revoluciomnibus.com      so listen to the rhythm of the gentle bossa nova 

                                                                                                                         narrativas  de  rock  estrada  e  assuntos  ligados

                   hard rock

                    soft rock

            de whole lotta love a

          woodstock sweet baby

          james taylor you've got

             a friend    your song

                    d?j? vu

             working class hero?!

   ALMOST CUT MY HAIR

          eu n?o acredito em Buda...

          eu n?o acredito em Jesus...

                o sonho acabou

 

                          

       

                

                    

              

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

mas Frank Zappa vem subindo pela ponta.

O sonho n?o acabou naquela sexta-feira de abril de 1970 em que Paul McCartney anunciou o fim dos Beatles e o lan?amento do seu ?lbum solo.

McCartney foi lan?ado pela Apple quase em simult?neo com a sa?da do ?ltimo LP original dos Beatles, Let It Be, o pen?ltimo que gravaram, quando meio mundo falava em sua separa??o. Mais um golpe do g?nio com sinal contr?rio porque o disco ? muito ruim. 

A aut?psia estava sendo feita atrav?s do filme produzido em sess?es de grava??o do conjunto (para usar o termo mais comum na ?poca) e quando o quarteto de Liverpool fez sua primeira apresenta??o ao vivo em tr?s anos para meia d?zia de gatos pingados atra?dos pela pauleira que rolava na cobertura da Apple, em Saville Row. 

Seria exagero pensar tamb?m que ele acabou quando John Lennon o proclamou em God. Talvez tenha acabado mesmo uma d?cada depois com o tiro seco d'O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger que matou de uma s? vez para sempre Lennon e o sonho de uma re-uni?o dos Beatles. Acabara-se o maior fen?meno de histeria que o mundo conheceu desde Hitler. Muito maior - e melhor, claro - que o barbeiro austr?aco. 

E Para Fechar, overdose de Beatles, pois que todo mundo ainda estava impregnado de Abbey Road, tentando entender e decorar tudo, e j? tinha que decifrar McCartney e os acertos e equ?vocos denunciados pela cr?tica em Let It Be. Deixa sangrar, como j? haviam sentenciado os Rolling Stones.

Afinal - quando ? que esse sonho acabou? A morte de um negro a punhaladas em Altamont, durante um show dos Rolling Stones, e a chacina do bando de Charles Manson no final de 1969 sinalizavam que a Era de Aqu?rio, a chegar, n?o ia ser s? paz, amor e flores, como era l?gico. Mas quando esse sonho de Terra Encantada de que o rock ? a trilha sonora acabou mesmo?

1970 mostrou ? evid?ncia que o sonho foi apenas mais um cap?tulo - sem d?vida muuuito heterog?neo - da j? longa hist?ria da ind?stria musical, ou show business, conforme Hollywood a documentou, das Ziegfeld Follies a Kiss Me, Kate.

O rock tornara-se um dos ramos mais prol?ficos do show business. Milos Forman ilustra o fen?meno no hil?rio Taking Off, de 1972, quando um sujeito diz que faturou 290 mil d?lares no ano anterior e comenta: 

Come?amos por compor uma can??o sobre uma coisa qualquer que nos indisp?s, gravamos e ?s duas por tr?s estamos cooperando atrav?s do dinheiro que nos ? cobrado pelo Estado em impostos com o que no in?cio nos tinha posto de mau humor.

God ? o obitu?rio da era da utopia. Lennon dissertou mais em torno do tema em tom de necrol?gio em famosa entrevista a Jan Wenner do Rolling Stone um ano depois: No fundo as coisas n?o mudaram. Apenas vestimos roupas mais vistosas e coloridas e h? muita gente de cabelo comprido andando pelas ruas. Os mesmos pulhas, as mesmas pessoas de sempre continuam mandando em tudo. 

A ind?stria explorava a todo vapor o enorme potencial de mercado do g?nero para todos os efeitos revolucion?rio, que em tempos fora ve?culo de express?o da rebeldia juvenil - desde e at? quando? Ser? que Chuck Berry tinha alguma coisa a ver com isso ou sua Sweet Little Sixteen era apenas ilustra??o do que o C?digo Penal define como pedofilia? Quando ? que o rock ? de fato "recuperado", se ? que alguma vez esteve "extraviado"?

Joni Mitchell em For the Roses, 1972:

up the charts

off to the airport

your name´s in the news

everything's first class

the lights go down

and it´s just you up there

getting them to feel like that

...

oh power and glory

just when you´re getting a taste of worship

they start bringing out the hammers

and the boards

and the nails

 

em cima nas paradas

para o aeroporto

tudo ? primeira classe

as luzes se apagam

e eu apenas ali

fazendo-os sentir assim

...

no poder e na gl?ria

quando se come?a a provar o gosto da adoração

eles come?am a trazer os martelos

as t?buas

e os pregos

J? em 1969 muitos bambas, como o professor John Peel, come?aram a fechar o caix?o. Espontaneidade e sinceridade s?o pend?es raros. O rock deixa de ser tamb?m um ritual. sanduba padronizado ao gosto do fregu?s.1970 ? o apogeu e fim do rock da segunda gera??o, seja pelo lado balada como pelo mais pesado ou de inven??o.A partir de 1971, quando Roxy Music (Bryan Ferry, Brian Eno, Phil Manzanera, Andy McKay) arrebenta, o rock - nos melhores casos - ? par?dia de si mesmo, com shows de enorme criatividade em maquilagem e androginia. S? as propostas mais s?lidas e vers?teis - Farnk Zappa, Stevie Wonder (c?t? soul e funk) ou Joni Mitchell - sobreviver?o 

Mesmo quem o viveu n?o acredita que 1970 foi outro ano de grande efervesc?ncia na cena rock, em que os novos modos de produ??o de m?sica pop e os zil e um estilos brotados nas ?ltimas esta??es amadureceram... Certo; para em alguns casos logo ca?rem de podre. A ind?stria descobrira que os bolach?es de 33 rpm, mesmo com faixas de at? 20 minutos de dura??o (ou um lado inteiro de um LP), tamb?m podiam ser fil?es da mina de ouro do mercado pop-rock. Pilhas de LPs, muitos lixo em bruto, eram amplamente divulgados nas novas esta??es de FM, que chegaram a tocar at? Revolution N? 9 dos Beatles. Desde Freak Out, das Mothers of Invention de Farnk Zappa, em 1966, o alargamento da banda de ?udio permitiu experi?ncias muito ousadas, como as dos Beatles e Hendrix nos anos seguintes, que chegaram ao ponto de satura??o justamente em 1970, porque ?lbuns conceituais - em torno de uma ambi?ncia ou hist?ria - e jam-sessions sobre dois ous tr?s acordes em 2/4 (tempo muito curto) n?o ? para qualquer um. Tamanha liberdade deu de caras com o exagero nomeadamente de longos e an?dinos solos de bateria, ocupando tempo e espa?o que nem os mestres do jazz se concediam em seus pr?prios concertos e muito menos em disco. O formato chegou a triplex com o primeiro LP de Woodstock e o duplex do The Doors do ano (Absolutely Live) e (She Was Born To Be My) Unicorn, de um certo Tyrannousaurus Rex, s?o de antologia. Como

Third da Soft Machine

Em uniplex e longas aventuras sonoras, no campo do rock - ou o que se lhe quisesse chamar, pois tendo muito pouco a ver com ele - a coisa atingiu o ?pice com Hot Rats de Frank Zappa

imagem que vale mil palavras

al?m de p?rolas como This Was, do Jethro Tull, ou In The Court of the Crimson King, do King Crimson, e coisas menos pretenciosas como  The Man Who Sold The World, de David Bowie, que como (She Was Born To Be My) Unicorn cont?m um pop-rock mais intimista e alucinado do mesmo jeito - E ainda em nada prenunciando as androginias do cosmic, glam, roxy ou glitter rock, cujo grande impulsionador foi o produtor dos dois discos, Tony Visconti. Atom Heart Mother, o famoso disco da vaca ou o disco da famosa vaca - lan?a as bases do estere?tipo

Pink Floyd, valendo mais ent?o pela novidade da sonoridade, cuja f?rmula et?reoespacial at? que ainda convence nas trilhas sonoras Meddle e Obscured By Clouds se as tomarmos como isso mesmo, trilhas sonoras. Syd Barrett, o g?nio fundador consumido pela loucura - autor de Astronomy Domine e Interstellar Overdrive, que os herdeiros da marca nunca poder?o deixar de tocar -, lan?a Barrett (com um moscard?o na capa) e THE MADCAP LAUGHS (o pr?prio em pose de querubim renascentista) para o semi-anonimato.

1970 prima pelo signo do hard rock e acima de tudo por Led Zeppelin III, que abre com nada menos que 01 Hats Off To Roy Harper.

 

ECOS DE WOODSTOCK

A lenda nasceu e morreu ali em Bethel e quem n?o dormiu no sleeping bag nos prados de Max Yasgur nem sequer sonhou - mas seus ecos repercutem sobretudo em 1970 pelo talento de cronistas como Joni Mitchell e por terem reverberado por tudo quanto ? estrada do mundo dito civilizado a partir do instante em que a gravadora Warner Brothers lan?a  o primeiro triplo LP da hist?ria com os melhores trechos da odisseia, que prossegue em apar?ncia indiferente aos sinais dos tempos com m?ltiplos festivais, entre os quais o mais badalado ? a segunda edi??o do da ilha de Wight, com seis dias de dura??o e que s? ficou na hist?ria pela invas?o provocada pela derrubada das cercas por um grupo de anarquistas e por ter sido o do ?ltimo concerto de Jimi Hendrix. 

