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 Breve História (do Uso) das Drogas 

   da Antiguidade a Aldous Huxley

seguida de Breve História (do Uso) das Drogas de Aldous Huxley aos nossos dias  

  

     ciberzine   & narrativas de james anhanguera

 

 

 

 

 

Quando decidiu "modelar" uma droga que teria função preponderante em seu romance Admirável Mundo Novo, publicado em 1932, Aldous Huxley iniciou uma trajetória de três décadas de estudos do uso de substâncias alteradoras da consciência ao longo da história e da possibilidade de aplicação de algumas delas em projetos de desenvolvimento humano em uma era crucial de descobertas e redescobertas dessas e de novas substâncias. 

 

 

Antiguidade

            Como se não bastasse [o resto], antes mesmo da publicação da sua "terrificante distopia" (como a definiu André Maurois) sobre um mundo escravizado pela máquina e dominado pela tecnologia, Huxley – que sentindo-se estrangeiro em sua própria terra decidiu fixar residência no sul da França – surge como paladino da busca de um produto sintético imaginário que tornaria as futuras gerações felizes e dóceis. Uma droga como a que imagina para o seu livro. Fonte de divertimento e prazer. Tranquilizante e soporífera. Mas que ao contrário do soma não crie dependência física ou psíquica.
            Uma droga que colmasse nossos anseios de tirar férias da realidade, como escreve de La Gorguette no artigo

                   Wanted: A New Pleasure

Procura-se: Um Novo Prazer, publicado meses antes do lançamento de Admirável Mundo Novo.
            Férias muito regulares, propõe no artigo, em que revela o que lhe passa pela cabeça enquanto modela a droga ideal para um mundo sem vida: Se pudéssemos aspirar ou engolir algo que durante cinco ou seis horas por dia abolisse a nossa solidão, nos irmanasse aos companheiros numa intensa exaltação de afeto e fizesse a vida em todos os aspectos não só merecedora de ser vivida mas divinamente bela e significativa... todos os nossos problemas seriam inteiramente solucionados e a terra tornar-se-ia um paraíso.
            Huxley reflete sobre o impacto da leitura de uma obra seminal consultada durante a pesquisa para o que será um dos componentes básicos do Admirável Mundo Novo, fornecendo-lhe o único misticismo nele admitido: segundo o Controlador Mond, "o cristianismo sem lágrimas".
           Trata-se do primeiro estudo de etnobotânica com um mapa geral das drogas usadas pelos mais diversos povos do mundo, Phantastica, de Ludwig Lewin, farmacologista e o mais conceituado toxicólogo alemão, que lhe desperta a atenção para a ‘curiosa história do consumo de drogas’, que passa a encarar como um dos capítulos mais significativos da história natural do homem. O homem primitivo – sublinha – explorou as avenidas farmacológicas para escapar do mundo com uma meticulosidade estarrecedora. Os nossos antepassados não deixaram quase nenhum estimulante natural, alucinógeno ou estupefaciente por descobrir.

 

 

              Breve História do Uso das Drogas da Antiguidade a Aldous Huxley

         Lewin foi um dos primeiros cientistas a estudar o uso e os efeitos de várias substâncias psicoativas, como o peiote, um tipo de cacto alucinógeno usado desde o fim da Guerra Civil Americana pelos índios do sul dos Estados Unidos nos rituais da Igreja Nativa Americana. O peiote cresce a sul do Rio Grande, na fronteira do México com o Texas.

As primeiras informações sobre o uso de plantas psicoativas na região datam da própria época da conquista do México por Hernán Cortez.

    Condenados pela Inquisição como agentes de bruxaria e superstição ainda assim os alucinogênios continuaram sendo usados pela população nativa e três séculos depois a cultura do cacto peyotl expande-se para norte até o território das reservas dos Comanche e Kiwoa, que passam a consumi-lo e fundem os seus ritos originais com os dogmas cristãos dos missionários, criando a Igreja Nativa Americana. Uma mulher de Laredo, no Texas, envia amostras do cacto seco para laboratórios norte-americanos e europeus na década de 1880 e oito anos depois Ludwig Lewin publica o primeiro relatório científico sobre o peiote. Em 1895 isola o princípio ativo do Anhalonium Lewinii, a que dá o nome mezcalin. Sintetizada em laboratório em 1919, a mescalina é o mais novo phantasticum entre os que cita no pioneiro vade-mécum das drogas.

     

         A essa altura a mescalina causa já verdadeiro furor junto da comunidade científica e nos círculos artísticos e culturais da Alemanha, o que se depreende dos vários estudos sobre a substância publicados naquele país na segunda metade dos anos vinte e das pesquisas realizadas nas últimas décadas em torno dos manuscritos do filósofo Walter Benjamim e de outros integrantes da Escola de Frankfurt sobre suas experiências com drogas endógenas, como a mescalina e o haxixe.
         A partir desses estudos vieram de novo a público detalhes de uma operação montada por Adolph Hitler logo após a tomada do poder para o combate ao consumo de drogas na Alemanha. A operação, em que a polícia de Heinrich Himmler empregou as mesmas tácticas aplicadas décadas mais tarde na repressão ao consumo de drogas nos Estados Unidos, foi chamada

  Rauschgiftbekämpfung  

          guerra ao delírio das drogas   

e é uma antepassada da guerra às drogas atualmente em curso sob o comando do governo americano. Com ela os nazistas poderão ter evitado uma revolução psicodélica no III Reich – e talvez uma forte oposição à guerra - trinta anos antes da que a própria Alemanha irá também vivenciar, tendo como fontes de inspiração substâncias como a mescalina e outra ‘poção mágica’ prestes a ser descoberta, o LSD-25

                

    Mas no início dos anos trinta a ‘febre’ da mescalina parece irrefreável, pelo que se depreende de um artigo de alerta publicado em 1931 pelo British Journal of Addiction (Jornal Britânico de Adicção), onde se lê que ‘o uso deste alcalóide tornou-se quase um culto em decorrência dos seus peculiares efeitos fisiológicos’.

    Huxley extraiu de Phantastica o nome da droga que inventou para o seu novo mundo do desencanto, o de uma planta não identificada que segundo a literatura védica era usada há milhares de anos no culto ao deus Indra na Índia.

    Desde tempos imemoriais e ao longo da história o homem consome substâncias sem valor nutritivo para o seu contentamento, alívio e conforto e em cultos religiosos, afirma Lewin na apresentação do seu omnibus das drogas.

    De Samuel Taylor Coleridge, o poeta dos lagos, a William Butler Yeats, contemporâneo e admirador de Huxley, passando pelos simbolistas franceses, muita da melhor arte do século XIX foi produzida sob o efeito de láudano, ópio, óxido nitroso, cocaína ou haxixe. O próprio pai do mecanicismo racionalista René Descartes foi um dos mais ilustres cultores do fumo da cannabis no século XVIII.

    O poema Kubla Khan, de Coleridge, terá sido o primeiro dos escritos de drogas que moldaram a grande literatura de língua inglesa do século XIX - poemas de Byron e Shelley, o Frankenstein de Mary Shelley, a Alice de Lewis Carroll, Dr. Jekyll e Mr. Hyde de Stevenson, os livros de Dickens e de Arthur Conan Doyle. Escritos de ópio, cocaína e cogumelos ou de gases como o óxido nitroso.

    Ópio e derivados eram de uso comum no século da rainha Vitória. Thomas De Quincey relata em Confissões de um Inglês Comedor de Ópio, publicado em 1821, que o número de comedores de ópio amadores (como os devo chamar) era imenso à época na sede do Império, que moveu duas guerras contra a China para impor-lhe o contrabando do produto, que passou a trocar pelo chá com que se cobriria metade das despesas da corte da rainha.

    Edgar Allan Poe, do outro lado do Atlântico, usou láudano para fazer da sua literatura fantástica uma experiência com a anomalia do mais rigidamente exato em ciência aplicada à sombra e espiritualidade do mais intangível em imaginação.

    Com o regresso das tropas de Napoleão do Egito com um carregamento-extra do produto também o haxixe assume papel relevante na literatura francesa. Baudelaire, Balzac, Théophile de Gautier e Gérard de Nerval reúnem-se no Club des Hachichins e presume-se que foi sob o seu efeito que Rimbaud propôs o desregramento de todos os sentidos.

    A língua portuguesa foi brindada com os versos opiados da Clépsydra de Camilo Peçanha e de Álvaro de Campos (ah, esta vida de bordo há de matar-me...) após Eça ter aquiescido no Egipto:

-         Há hachisch em pastilhas...

-         Pois que venham as pastilhas!

-         Há hachisch em bolos...

-         Pois venham os bolos!

-         Há hachisch em geleia...

-         Então, venha a geleia!

 

    Com uma lei americana de 1914 e o Ato de Defesa do Reino Unido de dois anos depois proibindo o uso de substâncias psicotrópicas ou alucinógenas a história das drogas deixa de novo o domínio publico para voltar a ser quase secreta, como durante a longa noite em que o catolicismo tudo fez para reprimir o seu consumo. Chaves de mistérios e portais da magia, drogas são coisa do Demo e quem as usa arrisca-se a padecer na fogueira purificadora.

    Perde-se assim o próprio traço da sua história, que data das eras mais remotas, quando o homem testa todo tipo de fruto da terra em busca de fontes de alimento e prazer e nelas encontra as bases das suas culturas e religiões.

    Textos sumérios e hinduístas de três a quatro mil anos antes de Cristo fazem referência ao uso de ópio, cannabis e do misterioso soma em cultos místicos. Cogumelos alucinógenos foram usados na Sibéria há mais de seis mil anos. O uso da cannabis entre os citas remonta há mais de dois milênios. Aristóteles, na Grécia, e depois Plínio, o Velho, e Virgílio, em Roma, escreveram sobre a substância, possivelmente originária da Ásia Central ou da China, onde o seu uso era bastante difundido mas, de acordo com as leis confucionistas, moderado quando os ingleses decidiram pagar o seu chá das cinco e de todas as horas com o produto da extração da seiva do bolbo da papoula (papaver somniferum) da Índia.

    Os primeiros relatos sobre o ópio no segundo milênio d.C. encontram-se no livro Milione, ou Viagens de Marco Polo, em que também se fala de Hasan Sabbah, o Velho da Montanha, um imã dissidente do islamismo ortodoxo sunita, e dos seus seguidores haschaschins. Só no início do século XIX o orientalista francês Sylvestre de Sacy iria reabrir a cortina sobre esse ato para dizer que o haxixe está na origem do nome dos ismaelitas seguidores do Velho da Montanha – sanguinários na guerra pela imposição da sua visão tida por herética do Corão – e do termo assassino. Meio milênio antes do viajante genovês, no século XIII, dera-se a invasão em massa da Península Ibérica por berberes que usavam o haxixe como meio de transporte místico. Com eles propagou-se por toda a Europa o cultivo da cannabis. De roupas à Bíblia de Gutenberg e às velas das naus e caravelas a fibra da cannabis, ou cânhamo - a mais resistente até a invenção das fibras sintéticas -, teve papel fundamental na economia ocidental no último milênio.

    Na época em que Marco Polo relatou suas viagens a igreja católica dava caça impiedosa às cultoras da Deusa da Noite, que com substâncias psicoativas extraídas de plantas como datura, mandrágora e beladona – e talvez cannabis - compunham infusões que as catapultavam em vôos mirabolantes.

 Em seu ensaio Non-Therapeutic Uses of LSD / Usos Não-Terapêuticos do LSD, um dos capítulos do livro  LSD Psychotherapy / Psicoterapia de LSD, publicado nos Estados Unidos da América em 1980, o psicoterapeuta tcheco Stanislav Grof faz o seguinte resumo de

 DRUG-INDUCED RELIGIOUS AND MYSTICAL EXPERIENCES

   The use of psychedelic substances for ritual, religious, and magical purposes can be traced back to ancient shamanic traditions and is probably as old as mankind. The legendary divine potion soma, prepared from a plant of the same name whose identity is now lost, played a crucial role in the Vedic religion. Preparations from hemp Cannabis indica and sativa have been used in Asia and Africa for many centuries under different names—hashish, charas, bhang, ganja, kif—in religious ceremonies and folk medicine. They have played an important role in Brahmanism, have been used in the context of Sufi practices, and represent the principal sacrament of the Rastafarians. Religio-magical use of psychedelic plants was widespread in the Pre-Columbian cultures, among the Aztecs, Mayans, Olmecs, and other Indian groups. The famous Mexican cactus Lophophora williamsii (peyote), the sacred mushroom Psilocybe mexicana (teonanacatl), and several varieties of morning glory seeds (ololiuqui) were among the plants used. Ritual use of peyote and the sacred mushroom still survives among various Mexican tribes; the peyote hunt and other sacred ceremonies of the Huichol Indians and healing rituals of the Mazatecs using the mushrooms can be mentioned here as important examples. Peyote was also assimilated by many North American Indian groups and about one hundred years ago became the sacrament of the syncretistic Native American Church. South American healers (ayahuascheros), and preliterate Amazonian tribes such as the Amahuaca and the Jivaro use yagé, psychedelic extracts from the "visionary vine," the jungle liana Banisteriopsis caapi. The best known African hallucinogenic plant is Tabernanthe iboga (eboga), which in smaller dosages serves as a stimulant and is used in large quantities as an initiatory drug. In the Middle Ages, potions and ointments containing psychoactive plants and animal ingredients were widely used in the context of the Witches' Sabbath and the black mass rituals. The most famous constituents of the witches' brews were the deadly nightshade (Atropa Belladonna), mandrake (Mandragora officinarum), thornapple or "jimson weed" (Datura Stramonium), henbane (Hyoscyamus niger), and toad skin. Modern chemical analysis has detected in the skin of toads (Bufo buff), a substance called bufotenine (or dimethylserotonin) which has psychedelic properties. The psychedelic plants mentioned above represent only a small selection of those that are most famous. According to ethnobotanist Richard Schultes of the Botanical Department of Harvard University, there exist more than one hundred plants with distinct psychoactive properties

 

EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS E MÍSTICAS INDUZIDAS POR DROGAS

O uso de substâncias psicadélicas para fins rituais, religiosos e mágicos nos reporta às antigas tradições do xamanismo e provalmente tem a idade da humanidade. A lendária poção divina soma, preparada a partir de uma planta com o mesmo nome cuja identidade se perdeu, teve papel crucial na religião Védica. Preparados de Cannabis indica e sativa, duas espécies de cânhamo, têm sido usados na Ásia e na África há muitos séculos sob diferentes nomes - haxixe, charas, bhang, ganja, kif - em cerimônias religiosas e medicina popular. Tiveram papel importante no Bramanismo, têm sido usadas no contexto de práticas Sufi, e representam o principal sacramento dos Rastafaris. O uso religioso-mágico de plantas psicodélicas estava disseminado em culturas Pré-colombianas, entre os Astecas, Maias, Olmecas, e outros grupos Índios. O famoso cacto Mexicano Lophophora williamsii (peyote), o cogumelo sagrado Psilocybe mexicana (teonanacatl), e diversas variedades de sementes de ipomeia (ololiuqui) estavam entre as plantas utilizadas. O uso do peiote e do cogumelo sagrado em rituais ainda sobrevive em várias tribos Mexicanas; a coleta de peiote e outras cerimônias sagradas dos Índios Huichol e rituais de cura dos Mazatecas com o uso de cogumelos podem ser aqui mencionados como exemplos importantes. O peiote foi também adotado por muitos grupos de Índios Norte-Americanos e há cerca de cem anos tornou-se o sacramento da sincrética Igreja Nativa Americana. Curandeiros Sul-Americanos (ayahuascascheros) e tribos pré-colombianas de Amazônia tais como os Amahuaca e os Jivaro usam yagé,  extratos psicodélicos da "vinha visionária", a liana da selva Banisteriopsis caapi. A planta alucinógena Africana mais conhecida é o Tabernanthe iboga (eboga), que em dosagens menores serve como estimulante e é usado em grandes dosagens como droga iniciatória. Nas Idades Médias, poções e unguentos contendo plantas psicoativas e ingredientes de origem animal eram usados de modo amplo no contexto de Sabás de Bruxas e rituais de magia negra. Os componentes mais famosos das miscelâneas das bruxas eram a beladona (Atropa Belladonna), mandrake  mandrágora (Mandragora officinarum), estramônio (Datura Stramonium), meimendro (Hyoscyamus niger) e pele de sapo. Análises químicas modernas detectaram na pele de sapo (Bufo buff) uma substância chamada bufotenina (ou dimetilsorotonina) que tem propriedades psicodélicas. As plantas psicodélicas mencionadas acima representam apenas uma pequena seleção das que se encontram entre as mais famosas. Segundo o etnobotânico Richard Shultes, do Departamento de Botânica da Universidade Harvard, existem mais de uma centena de plantas com diferentes propriedades psicoativas. 

    Com o desenvolvimento da química passou-se a extrair do ópio dezenas de substâncias psicoativas de altíssimo poder anestésico como a morfina e a heroína. Propaga-se também o uso na medicina e além dela do éter e do óxido nitroso, o gás que o norte-americano John Priestley descobriu em 1772 e que irá levar Mark Twain a escrever um século depois sobre a cadeira do dentista que o fazia rir.

    O relato do romancista americano sobre o gás hilariante é da mesma época em que o neurologista italiano Paolo Mantegazza produz um dos primeiros estudos científicos sobre os efeitos do princípio ativo da folha de coca, com que em poucos anos se fará uma série de produtos para fins medicinais (no mínimo revigorante & estimulantes), de gomas de mascar a compostos líquidos com cola. Do refinamento da folha da Mama Coca obtém-se um pó que leva o dr. Freud ao outro lado do espelho para descobrir aspectos de sua compleição física e psicossomática antes insuspeitados e que poderá tê-lo ajudado a desenvolver métodos de pesquisa indiciária posteriormente aplicados em análise.

 

    Também os puritanos vêem no crescente consumo de todo tipo de drogas uma séria ameaça e movem intensa campanha para a sua criminalização, que nos EUA assume aspectos de nova cruzada em 1900, na Conferência Missionária Mundial, onde é lançada uma proposta com esse fim, transformada em lei 14 anos depois pelo presidente Woodrow Wilson. Apenas chá, café, açúcar, tabaco e cannabis escapam da proibição.

