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VAGABUNDAGEM

um tema fora de moda

   Jack Kerouac termina seu livro de crônicas Lonesome Traveler / Viajante Solitário (1960) com o ensaio O Vagabundo Americano em Vias de Extinção. Aquele vagabundo americano - ou hobo - que fora também seu contemporâneo, que de certo modo ele também fora, criado ao longo de uma história de estradas e fronteira e que se tornou quase uma instituição quando ele ainda era um guri, durante a Grande Depressão de 1929-32 e anos seguintes. 

   HOJE EM DIA O VAGABUNDO AMERICANO VÊ-SE AFLITO para vagabundear devido ao aumento da vigilância policial nas autoestradas, entrepostos ferroviários, cais marítimos, margens de rios, aterros e mil e um outros esconderijos da noite industrial. (...) "O homem não quer aqui ratos de mochila, mesmo que eles tenham fundado a Califórnia" disse em 1955 um velho escondido com uma lata de feijão e uma fogueirinha na margem de um rio das imediações de Riverside Califórnia. - Grandes sinistros carros de Polícia pagos pelos contribuintes (modelos 1960 com holofotes tristes) são muito capazes de se abater de um momento para o outro sobre o vagabundo no seu trote idealista para a liberdade e para os montes de santo silêncio e santa intimidade. - Não há nada mais nobre do que suportar algumas inconveniências como cobras e poeira por amor da liberdade absoluta.

   Eu mesmo fui um vagabundo, mas apenas até certo ponto, como veem, pois eu sabia que um dia os meus esforços literários seriam recompensados com a proteção social - 

 

 

 

 

 

 

       VAGABUNDAGEM

um tema fora de moda

   Pois justo quando Kerouac anunciava o fim da vagabundagem um outro tipo de vagabundo, em grande parte herdeiro de sua cultura muito estradeira, começava a se fazer às estradas de Oeste a Leste da América e do mundo, em uma onda revivalista e transplanetária. 

Muitos jovens americanos e europeus seguem o roteiro prescrito numa das suas leituras de mochila, a de Hermann Hesse em Viagem ao Oriente - algures a leste do Suez, ao longo da Rota do Haxixe para a Índia... Unidade cósmica, um curso de estudantes universitários de um ano no estrangeiro, conhecido familiarmente como O Grande Passeio Cerebral, o Expresso do Oriente, na definição de Timothy Leary. Serviços de imigração europeus registram um fluxo permanente de dez mil jovens desgrenhados a caminho do Oriente Médio e da Índia, a refazer o roteiro de Hesse e Huxley. Em 1966 noventa mil adolescentes são dados como desaparecidos nos EUA, segundo um relatório da polícia federal norte-americana. Um par de anos depois estima-se em dois milhões o número de habitantes de comunidades hippies, cujas valores básicos são o amor, a solidariedade e a paz. Faça amor, não a guerra, é o seu lema. O que mais se vê pelas estradas do mundo são polegares ao alto de jovens cabeludos pedindo carona e o antigo sinal de vitória de Winston Churchill transformado em sinal da paz.

A bem dizer essa onda só viria a se extinguir de vez lá para o final dos anos 1970, quando a  guerra Irã-Iraque fechou para sempre (?) a milenar Rota das zil e uma noites e da Índia e qualquer possibilidade de aventura pelo Khiber Pass.

   Em o narrador Edgar Lessa relata sua vida aventurosa entre a adolescência e a primeira juventude entre os anos 1960 e 70, quando perambulou por algumas estradas europeias, baseando-se a partir de certa altura em Portugal, um país do tamanho dos estados brasileiros do Rio de Janeiro e Espírito Santo juntos que quando chegou vivia uma vidinha tacanha sob uma ditadura medonha e que de repente, não mais que de repente, abriu-se para o mundo, permitindo à juventude local e à que para lá afluía atraída pelo clamor da que ficou conhecida como Revolução dos Cravos viver a que para elas foi uma espécie de versão retardada - ou revista - da chamada Revolução das Flores. Também com sua dose de hippismo. De Lisboa à Galícia ou aos Algarves e Marrocos e eventualmente a Paris é um pulo e é curioso notar como em um espaço geográfico tão diminuto - mas como de resto em toda a Europa muito variegado - se pode viver panoramas tão multifacetados.

   São afinal estórias de um espírito de vagabundagem que, como Kerouac denunciava, o ser social não admite. E não é isso também curioso - e de um certo e tal modo triste?