Com McCartney e sem McCartney os Beatles ainda dominaram 1970 de l?s a l?s. S? um (ex-)Beatle poderia lan?ar um outro triplo LP, o que se poderia chamar com propriedade de tour-de-force de George Harrison, All Things Must Pass, que talvez por dar tanto a escolher ? a ?nica obra decente desse outro grande denominador da guitarra-solo que finalmente p?s todo mundo a cantar um coro Hare Krishna, enquanto Lennon grava suas reflex?es sobre God  e fecha o caix?o de vez. Ou quase

Blood On The Tracks

- Pera?, isso n?o ? bem assim.

- Ok, ent?o. O sonho acabou. Viva Miles, John McLaughlin's Mahavishnu Orchestra e Shakti, Santana Caravanserai e Devadip Carlos Santana / Alice Coltrane Illuminations, e Weather Report! Um ou outro Dylan magistral com The Band (Blood On The Tracks), um pouco de Bowie aqui, um punhado de Brian Eno ali, John Cale (Paris 1919), Kevin Ayers (Shooting at the Moon, Whatevershebringswesing, Bananamour), The Yes Album, Led Zeppelin III e IV, pelo menos, qualquer Clapton, TUDO o que Francesco Zappa e Joni Mitchell (com ou sem The Crusaders, Jaco Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Peter Erskine, Charles Mingus, n?o ? coisa pouca) produziram.

Passando-lhe o rodo retrospectivo a frio - imagina, 40 anos depois - v?-se que 1970 foi ano crucial pelo que rolou nomeadamente na cena rock (o pop ent?o j? era totalmente descart?vel) e tamb?m porque de sinais muito contradit?rios - talvez como nenhum outro antes e com certeza depois, porque sequ?ncia do corol?rio em 1969 da efervesc?ncia ?nica na hist?ria do movimento de juventude dos anos 60, feitos de propostas em si mesmas extremamente contradit?rias contra a tradi??o, e porque visto em retrospecto - mesmo em 1970 - o processo rumo a uma sociedade radicalmente diferente (e at? mesmo a uma sociedade alternativa) parece esgotado. Mas a guerra do Vietn? (com as conversa??es de paz se arrastando em Paris) continua no ar e com ela a ang?stia dos jovens, que ? central em todo esse processo contestat?rio - digamos - contracultural, o que ainda provoca muita rinha (inclusive armada). Por outro lado, transpirava-se desencanto num dif?cil despertar em que para muita gente (ainda muito jovem) as propostas do dia anterior n?o faziam qualquer sentido, porque Ut?picas e s? isso. 

Quem jamais ousar? de novo acreditar na regenera??o da humanidade? 

 

  Soft (quase sem) Rock     Soft (almost no) Rock     Soft (presque sans) Rock     Soft (quasi senza) Rock  

 

          1970 foi o ano do estouro do chamado soft rock, e n?o ? para menos:           

As can??es t?m estrutura r?tmica e mel?dica e abordam tem?ticas diferentes das j? tradicionais pe?as para musical (music hall) de vaudevillle que fizeram hist?ria at? os anos 1950, S?o vers?es modernizadas das baladas de estrada e feira dos ?ltimos menestreis, Woody Guthrie e Pete Seeger, configurando-se numa esp?cie de rock de c?mara, com pe?as em alguns casos feitas e interpretadas com o acompanhamento de piano e que mesmo bandas ditas de rock exploravam desde o LP Revolver, que revolucionou muita coisa nesse campo - e a mais famosa, The Beatles, deixou uma m?o cheia de antologia, assim como John Phillips com Mamas and Papas (mesmo em recria??es de standards como Dream a Little Dream of Me), Peter, Paul and Mary e o mais famoso "baladeiro" dos anos 1960 depois de Dylan, Paul Simon, que com Arthur Garfunkel rebenta de novo nas paradas com Bridge Over Troubled Waters. Que n?o ? l? um Bookends, mas fez hist?ria (at? dizer chega) e termina com um lance cativante e intrigante desse cronista sens?vel da grande solid?o americana que ? a forma arquitet?nica bossa-novista da singela e bela So Long Frank Lloyd Wright, que encerra o disco. 

     rock baladas, folk, country'n'folk, country-rock, soft rock, bittersweet music      

Nos EUA o mercado ? inundado pelo country, vers?o americana da  counter dance inglesa de novo muito em voga tamb?m no pa?s de origem gra?as a folk-rock bands como Fairport Convention, Pentangle e Incredible String Band. Revigorada com o sucesso de Johnny Cash e Creedence Clearwater Revival em 1969 a m?sica country'n'western volta ? ribalta em escala mundial, que l? nunca deixou nem deixar? de estar em grande cartaz enquanto houver UM grassrooter vivo 

Crosby, Stills, Nash and Young lan?am D?j? Vu, Carole King, Writer, Joni Mitchell, Ladies of the Canyon, James Taylor, Sweet Baby James, e Reginald Dwight seu primeiro LP, Elton John. Correm por fora, em Nova York, Laura Nyro e Al Kooper, um dos cr?nios do Blues Project que redundou em Blood, Sweat & Tears - que de novo encantavam com o seu III - e Seatrain. Bob Dylan limita-se a marcar presen?a com um Self Portrait, a exemplo do anterior, Nashville Skyline, incaracter?stico.

 

  

Elton John  Bernie Taupin  & Paul Buckmaster

 

Elton John-Bernie Taupin de in?cio ? dist?ncia e depois muito pr?ximos. Os parceiros se conheceram a partir de um an?ncio no jornal do selo Liberty em busca de compositores. Elton John - que nem por coincid?ncia tirou o nome de Elton Dean, ent?o saxofonista e flautista da Soft Machine, e Long John Baldry, com quem atuou em grupo pop que se apresentava em cabar?s - trabalhava na Dick James Music, editora de m?sica que se tornou respons?vel pelo seu estrondoso lan?amento atrav?s do selo DJM. Bernie apresenta as letras com os esqueletos r?tmicos e mel?dicos, que Elton John recheia ao piano e ambos est?o sempre juntos no est?dio onde contribuem nas decis?es finais. Dessa forma produziram um punhado de muito boas can??es em v?rios estilos. T?o bem acabadas que at? as piores (Daniel, da trilha sonora do filme Friends, anterior ao ?lbum Elton John) se mant?m nas paradas das FMs da vida. 

Your Song e Border Song imp?em-se como cl?ssicos instant?neos, Sixty Years On, Border Song,  First Episode at Heinton, uma can??o em forma livre com moldura em clima de contempla??o melanc?lica. A qu?mica (quase sempre ? dist?ncia mas tamb?m ombro a ombro) entre autor da letra e compositor ? perfeita. Bernie Taupin ? um desses grandes art?fices de letras que possuem o dom de em tom coloquial e sobre temas triviais produzir imagens transcendentais (como a narra??o da composi??o de Your Song em Your Song e quando nela o trovador confessa n?o saber nem a cor de um componente  - os olhos - do objeto da can??o a quem a dedica). Digno continuador de Lennon e McCartney, Hal Davis e Jim Webb. Elton John - um certo Mr. Reginald Dwight gorducho e baixinho que se revelar? tamb?m um bicho-fera de palco ? imagem do seu mestre Jerry Lee Lewis - ? nos prim?rdios um grande melodista. Sem Bernie Taupin (Nikita e o escambau) torna-se um can?onetista banal. 

O produtor dos discos ? Gus Dudgeon. Elton John cria o acompanhamento de base piano-baixo-bateria. Paul Buckmaster faz arranjos de cordas que se tornam padr?es e logo surgir?o recriados em mil e uma grava??es assim mesmo, padronizados. "Penso que ningu?m usava cordas at? Buckmaster aparecer e mostrar que se pode usar cordas sem torn?-las a?ucaradas e horr?veis", atestou Elton John.

 

trecho de

Terra da Dama Eletroac?stica

cap?tulo 2 de                                                                                              

Num domingo escolho Lady D?Arbanville, com que Cat Stevens surpreende ao relan?ar-se no showbiz como baladeiro-trovador, ap?s uma primeira fase pop. O novel bardo derrama-se sobre um caso amoroso com uma jovem filha da bela nobreza francesa candidata a atriz, ou vice-versa. Tudo muito ins?pido, como a pr?pria musiquinha que o futuro mu?ulmano Yusuf Islam ir? por certo colocar no rol dos seus sucessos conden?veis - n?o pela m? qualidade, o que at? seria l?gico, mas por desrespeitar os preceitos do Cor?o. Capricho no texto de apresenta??o sobre o entrecho e os bastidores da can??o do anglo-grego de voz fanhosa, cujo affair pode tamb?m ser interpretado como mais uma prova da possibilidade de rompimento de barreiras sociais por que a nova gera??o luta, ou vice-versa. 

Lady D'Arbanville, Wild World, Father and Son. Cat Stevens ? um dos astros da temporada com os LPs Mona Bona Jakon e Tea for the Tillerman. Esquece.