    Mas o diretor do Gabinete Federal de Narcóticos, Harry Anslinger, presumível testa-de-ferro da indústria química, empenhada na exploração comercial das novas fibras sintéticas, e William Randolph Hearst, o mais poderoso dono de jornais da história, ressabiado com a ocupação das suas fazendas de produção de matéria-prima do papel no México pelo governo de Emiliano Zapata e de fumadores de marijuana, movem intensa campanha para a abolição do consumo do cânhamo em todas as suas formas, argumentando que a erva torna os negros que a fumam alegres e insolentes, e também a cannabis é proibida no final da década de 30.

 

    

FROM BRAVE NEW WORLD TO PEPPERLAND

     DE ADMIRÁVEL  MUNDO  NOVO  À  TERRA  DO  SARGENTO  PIMENTA

Trechos do apêndice Rumo às ilhas da Utopia de   extraídos da webpage  revoluciomnibus.com Huxley na Fome no Mundo, onde se encontra o essencial da vida e obra de Aldous Huxley   

 
 

    De enorme utilidade para este regime como igualmente sem nexo são tanto as guerras do petróleo e de religião como a guerra às drogas em curso, que decerto Aldous Huxley estaria a desmistificar com a mesma serenidade e clareza com que escrevia sobre as questões mais polêmicas e complexas, a refletir sensibilidade e inteligência das mais fundas, alargadas e perspicazes do nosso (porque também deste) tempo em textos de permanente atualidade, objetividade e transcendentalismo – dos romances a ensaios como As Portas da Percepção e Céu e Inferno.
    - Huxley deu-nos o belo e tranquilo exemplo de morrer sem maior sofrimento físico - escreveu Antônio Callado, que também morreu de câncer.
    Huxley morreu sob os efeitos de uma poção mágica de que foi um dos descobridores, a que chamou medicina moksha, e com que os jovens do seu tempo fizeram uma revolução. No caso, LSD e psilocibina, os responsáveis pela revolução psicodélica dos anos sessenta e por movimentos em princípio a ela completamente alheios como a Primavera de Praga e a Revolução de Veludo tchecoslovaca, de algum modo inspiradas na ‘visão cósmica’ a que as drogas psicodélicas dão acesso.
    Huxley é uma das personalidades homenageadas pelos Beatles na capa do LP Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, uma das obras magnas da cultura psicodélica, como descobridor e primeiro grande propagandista do papel que esse tipo de droga poderia exercer no desenvolvimento do potencial humano. Para todos os efeitos a revolução que, como o seu sonho de A Ilha, não poderia vingar porque para o poder era uma burrice pegada ou um empecilho inadmissível, é parte do seu precioso legado à humanidade.

    Sofreu severos ataques nos últimos anos de vida da intelligensia europeia, ressabiada com o fato de uma mente tão notoriamente privilegiada ter optado por seguir os ‘descaminhos’ da busca de uma solução espiritual, também - e não só - por processos químicos, para os problemas da humanidade.

    A aposta no potencial humano, baseada no poder criativo e de imaginação de cada indivíduo, é ponto cardeal da filosofia de Huxley, baseada na necessidade de uma mudança profunda na formação dos cidadãos para a mudança de rumo de toda a sociedade. Uma utopia desmedida que ainda o irá deixar a bradar como louco no deserto. Ou no manicômio.

    Após trinta anos de viagens aos infernos da condição humana sob a tirania dos estados nacionais e clericais e da tecnologia Huxley, sem Dante ou Virgílio à cola, decide aprofundar a descida para descrever um estranho caso de possessão demoníaca coletiva perto de Toulon, no século XVII, em Os Demônios de Loudon. Mais uma amostra de como o poder clerical católico é a própria imagem acabada do Inferno que inventou.

                                                  


           
Mas o que mais nos interessa aqui é o epílogo do livro publicado em 1953, em que Huxley analisa o uso generalizado de álcool, narcóticos naturais, estimulantes e alucinadores, os mais comuns substitutos da Graça, com que homens e mulheres têm tentado escapar da tormentosa consciência da miséria de serem eles mesmos.
    Para ele alterações mentais induzidas por drogas levam à estrada descendente, podendo acarretar as piores consequências e originar o desconforto presente e a viciação, degeneração e morte prematura, sendo todos e cada um deles venenos capazes de levar à auto-transcendência:
   Para o consumidor de drogas, o momento de percepção espiritual, se alguma vez acontece, cedo dará lugar ao estupor, frenesi ou alucinação subhumanos, seguidos de uma ressaca horrível e, a longo andar, de um permanente e fatal prejuízo à força da saúde física e mental. Ocasionalmente poderá ocorrer uma singular anestésica revelação, mas que algo do gênero aconteça jamais justifica o recurso a métodos químicos de auto-transcendência.
    Huxley baseia-se ali e então nos mesmos argumentos dos formadores de opinião hipócritas ou ignorantes dos efeitos das drogas naturais ou sintetizadas a partir de matrizes geradas pela Mente Vegetal do planeta no homem. Mas o texto é também um documento histórico por se tratar da máxima expressão do que o Fato pode produzir em mudança de conceitos numa cabeça livre, aberta e despreconceituosa em relação a aspectos da vida do homem e da natureza em que, após a experiência temerária de todo grande explorador - maior ainda porque é corajoso mas não louco, e ao se lançar à empreitada apóia-se em informações fundamentadas de quem entende do assunto -, acaba por vislumbrar não o mal antevisto mas elementos catalisadores do bem-estar pessoal e coletivo. É a página inicial da prova eventualmente mais palpável de que ele foi de fato um dos homens mais livres, corajosos e inteligentes do seu tempo.


       

 

 

 

    No primeiro relatório científico sobre o LSD Werner Stoll disse haver semelhanças entre a estrutura química do novo composto e a da mescalina. Três anos depois da sua publicação uma dupla de pesquisadores emite o primeiro relatório norte-americano sobre o emprego da droga na terapia de distúrbios mentais. O termo mais usado pelos especialistas para definir as suas funções é psicotomimético, porque para eles a grande novidade da droga é criar artificialmente nos pacientes efeitos similares aos distúrbios que apresentam em condições normais, numa espécie de mímica da demência. Os relatórios seguintes descrevem os efeitos da aplicação de LSD no corpo humano em doses diversas, comparam a nova droga com a panacéia de uso corrente e discutem o seu emprego sobretudo no tratamento da esquizofrenia.

    Por essa altura Aldous Huxley assesta a lupa num artigo dos psiquiatras britânicos Humphrey Osmond e John Smythies, que trabalham num hospital de Saskatchewan, no Canadá.
    Osmond e Smythies pesquisam o uso de mescalina no tratamento de distúrbios mentais e tentam há anos identificar as possíveis causas orgânicas da doença, que é objeto de pesquisas infrutíferas desde o final do século XIX.
    Descobriram num livro sobre o peiote que a fórmula molecular da mescalina tem semelhanças com a da adrenalina. Passaram então a ponderar sobre a hipótese de que em situações de stress moléculas de adrenalina se transformem num composto químico ainda mais parecido com a mescalina. Hipótese improvável dado que quando começaram a pesquisa não havia indícios de que, a exemplo de algumas plantas, animais fossem capazes de produzir alterações no seu metabolismo. Para aprofundar o estudo Osmond tomou 400 miligramas de mescalina. O resultado das pesquisas foi resumido no artigo Esquizofrenia: Uma Nova Abordagem, publicado em abril de 1952, em que afirmam que quanto maior a quantidade de adrenalina gerada em estados de ansiedade maior é a quantidade produzida pelo organismo de um alucinogênio endogâmico chamado adrenocromo. Esta substância altera a percepção e aprofunda o nível de estado psicótico do cérebro, cuja última defesa é desligar-se da realidade.
    Em fevereiro de 1953 o Hibbert Journal reproduz um artigo em que a mesma dupla afirma que ninguém poderá ter verdadeira competência para tratar da esquizofrenia sem vivenciá-la, o que se tornaria bastante possível tomando-se mescalina. Smythies e Osmond citam o phantasticum lewinii também ao arriscar uma nova teoria da mente baseada em dois pontos: o desenvolvimento de estudos comparativos do design e funcionamento dos computadores com a estrutura e o funcionamento do cérebro e os últimos avanços da parapsicologia, que para eles levaram à consolidação do princípio de que a percepção Extra-sensorial é um fato científico.
    Os psiquiatras surpreendem Huxley com sua nova chave de interpretação da doença e ao associá-la a uma droga que poderá levar um indivíduo artificialmente aos mundos descritos por William Law, Jacob Boehme e outros filósofos perenes. Escreve-lhes para cumprimentá-los pelo trabalho e comunicar-lhes o seu empenho em testar a mescalina no âmbito das suas pesquisas sobre misticismo e a psique humana e convida-os para hospedarem-se em sua casa quando quiserem ir a Los Angeles.
    Huxley e Heard perfilham a teoria de Henri Bergson e do filósofo inglês C. D. Broad pela qual o cérebro possui um mecanismo que funcionaria como um filtro de dados sensoriais considerados inúteis para o dia-a-dia, reduzindo o uso da capacidade mental, e tentam por todos os meios conhecidos encontrar formas de driblar a ‘válvula redutora’, que segundo Bergson seria o maior obstáculo para que o homem atinja um estágio superior de evolução. E também, pensam eles, para que tenha acesso à iluminação mística.
    Artistas e místicos com dotes excepcionais conseguiriam ultrapassar o obstáculo por meios naturais ou através de técnicas de exercícios físicos e mentais desenvolvidas no Oriente, que não seriam mais que ferramentas para abrir a dita válvula. Huxley busca a todo custo operar uma profunda transformação na sua mente. O que nunca imaginou desde a época em que fazia as pesquisas para modelar o soma e até ler o artigo de Osmond e Smythies é que o atalho para uma experiência que por meios naturais só se completaria após muitos anos de auto-controle e disciplina pudesse partir da etnofarmacologia.

           Trecho de Era Uma Vez A Revolução, capítulo de 

 

   De repente lá está ele entre Pauwels, Castañeda, Lobsang Rampa, os transes de Teresa Dávila e João da Cruz e contatos com outras fontes de luz, erzats, bodhisattvas, jivanmuktas, tergiversando e fazendo a plateia gargalhar numa leitura alucinógena da história de Portugal. A base científica para uma tal proposta está exposta de sobejo por Huxley a partir das conclusões do ‘eminente filósofo de Cambridge Dr. C. D. Broad’ por ele citadas em Heaven and Hell de que deveríamos levar mais a sério as teorias de Bergson sobre memória e percepção dos sentidos. Broad sugere que a função do cérebro e do sistema nervoso é essencialmente eliminatória e não produtiva.

    Todo indivíduo é em cada momento capaz de recordar tudo o que lhe aconteceu e de se aperceber de tudo o que acontece em qualquer lugar do universo. A função do cérebro e do sistema nervoso é a de evitar a possibilidade de sermos esmagados e baratinados por essa massa de conhecimento em grande parte inútil e irrelevante, barrando a maior parte do que, de outro modo, nos aperceberíamos e lembraríamos a qualquer momento, e deixando entrar apenas essa muito pequena e especial seleção que poderá ter utilidade prática em nossa vida. De acordo com essa teoria, cada um de nós é potencialmente Mind at Large (de mente aberta a tudo). Mas, por sermos animais, o nosso objetivo é o de sobreviver a todo custo. Para que a sobrevivência biológica seja possível a Mind at Large tem de ser afunilada através da válvula de redução do cérebro e do sistema nervoso. Pelo aprendizado de linguagens a maior parte das pessoas na  maior parte do tempo tem apenas consciência do que lhes chega através da válvula de redução pelo que foi estatuído pela linguagem local como genuinamente real. Algumas pessoas entretanto parecem ter nascido com uma espécie de by-pass, ou desvio, que engana a válvula de redução. Em outras, by-passes temporários devem ser obtidos espontaneamente ou através de ‘exercícios espirituais’ propositais ou hipnose, ou ainda por meio de drogas. Que não é que abram totalmente à Mind at Large, apenas um pouco mais que o normal, e acima de tudo a algo diferente do material utilitário cuidadosamente selecionado que as nossas mentes espartilhadas têm como uma completa, ou ao menos cabal, imagem da realidade.

   Huxley volta à Idade Média, quando em metade do ano as pessoas não comiam frutas e vegetais e consumiam muito pouca proteína animal. No início da primavera a maior parte sofria de escorbuto por falta de Vitamina C e de doenças provocadas por escassez de complexo B. A consequência inicial de uma dieta inadequada é um decréscimo da eficiência do cérebro como instrumento de sobrevivência biológica. Com o passar do tempo ele ficava sujeito a  visões; porque quando a válvula de redução cerebral tem sua eficiência reduzida a maior parte do (em termos biológicos) material inútil flui para a consciência ‘lá de fora’, na Mind at Large. Some-se a isto os 40 dias de abstinência da Quaresma, num período do auge do fervor religioso e de menor ingestão de vitaminas. Êxtases e visões eram o pão nosso de cada dia, concluiu o bravo Huxley.

   Daí a D. Juan na História de Portugal vai um passo:

   - D. Fuas Roupinho cruza léguas e  léguas no lombo do cavalo tendo por alimento básico pão de centeio. Vá que o pão já não fosse lá muito fresco ou que o centeio armazenado já estivesse a criar fungo, põe-lhe mais uns dias de jornada em cima e o fungo do centeio nos dará o quê mesmo? A ergotina fermentada! A essência do ácido lisérgico, alucinação pura! Que espanto então que tenha visto lá no alto a Senhora de Nazaré?!... Assim também se explica as alucinações dos lapônios com os famosos cogumelos de chapéu vermelho com pintas brancas, Amanita muscaria, ou visgo de mosca, que lhes deu até para ver Santa Claus voando num trenó puxado por renas!

    ‘Drogar-se’ é, neste capítulo de nossas vidas, algo muito diferente de sessões de perdição ou desatino. Ao contrário, encontro com sigo mesmo e com os outros, além de excelente fonte de relaxamento.

 

    Huxley muniu-se de um gravador para registrar sua primeira experiência com a droga. Na manhã de 4 de Maio de 1953 Humphrey Osmond dissolve 400 miligramas de cristais de sulfato de mescalina em meio copo d’água e, muito apreensivo, dá-o ao escritor. Desde a partida do Canadá Osmond não via com bons olhos a possibilidade, ainda que remota, de ser o homem que levou Aldous Huxley à loucura. Pensava na estranheza que lhe causara uma nota do escritor na carta de confirmação do convite sobre a sua expectativa em relação à experiência:
    No atual regime de desleixo a grande maioria dos indivíduos perde no curso da sua educação toda a abertura para a inspiração, toda a capacidade de apreender a existência de outras coisas além das enumeradas no catálogo Sears-Roebuck; será esperar demais que haja um dia um sistema de educação planejado para dar resultados, em termos de desenvolvimento humano, equivalentes ao tempo, dinheiro e esforço despendidos? Em tal sistema de educação a mescalina ou outra substância química poderia ter a função de possibilitar aos jovens provar e ver o que aprenderam de segunda mão, ou diretamente mas a um nível de mais baixa intensidade, nos escritos de religiosos ou em obras de poetas, pintores e músicos.
    Até receber a carta, embora já tivesse pressentido que talvez pudesse ser usada para outros fins, Osmond pensara na mescalina apenas como um mímico da demência, capaz de reproduzir cada um dos maiores sintomas de esquizofrenia aguda, nunca como catalisador de mudança da consciência e menos ainda como ferramenta educacional. E como que a reforçar essa perspectiva inusitada Huxley acaba de dizer-lhe que espera atingir o mundo do heróico do que foi talvez o mais delirante poeta inglês, William Blake!

          How absolutely incredible! - exclamou o escritor meia hora depois de ingerir a droga, quando olhou para o vaso de flores sobre a mesa e deu-se conta de uma mudança de percepção sensorial e visual. As cores das flores estavam muito mais vivas e as próprias flores pareciam vibrar. Ao focá-las, as luzes douradas do escritório pareciam ondular. Ao cerrar as pálpebras era como se o seu cérebro projetasse um filme de animação em que figuras geométricas mudavam lenta ou abruptamente de cor e forma. Até que atravessa uma tela ou algo parecido – como uma porta que se tivesse aberto na parede - e passa a ver o que Adão viu na manhã da criação – o milagre, momento a momento, da existência nua.
    Como se nunca, mesmo antes da cegueira, tivesse tido olhos e depois óculos para ver como deveríamos ver, como as coisas são de fato, como repete de vez em quando ao gravador entre descrições dos objetos em volta nos contextos alterados a que irá fazer referência mais tarde - a Eternidade numa flor, a Infinidade numa cadeira de quatro pernas e o Absoluto nas pregas de um par de calças de flanela!
    Apercebe-se também que palavras e conceitos verbais tornam-se supérfluos, porque sente as emoções perpassarem cada célula do seu corpo em sensações intraduzíveis por palavras, e menos ainda de maneira automática. Irá constatar entretanto o alto grau de condicionamento de uma cultura dominada pela contextualização verbal de tudo – ou quase: devemos preservar e se necessário intensificar nossa capacidade de olhar o mundo diretamente e não através do processo algo opaco dos conceitos.

    A mescalina é a mais extraordinária e significativa experiência de que o ser humano dispõe deste lado da Visão Beatífica, porque aponta para um grande número de problemas filosóficos, ilumina intensamente e levanta toda a espécie de questões nos campos da estética, religião, teoria do conhecimento, escreveu ao seu editor


   A primeira experiência mostrou-lhe que a mescalina poderá não levar à Iluminação ou Visão Beatífica, mas sendo uma dádiva da Natureza (de Deus?), ainda que não necessária à salvação, porém potencialmente útil, deve ser aceita com gratidão por ser uma experiência de valor inestimável para todos e especialmente para o intelectual.
   Os princípios de graça e das drogas como suas substitutas artificiais e da importância da experiência visionária, ainda que não mística, para a expansão da consciência e consequente melhoria das condições de vida da humanidade passam a estar no centro da sua filosofia de vida.
   Na sequência do posfácio de Os Demônios de Loudon, que o deve ter feito sentir os olhos arderem, Huxley faz questão de distinguir entre drogas maléficas, porque viciantes, e eventualmente apenas benéficas, porque delas só se irá tirar lições as mais profundas sobre a vida e o seu universo sem limites. Faz questão também de alertar os leitores para o fato de as drogas poderem levar tanto ao céu como ao inferno, dependendo de quem as toma e como o faz. Deve-se tomá-las – prescreve - de boa saúde, em condições apropriadas e com o espírito adequado.