         Em verdade, e pode até parecer piada, porque pouca gente é levada a pensar um pouco nisso, desde que este mundo é mundo vadiar, bater perna sem destino, sem eira nem beira, à vida airada, na vagabundagem é crime. E muito grave. A partir da Idade Média, que impõe a cidade-fortaleza, a vadiagem será sempre perseguida e os que nela incorrem sujeitos a severas sanções penais porque não pertencendo a lugar algum ou a ninguém fogem à servidão e ao dever da vassalagem. Mesmo já na Idade Média o cristianismo ainda valorizava a miséria por opção, informa Bronislaw Geremek em Os Filhos de Caim, um levantamento de como a vagabundagem é retratada na literatura entre os anos 1400 e 1700. É à medida que o mundo se urbaniza que ela vai se convertendo em perigo, concluiu o polonês. E quando num último esgar a juventude desvairada filha ou irmã mais nova da beat generation põe o pé na estrada a suposta ameaça de desestabilização do status quo pela pequena-grande massa de novos nômades leva o município de Bolder, no estado de Colorado, Estados Unidos, a proibir inclusive que as pessoas se sentem nas calçadas.

   No século XXI a vagabundagem parece que já era de era uma vez - é se tanto um arremedo de loucomoções de reservas de trekkings e "turismo de aventura" em territórios bem demarcados, com guias teleguiados. A viagem de verdadeira aventura contemporânea é antes do mais uma resposta instintiva ao apelo de novos horizontes em campanhas desesperadas pela sobrevivência pura e simples. O Norte bem-de-vida fechado ao Sul de subalimentados querendo nele entrar a todo custo por um prato de lentilhas. E mesmo entre os do Norte preconceito e discriminação - uns querendo ser mais (rico, esperto, etc.) que o outro. 

   Sem destino, sem lenço e sem documento, sem propósito e quantas vezes a despropósito? Ninguém pode vir sem propósito e muito menos a despropósito hoje em dia.

   Nem turista acidental; ou turista quadrado consumista ou rua - aqui não entra, e nem pensar em por aqui ficar.

   Abriu em Portugal e não tardou muito para Edgar sair pela culatra, quando termina o seu relato. Mas não sua vagabundagem.

   Mas isso já são outros 500, 550.

   Como as de Jack Kerouac de resto as narrativas de Edgar Lessa têm também em conta que

All these trips - on drugs, in search of drugs, instead of drugs - converge with the notion of psycogeography developed by the situationists,

Todas essas viagens - em drogas, em busca de drogas, em vez de drogas - convergem com a noção de psicogeografia desenvolvida pelos situacionistas.

conforme Sadie Plant in Writing On Drugs, Faber and Faber, Londres, 1999

 

 

 

                   

             janela com vista para a contracultura e para a cultura contra natura      

        ciberzine & narrativas de james anhanguera

       

         almanaque das ideias cores e sons do maior movimento de juventude da história

                           da era do rock & da contracultura

                                      o livro do rock   e da contracultura

     um vagalume vagamundo na era do rock e da contracultura

 

Cedo me apercebi de que o remédio era cavalgar o tigre em que montara sem pensar muito no destino, cavalgar só para não ficar parado sobre a fera que a todo instante ameaça me engolir.

...

- Mas vem cá, tá tudo muito careta à nossa volta e os caretas desbundando tanto nas ondas mais vergonhosas que a gente até se retrai.

...

                divertissement ilustrado, cronistória romanceada, docudrama

       

       

                  Por dentro e por fora em Londres

                   Terra da Dama Eletroacústica

                  Medo, atraso e rock no grotão

                  Era uma vez a revolução  

                  Droga, Loucura e Vagabundagem

                          

                          - Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

 

                             Rumo às ilhas da Utopia  

                             Era uma vez as revoluções

                                                so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

                                   narrativas de rock estrada e assuntos ligados

 

 

 

VAGABUNDAGEM

um tema fora de moda

em

narrativas em fricçao para tempos mornos

 

No meio do caminho de nossa vida

me dei conta de estar numa floresta escura

onde o caminho tinha sido perdido.

Ah, como é difícil expressar que bosque escuro era esse;

Como a escuridão renova os meus medos!

Dificilmente a morte é mais amarga do que essa sensação;

mas para falar do bem que encontrei

vou relatar as outras coisas que ali descobri.

Dante Alighieri, Inferno - A Divina Comédia

vida aventureira de um jovem viajante no underground e no bas-fond entre os anos 1960 e 80  

     Trechos de   Era uma vez a revoluçã  capítulo 4 de

                                                                                                                         

 

 

     Travamos contato com um personagem rockambolesco numa tarde em que ao passar pela porta d’A Brasileira para comprar sedas Riz La + na Havaneza ouço como em delírio – estarei em Picadilly Circus?! – Hashish, man?

     O Poeta dos Pés em Chagas é uma espécie de fée africaine, se a assim citada por Rimbaud como a qui fournit la mûre realmente criptografa o/a fornecedor/a de haxixe que o poeta compartilha com Verlaine no Jeune Ménage. No meu vasto círculo nunca ouvi expressão do gênero, amora. Quando menos se espera, de passagem pela Pedra d’A Brasileira, lá aparece a tirar com-pro-me-te-do-ra-men-te da jaqueta ou sobretudo uma pedra suspeitíssima e a anunciar: É um kashmir fantástico, tens de provar! Não acreditas? Ora anda daí e verás. Aproveita para recarregar as baterias porque é a pitonisa a provar o próprio veneno e quando também o fuma é porque não está malhado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vai-se ou à Rua das Chagas, onde se fuma o produto à porta da igreja fechada, ou mais além ao mirante do Alto de Santa Catarina, cujo gigante Adamastor da estátua parece franzir ainda mais o sobrolho.

