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                                                                                                                                                     ELOÍSA

                                                                                                                 

                  

                                                                                                                                                                                     OU

                                                                                           A MAIS NOVA

                                                                                                                                                                             HELOÍSA

 

 

         

                                              OU  ELOITH  E  O  DESTINO

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Só a partir dos anos 1990, quando as neurociências progridem de espanto, é que o cérebro começou a deixar de ser a caixa preta em que se montou a indústria da ideia da loucura desde a Era Clássica como Michel Foucault a transdissecou para contestar a cientificidade de sua medicalização e as ideias humanistas de Auguste Pinel e do reformismo institucional da segunda metade do século XIX. 

  conta Frances, a vida verdadeira de uma famosa atriz de Hollywood que trocou as bolas algures entre a origem humilde e o estrelato e acabou sendo lobotomizada e o diabo a 4/8, ou melhor Eloith - o destino de Eloith de Edgar Lessa e Robert Rossen, quando os cães de guarda do Sistema no departamento de higiene mental ainda se arvoravam a Deuses e punham e dispunham dos desajustados - e não há prova mais acachapante do fracasso do modelo de estrutura mental de nossa sociedade que a atribuição do Prêmio Nobel de Medicina ao homem que inventou a lobotomia.

A neurociência vai passo a passo identificando as sendas ao que parece infinitas dessa máquina poderosíssima qual é o cérebro humano enquanto se discute onde ele acaba e começa a mente, se a mente é um órgão ou o quê e se inclusive será o que o vulgo chama ALMA. Uma década do cérebro se sucede a outra decretada pelo Congresso americano e em que as pesquisas sobre o órgão pensante e lo(u)comotiva foram brindadas com uma enormidade de grana e nos encontramos ainda ainda tão longe de conhecer cérebro e  mente quanto os arautos hindus do Mahabarata. Mas o pensamento dominante em nossa era ainda é o da filosofia da resignação e do enquadramento e, se bem que já bastante longe do tempo anterior à era (final dos anos 1950 e os 1960) em que se pôs por terra os argumentos em que a ciência baseou um império de estupidez e cinismo, o direito à diferença ainda é um bem de conquista assaz complicada, mesmo porque a Iluminação tal como é identificada por Aldous Huxley em texto citado por Edgar Lessa, o narrador, quase no final deste relato não se adquire do pé pra mão. 

 

Les hommes sont si nécessairement fous que ce serait être fou par un autre tour de folie de n'être pas fou - Pascal

Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria coisa de louco por um outro sentido de loucura.

Tema complexo como a vida e por isso igualmente fascinante - bicho de 7 cabeças, uma hidra de mil e uma. A loucura existe, não tem cura e não será abolida nem por decreto. Loucura de deficiência física - desequilíbrios dos neurotransmissores com patologia, ou ventrículos maiores que o normal são causa ou efeito da esquizofrenia? - que requer tratamento e acompanhamento, sendo necessário saber qual(is). Mas que tudo se trate em reservas da demência? Que haja talvez clínicas, hospitais... mas asilos  manicômios  hospícios  como os concebidos na Era da Razão Enganosa  e que sobrevivem à pós-modernidade...

E a loucura "mansa" que poderia até nem incomodar ninguém se por um ex-centrismo ou in-centrismo (às vezes) bobo não incomodasse? Onde termina a excentricidade, o mero "desvio" comportamental e começa a insanidade. Não será afinal apenas questão de recursos (financeiros) e meios (intelectuais) - ou mera questão de espaço? Quanta indagação.

Uma das variantes em redor do tema é a asserção do psiquiatra inglês Ronald David Laing no livro The Divided Self / O Eu Dividido (1959) pela qual experiências como a esquizofrenia e o êxtase podem ser uma benção para quem as vive e viver-se sempre no chamado estado normal é que não é normal.

Mudam os tempos - e como - mas certas premissas permanecem intocadas: Qual a vantagem de ajustar e integrar o eu numa cultura que se encontra, ela própria, doente? O que significa ser um nazista bem ajustado? É isso saúde mental? Ou será uma pessoa mal ajustada numa sociedade nazista a única mentalmente sã? - eram indagações expostas por Ken Wilber em A Brief History of Everything em 1996.

Outra variante.

O poeta português do século XX Ângelo de Lima endoidou e foi psiquiatrizado. Ou será que porque foi psiquiatrizado é que endoidou mesmo?

Posso muitas vezes não sentir nem pensar o que digo, mas o que escrevo, sinto-o sempre e sempre o penso - escreveu.

Eu estou doido. Agora é que já não há dúvidas. Se lhe disser o contrário numa carta próxima e se lhe falar como dantes - você não acredite: o Sá-Carneiro está doido. Doidice que pode passear nas ruas - claro. Mas doidice. Assim o Ângelo de Lima - escreveu Mário Sá-Carneiro em carta a Fernando Pessoa. 

Esta webpage compõe-se de trechos de dois capítulos do relato de Edgar Lessa, que por sua vez compõem uma espécie de romance dentro de sua cronistória romanceada, que transcorre a partir do final da primeira metade dos anos 1970, quando Portugal, onde morava, de um país do tamanho dos estados brasileiros do Rio de Janeiro e Espírito Santo juntos que vivia uma vidinha tacanha sob uma ditadura medonha, de repente, não mais que de repente, abriu-se para o mundo, permitindo à juventude local e à que para lá afluía atraída pelo clamor da que ficou conhecida como Revolução dos Cravos viver a que para elas foi uma espécie de versão retardada - ou revista - da chamada Revolução das Flores.

         

    

Hospício de La Salpêtrière, Paris, em gravura do século XVIII

 

 

 

                   

             janela com vista para a contracultura e para a cultura contra natura      

        ciberzine & narrativas de james anhanguera

       

         almanaque das ideias cores e sons do maior movimento de juventude da história

                               da era do rock & da contracultura

                                      o livro do rock   e da contracultura

        um vagalume vagamundo na era do rock e da contracultura

              narrativas em f(r)icçao para tempos mornos

     vida aventureira de um jovem viajante no underground e no bas-fond entre os anos 1960 e 80  

 

Cedo me apercebi de que o remédio era cavalgar o tigre em que montara sem pensar muito no destino, cavalgar só para não ficar parado sobre a fera que a todo instante ameaça me engolir.

...

- Mas vem cá, tá tudo muito careta à nossa volta e os caretas desbundando tanto nas ondas mais vergonhosas que a gente até se retrai.

...

                       divertissement ilustrado, cronistória romanceada, docudrama

       

       

                  Por dentro e por fora em Londres

                   Terra da Dama Eletroacústica

                  Medo, atraso e rock no grotão

                  Era uma vez a revolução  

                  Droga, Loucura e Vagabundagem

                          

                          - Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

 

                             Rumo às ilhas da Utopia  

                             Era uma vez as revoluções

                                                so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

                                   narrativas de rock estrada e assuntos ligados

 

 

 Trechos de   Era uma vez a revoluçã  capítulo 4 de 

                                                                                                                         

 

   

scenas ambientais

 

         prelúdio

 

Paira no ar cada vez mais intenso entre os polos de grupos heterogêneos uma espécie de perfume com forte cheiro de resina, mais e mais nauseabundo à medida que um fulano se aproxima de quem o exala, quase sempre em exagero, chamado patchouli. Uma bicha muito jovem vinda direto do Algarve usa tamancos e os cabelos tipo índio americano muito lisos e até o meio das costas, pintados de hena, com que também pintou as melenas curtas de Joana, ou Joan Crawford, cuja graça maior reside em aparecer quase sempre trocando as pernas, to-tal-men-te louca, a bordo de peças de roupa transformadas em andrajos, ou vice-versa. Quem mais exagera neste particular é o namorado de Joan, Dio, o nosso Diogo Barata, cujos pais e irmãos, se o veem, não acreditam, como eu, que aquele é seu filho até até há pouco tempo um menino ‘bem’ das Avenidas Novas, agora sempre coberto por uma jelaba surrada, como a de Joana, o ar andrajoso de freak. Entre os bandos neo-revolucionários proliferam os freaks, um dos novos termos da moda e, entre estes, um dos mais bizarros é o do algarvio, Dio, Joana e Candy - Candy Darling, de nome próprio André -, ‘irmã’ de Zé Augusto, que fez uma operação ‘na Europa’ para mudar de sexo, um transsexual que adotou o nome da ‘colega’ musa de Andy Warhol e Lou Reed em Walk on the Wild Side, um dos maiores hits do momento.

        Candy, Dio, Joan, o índio algarvio e às vezes Pepe formam a banda mais heterogênea da cena lisboeta, em termos de desbunda – como já se começa a dizer também, numa adaptação da tradução livre do termo freak out, desbunde, de gênero masculino na origem brasileira.

 

        Uma nova indumentária toma finalmente conta das ruas do país, a reproduzir quadros de grupos de qualquer cidade europeia ou norte-americana na segunda metade dos anos 60, que revejo em meu retiro de estudo & reflexão de verão através das lentes de Charles Reich em The Greening of America : jeans fazem com que o indivíduo se torne consciente do seu corpo, chapéu de fora-da-lei do Oeste, uma faixa de índio na cabeça, com presteza mágica, toques de teatro, expressões de um estado de espírito, roupa militar com botões dourados zombando do military Establishment e exprimindo o amor infantil por uniformes e pompa militar, manta de camponês mexicano, chapéu à David Copperfield, botas de várias espécies, roupas de gangsters e mantos de fantasmas da ópera, calças com bocas-de-sino, que exprimem o corpo mas dizem muito mais: dão mais liberdade ao tornozelo, como se convidassem à dança em plena rua - ninguém pode se levar inteiramente a sério usando calças assim -, cinto feito à mão, contas e decorações cosidas nas jeans - toques pessoais à produção em massa. Novas roupas negam importância à hierarquia, posição, autoridade e condição social e rejeitam a competição. 

         Só não se recuperou o sinal da paz...

 

 

 

 

 

 

Quase ninguém do cada vez mais vasto círculo de relações de Ed fora da rotina de até aqui toma álcool em excesso, a maioria nem tem o hábito de beber e a droga que consome limita-se ao haxe do Marrocos e o LSD que chega da Europa com os refratários e desertores que retornam. Há LSD além da conta e cada vez mais marijuana, porque quando o exército português, em respeito à letra do programa do Movimento das Forças Armadas, cessa as hostilidades, em Angola os três movimentos de libertação começam a guerrear-se e em Moçambique alguns colonos se armam para resistir, as coisas andam mal paradas, quem pode ou não vê meios de subsistir começa a voltar para a terrinha e os filhos dos tugas transportam boas quantidades da melhor erva. Um dos efeitos mais estupefacientes do 25 é o do chamado boi-cola, vindo da região de Chongoroi, na província de Benguela, no sudoeste de Angola. Basta uma tragadinha e o sujeito sente como que uma sucessão de fortes espasmos na cabeça e os olhos flamejantes, em mim há uma quase paranoia de olhar nos olhos de alguém não vá ver nos olhos do outro a imagem acabada de sua nudez total e qualquer coisa que se diga faz o grupo explodir em risos. Como se a coisa abrisse perspectivas/janelas para o lado mais divertido da vida. A primeira tragada numa mistura de haxe com tabaco dá uma espécie de vertigem, calafrio, antes de mergulhar corpo e cérebro num torpor que torna mais compreensível a langorosidade das melopéias árabes, provocando um quadro de serena introspecção. De início o boi mais forte dá a sensação de um turbilhão caótico. O ácido transporta a viagens cósmicas, como os manuais sobre a matéria que consultei avidamente falam de sobejo. Por (de)formação, desconfio dos ensaios pseudo-científicos que falam de gente pulando da janela sob o efeito de ácido lisérgico, atribuindo tais atos exclusivamente à droga.

 

 

 

   Numa noite como qualquer outra Dora recolhe 150 escudos de quem queira tripar. Há-os para todos os gostos - pingos, purple haze, sunshine, windowpane, pink - enfim, todo um caleidoscópio de partículas da substância misturada com speed para manter o sujeito bem acordado nas oito horas (ou 18!...) em que deverá durar o efeito. Alguns são só speed, como se comenta entre expressões de desgosto. De outros se diz que são só estrica, termo da nova gíria com que se quer dizer que o ácido é marado (estragado), composto só de... estricnina!

   Esta é noite de pink. Um grupo de marmanjos, após a subida, decide apagar as luzes, alguns deitam-se no chão ouvindo música, umas dezenas de LPs alinhados no chão ao lado do aparelho de som.

   Quem chega anicha-se onde dá. Chega JCP, já tocado, toma um acê e não se conforma com a pasmaceira. Começa a tergiversar no seu estilo delírico-poético, a reclamar das brasileiradas, certamente preferiria um be ou hard bop ou cooljazzito, e ainda por cima tudo calado como num enterro. Ô, acorda cambada! Dá um pontapé num ou em outro aqui e ali, um ou outro ri. Ri-se das suas boutades. Acerca-se da janela e ameaça atirar-se dela abaixo. Silêncio total, porque o disco chegou ao fim e por consenso tácito está-se a tirar um sarro. Saltará ou não? Srá que enfim se confirmará o mito dos pássaros tripadores? Suspense de frio na barriga, porque o homem é capaz de tudo. Dois passos no chão de tábua corrida da sala aliviam a tensão.

   - Então, se se vai ficar assim, tudo aminhocado nas suas viagens in... ter... ga... lá... ti... cas... Tem piada... Sabem o que mais, vou mas é pisgar-me que isto aqui não rende nada.

 

   Passos lentos até a porta. Barulho do trinco e da porta abrindo e batendo com estrondo. Três passos até o primeiro degrau da escada de madeira. Um, dois, três degraus vencidos, quem sabe no escuro porque não teve paciência de acender a luz, e catrapuz-puz-puz-pam-pum, enrola-se escada abaixo até o fim do primeiro trecho e um sonoro que merda!

   A sala explode em gargalhada.

 

   Noite vencida após muito rock, sai um grupo de oito marmanjos e marmanjas. Muriel e Sabrina, a sua irmã gêmea, de saias longas e rodadas multicoloridas, de cigana. Dora de chapéu de feltro de abas largas. Caio despiu sua bela túnica marroquina, que me cedeu, em manso delírio no meio de uma gangue tão bizarra, Pepe de camiseta lilás e calças pretas, outro todo de verde escuro e chapéu preto de abas largas redondas, o conjunto saído de Blow Up ou de antigos jornais de atualidades mostrando as estroinices do pessoal em Haight-Ashbury, clima interior e em volta do grupo da era flower power, um olhando para o outro de vez em quando com a boca arreganhada e olhos cozidos da noite insone e alucinógena, sem besteiras, descendo a cinzenta Ave Almirante Reis que numa representação de aparente normalidade reproduz a cena matutina de qualquer cidade, com gente na maioria mal vestida em filas de bonde e ônibus com ar de sono ou correndo para não perder o transporte e chegar atrasada ao trabalho. Se Bakunin estivesse cobrindo também este ‘outro lado’ da revolução (a revolução das flores portuguesa, anos depois da outra, talvez em círculos muito mais restritos), entre um flash mais eufórico e outro em slow motion a trilha sonora alternaria I See You e Get To You  dos Byrds de 66-67.

 

 

 

 

   O grupo decide escalar Alfama até o Castelo de São Jorge, que atinge em tempo recorde, porque enquanto se anda os pensamentos se sucedem em catadupa, apagando qualquer sinal de interregno na passagem do tempo, como as nuvens parecem passar a velocidade supersônica, e eu, Jimi, Caio, Pepe e Mama Cass já nos vemos no trem para Sintra, viagem inaugural de nova fase da minha vida. Escalamos a serra da estação ao ponto mais alto do Castelo dos Mouros com um pé nas costas, contemplando na tarde esplêndida a planície até Palmela, para sul, o Cacém, em frente, e Mafra, a norte. Dos jardim suspensos dos sarracenos a viagem histórica baixando e a fome apertando decidimos nos sentar na esplanada do Café Central onde nos vemos degustando um lauto chá com travesseiros, queijadas, fios d’ovos e nozes – entre todos, pouco mais que o dinheiro para o trem de volta e a sacrossanta pergunta no final: o que fazer? Dar no pé? Como, se daqui até a curva da rua ali embaixo vai uma distância intergalática?

   - Já sei – ilumina-se Mama Cass. – Tenho um cheque, não tenho cobertura no banco mas não há problema. Abre aspas, pago, fecha aspas, eu.

   É o primeiro cheque voador da minha vida.

    O speed do ácido ainda a fazê-lo carburar em pleno o quarteto abala para o Sebastião, como é mais conhecido o Bonaparte, primeiro bistrô alternativo em Alfama de que tive notícia, desde os últimos meses antes do 25, e onde devido ao alto teor alcoólico do organismo, certa madrugada, após uma meia-noite de cinefilia no Londres JCP tropeçou numa das tábuas da pequena ponte por onde se entra e caiu no pequeno lago embaixo, um achado do local, onde sempre se encontra boa parte da fauna notívaga de lumpen e artistas entre umas garfadas no bom espaguete com almôndegas acompanhado de refrigerantes (Caio, que não toca em álcool), um tinto alentejano ou um uísque, tudo nos conformes graças aos auspícios do dono da casa, ao que se diz um militante da LUAR regressado das Bélgicas ainda antes do reviralho, onde ‘padeceu’ no exílio.

 

   Caio – e o brasileiro ri de uma boa risada ao usar a expressão, familiar aos seus ouvidos desde o início da carreira em Santos – tem conta aberta, pode pendurar mais esta no prego, e assim a gangue fica jantada. Ao som, como sempre, de Georges Brassens: mourrir pour des idées, oui... mais de mort lente, oui... mais de mort len-en-en-en-te.

 

 

    

   A vida happening constante, para cair em lugar comum tipo slogan publicitário. Tudo parece absolutamente normal. No verão de 74 o Chiado recebe contributo extra de animação com a presença dos Dzi Croquetes, uma trupe de dançarinos criada pelo coreógrafo americano Lennie Dale que após explodir nas boates da Zona Sul do Rio e em São Paulo fez temporada de enorme sucesso em Paris graças aos auspícios de Liza Minelli, amiga do dançarino. Lennie, que dera um importante contributo à cena musical brasileira como produtor e encenador no período áureo da bossa nova, decidiu despir-se de pruridos e desbundar, criando no que começa a ser visto como o país da diversidade sexual um espetáculo de travestis meio underground, com muitas plumas e paetês. Sem Lennie, os Dzi estacionam em Lisboa para apresentar-se numa casa de shows em má hora aberta no Campo Grande, porque em plena Revolução dos Cravos O SHOW ESTÁ NAS RUAS. Hospedam-se num hotel no Largo Camões, onde à tarde, à medida que se levantam, promovem um frenético vai e vem entre os quartos que talvez por estratégia de marketing servem de camarins, de onde os personagens, quais loucas desabridas saídas de uma gaiola, desfilam Chiado e Rua do Carmo abaixo até o Rossio, onde pegam o metrô dando aquele show. Agitação marxista à parte Lisboa apenas começa a tirar os espartilhos de sociedade encerrada numa moral hipócrita e excessivamente provinciana – o pequeno universo provinciano entre os astros de Álvaro de Campos -, com tudo o que é associável a pecado e transgressão camuflado por muros de moral católico-pequeno-burguesa, formatada por papas do falso moralismo como os Antônios Salazar e cardeal Cerejeira, figura sinistra felliniana crescida à sombra do ditador e uma espécie de seu braço direito no que se relacionava à preservação dos chamados moral & bons costumes. O desfile das Dzi Croquetes Chiado abaixo todos os dias tem o efeito de um cortejo de carnaval do Rio de Janeiro até os anos 60 no dia a dia da região. O samba apenas na cabeça, aquelas loucas de plumas e paetês suscitando risos de um misto de embaraço e extroversão a fórceps entre artistas e intelectuais que por lá param ou passam e olhares de espanto e reprovação dos cidadãos comuns. O substrato gay da sociedade portuguesa extrapola da penumbra d’A Brasileira, onde encontra refúgio.

