você mas ainda somos novos demais e não estou tão segura em relação a isso. Não quero fazer a revolução sem senti-la de fato no meu interior... Amo TODA a Nova Nação de Woodstock; os que lá estiveram e os que gostariam de ter estado. Amo você de uma forma diferente da velha geração. Nossa revolução é a única verdadeira. Esta é a primeira revolução autêntica. O Momento do Grande Amor. Estou muito contente por ter nascido agora, não dez anos antes.

 

 
 

Rock no grotão

   Produzo e realizo também um programinha intitulado Evolução com um estudante de Matemáticas vidrado em baladas – rock baladas, folk e country-rock, ou soft rock ou bittersweet music, sobretudo John Denver -, sereno e delicado, dando ares de filho de bons burgueses, com quem sigo até Vilar de Mouros, um festival de rock que ao ser anunciado já é um marco da história da vida social portuguesa destes anos bicudos, possível porta de entrada de Portugal no mapa de acontecimentos do gênero, que já proliferam por toda Europa ocidental.

A primeira estrada portuguesa. No trem noturno para o Porto, da estação de Campanhã mudando para S. Bento e dali o primeiro flash dos verdíssimos e dourados campos de vinha e milho quase entrando janela adentro até Caminha, onde o temerário doutor Antônio Barges, organizador do evento, recepciona os jornalistas com uma ida de ônibus por uma estrada entre o pinhal até sua terra natal, cujas belezas pretende divulgar no mundo através do festival, que a abrir tem como grandes atrações a recém-formada Manfred Mann's Earth Band e Elton John.

A viagem à fronteira da Galícia e ao Portugal profundo tem sabor de regresso às origens ou ao mundo de Asterix. Vilar de Mouros é uma aldeola perdida entre montes e vales banhados por um rio onde se poderia pensar ser menos viável a realização de um acontecimento do gênero. O Woodstock, a ilha de Wight portuguesa, respeitadas todas as diferenças de proporções. O recinto, demarcado por uma cerca de tábuas numa clareira, parece um Forte Apache para no máximo uns dez mil índios. Até o festival de Bellingham foi mais imponente. Contam-se pelos dedos os cabeludos com ar de hippie. Quase todos os convivas portam roupas de marca e mochilas acabadas de estrear e cabelos da moda em 1966, mal encobrindo as orelhas, ar de pequeno-burgueses (en)quadrados.

O primeiro dia é um festival de feedbacks. O doutor Barges, um burguesão de cabelos brancos que parece não ter nada a ver com a coisa, acomoda os jornalistas em beliches instalados em cômodos da casa do caseiro do solar. Na manhã seguinte, muito atencioso e ainda atormentado com as atribulações da organização de um festival com rock ao ar livre numa era de proibição de qualquer ajuntamento de mais de dez pessoas, leva um grupo de escribas até o rio, um trecho do paraíso onde jovens parecem querer reproduzir as fotos de Woodstock que deram a volta ao mundo, tomando banho nus em pêlo para o maior deleite do despreconceituoso anfitrião, que ao assomar o pedregulho sobre o cenário de sonho numa radiosa manhã de verão não se furta a evocar algumas páginas de Rousseau.

- Haverá quem diga que eles compõem um quadro de perdição, mas que mal há nisto, meu Deus?! – suspira, como a tentar o reconhecimento por tantas atribulações passadas.

Fosse isso ou os problemas com o som, que prejudicaram as apresentações de todas as bandas portuguesas – em função da má qualidade do próprio equipamento caseiro - antes do gran finale da primeira noite com a pseudo-progressiva banda do ex-pop Manfred Mann, cujo currículo baseia-se numa sucessão de hits que produziu em catadupa em 1967 e no fato de se ter feito acompanhar por Klaus Voorman, fotógrafo teutão amigo dos Beatles do tempo de Hamburgo, além do brilhante baterista Alan White, ou seja, em quase meros mundanismos - o médico ainda não viu nada, pois o astro ascendente Elton John, um dos nomes mais respeitados da pop song anglo-saxônica, e que na noite de encerramento do fim de semana de rock do festival em Portugal dará um show arrasa-quarteirão, revela-se também uma bicha caprichosa daquelas de se lhes tirar o chapéu, a fazer exigências de conforto e comodidade sem cabimento num contexto tão primitivo e prosaico, em que o camarim é um barracão de madeira erguido atrás do palco sobre chão de terra.