 

  C A N A D I A N   C O N N E C T I O N

                                              

JONI MITCHELL

Numa madrugada a cantora canadense Judy Collins recebe um telefonema do amigo e conterr?neo Al Kooper, ent?o tecladista do Blues Project. Al falava do Canad?, onde acabara de conhecer a jovem Joan Alberta Anderson, que lhe mostrara algumas composi??es de sua autoria que o deixaram fascinado. Joni casa-se em Toronto e se separa em tr?s semanas de Keith Mitchell, com quem entretanto viaja para Detroit, onde havia uma pequena col?nia de artistas canadenses entre os quais Tom Rush, que não marca touca einclui Urge for Going em seu repert?rio. Em pouco tempo Judy Collins gravava Michael From The Mountains e Both Sides Now, um de seus maiores sucessos.

I Came To The City / Out Of The City And Down To The Seaside.

Song to a seagull, o primeiro LP de Joni Mitchell (1968) , foi produzido por David Crosby, baixista do The Byrds. Em seu segundo LP, Clouds, quem toca o contrabaixo el?trico ? Stephen Stills, membro do Buffalo Springfield. Mais do que coincid?ncia, por toda a carreira a musicista, poeta e pintora cativa quantos (grandes) artes?os da m?sica encontra pela estrada e vai armando o que em uma de suas primeiras obras chamou The Circle Game.

I could drink a case of you / And still be on my feet. Os dois versos de A Case Of You, que lan?a em Blue (1971),  s?o apenas um exemplo entre a miríade de casos po?ticos avassaladores criados por uma criadora de casos íntimos e universais que ? um dos maiores m?sicos do final do s?culo XX, por si mesma e pelo Circle Game que vai armando em sua vida e carreira. Originais e vers?es de composi??es lan?adas por terceiros no in?cio da felizmente longa e venturosa estrada provam que a cantora, violonista e pianista ? sua melhor int?rprete. Na base do malabarismo sobre um fio de arame, pois o ouvinte do que poderia ser apenas um fio de voz perigosamente situada em registros de um wide range contralto de larguíssima abarangência e arriscando ainda mais em frequentes tergiversa??es do grave possível aos Himalaias, n?o raro em versos livres que a obrigam a esticar ou encolher como que aleatoriamente as melodias, quantas vezes sobre estruturas harm?nicas assaz complexas, e como se n?o bastasse interpretando os relatos das letras (di?logos muitas vezes) em m?sica com modula??es vocais, fica de respira??o suspensa à espera que descambe. O que nunca acontece. Joni nunca produziu (auto-produziu, no seu caso, porque sempre se produz ou co-produz) um disco que n?o estivesse acima da m?dia e entre 1968 e 78 disparou uma s?rie do que se costuma destacar como obras-primas. 

Vale a imagem do malabarista tamb?m para a especificidade do que escreve e a cara de pau desconcertante com que revela como em um di?rio aberto sua privacidade - talvez a um passo mas sem alguma vez cair no pieguismo ou na vulgaridade, situando o ouvinte/leitor no epicentro da sua vida (? primeira vista, l? longe nos prim?rdios, insuspeitavelmente) vulc?nica com um intimismo deveras intimidante - ali?s, muito no g?nero de outro conterr?neo cel?bre, Leonard Cohen, que em 1970 lan?a ? arena Songs of Love and Hate e, entre outras j?ias, obras-primas da insanidade art?stica e humana como The Butcher. Joni, n?o. Talvez por seu Circle Game - sua t?vola redonda ou o que fosse - inicial se formar entre cavaleiros muito cavalheiros, ou quem sabe por delicadeza, canta como se as experi?ncias por que passa n?o deixassem grandes ferimentos e cada situa??o nova seja n?o mais uma mas a que precede as que est?o para vir.

A painter derrailed by circunstance, Joni cumpre em narrativa literária o programa de Anaïs Nin, em registros de intimidade intimidante e intimidatória derrama-se nos diários e nos auto-retratos que periodicamente publica nas capas de seus discos, os diferentes volumes dos seus diários de bordo, na estrada onipresente entre refúgios em MOteis em que expõe a criação da ida sem volta, em vida, da vida de uma jovem educada conforme o figurino, como se vê na terceira faceta de sua vida de artista - a música é o centro e que desenvolve à medida que amadurece a partir de bases sólidas que são as que revela na adolescência de Chelsea Morning e Both Sides Now: plenamente capacitada para a música e para a poesia ou crônica e como desenhista e pintora. Expõe-se a nu e insolente e altiva, dona de si, do verbo e do som em floração orgânica e sem peias, individuada, esteticamente descentrada, erotizada, intimidatória até nos riscos que corre sem correr, de descambar no vulgar ou escorregar em vocalises de matar ou morrer que envolve - em ambos os casos - intimidatoriamente a contraparte, amante ou ouvinte.

Eloquente e exustiva, do que quer que fale sobre sua vida de artista e mulher dos pós-guerras de guerras, cinismo e destruição.

Ladies of the Canyon, em que j? entra de goza??o com a nova vizinhan?a de Los Angeles, para onde se muda do eixo Detroit-Nova York ap?s os primeiros sucessos, off Sunset Boulevard, ? o disco em que Joni Mitchell passa a burilar com o sangue frio, talento, perspic?cia, perseveran?a, determina??o e a firmeza que lhe seria muito peculiar a tessitura e a trama da m?sica al?m da forma de balada ou can??o e que muitas vezes (Coyote, de 1975, por exemplo, tamb?m s? como um exemplo entre muitos) soa disforme, em pe?as de estilo muito pr?prio e PECULIARES. De Joni Mitchell. Que, como antes, em For Free, com Paul Horn soprando delicado um clarinete de doer e que na origem da can??o era o do kevin-ayersiano Lol Coxhill, Woodstock, Big Yellow Taxi - they paved paradise and put up a parking lot -, Urge for Going, The Circle Game, Willie mostra que, contra todas as apar?ncias, Joan / Joni n?o veio ao mundo apenas para as baladas (Ou Goodbye Pork Pie Hat). For the roses:

Veja-se de passagem que a Canadian  Connection no Circle Game do rock - ou que lhe pare?a - deu-lhe um forte impulso para a transcend?ncia: The Band, Al Kooper e Steve Katz do Blues Project, que d? origem a Blood, Sweat & Tears e Seatrain, Judy Collins, Tom Paxton, Leonard Cohen, Neil Young, a que em 1970 se junta e passa como um meteoro Melanie Safka (Lay Down e Beatiful People). Óbvio, The Last Waltz, Martin Scorsese. The last Band forever.

.html : and round in the circle game

 

MAD DOGS AND ENGLISHMEN

C?ES RAIVOSOS E INGLESES

Leon Russell, que nesse ano lan?a o cl?ssico instant?neo This Masquerade, dedica Delta Lady a Rita Coolidge e com Delaney & Bonnie Bramlett, Joe Cocker e boa parte de sua refinada (e grossa quando era o caso) Grease Band p?s cora??es aos pulos com Mad Dogs and Englishmen, entre o caldeir?o das origens dos sons do delta do Mississipi e o venenoso rhythm'n'blues.

 

 

      ALMOST CUT MY HAIR 

 

Hoje, sobre ser piegas, pueril - Pior, n?o faz sentido algum.

E da?? O que h? de mais em QUASE cortar o cabelo? Ele era comprido? Estava comprido demais?

Pois nesse ano em que at? que parecia que o sonho j? tinha acabado - mas que ainda foi caracterizado por tumultos sangrentos em manifesta??es e campanhas grevistas contra a guerra do Vietn? em dezenas de universidades americanas (tin soldiers and Nixon's coming / four dead in Ohio, noticiou o quarteto no boletim Ohio, sobre tumultos dois anos depois) - as barbearias ainda eram algo similar a delegacias de pol?cia ou quarteis como parte do aparelho opressor e repressor do Sistema e havia quem linchasse cabeludos e cabeludos eram presos e, caso se excedessem em protestos, podiam at? levar uma cana dura porque 1) cabeludos causavam repulsa a todo bicho careta mesmo, talvez no fundo ningu?m acreditasse nisso mas fingia que acreditava que todo cara cabeludo era bicha 2) cabeludo era ou drogado ou parasita ou as duas coisas ou 3) cabeludo era SUBVERSIVO (e que peso isso tinha em pa?ses como o Brasil, sob ditadura anticomunista impulsionada por Washington). Ou seja, cabelo comprido era papo muito s?rio e podia ser quest?o de vida ou morte!