 

    O simples fato de usar uma bolsa de couro a tiracolo debaixo dos caracóis que encobrem a alça sobre os ombros e um par de pantalonas de cotelê azul-turquesa me dá ar andrógino que, por provocação, decido acentuar. Seco e alto como um bambu sou muitas vezes surpreendido por olhares de admiração quando, n’A Brasileira, as pernas cruzadas, empunho um dos poucos cigarros que fumo com minha grande mão ossuda espalmada ou gesticulando em desmunhecamento,  associável à bichice. Pouco a pouco, talvez porque o meu biotipo se sobreponha ao resto, mas também pelas informações colhidas em múltiplas e diversificadas fontes que me alimentam, desenvolvi um tipo de ideal amoroso em que a relação tem de basear-se em parâmetros absolutamente diversos dos vigentes, heranças de minhas premissas hippies, não ia querer formar família e se por alguma insanidade a formasse não seria baseada em padrões clássicos, do tipo machão autoritário, não tendo – e isso é bastante claro em minha mente – tendências homossexuais, a androginia refletida e extrapolada no cabelo e na roupa é entretanto reflexo da consciência de que é imperioso se orientar com uma nova mentalidade. Se oriente, rapaz...

     E isso está longe de ser claro para os outros. Um dos aspectos postos em destaque pela contracultura: cultivar a doçura feminina entre machos num esforço deliberado de minar a masculinidade crua e compulsiva, o que para já por aqui passa simplesmente por bichice.

     Caio carrega nas tintas da provocação. Beijo na boca entre homens é coisa que não se usa em público desde a Idade Média, quando segundo estudiosos era gesto eminentemente masculino, que servia até para selar tratados de paz e alianças de guerra. Beijar-se na boca com um (mais ou menos) leve toque nos lábios recomeça a ser hábito em todo o Ocidente civilizado, não ainda aqui, onde porém Caio o comete por provocação, quando uma e outra vez nos encontramos à porta d’A Brasileira e, tendo em atenção eventuais reações da malta heterogênea lá dentro – olha aquele ali se roendo de inveja –, fica de propósito me acariciando os pulsos e os fios de couro e fitas que uso no braço esquerdo.

     Balançar – e rebolar, então, premissa básica no rock – os quadris é algo inimaginável. Luca Sussuarana me dá um toque no sentido oposto, me fazendo ver como em poucos anos de Europa perdi o rebolado ao tentar sambar. Pudera!

 

 

 

resumo do story board  

 

Uma noite de dezembro, equipado com o seu novo casacão de lã de largas listras marrons e beges cobrindo-lhe os quadris, muito andrógino por sinal, Edgar sai do cinema para um encontro com JCP no Convés, onde é apresentado a uma nova namorada do amigo. Muito jovem, cabelo curto dividido ao meio, óculos ovais sobre olhos azuis cintilantes, sem maiores atrativos além deles e da graça juvenil, vista assim sentada, ao contrário, um queixo muito pronunciado e os lábios finos decompõem a face interessante de ar pseudo-intelectual. Há um plim-que-plim de cintilação sensorial dela em relação a Ed, que de caras nota que ela se agrada de tudo o que ele diz ou faz, e ri às bandeiras despregadas quando ele, sempre desastrado,faz com que a cadeira de arame se estatele no fundo da escada de acesso ao snack. Estuda cinema no Conservatório e não sabe ainda o que fazer na Sétima Arte. Talvez montagem, hipnotiza.

     Ali mesmo combinam passar o reveillon sem alarde no Alto de Santo Amaro em casa de Manuel Deleuze-Guattari, um colega de JCP no Século que se encontra com frequência bastante bebido ‘nas noites’. 

 

     Lá está de novo a namorada do amigo, que como uma criança parece maravilhar-se com qualquer coisa que ele faz e nessa noite ele está com a corda toda. Animado pelo olhar de incentivo da pequena e da pequena plateia, de uma meia dúzia de pessoas, além dos eflúvios do fumo e do álcool, ele mima Billie Holiday e Nana Caymmi cantando o samba-canção Mentiras, de João Donato, jogando com os movimentos projetados como sombras chinesas na parede ao lado das luzes azuis da ponte sobre o Tejo. É uma manhã cinzenta, a primeira de 1975, quando se retira com JCP e a namorada para a Cruz Quebrada, onde ele mora.

     Dorme numa cama improvisada no chão da saleta. Acorda sentindo uma pressão de pernas lisas deslizando até se encaixarem entre as suas. Olha de baixo para cima e a vê a um palmo sorrindo. Ela enfia um braço sob o seu pescoço e lhe beija o rosto. Ele também a beija pronto para a festa mas ela diz-lhe que durma e é o que ele faz.

     Durmo numa cama improvisada no chão da saleta quando acordo sentindo uma pressão de pernas carnudas e lisas deslizando pelas minhas.

     - Sou eu – responde a dona das pernas entre risos à pergunta muda do hóspede estremunhado.

     Enfia uma perna entre as minhas e continua rindo enquanto mete um braço sob o meu pescoço e beija o meu rosto. Beijo-a, mas ela ordena-me que durma e assim o faço.

     Ao acordar no início da tarde vão a uma cervejaria em Santo Amaro onde combinaram almoçar com Deleuze-Guattari, que saúda o enlace com olhos flamejantes de pouco sono e ressaca.

     Depois do almoço sobem ao Alto. O apartamento de Guattari é do tipo pequeno-burguês funcional: quarto, banheiro, cozinha, sala com sofás de madeira e almofadões, um aparelho de som Philips semiportátil e uma caixa de dez discos com uma coleção da Verve com big bands, be-bop e cool jazz. Deleuze-Guattari é da mesma geração de JCP e um dos homens mais desleixados que existem, do tipo que usa sapatos sem meias só pela incapacidade de encontrá-las no meio da barulheira da ressaca, que é incapaz de por o cinto na presilha e a camisa arrumada debaixo das calças, de modo que um dos seus tiques é o de estar sempre, debalde, tentando arrumá-las, além de babar-se todo quando come e, se já bebeu muito, ao ouvir uma tirada espirituosa ou uma piada, expelir a comida da boca em jatos que põem em risco e causam a maior repulsa a quem está em volta. Mas os olhos doces e os gestos e atitudes o mais das vezes delicados, ao contrário dos bêbados comuns, inspiram muita ternura a Ed, que por nojo hesita muito antes de topar ou não comer alguma coisa com ele, que diz ao chegarem:

     - Se não têm onde ficar, podem acampar aqui em casa. Não me chateia nada, pelo contrário, podem até me fazer um pouco de companhia e me ajudar à noite, porque por causa da merda da guerra tenho pesadelos terríveis e é ruim ficar sozinho.

     A vista da ponte iluminada, Bill Evans e amor. Alguma coisa mais para a plenitude? Pão, presunto cozido, requeijão, ovos, fruta e sopa Knorr.

     Eloísa sem agá, como ela sempre sublinha rindo, Jean Seberg à bout de souffle: blue jeans meio coçadas e muito apertadas, camisas de todo o tipo, desde blusas decotadas em arco de ombro a ombro a batas indianas sem gola ou do tipo das que ainda usam as velhas senhoras do interior, com manga a três quartos, e às de homem, minhas, que usa por dentro ou por fora das bluejeans com sapatos de camurça masculinos, pulôveres, um blazer de veludo preto e outro de bluejeans. O toque feminino, além de certas blusas, é dado por lenços e foulards que amarra ao pescoço ou deixa abertos caindo sobre o peito. A sua bolsa de veludo preto, ornada com lantejoulas, é pouco maior que um porta-moedas.

     Eloísa sem perfume. Sem cheiros fortes. Gamine de filme de Robert Bresson. Amadora. Quatro Noites de um Sonhador. Quarenta noites. Quase trezentas. Na cidade, na praia, na montanha. Nem bonita nem feia. Os olhos às vezes azuis, outras verdes, às vezes cinza, pelos óculos ovais de lentes poderosas expressam um estado de espírito quase sempre brilhante, às vezes faiscantes. Seus quadris e bumbum largos e as coxas grossas dão ao corpo movimentos sinuosos de chama sensual que acentuam uma feminilidade em aparência encoberta pelos cabelos lisos quase sempre muito curtos e porque só usa calças jeans. Tem uma atitude altiva, sublinhada pelo peito inflado e os ombros sempre arqueados para trás.

 

     Nada como os primeiros dias de enamoramento. Ed leva uma mão-cheia de discos para alternar com Parker, Miles, Dizzy, Evans, além de uma erva poderosíssima, que faz com que os sons de guitarra elástica da terra da dama elétrica se estiquem do núcleo às bordas de todo o espectro da emissão dos seus sons de espaço sideral ou do centro da terra que também são fruto do efeito alucinógeno da danada.

     As luzes púrpura dos vértices da ponte piscam mesmo quando, deitados sobre as grandes almofadas quadradas do sofá postas sobre o chão, eles se amam unindo-se como em enlace mais-que-perfeito, o encantamento turbinando o desejo carnal, o fumo levando o êxtase ao paroxismo e vice-versa. Findo o amor riem com a paródia de Zappa ao sonho-pesadelo hippie na saga de Billy the Mountain e da macieira Ethel que cresce no seu ombro pela estrada fora, deixam-se enlevar pelas ondas eletromagnéticas de Voodoo Child e embrenham-se nas malhas harmônicas e melódicas de For The Roses de Joni Mitchell. Para tomar banho e cozinhar, Stormy Weather, Smoke Gets In Your Eyes e The Great Pretender por The Platters e The Best Of Chuck Berry. Flashback a vinte anos antes, quando ainda mal engatinhavam.

     Passa uma semana em que só descem a Santo Amaro para comprar comida. Delgá, como o começam a chamar, para pouco em casa. Acorda tarde, toma banho e sai para o jornal, onde o tempo se divide entre trabalho e muita agitação. Os trabalhadores da SNT e da ENP, que publica o Diário de Notícias, exigem a nacionalização. Não o ouvem chegar à noite porque vai para a boemia, exceto uma vez, em que partilha da comida dos pombinhos e retira-se cedo para dormir, porque está estafado do acúmulo de lides diurnas e noturnas.

     Os hóspedes ficam arrulhando até que ouvem gritos angustiados vindos do quarto.

 

 

Eloísa deixou a casa dos pais há dois meses. Vive num quarto alugado num apartamento de uma italiana sua professora de montagem na Escola de Cinema, que é divorciada e tem um filho pequeno, em Benfica. Um pôster de La Fiumana, imagem acabada do realismo em que parece que a massa humana vem nos atropelar e emblema-clichê das esquerdas em cartaz, preenche o único espaço deixado livre pelas estantes de livros no quarto da hóspede.

Decidem sair da casa de Santo Amaro para deixar o amigo mais à vontade com o seu trauma, que não admite ajuda.

Passam a fazer vida de cigano. Encontram-se, vão até a casa dele, que desde a inesperada partida de Jimi passou a dividir com um primo para reduzir a despesa com o aluguel, e se intimida, e daí saem para visitar e se der pernoitar em casas de amigos, ou vice-versa.

Na casa da rua de Bissau, um ramo tardio da célula da Cidade da Praia, que parece já desmembrada, Maurício Costa Leite, ex-marido de Flora, lhe revela sob outra luz um velho jogo de ciganas que se tornou mais uma faceta de uma subcultura emergente, a quiromancia. Ao ler suas mãos diz que o romance não vai durar muito e que pela linha da vida de nascença ele vai morrer cedo.

     JCP passou a casa da Cruz Quebrada a Júlio Andrade, um colega do Século, que lá se instalou no início do ano com um casal de amigos chilenos exilados. Mas diz-se que ele é  informador dos esbirros de Pinochet. De todo o modo em casa de Júlio só se ouve Victor Jara e sobre o seu martírio no Estádio Nacional de Santiago.

clearlight

   

   Logo há muita festa no local. Mais uma vez Dora fica de arrumar ácidos. Chega perto da meia-noite, quando um grande grupo de pessoas já se desespera de esperar. É um clearlight que, após a subida com Sticky Fingers dos Stones, com uma pequena ajuda de um marroquino do bom, faz com que a dodecacofonia e o transe elétrico de Hendrix em Electric Lady pareçam excessivos, a ponto de ser substituído por Bananamour de Kevin Ayers, antes de os chilenos levarem a sua avante e porem Victor Jara, que é muito bom, mas pra tripar... um pouco triste, não? – argumenta Ed cheio de dedos.

      A dado ponto, os convivas sentados em círculo, Edgar sente que entrou numa onda telepática. Entre o sério e a brincadeira decide não pensar em nada de eventualmente comprometedor em relação a ele mesmo e a quem se senta em volta para não ‘revelar’ os sentimentos mais íntimos com os olhos... ou o pensamento. É o ácido mais forte que tomou. De manhã parte do grupo sai no SAAB de Dora pela Marginal na senda de Sintra.

  of theof the void void

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

clearlight  of the void 

 

 

 

    Por alturas da Parede ele se sente dentro de um bólide, e a cada curva da Marginal, vendo o mar entre os buracos da mureta de proteção da calçada, pensa que irão mergulhar, reemergir, escalar os Andes como uma aeronave e descer até o Pacífico, que nunca viu – quem sabe influência de suas divagações em torno da hipótese de voltar para a América do Sul, talvez do clima chileno na casa de Júlio.

     

 

      

 

De novo em casa de Val, Eloísa começa a dar sinais de descontrole. Diz que tudo está errado. Viajar? – pergunta-lhe Ed. - Não, a nossa relação. Não faz sentido algum continuarmos juntos. - Como não? Até agora estava tudo tão bem! – contra-argumenta ele, que logo desatina com o bringdown, quem sabe nela fruto do enfraquecimento do efeito do speed, o mesmo da queda da efedrina do Lipo-Perdur, que tomamos umas duas vezes graças aos bons auspícios do Bom Gigante, um amigo viciado em anfetamina porque lhe faz perder peso.  

     Eloísa sem H – a novíssima Heloísa? - quer ir para casa sozinha, um corte do cão. Quer porque quer e, sendo mulher, pode. Pegam um táxi e vão, ele já vendo o belo romance a ir pra cucuias e uma hora depois ainda se vendo, qual Romeu, batendo na sua janela de térreo pedindo explicações. Ela se desculpa com o ar mais tranquilizador do mundo dizendo que talvez tivesse se precipitado, que está é muito cansada e quer dormir. Horas depois telefona dizendo que não foi nada, só um desatino, esquece tudo o que eu disse, uma tolice Que ácido! -, onde é que nos encontramos? O primeiro ácido de Eloísa...

Vão ao Universal assistir Os Fuzis, de Ruy Guerra, tido como um marco do cinema novo brasileiro. Para a crítica, caso raro de misto de grande porre e obra-prima. Esperando o início da sessão compram na taberna em frente uma garrafa de amêndoa amarga para esquentar. Quando o filme começa já ela vai a meio. Um grupo de soldados corre num descampado armado de espingardas e a partir dali ele não se lembra de mais nada. Acorda com Eloísa cutucando o seu braço e esfregando o olho. Dormiu também. Tomam mais uns goles de amêndoa amarga e saem, chateados por não saberem quando irão ter nova oportunidade de ver o filme. Dois dias depois, parece bruxedo, voltam ao Universal em maratona de retrospectiva dos cinemas novos para ver Numéro Deux, de Godard, que não os deixa dormir. Mas no dia seguinte saem a meio de Der Leone Have Sept Cabezas, de Glauber Rocha, um xarope pseudo-marxista sem pés nem cabeça com Jean-Pierre Léaud num dos seus papéis mais ridículos, em todos os sentidos, entre tantos papéis ridículos mas geniais que fez, sobretudo com Truffaut.

 

A esta altura Ivan está morando sozinho na casa de uma tia. Dividiu por pouco tempo o apartamento de dois quartos ao lado do Instituto Superior Técnico, a escola de engenharia da Universidade de Lisboa e um monumento da arquitetura fascista portuguesa, com um casal de primos malucos retornados de Moçambique que decidiu ir morar em outra casa da família em Algés. Sentado no confortável sofá da sala típica de um apartamento de classe média, em frente de uma mesinha de laca assente numa armação de madeira de abrir e fechar, Ivan enrola um baseado. De banana do Malawi!

- Banana do Malawi?! Mas o que é isso?!

- Boi do Malawi. Os tipos de Lourenço Marques costumam subir o litoral - não imaginas, uma viagem fantástica, com praias maravilhosas - e vão lá comprar deste boi, que os gajos lá colhem, metem em cascas de banana, depois passam meticulosamente, linha a linha, um cordel em volta da banana, tás a ver aqui, ó, já deteriorado, cordel, casca, boi, fuma-se isto tudo, e enterram por uma lua. O resultado é esta bomba que ora vos apresento.   – na primeira tragada e, cena seguinte, enquanto escutam Amon Düul II e Can, deutsche rock, Ivan os convida para ficarem lá em casa com ele, podem dormir no quarto da minha tia, venham ver, ótima cama de casal, estão a ver?, ótima vista pro Técnico aqui da varanda, olhem só, eu fico aqui ao lado, venham ver, um quarto todo em pantanas, em que só há um pouco de ordem numa estante com alguns exemplares da melhor literatura juvenil, o único problema é que se alguém da minha família sabe que vocês estão morando aqui vou meter-me num sarilho danado, portanto vocês não podem abrir a porta a ninguém e só atendem aos meus telefonemas, que podemos fazer identificar por um código, dou três toques, desligo, três toques de novo e à terceira vocês atendem, ok?

E de entrada propõe ménage à trois ou partouze. A dinamite, o espírito corrosivo, arrasador, a cabecinha chocando loucuras, numa ‘proposta indecente’.

- Não! – rebate Ed de primeira. - Estou plenamente de acordo com Marcuse quando diz que a família está na origem de todos os males sociais mas longe de mim querer teorizar sobre isso, certo é que no íntimo penso que também essa revolução poderá bem passar sem mim.

     - Não levem a mal – retrai-se.

     - Não! Imagina...

 

Não é rara a manhã de primavera antecipada em que arrumamos a casa ouvindo o disco Legal, de Gal Costa. Quase todos os dias passam manifestações em frente ao Técnico indo ou vindo do Ministério do Trabalho, na Praça de Londres, enquanto por incrível coincidência Gal comenta em canção de antes do recrudescimento da ditadura brasileira:

 

                                  Coisa linda nesse mundo

                            é sair por um segundo

                            e te encontrar por aí

                            e ficar sem compromisso

                            pra fazer festa ou comício

                            com você perto de mim

 

 

 

 

Bananas do Malawi, zero-zero de Marrocos, Fourth da Soft Machine, Amon Düul, Can, Magma, Brian Eno integral pós-Roxy Music com Taking Tiger Mountain (By Strategy) e Here Come The Warm Jets, Kevin Ayers, Eric Clapton de 161 Ocean Boulevard, Peter Tosh de Legalize It, de Santana Borboleta, Lou Reed em Sally Can’t Dance, Velvet Underground e, voilà, para ele quase insuportável mas estamos em democracia, Genesis e The Lamb Lies Down On Broadway e Supertramp, Crime of the Century, mais Bob Dylan Blonde on Blonde, um excelente Nat King Cole da tia, Dinner For One Please, James, e um não menos bom EP de Agostinho dos Santos, talvez a melhor voz masculina do Brasil. A noite está tão fria, chove lá fora, e esta saudade enjoada não vai embora....

 

 

 

Ivan chega da rádio após a meia-noite, quando depois de um ménage a dois absolutamente tranquilo, às vezes um cineminha ao início da noite, rola festa a três, bem entendido, os três no sofá face à mesa de laca onde se confecciona um e outro, mais a vitrola portátil que para mim é também objeto de trabalho, curtição, em troca de ideias, tu cá tu lá, até altíssimas madrugadas.

 

 

  
 

scenas ambientais

Desde o verão de estudo & reflexão após a perda dos empregos penso em até que ponto todos os que usam drogas sofrem alguma espécie de mutação, como ainda acreditava até há pouco tempo, passando a ser mais abertos, ilustrados, divertidos, sapientes que os chamados caretas, que quando armados em intelectuais, sobre o fato de serem quadrados demais, têm ainda o condão de me irritar com sua atitude neo-marxista, que de neo não tem nada, ainda lá no século XIX. Mas ao que me está parecendo o grosso dessa fauna, além de ingênua, não entende nada de nada, adota novos padrões estéticos como fantasias loucas e ocas numa festa pela festa. O que mais me irrita é o pessoal que ao ser apresentado já vem com a pergunta de que signo és, tomando a resposta como um cabide para lançar uma cantada ao ego alheio como ah, legal, damo-nos muito bem! - como damo-nos muito bem se nem comecei a conhecer-te?!