  Marco de tantas expectativas frustradas – a não ser o estupendo trio de Elton John, que aqui se revela um showman e não um simples violeiro, tirando da cartola uma insuspeitada faceta de Jerry Lee Lewis - Vilar de Mouros serve para abrir as portas da percepção de uma pequena parcela da juventude portuguesa, e minha, para o Portugal profundo e de parte da sociedade para a percepção de quão longe se está em Portugal, a vários níveis, do mundo moderno, e lá vejo o regresso a Londres cair de bandeja com o convite para escrever para o suplemento dominical do Diário de Lisboa. Em menos de um mês estou a bordo de um Rover 100 rumo a Southampton.

 
 

 

    Como o programa do dia é um show do Ten Years After no Coliseum, em Shaftsbury Avenue, decidimos ir calmamente a pé até Soho para um almoço-ajantarado de revival dos já bons velhos tempos de 1970 no Mandeer.

- Hashish, man? – assobia-nos um meliante ao pormos os pés fora da bilheteria do teatro. Seguimos com o descabelado cabeludo na direção de Tottenham Court Road enquanto Jimi negocia e compra dois cigarros – melhor comprá-los prontos que fazê-los e nem temos papel para enrolar, diz, em resposta à pergunta sobre como pode ter a certeza de que é feito. - Cheirei e cheira bem, senhor marquês. Ou mal, dependendo do ponto de vista... - riposta. Voltamos atrás e caminhamos até a ponte da Southwark, onde acendemos um e nos certificamos de que se trata de um ‘árabe legítimo’. E do bom.

Dez anos exatos de existência do Dez Anos Depois. Estamos para variar de binóculos num terceiro balcão. O primeiro support é um tal Keith Christmas, folk singer que se apresenta por meia hora para um público desatento e em meio ao burburinho do entra-e-sai da grande sala, só chamando a atenção quando se dá a manipular magistralmente o seu violão ao estilo de um guitarrista de rock. Seguem-se os notórios desconhecidos Supertramp, quinteto com formação tradicional de piano/órgão, baixo, bateria e guitarra mais – como elemento-supresa - um saxofonista, que não tende a ficar na história. Alvin Lee é o pistoleiro mais rápido do faroeste do rock, capaz de fazer sua guitarra emitir não sei quantas notas por minuto. É tido como um dos dez melhores guitarristas de rock, mas não é muito claro se isso se deve a dotes estilísticos, à velocidade ou ao extraordinário sucesso de Love Like a Man. O parceiro da empreitada desde o início é o baixista Leo Lyons, que talvez por ser fim de tarde de domingo entra no palco... de chinelos. O baterista é Ric Lee e o pianista/organista Chick Churchill. Diria que a tecla é sempre a mesma, bluesrock, e a abrir parece que vieram aqui em estilo informal para mostrar apenas o seu lado de T.Y.A. Blues Band numa noite de remanso. Ingleses de um cão, tocam blues como os pretos mais retintos. Alvin gosta de duelar consigo mesmo, dedos na guitarra e voz em scat. Do blues, como quem não quer a coisa, ao hard rock e daí ao rock’n’roll, e quando atacam seu maior hit hoje em dia, pela performance celebrizada no documentário de Woodstock, Goin’ Home, o teatro ferve a ponto de parecer que o veludo vai estourar pelas costuras. Iam (?) fechar com essa, mas o pessoal, já suando em bica, o Coliseum – bom velho teatro inglês - nem por sonho dando sinal de derrocada, está a fim é de Love Like a Man, que ainda não tocaram e, após um quarto d’ora de palmas para bis, lá voltam eles para tocar aquela, mas qual o quê, mandam Sweet Little Sixteen, e está cada vez melhor, espera-se aquela para acabar mas apesar dos chinelos de quarto e do adiantado da hora Lyons não quer fazer ninguém dormir, e mandam um meddley com Rock Around the Clock, Good Holly Miss Molly e Roll Over Beethoven. São quase onze horas e o trajeto de volta a Kennington parece não durar cinco minutos. Uau! – dizemos, apoiando-nos no muro da ponte dos Blackfriars enquanto fumamos o outro ‘árabe’ ainda afogueados como à saída do teatro.