Edgar Lessa escreve e cita trechos com outros exemplos sobre o clima ao mesmo tempo tr?gico e tragic?mico da ?poca em Hist?rias de Cabelos trechos de   Medo atraso e rock no grot?o   cap?tulo 3 de                                                                                                      que quem quiser pode acessar a partir DAQUI

e por essas a "mensagem" foi uma das mais fortes do LP D?j? Vu de Crosby, Stills, Nash and Young, junto com Woodstock, de Joni Mitchell, enquanto nego j? torcia o nariz para Chicago, de Graham Nash, porque reportando-se a um tema j? datado - depass? -, se bem que n?o demod?, v? l? - d?j? vu, e da perspectiva do t?tulo ele n?o est? enganando ningu?m - e nota essa sim pueril e piegas sobre a insist?ncia na ideia da luta por uma mudan?a profunda na sociedade  - we can change the world

   rearrange the world, etc.

e note-se que Crosby chegou ao ponto de QUASE cortar o cabelo no fundo talvez apenas "porque peguei um resfriado no Natal"

ASPECTO F?SICO (NO FUNDO, O DEM?NIO DA DIFEREN?A) ? APENAS UM DOS FORMALISMOS QUE CAEM POR TERRA COM O FE?RICO MOVIMENTO JOVEM DOS ANOS 1960, muito embora a hipocrisia tenha passado inc?lume por toda aquela parada

cabelos compridos n?o se via desde os rom?nticos e nos cinemas em filmes de pirataria do espadachim Errol Flynn

por outro lado, o Patriotic Gore acaba ali. At? a guerra da Coreia nunca se p?s em d?vida a legitimidade de uma guerra e a obriga??o de todo cidad?o defender a P?tria com Honra. N?o h? nenhum filme de Hollywood sobre a II Guerra Mundial em que se ponha isso em causa - ? claro. Filmes foram poderos?ssimas armas de incentivo moral das tropas do Tio Sam contra amarelos e pseudo-arianos. Quando muito The Best Years of Our Lives n?o apresenta homens cuja presen?a na hist?ria dependa do Patriotic Gore, isso fica para o arremate, porque o que se trata ali ? do jogo de rela??es entre um grupo de homens em um quartel. O Patriotic Gore ? um dos pilares do sonho americano e foi enterrado com a contesta??o ? legitimidade de se morrer na guerra do Vietn? - causa primeira e talvez ?ltima de todo aquele Movimento.

A atitude da maior parte dos jovens rockers ou correlatos ? a de menestreis, songwriters que cantam como bandoleiros na tradi??o dos ?ltimos trovadores da velha Am?rica, como Woody Guthrie e Pete Seeger. N?o s?o compositores de trilhas para musicais do vaudeville americano. Em seus melhores momentos (Joni Mitchell) est?o entre a m?sica e a poesia urbana, o folk e o country. Fazem o que se chamaria folk-rock ou country rock. E como bons menestreis s?o sobretudo ca?adores de mitos. Ou v?o CRIAR MITOS, como ter? Jim Morrison proposto a Ray Manzarek em Venice Beach. Morrison est? no auge do reinado do Rei Lizard. Faz poesia Lizard, como o ir? caricaturar Frank Zappa em uma de suas par?dias mordazes. E de fato isso ? muito hip - Oh, I'm so hip! - dir? Zappa de goza??o sobre uma passagem de uma can??o de Crosby, Stills and Nash em Eddie, Are You Kidding, do LP Just Another Band From L.A.

De Londres (Cat Stevens e Elton John) a L.A. est?o todos nessa, e se n?o est?o os compositores a galera que os segue nem liga e logo os toma por nada menos que isso mesmo. Woodenships, o reino de Camelot, cabelos compridos, Chicago - tudo serve. Anything goes.

Os mitos s?o eles mesmos. Joni canta seus enlaces com Crosby, Stills, Nash, Young, David Blue... Leon Russell faz Delta Lady para Rita Coolidge, Carole King manda You've Got a Friend para James Taylor e este Fire and Rain para Joni Mitchell, que canta Woodstock como uma nova Utopia. Woodenships, Camelot, Chicago, pouco importa, muda o papo e afinal ? isso que importa.

RIGOR DE RIGOR

Em fun??o das mudan?as nos modos de produ??o cultural e nos pr?prios meios de comunica??o derivadas da evolu??o dos "suportes" e da nova atitude gerada pelo Movimento dos anos 60, eles mesmos concebem e executam o produto, dando-lhe sua imagem de marca. Lou Adler, o manager e produtor de Carole King, que vem de outras guerras com o ex-marido Gerry Goffin, de can??es de  e para adolescentes, sabe tudo do riscado. Se bem que ainda sem o sucesso estrondoso de sua obra-prima, Tapestry (1971), tape?aria ainda melhor trabalhada, Writer ? uma j?ia de manufatura da m?sica de c?mara que o pessoal do chamado soft rock ou da bittersweet music produz. So Far Away, uma de suas pe?as memor?veis, vale uma novela: a mo?a que por dever de of?cio n?o para sossegada reclama que seu objeto de desejo esteja t?o longe (Joni Mitchell ? perita tamb?m nisso, compor retratos paradigm?ticos da vida de artista como pobre cowboy solit?rio and a long way from home). James Taylor trabalha sempre com os mesmos m?sicos e com isso tem sua denomina??o de origem controlada. Stephen Stills ainda ir? produzir o antol?gico Manassas com Chris Hillman & outros parceiros que antigamente se dizia da pesada ex-The Byrds e Flying Burrito Brothers. Ele desde Buffalo Springfield e seu colega Neil Young desde Buffalo Springfield e seu primeiro ?lbum solo, Everybody Knows This Is Nowhere, sabem muito bem o que querem (por outro lado, Young ir? dar uma fora com as orquestra??es de Harvest). David Crosby, o autor da pirueta Almost Cut My Hair, teve uma passagem brilhante pelo The Byrds. Graham Nash, que esteve alguns pontos acima em Crosby, Stills and Nash, quase arru?na D?j? Vu. Our House machuca, diz menos que Almost Cut My Hair, que hoje n?o faz nenhum sentido, mas na ?poca fazia. Muito. 

                                                                          

       

   trecho de Terra da Dama Eletroac?stica

    cap?tulo 2 de                                               

                                                                                                                                 

      O encontro ? no ponto final do ?nibus de Alfavila, na Rotunda. Desce esbaforida, o rosto banhado em l?grimas ? Edgar, Edgar, Janis Joplin morreu, centelha para um s?bito enleiamento. 

  O Grande Hendrix se foi h? poucas semanas. Agora ? a vez da feia, arrepiante mas enternecedora Janis de ?emo??es baratas?. 

       De m?os dadas suando tamb?m pelo calor de Ver?o de S?o Martinho subimos a Fontes Pereira de Melo at? o Saldanha. 

  Fora talvez a performance final de One After 909, Let it Be n?o ? propriamente um filme para p?r os esp?ritos em alta, com aquele clima de cerim?nia f?nebre de final de um sonho em que embarcou a juventude de meio mundo, porque Leonid Brejnev e Mao Ts?-Tung mant?m a outra metade sob m?o-de-ferro.

 O obitu?rio de Jimi Hendrix e Janis Joplin est? em trechos de Por dentro e por fora em Londres  cap?tulo 2 de que podem ser acessados a partir DAQUI

 

Esboço de antologia das relíquias ou eternas fontes de prazer do ano

for a 1970 rock playlist - relíquias extravagâncias exquisite

 

 

 

 
deutsche rock - warum nicht?
 

some 1970s BRITISH ROCK RELICS

Familly A Song for You

 

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francesco zappa 

  contra o garni du jour

            
 

Francesco Zappa, nascido em Baltimore, estado de Maryland, a 21 de dezembro de 1940, ? um clown com uma incerta semelhan?a f?sica com Groucho Marx. N?o tardou muito que o definissem como o Lenny Bruce do rock.

Parece n?o se levar muito a s?rio mas n?o est? para brincadeiras, ou vice-versa. De Freak Out, que come?a com um roquinho de protesto com a cara de 1966 (Hungry Freaks, Daddy, de Carl Orestes Franzoni) e termina com repiques de Edgar Var?se, a Boulez Conducts Zappa - The Perfect Stranger, o filho de emigrantes da Cal?bria que ainda tem muitos primos por l?, talvez na Austr?lia e certamente no Brasil, deu a volta ao mundo em ritmos e estilos. M?sico auto-didata (...composer, blah, blah, blah, como descreve em sua Biographical Trivia) s? n?o tocou o que n?o quis.

Zappa ? por defini??o o compositor cuja obra ? indefin?vel. Quer dizer, a maior parte dos 69 ?lbuns que publicou em vida (diz-se que deixou outras 500 horas de grava??o), excluindo-se os que cont?m pe?as ?nicas com um formato (o que no seu caso ? tamb?m um contrassenso), s?o quebra-cabe?as estil?sticos que abrangem quase todos os formatos e sonoridades explorados com o instrumental p?s-moderno. S? n?o lan?a m?o de efeitos de som de est?dio como c?maras de eco. Quebra-cabe?as ou mantas de retalho mesmo quando os ?lbuns se baseiam num determinado tipo de som, como por exemplo Overnite Sensation e One Size Fits All, as duas obras centrais de sua fase de colabora??o com o tecladista e cantor George Duke, que adota ? nascen?a. One Size Fits All parece j? dizer isso mesmo. Dentro, como sempre esp?cie de centr?fuga que tudo mistura (fusion ? com ele mesmo)  o homem vai de par?dias ao hard rock a galopadas country and western e lieder cantados - isso mesmo - em alem?o. Jazz From Hell, claro, n?o tem uma faixa em 4/4, mas tamb?m quantas faixas de discos de free jazz s?o em 4/4. Seja onde for esse inferno, ? jazz - d? por onde der. Ou seja o que isso for. Mesmo quando o ?s faz uma faixa s? com um solo de guitarra bluesy gravado em um show em Saint Etienne (e com esse t?tulo). Em seus discos de goza??o com o rock ou o que seja, porque Francesco Zappa est? sempre de goza??o (? imposs?vel lev?-lo a serio porque parece que ele nunca est? se - e nos - levando a s?rio), existe quando muito um padr?o determinado pela forma??o que explora - e ? assim que ele trabalha, a cada momento explorando o potencial de uma forma??o, inclusive o estilo de cada instrumentista/compositor, porque F. Zappa, monstro de superego, ? um ser muito greg?rio. Ou, de outro modo, depende. Obra sacramental da safra de 1970, Hot Rats, que abre nova fase depois da enxurrada inicial com Mothers of Invention (Ray Collins, Jim Black e Carl Estrada) e ap?s o interregno de 200 Motels, filme e disco gravado pela Sinf?nica de Los Angeles sob a reg?ncia de Zubin Mehta que ningu?m levou a s?rio, ? exemplo-padr?o do patchwork zappaeano quando assim tem de ser. 