Às vezes se vai a ele pedir e com ele se fuma ou não, se já está de cabeça feita.

Não raro surpreende o freguês sentado no café entrando pel’A Brasileira à contraluz e colocando pedras de tamanhos às vezes descomunais em cima do mármore da mesinha, o que obriga o acossado a recolhê-la de jato e dar o primeiro passo para o fechamento do negócio.

     Raro é o haxe que não é misturado com alguma merda ou de pouca qualidade. Mas ora e vez surpreende, como quando aparece com o kashmir negro e brilhante como ébano polido e como por milagre preservado no estado original desde a manufatura. Basta um tico de nada para alcançar-se as propaladas sensações de estados alterados da mente.

O nome lhe foi dado em elegia pelo autor da Única Grande Ode em função de um gravíssimo problema que os seus pés em chagas causam sobretudo em casas onde em princípio não é permitido entrar calçado.

 

        

     O tempo segue quente e costumamos passar fins de semana na casa de praia dos pais de Leda na Costa com ela e o namorado. Uma bela casa onde nas horas mortas costumo me distrair com revistas importadas antigas como Saturday Evening Post com suas belas capas assinadas por Norman Rockwell, com leve cheiro a bafio próprio de publicações de casas de praia. É como se voltasse à infância, quando me divertia em Saquarema com as aventuras dos Sete e dos Cinco que me mandavam de Lisboa. Num desses weekends de sonho adolescente, de certo modo revivendo o que não houve, propomos esmigalhar o único ácido disponível e pô-lo num copo d’água, na esperança vã que se pudesse dividi-lo irmamente pelos quatro. Mas quando acabamos de jantar chegam Joana e Dio no novo carro do jovem ex-atleta, uma banheira Opel Record preta ainda em bom estado.

     Acabamos por tentar esmigalhar o AC e dividi-lo pelos seis. Cada um toma um gole. Os visitantes pegam duas bicicletas e vão passear. Ficamos assistindo Suave é a Noite, uma das más adaptações de Scott Fitzgerald em que Hollywood é pródiga mas tudo somado um belo passatempo para um fim de semana de relaxamento, sem sentir nenhum efeito do ácido. Já estou confortavelmente na cama como um tio velho lendo excertos do livro de A.E. Hotchner sobre Papa Hemingway no Evening Post quando Dio entra no quarto comunicando que deve ter deslocado a clavícula. Conta que devia estar doido demais, bateu numa pedra e caiu. Deve ter ingerido quase todo o ácido, porque também Joana diz que não está sentindo ‘nada de especial’.

 

 

Trechos de  Droga Loucura e vagabundagem  capítulo 5 de 

                                                                                                                          

 

 

        Da droga ‘doce’, se não ‘inocente’ no mínimo menos danosa para corpo e mente que outras ‘lícitas’, à marginalização a todos os níveis – e até a eliminação física - por um regime escroto de quem se lhe opõe, noção de clandestinidade por coisa alguma e daí um passo para, invertendo a equação cínica, considerar tudo legítimo. Até certo ponto, claro, porque como diz o outro só se Deus não existisse é que tudo seria permitido...

Nem droga. As próprias ditaduras nos ensinam que estar na clandestinidade, do outro lado, mesmo que porventura errado, não significa necessariamente estar-se com o mal, do lado nefasto. O hábito da resistência antifascista ‘empurrou-me’ para a margem e inexoravelmente lá me deixou – sem medo do escuro e do abismo de experiências ‘ilegais’ e transcendentais. A ilegalidade oficial da ditadura e da corrupção político-governamental, como nos ensinam os enciclopedistas dos anos 60, faz com que qualquer coisa aparentada ao ‘sistema’ - supermercado, companhia telefônica, posto de gasolina – pareça campo de caça legítimo, embora nas relações pessoais nos conservemos perfeitamente honestos. Ou como disse Anaïs Nin, ao situar a questão em outro ponto:

Apesar de serem considerados ladrões e serem humilhados a ponto de terem de recorrer à pedinchice, o orgulho dos ciganos não é corroído. Permanece forte e refinado, como se para eles a nossa moral é que não fosse admissível, como se guiados por outros valores, e não se sentissem envergonhados pelas suas atividades.

 

 

Do studio costumamos ir também em surdina ao Jardim da Estrela, o antigo Passeio da Estrela, outro ótimo espaço de recolhimento, ou passeamos no cais entre Alcântara e Rocha-Conde d’Óbidos. Uma tarde de sexta-feira vamos até lá com Joan. Diogo, disse, foi de barco para o Marrocos. Estamos na varanda do cais de Alcântara quando passa o barco onde iria o marido para mais uma digressão à terra do kif. O cais abarrotado de contêineres dos retornados,

         Quatro dias depois encontro Dio subindo o Chiado.