   O neófito Huxley lança a base da teoria que levará à consolidação da carreira de ‘guru do LSD’, o seu futuro amigo e de certo modo ovelha negra da família dos pioneiros da era psicodélica Timothy Leary. O set and setting (postura e cenário) learyano afinal nada mais é que a súmula hiper-sintética do preceito básico huxleyano para qualquer explorador da mente que se preze.
   Até ele e Anaïs Nin no Volume V dos seus Diários quase sempre os escritos sobre drogas estavam limitados ao campo da poesia ou da prosa poética de cariz abstrato, surreal ou hiperrealista e a sua clareza e objetividade são ainda mais notáveis pela dificuldade de se expor e narrar certos conceitos e estados de percepção na língua inglesa que, quando se trata de mundos interiores – quase alienígenas para o homem ocidental -, como diz Gerald Heard, é muito mais limitada que o sânscrito, que teria quarenta termos apenas para definir estados alterados de consciência, tendo já portanto uma linguagem mais afeita à expressão da visão cósmica do mundo.

Trecho de Droga Loucura e Vagabundagem, capítulo de

 

         E ponto. Ou reticências. Talvez porque não haja viagem mais profunda para dentro e fora de si quase não se vai além quando se está em ácido, e um relato cabal sobre o que se passa na cabeça de cada um só seria possível falando sozinho para um gravador, como fez Huxley no decurso da sua sondagem com mescalina, em cujo relato acerta a mão no que se refere a vício, dissociando-a (e por força faço o mesmo em relação ao LSD ou à cannabis) dos opiáceos, por exemplo, pelo seu reduzido grau de toxicidade, não causando ressaca e portanto não compelindo o usuário a uma recarga da dose. Incrível é entretanto a extraordinária semelhança de quem escreve e consegue descrevê-las com acuidade com as minhas experiências extra-sensoriais em ácido, e portanto – imagino - de muita gente.

         Começa-se, segundo Huxley, pela percepção de formas geométricas coloridas ‘animadas’ – o que faz do caleidoscópio e do estroboscópio delícias para quem ‘viaja’ -, em contínua e permanente mudança. Vêm a seguir ‘figuras heróicas’ a que Blake (em ergotina fermentada?) chamou ‘Os Serafins’ e depois os animais fabulosos, nada relativo ao passado do ‘visionário’ nem por ele inventado, por tratar-se de algo que não é produto do self mas de ‘um compartimento mental altamente diferenciado’, e então pontos estelares, o que a alguns parece fragmentos de vitrais, ‘fluxos incontáveis de focos de luz (muito) branca’, linhas ziguezagueantes de cores ultrabrilhantes, torres góticas de desenhos elaboradíssimos e enormes pedras preciosas em bruto.

         Pelos anais de Anaïs Nin e os meus olhos quando se foca o carpete ele não é plano e sem vida mas campos alvoroçados ou ondulantes; portas, paredes e janelas parecem liquifazerem-se, objetos perdem a rigidez como se se estivesse num mundo submarino ondulante, de repente um pegador de fechadura parece uma serpente, como se tudo fosse elemento vivo e animado e respirasse, inclusive árvores, nuvens e gramados e passasse por metamorfoses como as de Alice no Jardim das Maravilhas, lendo, adormecendo e caindo na toca do coelho, uma dentada no bolinho de cogumelos alucinógenos e... FLASH!

         Refrão com Huxley, para quem as ‘criaturas psicológicas que habitam as mais remotas regiões da nossa mente’ são como os marsupiais para um habitante do Velho Mundo, por demais bizarros mas tudo somado aceitáveis, apesar da sua inverosimilhança, porque a sua existência ‘obedece a leis reconhecíveis’:

 Every mescalin experience, every vision arising under hypnosis, is unique; but all recognizably belong to the same species. The landscapes, the architectures, the clustering gems, the brilliant and intricate patterns – these, in their atmosphere of praeternatural light, praeternatural colour ,and praeternatural significance, are the stuff of wich the mind’s antipodes are made. Why this should be so, we have no idea. It is a brute fact of experience wich, whether we like it or not, we have to accept – just as we have to accept the fact of the kangoroos.

Toda experiência com mescalina, toda visão que brota da hipnose, é única; mas todas pertencem inegavelmente à mesma espécie. Paisagens, as arquiteturas,  gemas cacheadas, brilhantes e intrincados padrões – estes, com sua atmosfera de luz transcendental, cores transcendentais e significado transcendental são os materiais de que são feitos os antípodas  mentais.  Por que há  de  ser  assim, não sabemos. É  um  grosseiro  dado  da  experiência  que temos  de  aceitar,  quer gostemos  ou  não  -   da mesma forma como temos de aceitar a existência dos cangurus.

         Decido mais uma vez dar uma de d.j. e passo a primeira parte do AC pondo música, uma sequência com Heroin e Waiting for the Man do VU, Sunday Morning com Nico, sempre May I de Kevin Ayers, duas ou três coisas de Paris 1919 de John Cale, Frontera de Phil Manzanera e outras tantas de Pin Ups e Young Americans de David Bowie.

         Anaïs, de tão picuinha em sua tentativa de fazer uma literatura analítica nos diários acabou por, na única experiência de LSD que nos conta, ser altamente concreta e específica sobre algo tão subjetivo, e como é belo lê-la traduzindo à lupa o que sinto agora:

My senses were mutiplied as if I had a hundred eyes, a hundred ears, a hundred  fingertips. The music vibrated through my body as if I were one of the instruments and I felt myself becoming a full percussion orchestra, becoming green, blue, organe. The waves of the sound ran through my hair like a caress. The music ran down my back and came out of  my fingertips. I was a cascade of red-blue rainfall, a rainbow.                                                       

Meus sentidos se multiplicaram como se eu tivesse cem olhos, ouvidos e pontas de dedos. A música vibrava pelo meu corpo como se eu fosse um dos instrumentos e senti-me a tornar-me toda uma orquestra de percussão, verde, azul, órgão. As ondas de som lambiam os meus cabelos como uma carícia. A música lambia as minhas costas e saía pelas pontas dos dedos. Era uma cascata de chuva rubro-azul, um arco-íris.

    A reação da crítica e dos intelectuais a As Portas da Percepção é de perplexidade ou mesmo indignação. O Prêmio Nobel de Literatura Thomas Mann, que em tempos teve-o como uma das mais belas florescências da intelectualidade ocidental, especialmente nos seus ensaios, tomou-a como a sua mais audaciosa expressão de escapismo, que nunca pude apreciar no autor. O misticismo era apesar de tudo razoavelmente honroso, mas chegar agora às drogas é para mim assaz escandaloso, escreveu.
    Huxley lamenta que outros escritores possam tecer loas ao álcool (responsável por cerca de dois terços dos acidentes de automóvel e três quartos dos crimes violentos) enquanto alguém que se aventura a sugerir que possa haver atalhos para a auto-transcendência menos danosos é tratado como um perigoso viciado em drogas e um cruel perversor da humanidade descerebrada.


    A maior parte dos que usam mescalina experimenta apenas a parte celestial da esquizofrenia. A droga traz inferno e purgatório apenas àqueles que tiveram um caso recente de icterícia ou sofrem de depressões periódicas ou de ansiedade crônica.
    Lição básica de que Huxley parte em Céu e Inferno, que ao que escreve é uma tentativa de sistematizar os resultados da nova compreensão das questões com que lida desde que conheceu Gerald Heard e que diz ter atingido a partir dos primeiros contatos com as drogas psicodélicas.
    Como escrevera em The Doors of Perception, a maioria dos homens e mulheres levam vidas, se vistas pelo pior lado, tão dolorosas, e quando vistas pelo lado melhor tão monótonas, pobres e limitadas que a ânsia para escapar, o desejo de transcendência de si mesmos, ainda que por breves momentos, é e tem sido sempre um dos maiores apetites da alma.


    Como relator de um simpósio sobre drogas psicodélicas realizado em Atlantic City no congresso da Associação Americana de Psiquiatria de 1955, Huxley falou quase da mesma forma dos jovens de uma nação bem alimentada mas metafisicamente famintos, em busca de visões beatíficas no único caminho que conhecem, o das drogas, e como James Dean, um dos ícones da era, mas obviamente muito mais articulado, fez questão de lembrar aos adultos que o mundo verdadeiro é muito diferente do universo deformado que criaram para si mesmos através de preconceitos condicionados pela sua cultura. Como que possuído por um permanente espírito de contradição, e tal como nos ruidosos anos 20, o míope Huxley teima em enxergar além das aparências de bem-estar de progresso e paz do pós-guerra de guerras na Indochina e macartismo e alertar para cada aspecto negativo da falta de planejamento do desenvolvimento industrial. É um dos arautos da crescente onda de rebeldia contra os mesmos valores caducos, ainda que de feições alteradas, que combateu na juventude.

    Após a primeira experiência com mescalina desenvolveu um projeto de certo modo relacionado com as reformas no sistema de ensino e formação dos indivíduos que preconizava desde a primeira juventude, baseado no princípio de que o valor ético, sociológico e espiritual da experiência visionária consiste em que, sendo bem explorada, resulte numa mudança importante e significativa no modo de consciência e talvez também em uma mudança de comportamento ou no sentido do bem.
    Planejou introduzir de forma descontraída à mescalina uma centena de cientistas, artistas e filósofos e usar os seus relatos para avaliar a melhor e mais segura maneira de empregar essa ferramenta de expansão mental em projetos de desenvolvimento humano.
    Apresentou o projeto à Fundação Ford, que recusou-se a financiá-lo, assim como outras instituições a que o propôs.
    Boa parte das suas colaborações para publicações periódicas é dedicada a esse tipo de questões, o que o leva a ser visto sobretudo como um advogado dos alucinogênios. Ou dos psicodélicos, termo que ajudou a cunhar numa troca de correspondência com Osmond, quando manifestou desagrado pelo uso de uma expressão médico-psiquiátrica de significado limitado à utilização de drogas como indutoras de psicoses-modelo ou de alucinações e excluindo os seus efeitos sobre os relativamente sãos.

 

(...) - cunhando afinal o termo a partir da junção de outras duas palavras gregas: psyche (mente), e delos (o que manifesta) - o que manifesta a mente.
Explicou Osmond:
    Até aqui o nosso interesse em drogas psicotomiméticas tem sido psiquiátrico e patológico mas os nossos antepassados estavam interessados nestas coisas de pontos de vista muito diferentes. Através de diversas técnicas, das danças dos dervishes à contemplação oratória, do confinamento solitário na escuridão à inalação de ar carbonizado no oráculo Délfico, de mascar peiote à fome prolongada, os homens perseguiram ao longo de séculos certas experiências que consideraram mais valiosas que todas as outras.
    Os que tiveram este tipo de experiências sabem e os que não as tiveram não podem saber e, o que é mais, os últimos não estão em posição de dar uma explicação útil. Ela tem sido procurada e estudada desde tempos remotos e assumiu papel relevante no desenvolvimento da arte, religião, filosofia e até da ciência. Sistemas como o ioga brotaram dela.
    Os psicanalistas pensam que suas idéias não podem ser completamente entendidas sem uma análise pessoal. O telescópio mudou toda a nossa idéia do sistema solar e revolucionou a navegação. Os agentes psicotomiméticos são parecidos com os radares telescópicos agora em construção para varrer as profundezas do espaço exterior e invisível.
    Eles exploram uma pequenina porção de um enorme vácuo. Levantam mais questões que as respostas que oferecem e para entendê-las temos de inventar uma nova linguagem. O que aprendemos não é tranquilizante e nem sempre compreensível. Como astrônomos, todavia, temos de mudar o nosso pensamento para explorar as potencialidades dos novos instrumentos.

    

    Palestras, conferências e artigos evidenciam a busca incessante por Huxley da Clara Luz do Vácuo, do Todo, do Terreno Sagrado ou do Céu na Terra, a sua preocupação em distinguir drogas saudáveis das danosas e em propagar a convicção de que, se bem exploradas, a partir de um trabalho sério sobre os seus efeitos e forma de aplicação, elas poderão servir para a elevação do homem a patamares superiores de compreensão de si mesmo e do universo.
    A maior parte de nós funciona a cerca de quinze por cento da capacidade mental. Como elevar nossa lamentavelmente baixa eficiência um degrau acima? Existem dois métodos disponíveis – o educacional e o bioquímico. Poderemos pegar em adultos e crianças como são e dar-lhes uma aprendizagem muito melhor que a que lhes damos. Ou, por meio de métodos bioquímicos apropriados, transformá-los em indivíduos de nível superior.
    A um custo fisiológico e social negligentemente baixo em relação ao do uso do álcool e de opiáceos o LSD produz auto-transcendência em duas vias - introduz o utilizador no Outro Mundo da experiência visionária e dá-lhe o sentido de solidariedade para com seus companheiros adoradores, para com os seres humanos como um todo e para com a natureza das coisas.
    Surtindo efeito em doses incrivelmente reduzidas o LSD diminui as barreiras entre o consciente e o subconsciente e permite ao utilizador olhar com mais profundidade e compreensão para o interior dos recessos da própria mente.
   
Sobre a interminável polêmica com setores religiosos que condenam a sua apologia do ‘misticismo instantâneo’ escreve: Os que se ofendem com a idéia de que engolir uma pílula pode contribuir para uma experiência genuinamente religiosa deverão recordar que todas as mortificações normais - o jejum, a vigília voluntária e a auto-tortura - que os ascetas de todas as religiões infligem em si mesmos com o objetivo de adquirir mérito, são também, tal como as drogas alteradoras da mente, poderosos dispositivos para modificar a química do corpo em geral e o sistema nervoso em particular.
    O imediato envolvimento do escritor como articulista na causa da divulgação de aspectos relacionados à experiência extra-sensorial através de substâncias alteradoras da consciência é evidenciado pela publicação na edição de Janeiro de 1954 da revista Life de um artigo intitulado A Case for ESP, Pk and Psi, estando ESP para percepção extra-sensorial e Pk para peak (pico), um dos aspectos fulcrais da terapia com o auxílio de LSD que começa a ser testada por psicólogos, psicanalistas e psiquiatras como Abraham Maslow.
    O principal objetivo da terapia psicodélica é o de criar as melhores condições para o paciente experimentar a morte do ego e a subsequente transcendência para a chamada experiência de pico, estado extático caracterizado pela perda do sentido de limites entre o mundo objetivo e o subjetivo, com os consequentes sentimentos de unidade com outras pessoas, a natureza, todo o universo e Deus – explica o psicólogo Stanislav Grof, que entre 1957 e 67 trabalhou no Instituto Psiquiátrico de Praga em experiências do gênero.
    Huxley estabelece clara distinção entre experiência visionária e mística: A experiência mística está além do domínio dos opostos. A experiência visionária situa-se no interior desse domínio. Seja como for a experiência visionária é uma manifestação simultaneamente do belo e do verdadeiro, de beleza e realidade intensas e não carece de ser justificada de nenhuma outra maneira. Afinal, o Bom, o Verdadeiro e o Belo são valores absolutos, e num certo sentido podemos dizer que a experiência visionária sempre foi considerada um valor absoluto, que sempre se sentiu ser intrinsecamente de grande significado e importância e que valia a pena obter mesmo a um custo elevado. Ir além do eu insulado é uma tal libertação que mesmo quando a auto-transcendência ocorre através de náusea ou frenesi, cãibras ou alucinações e coma, a experiência induzida por drogas tem sido vista seja por povos primitivos como pelos mais altamente civilizados como intrinsecamente divina.
    Dirá numa entrevista em 1960 que a experiência mostra que o mundo em que habitualmente vivemos é apenas uma criação deste convencional e apertadamente condicionado ser humano que somos e que há muitos outros tipos de mundos além dele. O universo bastante obtuso em que passamos a maior parte do tempo não é o único que existe. Se as pessoas tivessem essa experiência seriam muito mais saudáveis.


    Em Busca do Cogumelo Mágico, reportagem publicada na edição de Julho de 1957 da revista Life, causa sensação entre os iniciados em substâncias psicoativas. O seu autor é Gordon Wasson, um ex-jornalista que se tornou vice-presidente do banco JP Morgan Guaranty e que por três décadas, desde que se casou com uma russa apaixonada por cogumelos, dedicou todo o tempo disponível à micologia. Quatro anos antes da publicação da reportagem, convencido de que apesar da sua repressão pela Inquisição o culto dos cogumelos não fora erradicado, Wasson foi ao México com a esposa e o famoso micólogo francês Roger Heims, diretor do Museu de História Natural de Paris. A reportagem trata da redescoberta do teonanácatl pelo seu grupo em Oaxaca quatro séculos depois dos primeiros e últimos relatos a seu respeito.
    Com a publicação da reportagem o trio Huxley-Heard-Hubbard passou a assediar o escritório nova-iorquino de Wasson, que acabara de publicar por conta própria um álbum intitulado Os Cogumelos, a Rússia e a História, em que com a mulher levanta a hipótese de que cogumelos alucinógenos estiveram na origem dos cultos da civilização de Ur e as cerimônias celebradas no templo de Elêusis a que historiadores e filósofos da Grécia antiga fazem referência eram realizadas em louvor ao cogumelo visgo de mosca.