 

trecho de  e de DE WOODSTOCK AO McROCK outras atra??es da s?rie revoluciomnibus.com 

Outra ilustra??o pertinente de como uma nova atitude a partir de velhos processos (o artesanato, ainda que atrav?s da ind?stria e em escala industrial, passe o contra-senso) gera novos modos de produ??o tendo por toque de sa?da a guerrilha (mesmo que individual, passe o contra-senso) e acaba por ser o marco fundador dos atuais modos de produ??o da maioria dos agentes culturais ? a de Frank Zappa. Cedo ele passa a auto-produzir-se e em 1969 a produzir outros artistas, que lan?a atrav?s de um dos dois selos (micro-empresas) que funda. Pela marca Straight (careta, quadrado, direito ou, bem a prop?sito tratando-se de Zappa, direto) bota na rua uma das mais antol?gicas produ??es do universo rock, o duplo LP Trout Mask Replica, de Captain Beefheart and the Magic Band - e pouco haver? de mais anti-straight que esses discos. E pelo selo Bizarre publica os seus pr?prios discos. Tudo distribu?do pela Warner Records. Ao morrer, aos 53 anos, Zappa tinha produzido 69 discos pr?prios. A quase totalidade da sua pr?pria lavra e safra.

 

(? imposs?vel lev?-lo a serio porque parece que ele nunca est? se - e nos - levando a s?rio) tamb?m ? s? maneira de dizer. N?o fosse por outras coisas (e o que dizer ent?o de outras coisas) A cada vez que a fera tira a guitarra do cavalete ? um deus nos acuda e sem pensar nego se prostra de joelhos na dire??o de Meca.

 Em Inca Roads, abertura de One Size Fits All, inova ao inserir um solo de guitarra gravado previamente, sim - pin?ado de uma apresenta??o em Helsinque. E quantas vezes parece que ele s? faz as m?sicas para mandar ver na guitarra el?trica. E que guitarra toca o maestro autodidata e instrumentista que absorve sons de todo mundo. Literalmente. E ? curioso: o desbravador dos limites - que em The Return of The Son of Monster Magnet, de Freak Out, j? cometia o desplante de propor uma aventura de m?sica experimental eletroac?stica de 12:17m, e cujas refer?ncias cruzadas v?o de Var?se e Stravinski, m?sica atonal, dodecafonia, rock modal e o mais poli(no sentido de tera)tonal que existiu - quando se trata de tocar guitarra n?o ultrapassa os "limites" da tradi??o do g?nero entre o blues e o rock, como a querer dizer que grandes estilistas do instrumento j? havia aos montes e com ele s? lhe interessava mostrar QUANTO o sabia tocar. Muito. 

 

O self-taught musician, composer, blah, blah, blah... inclui o letrista ou chargista de imagina??o desenfreada - suas charges ao capitalismo incluem um empreendedor que se imagina criando e fazendo grana com uma planta??o de fio dental em Montana - e o vendedor da mercadoria de manufatura pr?pria e at? de terceiros, de que rapidamente desistiu de resto.

Um dos aspectos mais assinal?veis em Francesco Zappa ? o sucesso do criador a partir do universo rock (como se fosse um "suporte" natural e meio de sustento poss?vel) que nunca se rendeu (seria imposs?vel) ao com?rcio da m?sica e jamais produziu droga, embora muitas de suas faixas (inclusive Peaches in Regalia, de Hot Rats) at? pudessem ter figurado sem grande motivo para espanto em paradas de sucesso. Nada mais antizappaeano, por?m, e a grande maioria de suas letras n?o foi feita para tocar no r?dio.

N?o cedia ? facilidade e como se v? por exemplos como Lenny Bruce a s?tira quando tem endere?o certo s? rende dissabores. Zappa fez 30 por 1ma linha (de fio dental?) para firmar contrato com a Verve para o lan?amento do seu primeiro (duplo) ?lbum, conseguindo passar para tr?s o Velvet Underground (era um ou outro), que tinha o pistol?o de Andy Warhol. Lou Reed nunca o perdoou por essa (e talvez por outras) e ao saber da sua morte comentou: Menos um cretino na face da Terra. 

 

... E O QUE ACOMPANHA?

Nunca se desligou ou dessintonizou de nada, interessando-se por todo e qualquer tipo de fen?meno apenas para ter mais um motivo de chacota. Seguiu altivo e criativo na sua sem nunca se render ao formalismo do que um dia chamou garni du jour - objetos de consumo (m?sica ou o que for) "pelos quais as pessoas refor?am sua ideia sobre o que ? o seu estilo de vida",

Incluiu entre "relevant quotes" num quadro do encarte de Freak Out uma cita??o de um depoimento de Edgar Var?se de julho de 1921: O artista de hoje se recusa a morrer.

Incluiu o country-rock (em meados dos anos 1970) no rol das "guarni??es do dia", mas executa-o (inclusive na guitarra) da melhor forma. Para que o escracho fa?a TODO o sentido.

We're only in it for the money...

 

Nenhum disco de Frank Zappa se limita ao que se convencionou chamar rock. Usa, conforme a conveni?ncia, diferentes formatos sem jamais deixar de explorar - at? por autogoza??o - todas as vertentes que possam surgir no ato da composi??o, em laboriosos contorcionismos em progress?es - e revers?es - harm?nicas, pluritonalidades, revers?es do fraseado (da capo a coda e da coda a capo) para chacoalhar os esp?ritos e mant?-los a consider?veis dist?ncias dos padr?es "normais", "estabelecidos". Se rock, para des/acordar o rock e o ouvinte roqueiro e sair explorando - e acordar o roqueiro para - outras trans(a)tonalidades. N?o embarca em - antes, apressa-se em satirizar - contesta??es te?ricas e pr?ticas ao Establishment, tendo embora sempre a cara delas e nunca a Dele. Autoproduz e lan?a discos em catadupa e um ap?s o outro e todos muito acima da m?dia, muitos (Hot Rats est? entre as dezenas deles) cl?ssicos instant?neos e quase sempre chocantes pela rapidez de mudan?a de "proposta" em rela??o ? anterior. 

O esp?rito de achincalhe ? tal que indo totalmente contra as regras de marketing sua discografia inclui Mothers, com grava??es ao vivo no Fillmore East, Nova York, em junho de 1971, e Just Another Band From LA, com grava??es ao vivo no Pauley Pavillion, Los Angeles, em agosto de 1971. S?o excertos do mesmo show que montara - mais uma soberba goza??o - com Mark Volman e Howard Kaylan, que como The Turtles protagonizaram cinco anos antes um dos maiores estouros da m?sica pop, Happy Together - presente no show e em Mothers, claro. Assim, temos o espet?culo inteiro em duas bolachinhas (hoje em dia). Conta-se que, pouco antes de sua morte em 1992, um engenheiro de som disse a Zappa que o p?blico n?o iria comprar um disco com a quinta vers?o de Sharleena que pretendia lan?ar. Ao que ele ponderou: 

- Voc? n?o conhece os meus f?s. Claro que eles n?o ir?o comprar qualquer coisa que eu fa?a, mas eles adoram ouvir diferentes vers?es das m?sicas e sacar as diferen?as.

Porque elas s?o muitas. Quase nem fazem lembrar as anteriores e pensar que possa haver mais alguma coisa T?O diferente.

 

Faixas, m?sicas, pe?as s?o muitas vezes nitidamente pretextos para exerc?cios criativos, e nomeadamente para exerc?cios estil?sticos com sua guitarra el?trica em torno de temas, tonalidades ou andamentos os mais (a)variados. E assim as letras que escreve para que as faixas, m?sicas, pe?as soem (apenas soem) mais de acordo com as regras, n?o raro revelando o jogo com apartes ou denunciando-o no pr?prio texto, como em Stink Foot, de Apostrophe, em que no final o cantor pergunta: ain't this boogie a mess? - mas depois de ter dado o seu recado guitarr?stico naquele padr?o. E n?o ? de admirar que em ao menos metade delas letras, hist?rias, n?o fa?am nenhum sentido. Mesmo porque ele n?o t? a fim de enganar ningu?m. Ain't no great revelation / but it wasn't too long..., esclarece e desculpa-se por ter tomado o precioso tempo do ouvinte com a balela em 50/50, de Overnite Sensation. Let's Turn The Water Turn Black, de We're Only In It For The Money, ? uma absurda hist?ria sobre diarreia. Na charge ao "empreenditorialismo selvagem" capitalista, o cara sonha ser "um magnata do fio dental" e George Duke no coro no final da faixa emenda "um magnata do fio mental". 