     É quando, na intimidade, começo a descartar-me do jovem tímido também porque consciente das próprias limitações. Sem um pouco de Freud passei os olhos pelo álbum de ícones colecionados por Jung enquanto desenhava o mapa dos arquétipos do inconsciente coletivo, li já algum Wilhelm Reich, Laing e David Cooper, folheei Castañeda, que nunca me atraiu especialmente, empinei à força um ou outro Hesse, estudei A Origem da Tragédia e Gaia Ciência mas não consigo gramar Assim Falou Zaratustra, porque até aqui sem muita paciência para aforismos, li muito a custo alguns manuais ou discursos semi-clandestinos de uma meia dúzia de marxistas, importante para me posicionar face aos ventos que sopram, folheei Alan Watts e D.T. Suzuki para ter melhor ideia da chamada filosofia zen, impulsionado por Kerouac, descartei de entrada e para sempre a terceira visão de Lobsang Rampa, li O Despertar dos Mágicos mas evitei bisar com Carta aos Jovens Felizes e Que Têm Boas Razões De o Ser, inteirei-me por Ouspensky dos princípios de Gurdjieff, li O Mistério das Catedrais de Fulcanelli numa edição da Alianza Editorial e tudo o que me chegou às mãos de publicações mais ou menos underground inglesas, americanas e canadenses com informações e divagações sobre todas as matérias da chamada contracultura, que pretende meter a colher em tudo, menos política tradicional, ou só para cutucá-la com vara curta, graças a Deus. Enfim, ao menos em algumas matérias passei a achar que já posso ditar sentenças e finalmente as dito, o que não faz muita diferença porque no meio de toda essa loucura sou apenas mais um doido com ideias fuleiras. O tempo todo folheando o que me cai nas mãos e tomando nota desenfreadamente para pretensamente situar-me acima da massa de baratas e carneiros.

Erros de avaliação de coisas e pessoas não têm peso algum porque temos uma vida inteira pela frente e já se sabe que ela tem muitas paradas. As pessoas chegam, ficam por um pouco mais ou menos tempo e se despedem deixando sempre a expectativa do reencontro, que poderá nunca acontecer. Não importa. Outros chegam e a cena muda.

Como canta Eno com muita frequência das pequenas caixas de som da casa, comentando o que aqui se passa:

People come and go

And forget to close the door

And leave their strains and

cigarettes

Straggled on the floor

And when they do

Remember me, remember me

 

Some of them are old

Some of them are new

Some of them  will tune-up

When you least expect them to

And when they do

Remember  me, remember  me

Gente entra e sai

Se esquece de fechar a porta

E deixa suas tensões e

cigarros

Espalhados pelo chão

E ao fazê-lo

Lembram-se de mim

 

Alguns são velhos

Alguns são novos

Alguns irão sintonizá-lo

Quando menos o esperar

E ao fazê-lo 

Lembram-se de mim

     Nem pensar em buscar entender aqui e agora a essência de Ivan ou de qualquer dos personagens porque por um lado a ordem das coisas no cotidiano para quem vive como nós, estudantes, liberais, anda muito alterada e seguramente não temos padrões para nos orientar e por outro lado todos se conhecem há muito pouco tempo para saber algo mais dos outros, cidadãos de passagem. Os condicionalismos externos são predominantes, tudo depende do puxa e empurra nos gabinetes, na caserna e nas ruas. Não se pode atingir o pomo de nada nem ninguém. Sem se saber como desenvolve o seu trabalho, porque não há aparelho de rádio em casa, o que predomina em Ivan é uma faceta exorbitante, mas ser exorbitante hoje em dia, como be young, gifted and black, ser jovem, prendado e negro - it’s where it’s at, é que é a onda, como costumo entoar de gozação, arremedando Nina Simone num dos primeiros sucessos americanos em ritmo de ska, pré-reggae. Dá ar de performance a tudo e como o Lawrence Maxwell de Anaïs Nin parece encarar a vida como uma piada e desempenha os papéis a ele designados dando a entender poder ser ao mesmo tempo conselheiro, hospedeiro, helper, confidente, embaixador, entremetteur, companheiro.

     Em delírio diz que por parte da mãe é da melhor linhagem aristocrática negra, descendente de Gungunhana, o maior herói da resistência ao jugo português na África. Circulando entre uma casta lisboeta a modos que aristocrática é vê-lo uma vez remeter a origem mais remota às cortes do grande império do Monomotapa!

 

Primavera de 1975. É mais uma fase muito quente nos bastidores políticos - de Lisboa a Washington, pelos aparelhos de telefone e telex da embaixada americana na capital portuguesa - e nas ruas, e nas artes um jogo de puxa-e-empurra provocado pela influência do PC nas regras do jogo, querendo por tudo e por nada impor a linha neo-neorrealista soviética, e para Ed um dos jornais com que colabora faz corpo mole ou de conta que não está nem aí... e está é a fim de sobreviver.

 

                                 Foto: F. Moura Machado

  Na mesa de jantar – nunca usada para esse fim - está sempre aberta uma Olivetti Lettera 32 que Ed usa para escrever artigos e Ivan para ensaiar poesias e em que montam um resumo do story board, que começa com o texto da notícia a ser impressa na primeira página do jornal, pretexto para falar de Sintra e do encanto que ela exerce sobre eles. Descrição de shots, movimentos de câmera: campo e contracampo, zoom, zoom invertido, travelings. Em pleno laboratório, a engendrar o roteiro, máquina de escrever, canetas, papel, tesoura, cola –, um traveling da figura de Pepe para o Castelo dos Mouros e estoura o primeiro som do filme além do da voz do jornaleiro, o baixo e a bateria da entrada de Walk on the Wild Side, antes de entrar um quadro tirado de uma aventura de Mickey aterrissando no Rio de Janeiro. Na aldeia global outros modos de visão da existência humana totalmente ignorados. Como em True Hallucinations, de Terence McKenna, exatamente aqui e agora há um universo enorme de inteligência ativa que é transhumana, hiperdimensional e extremamente alien. Brinquedo.

   scenas ambientais

No refúgio de casa, de onde só saímos para comprar víveres, ir à praia na Costa, ao cinema ou visitar um casal de amigos que mora do outro lado do Técnico, uma antiga colega de ginásio de Eloísa, Leda, e seu namorado, Lauro Cavalcante, estudantes de arquitetura, nem nos apercebemos do grau de ‘intoxicação’/alucinação das respectivas cabeças empedradas. Passo um dia calmamente escrevendo um artigo para o Sempre Fixe entre uma interrupção e outra para tomar banho, comer alguma coisa e dar umas baforadas no boi do Malawi que continua em circulação. Apesar dos pesares – ou quem sabe em função deles – consigo acabar o artigo e me visto para sair. Via de regra quando fumo apenas tomo notas para escrever ‘careta’, ou no mínimo não tão alucinado, porque é impossível manter o fio à meada num discurso lógico-cartesiano.

      Desço de elevador e abro a porta da rua, apinhada de gente e a explodir de ruídos de carros, ônibus e bondes à hora da saída dos escritórios. É dia de deadline do artigo. Se não entrego não sai e é menos que recebo no final do mês, quando o que me pagam os dois jornais em que publico uma dezena de artigos de crítica de música popular já é tão pouco. Dou alguns passos rumo à Ave da República, onde deveria pegar o metrô, mas não aguento. Meus olhos devem estar da cor de sangue, pois sinto-os dardejando, e o único som de rush que os meus ouvidos poderiam aguentar a esta altura seria talvez os de Hendrix em Crosstown Traffic no remanso de casa. A ela volto. Estou doido demais para encarar alguém ‘normal’, ainda para mais numa redação, nem que fosse só entregar o artigo e dar no pé, porque ninguém no meio sequer desconfia que algum colega ‘se drogue’, embora muitos andem a cair pelas tabelas às vezes muito antes da madrugada em tabernas e antros de prostituição da cidade sem que isso lhes traga qualquer prejuízo à imagem, antes pelo contrário, a agir assim provam que são é muito machos. O único tratamento para o glaucoma, como se ouve no manifesto Legalize It, de Peter Tosh, a marijuana, cannabis sativa (cânhamo) mais sua parente, cannabis indica, a espécie mais potente, de cujas flores de fêmeas secas se extrai um poderoso narcótico chamado ganjah, usado na medicina, não chega com certeza aos pés do álcool em efeitos nocivos para o corpo e a mente. Por enquanto a erva chega a tirar-me a vontade de fumar os poucos cigarros que queimo quase sem tragar, 20-20-20 (o três vintes), Provisórios ao lado de Definitivos, quase só por curtição estética. Sem vício.

 

        

        Vigília política após o primeiro banho eleitoral televisivo. Incompreendido por crítica e público quando fez uma no mínimo bizarra montagem de Galileu Galilei com o antigo Grupo de Teatro Oficina, hoje Comunidade Oficina Samba, e escorraçado pelos da sua classe Zé Celso Martinez Correa decidiu ir a Moçambique registrar o nascimento de uma outra nação. Filmou a chegada de Samora Machel a Lourenço Marques, recepcionado pelos Marimbeiros de Zavala, os melhores takes de O Parto, que está sendo exibido pela RTP no primeiro aniversário do 25. O filme passa e a gente passando roupa.

        - A vitória do PS, tudo bem, já define alguma coisa, mas com maioria relativa não se vai a lugar nenhum. Vai ter de governar com o PC, não há outra. Viva a revolução, viva a baderna!

        - Revolução?!

        Para mim não há ‘processo revolucionário em curso’. Dê no que der, ditadura do proletariado ou democracia de fachada, vai dar no mesmo, pois como já li muito por aí a revolução, a acontecer, não se fará só pela via política.

        - E vai se dar por qual via, tás maluco ou quê?!

       - Tou maluco e quê. A verdadeira luta não é política mas a que visa acabar com a política, lá dizia o velho Norman O. Brown. Só entendo a revolução no sentido da democracia direta, o que segundo historiadores não existia nem mesmo na polis grega, ou então de sublevação ou supressão do Estado, numa revolução permanente com o objetivo de acabar com a política, o que parece um contra-senso, porque como se organizaria a coisa? Numa miríade de comunas com um comitê coordenador? Na ditadura do proletariado é claro que não dá para acreditar. É uma outra forma de ditadura do Estado e de quem o representa. Sergei Eisenstein, no calor da revolução e anos mais tarde, em Alexandre Nevski e Ivan o Terrível, mostrou para quem quis ou soube ver que no fundo a Rússia fundou-se e foi sempre gerida sob mão de ferro – e estes últimos sessenta anos seriam afinal uma sequência disso, sob a fachada do coletivismo, da sovietização. A menos que se entenda revolução também no sentido que os fascistas ou os militares no Brasil deram à expressão, da mudança pela mudança não importa com que sinal, revolução de direita, o que de tão risível leva a que os contestatários da ditadura brasileira a chamem de a Redentora. Prefiro então delirar com a idéia neo-grouchomarxista do YIPPIE!, segundo a qual revolução é por natureza o êxtase, a festa, manifestação do grito primal, instintivo, de liberdade, a verdadeira vida, em que o partido só pode ser um party, órgão difusor da baderna, como Abbie Hoffman e Jerry Rubin pretenderam fazer do seu Party Internacional da Juventude. Uma piada, mas dadas as alternativas possíveis o melhor mesmo é brincar, porque a questão não é mudar a sociedade mas criar uma paralela.

        - Em Marte, talvez...

       - Foi o ponto a que chegou Paul Kantner ao criar o Jefferson Starship, depois de ter apoiado toda a sorte de revolucionários, mesmo da chamada Nova Esquerda neo-marxistó-marcusiana: brincar com a idéia de que uma sociedade alternativa só poderia ser criada em outro planeta ou galáxia. Vira e mexe e voltamos ao mesmo, impensável para mim até a tão pouco tempo: Proudhon e o conceito de ‘revolução integral’, segundo o qual, em face de um mundo em dissolução, é necessário partir para uma remodelação total das idéias e dos corações. Como operá-la? Como acabar com a cultura da neurose, contra natura, e impor o princípio do prazer sobre o da realidade, drop out, fazer do corpo o mais possível instrumento de prazer, sair para outro mundo desta história de martírios, regredir ou evoluir para a desintegração de instituições como a família monogâmica patriarcal para escapar ao desastre, como prognosticou Marcuse sem no entanto dar-nos a receita. Aqui, ó – vou ao quarto e pego um dos meus livros de consulta.

         - Do famoso manifesto Woodstock Nation, de Abbie Hoffman: ‘A revolução política leva a que as pessoas desejem outras revoluções em vez de fazer a sua. A revolução cultural leva as pessoas a mudarem o seu modo de vida e a agir de maneira revolucionária em vez de criticar a maneira como os outros se comportam. A perspectiva cultural gera ‘foras-da-lei’, a política produz organizadores.

        - Tudo muito bonito, mas que da mesma forma não leva a nada...

        - Um sonho. Lá dizia o pacifista Lanza Del Vasto logo após o 68, que se arribou a um ponto de tal modo decepcionante que alguns chegam a desejar a revolução, a desordem perpétua, em que ao menos se viveria a salvo de uma ordem cinzenta, monótona. Idéias estapafúrdias, talvez, de que em Portugal não houve e não há a mínima ressonância, a não ser de um certo modo antigo nas pichações anarquistas, também porque de repente a esta altura já não fazem nenhum sentido, além do plano literário. Fazer primeiro a revolução do indivíduo e da cultura para dinamitar a estrutura política, a ver se poderíamos de algum modo escapar da democracia de fachada, da mera descentralização político-econômica, e como aceitar democracia sem uma participação direta de todos nas decisões, sem ficar à mercê de poderosos lobbies de manipulação da opinião pública mais as suas maiorias silenciosas? Nossa geração perdeu o trem do tempo do bota-abaixo e parece não haver como retomar qualquer coisa do gênero, tipo fazer de uma passeata um verdadeiro espetáculo de cor e alegria, brincar como Ginsberg de tentar fazer o Pentágono levitar. Ou como dizia outro que tal, Ron Laing, no belo A Política da Experiência e a Ave do Paraíso: se somos incapazes de saber o que se passa fora do campo da nossa experiência, como posso embarcar em políticas voluntariosas para mudar um mundo que não sei como é? Que revolução é esta que não muda nada, em termos de mentalidade e de relacionamento das pessoas, baseando-se na mesma atitude hipócrita de manutenção de valores caducos que ninguém está interessado em rediscutir? O princípio básico enunciado por tudo quanto é força política por aqui, com a exceção da direita e de grupelhos de extrema-esquerda, é o da consolidação da democracia e da justiça social, mas há muito mais a fazer também, embora se diga não ser prioridade, muito pelo contrário, porque o uso diluviano de drogas, por exemplo, combate-se com métodos pidescos e acabou-se. A Gloriosa degenera até acabar em Napoleão, na política como na cátedra, em relação à qual também nem se cogita uma remodelação, em termos de estrutura da Academia e de currículos. Os estudantes expulsaram os dedos-duros & durões, que serão provavelmente substituídos por dedos-duros & durões de outras causas, mas sempre dedos-duros & durões e possivelmente mais burros. Ninguém põe em causa o ensino das apostilas sebentosas de caretice, estreitristeza de visão. Direito da Família?! Oitenta páginas de decoreba e acabou-se. Quem vai pôr em causa o Direito de Família e o Código Penal?

        - Pôr em causa nada, vais é ser governado por comitês de fábricas e ponto – encerra o outro na galhofa. – Esse filme do Zé Celso é uma merda!... Toma aí, fuma que só te faz bem.

      A primavera de 75 é radiosa mas curta, porque o Verão quente se antecipa sem dar margem à utopia.

 

MADE IN LISBON

 

    Combinam com Leda e Lauro ir ver MADE IN USA de Godard em sessão da meia-noite do Londres. Tudo em ordem após mais um dia tranquilo.

      Eloísa passou-o no quarto a consultar o I Ching e tirando e lendo cartas do Tarô e Assim Falou Zaratustra, que trouxe da casa dos pais, que passou a visitar uma vez por semana e de onde também leva algumas provisões para o pouso semiclandestino. Ed abasteceu-a também com A Montanha Mágica, que aguarda a vez sobre a mesa de cabeceira debaixo de um exemplar de Sidharta que roubaram na Livraria Bertrand.

      Início da noite. Após tomar notas para um artigo ele a encontra chorando na cama.

      - O que se passa? Por que estás assim?

      - Uma enorme dor de cabeça – responde entre soluços.

      - Dor de cabeça? Você nunca teve dor de cabeça antes, por que será?

      - Não sei – e olha-o com os olhos vermelhos, a cara banhada em lágrimas e ar de angústia.

      - Nunca vi ninguém chorar como um pivete por causa de uma dor de cabeça. Quer que eu vá comprar um analgésico?

     - Não, isto passa logo. Não é a primeira vez que me sinto assim. Há de passar.

     Mas não passa. Passa o tempo e ela na mesma, prostrada na cama, os olhos vermelhos, rosto banhado em lágrimas, ar de aflição.

Ele se distrai assistindo um filme de Cukor com Katharine Hepburn

 

     

     No intervalo, volta ao quarto.

     - Se é só uma dor de cabeça vou comprar um analgésico.

     - Não é só dor de cabeça...

     O telefone toca. Lauro propõe irem a casa de Leda para ‘animar a cabecinha’ antes do cinema.

      - Ótimo – responde ele. – Godard deve ter feito o filme com uma tijolada tremenda, porque é uma loucura. A ver se dessa vez o assimilo melhor, porque da outra não deu para aguentar o ritmo da montagem e os diálogos e letreiros. Até já.

       - Lauro e Lê estão nos convidando para irmos lá antes do cinema. Uma boa, não? Temos de sair mais cedo.

       - Eu não vou ao cinema. Vai tu. Depois me contas. Hão de passar outra vez.

       - Conto?! Aquilo é inenarrável. Só com o plano de découpage do Godard na mão é que se poderá descrever alguma coisa. Vá, vamos lá! Já lhe passou a dor de cabeça?

       Aproxima-se da cama e passo a mão nos seus cabelos lisos e depois no cachaço.

      - Deixa-me! – reage ela com um repelão. – Vai ao cinema e quando voltares já estou boa.

      - Não. Por mim nem vou ao cinema. Para todos os efeitos já vi o filme e dá para ver de novo em outra ocasião. Mas o que é que você está sentindo, afinal?

      Senta-se na cama, põe a cabeça entre as pernas, depois ergue-a, a chorar aos prantos e a apertá-la.

      - É uma pressão... uma pressão enorme na cabeça... não dá para explicar...

      - Mas você está sentindo alguma dor?

      - Não é bem dor. Quer dizer, não sinto assim dor física. Só uma pressão que parece que a cabeça vai estourar e eu vou endoidar.

      - Mas por quê?

      - Não sei.

      - É alguma coisa em relação a mim, a nós?

      - Não. Não é nada em relação a nós.

      - Então, em relação a quê?

      - Não sei, não posso dizer. Vai um pouco até a sala, vê um pouco de televisão ou faz qualquer outra coisa e espera um pouco. Daqui a nada já estou boa.

     Grandes festas no filme de Cukor, uma comédia que ele lamenta não estar assistindo com Eloísa do princípio ao fim. O filme acaba. Desliga a TV. Fica em silêncio sob a luz do abajur pensando no que fazer. O telefone toca três vezes, para de tocar, volta a tocar de novo outras três vezes, para e recomeça outra vez. Lauro e Leda também estão a par do código. Já são onze horas, vamos atrasar-nos, está tudo pronto, estão a chegar ou quê?

     Vou ver. Eloísa continua angustiada, os olhos como duas tochas, apoiando a cabeça deitada sobre um braço.

      - Já são onze horas, vamos lá.