- Ué, mas então não foste ao Marrocos?!

- Nem te conto, pá. Cheguei a Tânger, fui ao casbah comprar haxe, o dealer começou a implicar comigo, sei lá, uma ganda confusão, decidi dar-lhe o golpe e, no meio de uma festa lá saí de fininho, mas ele estava de olho em mim e pôs-se a perseguir-me com outro tipo. Nem sei como é que ainda estou vivo! Tive de correr à toda, galgando escadas, por telhados... Ó, só sei que só descansei de manhã... Fiz uma cônica de todo tamanho que nem se aguentava direita, fumei-a toda e pus-me a andar. Quando dou por mim tou de novo na frente do sujeito. Pus-me a andar, ainda tive de galgar o muro de um cemitério, uma doideira, e só fui parar no porto. Fui direto pro navio e, ó, cá estou de novo. Não tens nada que se fume?

- Mas então, não trouxeste nada?!

- Qual o quê, pá. Nem pó. O pouco que tinha fumei logo de uma vez, só pela paranoia.

 

 

 

         O desprezo é intolerável. Quando acorda aparentemente mais animada o único lugar a que se predispõe a ir é Sintra. Ficamos um pouco na das Nogueiras, a que acorrem cada vez mais convivas de Lisboa. Ir lá passou a ser como ir a um clube de freaks. Quase sempre vamos caminhar na mata até uma clareira onde se fez um campo de futebol, abaixo de Seteais, em silêncio imposto por ela, que parece só cuidar do inanimado ou de seres como Billy, o cão da casa.

Num domingo, após termos mais uma vez pernoitado na sala, tomamos um ácido e saímos com Pepe e Sontex para passear pela estrada de São Pedro, até que decidimos galgar pela encosta quase na vertical do castelo. A mata não é densa e apesar de muito íngreme a subida é facilitada pela grande quantidade de pedras e pedregulhos a que podemos apoiar os pés ou se agarrar. Em plena ascensão dos efeitos do acê estamos tão embalados pelo speed que conseguimos chegar a um relevo debaixo da muralha antes de Billy, que acompanha todos os valdevinos de visita à das Nogueiras em digressões à Periquita ou ao Café Central ou pela serra. Do alto a vista é estupenda, com a Vila bem debaixo dos nossos pés e em frente toda a planície da Praia das Maçãs à Ericeira. 

Foto: F. Moura Machado

Quando voltamos o Poeta dos Pés em Chagas está acendendo cigarros embrulhados em sedas barradas com ópio. Me estendo numa mesa de pedra sob a nogueira ao lado perto da sala, onde está o som, a lua cheia entre a folhagem num sonho de Caspar David Friedrich com espasmos de pianos elétricos de In a Silent Way, Sintra é o melhor lugar do mundo para distender e relaxar de todas as tensões, já o sabemos desde Eça, nada me incomoda além da sensação de solidão, melhor, de isolamento, ou seja, não poder compartilhar a minha visão onírico-romântica com ninguém. Rope the ladder to the moooon... Recolhimento e introspecção tão caros à alma romântica, contemplativa, melancólica. 

Noites na montanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                             A partir de Manhã na Montanha de Caspar David Friedrich

 

Nem a falange anarca representa minimamente o bandoleirismo anarco-hippie de Pepe y sus muchachos quando ele vem a Lisboa e telefona desafiando os amigos para a vagabundagem. Quando está na cidade é o que acontece, entre visitas a amigos em Lisboa e redondezas, quase sempre divertidas e instrutivas. Fins de setembro, reúne-se a mim, Dio e Joana e decidimos ir a Cascais para visitar Júlio Andrade, que acaba de se mudar com Maurício e los chilenos para uma casa de dois andares no Alto de Cascais. Ao longo do ano o grupo acampou no Chiado vendendo um produto em tese absurdo: colares e pulseiras feitos de macarrão pintado.

O grupo decide comprar peixe no porto para cozinhar na nova casa. Compramos um polvo bem grande, arroz e condimentos para o refogado. Alho, cebola e pimentão vermelho coram e fritam no azeite, passamos o polvo lavado e cortado no refogado e quando já está quase cosido mandamos-lhe o arroz por cima. Júlio compra pão e vinho. Seis para a janta, com ele e uma amiga. Depois, desculpem lá mas estamos esperando visitas, os quatro nos vemos desolados sem nada para fazer em Cascais e sem querer voltar para Lisboa, porque tínhamos decidido também passar o domingo por lá.