 

(...) de uma maneira ou de outra logo o LSD se propaga pelos consultórios de analistas e deles pelos salões dançantes da cidade, frequentados pela aristocracia do cinema e das artes em geral.
    Um dos primeiros a usá-lo foi o psiquiatra Oscar Janiger, que ao saber da pesquisa de Humphrey Osmond e John Smythies em torno do adrenocromo e da dietilamida do ácido lisérgico decidiu encomendá-la à Sandoz, experimentar o LSD e testá-lo com artistas antes de usá-lo na terapia de pacientes. Como Huxley, Janiger notou que os artistas têm propensão natural a adequar-se a drogas alteradoras da consciência pela sua maior propensão a explorar a terra ignota do subconsciente.
    Um de seus pesquisandos chegou a equiparar o aumento da percepção de aspectos da criação artística a quatro anos numa escola de arte. Muitos analisados disseram que em estado alterado por drogas sentiram-se mais perto da que poderia ser a matriz essencial de que deriva o processo criativo. Como escreveu o romancista e poeta beat William Burroughs sobre uma droga análoga, ainda que menos poderosa, sob a influência de mescalina tive a experiência de ver um quadro pela primeira vez e vi depois que poderia revê-lo sem usar a droga. A mescalina transporta o usuário a áreas psíquicas inexploradas e ele pode encontrar o caminho de regresso sem um guia químico.
    Sem conseguir extrair dos pintores relatos expressivos das suas sensações e sentimentos Janiger decidiu trabalhar com escritores, mais habituados à comunicação verbal. Acertou em cheio na primeira escolha, a romancista Anaïs Nin, há muito iniciada em psicanálise e que buscava desvendar as profundezas da psique através da narrativa literária.
    Ao aplicar o LSD em terapias o psiquiatra Sidney Cohen, do Hospital Neuropsiquiátrico de Los Angeles, cedo notou que a droga tem a capacidade de levar os pacientes a agir como se de um momento para outro conseguissem transcender tudo o que normalmente os perturba, surtindo efeitos terapêuticos de grande significado.
    Um dos aspectos essenciais nas LSD therapies é a interatividade médico/analista-paciente. Alguns terapeutas tomam uma dose menor que a dos analisados para com eles estabelecer um grau mínimo de sintonia, rompendo com um dos preceitos básicos de todas as escolas de análise: a clara demarcação dos papéis analista-analisado, de forma a que o primeiro possa ter uma visão neutra e objetiva do quadro psíquico do segundo. Mas como notou Albert Hofmann uma das características básicas do psicodelismo é a de configurar a mente para um modo totalmente novo de encarar os fatos, em total sintonia com os próprios avanços da ciência, que com os princípios da relatividade atômica e da incerteza quântica acabou com o primado da lógica objetiva e do princípio da neutralidade do observador.

    Mas o método destinado a fazer escola é o chamado psicolítico ou de afrouxamento da mente, em que a droga serve apenas de instrumento de apoio à análise convencional, sendo administrada em doses moderadas e em várias sessões para acelerar a exploração da psique através da redução das defesas do ego do paciente, permitindo uma mais rápida manifestação de traumas e memórias reprimidas.

    Artistas, intelectuais e cientistas transformam as alucinadas festas de whisky-com-soda nos casarões das colinas ao redor de Hollywood em menos eufóricas reuniões de grupos de iniciados no novíssimo esoterismo cósmico psicodélico, em que poderia estar a vanguarda de uma nova era para a humanidade. Ao recordá-las nos seus Diários Anaïs Nin descreve-as como experiências esotéricas que deveriam ter continuado a ser esotéricas. A escritora pressente de imediato que um dos mais preciosos dons da natureza, a chave da porta de acesso a um universo quase indevassável, redescoberta por acaso por um alquimista moderno após séculos no segredo dos deuses, e que deveria ser compartilhada apenas pelos mais aptos a desvendá-lo e entendê-lo, poderá transformar-se em mero instrumento de diversão ao alcance de todos, num joguete dos frankensteins do supermercado do subconsciente e, quem sabe, em mais uma arma letal da ciência, que tudo molda aos seus ditames infernais.
    Também por isso Huxley não se cansa de buscar meios de as drogas psicodélicas serem estudadas e desenvolvidas como antídoto da crise de consciência de uma juventude para a qual crescer e amadurecer numa sociedade desumanizada pela tecnocracia e pelo consumismo do pré-fabricado, do pronto-a-vestir e da pronta-entrega é um absurdo, como denuncia o psicoterapeuta Paul Goodman no seu livro Growing Up Absurd, e a apatia da quase totalidade dos adultos, para quem o conformismo tornou-se como que um décimo primeiro mandamento, segundo o psiquiatra Robert Licher no ensaio Must We Conform?
    Huxley não desiste da ideia de fazer do LSD o catalisador do desenvolvimento humano. Não pela sua distribuição de forma indiscriminada mas passo a passo, a começar pelo convencimento das suas benesses por parte da elite cultural e científica mais aberta e sensível, para não alertar os filisteus, os gestores da consciência – do Vaticano e Harvard – que estão no ramo há muito tempo e que não pretendem abrir mão dos seus negócios. Recusa-se a ir a um programa de televisão para falar sobre mescalina por entender que essa publicidade indesejada seria particularmente aborrecida depois de um programa de TV. Mescalina, parece-me, a exemplo de outros aspectos da mente, é assunto sobre o qual deve-se escrever para um público pequeno, não para ser discutido na TV na presença de uma vasta audiência de batistas, metodistas e gente sem rosto, além de uma imensa franja lunática.

    Allen Ginsberg está decidido a experimentar e, se for o caso, divulgar através dos seus poemas-panfletos todo o tipo de drogas. Já conhece a mescalina e tem trabalhado numa seleção de cartas trocadas com o escritor William Burroughs em 1953, quando o autor de Naked Lunch fez uma expedição ao Peru para experimentar o yagé ou ayahuasca, uma infusão com que os índios do Alto Amazonas exploram os efeitos da triptamina contida na liana banisteria caapi em cultos xamânicos. Conhecido em meio mundo pelo impacto da sua revolução nas letras chamado Uivo e do escandaloso processo judicial de que foi alvo na sequência da sua publicação, em 1958 Ginsberg apresenta-se ao Departamento de Saúde Mental do Hospital de Veteranos de Palo Alto, na Califórnia, como cobaia voluntária num teste de LSD. Entra em paranóia porque obrigam-no a sujeitar-se a testes de personalidade e inteligência, mas faz de sua iniciação mais um famoso poema que encerra dizendo que desejaria ser Deus.
    Um ano depois Ken Kesey, estudante de literatura de São Francisco, base editorial dos beatniks, começa a frequentar o Hospital de Veteranos de Menlo Park para tomar LSD, peiote, DMT, fenciclidina e todas as drogas que a instituição lhe ofereça em troca de se sujeitar a testes de personalidade e inteligência.
    Órgãos civis e do governo e a CIA, que chega a abrir um posto avançado de pesquisa de campo a que chama Operação Clímax da Meia-Noite num bordel do centro de São Francisco, promovem por toda a América testes públicos gratuitos com drogas a que os estudantes afluem em massa, muitos deles influenciados pelos próprios professores mais jovens, que lhes falam das delícias das drogas lícitas ou ilícitas com que entram em contato como cobaias de experiências de consequências imprevisíveis.
    Enquanto isso a CIA busca por todos os meios descobrir se o Candidato da Manchúria, como o chamou Richard Condon no seu best-seller de 1959, é de fato a droga da verdade, o que a leva a lançar um programa de testes voluntários com indivíduos de alta capacidade física e mental, como candidatos a astronautas, ou cidadãos comuns e com cobaias involuntárias, como prisioneiros e pacientes com distúrbios mentais. O programa MK-ULTRA passa a ter aspectos idênticos às experiências da Luftwaffe em Dachau.
    No início da operação MK-Ultra a inteligência americana recebia cem gramas de LSD por semana da filial da Sandoz em Nova Jersey. A essa altura a produção da droga era já muito inferior à demanda, em função das dificuldades de implementação de culturas do fungo de centeio, precursor indispensável para a sua fabricação. Mas para alívio da CIA em 1954 cientistas americanos conseguiram produzir um composto sintético ainda mais poderoso que o LSD. Seis anos depois os laboratórios Farmitalia, de Milão, desenvolveram o cultivo da cravagem de centeio in vitro.
    Nesse período foram publicadas quinhentas comunicações sobre os efeitos e os benefícios da droga, a maior parte divulgada em conferências promovidas por fundações subsidiadas pelos serviços secretos norte-americanos. Os estudos garantem que o LSD é eficaz no tratamento do alcoolismo e de dependência de opiáceos e que é farmacologicamente seguro (mesmo em doses muito elevadas não causa danos ao organismo), mantém o paciente consciente, cooperativo e melhor capacitado para fornecer dados com significado psicodinâmico, levando-o a sofrer um distúrbio do ego essencialmente efusivo acompanhado por um impulso de interatividade (donde não poder ser considerado um narcótico), que não provoca adição e que em geral os pacientes gostam de tomá-lo.
    Quando muitos dos laboratórios de pesquisa que financia transformam-se em centros recreativos animados por festas psicodélicas em que funcionários chegam a pôr LSD sintético no café de colegas sem que eles percebam, finalmente a CIA, que apostara todas as suas fichas na comprovação de que o LSD gera ansiedade e torna um indivíduo exposto a estímulos estressantes mais vulnerável, convence-se da inutilidade de um agente que produz acima de tudo contentamento e desiste de pensar no ‘candidato da Manchúria’ como a droga da verdade.
    Como modelador do soma Aldous Huxley sempre teve consciência dos perigos de um eventual desenvolvimento de técnicas de controle e alterações de comportamento e lança sucessivos alertas sobre a possibilidade de estarem a ser cometidos abusos em pesquisas com drogas.



    No outono de 1960 Huxley realiza um ciclo de conferências no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

    No mesmo semestre em que ali trabalha o psicólogo Timothy Leary inicia um contrato de três anos como professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Harvard, próximo ao MIT. No tempo livre entre as conferências acompanha o trabalho de Leary e do seu colega Richard Alpert no Projeto de Drogas Psicodélicas do Departamento de Relações Sociais de Harvard.
    Leary singrava a trilha normal de todo scholar como professor na Universidade de Berkeley até reencontrar Frank Barron, um antigo colega de faculdade que testara o cogumelo sagrado dos astecas redescoberto pelos Wasson em 1953. A experiência mística proporcionada pelo teonanácatl foi tão profunda que Barron garantiu a Leary que o cogumelo é o passaporte para a metamorfose psicológica com que ambos sonhavam nos tempos de estudantes. Em pouco tempo Leary está à beira da piscina de um hotel em Cuernavaca realizando várias experiências com ocogumelo, que se revela de tal modo mágico que ao assumir o cargo em Harvard já não é mais a mesma pessoa que assinara o contrato antes da viagem e propõe a realização de um projeto de estudo do potencial da mescalina na terapia de distúrbios no comportamento humano.
    O proibicionismo da Lei Seca e o fato de o pai e a primeira mulher terem sido alcoólatras têm peso determinante na atitude com que o de resto jovial e muitíssimo carismático psicólogo encara a nova atividade, calcada nos princípios básicos de que as drogas psicodélicas são a chave da evolução humana e do livre arbítrio. Leary hasteia a bandeira do psicodelismo como uma nova cosmogonia: pela experiência psicodélica o homem abandona o estágio de primata mental, ascende a um estado de percepção cósmica da existência a que chama misticismo aplicado e rompe com o monoteísmo judaico-cristão, o seu complexo de dogmas culpabilizantes e castradores e a instituição familiar patriarcal. Sustenta em suma que a revolução psicodélica irá demolir os pilares da civilização ocidental e debelar os seus males.
    Fica desde logo claro que o objetivo de Leary e Alpert, com quem executa o projeto a que chama de Experiências Visionárias, é o de aferir o potencial da mescalina – e de substâncias alteradoras de consciência análogas - no desenvolvimento do potencial humano e não apenas na terapia de distúrbios mentais e do alcoolismo. Os próprios estudantes de Harvard passam a ter acesso à droga. Huxley acompanha e dá um valioso contributo à fase inicial das experiências, guiando-nos a nós, noviços Americanos, pela história do misticismo e no cerimonial de cuidado e manejo da sua graça gratuita, relembra Leary.
    O Projeto de Drogas Psicodélicas é o posto avançado com que Huxley sonhou para a realização de experiências com intelectuais e espiritualistas. O programa atrai ao Departamento de Relações Sociais os melhores espíritos da geração beat, como Alan Watts, William Burroughs, Allen Ginsberg, Peter Orlovsky, Jack Kerouac, Neal Cassady (o Dean Moriarty de Pé na Estrada, de Kerouac) e os músicos Thelonious Monk e Dave Brubeck.

    Os psicólogos de Harvard iniciaram-se em LSD através do inglês Michael Holligshead, estudante de filosofia da universidade que um dia apareceu no Departamento de Experiências Visionárias com um frasco de maionese cheio de açúcar em cubos contendo ácido lisérgico. Uma experiência crucial, segundo Leary: Abri caminho para o deleite, como os místicos o fizeram por séculos, quando descortinavam que este mundo tão manifestamente real era de fato um pequenino palco construído pela mente. Graças ao LSD descobrimos abruptamente que tudo o que aceitamos como realidade não passa de uma montagem social.
    O jogo da vida e os papéis artificiais que as pessoas são obrigadas a nele exercer é um dos ditames da filosofia transcendental que Leary irá propagandear pelos quatro cantos do mundo. Sobre o método aplicado no Departamento de Experiências Visionárias escreverá mais tarde:
    Não iríamos limitar-nos ao ponto de vista patológico. Não iríamos interpretar o êxtase como mania, ou a calma serenidade como catatonia; não iríamos diagnosticar Buda como um esquizóide desligado; nem Cristo como um masoquista exibicionista; nem a experiência mística como um sintoma; nem o estado visionário como uma psicose-modelo. Desenvolveu-se o plano de um estudo piloto naturalista no qual os pacientes seriam tratados como astronautas, cuidadosamente preparados, informados de todos os fatos disponíveis, e de quem se esperava que guiassem as suas próprias naves, fizessem as suas observações e na volta relatassem suas experiências à central de controle. Os nossos pacientes não eram pacientes passivos mas heróis exploradores.

    Os filisteus acordaram e ao despertar para a fama nacional e internacional Timothy Leary vê-se no centro de uma grande polêmica em que é apontado como o principal responsável pelo fato de o governo ter passado a exercer um controle mais rígido da distribuição de psicodélicos e pela má fama que seu uso em psicoterapia adquire a partir da disseminação de profissionais questionáveis usando drogas questionáveis em busca de curas questionáveis, como resume Jay Stevens, que ressalva no entanto, ao falar sobre o contexto em que ela se processa: Descobrir nos recessos da mente algo que se parece muito com Deus não é uma perspectiva agradável para a ciência e para a religião organizada. E é isto que está implícito na pesquisa psicodélica em toda a parte, não só em Harvard.
    Leary lembra-se de um diálogo com Huxley no início das suas experiências em que ficaram claras as suas diferenças de posição em relação à difusão de drogas - uma elitista, outra populista: Não sabe então o que fazer com esta maldita pedra filosofal em que tropeçamos? No passado este poderoso saber foi guardado em privacidade, transmitido no obscurantismo difuso e metafórico de acadêmicos, místicos e artistas. Estas são questões evolucionárias. Não é possível apressá-las. Trabalhe em privado. Inicie artistas, escritores, poetas, músicos de jazz, cortesãos elegantes, pintores, ricaços boêmios. E eles iniciarão os ricaços inteligentes. É assim que tudo o que possui cultura e beleza e liberdade filosófica tem sido transmitido – aconselhou o inglês.
    No afã de defender o livre arbítrio e o acesso irrestrito da população à revelação psicodélica, durante o conturbado processo de Harvard Leary pôs de tal modo em evidência a diferença entre aqueles que querem explorar o campo do novo cérebro e os que pretendem evitar o desafio, como a definiu, que Huxley equiparou o comportamento do psicólogo ao de um rapaz travesso com o diretor de sua escola. Não lhe agradam as notícias que chegam de toda parte, e não só de Harvard, sobre o uso indiscriminado de psicodélicos não para a elevação da consciência mas em contextos meramente recreativos. Agora sim vê motivos para preocupar-se com sua reputação junto à intelligensia, fortemente abalada quando tornara público o seu envolvimento com a questão, cada dia mais polêmica. Em carta a Osmond diz que a última coisa que desejo é criar a imagem de Senhor LSD. Nem tenho o menor anseio (sendo desprovido de qualquer talento para este tipo de coisa) de envolver-me na política dos psicodélicos.

 

(A propagação do uso de drogas psicodélicas no campus e arredores de Harvard causa um escândalo federal e)


    O escândalo de Harvard é a gota d’água que leva a uma rápida mudança de estratégia das autoridades norte-americanas em relação ao LSD, cuja distribuição para pesquisa científica passou à tutela da Food and Drugs Administration (FDA), órgão do governo federal de controle e vigilância do fabrico e comercialização de alimentos e remédios. Ao ordenar a cientistas e terapeutas que trabalhavam por conta própria que devolvam aos laboratórios todo o LSD em sua posse e prometer total controle da sua distribuição a FDA começa a pôr fim à existência legal de terapias com psicodélicos e à sua pesquisa para outros fins.

 

          Assiste-se por outro lado a um notável recrudescimento da guerra às drogas. Por iniciativa do governo americano 133 países assinam em Março de 1961, em Nova York, a Convenção Única sobre Entorpecentes da ONU. Os signatários comprometem-se a exercer rigorosa vigilância sobre a produção e o consumo de 108 substâncias naturais ou sintéticas e a erradicar o cultivo de algumas plantas de que se extrai drogas, como o ópio, a coca e a cannabis.

 

    Víamo-nos como antropólogos do século XXI a habitar um módulo montado nalgum lugar nas eras negras dos anos 60. Nessa colónia espacial tentávamos criar um novo paganismo e uma nova dedicação à vida enquanto forma de arte. Para prosseguir as suas pesquisas psicocósmicas e promover o uso do LSD, em 1961 Timothy Leary funda com Richard Alpert a revista Psychedelic Review, a primeira publicação totalmente dedicada ao assunto. Afastados de Harvard os psicólogos criam a Fundação Internacional para a Liberdade Interna (IFIF) e planejam manter sua sede no México, mas após dois meses de intensos estudos com cogumelos em Zijuatanejo, próximo a Acapulco, o governo local pede-lhes que se retirem para não serem expulsos do país. De regresso aos EUA os psicólogos instalam-se em uma propriedade de quatro hectares perto de Nova York, onde dão novo nome ao seu projeto, League of Spiritual Discovery (LSD). Entre as três etapas Leary começa a propagar o mais famoso entre os muitos slogans e trocadilhos ins-pirados com que irá alicerçar a sua reputação de ‘guru do LSD’: 

Turn On  Tune In  Drop Out

Turn On = Ligue Tune In = Sintonize Drop Out = Caia Fora

 

    Haight-Ashbury, a conjunção de duas ruas que dão nome a um quarteirão de São Francisco, parece uma grande feira renascentista. Ali fez base uma organização cultural e de voluntários chamada Diggers que por um lado agita as ruas com música e um tipo de teatro ambulante a que chama teatro de guerrilha e por outro presta auxílio aos hippies que ainda no alvor do psicadelismo já andam a cair pelos cantos de tanto exagero em viagens de LSD. Chega-se a temer que, pela sua origem clandestina, muitas das pílulas que tomam nem sejam de ácido lisérgico mas compostas por outras substâncias, nomeadamente estriquinina. Pesquisas idôneas entretanto realizadas irão demonstrar a baixa incidência de falsificações e adulterações – sendo embora os possíveis danos sempre elevados -, apesar da informalidade de todo o processo de industrialização e comercialização do produto, que fez do pioneiro Owsley III um milionário antes de ir parar à cadeia e deixar o negócio a outros, que o expandem cada vez mais.