              

 

 

O sucesso de Peaches In Regalia quando lan?ado em formato de videoclip na MTV 30 anos depois do seu lan?amento como faixa de abertura de Hot Rats mostra a perenidade da prol?fica, heterog?nea e multifacetada obra de Francesco Zappa. Cada faixa do disco n?o tem nada a ver com a outra e essa pe?a orquestral ao estilo de big jazzband atualizada ao tempo das guitarras el?tricas  muito menos com a do t?tulo, sua primeira entre v?rias goza??es ao hard rock, protagonizada pelo amig?o de toda a carreira at? ent?o, desde quando tocava "em beer joints e passava muita fome", o primeiro e ?nico Captain Beefheart.

A partir do disco anterior, o duplo 200 Motels, Mothers of Invention passa a ser uma for?a de express?o, determinada mais pelo h?bito dos f?s que de uma sua necessidade de manter viva uma marca (nada mais antizappaeano - veja-se a pr?pria obra legada). As Mothers de Collins, Black & Estrada ficam no passado e por duas ou tr?s temporadas seu som ser? criado tendo em mente Ian - nas ditas madeiras - e Ruth Underwood - marimba e vibrafone -,  Ainsley Dunbar - bateria -, Don Preston - teclados - e Jim Pons - baixo. A pimenta (ou cereja) do disco zappaenamente heterog?n?ssimo fica por conta do emprego dos violinos ecl?ticos de Jean-Luc Ponty e Don "Sugarcane" Harris. Que at? o violino se pode fazer suingar como um javali se algu?m o souber dominar com maestria j? se sabia por um certo Grappelli. Mas, para quem n?o o conhecia de grava??es europeias, o suingue demon?aco daquele franc?s louro como as manh?s de Provence fez n?go se alourar de encanto. Jean-Luc era jazz-rock desde o ber?o, mas talvez o rock nele esteja apenas pela ideia luminosa de ligar seu irm?o g?meo univitelino ? corrente el?trica e detonar uma torrente que ? certo que em carreira individual iria deixar por ali mesmo - as colabora??es com F. Zappa (mas nem por coincid?ncia logo pintaria como em altern?ncia o patr?cio Didier Lockwood). A qu?mica entre Ponty e o patr?o nas sess?es de Hot Rats foi tamanha que este chamou aquele para um bis que atinge o paroxismo em Apostrophe, de Zappa, Jack  Bruce (ex-companheiro de Eric Clapton em Cream) e Jim Gordon (que n?o se pode dizer ex-companheiro de Clapton em Derek and The Dominos porque este foi uma fantasmagoria de Clapton) no disco hom?nimo de 1974. Em Apostrophe - uma bomba H de m?sica el?trica - o violino do gaul?s volta a suingar mais que a n?ga do leite.   

 

                                                                                               

        revoluciomnibus.com          

so listen to the rhythm of the gentle bossa nova   

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   narrativas  de  rock  estrada  e  assuntos  ligados   

                                             

SOFT MACHINE      KEVIN AYERS 

       THIRD                                JOY OF A TOY

 

sob o signo de 

In a Silent Way - 1969

 

Miles Davis - trumpet

Joe Zawinul - Hammond; electric piano

Herbie Hancock - electric piano

Chick Corea - electric piano

Wayne Shorter - soprano saxophone

John McLaughlin - electric guitar

Dave Holland - bass

Tony Williams - drums

 

 

 

 

Bitches Brew - 1969

 

Miles Davis - trumpet

Benny Maupin - bass clarinet

Wayne Shorter - soprano saxophone

John McLaughlin - electric guitar

Chick Corea - electric piano

Larry Young - electric piano

Joe Zawinul - electric piano

Dave Holland - bass

Harvey Brooks - Fender bass

Jack DeJohnette - drums

Charles Alias - drums

Joe Riley - percussion

 

WITHIN WITHOUT YOU - Todas as bandas que se lançam a partir de 1965-66, quando Bob Dylan eletrifica suas folk songs e nasce o folk-rock e The Beatles lançam Revolver, com WITHIN WITHOUT YOU, de George Harrison, cujo acompanhamento melódico é de uma sitar, dão uma no cravo e outra na fechadura, como se o cravo estivesse brigando com a chave e mostram o que são e ao que vêm indo aos confins dos universos sonoros, apresentando puro experimentalismo ao lado de canções às vezes as mais banais e com o mais apurado invólucro pop, com o estilo mais em voga a cada ocasião. Dá-se isso com The Cream como com (os novos) The Beatles, The Beach Boys e muitos outros. Um exemplo pode ser a "zappaeana" Happy Together por The Turtles na travessia de 1967 a 1971, recriada em gozação na tournée de 1970: Mothers + Just another band from LA.

Os exemplos mais extremados talvez sejam Frank Zappa com The Mothers of Invention em Freak Out (1966) e as outras quatro maravilhas que produz até sair-se em 1970 com Hot Rats, e que como se vê por gravações publicadas post-morten desde os primórdios em 1958 não estava esperando pelos outros e vai do doo-wop às raias da contemporaneidade com experimentalismos eletroacústicos os mais prospectivadores inovadores e refinados, e Jimi Hendrix, em quem música é arte de sons e não tem barreiras nem fronteiras e com seu espírito desbravador nunca se saberá onde chegaria se por exemplo sucedesse a John McLaughlin em experiências com Miles Davis. Pierre Henri com Michel Colombier em Messe Pour Le Temps Present (e Psyché Rock) também entra na panela e com ele John Cage, Terry Riley e Steve Reich, de onde alguns também retomam métodos no processo de exploração dos até Karlheinz Stockhausen e Pierre Boulez insondáveis limites do som eletroacústico. De início pretendem encantar a garotada ao mesmo tempo com canções com princípio, meio e fim de 2,5 minutos, que era como que para enganar o pato porque era o formato em que as faixas podiam ser tocadas nas paradas de rádios e TVs. 

 

Zappa nos United Sates e esses aí na cena britânica estão entre o jazz, muitas outras coisas e o rock. É o côté jazz-rock do chamado rock progressivo, cuja rapeize está de ouvido colado no que sai dos estúdios-laboratórios de música eletroacústica e concreta do Hemisfério Morte e de passagem no que sai do laboratório sonoro milesdavisiano - e há muitas sonoridades chocantes comuns em In a Silent Way e Bitches Brew (1969) e THIRD. Não é por acaso que John McLaughlin, que acaba de fundar a Mahavishnu Orchestra e incendiou muita lenha nesse caldeirão, é outra cria da cena do jovem british jazz de onde emanam também o baterista Ian Carr e Keith Tippett, que pinta e borda com uma malta de uns dez para cima a que chama Centipede (Centippett), de onde brota um certo John Surman e já deu até umas passadas nas paradas de sucesso (Wheels On Fire, Road To Cairo, Season of the Witch ) pelas mãos do organista Brian Auger & Trinity, mais tarde Julie Driscoll, Brian Auger & Trinity, de onde Julie saiu para os braços de Tippett.

Os portentosos dois primeiros LPs de Soft Machine são de rock power trio e muito mais que fusion, grandes sacadas de vanguarda, música total, em que o baterista apresenta com garbo e valentia todo o manancial de sua arte de percurtir tambores e pratos e espanar o ar com guizos. So Boot If At All, do primeiro, é o cartão de visita explosivo ou the ticket that exploded. Depois, no Third, desbundou em letra e música no poema proto-sinfônico Moon in June.

Kevin Ayers está perfeitamente integrado à comuna em One, de que é o compositor e  estrela como um relâmpago (literal) em We Did it Again, em que à distância de meio século se vê num dos mais lídimos representantes do glorioso condado de Essex na cena rock, o autor de Joy of a Toy, a vertente Gainsborough de Serge Gainsbourg: recitador e cantante, bela farra, grande rock. Ayers rock. Wyatt brilha sempre na trilogia, nos dois primeiros sobressaindo a Hopper e Ratledge, entretempo impecáveis na execução instrumental e em inspiração musical. Hopper chega no Volume Two e além do baixo intervém também com sax e flauta. Em Third junta-se ao trio, na base, Elton Dean para dar mais consistência e extensão aos timbres de saxes e flauta e os quatro estão em grande destaque. Seja que fusion for.

Como os anteriores, THIRD é um sucesso artístico inadjetivável - um disco para levar para a ilha deserta. Wyatt sai e, já entre o ceticismo às vezes cáustico e a ironia muito sutil, quase imperceptível, típica do british humour, funda com outra cambada de pesquisadores bem humorados a Matching Mole, em que prossegue com outro dos melhores exemplos da evolução da música inglesa, ponha-se-lhe a etiqueta que se quiser, sejam ou não eles músicos rock de vanguarda que se dedicam a concepções e construções musicais avançadas, com técnica muito apurada e muita sofisticação e manobrando com agilidade entre diversas correntes de música eletroacústica - pesquisa sonora, invenção. O segundo e último álbum da Mole chama-se Little Red Record e uma das faixas intitula-se In The Middle of The Day We Can Drink Our Politics Away. Very british de uma ponta a outra, por sinal.

De um depoimento colhido na world wide web:

July m921 ano atrás Third is one of the greatest rock masterpiece and probably jazz music. Most of the tracks were impressive jazz-inspired but perhaps Moon in June was the most original. One of the merits of this song is precisely this was made almost entirely by Robert Wyat. The first part of the song is dominated by his humble dadaistic persona and the second part is the perfect combination of schizophrenic jazz, rock and avant-garde. Very few songs in rock music have reached that level of fusion, maybe 21st centry schezoid man is one of those.