 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

- Eles atingiram o âmago da linguagem sonora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      Buffalo Concert Presentations Present

 by courtesy of The Trustees of the Surrey County  Cricket Club

     Goodbye Summer

  A Rock Concert in aid of the Victims of Bangla Desh at the

                    OVAL CRICKET GROUND

          KENNINGTON, LONDON, S. E. 11    September 18th , 11 a.m. to 9.30 p.m.  

(Gates open at 9 a.m.)

THE WHO

  THE FACES

          London Premier of

 ATOMIC ROOSTER

   Mott the Hoople  *  Lindisfarne

Quintessence * Grease Band

America *  Eugene Wallace

                     + Jeff Dexter + Friends

  Tickets now on sale. Price £ 1,25 at all branches of Harlequin Record Shops and all branches of One Stop

    Records or Tickets on sale on the day of The Oval Cricket Ground, Kennington, London, S. E. 11

          ONLY LIMITED CAR PARKING AVAIABLE  

Não há cartaz colado em paredes da cidade que não sirva para anunciar shows de rock. Procol Harum no Queen Elizabeth Hall e Cat Stevens no Coliseum elimina-se, por falta de condições e porque, sobretudo para Jimi, dispensáveis, e já vamos gastar ₤1,25 no Adeus Verão, um festival de apoio aos flagelados da guerra no Paquistão oriental no campo de cricket de Oval.

Bangla Desh, depois de Biafra, com o Vietnam e os subestimados dramas africanos, mais uma tragédia humana em tempos de aparente felicidade e progresso. Como temos consciência disso vindos do país do milagre econômico e... da seca, que mata milhares de nordestinos por ano quando a estiagem se prolonga além da conta.

Ouvimos ecos de Horse With No Name, primeiro disco e grande sucesso do verão do duo America, fumando um joint providenciado por Jimi junto de um colega da serraria. Decidimos também não ver Grease Band, muito bem reputada mas que boicotamos porque só a admitiríamos com a formação original de oito senhoras apoiando o vozeirão de Joe Cocker, que partiu com boa parte delas para uma melhor ao juntar-se a Leon Russell, Rita Coolidge e uma grande e bela cambada na turnê Mad Dogs and Englishman.

Chegamos quando Quintessence sobe ao palco. Fazem uma música entre a folk song do tipo madrigal e um Oriente próximo à India, em espetáculo que ao esplêndido sol da tarde de sábado, sobre o gramado macio do campo de cricket, parece uma cerimônia místico-encantatória deslocada do tempo e lugar, o flautista dá-se pelo nome de Raja Ram, a cantora chama-se Shiva, encerram a gig com uma música chamada Jesus, Buddah, Moses, Gauranga e parecem um desses bandos de hare krishnas que nos atazanam na rua, com a diferença de que não têm a cabeça raspada e suas túnicas são multicoloridas.