Decidimos procurar Júlio da Maianga, que com o produto das primeiras vendas da poderosa liamba trazida de Angola escondida no sofá alojou a mãe num e instalou-se com a namorada em outro apartamento de um prédio enorme de uma nova urbanização da cidadezinha praieira. Venta muito e o imenso corredor do edifício onde tocamos a uma porta parece um túnel de aceleração de partículas atômicas. Ninguém responde. Estamos na baía quando Joana tem uma idéia.

- Que tal nos fazermos passar por iarns e dormirmos num hotel? Amanhã podemos ir à praia e ver se encontramos o Júlio.

Vamos a uns três hotéis de Cascais e chegamos ao lobby do Estoril Sol, sempre com o mesmo papo que não deu certo nas tentativas anteriores, quando em última instância os empregados dizem que estão cheios de iarns.

- Boa noite. Nós somos do IARN, estamos sem os nossos cartões aqui mas precisamos de dormida. Será que os senhores podem nos hospedar?

- Desculpe, mas sem as cartões é impossível.

    Continuamos tentando até chegar a um hotel numa casa tipo Psycho   no Monte Estoril. Passamos o portãozinho e seguimos entre o jardim até a porta de entrada, quase no breu. Dentro, escuridão completa. É quase meia-noite. Diogo vai na frente, seguido por mim, Pepe e Joana, que já descrente de termos qualquer sucesso fica na calçada, apoiada ao muro. Dio toca a campainha. Ninguém responde. Toca outra vez e dá no mesmo. Insiste. À quinta ou sexta tentativa finalmente abrem a gelosia da porta e aparece um senhor atrás das grades. Nada a fazer, diz. Dio insiste mas o homem não se apieda e já perdendo a paciência dá a entender que decididamente não está para argumentos, despedindo-se e fechando a portinhola num gesto abrupto, a que Dio reage com fúria.

    - Mas, está a bater-me com a porta na cara?! – e acerta a mão espalmada no vidro, que se despedaça com estardalhaço. Não acredito no que vivo. Olho para trás e vejo Pepe com os olhos esbugalhados. Para a frente, e Dio esbraceja e grita impropérios à janela despedaçada. Volto a olhar para trás e vejo Joan correndo rua abaixo e Pepe olhando de frente para trás e detrás para a frente e dando uma passada decidida rumo ao portãozinho, que ultrapassa correndo e eu atrás dele e atrás de mim Dio até o cassino.

    - Melhor pegar um táxi para Lisboa.

    Pelo caminho a divertida e ao mesmo tempo acabrunhante sensação de ser um delinquente, um irresponsável, um bobalh em loucas aventuras tipo Freak Brothers, eu Freewheeling ou Phineas? em pequenos crimes de garotos. Até que, eu sem dar por isso, a cabeça ainda num turbilhão, assoprando a adrenalina, chegamos a Lisboa e alguém diz: o que é aquilo? O casarão da Embaixada de Espanha está em chamas.

Após uma manifestação contra a execução de militantes antifranquistas os anarcas decidiram invadir a embaixada a que puseram fogo e saqueiam peças de mobiliário e obras de arte, causando um prejuízo de milhões. Fat Fred na cabeça: Primeiro a embaixada, depois o país! Me sinto redimido. Isso sim é que é loucura. E pensar que há bem pouco tempo ainda o cantautor José Afonso lançou o verso Praça de Londres a arder e, mais que surreal, a imagem parecia totalmente absurda.

                                                                                                                                                        © Gilbert Shelton

    

 

 

         Uma das maiores diversões de Pepe a esta altura é pichar paredes com dois dizeres que viu em anúncios de publicações musicais do último disco de David Bowie. Discos de Bowie são quando muito apenas importados mas parece que ele está trabalhando para a multinacional para que o astro grava. O seu alvo preferido é a entrada de uma loja chiquérrima na Rua Garrett que acaba de ser restaurada e pintada de branco com tinta plástica da melhor qualidade.

- Nhaaaam, que maravilha! É o local ideal para uma boa pichação.

E vai de escrever

THIS IS THE YEAR OF DIAMOND DOGS

Passam-se semanas entre idas e vindas do Porto e eis a loja de novo como dantes e Pepe de novo a pichá-la com gozo:

     DIAMOND DOGS ARE COMING

 

 

Freak Brothers en route, inopinadamente ao Algarve de carona com Dio e Joan. Eu e Pepe nos estendemos muito chapados na areia preparados para dormir ao relento na praia de Olho d’Água e de olhos abertos sonhamos mirando estrelas de noite de São Lourenço e ouvindo o mar dando e enredando quando entre os sons intrometem-se os da voz altercada de Dio e sopapos vindos de uma tenda próxima, onde o casal pernoitaria.

Não me digno a erguer a cabeça porque à segunda série de sopapos entremeados de gritos de Joan Pepe levanta-se de jato rindo e resmungando.

- Porra, meu, esses gajos vão se matar um ao outro – e lá os vai apartar.