 

 

 trecho de   Medo atraso e rock no grotão

capítulo 3 de                                                                         

 

- Eles atingiram o âmago da linguagem sonora

 

 

You wear it well (um, dois, três) a little old fashioned but that’s all right...

Um sujeito de longos cabelos louros sobre a testa e as orelhas, camisa lilás e calças azuis claras, está placidamente sentado ao balcão. Conheço essa cara mas por nada deste mundo esperaria encontrá-lo aqui. Vou devagar até ele, faço um hi e acerto na mosca: Kevin Ayers, com quem meto conversa graças ao meu passaporte de sempre, conhecer John Peel – oh, yeah? - e ter pernoitado por duas semanas em Chelmsford. Digo de onde venho e falo-lhe da minha enorme curiosidade pela sua terra, a Inglaterra. Diz que mora já há dez anos em Londres e que se sente como um misto de Katherine Mansfield e um personagem saído de um sonho de Noa, Noa com um quê de exótico. Z de exótico, brinca Jimi abeirando-se do balcão.

Apresenta-nos a um amigo que se entretém a dar voltas com os dedos à pequena caneca de cerveja escura na sua frente, quase tão seco como nós, barbudo e com um cabelão liso até o meio das costas, Daevid Allen, seu colega de aventuras com Captain Wyatt+Soft Machine, que vive na França com o Gong. Dirijo-lhe o olhar, digo da antípoda e logo do outro lado do mundo em relação ao Brasil e noto que é o único australiano que ouvi que não tenta parecer com the Beatles or something. - OR SOMEthing - ele cola ao cumprimento. São uma comunidade. - Entre australianos e homens dos bosques? – pergunto-lhe.

- Quase. Mas no fundo somos todos britânicos. Estamos muito bem lá. Tem uns galos franceses também. Eu seria incapaz de tocar noite após noite, de teatro em teatro, e aqui ninguém se sustenta sem isso.

- Vocês têm contrato com a gravadora?

- Não. A Chant du Monde comprou os direitos de dois masters que auto-produzimos. Trabalhamos como numa cooperativa. Aqui ninguém quis comprá-los.

- Estamos indo? – pergunta Kevin a Daevid e a nós se não queremos tomar um drink no seu houseboat. Seguimos em silêncio num Morris Cooper SS até para lá de Albert Bridge. Toma-se Glenfiddish puro. São de poucas falas. Kevin é um gentleman galante.

Num grande painel de fotos pendurado na parede dá para reconhecê-lo numa série com os rapazes da Soft Machine, entre muito pessoal em volta - a primeira formação da turma.

- Eles atingiram o âmago da linguagem sonora – e bate o copo nos nossos.

Aponta para uma com Daevid Allen, quando chegaram a Londres há dez anos, e outra com a sua ‘tribo’, Gong. Jimi pede-lhe para pôr Joy of a Toy. Recusa. Ouvimos Third, da Soft Machine, pela primeira vez desde o início até Moon In June.

Qual lua! Uma bruma em outras circunstâncias sinistra. Amanhece.

O, I miss the rain, ticky-tucky-ticky... - canta Wyatt baixinho.

- Estava atento à letra, que é de tamanho da faixa. Artista está em Nova York no verão com saudade da chuva londrina... nunca pensei que isso pudesse acontecer – diz Jimi se balançando na ponte da casa ao cais enquanto saímos ouvindo a música – and I wish that I would be back home again... home again, home again...

 

 

trecho de Era uma vez a revolução 

capítulo 4 de                                             

(Lisboa, 1975)

Bananas do Malawi, zero-zero de Marrocos, Fourth, da Soft Machine, Amon Düul, Can, Magma, Brian Eno integral pós-Roxy Music com Taking Tiger Mountain (By Strategy) e Here Come The Warm Jets, Kevin Ayers, Eric Clapton de 161 Ocean Boulevard, Peter Tosh de Legalize It, de Santana Borboleta, Lou Reed em Sally Can’t Dance, Velvet Underground e, voilà, para mim quase insuportável mas estamos em democracia, Genesis e The Lamb Lies Down On Broadway e Supertramp, Crime of the Century, mais Bob Dylan Blonde on Blonde, um excelente Nat King Cole da tia, Dinner For One Please, James, e um não menos bom EP de Agostinho dos Santos, talvez a melhor voz masculina do Brasil. A noite está tão fria, chove lá fora, e esta saudade enjoada não vai embora....

trechos de  Droga Loucura e vagabundagem  

  capítulo 5 de                                                        

           (Lisboa, 1975)

         Uma tarde levamos Peter de carona até o Alto. Fuma-se um. Ivan prossegue uma partida de Go na grande mesa de mármore da sala, fico de sonorizador fazendo uma escolha de eleição entre a discoteca legal dos confrades, que inclui Paris 1919 de John Cale, Nico, Cale e Kevin Ayers ao vivo em Paris, de que sempre repito May I, do meu ex-amigo Ayers Rock’n’doçura & melodia, o primeiro solo de Phil Manzanera, ex-Roxy Music, e Rockbottom, o primeiro de Robert Wyatt após a queda de uma janela de casa em heroína que o deixou paraplégico e cuja publicidade da emergente Virgin Records acerta na veia no título-chave do projeto de livro de Jimi sobre McGuinn & Morrison: Robert Wyatt is alive and living in Rockbottom, numa página toda branca com contornos sombreados. Fuma-se o segundo. Peter pinta. Início da noite, a partida acaba, a pintura parece pronta: negra com fundo branco.

...

A Soft Machine pós-pós Robert Wyatt e pós-Elton Dean, com quem ainda gravou um Fourth audível, já vai no Fifth, agora sob o comando do baixista Hugh Hopper e do organista Mike Ratledge, os únicos remanescentes do enorme bando original, e o dito cujo é intragável.

                                                                                  

https://www.youtube.com/watch?v=WSv2gLT0jkU&list=PL8a8cutYP7fqrpWvd5wSilHCXeqBZBZTQ

                                                duplo álbum de 75:21m

                          

a base (piano elétrico, órgão, baixo elétrico, bateria) + guitarra bass clarinet  violin saxello alto sax soprano sax. É quarteto de base mas até THIRD (ou com Robert Wyatt) Soft Machine, que nasceu noneto, nunca é só a base

uma festa de timbres inusitados no universo rock - estamos em 1970 nos primórdios da (con)fusão jazz-rock, logo irão chamar a isso. 

os próprios títulos "inteligentes"

FACELIFT  18:45                                   MIKE RATLEDGE que começa com o que parece water music e quando seu órgão não entra em tergiversações viajandantes.está, como todo mundo no instrumento, em variações sobre J.S. Bach. O mesmo ocorre na faixa (no lado) de Wyatt. 

SLIGHTLY ALL THE TIME   18:10       HUGH HOPPER  embalado em 3/4 o longo tema bem urdido é exposto e "cantado" por Hopper e pelos saxes, entre variações e da capos por seis minutos até ser jogado em explorações de múltiplas veredas, entre breakes e viagens com cambiantes de 6/8 e até um 2/4 bem roqueiro que, como todo o álbum, expressam um entrosamento que, como soi dizer-se hoje em dia, está a demonstrar o prazer do quarteto & associados em vibrar juntos, aqui especialmente entre a dupla mais próxima do fogão na cozinha, Hopper e Wyatt. Mudanças de andamento e de ritmo são mato nesse longuíssima duração que após centenas de audições em 40 (!!!) anos manterá a frescura original e continuará passando clima de segunda vez.   

MOON IN JUNE                                    ROBERT WYATT

OUT-BLOODY-RAGEOUS  19:21          ELTON DEAN    o tom é como o de determinados Coltrane, Roland Kirk e Pharoah Sanders, que viajam no saxofone ao redor de vários gêneros musicais do planeta e em um ou outro ponto cavalgam pelas escalas e harmonias do norte da África ou terras do Islam, para o que aqui contribui também o órgão mais viajandante da história. Estamos também no campo da música inventiva de Terry Riley e Steve Reich. De 6/8 a 10, 11/8, é uma festa em duas partes, com abertura e fecho em clima de música eletrônica da escola europeia-americana contemporânea (como a do tema de Ratledge) e tema central out-bloody-rageously jazzístico da melhor espécie. Afro-jazz - e se não redunda o termo é redundante.