Estamos em polvorosa para ver Lindisfarne, por razões óbvias, como frisamos no original em inglês, noto nos olhos de Jimi ainda uma ponta de inveja por não ter visto o fog on the Tyne, mas eis que avisto a meia careca de John, the Peel, com quem vamos até o backstage e lá ficamos presos, por falta de credencial. Mal se dá também pela passagem do ótimo power trio Mott the Hoople do organista Ian Hunter e do guitarra-solo Mick Ralph. Atomic Rooster, que sob a direção do pianista Vincent Crane (quase Price), que vá-se lá entender era a alma do Crazy World of Arthur Brown, e faz um hard rock espaventoso beirando o gótico, apresenta como grande nova atração um homem de voz possante como as trevas que adquiriu ótima reputação no noneto Colosseum, Chris Farlowe. Grita-se a três quartos para trás do palco enquanto se fuma com alguns roadies a quem ‘fomos entregues’ por Peel uma fortíssima erva nigeriana – finalmente! COF! COF! CCCOF! OFFF! tudo ficando vermelho em volta, ensurdecidos pela torrente de lava eletrônica que será capaz de acordar toda Londres langorosa & quase nua sob o último sol de verão nos gramados de Kensington, e lá se foi o Atomic Rooster numa revoada, e lá sobem Rod Stewart, o grande astro da estação, finalmente atração de meia em meia hora até no Tony Blackburn Show, com o sucesso de Maggie Mae e Reason to Believe, e The Faces. Viajo a sonho solto de olhos abertos. Aqui já é uma outra corrente-torrente. Rod parece ter caído numa poção do que restou dos corpos de Sam Cooke e Otis Redding e com Ron Wood deve ter tentado atingir o ponto exato de equilíbrio entre alguma coisa de banda típica de country americano tradicional com o famoso Memphis stew de Cooke, mais qualquer coisa de Temptations ou algo que o valha. Stewart nem deveria ser cantor, quando muito um roadie como os que nos rodeiam. Está lá, à frente desse fabuloso quarteto, por paixão e, esganiçante ou o que seja, mantém-se quase só por força de vontade.

Aproxima-se a passos largos um meliante com olhos quase ameaçadores pedindo fogo ao meu cachimbo. Estendo-lhe os fósforos e ele saca do bolsinho do peito de sua jaqueta Levi’s de cotelê um joint de dez centímetros como que confeccionado numa máquina. A coisa é difícil de tragar, a cada vez que Trevor, como se nos apresenta, se posta a meu lado e me cutuca com o ombro para apresentar-mo de novo, mal dou uma tragada e o passo a Jimi, que por trás de mim o devolve a Trevor quando de repente, do palco, Pete Townshend parece querer me atingir com o seu sapato de meio cano de camurça. We won’t get fooled again – oh no! – gritamos com ele, nós que ainda nunca fomos enganados. Isto sim é espetáculo, mais um, somados aos que ouvimos já faz uma bela coleção. Destes levamos a barriguinha cheia, como diz o Arlindo – quase se desfaz a rir e a tossir Jimi, que continua a encontrar-se com o nosso amigo refratário português.

Trevor, que por todo o concerto em que The Who só tocou músicas do seu novo disco, Who’s Next, se manteve quase estático a meu lado, diz-nos que é roadie do Atomic Rooster e que há uma festa e, se não quisermos perdê-la, é melhor segui-lo, o que fazemos até uma kombi onde ele nos estende um copo de plástico enquanto com a outra mão segura uma garrafa de Southern Comfort, e lá vamos nós. Onde é a festa – e de quem? De Ron Wood, que alugou um bar em Chelsea.

A festa é de Ron Wood, o som dos Faces, com muito balanço mas – digamos – eletroacústico. Nenhuma algazarra, apesar de o pessoal – bandoleiros e muitas minas lindas, de todos os feitios e cores – estar a entorná-lo bem. Entre eles, num nicho, no meio de três belezuras, Keith Richards, dos Stones! e John Entwistle, o baixo do The Who.

You wear it well  (um, dois, três) a little old fashioned but that’s all right...

Um sujeito de longos cabelos louros sobre a testa e as orelhas, camisa lilás e calças azuis claras, está placidamente sentado ao balcão. Conheço essa cara mas por nada deste mundo esperaria encontrá-lo aqui. Vou devagar até ele, faço um hi e acerto na mosca: Kevin Ayers, com quem meto conversa graças ao meu passaporte de sempre, conhecer John Peel – oh, yeah? Digo de onde venho e falo-lhe da minha curiosidade pela sua terra, uma quase Inglaterra e sua antípoda e do outro lado do mundo em relação ao Brasil. Diz que mora já há dez anos em Londres e que se sente como um misto de Katherine Mansfield e um personagem saído de um sonho de Noa, Noa com um quê de exótico. Z de exótico, brinca Jimi abeirando-se do balcão.