Tempos difíceis estes em que um indivíduo não se preocupa nem com o que vai ou não comer no dia seguinte, porque um dia em que não se come é um dia a menos pra morte, como cantava o poeta... o céu a fundir-se no mar da mesma cor e todas as cambiantes do vermelho vivo ao rosa a nascente, é mais um dia de vida, estica-se os braços, olha-se para o mar e ele chama por ti com um bater de onda seco e o borbulhar e murmurejar da água, nem uma nuvem no céu, água tépida, ou é o que parece.

No regresso Pepe acaba de enrolar um fininho.

- Que legal!

- Eu já vou lá chegar bem apanhadinho – debocha o outro, esticando o linguão para passar cuspe na seda, que insisto em pedir nas tabacarias pelo termo ‘papel de enrolar cigarros’ – às vezes até a comprar um pacote de Drum também para disfarçar...

- O que um gajo não é obrigado a fazer para garantir carona para Lisboa – escarneia Pepe da cena da noite anterior, boca aberta numa careta açucarada por um riso caminhando para o mar onde mergulha como uma lontra desapressada.

 

 

Vou ao norte para tratar de questão de herança. Lisboa-Viseu no trem noturno. Nem por acaso me telefonam um após o outro Ivan, Dio e Pepe, com quem marco encontro no snack do cinema Londres. Saio de casa com vontade de cagar mas a pressa não me deixa. Dio já lá está quando chego, pequena bolsa de viagem a tiracolo com dois livros, utensílios de higiene e umas mudas de roupa. Esperamos também Júlio da Maianga, a quem encomendei uns 50 gramas do tão aguardado e festejado boi, o famoso boi-cola, como é chamada a poderosa maconha de Chongoroi, na província angolana de Benguela, de que Júlio e família trouxeram 15 quilos escondidos num sofá. Chegam Ivan, depois Pepe e por fim o dealer. Saímos caminhando na direção da praça. Júlio passa a encomenda a Dio e vai à vida. O resto prosseguimos  andando e já em frente da igreja sinto uma dor muito fina sobre um rim e uma voz no ouvido.

- Fica calmo e passa a bolsa.

O jovem de cabelo bem aparado e bem vestido para que viro a cabeça e olho com as mãos no ar, rodeado por três indivíduos da mesma idade e aparência, tira a bolsa do meu ombro e se põe a revistá-la. Olho para o lado e vejo Dio, Pepe, Joana e Ivan se enfiarem nos arbustos do jardim e desaparecer.

- O boi, onde é que está o boi?! – repete com firmeza enquanto passa a mão pelos dois livros, meias, cuecas, camisas, as jeans de reserva e as camisetas. - Mas onde está o boi?!

- Boi?! Não sei de nada...

- Dois quilos. Soube que estás com dois quilos de boi.

- Dois quilos?! Mas nessa bolsa não cabe nem um!

O jovem, que conheço de vista das imediações do Londres, recolhe atrapalhado o canivete no bolso de trás das jeans e corre atrás dos dois que o acompanham.

- Desculpa lá, desculpa lá, pá! Foi um mal entendido.

Atravessa a faixa de rodagem na direção do jardim da placa central e desaparece atrás dele na direção do Café Londres.

Fico sozinho olhando para trás da igreja e dos arbustos, de onde surgem os amigos. Mal senti as picadas do canivete seguro pela mão nervosa e o bafo da boca do assaltante no pescoço o meu ânus abriu-se como por encanto e uma boa massa quente e por sorte consistente desceu até as cuecas, onde permaneceu o breve tempo do estranho assalto.

- É o bando de Carlos Lobo, com o Jaime Nonô – informa Dio, que foi da mesma turma deles no ginásio. Agora vivem no bando do Lobo, a Banda do Lobão, como a malta a chama, entre as imediações do Cinema Londres, que se transformou num rendez-vous da fricalhada das Avenidas Novas, encostados ao Buick creme descapotável do ‘chefe’ e com que costumam andar seca e meca, pelo 2000 e pela Costa, como os despassarados de American Graffiti. Carlitos, como também o chamamos, era como um amigo, não se atreveria a fazer uma coisa dessas. Fez, imagine-se, Nô... Nô.

- Mas ainda há pouco estavas conversando com ele... – interpelo-o.

- Pois é. E disse-lhe que estávamos esperando um gajo que trouxe 15 quilos de boi de Angola.

Caminhamos na direção da Manuel da Maia. Ivan pede o meu pacote a Dio, de onde tira três camarões antes de o devolver. Peço licença para ir ao banheiro e entro no da Mexicana, onde deixo os meus slips amarelos com uns bons - quê? - 150 gramas de uma substância alucinógena só pelo mau cheiro.

 

 

Não prego olho até Viseu e de lá até Mangualde, de onde parto dois dias depois com duas garrafas de excelente vinho tinto de 18 anos da adega do tio, pão de milho, requeijão e bananas a caminho do vale do Vouga e de Aveiro.