      - Não vou, já te disse! Vai tu com eles! – responde, agora furiosa.

      - Eloísa, mas o que é que você tem?!

      - Nada que te diga respeito.

      Desaustina e vai até à sala e volto.

      - Vá, querida, levante-se, passa uma água no corpo, toma uma ducha e vem. Vai perder Made in USA, que nunca viu?! Uma cinéfila não pode deixar de ver o filme!

      - Não vou, não vou e não vou e põe-te já daqui pra fora – diz erguendo-se e o empurrando porta fora, até quase a fechar, mas ele põe um pé na frente e empurra-a contra ela e, ao ouvir barulho na da rua, entra e fecha a porta à chave.

      - Afinal, se não há nenhum problema entre nós está tudo bem...

      - Está tudo mal! – grita a jovem descabelada. Põe as mãos na cara e inclina-se sobre as pernas estendidas. – Tudo mal! Tu-do! – e recomeça a chorar, com mais intensidade.

      - Mas por quê está mal? Explica-me – parece um disco riscado sobre dois compassos com o mesmo acorde.

      Toca o telefone e Ivan logo atende. Ele abre a porta e Ivan estende-lhe o bocal. Desfaz a combinação com Lauro e volta ao quarto. Made in USA? Muito mad in Lisboa!

      Entra e fecha a porta.

      - Mas afinal, o que se passa? Diz-me ao menos o que se passa!

     Ela, muda. Ele acerta um murro na porta, manda a mão fechada na parede e chuta a cômoda da tia.

     Batem à porta.

      - Ed! Ed! Abre a porta! Vais matar a garina!

      - Não é nela que estou batendo!

     - Mas vê lá, não vás acabar também com o quarto da minha tia, pá, toma cuidado!

     A um passo de perder o controle, com o que lhe resta de calma ele senta-se na cama, agarra-a com cuidado pelos braços e implora:

      - Ok, se não sou eu, qual é o motivo de tanta angústia, tanta fúria?

      Ela chora como nunca viu uma mulher chorar antes fora das telas.

      - São os meus pais. O meu pai! O meu pai fez-me sempre a vida negra, desde pequena não me deixava fazer nada e se fazia alguma coisa de que não gostava me enchia de porrada. Foi assim até começar a namorar o Artur, aos 14 anos, e o meu pai a controlar cada passo meu a ponto de nem me deixar sair. Proibia-me e se desobedecesse batia-me. E a minha mãe, que toda a vida se sujeitou à sua truculência e ignorância, sempre a apoiá-lo, ajudando-o a reprimir-me, a castigar-me. Foi uma tortura toda a minha vida ali. Passado um tempo do nosso namoro já era o Artur que me batia.

       - Batia?! Por quê?

       - Sei lá. Por ciúmes, por nada, enfim. Quando finalmente consegui romper com ele, após seis anos, o que encontro? Um homem atrás do outro que só quer comer-me por trás, como se fosse um castigo, uma maldição. Acho os homens, as pessoas todas, este sistema de merda, um horror, queria entrar noutra, desaparecer, eclipsar-me daqui. Estou aqui para obedecer ou levar porrada... ou no cu....

      - Mas não eu!

      - Sim, tu não...

     (Ao menos até aqui – brinca consigo mesmo para relaxar um pouco. - Bataille diria que a queixa é uma súplica...)

     Ela deve finalmente ter se apercebido de todo o ridículo porque aqui chegados ri-se e diz, apertando-o com carinho e pondo a cabeça de lado em seu ombro seco:

     - Desculpa-me, vá. São águas passadas, espero.

      - Também eu. É a primeira vez que me deparo com alguém tão traumatizado.

       Mad-e in Lisbon acaba na hora em que deve ter acabado Made in USA, uma meia-noite de terror. She’s leaving home à portuguesa. Em vez de um três por quatrozinho moderno, sempre o mesmo fado. E o medo de um mundo tão violento e limitativo transforma-se talvez em medo de que tanto à-vontade e liberdade possa acabar como um sonho. O que mais? Ele vai até a janela, olha o Técnico sem vivalma e só iluminado num ou noutro ponto por um poste isolado e não sabe o que pensar.  

HOMULHER MULHOMEM

   Que seja da índole aquariana, da compleição física, da formação. Minha ideologia consiste substancialmente em ser diferente do que vejo no comportamento da maior parte das pessoas em volta e no mundo, no respeito absoluto da vontade do outro, desde que ao menos um pouco sensata, e sobretudo da mulher. Seja da minha formação infanto-juvenil, em grande parte a sós com uma, sinto vontade de aninhar-me como criança carente no regaço das mães, mesmo que mais jovens, sem vergonha ou pudor do meu infantilismo. Ao contrário, quero fazer disso bandeira que sinalize a minha diferença em relação ao comum dos machos e ao rebanho, ou a ele assemelhados – e estupidamente monogâmico, talvez, levo isso aos extremos mesmo na relação sexual, como se para mim ser "fiel" a ela fosse igual a ser fiel a si mesmo. Seja como for nem dou bola para nenhuma outra. Com ela me sinto pleno, como se nela encontrasse a plenitude.

   Quero ver, sentir e ser sentido e visto como diferente da média na sociedade, por recusa do sistema (lógico, positivista) e do que ele gerou de boçal em cada indivíduo. Aposto sim na propagação de novos – e sem embargo arcaicos – valores. Chego até a glosar/gozar o livro de Eco, pensando em escrever um ensaio chamado Homem Aberto. Sem projeto de poder sobre nada nem ninguém. O Crepúsculo dos Deuses, ok - e o crepúsculo do macho. Outra tolice.

   A timidez me leva a retrair-me na abordagem e talvez a desiludir as ‘antagonistas’ num jogo em que para todos os efeitos acabam por prevalecer as premissas tradicionais do domínio do macho e machista. E em Eloísa penso ter encontrado a alma gêmea, com quem procuro uma aliança do tipo fraterno sem o compromisso de dar prazer por (con)trato mas pelo prazer de dar e em que lidas e responsabilidades são assumidas por igual, ora agora toca a mim, depois a você, com o máximo de delicadeza e frescura na medida, por que não? Em Portugal não se esboça sequer algumas ideias próximas ao que se convencionou chamar de Nova Esquerda, a não ser em algum grupelho situacionista. A nova legião de desbundados é uma grande tribo heterogênea de que também não sai nenhuma nova luz em termos comportamentais, como pensar numa verdadeira revolução. Um lírico: utopia.

   Não sabemos como é de fato a antiga relação homem-mulher, na prática quase não sabemos nem mesmo como é a relação homem-mulher – e desconfia-se que o modo estatuído/tradicional é ‘majoritário’ mas não totalitário. É-se cobaia de novos modos, novos moldes. Tenta-se. Até se ver que quiçá não é bem assim. Mas por enquanto vive-se sem ansiedade. Carpe diem. Quam minimum credula postero.

BABY'S ON FIRE 

   Não passa muito tempo quando uma noite despretenciosa de sábado em que o trio assiste A Star is Born na TV – que exibe um ciclo de retrospectiva George Cukor - se transforma em party quando Pepe, Candy, Dio e Joan adentram a sala e sem que ele se aperceba a noite passa e amanhece. Ele se despede dos convivas quando eles combinam tomar de assalto uma farmácia para comprar uppers e downers, moda emergente na cidade na primavera autonomista pós-11 de Março. Vai dormir um pouco para estar minimamente em forma em almoço de família.

   Acorda ao meio-dia ao som de Cocaine e os meus estão muito animados na sala. Quando acaba de se arrumar a casa tresanda ao matraquear agoniante de The Lamb Lies Down on Broadway. Ivan, Candy e Eloísa entram e saem do banheiro e dos quartos após terem tomado uma ducha. Dio, Joana e Pepe permanecem na sala vendo revistas de quadrinhos e de atualidade underground que ele compra ou rouba na Livraria Opinião, que é quase sempre propícia ao fascinante exercício da cleptomania, porque as publicações do gênero importadas ficam amontoadas num grande cesto colocado no chão junto à porta, num belo convite ao furto.

   De regresso do almoço Eloísa pede-lhe que vá ao quarto, onde Ivan está em grande depressão.

   - IVAN EM DEPRESSÃO?! Ora o maganão! Só se for piada!

   Chega à porta e vê Ivan sentado aos pés da cama chorando que nem uma carpideira. A seu lado Candy não denota nenhuma sensível alteração de estado de espírito. Penteia os cabelos lisos com enê como se fosse uma mulher.

   Procura inteirar-se do que se passa com Eloísa, muito alterada.

   - Ivan foi ao banheiro e Candy estava lá, nua. Achou o que viu deprimente e entrou em crise.

   - Ivan em crise?! Escute aqui, mantenha distância do Ivan ou então quem vai entrar em crise daqui a nada é você. Não o conhece já o bastante para saber que é só gozação?

   - A sério que ele não está brincando! Ouve lá, já viste a Candy nua? É uma coisa horrível. As mamas dela parecem duas laranjas murchas, um horror!

   - Ok, esteja ou não esteja a brincar, o melhor que cê tem a fazer é não entrar na dele, porque com a falta de sono e os efeitos da perda de potência da anfetamina que vocês andaram ingerindo, sacumé, bate aquela angústia.

   Sempre pertinente Eno comenta do som:

Lucy you’re my girl, Lucy you’re a star

Lucy please be still and leave your madness

In the jar but to be where

It will follow you, it will follow you

Lucy és a minha gata, Lucy és uma estrela

Lucy fica calma e deixa tua loucura

Na jarra de onde ela possa

Acompanhar você, acompanhar você

         Ivan foi há alguns dias à Costa e não fosse quem é, uma bisbilhoteira, na volta da praia deu uma passada pela casa de Candy, onde notou – imagina! - que havia uma porrada de Crônicas Femininas (*) no quarto dela. Candy Darling, nascido James Lawrence Slattery e que acaba de falecer em função de um exagerado tratamento de hormonas, deverá estar dando umas belas voltas no túmulo. Nunca a vi como homem – disse um seu ex-amante na morte da diva de Warhol, mas a cabeça da nossa Candy, de Lisboa a Bruxelas e vice-versa, permaneceu vazia, fosse homem ou como mulher. A operação foi um equívoco, um erro irreversível.

   Acutilante e irônico, malicioso e mordaz ao abrir a boca, pondo a linguona para fora num esgar de escárnio mas nem assim mal educado, Pepe diz tudo ao trocar Eno por Eno e pôr em colagem Baby’s on Fire

Baby’s on fire, better throw her in the water A gata está em chamas, melhor jogá-la na água

– as batidas secas do baterista Simon King nos pratos de choque dando um clima ainda mais pesado de sala de cirurgia ao ambiente.

   O bando sai para dar uma volta e após o regresso se dispersa. Ed fica só com Eloísa e não tarda muito estoura a terceira crise. A pressão na cabeça, a opressão dos pais, o diabo, o que ela precisa é de dormir e felizmente para ele e ela que logo, logo está fazendo dodô.

 

   O tempo segue quente e eles costumam passar fins de semana na casa de praia dos pais de Leda na Costa com ela e o namorado. Uma bela casa onde nas horas mortas ele se entretem com revistas antigas importadas como Saturday Evening Post com capas de Norman Rockwell, com leve cheiro a bafio próprio de publicações de casas de praia. É como se voltasse à infância, quando se entretinha em Saquarema com as aventuras dos Sete e dos Cinco que lhe mandavam de Lisboa. Num desses weekends de sonho adolescente, de certo modo revivendo o que não viveu, propuseram-se esmigalhar o único ácido disponível e pô-lo num copo d’água, na esperança vã que pudesse dividir-se irmamente pelos quatro. Quando acabam de jantar chegam Joana e Dio no novo carro do jovem ex-atleta, uma banheira Opel Record preta ainda em bom estado.

   Acabam por tentar esmigalhar o AC e dividi-lo pelos seis. Cada um toma um gole. Os visitantes pegam duas bicicletas e vão passear. Os outros ficam assistindo Suave é a Noite, uma das más adaptações de Scott Fitzgerald em que Hollywood é pródiga mas tudo somado um belo passatempo para um fim de semana de relaxamento, sem sentir nenhum efeito do ácido. Ed está já confortavelmente na cama como um tio velho lendo excertos do livro de A.E. Hotchner sobre Papa Hemingway no Evening Post quando Dio entra no quarto comunicando que deve ter deslocado a clavícula. Conta que devia estar doido demais, bateu numa pedra e caiu. Deve ter ingerido quase todo o ácido, porque também Joana diz que não está sentindo ‘nada de especial’.

 

 

DANCE IRMÃZINHA DANCE

Vez ou outra com frequência divide-se um táxi para ir ao 2000, como é mais comumente chamado o 2001 no Autódromo do Estoril, a melhor boate do país. Normalmente vê-se um Buick creme descapotável no estacionamento do autódromo. Bebe-se apenas o do consumo mínimo, ou nem isso – vai-se fumar um beise nas arquibancadas da pista de corridas, que nunca teve melhor utilidade. Lá dentro, ritual de dança, uns poucos rapazes e moças balançando os quadris, shaking the hips. Muita diferença em relação à geração que já se aproxima dos trinta. Começa finalmente a mudar o conceito de local de dancing moderno, o que na Inglaterra acontecera nos anos 60, quando os ballrooms, cabarés e boates fecharam ou tomaram outras feições, embora com ar mais ou menos idêntico – porque de noite todos os gatos são pardos –, e decorações e ambientes diferentes e a que se passou a chamar de discotheque. Em Portugal o termo não serve, porque discoteca é loja de discos. Luzes estroboscóbicas e esferas de vidro sobre o centro das pistas de dança acabam de chegar e como elas os deejays começam a ser importantes para o tipo de público que atraem. O 2000 reúne a malta mais ou menos underground, que entre o que é dado a escolher é a que oferece melhor música, ‘dançável’ de outros modos, com a cabeça (que se põe a funcionar também a partir das letras) e com o corpo. O hedonismo, do grego traduzido para o latim por Cícero como voluptas, voluptuosidade, chega finalmente à terra da reserva, da discrição, do recato, dos falsos pudores e recalcamentos, hábitos doentios de décadas de reinado de moral católico-salazarista, como se vê mesmo durante o PREC, quando os refratários trazem modas de países talvez menos airosos mas mais abertos.

     Dança, transe de rituais africanos com exorcismo de bad vibes, Reich a explicar se tivesse sobrevivido à caça às bruxas, mas como explica Norman O. Brown esses momentos são a expressão da entrada em cena no Ocidente do fim da dualidade corpo-mente sintetizado em Sympathy for the Devil, que ao que se diz se traduziria por conhecimento do diabo, e que reporta a O Maestro e Margarida, de Bulgakov, atualizando-o, de Herodes e Pilatos a lavarem as mãos da crucificação de J. Cristo a alguns dos acontecimentos cruciais da história contemporânea. Diz-se também que após uma viagem a Salvador da Bahia e ao Rio de Janeiro os Stones quiseram fazer um samba mas só tendo encontrado percussionistas nigerianos acabaram por gravá-la e apresentá-la ao vivo pela primeira vez no concerto de homenagem a Brian Jones, no Hyde Park, entre leituras de poemas de Shelley e chuvas de pétalas de rosa brancas, como a maior aproximação da carreira ao 6/4 afro-cubano.

     Eloísa dançando ondula como uma chama ébria, de alto a baixo, da cabeça inclinada para um lado aos ombros e dali às ancas e depois as pernas que parecem desarticular-se até os tornozelos, enquanto os pés giram sobre o calcanhar de um lado ao outro.

 

scenas ambientais

    Um grupo de jovens formado por um publicitário muito bem sucedido e esposa, que fizeram pé-de-meia do salário do emprego do homem numa multinacional do ramo, de que ele pura e simplesmente se demitiu, um jornalista em licença sem vencimento de uma empresa ocupada e quase falida, ex-militante da LUAR, e uma operadora da Marconi (uma companhia telefônica) partem de trem para Paris rumo à India, onde pretendem permanecer por tempo indeterminado. Foto de grupo de dezenas de amigos à saída do prédio, os quatro com excelentes mochilões, camisetas, agasalhos, jeans e calçados novos em folha. Freaks, sem dúvida, porque protagonistas de um autêntico drop-out tendo tudo para ficar in. Mas nada a ver com freaks, ou então hippies de butique a entrar numa de ir para a India em onda mística do tipo que já não se usaria desde o caso Maharishi Iogi-The Beatles. Mas a onda também é essa ainda em meados da década de 70, renovada através de figuras polêmicas como o guru Rajneesh e que se reforça no grupo ao som de músicos que exploram o encontro de múltiplas culturas, como Collin Walcott e Oregon, Devadip Carlos Santana e Alice Coltrane no tributo ao guru Sri Chinmoy em Illuminations, Mahavishnu John McLaughlin em Shakti, em viagem transplanetária a reproduzir também o gosto médio da juventude contemporânea com coisas para que torço o nariz como Pink Floyd, hoje em dia clássico de supermercado, e os mais palatáveis mas ainda assim medianos Supertramp (quem diria, desde o Coliseum...), que em Crises?... What Crises?!... fazem uma digressão pelo mundo tormentoso da esquizofrenia.

    Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos pelo SG Filtro – é uma das melhores tiradas do Bom Gigante, filho de um artista plástico que se sai melhor que a encomenda no quesito perfeccionismo, com extraordinário dom para relações humanas, quase sempre em público de excelente humor e disposição, porque quando não está bem, como bom filho único, rapidamente se retira de forma peremptória. É na Ricardo Espírito Santo que se fuma as cônicas e os beises mais bem confeccionados da cidade, apertadíssimos para se ser obrigado a puxar muito forte ao ponto de quase não se avivar a chama e inalar bem o fumo para os pulmões. Graça e simpatia do anfitrião – que, aparentemente arredio, tem uma rara habilidade para conquistar as pessoas - são contagiantes. E os serões na sua casa estão entre os mais divertidos da cidade em que se vive entre uma aparente normalidade e o caos político-administrativo.

  La Victoire / Magritte

    De repente lá está ele entre Pauwels, Castañeda, Lobsang Rampa, os transes de Teresa Dávila e João da Cruz e contatos com outras fontes de luz, erzats, bodhisattvas, jivanmuktas, tergiversando e fazendo a platéia gargalhar numa leitura alucinógena da história de Portugal. A base científica para uma tal proposta está exposta de sobejo por Huxley a partir das conclusões do ‘eminente filósofo de Cambridge Dr. C. D. Broad’ por ele citadas em Heaven and Hell de que deveríamos levar mais a sério as teorias de Bergson sobre memória e percepção dos sentidos. Broad sugere que a função do cérebro e do sistema nervoso é essencialmente eliminatória e não produtiva.

     Todo indivíduo é em cada momento capaz de recordar tudo o que lhe aconteceu e de se aperceber de tudo o acontece em qualquer lugar do universo. A função do cérebro e do sistema nervoso é a de prevenir-nos contra a possibilidade de sermos esmagados e baratinados por essa massa de conhecimento em grande parte inútil e irrelevante, barrando a maior parte do que, de outro modo, nos aperceberíamos e lembraríamos a qualquer momento, e deixando entrar apenas essa muito pequena e especial seleção que poderá ter utilidade prática em nossa vida. De acordo com essa teoria, cada um de nós é potencialmente Mind at Large (de mente aberta a tudo). Mas, por sermos animais, o nosso objetivo é o de sobreviver a todo custo. Para que a sobrevivência biológica seja possível a Mind at Large tem de ser afunilada através da válvula de redução do cérebro e do sistema nervoso. Pelo aprendizado de linguagens a maior parte das pessoas na  maior parte do tempo tem apenas consciência do que lhes chega através da válvula de redução pelo que foi estatuído pela linguagem local como genuinamente real. Alguma pessoas entretanto parecem ter nascido com uma espécie de by-pass, ou desvio, que engana a válvula de redução. Em outras, by-passes temporários devem ser obtidos espontaneamente ou através de ‘exercícios espirituais’ propositais ou hipnose, ou ainda por meio de drogas. Que não é que abram totalmente à Mind at Large, apenas um pouco mais que o normal, e acima de tudo a algo diferente do material utilitário cuidadosamente selecionado que as nossas mentes espartilhadas têm como uma completa, ou ao menos cabal, imagem da realidade.