Apresenta-nos a um amigo que se entretém a dar voltas com os dedos à pequena caneca de cerveja escura na sua frente, quase tão seco como nós, barbudo e com um cabelão liso até o meio das costas, Daevid Allen, seu ex-colega da Soft Machine, que vive na França com o Gong. São uma comunidade. - Todos australianos e neo-zelandeses? – pergunto-lhe.

- Quase. Mas no fundo somos todos britânicos. Estamos muito bem lá. Eu seria incapaz de tocar noite após noite, de teatro em teatro, e aqui ninguém se sustenta sem isso.

- Vocês têm contrato com a gravadora?

- Não. A Chant du Monde comprou os direitos de dois masters que auto-produzimos. Trabalhamos como numa cooperativa. Aqui ninguém quis comprá-los.

- Estamos indo? – pergunta Kevin a Daevid e a nós se não queremos tomar um drink no seu houseboat. Seguimos em silêncio num Morris Cooper SS até para lá de Albert Bridge. Bebe-se Glenfiddish puro. São de poucas falas. Kevin é um gentleman galante.

Num grande painel de fotos pendurado na parede dá para reconhecê-lo numa série com os rapazes da Soft Machine, entre muito pessoal em volta - a primeira formação da turma.

- Eles atingiram o âmago da linguagem sonora – e bate o copo nos nossos.

Aponta para uma com Daevid Allen, quando chegaram a Londres há dez anos, e outra com a sua ‘tribo’, Gong. Jimi pede-lhe para pôr Joy of a Toy. Recusa. Ouvimos Third, da Soft Machine, pela primeira vez desde o início até Moon In June.

Qual lua! Uma bruma noutras circunstâncias sinistra. Amanhece.

O, I miss the rain, ticky-tucky-ticky... - canta Wyatt baixinho.

- Estava atento à letra, que é de tamanho da faixa. Artista está em Nova York no verão com saudade da chuva londrina... nunca pensei que isso pudesse acontecer – diz Jimi se balançando na ponte da casa ao cais enquanto saímos ouvindo a música – and I wish that I would be back home again... home again, home again...

     Caminhamos ao longo do cais olhando o céu cinzento para os lados de Battersea.

- Depois do que vivemos nas últimas horas deveríamos escrever algo como Fear and Loathing in Las Vegas, de Hunter S. Thompson – já leu?

- Só os primeiros capítulos no Rolling Stone. Uma história muito doida, não?

- Sim. Muito maluca. Jornalista vai a Vegas cobrir uma convenção de polícias da brigada antinarcóticos e uma corrida de 24 horas de motocicleta e tudo o que vê dela é uma nuvem de poeira. O resto é drogas, mulheres e problemas com a polícia.

- E quem iria publicar algo do gênero em Lisboa? – SE conseguíssemos escrevê-la!

 
 

 

    Em agosto de 1982 deixo uma bella ragazza no aeroporto e para fugir de um cenário sem ela inviável sigo direto para Vilar de Mouros sob o pretexto de reportar a segunda edição do festival. Onze anos depois da minha quase estréia nos grotões pouco mudou, o que não falta é apetite para uma bela caldeirada em Foz de Ourelhe e olhos para apreciar um dos mais belos panoramas, o do rio Caminha por alturas de Vila Nova de Cerveira, onde me hospedo.

    Na grande noite tomo um ácido. Sun Ra ao fim da tarde e U2 fechando a sessão. A banda irlandesa é a mais nova sensação da quarta ou quinta geração do rock, com pinta de ter bala para suceder a Police ou Clash como a melhor banda jovem do planeta. Mas para quem viu grupos como Led Zeppelin, Ten Years After e The Who e lead singers com a extensão canora de Robert Plant, Roger Daltrey e Chris Farlowe o som bem que ainda poderia enganar... a tolos, porque para bom entendedor salta logo aos olhos que dali não vem nada de novo – sequer a interessante pulsação em contratempo do Police numa espécie de reggae de branco. É uma mistura de liquidificador do déjà vu e a Bono Vox falta o que sentiu necessidade de pôr no sobrenome para dizer que tem, mais parecendo uma galinha choca sem fôlego e que se vê na contingência de galgar uma torre de iluminação, arriscando a vida, para impressionar com um fanho Hi, people! lá do alto.