    Dois dos seus ex-colaboradores, Tim Scully e Nicholas Sand, tornam-se conhecidos como os alquimistas do Brooklin ao abrir um laboratório clandestino naquele bairro de Nova York e lançarem para a América e o mundo a famosa série de pílulas de ácido Sunshine.

    A pioneira distribuição à escala nacional de LSD nos EUA dera-se através da organização Brotherhood of Eternal Love, nascida de uma comunidade hippie que adotou o nome pelo qual São Francisco começa a ser igualmente conhecida e que também faz fortuna com a importação de haxixe do Afeganistão.

    A demanda da população mais jovem por marijuana, haxixe e psicadélicos é cada vez maior. Drogas são parte essencial do seu revolucionário estilo de vida. Não precisam de esforçar-se muito para compreender que a medicina moksha pode ser muito salutar, se bem usada e com a cabeça a postos, embora muitos nem entendam muito bem o que andam a fazer e onde querem chegar.


    O LSD-25 passa a ser mais uma droga produzida em laboratórios clandestinos, como o que Augustus Owsley III, neto de um senador do Kentucky, abre em 1961 em Berkeley, de onde o distribui em doses embaladas em cápsulas de comprimidos brancas estampadas com figuras de Batman e Robin e que passarão à história como as renomadas tabletes Owsley. O psicodelismo ganha as ruas a partir do mercado negro – sem certificado de garantia.

    Desde a publicação de As Portas da Percepção e Céu e Inferno Huxley passou a deslocar-se sem cessar de uma costa à outra da América e uma vez por ano à Europa para fazer palestras e conferências. Em 1961 fez uma escala na Suíça para conhecer Albert Hofmann, que na sua autobiografia LSD: My Problem Child dá-nos impressões pessoais e transmite pontos de vista do escritor em relação a alguns tópicos do trabalho que desenvolve desde os pioneiros ensaios sobre a experiência psicodélica, que segundo o químico suíço contêm observações fundamentais sobre a essência da experiência visionária e o significado desta maneira de entender o mundo – na sua história cultural, criação de mitos, origem de religiões e no processo criativo de que se faz a obra de arte. O cientista diz ter encontrado em As Portas da Percepção a exposição mais significativa da experiência induzida por drogas alucinogênicas e um insight mais aprofundado das suas próprias experiências com LSD.


(trecho sobre A Ilha, último romance de Aldous Huxley:)


    E o que é moksha? É a droga com que Huxley sonha desde 1931: um alucinógeno feito de um cogumelo, portanto, uma espécie de psilocibina, que é receitado ao protagonista em crise existencial como ferramenta de apoio à psicoterapia, porque também em Pala ninguém é perfeito ou totalmente ‘são’, e que ajuda os moribundos a abandonar o corpo para transmutar para um outro tipo de existência, como o Bardo Thödol, o guia da passagem sem padecimentos para moribundos e seus familiares, que é recitado à mulher de um dos fundadores da cultura de Pala enquanto esta morre de câncer: Vai para o interior da luz. Moksha é também um instrumento de contemplação, tal como preceituado por Huxley através de um diálogo entre duas personagens após uma cena em que foram abordadas as virtudes da meditação:
    ‘Há alguma ligação’, perguntou Will, ‘entre o que falavam e o que vi lá em cima no templo de Shiva?’
    ‘Claro que sim’, respondeu ela. ‘A medicina moksha leva-nos aos mesmos lugares a que se chega na meditação.’
    ‘Então, para quê preocuparmo-nos em meditar?’
    ‘Poderia também ter perguntado, Para quê se preocupar com o jantar?’
    ‘Mas, pelo que diz, a medicina moksha é o jantar.’
    ‘É um banquete’, disse ela enfaticamente. E é precisamente por isto que tem de haver meditação. Não podemos banquetear-nos todos os dias. Os banquetes são muito ricos e prolongam-se por muito tempo. Além disso, os banquetes são providenciados por fornecedores, não se tem papel algum na sua preparação. Para o dia a dia é necessário que se faça a própria comida. A medicina moksha é um prazer ocasional.’

    Diz uma outra personagem:
    Não inculcamos crenças nos nossos rapazes, nem os disturbamos com símbolos emotivos. Quando é chegado o momento de aprenderem as verdades mais profundas da religião, fazemo-los escalar um precipício e damos-lhes quatrocentos miligramas de revelação... e desse modo podem fazer uma idéia muito precisa da realidade.
    No ritual de iniciação, os adolescentes de Pala são levados a ter a mais vívida idéia da presença da morte e da precariedade da existência, assim como da Iluminação, ou Nirvana – a um só tempo a inevitabilidade da passagem e a possibilidade de verem a Clara Luz.
    Em outro ponto do livro Huxley deixa um dos seus últimos testemunhos sobre a experiência psicodélica: ouvir boa música, diz uma das suas personagens referindo-se a Mozart, é o mesmo tipo de experiência que se tem com a medicina moksha, ou através da oração e jejum ou exercícios espirituais. Mesmo que não se relacione com nada fora dela, ainda assim é a coisa mais importante que nos acontece. ... E dando-se uma oportunidade à experiência, estando-se preparado para ir adiante com ela, os resultados são incomparavelmente mais terapêuticos e transformadores [que com a música]. Desse modo, talvez tudo aconteça dentro do esqueleto de cada um. Talvez seja privativo e não haja nenhum conhecimento unificador de nada além da fisiologia de cada um. O que importa? O fato é que a experiência pode abrir os olhos a cada um de nós e fazer de todos nós seres abençoados e transformar completamente nossas vidas.

     Breve História (do Uso) das Drogas de Aldous Huxley aos nossos dias  

 

 

 

O ex-aluno de teoria literária Ken Kesey é um autor de grande sucesso no ano da proibição dos psicodélicos, graças ao seu romance semi-autobiográfico Voando Sobre um Ninho de Cucos. Muito mais radical que Leary, aplica parte do dinheiro ganho com os direitos autorais do seu best-seller na compra de ácido lisérgico para distribuí-lo gratuitamente em cerimônias-festas de iniciação ao psicodelismo que pretende realizar América fora. Funda a comunidade hippie Merry Pranksters, levados da breca, apenas mais um nome bizarro entre os da constelação de comunas que despontam por todo o país e particularmente no berço da contracultura, a região de São Francisco. Para propagar o seu culto pela estrada fora Kesey compra um ônibus escolar em cujo teto instala um palco para o grupo de rock da comunidade, Warlocks, animar as festas. Antes da partida os Pranksters pintam o veículo de várias cores com tinta fosforescente, no estilo dos cartazes e murais afixados e pintados nas paredes de teatros e salões de baile como o Fillmore e o Avalon, onde grupos como os próprios Warlocks e Great Society exibem-se em sessões de música psicodélica, envoltos por nuvens de fumo de marijuana enquanto o público viaja em LSD.

O ônibus psicodélico parte para a grande viagem de costa a costa. Objetivo, porque estamos em 1965 e Leary ainda não foi preso na fronteira com o México: Castalia, o novo nome da fundação de promoção do uso de psicodélicos do ‘guru do LSD’, inspirado no da guilda de matemáticos que está no centro da trama do misto de utopia e distopia de uma sociedade controlada por sábios criado por Hermann Hesse no romance Magister Ludi: O Jogo das Contas de Vidro.

De tão intensas e seminais, pois após a pioneira comunidade de Leary e o seu set and setting na região de Cambridge, Massachusetts, é a de Ken Kesey que estabelece os padrões de moda e estilo de vida das novas comunidades em geral, as aventuras e desventuras dos Pranksters renderam pelo menos três bons ‘subprodutos’: Grateful Dead, futuro nome dos Warlocks, e os romances-reportagens Electric Kool-Aid Acid Test, de Tom Wolfe, e Hell’s Angels, de Hunter S. Thompson, que desponta para afirmar-se com Wolfe como um dos grandes mestres do chamado novo jornalismo através de uma das melhores publicações da imprensa alternativa, o quinzenário Rolling Stone, também de São Francisco.

 

    Em 1965 o Congresso aprova uma lei proibindo as substâncias psicodélicas e põe mais uma pá de hipocrisia e cinismo sobre um assunto que continua sendo tratado pelas autoridades com tanta leviandade quanto ignorante preconceito. Ou de repente nem é disso que se trata mas de ostentarem preconceito de velha raposa, por saberem que ao fecharem com uma mão as vias legais, com a outra estão abrindo e abrindo-se às ilegais, com o potencial de corrupção ativa e passiva e concussão inerentes. Nada mais cabal talvez quanto a este ponto que a saga de Lucky Luciano, preso havia vários anos por chefiar o tráfico de opiáceos e uma rede de prostituição na região de Nova York antes de ser libertado por ter posto a máfia siciliana abrindo caminho à invasão da Itália pelas tropas aliadas na II Guerra Mundial. Ou recordar a péssima lição da Lei Seca, que permitiu a consolidação do poder de Al Capone e a corrupção de boa parte da corporação policial, de agentes do fisco e do aparelho judiciário da América.
    Intelectuais e cientistas empenharam-se a fundo em campanha para levar o Congresso a desistir da inclusão dos derivados do fungo de centeio e do cacto mexicano na lista de substâncias proibidas. A campanha contra a proibição gerou uma série de documentos históricos como Request For a Public Hearing, de Richard Alpert, e os testemunhos do trabalho até então realizado por pesquisadores como o psicólogo checo Stanislav Grof ou os psiquiatras Humphrey Osmond e Bernard Aaronson, que escreveram em Psychedelics and the Future, capítulo final do livro Psychedelics, publicado em 1970:
    Homens e mulheres mais velhos que exercem autoridade moral e estrutural, chamados coletivamente Establishment, estão há anos alarmados com os psicodélicos. Enquanto isso, sempre no centro de todo o movimento anti-Establishment, os jovens impetuosos correm atrás deles com ardor e ousadia de Romeu e Julieta.
    A caixa de Pandora foi inesperadamente aberta. Não importa quanto se lhes avise, os establishments sempre são surpreendidos e, quando se apercebem de que alguma coisa está errada, o mais das vezes agem precipitadamente, sem pensar muito ou sem tomar cautela, acabando por transformar uma inconveniência de somenos importância e até possíveis benefícios numa catástrofe. Houve muitos avisos de que os psicodélicos poderiam ser facilmente distribuídos. Não era preciso ser profeta para prever isso, porque a história demonstra que o homem tem sido um experimentador inveterado de químicos, normalmente derivados de plantas, que o tornam mais feliz e vivaz ou alteram a sua percepção ou o seu estado de consciência.
    Antes de planejar e aprovar legislação implementando novos procedimentos de vigilância teria sido mais sensato aquilatar a utilidade de tais ações e ponderar se atitudes de polícia não teriam consequências inesperadas, tão más ou piores que os males remediados.
    Uma das consequências mais notórias da proibição nos anos 20 foi a da desobediência à lei por parte de quem não pensava que tomar álcool fosse imoral, mesmo que se tivesse tornado ilegal. É um preço alto a pagar por um benefício social no mínimo duvidoso.
    Drogas são apenas um dos muitos caminhos possíveis para se atingir a auto-transcendência e que de modo algum pode ser considerado o mais condenável do ponto de vista médico.
    Desde os tempos mais remotos os psicodélicos são vistos como estranhos e sagrados e fazem parte de grandes cerimônias religiosas. Perduram há tanto tempo e têm tido tanto interesse para a humanidade como o álcool, que com o advento da agricultura moderna tornou-se de mais fácil acesso. Por outro lado, a cannabis tem sido usada há muitos séculos. O interesse dos Índios por drogas sobreviveu à força bruta da Inquisição Espanhola. Tais substâncias têm grande interesse para a psicologia e a psiquiatria e há um grande número de provas da sua utilidade terapêutica.
    O Establishment terá de decidir se desaprova os químicos que produzem a experiência ou a experiência em si mesma.
    As consequências da experiência psicodélica pela maioria ou mesmo por uma minoria substancial da população pós-industrial, em termos sociológicos, psicológicos, políticos ou a outros níveis, tendem a afetar muito mais a sociedade que uns quantos passeios espaciais para heróis e heroínas cuidadosamente selecionados.

 

 Em seu ensaio Non-Therapeutic Uses of LSD / Usos Não-Terapêuticos do LSD, um dos capítulos do livro  LSD Psychotherapy / Psicoterapia de LSD, publicado nos Estados Unidos da América em 1980, o psicoterapeuta tcheco Stanislav Grof faz também os seguintes resumos de

TRAINING SESSIONS OF MENTAL HEALTH PROFESSIONALS

    The extraordinary value of LSD for the education of psychiatrists and psychologists became evident at a very early stage of its research. In his pioneering paper, published in 1947, Stoll emphasized that an auto-experiment with this drug gives professionals a unique opportunity to experience first-hand the alien worlds which they encounter in their everyday work with psychiatric patients. During the "model psychosis" phase of LSD research, when the psychedelic state was considered a chemically-induced schizophrenia, LSD sessions were recommended as reversible journeys into the experiential world of psychotics which had a unique didactic significance. The experience was recommended for psychiatrists, psychologists, nurses, social workers, and medical students as a means of acquiring insights into the nature of mental illness. Rinkel (85), Roubicek (90) and other researchers who conducted didactic experiments of this kind reported that a single LSD session can dramatically change the understanding that mental health professionals have of psychotic patients, and result in a more humane attitude toward them.
    The fact that the "model psychosis" concept of the LSD state was eventually rejected by most researchers did not diminish the educational value of the psychedelic experience. Although mental changes induced by LSD are obviously not identical with schizophrenia, the ingestion of the drug still represents a very special opportunity for professionals and students to experience many states of mind that occur naturally in the context of various mental disorders. These involve perceptual distortions in the optical, acoustic, tactile, olfactory, and gustatory areas; quantitative and qualitative disturbances of the thought-processes; and abnormal emotional qualities of extraordinary intensity. Under the influence of LSD it is possible to experience sensory illusions and pseudohallucinations, retardation or acceleration of thinking, delusional interpretation of the world, and an entire gamut of intense pathological emotions such as depression manic mood, aggression, self-destructive craving, and agonizing feelings of inferiority and guilt, or conversely, ecstatic rapture, transcendental peace and serenity, and a sense of cosmic unity. The psychedelic experience can also become a source of revelatory aesthetic, scientific, philosophical, or spiritual insight.
    Autoexperimentation with LSD does not exhaust its didactic potential. Another learning experience of great value is participation in the sessions of other subjects. This offers an opportunity for young professionals to observe an entire range of abnormal phenomena and be exposed to and become familiar with extreme emotional states and unusual behavior patterns. This occurs under specially structured circumstances, at a convenient time, and in the context of an existing relationship with the experient. All these factors make this a situation better suited for learning than the admission ward or emergency unit of a psychiatric hospital. In a more specific way, sitting in LSD sessions has been recommended as an unequaled training for future psychotherapists. The intensification of the relationship with the sitters that is characteristic of LSD sessions presents a rare opportunity for a novice professional to observe transference phenomena and learn to cope with them. (...)

 As I have emphasized earlier, LSD training sessions are an essential qualification for every LSD therapist. Because of the unique nature of the psychedelic state it is impossible to reach a real understanding of its quality and dimensions unless one directly experiences it. In addition, the experience of confronting the various areas in one's own unconscious is absolutely necessary for developing the ability to assist other people with competence and equanimity in their process of deep self-exploration. LSD training sessions are also highly recommended for nurses and all other members of the staff in psychedelic treatment units who come in close contact with clients in unusual states of consciousness.

SESSÕES DE TREINAMENTO DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE MENTAL

O extraordinário valor do LSD para a educação de psiquiatras e psicólogos tornou-se evidente logo em um estágio inicial de sua pesquisa. Em seu estudo pioneiro, publicado em 1947, Stoll enfatizava que uma auto-experimentação dessa droga dá aos profissionais oportunidade única de experimentarem em primeira mão os mundos alienígenas que eles encontram em seu trabalho do dia a dia com pacientes psiquiátricos. Durante a fase do "modelo psicótico" da pesquisa do LSD, quando o estado psicodélico era considerado uma esquizofrenia induzida quimicamente, sessões de LSD eram recomendadas como viagens reversíveis ao interior do mundo experimental dos psicóticos pelo seu valor didático único. A experiência era recomendada a psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e estudantes de medicina como meio de aquisição de insights da doença mental. Rinkel (85), Roubiceck (90) e outros pesquisadores que conduziram experiências didáticas desse gênero relataram que uma única sessão de LSD pode mudar dramaticamente a ideia que profissionais de saúde mental fazem de pacientes psicóticos e levar a uma atitude mais humana em relação a eles.

O fato de o "modelo psicótico" do LSD ter sido  rejeitado posteriormente pela maioria dos pesquisadores não diminuiu o valor educacional da experiência psicodélica. Ainda que alterações mentais induzidas pelo LSD não sejam obviamente semelhantes à esquizofrenia a ingestão da droga ainda representa uma oportunidade muito especial de profissionais e estudantes experimentarem muitos estados de consciência que ocorrem naturalmente no contexto de vários distúrbios mentais. Eles envolvem distorções em áreas óticas, acústicas, táteis, olfativas, e gustativas., distúrbios quantitativos e qualitativos de processos de pensamento, e qualidades emocionais anormais de  intensidade extraordinária. É possível sob influência do LSD experimentar ilusões sensoriais e pseudoalucinações, retardamentos ou acelerações do pensamento, interpretação delirante do mundo, e toda uma gama de intensas emoções patológicas tais como modo maníaco-depressivo, agressão, ânsia de autodestruição, e agonizantes sentimentos de inferioridade e culpa, ou ao inverso, arroubos extáticos, serenidade e paz transcendentais, e um sentido de unidade cósmica. A experiência psicodélica pode também tornar-se uma fonte de insights estéticos, científicos, filosóficos, ou espirituais.