     Huxley volta à Idade Média, quando em metade do ano as pessoas não comiam frutas e vegetais e consumiam muito pouca proteína animal. No início da primavera a maior parte sofria de escorbuto por falta de Vitamina C e de doenças provocadas por escassez de complexo B. A consequência inicial de uma dieta inadequada é um decréscimo da eficiência do cérebro como instrumento de sobrevivência biológica. Com o passar do tempo ele ficava sujeito a  visões; porque quando a válvula de redução cerebral tem sua eficiência reduzida a maior parte do (em termos biológicos) material inútil flui para a consciência ‘lá de fora’, na Mind at Large. Some-se a isto os 40 dias de abstinência da Quaresma, num período do auge do fervor religioso e de menor ingestão de vitaminas. Êxtases e visões eram o pão nosso de cada dia, concluiu o bravo Huxley.

     Daí a D. Juan na História de Portugal vai um passo:

     - D. Fuas Roupinho cruza léguas e  léguas no lombo do cavalo tendo por alimento básico pão de centeio. Vá que o pão já não fosse lá muito fresco ou que o centeio armazenado já estivesse a criar fungo, põe-lhe mais uns dias de jornada em cima e o fungo do centeio nos dará o quê mesmo? A ergotina fermentada! A essência do ácido lisérgico, alucinação pura! Que espanto então que tenha visto lá no alto a Senhora de Nazaré?!... Assim também se explica as alucinações dos lapônios com os famosos cogumelos de chapéu vermelho com pintas brancas, Amanita muscaria, ou visgo de mosca, que lhes deu até para ver Santa Claus voando num trenó puxado por renas!

      ‘Drogar-se’ é, neste capítulo das nossas vidas, algo muito diferente de sessões de perdição ou desatino. Ao contrário, encontro com sigo mesmo e com os outros, além de excelente fonte de relaxamento.

 

 

 

Trechos de  Droga Loucura e vagabundagem  capítulo 5 de  

 

                    

Com a ida para a India o studio do Bom Gigante é passado ad eternum a Ed e Eloísa sob a única condição de pagarem pontualmente o aluguel do habitáculo. O casal herda os utensílios, entre os quais um belo colchão, única peça de mobiliário além de uma pequena estante, que preenchem com alguns dos melhores discos e livros dele, uma mesinha e dois bancos e um aparelho de som. Ele agora escreve uma dúzia de crônicas por mês para o jornal novo, que não dá para sobreviverem.

Brincar – acordar para fazer o que se proporcionar, como em férias, mesmo trabalhar, que é artesanal e lúdico, pelo tema, porque – referindo-se ele sempre e só a música popular e sobretudo rock – para o jornal escreve só sobre o que lhe dá na telha. Fora do tempo e do espaço. Sem horários. Comer quando se tem o que comer ou se tem vontade, ouvir música, ir ao cinema, passear no Jardim da Estrela ou no Cais de Alcântara a rememorar a primeira chegada e as trágicas partidas de uma multidão de lenço branco - Aí o meu rico filhinho coitadinho que vai para a guerra!... -, visitar amigos. Flanar pela cidade em chamas, calmamente.

            Eles têm uma bela alcofa com que saem com frequência para arcar com as compras, devidamente ornada com um lenço de seda amarrado a uma das alças não só para embelezá-la mas com uma serventia de importância crucial: esconder os produtos que roubam. A contar só com o dinheiro que têm não precisariam de tanto. Mas em uma ou outra ocasião viram que em dupla funcionam muito bem na prática de pequenos furtos, coisas não premeditadas, de acaso. Desse modo ele furtou na sala dos fundos da Bertrand, entre outras maravilhas, as obras completas de Scott Fitzgerald em novíssima edição de uma coleção de bolso da Palladin Books. Ao sair para as compras descobrem como é fácil roubar hoje em dia - quando circuito interno de TV à la Big Brother a vigiar todos os movimentos das gangues é paranoia de futuro remoto, muito além de 1984 -, alternando-se um de olho ou a distrair donos e empregados e o outro enfiando a mercadoria na bolsa, com perfeita articulação entre os dois, numa atividade revolucionária que lhes dá a sensação de estar em filme americano série B ou da melhor colheita, como They Drive By Night, e mesmo que não tão boa ainda assim legal, como Bonnie & Clyde, sem espectro de impotência e sem armas pelo meio, unindo o útil ao agradável, pois as duas ou três ações praticadas a cada investida, tamanho estado de alerta puxando pela adrenalina, lhes dão frêmitos de prazer e puro divertimento, coisa de cleptômano. Nem pensam nos aspectos morais de tais atos, por um lado pela própria deformação anarca mas também por estarem submersos no clima de subversão permanente e bafejado pelos ventos revolucionários que sopram de todos os quadrantes em que tudo se justifica, de assaltos a bancos a ocupações de propriedades, como expropriação da mais-valia usurpada ao proletariado, subproletariado e lumpen rural e urbano.

            Da droga ‘doce’, se não ‘inocente’ no mínimo menos danosa para corpo e mente que outras ‘lícitas’, à marginalização a todos os níveis – e até a eliminação física - por um regime escroto de quem se lhe opõe, noção de clandestinidade por coisa alguma e daí um passo para, invertendo a equação cínica, considerar tudo legítimo. Até certo ponto, claro, porque como diz o outro só se Deus não existisse é que tudo seria permitido...

Nem droga. As próprias ditaduras nos ensinam que estar na clandestinidade, do outro lado, mesmo que porventura errado, não significa necessariamente estar-se com o mal, do lado nefasto. O hábito da resistência antifascista ‘empurrou-me’ para a margem e inexoravelmente lá me deixou – sem medo do escuro e do abismo de experiências ‘ilegais’ e transcendentais. A ilegalidade oficial da ditadura e da corrupção político-governamental, como nos ensinam os enciclopedistas dos anos 60, faz com que qualquer coisa aparentada ao ‘Sistema’ - supermercado, companhia telefônica, posto de gasolina – pareça campo de caça legítimo, embora nas relações pessoais nos conservemos perfeitamente honestos. Ou como disse Anaïs Nin, ao situar a questão em outro ponto:

Apesar de serem considerados ladrões e serem humilhados a ponto de terem de recorrer à pedinchice, o orgulho dos ciganos não é corroído. Permanece forte e refinado, como se para eles a nossa moral é que não fosse admissível, como se guiados por outros valores, e não se sentissem envergonhados pelas suas atividades.

 

Sua tática se baseia em sempre comprar alguma coisa útil e mais difícil de furtar, como manobra de diversão ou para se aperceberem das normas de funcionamento das lojas em que estreiam. Quase todos os dias, além de um ou outro acepipe inesperado, jantam ao som de música nova graças às fitas-cassete que roubam nos Estabelecimentos Melodia da Rua do Carmo, onde tal tipo de prática pareceria de todo impossível, já que de uma estante encostada a uma parede a caixinhas arrumadas na vitrine, elas estão tão à vista e à mão de semear que seria impossível ninguém ver o saque.

Nem me dou ao trabalho de transferir minha velha e boa discoteca, porque já tenho muito trabalho em carregar os livros que mais tou a fim ler ou dar a ler a Eloísa, mas não tenho por que me queixar, porque as breves sessões de audição de música em casa acabam por se preencher com Time Waits For No One, do It’s Only Rock And Roll, dos Stones, de Crises?... What Crises?!..., do Supertramp, e Illuminations, que o Bom Gigante deixou da sua pequena coleção, e trechos de Venus and Mars, de Paul McCartney e Wings, que recebi para criticar e não é tão ruim como os anteriores, além das fitas-cassete que furtamos.

Uma noite, antes da janta, finalmente me apercebo de como o cronista de Nova York de um jornal de música de Londres tinha razão ao deplorar o sucesso de In a Gadda-da-Vidda da Iron Butterfly, que em 12 minutos de música ao vivo a única coisa que tem de razoável é o refrão. Roubei-o em cassete na Melodia após termos deplorado que a casa, representante da Warner em Portugal, tenha importado Overnite Sensation de Frank Zappa da Espanha com a moldura de adereços fálicos do desenho da capa de David B. McMacken, orgulhosamente exibida na vitrine, vergonhosamente escondida por uma tarja preta da censura de Francisco Franco, quando por aqui a liberdade de expressão a esse nível de comunicação é total.

 

           Uma tarde em que estou ao telefone vermelho da Pastelaria Primorosa meus olhos batem numa série de latas de biscoitos sortidos importadas da Dinamarca postas sobre o móvel envidraçado entre a porta e o aparelho afixado à parede. É a primeira vez que noto e nem quero crer que estejam cheias. Como quem não quer a coisa, que é como melhor se rouba como se apreende no Pickpocket de Bresson, alcanço uma delas e sacudo-a. Está cheia. Olho em volta para ver se alguém está vendo. Barra limpa, nenhum mouro na costa. Entre uma observação e outra ao bocal, pego a lata e enfio-a na alcofa de boca aberta aos meus pés, o lenço já desamarrado da alça para ser mais fácil cobri-la, ponho o telefone no gancho e a alcofa presa ao ombro com o braço em cima dela, vou esperar Eloísa lá fora. Passa o Poeta dos Pés em Chagas, a quem nem preciso perguntar se tem alguma coisa que se fume porque já chega pondo a mão no bolso e a estender com a mão fechada uma pedrinha e dizendo prova este a ver que maravilha. A coisa tem mais piada porque o mais das vezes um ou outro só nos inteiramos de tudo o que a alcofa contém quando chegamos em casa. Surpresa!

 Grammar of Living

           A vida no studio entre a Ricardo Espírito Santo e a Infante Santo decorre em paz. Até demais. Não sei porquê, entre o Técnico e a nova morada algo para já indecifrável produziu um estranho efeito em Eloísa, que de repente mal se anima a sair de casa. Roubar sozinho é muito complicado e às vezes chega até a faltar víveres. Deixa-se ficar vestida na sua bela camisa de noite bastante transparente consultando as prescrições do I Ching e as cartas do Tarot marselhês e os respectivos prontuários de interpretação, ou lendo ora o Zaratustra ora um niquinho da Montanha Mágica ora longos trechos do Sidharta, que tem estado a devorar. Fecha-se cada vez mais. Mal se diz bom dia ou boa tarde. Quando se diz alguma coisa é para trocar breves impressões sobre as matérias transcendentais que ela lê como quem estuda, há até uma ediçãozinha fuleira do Tao Te Ching, escritos de curso e da virtude, ela discorrendo como aqueles crentes fanáticos que não perdem ocasião de citar a Bíblia, os olhinhos brilhantes por trás dos óculos que amiúde assesta com o fura-bolos, como se estivesse progressivamente apartando-se do próprio corpo, que incha e desincha nas poucas vezes em que consegue defecar, porque talvez pelo uso da pílula sofre de prisão de ventre, que controla através do uso de um laxante, e assim também nos apartamos um do outro, este é o mês do descanso da pílula, que decidiu fazer porque nem mesmo de sexo está a fim. Quando nos conhecemos fazia aikidô. Já não se fala mais nem em escola de cinema.

 

           Um dos nossos principais passatempos de tarde é caminhar entre os belos prédios e casas da Lapa até São Bento e subir pela Bica até o Alto, onde deposito a minha ‘crítica’ no jornal novo e vamos a uma bela casa de três andares que é um dos focos de agitação da capital na temporada, com uma extraordinária varanda que dá para o Adamastor e o Tejo para os lados dos estaleiros da Lisnave. O entra e sai de gente faz da casa, mirante, equipada com o que há de melhor em mobiliário e revestimentos ao gosto burguês, palco de convescotes quase permanentes. A casa foi alugada há poucos meses por um grupo de estudantes e profissionais liberais que embora em aparência muito calmos e discretos se diria que não têm descanso, porque quem entra está sempre pondo uma música e a enrolar mais um beise, que um ou outro fuma se ainda tem vontade. Vez ou outra também lá se toma um ácido. Apesar de tudo entre a meia dúzia de quartos da casa e os seus três andares, ora um ora outro os inquilinos aparecem e desaparecem e conseguem criar atmosferas mais tranquilas no remanso dos seus aposentos, à distância de maiores convulsões na sala e ante-sala comum. Mas o point acaba por ser também uma república chique.

           Tudo após e pós de nuvens passadas, como numa fotografia de Man Ray a Lua cheia intensa iluminando o Tejo entre o Mar da Palha e Santos, num dos belos mirantes desta Babilônia...

           Sem mais nem quê Eloísa decide passar uma temporada lá.

- Uns quinze dias. Preciso de tomar distância da minha vida aqui contigo. Pensar um pouco só em mim.

Uma idéia absurda, penso e digo. Como, tomar distância, aqui tão perto? Duvido que o pessoal a autorize a ficar, mas ela lá opera o milagre e a meio das ‘férias’ no Alto há uma festa devidamente programada. Eloísa, que ocupa um quarto livre no térreo, comparece vestida com seu traje de gala: a camisa de noite azul clara, quase transparente. Não usa sutiã, pelo que do corpo só não mostra o que a calcinha que por um outro milagre, talvez, decide vestir esconde. Está descalça. Parece uma daquelas belas fêmeas do Olimpo mas de óculos. Os olhares irônicos que lhe lançam não me deixam dúvida de que a opinião geral é que ela está doidinha de todo.

 

Do studio costumamos ir também em surdina ao Jardim da Estrela, o antigo Passeio da Estrela, outro ótimo espaço de recolhimento, ou passeamos no cais entre Alcântara e Rocha-Conde d’Óbidos.

 

           O progressivo isola-ilhamento de Eloísa começa a me fazer desatinar, já não sei quem é que está ou não está ou é mais louco entre os dois. Para tirar qualquer dúvida, não fosse por algum acaso ser eu o louco, chego a pedir a amigos mais íntimos que a vejam. Encontro e peço a Diogo e Joan que venham até o studio para que eles, aqui entre nós já não lá muito bem da cuca, me digam o que acham do seu quadro.

- Tá doidinha, doidinha. Flipou – atesta e sentencia Diogo através de um outro termo internacional da gíria freak finalmente adotado entre nós quando, após uma meia hora de titubeamentos e risinhos estranhos, saímos os três e caminhamos até o cais de Alcântara, abarrotado de contêineres dos retornas, entre os quais aquele ali, ó, diz-nos desta vez o amigo do terraço do restaurante sobre o cais, é o do Júlio...

Com Pepe na cidade, telefono-lhe a pedir que venha até casa para me dizer o que pensa do estado de Eloísa. A reação é, apesar do seu aparente destrambelhamento, como quase sempre assaz sensata.

- Está meio estranha, sim, pá – reage com embaraço a uma pergunta tola: a esta altura já nem sei se sou eu que estou só imaginando coisas.

          Uma vez ou outra ela lá se predispõe a sair às compras e “às compras”, num caso ou no outro sempre como que desmotivada, sem vontade de ver ou fazer. Passamos no Calhariz onde nos deparamos com Cleo, uma das amigas da casa do Alto.

         - Olá, Elô, tudo bom? – brinca ela, em paz com a vida.

         Um permanente grande sorriso, os olhos como dois faróis nos médios focados no nada, e nada. Em poucas semanas as centelhas flamejantes apagaram-se e os olhos azuis às vezes acinzentados assumem uma luz entorpecida e fria de néon, com um letreiro a projetando em anúncio acendendo e apagando 

L-O-U-C-U-R-A

frente aos interlocutores, que se entreolham com ar de caso. Frieza de gata asceta, pena de pavão, Sidharta, que lê e relê. Assim falou Ed: ou bem que sou eu ou é ela que está fora de si. A sensualidade deserotizou-se, eclipsou-se a chama de atração recíproca Câncer-Aquarius.  

                        

        Eu e a amiga trocamos informações de circunstância e nos despedimos, eu a modos que, para variar, embaraçado. Cleo despede-se de Eloísa e ela, nada.

        Retomamos a marcha para a Calçada do Combro.

- Por quê não falaste à Cleo?

- Não tinha nada para lhe dizer...

- Ué. Sei que o mais das vezes é só uma formalidade mas deve-se ao menos dar boa tarde às pessoas.

- Ah, não me enchas. Se não estou a fim de falar com as pessoas não falo e pronto. Que mal há nisso?

- Ouve lá, se fores à padaria comprar pão e não disseres boa tarde, dê-me cinco pãezinhos, vais morrer de fome, é ou não é?

Sinais claros do que, a partir de leituras de Laing e Cooper, de quem estou lendo Grammar of Living, acabadinho de sair do forno, identifico como esquizofrenia. Ou será oligofrenia pura e simples?

Cada vez mais distante e fria nada parece animá-la, nem comer. Quase não fala. Num final de tarde tento uma reaproximação física. Afago-lhe os cabelos, acaricio-lhe os ombros e avanço para os seios propondo-lhe fazer amor. Sentada na cama com Zaratustra, I Ching, Tao Te Ching e Sidharta à frente, esquiva-se uma e outra vez.

- Olha, não adianta tentares. Sexo para mim agora não quer dizer nada. Não tenho a mínima apetência e parece-me até ridículo. Estou noutra. Para que insistires? Tá bom, vem, se queres.

         Põe-se em pé na cama, tira de uma vez a camisa de noite e deita-se, puxando-me para cima dela.

         Possuo-a, como se usava dizer na melhor literatura rockmântica, mas é como se ela se tivesse transformado numa estátua, como Anne de Les Visiteurs du Soir, ou num bloco de gelo no Ártico.

         - Pronto, satisfeito? Agora sai – diz com desprezo, tirando-me de uma vez de dentro de si e já se sentando na cama. – Vês? Não vale a pena. A plenitude que busco está noutra coisa. Sexo para mim não tem a mínima importância. Aliás, é como se não existisse. Como se nunca tivesse feito ou fosse fazer. Não me faz falta. Se quiseres e se fazes tanta questão disso podes procurar outra. Eu não me importo.

         Hesse para que te quero... Budista asceta sem um mínimo de ironia. Sidharta. Zaratustra. Que Nietzsche tivesse morrido doidinho da silva pelo treponema pálido que lhe terá azucrinado o cerebelo, e se tivesse deixado embriagar pela visão do eterno retorno – e quem sou eu para discutir o mito do ‘eterno retorno do instante’ mais o que isso possa querer dizer -, pela vontade da potência, o super-homem, mas pode alguém acreditar nisso tudo tão profundamente quando ele mesmo disse que Deus morreu, porra! Porventura terá ele pretendido criar uma nova doutrina mística?! Posso até alinhar no princípio do imperativo categórico do outro – et pour cause! – e concordar totalmente com suas críticas à moral e à hipocrisia do sentimento de compaixão judaico-cristãs, que também condeno. Ou com suas críticas à democracia burguesa e à cultura e civilização ocidentais. Absurdo é que alguém leve os aforismos tão a sério, ou melhor, tão ao pé da letra.

         Por outras palavras. Zen sim mas não trôpego. Sou até demais e quero ser mais ainda, não fundir a cuca nem para dar aquela palha, isto está me cheirando a Friednietzsche e comparsas perigosamente ao pé da letra.

Apiedamento também não quero mas, egoístas ao máximo, nestes momentos tentamos convencer o outro que sem nós não há salvação – e é o que eu faço aqui. E depois, se a coisa para o outro dá pro torto, cobertos de razão, avança-se: eu não disse?!

Sintoma de falta de sabedoria. Será que ela não entende isso? Se entende, não diz.

          Os primeiros acessos do mal... Outros sintomas não são evidentes. Não tem nada a ver pensar em inferno legal-burocrático. Estamos acima. Passaremos longe dele. Estamos além do bem e do mal, numa nebulosa que se cristalizará no seio ou à margem do sistema. Não se pensa sequer em labirinto, huit clos, beco sem saída à bout de souffle. Ou pensa-se, porque estão lá, na literatura, nos filmes, nas peças de teatro, são parte da vida. Dos outros.

          O trepidar constante (do rock gregário) - e depois nada? À sua volta, uma aura de profundo recolhimento, in-di-vi-dua-li-da-de ao extremo. O brilhozinho dos olhos é que não engana ninguém.  