                                                                       MOON IN JUNE

 PARTES                                 découpage

  1   00 : 40

  3   01 : 00

  4   01: 46

  5   02 : 00

  6   03 : 39

  7   03: 45

  8   04 : 46

    06: 00 

10  06 : 40                   

11  07 : 00   

12  07 : 16

      08 : 50 

13  09 : 00

14  09 : 45

15  10 : 10 

16  12 : 50  

17  14 : 00  

18  15 : 40  

      19 : 05  

 

 

 

 

entra o órgão viajandante

(antes em acompanhamento)

 living can be easy here in the New York State but how I wish to be home again 

but I miss the trees

but I miss the rain

como o poeta é baterista quando lhe faltam as palavras ele não deixa o tempo (a peteca) cair e vai também de tucky-tucky-ticky

remember how whispers can tell lies

remember how whispers tell not lies

solo de órgão

riff de guitarra

finale

fitas de gravação tocadas da frente para trás e manipuladas, acelerando e desacelerando o som

MOON IN JUNE seria a mais longa canção ou canções em suíte da história se fosse uma canção ou canções em suíte com variações a partir das linhas-tema iniciais, o que também parece ser. Sintomaticamente Frank Zappa construiu uma outra peça cantada de grande extensão, Billy The Mountain, de 24m30s, lançada em 1971 no LP Just Another Band From LA, com gravações ao vivo em... L.A. Mas Billy The Mountain é como uma peça de music-hall ou vaudeville com outro espírito - uma peça de vaudeville contracultural, embora mais uma vez o objetivo principal do autor seja justamente o de satirizar a subcultura contracultural, e MOON IN JUNE seja para todos os efeitos uma canção ou suíte de canções cuja narrativa (porque afinal é disso que se trata) se prolonga por três quartos da obra, que tem dúzia e meia de partes com mudanças de ritmo e andamento e variações sobre as linhas-tema de base. O que se poderia chamar com toda a propriedade de um tour-de-force de Wyatt, não fosse ele o homem dos tours-de-force, que se reinventa a cada instante, mesmo depois de por conta de uma queda da janela ter ficado paraplégico e ter tido que reinventar a carreira pela impossibilidade de prosseguir a de baterista. Que fez diferença, lá isso fez e muita, porque se MOON IN JUNE não é uma canção ou suíte de canções e for seja lá o que for é, como as outras três faixas de THIRD, um grande (nos dois sentidos) exercício de composição nomeadamente para bateria, porque é ela que está na base e conduz a narrativa poética e musical e o homem não fez por menos. Nas pesquisas anuais de opinião dos leitores feitas pelo Melody Maker, que já deixara de ser um periódico sobretudo de divulgação de jazz mas continuava a figurar entre as mais prestigiosas publicações especializadas do gênero, Wyatt era considerado o melhor baterista inglês, e talvez como em nenhuma outra ocasião ele demonstra aqui sua incomensurável capacidade expressiva e malabarística, o harmonizador e o atleta em plena forma atlético-física ou vice-versa, em jogos de pés e mãos de arrepiar os pelos dos pês. E dos cabelos quando se pensa que três anos depois o percussionista redivividara-se mas era uma vez o exímio baterista de que a Velha Albion deveria para sempre se orgulhar. Anos 1970 e 80 e... fora continuou a ter no entanto um daqueles espíritos que podem fazer de um homem ou um baterista um artista (quase) completo.     

Soft Machine One

sob o signo de Blow Up, Michelangelo Antonioni, 1966

 

   CAPITÃO ROBERT WYATT AO SEU SERVIÇO....

Rockbottom, o primeiro de Robert Wyatt após a queda de uma janela de casa em heroína que o deixou paraplégico e cuja publicidade da emergente Virgin Records acerta na veia no título-chave do projeto de livro de Jimi sobre McGuinn & Morrison: Robert Wyatt is alive and living in Rockbottom, numa página toda branca com contornos sombreados. 

O percussionista redivividara-se mas era uma vez o exímio baterista de que a Velha Albion deveria para sempre se orgulhar. Anos 1970 e 80 e... fora continuou a ter no entanto um daqueles espíritos que podem fazer de um homem ou um baterista um artista (quase) completo.       

                                                          

   AYERS' ROCK

 

JOY OF A TOY

Os quatro primeiros álbuns de Kevin Ayers expressam bem o espírito jovial e de camaradagem do Capitão Wyatt. Ele marca presença em todos. Fez questão de incluir em seu currículo uma passagem como membro de Gong, que era como que um subsidiário francês da Soft Machine, e anos 1990 fora se continuou a sentir esse espírito de camaradagem - entretanto até já de verve política socialista - em mil e uma iniciativas musicais britânicas. O galantão Capitão Wyatt nunca perdeu a pose. Joy of a Toy, uma das quatro faixas assinadas por Ayers no primeiro Soft Machine, tem a batera de Wyatt e os teclados de Mike Ratledge (também em todas com Ayers), e é uma das mais gratas surpresas do selo Harvest (de muitas gratas surpresas e coisas também ruinzecas, como Deep Purple) em 1969.

Ayers' rock & muita doçura entre ceticismo às vezes cáustico e ironia muito sutil, quase imperceptível, típica do british humour, e em que sempre transparece algo z de exótico, talvez pela voz de baixo encorpada e suave. E vez ou outra até humor escrachado - enfim, after all we´re british all the same... ou como se de uma ponta a outra do mundo nada mude, porque afinal somos todos britânicos. Mas o gentleman galante se exercita-se também no sarcasmo, embora também quase por subentendidos, muito sutil. De repente entra um fagote (Lol Coxhill) e preenche as medidas sugestivas do clima da canção, dando o toque preciso e exato do tom do discurso discreto, camerístico, prenhe de melancolia. Com sobriedade, delicadeza, sutileza e em muitos trechos até uma leveza de superfície lunar. Ayers' rock são baladas eletroacústicas de amplos espaços instrumentais, e não por acaso de sua banda Whole World (onde não deu para encher o saco) sai para todo o mundo Mike Oldfield e suas (inefáveis) Tubular Bells. De Whole Wide World, Wild, Wilde, Why, wow, sai Shooting at the Moon, 1970. (Bridget St. John é outro capítulo desta história que serpenteia no espaço geográfico e nas prestações de um pequeno exército - passe o termo -em estória sem fim, Soft, Ayers, Gong, Caravan, oo-la-la...).

O compositor de One faz de Joy of a Toy, Continued, Kevin Ayers + Soft Machine, disco extra da Soft Machine, que desvia para a sua lavra de canções, primorosa, lavrada com carinho e virtuosismo pelo trio mais o auxílio luxuoso de Paul Buckmaster, que em um ano estará moldando o som Elton John (que não por acaso tirou o nome de Elton Dean e se vamos por aí onde se irá parar) e inaugurando uma senda na orquestração do soft rock ou o q se lhe assemelhe.

https://www.youtube.com/watch?v=J2DBuVUm8VY&t=1718s

- Eles atingiram o âmago da linguagem sonora

com Kevin Ayers que, com o apoio dos consortes, prosseguiu na mesma senda em 

SHOOTING AT THE MOON (1971)  com Whole World - David Bedford, Lol Coxhill  - o saxofonista e clarinetista que, numa pior ou melhor, encantou Joni Mitchell "tocando tão bem de graça" (For Free, em Ladies of the Canyon) no saguão de terminal de um aeroporto americano -, Mike Oldfield e Mick Fincher + Wyatt e Ratledge.

https://www.youtube.com/watch?v=5RychGY51Lk

https://www.youtube.com/watch?v=pxQ3UhS37-Y&t=300s

WHATEVERSHEBRINGSWESING (1972) com Whole World + Wyatt e Ratledge

BANANAMOUR (1973) com Archie Leggett (ex-Matching Mole) + Wyatt e Ratledge

https://www.youtube.com/watch?v=TDG8FUNelqY (falta Shouting in a Bucket Blues)

Em outro disco memorável partilhado com John Cale, Nico e Brian Eno gravado ao vivo em Paris o gentleman galante dá de barato versão bilingue de uma balada singela com uma levada de tapete mágico, May I

https://www.youtube.com/watch?v=cmK5AHR3R7w&t=616s

 

Puis-je

j´étais perdu dans la rue 

fatigué et mal au cou

j'ai vu un petit café

avec une fille dedans

et je le disais

puis-je 

m'assoir auprès de toi

pour te regarder

j'aimerais bien 

la compagnie de ton sourire

 

 

 

À imagem do futuro Centipede, o power trio Soft Machine performa no mínimo um noneto de uma ponta à outra do Império em aparições ou desaparições conjuntas na Velha Albion e do outro lado do canal da Mancha, que inclui um bando de jovens músicos igualmente siderais e afins, apesar de talvez também de outras galáxias, de alto talento e capacidade técnica, ideias, música e letra, da ilha-ela-mesma ou das ilhas distantes como o neozelandês Ayers e o australiano Daevid Allen, que finca estacas na França onde funda ao mesmo tempo uma comunidade pluridiversa, como diria William James, e multinacional, também e acima de tudo banda de rock, GongCamembert Électrique.

https://www.youtube.com/watch?v=Z8c-Nl_r9Zs

De natureza muito parecida mas estética menos bombástica, se é que me entendem, o baterista Pye Hastings faz das suas (boas) com Caravan, que cometeria a proeza de dar a seu segundo (ótimo) LP título quilométrico como sua fibra criadora, If ICould Do It All Over Again I'd Do It All Over You. De 1970. Veja-se como entre primos distantes, pelo invólucro, ainda assim se acha analogias:

Caravan 1st

carnack538 meses atrás

Boy, Pye Hastings sure can sound like Robert Wyatt sometimes...

https://www.youtube.com/watch?v=Zwsb5kaLh00&t=26s

https://www.youtube.com/watch?v=HiTrh2D-6BM&t=869s

 

Outro monumento instrumental da temporada é o noneto Colosseum do baterista Jon Hiseman que com o vocalista ChrisFarlowe detona a bomba em duplo LP ao vivo em que dão os tubos nomeadamente em faixa vulcânica chamada Rope Ladder To The Moon

https://www.youtube.com/watch?v=joujh2jLL1A

 

 

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           é também trecho de     webpage 

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 da série       so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

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Puis-je

j´étais perdu dans la rue 

fatigu? et mal au cou

j'ai vu un petit caf?

avec une fille dedans

et je le disais

puis-je 

m'assoir aupr?s de toi

pour te regarder

j'aimerais la compagnie de ton sourire

 

 

 

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