A autoexperimentação de LSD não exaure seu potencial didático. Outra experiência de aprendizado de grande valor é a participação em sessões de terceiros. Isso oferece a oportunidade de jovens profissionais observarem toda uma gama de fenômenos anormais e de se exporem e se acostumarem a estados emocionais extremos e padrões de comportamento fora do comum. Isso acontece sob circunstâncias especialmente estruturadas, em momento conveniente, e em um contexto de uma relação continuada com o sujeito da experiência. Todos esses fatores levam a uma situação mais apropriada para o aprendizado que as unidades de admissão ou de emergência de um hospital psiquiátrico. De um modo mais específico, presenciar a sessões de LSD tem sido recomendado como um treino de valor inigualável para futuros psicoterapeutas. A intensificação do relacionamento com os participantes que é característica das sessões de LSD oferece uma rara oportunidade de um profissional iniciante observar os fenômenos de transferência e aprender a lidar com eles . (...)  

Como enfatizei antes, sessões de treinamento com LSD são uma qualificação essencial para todo terapeuta que trabalha com LSD. Em função da natureza única do estado psicodélico é impossível atingir um verdadeiro entendimento de suas qualidades e dimensões sem uma experiência direta com ele. Além disso, a experiência da confrontação com diversas áreas do próprio inconsciente é absolutamente necessária para se desenvolver os dotes de assistência competente e equânime de outros indivíduos em seu processo de profunda auto-exploração. Sessões de treinamento de LSD são também altamente recomendáveis a enfermeiros e outros membros da equipe em unidades de terapia psicodélica que mantêm contato próximo com clientes em estados de consciência fora do comum. 

 

ADMINISTRATION OF LSD TO CREATIVE INDIVIDUALS

 

Studies using various psychological tests specifically designed to measure creativity usually fail to demonstrate significant improvement as a result of LSD administration. However, how relevant these tests are in relation to the creative process and how sensitive and specific they are in detecting the changes induced by LSD remains an open question. Another important factor to consider is the general lack of motivation in LSD subjects to participate and cooperate in formal psychological testing procedures while they are deeply involved in their inner experiences. In view of the importance of set and setting for the psychedelic experience, it should also be mentioned that many of the above studies were conducted in the context of the "model schizophrenia" approach, and thus with the intention of demonstrating the psychotic impairment of performance

The generally negative outcome of creativity studies is in sharp contrast to the everyday experience of LSD therapists. The work of many artists—painters, musicians, writers, and poets—who participated in LSD experimentation in various countries of the world has been deeply influenced by their psychedelic experiences. Most of them found access to deep sources of inspiration in their unconscious mind, experienced a striking enhancement and unleashing of fantasy, and reached extraordinary vitality, originality and freedom of artistic expression. In many instances, the quality of their creations improved considerably, not only according to their own judgment or the opinion of the LSD researchers, but by the standards of their professional colleagues. At exhibitions which chronologically show the artist's development, it is usually easy to recognize when he or she had a psychedelic experience. One can typically see a dramatic quantum jump in the content and style of the paintings. This is particularly true of painters who, prior to their LSD experience, were conventional and conservative in their artistic expression.

 

ADMINISTRAÇÃO DE LSD EM INDIVÍDUOS CRIATIVOS

Estudos de diversos testes psicológicos projetados especificamente para aquilatar a criatividade normalmente não conseguem demonstrar desenvolvimentos significativos em consequência da administração de LSD. Seja como for, é ainda questão em aberto quão relevantes esses testes poderão ser com relação ao processo criativo e quão sensíveis e específicos eles poderão ser para detectar as mudanças induzidas por LSD. Outro fator importante a considerar é a falta de motivação geral de experimentadores de LSD para participar e cooperar com testes psicológicos formais quando estão profundamente envolvidos em suas experiências interiores. Em vista da importância de cenário e postura para a experiência psicodélica, dever-se-ia referir também que muitos desses estudos foram realizados no contexto da abordagem "esquizofrenia modelo", e para mais com a intenção de demonstrar os prejuízos psicóticos que dela podem advir.

Os resultados geralmente negativos de estudos de criatividade estão em nítido contraste com a experiência regular de terapeutas que usam LSD. O trabalho de muitos artistas - pintores, músicos, escritores, e poetas - que participaram em experiências com LSD em vários países do mundo tem sido profundamente influenciado por suas experiências. A maioria deles teve acesso a fontes profundas de inspiração em sua mente inconsciente, experimentaram uma acentuação e um desatrelamento de fantasia chocantes, e atingiram vitalidade, originalidade e liberdade de expressão extraordinárias. Em muitos casos, a qualidade de suas criações aumentou consideravelmente, não apenas segundo seu próprio julgamento ou na opinião dos pesquisadores de LSD, mas pelos padrões de seus colegas profissionais. Em exposições que mostram cronologicamente a evolução do artista, via de regra é fácil reconhecer quando ele ou ela tiveram uma experiência psicodélica. Pode-se ver o dramático salto quântico no conteúdo e no estilo das pinturas que lhe é característico. Isto é particularmente verdade no caso de pintores que, antes de sua experiência com LSD, eram convencionais e conservadores em sua expressão artística.  

 

 

No prefácio de Realms of the Human Unconscious / Domínios do Inconsciente Humano, seu primeiro volume de ensaios, publicado cinco anos antes de LSD Psychotherapy / Psicoterapia de LSD, Stanislav Grof  fez um resumo de suas pesquisas com LSD em Praga e do cenário decorrente da política antidrogas posta em prática pelas autoridades norte-americanas justamente quando se mudou para os Estados Unidos da América em 1967.

 

This volume is the first of a series of books in which I plan to summarize and condense in a systematic and comprehensive way my observations and experiences during seventeen years of research with LSD and other psychedelic drugs. Exploration of the potential of these substances for the study of schizophrenia, for didactic purposes, for a deeper understanding of art and religion, for personality diagnostics and the therapy of emotional disorders, and for altering the experience of dying has been my major professional interest throughout these years and has consumed most of the time I have spent in psychiatric research.
    In 1965, I was invited to participate in an international conference on LSD psychotherapy in Amityville, Long Island, and gave a paper on the experiences I had gathered during almost a decade of LSD research in Prague, Czechoslovakia. During a lecture-journey in the United States after this conference, I was offered an invitation to come to the West on a one-year fellowship from the Foundations' Fund for Research in Psychiatry in New Haven, Connecticut. After my return to Prague, I received a letter from Dr. Joel Elkes, Chairman of the Department of Psychiatry and Behavioral Sciences at the Johns Hopkins University in Baltimore, inviting me to come to Baltimore and continue my LSD work as a clinical and research fellow at the Henry Phipps Clinic and in the Research Unit of Spring Grove State Hospital.
    When this unusual opportunity occurred, (...) I became intrigued by the possibilities that LSD psychotherapy seemed to offer for the alleviation of the emotional suffering of cancer patients facing the prospect of imminent death. On the basis of some preliminary observations, I was preparing a special project to explore this new area in a more systematic way.
After my arrival in the United States, (...) I was astounded by the situation regarding psychedelic drugs that had developed in this country since my first visit in 1965. In Czechoslovakia at the time of my departure, LSD was being legally manufactured by the leading pharmaceutical company sponsored by the government. It was listed in the official medical pharmacopoeia as a therapeutic agent with specific indications and contraindications, together with such reputable drugs as penicillin, insulin, and digitalis. LSD was freely available to qualified professionals as an experimental and therapeutic agent, and its distribution was subject to special regulations. The training required for each LSD therapist more or less followed the psychoanalytic model; it involved a minimum of five training LSD sessions for the applicant and his conducting at least thirty sessions with selected patients under the supervision of an experienced LSD therapist. The general public knew almost nothing about psychedelic drugs, since the reports concerning research with such substances were published almost exclusively in scientific journals. At the time of my departure, there was no black-market traffic in psychedelics and no nonmedical use of them. Anyone interested in self-experimentation could have an LSD session provided it was conducted by an approved professional and in a medical facility.
    The situation I found in the United States contrasted sharply with the one described above. Psychedelics had become an issue of general interest. Black-market LSD seemed to be readily available in all parts of the country and for all age groups. Self-experimentation with psychedelics flourished on university campuses, and many large cities had their hippie districts with distinct drug subcultures. The casualties from the psychedelic scene were making newspaper headlines; almost every day one could read sensationalist reports about psychotic breakdowns, self-mutilations, suicides, and murders attributed to the use of LSD. At the same time, the psychedelic movement was profoundly influencing contemporary culture—music, painting, poetry, design, interior decorating, fashion, movies, theater, and television plays.
    The legislative measures undertaken with the intention of suppressing dangerous self-experimentation proved rather ineffective in curbing nonmedical use of LSD but had adverse direct and indirect consequences for scientific research. Only a handful of projects survived under these complicated circumstances. As a result, LSD research was reduced to a minimum and, paradoxically, very little new scientific information was being generated at a time when it was most needed. LSD and other psychedelics had become a serious national problem; it was difficult to imagine how effective measures could be undertaken without a real understanding of the nature of this problem.
    The information about psychedelic drugs spread by the mass media and various agencies was mostly superficial, inaccurate, and one-sided. This situation can be attributed, in part, to ignorance and emotional bias and to a desire to discourage and deter the lay experimentation that was flourishing in spite of all of the repressive legislative measures. Such distorted information, since it was unbalanced, disproportional, and frequently obviously incorrect, was regarded with suspicion by young people, many of whom found it easy to laugh it off, reject it totally, and ignore the real dangers associated with psychedelics.
    Under these circumstances, the prestige of mental-health professionals started deteriorating, especially among members of the younger generation and counterculture. Many psychiatrists and psychologists found themselves in situations in which they were called on as experts to handle various emergencies related to psychedelic-drug use; they were expected to intervene with authority in crisis situations and treat casualties from the psychedelic scene. At the same time, they did not have adequate training and experience in this area, nor was the opportunity available for them to increase their theoretical understanding of psychedelics because of the critical dearth of scientific research.
    The situation I encountered in 1967 has not changed substantially in the following years. Hundreds of thousands of people in the United States alone have been experimenting with LSD and other psychedelic drugs; many of them have had frequent, multiple exposures. This self-experimentation has been accompanied by many extraordinary experiences and has often resulted in profound changes in the personality structure, hierarchy of values, and world view of the experiencer. The phenomena observed in psychedelic sessions are manifestations of deep areas of the unconscious unknown to and unacknowledged by contemporary science. The application of existing theoretical concepts and practical procedures to the problems related to psychedelic-drug use has been, therefore, inappropriate, inadequate, and ineffective.

   Este volume é o primeiro de uma série de livros em que planejo resumir e condensar de um modo sistemático e compreensível minhas observações e experiências ao longo de dezessete anos de pesquisa com LSD e outras drogas psicodélicas. A exploração do potencial dessas substâncias para o estudo da esquizofrenia, para fins didáticos, para uma compreensão mais profunda de arte e religião, para diagnósticos de personalidade e terapia de distúrbios emocionais, e para alterar a experiência da morte tem sido o meu maior objeto de interesse profissional ao longo desses anos e consumiu a maior parte do tempo que dediquei a pesquisa psiquiátrica.

   Em 1965, fui convidado para participar numa conferência internacional sobre psicoterapia de LSD em Amityville, Long Island, onde relatei as experiências acumuladas durante quase uma década de pesquisa sobre LSD em Praga, Tchecoslováquia. Durante uma rodada de conferências que fiz depois daquele evento, fui convidado para vir para o Oeste com uma bolsa de um ano do Fundo das Fundações de Pesquisa Psiquiátrica, em New Haven, Connecticut. Depois de meu regresso a Praga, recebi uma carta do Dr. Joel Elkes, presidente do Departamento de Psquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade John Hopkins em Baltimore, me convidando para vir para Baltimore e prosseguir meu trabalho com LSD como clínico e pesquisador da Unidade de Clínica e Pesquisa Henry Phipps do Hospital Estadual Spring Grove. 

   Quando essa oportunidade inusitada aconteceu, (...) eu estava intrigado com as possibilidades que a psicoterapia de LSD parecia oferecer para o alívio do sofrimento emocional de pacientes de câncer na perspectiva de morte iminente. Baseado em observações preliminares, eu estava preparando um projeto especial para explorar esse novo caminho de um modo mais sistemático. Depois de minha chegada aos Estados Unidos, (...) fiquei atônito com a evolução da situação relativa às drogas psicodélicas neste país desde minha visita em 1965. Na Tchecoslováquia quando parti o LSD era legalmente fabricado pela mais importante empresa farmacêutica com o apoio do governo. Estava na lista oficial de farmacopeia médica como um agente terapêutico com indicações e contraindicações específicas, ao lado de drogas tão bem reputadas como a penicilina, a insulina e digitalis. O LSD estava livremente disponível para profissionais qualificados como um agente terapêutico e experimental, e sua distribuição estava subordinada a regulamentações especiais. O treinamento requerido a todo terapeuta de LSD seguia mais ou menos o modelo psicanalítico: envolvia um treino de no mínimo cinco sessões de LSD para o aplicador e ele conduzir pelo menos trinta sessões com pacientes selecionados sob a supervisão de um terapeuta de LSD experimentado. O público em geral quase nada sabia sobre drogas psicodélicas, porque os relatórios sobre pesquisas com tais substâncias eram divulgados quase exclusivamente por publicações científicas. Quando parti, não havia tráfico de psicodélicos no mercado negro e uso não-médico deles. Quem se interessasse por auto-experimentação podia fazer uma sessão de LSD desde que ela fosse conduzida por um profissional reconhecido e em dependências médicas.

   A situação que encontrei nos Estados Unidos contrastava nitidamente com a que descrevi acima. Os psicodélicos tinham se tornado tema de interesse geral. O mercado negro de LSD parecia disseminado por todo o país e entre todos os grupos etários. A auto-experimentação de LSD florescia em todos os campi universitários, e muitas cidades grandes tinham seus bairros hippies com diferentes subculturas de drogas. Acidentes na cena psicodélica eram manchete nos jornais; quase todos os dias se podia ler reportagens sensacionalistas sobre ataques psicóticos, auto-mutilações, suicídios, e assassinatos atribuídos ao uso de LSD. Ao mesmo tempo,  o movimento psicodélico estava influenciando profundamente a cultura contemporânea - música, pintura, poesia, design, decoração de interiores, moda, teatro, e peças de TV. 

   As medidas legislativas tomadas com o intuito de suprimir a auto-experimentação de risco mostrava-se bastante ineficaz em conter o uso não-médico de LSD mas teve consequências adversas diretas e indiretas para a pesquisa médica. Só uma pequena porção de projetos sobreviveu em circunstâncias tão complicadas. Por consequência, a pesquisa com LSD foi reduzida ao mínimo e, paradoxalmente, muito pouca informação científica estava sendo gerada no momento em que era mais necessária. O LSD e outros psicodélicos tinham se tornado um sério problema nacional; era difícil imaginar como medidas efetivas poderiam ser tomadas sem uma verdadeira compreensão da natureza desse problema.

   A informação sobre drogas psicodélicas posta a circular pela mídia de massa e várias agências era em grande parte superficial, inapropriada, e facciosa. Essa situação pode ser atribuída, em parte, à ignorância e a preconceito emotivo e a um desejo de desencorajar e eliminar a experimentação leiga que florescia apesar de todas as medidas legislativas de repressão. Informação tão distorcida, do ponto em que era desequilibrada, desproporcional, e com frequência obviamente incorreta, era encarada com suspeita pelos jovens, muitos dos quais acabavam por reagir com sarcasmo, rejeitá-la totalmente, e ignorar os danos reais que podem advir dos psicodélicos.

    Nessas circunstâncias, o prestígio dos profissionais de saúde mental começou a se deteriorar, especialmente entre os membros das gerações mais jovens e da contracultura. Muitos psiquiatras e psicólogos se depararam com situações em que eram convocados como peritos para lidar com emergências relacionadas ao uso de drogas psicodélicas; esperava-se que eles interviessem com autoridade em situações de crise e que tratassem de ocorrências da  cena psicodélica. Ao mesmo tempo, eles não tinham treinamento adequado e experiência na área, tampouco se lhes era oferecida a oportunidade de aumentar seu entendimento teórico dos psicodélicos por conta do estado crítico de carência de pesquisa científica.

     A situação com que me deparei em 1967 não mudou substancialmente nos anos seguintes. Centenas de milhar de pessoas nos Estados Unidos têm experimentado LSD e outras drogas psicodélicas sozinhos; muitas delas têm tido frequentes, múltiplas exposições a elas. Esta auto-experimentação tem sido acompanhada por muitas experiências extraordinárias e com frequência resultam em profundas mudanças na estrutura da personalidade, hierarquia de valores, e visão do mundo do experimentador.  O fenômeno observado em sessões psicodélicas são manifestações de áreas profundas do inconsciente desconhecido para e desconhecível pela ciência contemporânea. A aplicação dos conceitos teóricos existentes e procedimentos de ordem prática em função de problemas relacionados com o uso de drogas psicodélicas têm por isso sido inapropriados, inadequados, e ineficazes.     

A luta contra os vietcongs externos e internos foi das mais penosas e os órgãos de repressão recorreram a todos os meios para vencê-la, segundo algumas denúncias chegando a espalhar heroína – uma ‘arma branca’ - pelos guetos para dar o golpe fatal no Poder Negro. Uma das maiores preocupações dos ativistas e de parte da imprensa alternativa no auge do Movimento foi a de alertar para o perigo do abuso de drogas duras e de barbitúricos, anfetamina e metadrina, cada vez mais disseminado entre os jovens. A propagação de drogas laboratoriais estimulantes dá origem a um dos muitos subgrupos que surgem no final da ‘década dos psicodélicos’, o dos Speed Freaks. Speed Kills, é outro dos slogans de alerta dos grupos de ativistas, como o Partido White Panthers, criado em Detroit por John Sinclair, cuja condenação à prisão por posse de marijuana gera um movimento cívico contra a criminalização da cannabis e em prol da sua libertação apoiado por John Lennon.