         Pego mais uma vez no quinto volume dos diários de Anaïs Nin e abro onde ela fala do seu reencontro em Paris com o amigo Carteret:

Ele parecia mais que nunca distante do presente e da humanidade. Lidava com abstrações tão esotéricas e obscuras que só nos restava escutar. Quando se conhece alguém bem, e alguma vez se voou sobre as malhas das suas fantasias, e se familiarizou com elas, não se reconhece com tanta facilidade os sinais de esquizofrenia, mas desta vez eu os senti. Ele fora longe demais no espaço. Falava uma linguagem inatingível. Muito além da astrologia. De uma enorme teia em que se embaraçou. Os seus olhos eram opacos. Mas agora estava fiando palavras, conceitos tão longe do nosso alcance que tive ganas de agarrá-lo fisicamente e resgatá-lo. Foi uma noite dissolvida num longo monólogo, irrespondível, inalcançável.

     Senti calafrios, desolação. O que o manteve agarrado à terra e aos seres humanos, e permitiu-lhe perder gravidade, e empurrou-o para um vazio?

         Adiante, onde ela fala de Lobo das Estepes, de Hesse:

Solidão auto-imposta que nada pode mitigar, as paredes que ele mesmo ergueu a separá-lo dos seres humanos. Pode-se sentir apenas compaixão por essa incurável doença da alma.

         Procuro uma outra onde se refere a mais um amigo doente:

Eu queria dizer: ‘Reginald, sai dos seus quartos escuros. Vem para a luz do dia. Vive com os amigos que o amam. Mas sua mensagem parecia ser: ‘Venha morrer comigo. Acompanhe-me na minha morte. Segure minha mão enquanto fico neste estado de não-existência.’

     Sempre há na insanidade um momento que não é humano.

‘Esquizofrenia tem os seus paraísos como os seus infernos e purgatórios’, conta Huxley a propósito de um episódio de um amigo com a sua ‘mad wife’.

         Um dia nos primeiros estágios da doença, quando ela ainda tinha os seus intervalos lúcidos, ele foi ao hospital para lhe falar das crianças. Ela escutou-o por um tempo antes de interrompê-lo abruptamente. Como poderia ele perder tempo com uma dupla de crianças ausentes quando tudo o que importava de fato, aqui e agora, era a indescritível beleza dos padrões que ele fazia, com a sua jaqueta de tweed castanha, sempre que movia os braços? Ai de mim, este paraíso de beatífica percepção, de pura contemplação unilateral, não iria prolongar-se.

         Tal e qual o que me ocorre observar em Eloísa.

         Não houve zanga, uma briga sequer. De repente, após a mudança – quando tudo muda, além da paisagem, mas não parece – ela mudou.

 

           O desprezo é intolerável. Quando acorda aparentemente mais animada o único lugar a que se predispõe a ir é Sintra. Ficamos um pouco na das Nogueiras, a que acorrem cada vez mais convivas de Lisboa. Ir lá passou a ser como ir a um clube de freaks. Quase sempre vamos caminhar na mata até uma clareira onde se fez um campo de futebol, abaixo de Seteais, em silêncio imposto por ela, que parece só cuidar do inanimado ou de seres como Billy, o cão da casa.

Num domingo, após termos mais uma vez pernoitado na sala, tomamos um ácido e saímos com Pepe e Sontex para passear pela estr ada de São Pedro, até que decidimos galgar pela encosta quase na vertical do castelo. A mata não é densa e apesar de muito íngreme a subida é facilitada pela grande quantidade de pedras e pedregulhos a que podemos apoiar os pés ou se agarrar. Em plena ascensão dos efeitos do acê estamos tão embalados pelo speed que conseguimos chegar a um relevo debaixo da muralha antes de Billy, que acompanha todos os valdevinos de visita à das Nogueiras em digressões à Periquita ou ao Café Central ou pela serra. Do alto a vista é estupenda, com a Vila bem debaixo dos nossos pés e em frente toda a planície da Praia das Maçãs à Ericeira. Quando voltamos o Poeta dos Pés em Chagas está acendendo cigarros embrulhados em mortalhas barradas com ópio. Deito-me numa mesa de pedra sob a nogueira ao lado perto da sala, onde está o som, a lua cheia entre a folhagem num sonho de Caspar David Friedrich com espasmos de piano elétrico de In a Silent Way, Sintra é o melhor lugar do mundo para distender e relaxar de todas as tensões, já o sabemos desde Eça, nada me incomoda além da sensação de solidão, melhor, de isolamento, ou seja, não poder compartilhar a minha visão onírico-romântica com ninguém. Rope the ladder to the moooon... Recolhimento e introspecção tão caros à alma romântica, contemplativa, melancólica. Noites na montanha.

 

A partir de Manhã na Montanha de Caspar David Friedrich     

 

           Em cinco meses só pagamos um aluguel e como tantos passamos a estar em regime de ocupação. Ao voltar uma tarde vemos que o filho carateca do proprietário, que mora dois andares acima de nós, tirou a porta do studio. O que fazer? Decido telefonar à Rádio Renascença ocupada, porque ali decerto haverá alguém minimamente informado sobre esse tipo de situação ‘revolucionária’, já que agora não é mais a ‘emissora católica portuguesa’ mas ‘a voz dos operários, camponeses e de todos os trabalhadores’. Dito e feito. Aconselham-me a ir a um quartel em Alcântara, que é o que trata dessas coisas na freguesia. Quando voltamos já está nos esperando um jipe com quatro soldados, que obrigam o filho do proprietário a recolocar a porta e o intimam a não nos importunar de novo. Reintegração de posse em tempo de inversão de papéis. Uma vez na vida não faz mal a ninguém, como experiência. Dá-nos a sensação de que o ‘crime’ compensa.

 

           Eloísa quer ir para Sintra, para a das Nogueiras. Um absurdo, penso e digo, batendo-me de caras na lembrança o que aconteceu no Alto.

- Quem vai querer você lá?

            - Há muito espaço, muitos quartos livres, não vou incomodar ninguém.

            - Isso é o que pensas. Mas e eles? Escuta, Eloísa. Você talvez não se aperceba disso mas está passando por uma fase muito especial, sei lá, você não tem idéia mas as pessoas olham para você como se fosse um ser do outro mundo, e de fato você está muito estranha.  Você leva a vida que leva aqui, recolhida, ensimesmada, numa espécie de ascese mística que a meus olhos tudo bem, pode parecer anormal, mas acho que devo respeitá-la e dar-lhe margem para viver como quer, não há problema, das coisas mínimas de que precisamos posso cuidar eu sozinho e acabou-se. Mas você acha que as pessoas vão se preocupar se você comeu ou não – e vão querer sustentar você? Não tou vendo o pessoal lá a dar-lhe guarida por muito tempo. Vá, por uns dias até que talvez a aturem, a modos de dizer, mas a casa anda sempre cheia de gente e acho que eles não estão a fim de transformar aquilo numa pensão. Porque não fica aqui, onde tem o seu canto e pode pintar e bordar que ninguém a incomoda?

            - Tá bom, mas então quero ficar sozinha.

               Que remédio! Embalo roupas e utensílios de higiene na mochila do exército britânico e deixo-a com alguns dos meus melhores livros, mais os discos e cassetes levados ou ali reunidos entretanto. Sem ansiedade, exterminadora do amor. A ver no que vai dar. Mas não passa um mês e sou informado de que ela deixou a casa com o parco mas precioso recheio ao proprietário e foi para a das Nogueiras.

                            

Dias depois em Sintra ânsia e angústia wetheriano-adolescentes mas sem drama.

           Apesar de já termos ‘ido para a cama’ é a primeira vez que Muriel, que acaba de mudar-se para a Casa das Nogueiras, dá um passo de aproximação a mim em gesto de cumplicidade. Põe a mão no bolso frontal do macacão, saca um SG Gigante, acende, traga e acena:

            - Vamos ali abaixo tomar um café.

            São as primeiras noites frias de Sintra. Sentamos junto a uma porta lateral, fechada, da sala do Café Central.

- Ouve lá, essa gaja tá muito mal, pá. Tá com uma porrada naqueles cornos que nem te conto. Tá chanfradinha, tás a domar? E além do mais ninfomaníaca, tás a ver? Um absurdo!

            - Ninfômana!!...

            - Sim, a insinuar-se com cada homem que lhe aparece pela frente como se fosse a Jean Harlow ou Rita Hayworth ou sei lá quem... tipo vamp, porque não me parece interessada em ninguém em particular...

            E ainda há dois meses, mais o seu ‘manto’ diáfano de fantasia, dizia que nem queria ouvir falar em sexo. Talvez só comigo...

            - ... a atitude dela chega a embaraçar toda a gente, tás a ver?, mesmo entre nós, que não estamos cá presos a questões de moral, mas tem de saber comportar-se, porra, ter um mínimo de bom senso, topas? Não há nada que possas fazer?

Quem tem medo de Virgínia Woolf em Sintra? Proponho-lhe um passeio. Nos embrenhamos na mata na penumbra brumosa de fim de tarde outonal. Por mim nada a fazer.

Penhascos Brancos (C.D. Friedrich) e a Loucura

 

        Entro num consórcio com Ivan e uma mulher de meia idade francesa que mora no Alto do Restelo para alugar uma casa com sala, três quartos, pequeno jardim e garagem, no Alto de Caselas, do outro lado da Avenida das Descobertas, onde mora a francesa, com quem Ivan diz estar tendo um caso.

Jamais vejo a francesa na casa que alugamos. De mobília tem apenas três poltronas e uma mesa mais um som, um colchão de casal no chão de um dos quartos e outros dois de solteiro sobre estrados de ferro nos aposentos restantes e um fogareirozinho elétrico de uma boca, um fogão e uma geladeira na cozinha providenciados por ela. É como um refúgio de delinquentes do tipo de They Drive By Night. Além da cama tipo catre de armar o meu pequeno quarto tem apenas um pôster de A Fúria do Dragão de Bruce Lee. Ivan ocupou o quarto mais amplo, com um armário embutido na parede onde pendurou a sua bela jaqueta de couro e um casaco de antílope, herança dos tempos romanos. Uma de minhas principais ocupações do dia é providenciar um lugar para tomar banho, porque não há gás para esquentar água e para piorar o anticlímax do pós-25 de Novembro, o golpe que pôs fim ao chamado período revolucionário em curso ou PREC, o inverno 75-76 afigura-se geladíssimo.

Peter é o maior animador do local. Ainda não aprendeu realmente a tocar violão mas sendo inclusive também canhoto produz acordes distorcidos com riqueza tímbrica e sonoridade que, em sequência, fazem lembrar Hendrix.

Peter e Ivan deixaram Moçambique ainda crianças, quando os pais tiveram de cair fora por envolvimento com a Frelimo, numa época em que após o assassinato de Eduardo Mondlane, logo no início da guerra colonial, a Defa (a secreta das Forças Armadas) fez uma razia nos quadros do partido. O pai estivera preso e saiu direto da cadeia, onde chegou a ser visitado por Tristan Tzara, para o exílio em Copenhague. A essa altura a mãe, jornalista, já vivia em Londres. Ivan fez o ginásio em Lisboa, onde os dois ficaram aos cuidados da avó materna, sua verdadeira mãe segundo ele. Os dois gêmeos univitelinos cujas mãos são iguaizinhas entre si e por sua vez assustadoramente semelhantes às do pai encontravam-se de quando em vez na casa da mãe ou do pai e de um tio pintor que mora em Roma, onde o tio descobriu que, aos 17 anos, Peter estava envolvido com heroína integrado a um bando em que pontificava John Paul Getty III, o tal que pelo mesmo motivo e outras mutretas fez-se cortar uma orelha para simular um sequestro e sacar do avô uma polpuda soma em dinheiro. Psiquiatrizaram-no - a Peter bem entendido - numa estúpida tentativa de tirá-lo do vício. Doido já ele devia ser há muito tempo. Mas o processo tornou-o ainda mais dependente de afeto e dinheiro, porque ficou tonto a ponto de não mais estudar e não se afeiçoar a nenhuma atividade além de pintar, o que executa como que por hobby com um gênio inato, oriundo talvez do tio, que faz com que se pense que um dia ainda será famoso. Mas para já é só um jovem muito desregulado. Chegou à casa de Caselas vindo de mais uma estada em Roma, sem nada para fazer a não ser pintar ou desenhar quando tem condições, ou seja, papel, cartão ou tela, tinta, pincéis, lápis ou um pedaço de carvão à mão. Certo dia aparece de unhas pintadas de vermelho. Os vizinhos do vilarejo, que tem apenas uma venda, já não deviam estar vendo com bons olhos os novos moradores. Imagina agora, quando Peter chega a incomodar o próprio irmão, que entretanto, de prosa, sempre fala dele como um gênio.

 

Uma tarde, o choque. Eloísa foi parar na emergência do Júlio de Matos e de lá transferida para a clínica da Idanha. O pessoal de Sintra não aguentou os seus desvarios, o seu modo de estar tão à toa e de passagem sua atitude ninfômana e total dependência dos outros e telefonou aos pais para a pegarem. De volta a casa, um dia, numa discussão, terá passado dos limites na altercação e foi levada ao Júlio onde para acalmá-la puseram-na em sono insulínico. De quadrúpedes, pelas primeiras impressões, porque o seu problema é estar abobalhada, quase inerte. Poderão tê-la transformado em vegetal. Para mim é como se tivesse morrido. Psiquiatrização, uma viagem sem volta? Despeço-me de Eloísa agachado junto ao fogareiro elétrico da cozinha esperando que a água se decida a ferver, as mãos na cabeça, os olhos marejados, a angústia me atabafando como se também a mim me tivessem dado um choque insulínico. Como se estivesse num quarto da ‘clínica’. Vêm-me à mente aqueles filmes de terror barato passados em hospícios no apogeu da Idade Clássica e todas as histórias de loucura que conheci de perto e de que ouvi falar. Do amigo Solemar que aos 15 anos, quando os pais souberam que fumava maconha, foi internado no Hospital Auguste Pinel do Rio e entre mais uma e outra internação acabou por morrer.

Eloísa perdera – se alguma vez tivera – qualquer noção de detachment ou humour. Sem tentar um equilíbrio entre ser e parecer ou perceber a ironia (in)contida em Nietzsche, por exemplo. Ao mesmo tempo em que se arvorava uma altivez de superioridade em relação às coisas simples – as mere things de Huxley - do dia-a-dia, que condenava por reduzirem as pessoas a autômatos, robôs, bonecos ou máquinas que só respondem a estímulos pré-ordenados.

Vai para a casa de um japonês viajante na Várzea de Sintra, uma espécie de sucursal da Casa das Nogueiras com quartinho, saleta e quintal, e abanca até o anfitrião morrer afogado na Praia Grande e voltar à base até ser de novo expelida para enfim ser reenquadrada, algemada, embalsamada em vida com a capa de proteção de ansiolíticos.

Aparentemente não havia nada de tão anormal nela além do distanciamento das pessoas – ao menos daquelas que giravam em sua volta naqueles dias – e das coisas, com a exceção de Assim Falou Zaratustra, do I Ching, das cartas de Tarô ou da doce desventura de Hans Castorp. Tivesse grana e poderia ir para uma pensão, um hotel ou alugar uma casa em Sintra e viver numa boa pelo resto dos dias, como um heroinômano com condições de sustentar o vício. Doida mas quem sabe feliz. Talvez. Até o dia da overdose... Ninfômana? – quantas não o são e apesar do desvario, ou em função dele, não se administram?

O que a levou lá? – me pergunto angustiado enquanto ponho o saco de chá de jasmim no bule de barro. O que a fez cair na armadilha do manicômio?

E imagino, tentando articular as poucas informações que me foram passadas: uma fúria, a urgëncia do hospital, de madrugada, um shot de insulina.

Como nos filmes em preto e branco de Hollywood. Pior que aquele sobre Freud de John Huston ou Spellbound de Hitchcock.

Conflitos familiares, tormentos d’alma e complicada relação com os outros e com o mundo. Se Jung aqui estivesse diria que há até fortes indícios de permanência do conflito entre o Arquétipo do Animus e o do Pai. Do signo de Câncer tem muita dificuldade de entrar na idade adulta, segundo os especialistas.  

Conflitos amplos e profundos, busca de autonomia, liberdade,independência,afirmação pessoal - e de repente vê e vive Brahman, o Terreno do Sagrado ou o Todo,o Universo ao seu dispor. Pira. É uma flor pagã. Perde o contato com o Terreno do Profano - com o quê?

 O que me faz lembrar Timothy Leary, que se refere a esse tipo de "desajustados" como those institucionalized mystics we call psychotics.

Chega Ivan.

- Que coisa absurda. Como é que ela se deixou enredar dessa forma? – comenta, a pretender denunciar uma sua qualquer debilidade – vá – psicológica, porque na sua ótica só um débil mental se deixaria enredar nas malhas da loucura. Talvez tenha razão.

 

A internação de Eloísa é a primeira séria bad vibe em minha biografia. Até aqui consegui passar mais ou menos incólume pelas vicissitudes, me mantendo a salvo de intolerâncias, preconceitos e estreiteza de espírito, inclusive de mim mesmo. E imaculado. Fosse talvez mais esperto e não poderia ter influído numa mudança de rumo da garota, que talvez me seja mais querida do que antes porque agora é vítima indefesa ainda que da própria ignorância, talvez, se não do sistema ou da má sorte, por ter vindo ao mundo num núcleo familiar tão limitado e opressivo. Fala-se de pessoas que nunca voltaram de uma viagem de ácido. A sua trajetória ao longo do ano, deslumbrada como me pareceu de início, alheada dos mais elementares preceitos de ordem prática, poderia levar a pensar também nisso. Aprendi a tomar distância do conceito de culpa judaico-cristão. Já era maior e vacinada para saber o que lhe convinha ou não ou arcar com as consequências e tudo somado, fora talvez o primeiro namorado, que não conheço mas me parece personagem condenável, ela nunca andou com o que se poderia chamar de más companhias. Na cabeça One Flew Over the Cockoo’s Nest e Frances

 

 

 

 

                                                                                                                                                     ELOÍSA

                                                                                                                 

                  

                                                                                                                                                                                     OU

                                                                                          A MAIS NOVA

                                                                                                                                                                             HELOÍSA

 

 

         

                                              OU  ELOITH  E  O  DESTINO

PARTE 2

 

PARTE 2

 

      Na cabeça One Flew Over the Cockoo’s Nest e Frances

 

Rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá Afonso me diz: não escrevas um livro sobre psiquiatria Rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá o tu resti con me questa volta o... Che cosa? ... Rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá Da dove vieni? Dal paese, a raccogliere frutta Rá rá rá rá rá rá rá rá rá Che cosa hai fatto? Te lo giuro, sai, non son riuscita a capirlo pure io Rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá (io lascio perdere) Rá rá rá rá Francamente io non so come da due persone come voi sia nata una insana Rá rá rá rá rá rá perché io sono stata sempre me stessa Rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá hai  mai scopatto una diva del cinema per venti dollari? Rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá Lobotomia Lobotomia Lobotomia Rá rá Transorbitale Rá rá transorbitale lobotomia inventada por um português, Prêmio Nobel Rá rá rá rá rá rá leucotomia pré-frontal Rá rá rá rá rá rá rá rá tomando un bel Chianti dopo una bella pasta al sugo Rá rá rá...

Não chego a nenhuma conclusão. Tudo muito  complexo, confuso... Não consigo sair dessa. Proponho a Helena Vaz da Silva, editora do suplemento Alternativas do Expresso, fazer uma reportagem sobre a assistência psiquiátrica em Portugal e o estágio do pensamento e da prática em torno da loucura e da psiquiatria no país. E começo trabalhando em casa mesmo. Chego, acendo uma vela, porque a luz não foi paga e está cortada, e vejo Peter sentado no escuro. Falo do meu trabalho e proponho ir até o meu quarto para gravar uma entrevista sobre sua experiência. Nos sentamos no chão junto do catre, a cassete rodando e ele respondendo com evasivas a uma, duas perguntas, até que...

- Ouve cá, não tens nada que se fume?