Sigo de de ônibus de Mangualde a Viseu, onde pego a automotora a caminho de Aveiro pela senda ferroviária ao longo do vale do rio Vouga. Conheço a região, uma das mais bonitas de Portugal, que parece um mosaico de microssistemas ecológicos muito diferentes da Galícia ao Algarve com que o viajante perde o fôlego de encanto. Desço em Vouzela, uma das maiores vilas da região, decidido a caminhar oito quilômetros até Oliveira de Frades e fazer um piquenique no percurso. 

E por falar em pedradas... é como voltar à idade da pedra. Quase todas as construções são feitas de grandes blocos de pedra. Os fogões das habitações são muitas vezes a própria lareira e a fumaça empretece as casas. Quase sempre o ar tem o cheiro doce de palha e milho.

        Dá até para um flashback com trecho de   Medo atraso e rock no grotão   capítulo 3 de  

                                                                                           

 

... uma aldeiola perdida entre o Caramulo e o Vale do Vouga. ... 

Noto em Antônio Castro o distanciamento dessa realidade a que no entanto sinto que não é alheio, pela carga de informações adquiridas nomeadamente através da poesia de Alberto Caeiro e da prosa de Torga e Aquilino, a que pretendemos fazer referência direta. Muito provavelmente nunca foi além do Porto, Coimbra, vá lá, Évora, em turnês com a companhia de teatro – cosmopolita como apesar de tudo parece e é. E eu com conhecimento de causa.

 

Ali não havia electricidade

Por isso foi à luz de uma vela mortiça

Que li, inserto na cama,

O que estava à mão para ler –

Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província

Fazia um grande barulho ao contrário,

Dava-me uma tendência do choro para a desolação

E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim...    - Álvaro de Campos

 

     Sim. Vilar de Mouros não foi a primeira incursão nas trevas de Asterix. Houve uma outra, seis anos antes, de férias em Portugal. Deixo o Rio numa tarde muito chuvosa, sim, mas com uma saída de barco com uma sensação idêntica à de Cole Porter quando compôs It’s Delightful. Deixo o Rio cinzento mas cidade-luz, metrópole, recente-ex-capital do Brasil, em grande fase, e em uma semana subo de carro pelas curvas do Bouga até um lugar recôndito e que nunca estivera minimamente próximo do meu pensamento, no distrito de Viseu.  Nos últimos quilômetros a estrada é de terra batida. A aldeia não tem luz. Saio do carro e, com o impacto do que (não) vejo mais o cansaço da viagem, choro, quase morrendo de desgosto por aquelas trevas imemoriais em que se distingue apenas tênues focos de luz de lampião, como a vida a evolar-se.

      Casa portuguesa de xisto muito bem cortado. O fogão pré-histórico: um buraco de dois metros, a chaminé em cima onde são mantidos os enchidos pendurados por barbante ao fumeiro e ao lado uma ou outra peça de roupa de verão ou um estendal, de inverno, quando não há embutidos ‘a fumar’. Uma fogueira de lenha e vários trempes para as alças das grandes panelas de cobre enegrecidas pelo fumo.

    Como em A. de Campos, o choro primal, o mangual, tudo manual, o pessoal na eira a debulhar e a malhar as espigas de milho, de vez em quando a sorver a pingazita ou o vinhozito de produções próprias do garrafãozito de meio litro coberto de vime, e quando acaba o vionhozito ou a pinga vai-se comprar à venda, e se a bebe com o mindinho e o anelar no pegador, o garrafãozito apoiado no pulso, uma eira na Beira.     

      

    Na tarde preguiçosa algures no Vale do Vouga vai-se à venda encher a meiota

Jovens hoje em dia falam em coisas tão pouco práticas como comunidade e democracia participativa, estilo de relações humanas que caracterizam a aldeia e a tribo. Que (sem querer?) aponto também para isso. Tá tudo dentro cá da cuca: já a nostalgia do paraíso perdido, a eira, a beira, a falta de luz elétrica... – embora à primeira vista o que queiramos denunciar seja justamente o atraso econômico-social destas paragens e seja até irônico que na vida de um jovem carioca haja também uma aldeia portuguesa com certeza. Aqui encontra-se apenas uma fímbria da estrutura corporativa na figura de uma junta de freguesia inoperante. Quem manda aqui, manda, mas daqui ninguém manda nada.

                

No fim de uma curva larga entro pelo mato até um ponto elevado sobre a estradinha rodeada de montanhas onde boca e olhos se regalam com repastos de sonho, o vinho, o pão com requeijão e o requeijão com banana, mais um gole, mais um naco e outro e findo o repasto um charro, o ar muito puro, silêncio só entrecortado muito de vez em quando pelo ronco de um carro que vejo entrar e sair da curva devagar, a montanha exibindo pelo colo acima variegados tons de todos os matizes do verde escuro ao alourado de sol. 

Tudo a postos. 

Retomo a marcha.