A proibição de drogas leva à proliferação de novas redes de tráfico e à expansão de uma outra categoria sócio-profissional clandestina, a do dealer ou passador, até então circunscrita ao submundo mafioso, com a imediata reprodução na chamada sociedade alternativa da que Theodore Roszak caracteriza como uma caricatura criminosa do ethos comercial americano.    

Foragido à Interpol em Argel e depois na Suíça e totalmente deslocado em relação a qualquer ponto de referência na nebulosa das correntes desestruturadas do que restou do Movimento Psicodélico Timothy Leary finge sonhar com um psicodelismo ainda imbuído do espírito e dos princípios éticos e morais dos ingênuos primórdios ao prescrever e recomendar: O desafio do dealer é o de não só o seu produto ser puro e espiritual mas ele mesmo representar a luz humana que encarna. Assim, nunca comprem droga, nunca adquiram o sacramento de alguém que não tenha as qualidades a que vocês aspiram.

 

Pelas suas premissas transculturais, com a contracultura pela primeira vez a América vê-se a dar uma volta ao mundo e ao universo que o filósofo Henry David Thoreau, tido como precursor do pensamento hippie, dizia fazer no século XIX sem sair do seu refúgio num bosque do estado do Maine, mas que agora assume também um sentido literal. Muitos jovens americanos seguem o roteiro prescrito numa das suas leituras de mochila, a de Hermann Hesse em Viagem ao Oriente - algures a leste do Suez, ao longo da Rota do Haxixe para a Índia... Unidade cósmica, um curso de estudantes universitários de um ano no estrangeiro, conhecido familiarmente como O Grande Passeio Cerebral, o Expresso do Oriente, na definição de Timothy Leary. Serviços de imigração europeus registram um fluxo permanente de dez mil jovens desgrenhados a caminho do Médio Oriente e da Índia, a refazer o roteiro de Hesse e Huxley. Em 1966 noventa mil adolescentes são dados como desaparecidos nos EUA, segundo um relatório da polícia federal norte-americana. Um par de anos depois estima-se em dois milhões o número de habitantes de comunidades hippies, cujas valores básicos são o amor, a solidariedade e a paz. Faça amor, não a guerra, é o seu lema. O que mais se vê pelas estradas do mundo são polegares ao alto de jovens cabeludos a pedir boleia e o antigo sinal de vitória de Winston Churchill transformado em sinal da paz.

A proposta implícita do estilo hippie é a de prolongar a liberdade e o espírito de brincadeira da infância na idade adulta: fazer da cultura uma cultura da juventude, ponderam Lester Grinspoon e James B. Bakalar num resumo dos pressupostos dessa cultura da ingênua idade, que rejeita as definições sociais estabelecidas de razão, progresso, conhecimento e mesmo realidade e proclama o abandono do egocentrismo e da compulsão da visão tecnológica do mundo. A sociedade americana é para ela um pesadelo em ambiente de ar condicionado, desumanizada e comercializada, essencialmente conformista nos seus costumes e princípios morais, hipócrita em termos de religião e homicida e repressiva no âmbito político, tornando as drogas psicodélicas libertadoras ilegais e não reprimindo o álcool e a nicotina escravizadores. Detergente mental que purgaria a psique, dando origem a um renascimento espiritual, o LSD inspira e anima os jovens a ensaiar uma nova forma de comunidade e um novo estilo de vida na década psicodélica, em que meio mundo parece caminhar para a ilha de Huxley.

 

    Em 1971, quando John Lennon acabava de decretar o fim do sonho, de novo por iniciativa do governo norte-americano é dado outro passo em frente na guerra às drogas, com o compromisso dos signatários da Convenção de Viena de ‘vigiar a consciência, a percepção e o estado de ânimo dos seus cidadãos’ na repressão ao consumo de entorpecentes.   

 

           Trecho de Era Uma Vez A Revolução, capítulo de

 
     

                                    

Drogas: dissertação   

    Desço de elevador e abro a porta da rua, apinhada de gente e a explodir de ruídos de carros, ônibus e bondes à hora da saída dos escritórios. É dia de deadline do artigo. Se não entrego não sai e é menos que recebo no final do mês, quando o que me pagam os dois jornais em que publico uma dezena de artigos de crítica de música popular já é tão pouco. Dou alguns passos rumo à Ave da República, onde deveria apanhar o metrô, mas não aguento. Meus olhos devem estar da cor de sangue, pois sinto-os dardejando, e o único som de rush que os meus ouvidos poderiam aguentar a esta altura seria talvez os de Hendrix em Crosstown Traffic no remanso de casa. A ela volto. Estou doido demais para encarar alguém ‘normal’, ainda para mais numa redação, nem que fosse só entregar o artigo e dar no pé, porque ninguém no meio sequer desconfia que algum colega ‘se drogue’, embora muitos andem a cair pelas tabelas às vezes muito antes da madrugada em tabernas e antros de prostituição da cidade sem que isso lhes traga qualquer prejuízo à imagem, antes pelo contrário, a agir assim provam que são é muito machos. O único tratamento para o glaucoma, como se ouve no manifesto Legalize It, de Peter Tosh, a marijuana, cannabis sativa (cânhamo) mais a sua parente, cannabis indica, a espécie mais potente, de cujas flores de fêmeas secas se extrai um poderoso narcótico chamado ganjah, usado na medicina, não chega com certeza aos pés do álcool em efeitos nocivos para o corpo e a mente. Por enquanto a erva chega a tirar-me a vontade de fumar os poucos cigarros que queimo quase sem tragar, 20-20-20 (o três vintes), Provisórios ao lado de Definitivos, quase só por curtição estética. Sem vício.

    Essa sensação de incapacidade de ficar em ambientes claustrofóbicos ou mudar de um ambiente tranquilo para um que se nos pareça caótico é normal em ‘erva’. Tratando-se de produto de alta qualidade, após o efeito inicial, catatônico, em que parece que se instalou um parque de diversões no cérebro, sobrevém uma fase de estado melífluo que dilata o espaço e o tempo – algumas vezes produzindo sensação de fastídio quando algo não está ou vai a contento, sobretudo quando se é obrigado a atinar como autômato numa série de articulações psicomotoras, assim como se fosse acometido de dislexia - mas o que prevalece é uma total disponibilidade para a fruição lúdica, melhor ainda se de paisagem ou qualquer produção artística. Desestressa completamente, relativizando os quiproquós da existência, e se o acaso manda uma bad vibe é ruim mas a reação será seguramente na base de apaziguamento e concórdia, não fosse a que Normal Mailer chamou de Love Drug, e desse modo parece impossível que tenha sido usada, como dizem alguns compêndios, para acirrar nos hashashins a agressividade no combate a inimigos, e poderá não ter sido assim: o haxixe que consumiriram lhes daria visões do Paraíso islâmico ismaelita que lhes dariam mais ânimo e coragem para morrer em combate na ânsia de chegar lá para vivê-lo. Predispondo ao ludismo, o mesmo é dizer brincadeira, dá ao santo à-toa a paciência para o bric-à-brac, como o do quebra-cabeças de palavras e acentuações num texto. A ‘droga’ afeiçoa-se bastante bem às minhas atividades. Dá-me a paciência para concentrar-me na escuta de discos e criatividade sobre os temas e o que vejo ao meu redor. É como disse o outro: Não diria que as idéias venham necessariamente de estar sob o efeito de alguma droga, mas acredito que certas experiências com elas facilitam a manifestação de idéias que estavam latentes. A marijuana pode ser uma droga extremamente produtiva quando se está bloqueado.

    A síntese William Burroughsiana: Ela é boa para escrever, pintar, ouvir música. Para mim, ela proporciona uma paz, um momento geral da percepção. Sobretudo, faz uma grande diferença na visão, uma maior visualização, imagens, cores e sons ficam mais vívidos, assim como a excitação das ideias. Acho que escrever sob a influência da marijuana aumenta a capacidade de associação de ideias, tudo parece vir com a vividez de um sonho, só que é real. Devo muitas partes de Naked Lunch diretamente ao uso da cannabis. Já com os opiáceos é diferente, nunca consegui escrever nada sob efeito de heroína. Como outras drogas sedativas, como álcool e morfina, a heroína diminui a consciência do meio e dos processos corporais.

    Em resumo, se não é a droga que faz o homem é o homem que faz a droga boa ou má. O contraste é que é absurdo: escrever para jornal, ainda que trabalhando calmamente e em estilo crônica, numa ótica cartesiana, mesmo que sobre Fritz the Cat ou Woodstock, para jornais ‘caretas’ me dá a sensação de estar totalmente deplacé, certo tipo de discurso causando profundo tédio quando não baseado num objeto ou idéia excepcional, diferente, ou numa palavra, forte. Porque todas as publicações são muito formais – caretas.

    Há quem para criar use de tudo.     Kerouac em Tânger:

     Para escrever e dormir e pensar fui ao agradável drugstore local e comprei Sympatina para excitar, Diosan para o sonho de codeína e Soneryl para dormir. – Entretanto Burroughs e eu também compramos um pouco de ópio a um tipo de fez vermelho no Zoco Chico e improvisamos uns cachimbos com velhas latas de azeite e fumamos a cantar Willie the Moocher e no dia seguinte misturamos haxixe e kif com mel e especiarias e fizemos bolos Majoun e os comemos, mastigando bem, com chá quente, e demos longos passeios proféticos nos campos de florzinhas brancas. – Uma tarde, bem toldado de haxixe, meditei ao sol no meu telhado e pensei: ‘Todas as coisas que se mexem são Deus e todas as coisas que não se mexem são Deus’.

    Anaïs Nin conta que, em ácido, chegou à ‘fascinante revelação’ que o mundo ‘aberto’ pelo LSD é acessível ao artista por intermédio da arte. ‘Tudo o que a substância química faz é remover a resistência, tornar um indivíduo permeável à imagem e o corpo receptivo ao bloquear a paisagem familiar que impedia o sonho de apossar-se de nós.’ Huxley discorreu longamente sobre o conceito de Mind at Large e a ‘válvula de redução’ de que o homem ocidental, dominado pela idéia da Queda dos Anjos e do pecado predominante nos princípios judaico-cristãos, passou a abusar para ‘manter-se na linha’, soterrando tudo o que se relaciona a aspectos ‘extra-sensoriais’ da existência, o que a partir do Livro Tibetano dos Mortos chamou de CLEARLIGHT OF THE VOID, a CLARALUZ DO VÁCUO, by-passes espontâneos, exercícios espirituais, abstrações, esoterismos, hipnose e tudo o mais que ‘na nossa patética imbecilidade chamamos de mere things e desdenhamos em benefício da televisão’ (espantoso que já tenha pensado nisso ainda nos anos 50), que saltam aos olhos como a scintilla animae de Blake: Ver um Mundo num Grão de Areia e o Paraíso numa Flor Silvestre. Agarrar o infinito na Palma da Mão e a Eternidade numa hora. Blake, o poeta da quebra de paradigmas: Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria. Ou, na máxima que o próprio Huxley atualizou da sua visão memorável,

IF THE DOORS OF PERCEPTION WERE CLEANSED, EVERY THING WOULD APPEAR TO MAN AS IT IS, INFINITE

    Anaïs pretendeu polemizar com Huxley ao afirmar que ninguém precisa de drogas para desenvolver as suas capacidades artísticas. ‘Algumas pessoas precisam’, rebateu o autor de Sem Olhos em Gaza, que neste aspecto não tinha problemas de visão, e que já escrevera que ‘o que se vê sob influência da mescalina, o artista está equipado para ver todo o tempo’. Disse ela a propósito: ‘Os puritanos aniquilaram os sentidos e a cultura inglesa a emoção. Donde a necessidade de dinamitar o teto de cimento armado, de ‘explodir a mente’.’

    

    Álcool para nós por enquanto é droga de caretas mas não só. Como o álcool que se ingere de vez em quando, sem abusos, droga ilegal não tem nada a ver com mera abstração do real, pelo contrário, permitindo ver nele também o surreal, o ponto além da realidade que insistem em enfiar-nos goela abaixo, cinicamente condenando qualquer outro modo de ‘ver a vida’ para que o deles não se desmascare como efetivamente é, um absurdo maior que tudo o que a mente mais torpe poderia imaginar de grotesco, cínico, abjeto.

    Droga é em princípio apenas uma questão de cultura mas já agora também de princípio moral, pelas suas implicações legais e de status mental e social, porque pelas informações que nos inculcam usá-las equivale a dar um passo para o abismo. Passa a ser também uma questão de Estado, mas da guerra do Estado corporativo a uma força emergente que poderá entrar em choque frontal com ele. Nenhum dos maiores ‘mártires’ do rock morreu, ao que se sabe, de overdose de uma droga específica, do vício de uma delas, e sim, talvez, da mistura de duas ou mais, inclusive álcool e barbitúricos.

    É a arte do desbunde, ninguém o nega. Diz-se que em viagem à Inglaterra fixada em Don’t Look Back, de Alan Pennebacker, Dylan introduz a marijuana aos Beatles, quando eles seguramente já a conhecem na sua forma árabe, marroquina ou de outra proveniência. Mitologias. Há quem diga também que foi meses antes, atrás de um hangar de um aeroporto nos EUA. Seja como for os maravilhosos sons alucinado-lisérgicos de Sgt. Pepper’s e sobretudo Magical Mistery Tour seriam impossíveis sem que os quatro cavaleiros do pós-calipso tivessem tomado LSD. Abertura das portas mentais para outras percepções, aos chamados universos extra-sensoriais, portas para outras visões da vida. Não um método de criação ou via de esclarecimento mas de através dela encontrar inspiração (de pirar, no sentido patológico – do néscio - ou blakeano – do sábio - de enlouquecer) e inspiração. Como falar dessa arte – música, pintura, teatro, cinema e também literatura - sem conhecer as substâncias que ajudam a dar-lhe formas, às vezes as mais sintéticas, como o conjunto guitarra-baixo-bateria hendrixiano que reproduz o caos ordenado do horário de pico (ops!)? Sem conhecer de alguma forma esse admirável mundo novo que se abre na alvorada da era global? Formas diferentes de êxtase. Não digo que seja preciso injetar heroína para entrar na de Parker e Miles em My Old Flame. O artista não precisaria tomar nada para chegar lá mas alguns em determinados momentos precisam, e não me entra na cabeça que sem algum tipo de predisposição – i.e. da caretice pura -  se possa chegar lá de algum modo.

     O desbunde de álcool, cannabis, ácido e outras substâncias (nada de heroína nos seus casos?) é o que mata Janis e Jim? De Jimi, ao contrário do que os caretas dizem, falou-se sobretudo de barbitúricos. Certo, bebera e fumara haxixe em casa de Eric Burdon. Morreu asfixiado pelo vômito de tudo. Quantos astros morreram de overdose? Janis, que em algumas notícias se dizia ter morrido de overdose de heroína? Ou terá sido de cocaína – que poderia também ter ingerido em doses excessivas à mistura com Southern Comfort? Não se sabe, porque esse tipo de notícias é quase sempre rodeado de sensacionalismo. Na sua última série de entrevistas Janis dizia não se ver morrendo velha, sentada numa cadeira de balanço. Não poderia. Encurtou os anos com muito ânimo. Como falar desse mundo, e criticá-lo, sem conhecê-lo? Sem conhecer a vida do outro lado do espelho?

     Olha aqui um que não nos deixa mentir, neste artigo surpreendente sobre Hendrix publicado na Ciao 2000 que Ivan trouxe de Roma:

È stato detto di tutto sulle droghe di cui Hendrix (ab)usò. Addiritura qualcuno ha pensato bene di guistificare il foulard a fiori che Jimi portava spesso in pubblico sulla fronte come una copertura per le vene bucate dagli aghi dell’eroina! Hendrix ha ammesso più volte di aver indugiato nell’LSD e nel uso di altre droghe sintetiche, ma a tutt´oggi non esiste nessuna prova che fosse dedito all’eroina. Anche la sua morte, fatta passare come provocata da un’overdose di eroina, fu solo il disgraziato risultato di un eccesso di barbiturici, nella fatispecie un sonnifero tedesco di particolare forza, il quinalbarbitone.

Disse-se de tudo sobre as drogas de que Hendrix (ab)usou. Houve inclusive quem achou por bem justificar o foulard florido que Jimi usava muitas vezes em público na fronte como uma cobertura para as veias esburacadas pelas agulhas da heroína! Hendrix admitiu várias vezes ter-se envolvido com o LSD e no uso de outras drogas sintéticas, mas até agora não existe nenhuma prova do seu envolvimento com heroína. Até mesmo a sua morte, que se fez passar como provocada por uma overdose de heroína, foi apenas o desgraçado resultado de um excesso de barbitúricos, no caso um sonífero alemão com uma força notável, o quinalbarbitone.    

     Começa agora a fase em que os caretas que daqui a pouco estarão enchendo a cara de álcool numa choldra da noite lisboeta irão redigir notícias dizendo que fulano foi preso a comprar X gramas de haxixe para se injetar e talvez nem os nossos netos se livrarão da mesma lenga-lenga de que não há drogas ‘leves’ nem ‘pesadas’, que de uma se passa a outra e boçalidades do gênero com que se faz e se fará a ‘informação’, porque para quem a domina tanto faz, é tudo igual – e ninguém é tolo de ousar enfrentá-los porque de repente arriscaria ir para a cadeia. Sobre malefícios e eventuais benefícios da droga, droga que vicia e não vicia e o mercado, interesses políticos e econômicos de representantes do Estado na sua manutenção na ilegalidade, os malefícios do tráfico mais a sua legalização, não é então nem questão de falar por enquanto.