Sei ao que me arrisco, porque o fumo do da Maianga ainda é uma paulada dos diachos. Não posso perder a oportunidade única de colher o depoimento de Peter, que decerto ao longo da conversa irá me dar impressões de dentro e profundas sobre a questão, mas não tenho saída. Faço, acendo, fumamos e... não se fala mais em psiquiatria.

         Vamos para a sala. Diz que ficou toda a noite acordado. Queres saber o que aconteceu? Espera um pouco. Na noite insone, à luz de vela, preencheu uma agenda de mais de cem páginas que desata a ler - e não é que, pela forma e conteúdo, a loucura do discurso faz sentido?

 cenário

Um dois cavalos sobe aos solavancos a colina da casa de Caselas e estaciona no jardim. É noite e a casa está no breu. Com o meu amigo retiro meus poucos pertences e vamos assistir à meia-noite Dillinger è Morto, de Marco Ferreri. Um estupendo Michel Piccoli passa o filme cozinhando uma janta só para ele enquanto ouve no rádio uma seleção de hits italianos dos anos 60. No final mata a mulher e aparece numa praia, de onde nada até um iate onde se oferece para trabalhar como cozinheiro.

É madrugada alta quando chegamos ao meu novo refúgio. Da estrada de Camarate em Sacavém segue-se até um quilômetro antes da Apelação e sobe-se com cuidado uma escada que dá acesso à antiga cavalariça de uma quinta queirosiana, porque de noite ela é guardada por um feroz pastor alemão que só respeita o tratador. Feita por uma família de arquitetos, a casa ‘é uma desbunda’, pequena mas muito bem dividida. Entra-se por um pequeno hall com um divã fazendo de sofá. A cozinha ao fundo, sem divisória, bate a de Piccoli nos itens mostardas e frigideiras, que o amigo coleciona. No parede de fundo um piano velho e desafinado. Quatro degraus de pedra e eis um plano intermédio com um quarto à esquerda em que se vê ao fundo uma cama de casal e uma janela baixa incrustada na parede grossa como a de uma fortaleza. Do outro lado um pequeno banheiro. Mais quatro degraus de madeira e chega-se ao loft do estudante e estagiário de arquitetura, com duas janelas grandes abertas na parede por alturas do joelho, uma prancha e duas luminárias de arquiteto e uma cama de casal mais um som e alguns discos e livros. O amigo só vem de vez em quando porque mora com os pais em Lisboa.

Fico completamente a sós no retiro, rodeado de silêncio quando não ouço música. Ninguém parece acreditar quando digo que moro num local bem bacana num lugar chamado Apelação, de que nunca se ouviu falar, além do mais perto de Sacavém.

bagagem

Pouco a pouco monto uma bela biblioteca e discoteca, a segunda leva dos melhores discos e livros das minhas coleções, acrescidos com o que compro de literatura de pesquisa para a reportagem e os discos que vou recebendo, entre os quais a melhor parte do catálogo da Harvest, com Joy of a Toy, Shooting at the Moon e Whatevershebringswesing de Kevin Ayers, S.F. Sorrow do Pretty Things e os primeiros LPs da Savoy Brown e da Climax Chicago Blues Band. O meu estudo centra-se numa edição de bolso da Gallimard com Illuminations e Une Saison en Enfer de Rimbaud, Les Fleurs du Mal, The Marriage of Heaven and Hell, os manuais de Laing e Cooper, Elogio da Loucura, O Anti-Édipo, Histoire de la Folie e Surveiller et Punir de Foucault, o último ainda com cheiro de tinta fresca, acabado de comprar na Bucholz, e The Manufacture of Madness – A Comparative Study of the Inquisition and the Mental Health Movement - que poderia traduzir-se por A Invenção da Loucura - do húngaro-americano Thomas S. Szasz. Com a publicação de O Mito da Doença Mental em 1961 Szasz tornou-se uma espécie de papa do então nascente movimento de antipsiquiatria ao anunciar que os psiquiatras são os inquisidores modernos, que rotulam os comportamentos para melhor controlar a conduta das pessoas.

Doce refúgio, bela solidão, aumentada porque Ivan conseguiu uma bolsa para fazer um estágio em Paris. Muito esporadicamente toca o telefone.

a lou

cura aqui

a loucura

agora

Deleuze e Guattari deviam estar loucos quando escreveram que o futuro não era da proletarização mas da esquizofrenia como princípio criador. Belo delírio. E a má criação de quem errou a mão no exercício da loucura, como se trata, dr.? – pergunto ao psiquiatra que me serve de guia nas reportagens nos hospitais psiquiátricos, manicômios ou o que lhes chamem Miguel Bombarda e Júlio de Matos, em que faço o trabalho de campo, e orientador sobre o pensamento em torno da loucura e da psiquiatria e o mundo dos psicofármacos.

- Trata-se com os substitutos da camisa de força, neuroléticos, ansiolíticos, as camisas de força da mente.

Trancafiada em camisa de força depois de ter dado livre curso à alucinação, sem disfarces no mínimo gesto ou monossílabo. Pura, ingênua e selvagem como um primata. Viajo na cabeça da outra, que nem sei como está e o que sente agora.

Num estudo do gênero um indivíduo acaba por imbuir-se de uma dose considerável de frieza científica mas certos escritos que consulto – mesmo os que já li e reli – são de gelar a alma. Como a descrição do poeta beat Carl Solomon da sua experiência de coma insulínico em Report from the Asylum:

 

Cedo o coma confirma todos os medos do paciente. O que começou como um sono drogado transforma-se de maneira orgânica num dos milhões de universos psicofísicos que se deve atravessar antes de ser acordado pela sua dose de glicose. O coma destroi a memória do paciente enquanto a glicose o engorda até a deformação.

 

A insulina, diz ele, mergulha sua vítima no vazio profundo da indiferença, a resposta do sistema à  contestação radical  da insanidade,  se  quisermos  levar  a  coisa para o prisma de interpretação de Antonin Artaud ao escrever sobre sua experiência em Rhodez: o louco prefere assumir-se como tal a trair sua ideia superior de honra numa sociedade dominada por vícios que inventou a psiquiatria para se defender da investigação de mentes lúcidas e superiores cujos poderes intuitivos a incomodam – anoto de um estudo de Maciel, Luís Carlos, jornalista brasileiro. Desse modo a psiquiatria é uma punição, não uma tentativa de cura da doença mental.

Os anos 60, e 68 em particular, deixaram rastros profundos - num caminho sem volta? Ainda é moda por exemplo contestar as instituições de forma radical, e Foucault o faz a preceito, assumindo uma posição que já foi classificada de ‘psiquiatricida’, exaltando também ele a loucura como o ponto mais próximo do conhecimento absoluto, a exemplo de Artaud. Mas leio que quando foi defender sua tese de doutorado, A História da Loucura, onde afirma que a doença mental não passa de um ‘objeto’ inventado e modelado pela psiquiatria, e pediu a Georges Ganguilhem para ser o relator, o autor de O normal e o patológico ripostou: Se isso que você diz fosse verdade nos já saberíamos há tempos.

Estou a favor de tudo o que conteste a Instituição, como a da loucura, mas se ela, tal como é interpretada e tratada pelo sistema, não existe como pode uma pessoa que me é tão cara se deixar encurralar e ‘aprisionar’ por ela – numa aparente renúncia (voluntária?!) a toda e qualquer forma da chamada lucidez?

Aldous Huxley cita excerto do Journal d’une schizophrène, o registro autobiográfico da passagem de uma jovem pela loucura, onde o mundo do esquizofrênico é chamado ‘le pays d’éclairment’, terra do esclarecimento, ou ‘country of lit-upness’, segundo o autor: território da iluminação. Segundo ele uma expressão ‘que um místico usaria para identificar o seu paraíso. Pessoas mentalmente disturbadas perderam contato com matéria, linguagem e seus semelhantes. Não têm objetivo na vida e estão condenadas à ineficácia, solidão, e a um silêncio apenas quebrado pelo guincho insensível e a algaraviada dos fantasmas.’

Conflitos familiares, insuspeitáveis e talvez insuperáveis tormentos d’alma e complicada relação com os outros e com o mundo. As perturbações, ao tentar resolvê-las, transformou em abstração, o que não resolveu o problema. E algum problema tinha porque caso contrário não lhe seria difícil entender que, pela conjuntura sócio-econômica, não haveria como abstrair-se das regras do jogo. Ron Laing, que mantém com David Cooper a comunidade de terapia regressiva de Kingsley Hall – um dos ‘templos’ (nós, os iconoclastas...) da contracultura -, vê a esquizofrenia como estratégia de sobrevivência: a insanidade pode ser um ajustamento perfeitamente racional a um mundo ensandecido, e escreve no seu O Eu Dividido:

 

É sabido que estados temporários de dissociação da subjetividade separada do corpo ocorrem em pessoas normais. Pode-se dizer, em geral, que é uma resposta disponível à maioria das pessoas que se encontram enclausuradas numa experiência ameaçadora, da qual não há possibilidade de fuga física. Prisioneiros tentam sentir-se assim, pois a situação não oferece nenhuma saída especial sequer por um breve período de tempo. A única solução é a retirada psíquica ‘para dentro’ da própria subjetividade e ‘para fora’ do próprio corpo. A dissociação é caracteristicamente ligada a certos pensamentos como ‘Isto parece um sonho’, ‘Isto parece irreal’, ‘Não posso acreditar que seja verdade’, ‘Isto não está acontecendo comigo’, isto é, com sensação de estranheza e falta de contato. O corpo pode continuar agindo exteriormente mas interiormente é sentido como se estivesse agindo por sua conta, automaticamente.

         G. K. Chesterton é mais simplista mas talvez não menos profundo: um louco pode até acreditar que é um frango, mas só irá parar num hospício se não perceber o aspecto cômico da ideia.

Alguns autores dão a entender que não é preciso sequer chegar à ideia talvez maluca de que Eloísa nunca ‘desceu’ do primeiro ácido – ou dos dois... – ao afirmar que além de problemas psicomotores e ataxia o HTC da liamba poderá impossibilitar um indivíduo de produzir um raciocínio médio, por despersonalização que conduz à fantasia, ao mundo da abstração, com alucinações auditivas e visuais, as chamadas delusões, que por sua vez poderão produzir psicoses temporárias. A tal teoria de que a erva queima os neurônios...

         Humphrey Osmond descortinou semelhanças entre a composição química da mescalina e o adrenocromo produzido pela decomposição da adrenalina, que pode causar profundas alterações de consciência, algumas idênticas às que ocorrem segundo Huxley ‘nessa tão característica praga do século XX, a schizophrenia’.

 

Vá lá, por uma vez toca o telefone me acordando do largo parapeito da janela do quarto. É Leda.

- Edgar, estive com Eloísa, fui visitá-la e não imaginas, é horrível. Ela está péssima, diz que está lá porque é preciso, coitada! Não dá nem para brincar com isso, mas eu diria que agora sim é que ela está doidinha de todo. Falei-lhe em fazê-la sair de lá e sabes que ela disse que sim como se não estivesse minimamente interessada?!... Ed, vamos tirá-la de lá?

- Tirar como?

- Sei lá, fazê-la fugir.

- Fazê-la fugir?! E isso é fácil?

- Não sei, acho que não. Além do mais a clínica, ou lá o que é aquilo, tem uma cerca altíssima. Mas arranjaremos um meio de pô-la cá fora, de fazê-la sair conosco.

- E o que acontecerá aqui fora? Onde é que ela ficará? Claro que com os pais não vai ficar. E como irá ficar?

- Não sei, mas sinto que tenho de tentar.

- Leda, fazê-la fugir contra a vontade?!

- Não é contra a vontade. O que acho é que lhe seria indiferente sair ou não mas uma vez posta face a uma possibilidade concreta quem sabe ela não se anima? Tentamos?

- E se ela não quiser sair? E se afinal – e não é que eu pense assim, mas por que não partir daí também? – é lá que ela está melhor? Melhor que aqui, onde ninguém entre os amigos que escolheu para partilhar o seu delírio quis saber dela? Não digo que mereça ou tenha querido mas por que é que ela foi parar lá e depois não saiu de novo da casa dos pais? Afinal, tem 21 anos, é maior e vacinada!... Tá bom, vamos conversar para ver o que podemos fazer. Mas para fazer qualquer coisa vou ter de ir lá antes? Eu não quero. A última visita do gênero, entre aspas, que lhe fiz foi na Casa das Nogueiras. Prometi a mim mesmo, porque nem sei como encará-la. Melhor então desistir logo. Vou pensar.

     Desligo e abro um livro de poemas de João Carlos Pais.

  

                        Declino responsabilidades se quiserem assino rá-

                         pido pronto ponto final  na  questão  internem-me

                        arrumado o caso declino repito pois sei que aqui

                        anda dedo divino a minha talvez oculta  face no-

                        turna agora acesa  incendiando  o  cérebro  e as

                        paisagens sinistras que descrevo  e  até  escrevo

                        para ti as coisas terríveis  que  escondi  durante

                        tantos anos e todos os complexos tanto faz agora

                        em total destruição locomotiva  doida  em direção

                        à morte que na próxima curva  me  aguarda recli-

                        nada em seu divã de sexo aberta  às  mais sutis

                        propostas  para  morrer  (ó morte!)  de amor  de

                        vinho de loucura ardente.

         

               

             Não se trata de criar uma uniforme paisagem. Um deserto

            de coisas. De seres conformados. Mas sim da criação. Trabalho

            criador. A solução pessoal em universos paralelos. Novamente:

            prazer próprio; funções vitais.

            Não se trata de mágicas soluções (metafísica? senhores!),

            nem de remédio a alimentar a produção, o consumo. Abro os

            jornais: doenças mentais em Portugal. Fala-se de psiquiatria,

            psicanálise, psicologia. Tiras extensas de prosa continuada.

            Maldosamente me dás às tantas vontade de rir. Recuperar? 

            Para quê? Para quem? O(s) sistema(s) abaconha(m) os filhos pró-

            digos, os resíduos, a pestana caída sobre a mesa. Será neces-

            sário ir mais ao fundo. Questão de perfurar até ao osso; ao

            tutano; à fibra; à célula; ao nervo; ao sistema tentacular

            que tudo procura definir, catalogar, programar, planificar. É

            contra a planificação (sejamos radicais) que em cólera avança

            o processo criador.

 

                     O(s) sistema(s) abocanha(m) a pestana caída sobre a mesa...

 

         Ao partir para a reportagem, enquanto leio e reflito sobre a matéria, só vou a Lisboa de duas em duas semanas, para entregar artigos, pegar discos a ‘criticar’ e me reabastecer de comida e fumógeno. Nas viagens leio a correspondência de Gandhi com Tolstoi, com que dou um mergulho mais profundo nos princípios da não-violência.

         Minha base em Lisboa é a casa de Rosário, que trouxe notícias da Índia, onde ficou seis meses de gozo de licença sem vencimento e para onde voltará, segundo os planos do bando dos quatro, de quatro em quatro meses, por um mês, desfrutando de folgas acumuladas acrescidas de outras conseguidas através de horas extras. Servirá de ‘mula’ do grupo, que compra tecidos e peças de pano, incenso, pequenos objetos ornamentais e instrumentos musicais por rupia e meia, despacha-os pelo correio ou espera que ela os vá pegar para vendê-los em Lisboa e mandar ou levar dinheiro aos remanescentes. Conta que chegado a Cabul o quarteto de neo-hippies foi assaltado e ficou apenas com a roupa que tinha no corpo, os passaportes e o dinheiro de bolso, que deu para chegar a Goa, onde decidiram abancar em Anjuna Beach. Até o cartão American Express voou. Sobreviveram com um dinheirinho que Mandarim e Lila deixaram em Lisboa. Com 300 dólares dá para viver um ano em Anjuna.

  uma estação no inferno

 

         O meu orientador me dá todas as indicações para entrar e me movimentar no Miguel Bombarda, onde trabalha.

         - Não vá à direção, porque se não vão lhe preparar uma visita guiada e você não vai ver nada. Ao entrar no portão vire à direita e vá ao longo do prédio até a primeira entrada lateral. À sua direita terá o pavilhão de segurança, onde é fácil entrar. Foi onde António Reis rodou Jaime. Não deixe de lá ir. Os homens ficam em condições subhumanas. Mesmo em frente há uma entrada lateral do edifício principal. Não diga nada. Pegue o elevador e tente entrar na Quinta de Mulheres.

        - Quinta de Mulheres...

        - Quinta enfermaria de mulheres.

 

        Sou acordado por Rosário bem cedinho, à hora em que ela acaba de se preparar para ir para o trabalho e enquanto tomo um banho de imersão ela me passa uma cônica de um boi excepcional.  

        Estou em ponto de bala para a primeira imersão no universo concentracionário da loucura, uma tijolada monumental.

        Sigo as instruções do orientador. Uma vez ultrapassada a zona da portaria não haveria perigo de me apresentar como jornalista. O pessoal pensaria que tenho o aval da direção. O pavilhão de ‘perigosos’ é uma espécie de pequena arena com o que poderiam ser baias de cavalos a toda a volta, formado por celas individuais. Uma delas está aberta para o banho de sol do louco que a ocupa e limpeza do cubículo, que tem uns dois metros por um e meio. Reconheço, mais feio, o cenário de Jaime, um documentário apaixonante de Antônio Reis. Surpreende-me ainda mais que deste inferno se possa fazer Arte. Celas de psiquiatria castrense e de castigo para quem se porta mal. Pior que solitárias de muita cadeia, apenas com um vidro redondo da grossura das portas de cerca de um palmo de diâmetro, de modo que a cara dos encarcerados, encostadas às vigias, parecem deformadas, não há afinal diferença alguma com aqueles filmes de Boris Karloff e Vincent Price, mais medonhas que as dos mais medonhos dos seus personagens, desdentadas e com barba de alguns dias, parecem até loucos e são loucos psiquiatrizados, internados, presos, sem fisionomia própria, mas a de todo louco preso. Talvez porque todos vistam a mesma roupa de presidiários mal tratados e sejam obrigados a usar o cabelo cortado a zero. Descaracterizados, despersonalizados, desumanizados.

        Uns e outros iguais a macacos, iguais uns aos outros. Tratados talvez pior que macacos em jardins zoológicos, porque estes ao menos sempre têm algum espaço nas jaulas ou ao ar livre para fazer suas macacadas. Aos loucos da Primeira de Homens não é permitido nem mesmo mostrar as suas aos colegas. Por que falam só de Auschwitz? Ok, estes aqui não vão para a câmara de gás, mas não seria melhor morrer de vez? Quando irão sair daqui e como? Que crime fizeram para viver assim? Mataram alguém? Talvez. Mas isto é castigo para alguém? Melhor então não se fazer passar por doido, ser condenado à prisão perpétua num cárcere comum. As condições serão melhores.

        Por que raios se fez então a bendita ‘revolução’? Com muito menos na Itália Franco Basaglia lançou as sementes da abolição da instituição, hospício, manicômio... É revoltante. Sinto-me bem na minha pele de rebelde e, é claro, não queria estar na pele deles. Zoo Humano sem tirar nem pôr. A Pide ainda aqui.

 

        Sigo até a Quinta de Mulheres, indignado mas sereno como posso, com a cabeça em turbilhão pelo efeito da potente erva fêmea oxigenadora de neurônios, pensando no que diz Foucault sobre a relação da sociedade com a loucura até a era medieval, quando os mentecaptos eram postos quase à deriva em ‘barcos de loucos’, e como ela muda radicalmente na idade da razão, a da institucionalização da psiquiatria como ciência e da invenção do manicômio, área de confinamento que permite aos ‘sãos de espírito’ esquecerem-se até dos que passam a ser só ‘espíritos do mal’ e de que arquitetonicamente o Miguel Bombarda é um exemplo-padrão, com as suas altas muralhas nos confins do jardim do Torel.