    Muito melhor é sem dúvida o som da Arkestra de Sun Ra, que tirou o Intergalactic do nome mas ficou tal e qual, afeiçoando-se à perfeição ao meu estado mental:                  

   We’re on the starship Earth...

      Destination unknown...

  We’re on the starship Earth...

      Destination unknown...

   

 

 

  

 

DE WOODSTOCK AO McROCK   é uma webpage  revoluciomnibus.com  

 da série       so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

                narrativas de rock estrada e assuntos ligados

                               notas & narrativas dos notebooks de jimi sawyer, edgar lessa e james anhanguera

 

 DE WOODSTOCK AO McROCK

               leituras associadas neste revoluciomnibus:
 

                             electric ladyland 

                    40 anos do último disco da trilogia básica de jimi hendrix

                                                                    &

                      50 anos de  Flower Power

  A doce rebelião dos jovens no verão do amor

  uma condensação do apêndice

  Rumo às ilhas da Utopia – Da Teoria à Prática ou Vice-Versa de  

  pioneiro levantamento global profundo e alargado em língua portuguesa do movimento de juventude dos anos 60.

HYPERLINKS revoluciomnibus.com

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    Por dentro e por fora em Londres       

       Terra da Dama Eletroacústica

       Medo, atraso rock no grotão          

         Era uma vez a revolução

         Droga, Loucura e Vagabundagem

Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

     Rumo às ilhas da Utopia

        Era uma vez as revoluções

 

                      so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

             narrativas de rock estrada e assuntos ligados

 

 

E S P E C I AL

Terra da Dama Eletroacústica

 versão integral do capítulo a partir daqui

ELOÍSA  OU  A MAIS NOVA HELOÍSA 

  OU  ELOITH E O DESTINO

trechos dos capítulos Era uma vez a revolução e  Droga, Loucura e Vagabundagem  que compõem um romance dentro da crônica histórica romanceada a partir daqui

 

VAGABUNDAGEM

um tema fora de moda

   

 

 

Jack Kerouac termina seu livro de crônicas Lonesome Traveler / Viajante Solitário (1960) com o ensaio O Vagabundo Americano em Vias de Extinção. Aquele vagabundo americano -

 

trechos dos capítulos Era uma vez a revolução e  Droga, Loucura e Vagabundagem  que compõem um romance dentro da crônica histórica romanceada sobre a era posterior a Jack Kerouac em que ainda foi possível vagabundear pelas estradas fora em trips interiores e exteriores antes do fechamento das fronteiras ao turismo existencial ou "sem propósito" ou "a despropósito" - a partir daqui

 

E S P E C I AL

relato inédito DO 25 de abril

Enquanto crescíamos havia muita gente que acreditava que ainda iria viver num mundo totalmente diferente. Hoje em dia parece que tudo aquilo sequer existiu.

Quem jamais ousará de novo acreditar na regeneração da humanidade?

com dados exclusivos de fatos marcantes que o precederam e sucederam dos palcos da história - cafés, casas de espectáculos, repartições, quarteis, meandros políticos, comunicação social (directo da Rádio Renascença) e submundo

1970-1975          2010-2015

40 anos esta noite

25 de Abril de Cabo a Rabo

relato inédito com dados exclusivos de fatos marcantes que precederam e sucederam a queda da ditadura portuguesa 1928-1974 com a cronologia em insights originais dos antecedentes do maior acontecimento da história portuguesa no último meio século, da madrugada dos filhos da madrugada, do chamado PREC (Período Revolucionário em Curso) e do retorno à "normalidade", a uma outra realidade. Ao mesmo fado?   

DAQUI  Primavera Marcelista 

DAQUI   último semestre do regime

DAQUI  a partir da madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974

 

     

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as ditas moles e as ditaduras - leitura associada  -  dossiê    A Fome no Mundo e os Canibais sobre opressão

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