 

 


trechos do apêndice

Era Uma Vez As Revoluções de 

 

 

            Em verdade, mal passada uma década parecia que os anos 60 tinham acontecido na época do nascimento de Huxley. De drogas psicodélicas, por exemplo, nem pó. Mas pó havia aos montes. Cada vez mais heroína e cocaína, a droga da eficiência que ajudou a polir as pujantes bolsas de valores interligadas por computadores na era de Thatcher e Reagan e do FIM DA HISTÓRIA de Francis Fukuyama.
            No paraíso materialista neoliberal não há cá pano para sonhos e o lema é: quem busca a utopia traz consigo a barbárie. Os yippies foram substituídos pelos yuppies, com Jerry Rubin de terno e gravata como consultor de investimentos na mesma Bolsa de Valores de Nova York em que nos anos 60 queimara uma nota de dólar simbolizando a brusca transição da inocência para um pesadelo de Wall Streets em sessão dupla que abria com um filme série B do tempo em que Huxley chegou a Hollywood: Nancy e Ronald Reagan como atrações num bangue-bangue em que a dada altura surge um misto de presidente de república de bananas e poderoso traficante de cocaína ao serviço dos cartéis de Cali e Medellin colaborando com a CIA na luta anticomunista na América Central. Como nos anos 60, quando aeronaves militares americanas transportavam heroína do Triângulo Dourado para o Laos em troca da ajuda dos narcotraficantes locais na luta contra os vietcongs e os khmers vermelhos do Camboja.

            Mas de onde vêm os computadores pessoais que interligam as bolsas de valores do novo Governo Global que caiu no colo de George Bush Pai, formatado por Reagan e pelo papa polonês, permitindo-lhe desencadear a II Guerra do Petróleo da Era Ford?
            Do Vale do Silicone, na região de São Francisco, a eterna Fraternidade do Amor Eterno.
            Para Eric Davis, em Technognosis, por exemplo, não é pura coincidência que a era da tomada de consciência cósmica seja a da cibernética.
          O próprio termo PC foi criado por Stewart Brand, um ex-membro da comunidade Merry Pranksters que lançou em 1968 o Whole Earth Catalog, a primeira publicação alternativa tipo almanaque com anúncios de compra e venda de toda espécie de artigos de segunda mão, entre os quais, em pouco tempo, componentes de computadores.
            Outra ponte do psicodelismo para a cibernética foi Steve Jobs, notório acidhead, budista e vegetariano, que associando-se a Steven Wozniak para construir e vender computadores numa garagem em Stanford, também na região de Frisco, deu origem e nome à nova Apple. Hippies saem na frente (da IBM), alardearam os jornais.
           Escreveu Davis:
           Os modems forçam a abertura da ‘válvula redutora’ de Huxley para a entrada da Mind at Large (ou Mente Expandida). Computadores e media eletrônica estão pondo todo mundo na onda e o ciberespaço configura-se como a paisagem virtual, mutante, da consciência mental coletiva. As libertadoras energias do êxtase, definidas como a explosiva expansão do self para além das suas amarras cotidianas e hipervalorizadas pelos ideólogos da contra cultura dos Sixties, são agora um dado tecnológico.
            Já em 1952 o visionário Humphrey Osmond chamava a atenção para as semelhanças entre a estrutura e a mecânica de funcionamento dos computadores e as do cérebro humano e dezesseis anos depois o mago da aldeia global Marshall McLuhan previu que o computador seria o LSD do mundo dos negócios. Palmilhando esses rastros, de Inimigo Público Número Um da era Nixon à era Reagan Timothy Leary adaptou a sua política do êxtase à cibernética criando a Exo e depois a Info-Psychology, pela qual ela é mais um instrumento de reprogramação constante do cérebro a juntar às drogas psicodélicas.
            O trabalho de pesquisa de Leary na busca de uma base de integração psique-cibernética tem a ver com os projetos desenvolvidos a partir do estudo das novas ferramentas químicas num dos primeiros frutos do trabalho do Huxley, o Instituto Esalen, centro de estudos multidisciplinares que funcionava perto de Big Sur e que unia em palestras, debates e seminários e em projetos de pesquisa expoentes da ciência, literatura, arte e estudo das religiões. Com isso ele foi uma das bases de lançamento espacial das idéias transculturais, ou holísticas, da revolução psicodélica, que desembocaram na chamada Nova Era. Donde quem quer que com ele se envolveu ser o ponto de partida e de chegada dos ataques do neo-conservadorismo imperante - que junta no mesmo saco a antiga direita e a ex-esquerda marxista-leninista messiânica, os discípulos de Alan Bloom e os ex-discípulos de Georg Lucáks - às heranças dos malfadados anos 60, que só lhe estão a atravancar o caminho da exploração ilimitada dos recursos naturais em nome do lucro fácil, mais as suas idéias de relativismo cultural e exploração racional da natureza, que quase puseram e ameaçariam a cada instante pôr a perder os seus velhos e bons valores éticos e morais.

            É espantoso como as idéias de Huxley em relação aos mais diversos campos da atividade humana que estudou – política, educação, ciência, filosofia, artes, religião, ecologia, história... ele não deixou escapar quase nada - estão firmes e fortes no centro da polêmica gerada pela grande cruzada neoconservadora contra o espírito dos anos 60, pela ocupação do Iraque, a crise ambiental e a consolidação do poder hegemônico das corporações e contra as utopias que só levariam à barbárie.
            Outro aspecto da questão é a própria Nova Era, cuja faceta mais evidente, a da velha exploração da ignorância nas questões do espírito pelo comércio, de livros de auto-ajuda a assessorias esotéricas pseudo-científicas, é em si mesma e apesar de tudo uma expressão da permanente necessidade do ser humano de desatar as amarras do jogo da vida materialista que continuamos galhardamente a jogar quase sem escapatória. A do Edward Said, por exemplo, é a mesma do Huxley, a dizer que o Oriente precisa de uma revolução de secularização e o Ocidente de religiosidade. Mas daí a chamar Huxley de guru da Nova Era...

            Continuamos nos anos 90 depois de Ford reféns da cultura contra natura e, claro, contra a própria natureza humana - o antigo pensamento de direita reforçado por muitos dos antigos partidários do socialismo real na defesa das instituições que, apesar de cada vez mais desacreditadas, parecem ter saído ainda mais fortalecidas das refregas dos anos 60. O ensino por exemplo, bem ao contrário das reivindicações do Maio de 1968, é cada vez mais um mero ramo de negócios da iniciativa privada, situando-se a uma ainda maior distância do ideal de Huxley de instrumento de elevação humana e não apenas de aprendizado de técnicas de sobrevivência na selva tecnológico-mercantilista. Por outro lado a guerra às drogas de múltiplas faces movida a partir de Washington fez do fenômeno de explosão do seu consumo, com o consequente aumento do tráfico, uma dos terrores do mundo moderno. O proibicionismo enriquece os traficantes e por tabela muitos representantes da lei e da ordem e do sistema financeiro que embranquece o seu dinheiro e o da corrupção.
            Até Milton Friedman, mestre dos Chicago Boys, era favorável à legalização das drogas – o que segundo ele diminuiria a violência e levaria ao consumo de drogas leves em detrimento das pesadas.
            Da profusão de micro-pílulas ou papel embebido em LSD produzidos por laboratórios clandestinos europeus e americanos a partir dos anos 70 avançou-se para um consumo cada vez mais dilatado de drogas duras e os guetos americanos - e nos últimos anos o próprio Rio de Janeiro - foram inundados de crack enquanto para muita gente as chamadas drogas leves passaram a ser como que a refeição do dia-a-dia, instrumento natural de combate ao stress ou ferramenta de auxílio à criatividade, por exemplo, e o banquete da medicina moksha psicodélica tornou-se um luxo até o seu relativo revivalismo, a partir dos anos 90, quando se dá a redescoberta da Me-ti-le-no Di-ó-xi-do Me-ta An-fe-ta-mi-na, MDMA, ou ecstasy, até então usada como moderador de apetite ou desinibidora de pacientes em psicoterapias. Hoje a onda prevalecente é a da excitação provocada por estimulantes químicos de neurotransmissores.
           A problemática das drogas é só uma das facetas do jogo cínico dos algozes do sistema, em pouco mais de um século a transformar-se de questão de gosto, estética ou religião em mais um dos grandes flagelos da humanidade por conta de interesses políticos inconfessáveis, sendo hoje também uma questão de importância geoestratégica para o Império. Tivemos aí as pressões político-econômicas de Washington sobre governos de países como o Brasil para que escancarassem as fronteiras à grande guerra ao narcotráfico, potencialmente tão útil ao complexo industrial-militar e outros lobbies como a III Guerra do Petróleo da Era Ford ainda em curso no Iraque. Não vem ao caso que uma minoria relevante das populações consumidora de drogas viva uma semiclandestinidade em certos aspectos aterradora, pela ameaça que o seu hábito – e na maioria dos casos não dependência física ou psíquica – acaba por acarretar à sua integridade física e moral, pelo contato direto com marginais, nos bom e mau sentidos do termo, e os absurdos riscos de se ir para a cadeia ou poder-se morrer por ingestão de produtos adulterados. Somos apenas drogados que com a dependência alimentam essa entidade sem rosto chamada narcotráfico. Nos EUA, onde se contabiliza mais de meio milhão de delitos ligados à posse de marijuana por ano, instituiu-se o direito de confiscar todos os bens de quem tenha uma plantaçãozeca de cannabis no quintal de casa.
           O uso da cannabis para fins terapêuticos já é permitido em alguns países mas o mundo continua desperdiçando os benefícios comprovados das drogas psicodélicas em psicoterapia e no tratamento de pacientes terminais, a que pode ajudar diminuindo a angústia pela iminência da morte, como a Huxley, que morreu viajando. As pesquisas sobre os benefícios terapêuticos do LSD e da psilocibina ficaram praticamente no ponto em que estavam à época da sua proibição nos EUA. Mas o estudo etno-antropológico dessas e de outras substâncias evoluiu muito graças às pesquisas de campo feitas a partir de levantamentos históricos e ensaios sobre o trabalho de psicólogos, psiquiatras e teólogos por pesquisadores como Terence McKenna e Jeremy Narby. Viagens em si mesmas visionárias que nos levam às origens da vida e da sociedade humana e sem exceção acabam no ponto de onde sempre se parte: que desde sempre o homem procurou nas drogas, como escreveu William Wordsworth, um entendimento de algo mais profundamente interligado - um dos versos mais citados por Huxley quando escrevia sobre essa constante histórica de meticulosidade estarrecedora - e que é nas drogas que ele encontra um dos elos mais fortes com a sua natureza.
           Encontramos recentemente na grande rede uma dica a esse propósito: Como o telescópio é ilegal não podemos pedir às pessoas para olharem através dele, diz um dos terapeutas que consideram os enteogênios os instrumentos mais corretos e instantâneos para se entender o modelo racional da morte do ego e que lamenta que até hoje a cultura ocidental só os tenha experimentado sob uma severa combinação de supressão legal, tabu cultural, estúpida ignorância, desinformação, mentiras, distorção e poderosa antipropaganda pelo Establishment.
           Na carta que enviou com uma cópia de A Ilha ao que chamava de descobridor original da medicina moksha, Huxley dizia a Albert Hofmann: Espero que este e outros trabalhos do gênero resultem no desenvolvimento de uma verdadeira História Natural da experiência visionária, em todas as suas variações, determinadas por diferenças de estrutura física, temperamento e profissão, e ao mesmo tempo de uma técnica de Misticismo Aplicado – uma técnica para ajudar indivíduos a aproveitar ao máximo a sua experiência transcendental e para usar os insights no Outro Mundo nos assuntos deste mundo. Meister Eckhart escreveu que o que se obtém pela contemplação deve ser devolvido em amor. É essencialmente isto o que se deve desenvolver – a arte de doar em amor e inteligência o que se obtém da visão e da experiência de autotranscendência e solidariedade com o Universo...
           Hofmann acompanhou sua participação numa conferência sobre superpopulação, recursos naturais e escassez de alimentos que se realizou em Estocolmo dois meses antes da sua morte e recordou-a da seguinte forma:
            Huxley propôs a exploração e aplicação das capacidades ocultas e ainda inexploradas do ser humano. Uma raça humana com mais capacidades espirituais altamente desenvolvidas, com consciência expandida da sagacidade e da incompreensível maravilha do ser, teria também uma maior compreensão e maior consideração pelas fundações biológicas e materiais da vida na terra. Sobretudo para a população ocidental, com a sua racionalidade hipertrofiada, o desenvolvimento e expansão de uma profunda experiência emocional da realidade, desobstruída de palavras e conceitos, seria de grande significado para a evolução.
              Até hoje idéias do subterrâneo.
 
             A obra de Huxley choca pela inadequação aos padrões vigentes fosse no seu tempo como na atualidade, quando seria ainda mais evidente que só há uma via para o futuro entre as que apontou: a do Admirável Mundo Novo, embora com tantas câmeras de vigilância nos rodeando ainda pareça que estejamos no rumo de uma organização político-social orwelliana, ou a de A Ilha. Em tempos de opressão e desordem neoconservadora assistimos também a um revivalismo do espírito da era do neoarcaísmo psicodélico. Após décadas de estudos sobre a natureza e a história das relações humanas com as drogas Terence McKenna passou a defender a atualidade das propostas de Huxley em A Ilha e dos hippies ao sustentar que o único caminho possível para a humanidade é o do chamado revivalismo arcaico, que acabe com a cultura de domínio patriarcal e reinstaure a que Riane Eisler, em O Cálice e a Espada, definiu como sociedade de parceria – que era o que no fundo se procurava reinstaurar naqueles tempos.
            Para a maior parte do Establishment intelectual, nos seus últimos anos de vida como na atualidade, Aldous Huxley foi um lamentável caso de mutação que levou um dos mais brilhantes pensadores do século XX a tornar-se um tipo estranho e excêntrico que exagerou no envolvimento com drogas e cultos bizarros. Chega-se ao ponto de dizer que o que ele propõe em A Ilha são técnicas de condicionamento bárbaras e que Pala representa uma ditadura tremenda porque nela todos são obrigados a ser felizes. As prontas reações de escárnio ao seu último romance o levaram a escrever: Divertindo-se com Cogumelos – é assim que um crítico arruma o assunto. Mas o que é melhor: Divertir-se com Cogumelos ou ter Idiotia com Ideologia, Guerras por causa de Palavras, Desfeitas Futuras por Descréditos Passados?

            No último trabalho publicado em vida Huxley faz um resumo dos seus pontos de vista em relação à experiências mística e visionária para chegar à sua ‘profecia’ sobre a aplicação das drogas psicodélicas no desenvolvimento psíquico e intelectual de indivíduos com capacidade para servir de agentes de uma gradual transformação da sociedade. Segundo ele, através da experiência psicodélica os indivíduos envolvidos no processo poderão partir de um estado de ‘consciência estética e visionária’ para um outro, mais aprofundado, de ‘consciência mística’.

            O mundo é então visto como uma diversidade infinita que é ainda uma unidade e o contemplador sente-se um com a infinita Oneness que se manifesta, totalmente presente, em todos os pontos do espaço, a todo o instante, no fluxo do perecimento perpétuo e da perpétua renovação. A nossa consciência normal condicionada pela palavra cria um universo de distinções acentuadas, preto ou branco, isto e isso, eu e você e aquele. Na experiência mística de ser um na Oneness existe uma reconciliação de opostos, uma percepção do Não-Individual nas individualidades, uma transcendência das nossas ainda problemáticas relações sujeito-objeto com coisas e pessoas.

           Para um indivíduo em estado de consciência normal a frase ‘Deus é Amor’ não é mais que ‘um pedaço de uma racionalização positiva de um desejo’, mas ‘para a consciência mística é uma verdade em si mesma’, considera.

           ‘Mudanças tecnológicas e demográficas de uma rapidez sem precedentes aumentam paulatinamente os perigos que nos rodeiam, pelo que ‘um treino amplo na arte de derrubar tapumes culturais é agora a mais urgente das necessidades’, defende, antes de se/nos interrogar:

           Pode um treino desse tipo ser acelerado e tornar-se mais efetivo através do uso judicioso dos fisicamente inofensivos psicodélicos hoje disponíveis?

           Como deveriam ser usados os psicodélicos? Em que condições, com que tipo de preparação e acompanhamento?

           Segundo ele, tais questões devem ser respondidas empiricamente, através de uma experiência em larga escala.    

           [N]um mundo com um aumento populacional explosivo, em precipitado avanço tecnológico e de nacionalismo militante, o tempo à nossa disposição é muito limitado. Devemos descobrir, e descobrir muito rapidamente, novas fontes de energia para suplantar a inércia psicológica da nossa sociedade, melhores solventes para dissolver a nossa grudenta tacanhez de um estado mental anacrônico.

           Os indivíduos envolvidos num processo de desenvolvimento do seu potencial psíquico e intelectual com a ajuda de substâncias alteradoras de consciência deveria[m] tornar-se apto[s] a adaptar-se melhor à sua cultura, rejeitando os seus males e o que nela haja de estúpido e irrelevante, aceitando com gratidão todos os tesouros do aprendizado acumulado, de racionalidade, interioridade humana e sabedoria prática. Se o número de tais indivíduos for suficientemente grande, se a sua qualidade for suficientemente alta, eles poderão estar aptos a passar do estágio da perspicaz aceitação da sua cultura para o de uma  perspicaz mudança e reforma.

           Será isto um esperançoso sonho utópico?, pergunta-se/nos Aldous Huxley, para arrematar:

           A experiência poderá dar-nos uma resposta, porque o sonho é pragmático; a hipótese utópica pode ser testada empiricamente. E nestes tempos opressivos uma pequena esperança não é seguramente uma visita indesejada.

 

 

embriaguez extática,  enteogénica - el papel de la ebriedad -particularmente la enteogénica- en el seno de la cultura occidental, sobretodo durante el  siglo XX - el valor de la experiencia  visionaria, el papel que podía jugar en nuestra sociedad tras el  redescubrimiento de los psiquedélicos, los límites y oportunidades que su  empleo ofrecía

 Breve História (do Uso) das Drogas 

   da Antiguidade a Aldous Huxley

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mais detalhes sobre pesquisa e a história do uso de drogas nos últimos 60 anos e a vida e obra de Aldous Huxley estão na webpage revoluciomnibus.com   Huxley na Fome no Mundo e  sobre o uso, legislaçao & consequências no Brasil (com exemplos de outras culturas e na literatura) em  Barrela - A Parada Das Drogas e Prisões 

 

 

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