        Chega o elevador e me esgueiro para dentro. Abre-se a porta – é aqui a 5a? - Sim – saio em frente a uma porta que se abre, entram umas quantas enfermeiras, quem abriu a porta me interpela – O senhor é?... – Jornalista, em reportagem, etc., já com medo que telefone para a direção, mas após breve hesitação me deixa entrar, fecha-se a porta atrás de mim, estou preso com umas 50 mulheres num dormitório do tamanho do edifício, as que estão nas camas mais próximas do espaço que faz de corredor inclinando a cabeça sobre os ombros descaídos desde lá do fundo, curiosas com aquele que deve ser o único homem que entra aqui sem bata branca. Vá que algumas, poucas, parecem mesmo doidinhas, eufóricas, querendo me tocar como se eu fosse um beatle, de resto até que estou muito parecido, não fossem os caracóis, me fazendo perguntas em vez de ser eu a fazer a elas, reclamando uma da outra, e olho para uma e outra mais distante, é claro, em hospital público, só pobrezinhas, e de aparência tão normal. A uma ali que tricota, por exemplo, só lhe falta ter ao lado um rádio e uns exemplares da Crônica Feminina para ser uma dona de casa em hora de pausa das lides domésticas, o que faz aqui trancada, será que tem acessos que tornam sua presença em casa intolerável ou está aqui apenas por comodidade dos parentes?

        À saída, na emergência, chega uma ambulância dos Bombeiros de Palmela. Do lugar do carona sai um homem com ar de lavrador. Do banco traseiro é tirada uma mulher aos berros: Eu não estou louca! Não sou eu que sou louca! Ele – e aponta para o que será o marido – é que é maluco e me põe fora de mim! O que será que aconteceu lá em casa esta manhã? Não tarda nada estará calminha, calminha, quem sabe na Quinta de Mulheres. Faz me lembrar o título da última publicação de Szasz - The Age of Madness: A History of Involuntary Mental Hospitalization.

 

        Chegado ao portão após duas horas lá dentro tenho uma súbita sensação de profunda estranheza e me surpreendo ao ver as pessoas à minha frente ou passando por mim com um passo rápido após o outro em linha reta, como se isso não fosse normal, caminhar, um passo após o outro em linha reta. Que paulada!

 

        A primeira abordagem do Júlio de Matos já é diferente. Por cinco anos morei na vizinhança. Me acostumei a ver os loucos que deixam sair ou fogem pedinchando cigarros ou uma esmola. Fazem parte da paisagem. Vou até a pracinha em frente à entrada. Lá está um sentado num banco. Faço de conta que não é nada. Me sento em outro banco, ponho o gravador ao lado, puxo um cigarro e acendo-o. Mal acabo de dar a primeira tragada o homem de uns trinta e poucos anos – ‘louco’ também não tem idade, porque o cabelo deste também me parece precocemente embranquecido - já está me pedindo um cigarro. Faço-o sentar ao meu lado, ponho o gravador em marcha – e ele, o que é isso, um gravador? Está a gravar? A gravar o quê? – O que estamos falando. Quer ouvir? - Sim. Ah, olha que piada, pois não é que é a minha voz? E esse aí, o outro, quem é? - e colho uma história que desde logo me parece fantástica, até porque não entendo patavina do que o homem me conta, que me parece em código, ouço-a e reouço-a e volto a ouvi-la e começo a montá-la como um quebra-cabeças da forma que me parece lógica, e me vem das lições do novo jornalismo a idéia de transcrever na reportagem o que ele me diz, palavra por palavra, aparentemente sem nenhum sentido, e ao lado colocar a minha interpretação dos fatos que segundo ele, que diz que veio de Angola, consistiriam numa briga de partilha de bens em família de que foi apartado ao ser dado como louco e psiquiatrizado por meio da insulina, que lhe terá causado um desarranjo nos intestinos pois diz: deram-me uma injeção e abriram-me o cu. - Como?! O cu, o ânus, está a ver?, deram-me uma injeção e ele abriu-se, e com as mãos faz o gesto de esgarçamento. Desde então não me contenho, compreende? Deram-me uma injeção que me abriu o ânus.

        Por um punhado de angolares?!

         

Ângelo de Lima, poeta português da Geração de Orfeu, cuja internação chegou a ser noticiada pela imprensa de seu país como a de Um Poeta em Rilhafolles - a imagem acabada de louco ou "louco" psiquiatrizado em Portugal no século XX

Foto: reprodução de Ängelo de Lima - Poesias Completas, Editorial Inova, Porto, 1971

E por falar de a lou cura aqui (Portugal) a loucura agora - a lou cura aqui (Brasil) - a loucura? O poeta brasileiro Torquato Neto viveu o cabo das tormentas antes de se suicidar em 1972. Chegou a se internar no Hospício D. Pedro II, no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro - Engenho D'Entro, como os organizadores Ana Maria de Araújo Duarte e Waly Salomão intitularam o capítulo sobre essa sua experiência da primeira edição de Torquato, neto OS ÚLTIMOS DIAS DE PAUPÉRIA, de que eis reproduções de dois instantâneos em segunda edição revista e aumentada, Editora Max Limonad, São Paulo, 1982

Torquato Neto - uma outra variante em torno do tema da loucura? Suicídio, segundo Camus, o único problema filosófico sério - o que é O Estrangeiro de Albert Camus, que na sequência de um ato totalmente fortuito se entrega à pena de morte como um predestinado? Existirmos - a que será que se destina, pois quando tu me deste a rosa pequenina vi que és um homem lindo e que se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina tampouco turva-se a lágrima nordestina, apenas a matéria viva era tão fina: Caetano Veloso na Cajuína compartilhada com o pai de Torquato Araújo Neto.

Clockwork Orange / Laranja Mecânica - Stanley Kubrick

outra variante - e de que trata? Nomeadamente de um aparente desvio que gera a violência não animalesca, pois que para todos efeitos ir/racional, e da correção do desvio pela intervenção violenta no organismo doentio por parte da sociedade que pode estar ela mesma na base dessa violência incontível (?) e intolerável. Ou o que será que está por trás disso tudo, a violência que gera a violência e a reação violenta à violência, a loucura, que loucura, a lou, a cura ou suposta cura?  Insanidade de uma ponta a outra - tema recorrente em Stanley Kubrick, de Paths of Glory a Dr. Strangelove e o tiquetaque da laranja mecânica.

Clockwork Orange causou arrepios pela abordagem franca e despurada dos dois lados da questão: o "desregulado" ou "desajustado" e a sociedade. Um historiador de cinema que a-ma Meu Ódio Será Tua Vingança, de Sam Peckimpah, para ele "poeta do sangue", diz que a fraqueza de Kubrick é não ter muito tempo para e empatia com seres humanos. Ele criou uma sociedade tão desalmada e desumana que não se tem alternativa senão torcer pelo psicopata.  Como diz o outro: é isso aí.

 

        Situação dramática vivo na cozinha do Júlio, com panelões do tamanho dos de bruxas com mistelas inenarráveis, conteúdo indistinguível e água e pedaços de peixe e batata cozidos espalhados pelo chão onde, do alto das minhas socas de Viseu, embora já com solas de borracha, deslizo correndo o risco de a cada passo me estatelar no chão.

        Primeiro trabalho de campo feito volto ao orientador.

        - Dr., quais são os psicofármacos mais usados em casos de esquizofrenia?

        - Largactil e Vesparax, por exemplo.

        - Vesparax? Alguma coisa a ver com o Mandrix?

        - O dobro da potência. Já tomou Mandrix?

        - Não, mas muita gente toma para se divertir hoje em dia.

        - Pois é. Experimente tomar um. Aliás, eu tenho aqui um frasco, leve dois comprimidos e experimente tomar meio Vesparax, não é preciso mais. Tome e verá o efeito que dá. Pode ser útil.

        Trabalho de campo a fazer. Decido tomá-lo após o primeiro jantar em que recebo amigos na Apelação. Sim Cler e Gina, recém-chegados do Marrocos com, ao que dizem, um ótimo produto. De vez em quando ele também toma o seu Mandrixzinho.

        Uma cônica, a janta, muito vinho de pipa de boa qualidade de uma taberna da vila, outra cônica, meio Vesparax e a gente ouvindo cassetes de música brasileira acabada de sair do forno que um amigo do casal acaba de trazer da origem. Tudo bem até que tardas horas, sentado com o casal no tapete do quarto, passo mal e não consigo conter o vômito, que evacuo ali mesmo sobre o tapete. Fim de mais uma etapa do trabalho de campo.

 

        Porque o trabalho de campo prossegue. Conhecer uma ‘clínica’ psiquiátrica para libertar uma internada. Leda explicou o que devíamos fazer.

        - Poderás fazer-te passar por jornalista em reportagem. A mim já me conhecem pouco mais ou menos. Esperando que Eloísa não esteja de algum modo atordoada arrumamo-la de modo a parecer que tem autorização para dar uma volta e a fazemos sair pela porta da frente. Há que tomar cuidado com o pessoal, porque aquilo lá não é grande e todo mundo se conhece, tás a ver? O pior será passar pelo portão da guarda, se tiveres de dizer alguma coisa talvez seja bom entrares numa de baratinar o gajo com a história de que estás em reportagem e nós a acompanhar-te. Se não funcionar é que são elas, mas não podemos deixar de tentar. Ela vem aqui para casa, porque minha avó já está acostumada a que aqui passe uns dias, e vemos entretanto se dá para ir para algum lugar onde possa estar em segurança.

        Eloísa está quase irreconhecível. Os medicamentos que toma devem ter muito cortisona, porque está toda inchada e com a cara cheia de espinhas. A cada vez que seus olhos se encontram com os meus sorri aparvalhada, com o mesmo ar estúpido com que olha para Leda quando ela lhe dirige a palavra. Só fala quando interrogada.

        - Tomaste alguma coisa, algum comprimido?

        - Claro! O de sempre, há pouco – e ri.

        - Sentes-te bem aqui? – pergunto a contragosto, só para dizer alguma coisa e romper o silêncio sepulcral que faz quando ninguém diz nada, o jardim do casarão deserto na tarde ensolarada de primeiros dias primaveris.

        - Iá – limita-se a dizer, reabrindo a cortina para o sorriso patético.

        - Que tal dar um passeio em Lisboa? Depois te trazemos de volta – proponho.

        - Tá bom. Vamos já?

        Leda pisca o olho na minha direção, só contentamento.

        - Sim. Arruma-te só um pouco. Deixa-me ajudar-te.

        - Vamos como?

        - Paulinho está lá fora. Vamos de carro com ele. Vai ser bom, né? Há quanto tempo estás aqui?

        - Nem faço idéia – e ri de novo, ajeitando os óculos. – Parece uma vida.

          Vou até o criado mudo para um ato trivial de mero passatempo. Earth is Room Enough, livro de contos de Isaac Asimov, em edição de bolso da Panther Books, Areias de Marte, de Arthur C. Clarke, também de bolso, Livros do Brasil, À Beira do Abismo, As férias de Poirot, tudo de bolso.

        - Bons, né? – diz Eloísa. – Alguma coisa aí é tua. Nem leio mais, porque passo a maior parte do tempo sob o efeito de drogas que só me dão tontura, mas até que já os li a todos no tempo em que lia um por dia, se me desse vontade.

        Fala pausadamente, como se tivesse dificuldade de mexer os músculos da face. Leda acabou de arrumar o seu cabelo com o mesmo carinho com que se ajeita o de uma criança. Endireita o colarinho da sua blusa de malha preta.

        - Queres levar alguma coisa?

        - A minha bolsa – e pega a velha bolsinha de veludo preto.

      

        Não se vê vivalma no corredor mas ouve-se som de passos na escada de madeira. Leda tira a bolsa do ombro de Eloísa e põe na sua sacola presa ao ombro. Passamos por uma enfermeira que olha fixamente para a paciente mas não diz nada. Grande movimento no hall. Até aqui não há perigo. Em várias ocasiões apercebi-me de que Leda é muito nervosa e medrosa, o que expressa plenamente nos passinhos apressados e no rosto tenso. Digo-lhe que se acalme que tudo vai correr bem, mas aperta os lábios e arregala os olhos em sinal de pânico. Passamos a porta antes do jardim maltratado pelo inverno, com algumas roseiras bravas com galhos ressequidos e mato em volta. Seguimos pela aléia até o portão principal, eu dois passos atrás das moças. Ninguém à vista na guarita. Leda parece à beira de um colapso quando me olha para ver se as sigo.

        Eloísa para de repente e agarra-me pelos pulsos.

        - Olhem, não vai dar para ir com vocês. Estou a ver que não vai ser fácil sair daqui depois de tanto tempo e ter de lidar com muito movimento. Aqui é tão tranquilo, estou tão bem. Não vai dar para ir hoje, vamos outro dia.

        Leda perde o controle:

        - Eloísa, que loucura! Que mal poderá fazer-te?! Olha – segura-a pelas mãos e mira-a fixamente nos olhos -, vamos encontrar-nos com o Paulinho que está ali no carro, vamos com ele até minha casa, tás a ver, tranquilamente, vamos para o meu quarto, ficamos lá, fazemos um chá, vamos comprar bolos para fazer um chá, hein? Um chá de luxo! Há quanto tempo não tomamos um chá assim? Anda, vamos!

        - Não posso! – e começa a voltar em passo rápido ao casarão, sem dar tempo de alcançá-la. Leda corre atrás dela, que entra e continua andando rumo à escada com a amiga ao lado tentando convencê-la a não voltar para o quarto. Tomo o rumo da saída e me sento no banco traseiro do dois cavalos. Leda chega a dar sinais de que por mais um pouco será ela que precisará  ser internada e gritando: não vou desistir!

         Esta é quase igual ao Lilith de Robert Rossen, com a diferença de que, se ela, Eloísa-Lilith (Jean Seberg) poderia ir embora da clínica e não vai, eu não sou doido como Vincent (Warren Beatty) para embarcar na dela, tão pouco temi perdê-la, e a vertigem da loucura poderá destruí-la mas não a mim - ao menos por enquanto.

 

        Nunca soube o que lhe diagnosticaram, se diagnosticaram alguma coisa. Esquizofrenia, é mais que certo: desordem psicótica grave que pode afetar qualquer aspecto da mente e da personalidade, sendo um dos principais sintomas a crença de que pensamentos não são próprios e de que as ações físicas são iniciadas por outra pessoa, a partir do conceito de mente dividida usado pela primeira vez para descrever divisão das funções vitais. Mente dividida? Crença de que pensamentos não são próprios e de que ações físicas são iniciadas por outras pessoas? Que algaraviada. De todo modo, não ela, propriamente. Estão bulindo com coisas que não conhecem. Afinal, onde termina o cérebro e acaba a mente, ou vice-versa? Mas esquizofrenia, The Sacred Symbol of Psychiatry – o símbolo sagrado da psiquiatria, segundo Thomas S. Szasz -, é como um colete salva-vidas em que se engloba quase todo o tipo de louco... para jogá-lo ao mar da insanidade.

 

        Mandarim e Lila antecipam viagem da India para vender produtos de toda a espécie, menos ilícitos, e fazer novo pé-de-meia para juntar ao de Rosário e regressar a Anjuna. Instalam-se na casinha da família na Costa, onde os encontro para passar um fim de semana prolongado. Levo máquina de escrever e uma montanha de papel, entre escritos e recortes da reportagem, que toma quase todo o meu tempo mas cuja feitura se arrasta muito além do prazo previsto. O espaço mínimo e a rotina da casa me impedem de trabalhar mas a cabecinha não para refletindo sobre a matéria, sob os efeitos de um inebriante pólen de haxixe fresquinho e da leitura de Elogio da Loucura.

     Num passeio pomeridiano de domingo no quebra-mar da vila me vejo magicando em torno da figura de retórica da folia de Erasmo, em auto-elegia, e a imagem de Gilles e Anne empedrados ao luar em Les Visiteurs du Soir.

     Diz a Folia:

Tenho estátuas que bastem, tantas quantos os homens existentes, cada qual carregando minha expressão viva no semblante, embora em sua mente eu seja justamente o seu oposto.    

      Pessoas ou estátuas animadas é quase igual, só se distinguem uma das outras por gestos mecânicos, automáticos, robotizados, irrefletidos - abstraídos. Pessoas como estátuas inconscientes do seu papel, seres inanimados, cada qual sentindo-se avis rara mas carneiro no rebanho. Atropelam-se aos magotes na Rua do Ouro nos dias de semana, vêm aos magotes atropelar-se no quebra-mar e na vila aos domingos, ou subjugar-se a engarrafamentos piores que os de dias de semana no passeio dos tristes de Lisboa a Sintra, via Cascais, ou vice-versa. Corpos frisados numa ilha de edição em que se edita um filme sobre  a ausência de singularidade em vida. Meses em contato constante com a loucura, refletindo no fundo sobre a minha loucura e as formas de viver no mundo prático e materialista com ela. Representando da forma mais absurda, que é como no fundo toda mundo faz. As limitações do meio, apesar da revolução ‘universalizante’ por que o país passou, ainda tão pequeno e provinciano. E as limitações dos meios, produtos de uma sociedade ainda muito resignada e fechada.

        Releio também no visionário Huxley:

Every event is utterly pointless, every object intensely unreal, every self-styled  human being a clockwork dummy, grotesquely going through the motions of work and play, of loving, hating, of being eloquent, heroic, saintly, what you will – the robots are nothing if not versatile.

Cada acontecimento é desprezível, todo objeto intensamente irreal, cada emproado ser humano um boneco mecânico, grotescamente manietado na rotina casa-trabalho, de amar, odiar, ser eloquente, heróico, um santo, o que for – os robôs nada serão  se  não  forem versáteis. 

Grammar of Living

        É dele ainda a lição básica:

To be enlightned is to be aware, always, of total reality and yet to remain  in condition to survive as an animal.  
Ser iluminado é estar sempre ciente de toda a realidade, mas mantendo-se em condições de sobreviver como um animal.
 

         A reportagem só poderia sair de forma algaraviada, numa narrativa em elipse ou turbilhão como o que o tema me provoca, por isso deixo fluir os períodos como rios tortuosos a seguir o fluxo do pensamento e das idéias desencontradas, que às vezes é melhor que tê-las todas bem-feitinhas e embaladas.

 

         Eloísa sai do mani, ops!, da clínica pela primeira vez porque autorizada. Uma fera domada. Onde foi parar a vontade? A alegria? O brilho dos olhos? Mais opacos ainda. Cara inchada da glicose. Efeitos colaterais, efeitos especiais. Espaciais? Ri como uma criança, uma boba alegre, a troco de nada. Aliás, só ri quando se olha para ela. Toma comprimidos que a impedem de ‘fumar’. Quais? Um Largactil por dia. Chega e sobra.

 

        JCP em streaking – a grande moda em todo o mundo – Príncipe Real e Academia de Ciências abaixo até o Rato. Vai parar no Governo Civil onde a ex-mulher, psicóloga, o resgata, e só para que conste às autoridades tem de passar uma noite no Júlio de Matos.

         - O que é que te deu?

         - Eu sei lá, pá... Uma loucura que me passou pela cabeça...

         Raptus de resistência contra o reenquadramento, o reespertilhamento.

 

         Marco entretanto cai de amores por Frida, uma divorcée que mora ali perto, em regime próximo ao de comuna e se demoram a abrir-lhe a porta para vê-la entra pela janela de térreo mesmo, e ela sem pressa e sem vontade.

         Não passa muito tempo e é encontrado morto pendurado num galinheiro. Suicídio, segundo Camus, o único problema filosófico sério; suicida-se, como se dizia antigamente, para marcar posição em relação a Cleo, presumo – ou será em relação a outra mulher? Anda por aí uma espécie de Valquíria grande e linda pondo a cabeça dos homens em polvorosa e que ao que se suspeita já levou um outro amigo próximo ao suicídio em Paris.

        Ainda arturdido com a notícia ao subir a Calçada do Sacramento dou de caras com Lauro Cavalcante, que me comunica ao ouvido, para esconder o embaraço:

        - Eloísa morreu. E o que é mais incrível, com o pai. Num acidente de carro. Só a mãe se salvou.

         Droga, loucura e morte...

        São os primeiros mortos próximos da minha biografia.

        Essa, nunca vi e jamais verei de saia.

 

 

   

    

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Jack Kerouac termina seu livro de crônicas Lonesome Traveler / Viajante Solitário (1960) com o ensaio O Vagabundo Americano em Vias de Extinção. Aquele vagabundo americano -

 

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