Em Aveiro, não a Veneza portuguesa, alugo um quarto no Hotel Central bem de frente para a laguna, entre as rias, ensopados de enguias, vinho do Dão e de sobremesa requeijão com banana e um beise de boi-cola do Chongoroi no Jardim Botânico no dia seguinte, antes do trem para o Porto, onde chego ao cair do dia em casa de Pepe ainda com meia garrafa de vinho, um pedaço de requeijão e quantidade de boi-cola suficiente para muitos beises, com que se faz as boas-vindas à cidade para mim até agora invicta.    

 

 

Acordo ao início da tarde com Pepe dizendo-me que houve um golpe de Estado. A RTP está passando um filme de Danny Kaye como se nada de anormal estivesse acontecendo. Pepe tira o som e põe Bryan Ferry, que soa como o homem do boletim meteorológico: it’s a hard... and it’s a hard... and it’s a hard... and it’s a hard...and it’s a har-rd rain’s a-gonna faaall! Golpe de direita, sinaliza Ana, professora secundária, mãe de Rubi, uma garota de quatro anos filha do primeiro casamento da mulher do meu anfitrião. E é com os meus parcos cobres que se assegura a janta e o almoço do dia seguinte ao 25 de Novembro e dez gramas de haxe para fazer um bolo de chocolate e alternar com o boi que ainda resta.

Acaba a ‘Revolução’,  acaba o desbunde?

Num anexo envidraçado com pinta de loft em grande estufa de um casarão da Dom João IV João Fonseca mantém a sede da revista Prisma e da editora do mesmo nome com que já cometeu a proeza de relançar Memórias de um Ex-Morfinômano de Reinaldo Ferreira, o Repórter X, o primeiro a fazer algo fora do esquema de pasmaceira em que ainda se trabalha no ramo em Portugal. Entre os de Propaganda, dos Sparks, e de Born to Run, de Bruce Springsteen, chegam-nos forte aos ouvidos sons de uma passeata instantânea da Aliança Democrática de apoio ao golpe, que veio para pôr tudo nos eixos.

         O Porto continua a primar à sorrelfa pela faceta de Londres portuguesa nos jardins em cada canto e na cultura e nas artes, como viveiro das pesquisas mais avançadas. Estudiosos vasculham compêndios para saber se o Jardim Botânico tem cogumelos ou outras substâncias alucinógenas e manuais de bruxarias à cata de informações de plantas que tomam em infusões, como datura, beladona e mandrágora, que levam muito boa gente ao Conde Ferreira, o principal hospital psiquiátrico da cidade.

Fazemos um bolo de haxe e um amigo de Pepe ‘ainda em liberdade’ providencia ácidos. No final de um trip divertidíssimo em que vamos parar à Foz eu e Pepe ainda temos energia para ir ao mercado abastecedor da Boavista catar restos de legumes para fazer uma sopa para a janta. Tempos difíceis. Da janela do quarto do melhor guitarrista da praça os meus pulam para o cemitério de Paranhos onde podem viajar à vontade noite fora.

 

 

 

         Vou ao Piolho, o café onde todo mundo encontra o que e quem procura, para ver de alguém que me dê carona para Lisboa. Não tarda muito e aparece Paulo Cunha Lima, o namorado não-oficial de Leda, que desce em duas horas no seu velho dois cavalos.

         Em ritmo lento e estilo ondulante chegamos a Coimbra, onde passamos duas noites em casas de amigos de Paulinho e após um desvio por Tomar acabamos por entrar em Lisboa em pleno toque de recolher. Estou de mudança para a casa de Paula, uma aeromoça da TAP que conheci no Vavá e que nos primeiros meses de Lisboa me fornecia peças de roupa da feira hippie de Ipanema e exemplares da melhor ‘imprensa alternativa’ brasileira. Com medo de ser pego pela tropa Paulinho me deixa na Ave de Roma, a uns 200 metros do apartamento junto à via férrea onde pernoitaria pela primeira vez. Shlap-shlotoc, shlap-shlotoc, fazem as minhas novas tamancas de madeira compradas em Viseu que ainda não mandei revestir com sola de borracha e ao caminhar, ainda que com o maior cuidado para não fazer barulho demais e morrer, não podendo também andar pé ante pé para abreviar o risco de ser apanhado pelo inimigo, parece que estou montando centenas de takes de sons de claquete em ritmo compassado e síncopes regulares. Chego ao interfone sem condições de falar alto e mal tenho fôlego para dar a senha. Quando entro a amiga está no quarto sobre um supercolchão falando com alguém ao telefone. Falar não é o termo. A voz é quase inaudível e o corpo é sacudido por convulsões, está inquieta, muda o tempo todo de posição, às vezes soluça e funga, funga e soluça, ainda interrompe a conversa e aos tropeços e com a língua entramelada indica o meu quarto, mas me puxa pela mão e diz para me sentar ali mesmo, na cama, volta a pegar o telefone e desata num pranto descontrolado, custa-me a entender, logo me ocorre que a chavala deve estar em manque, cold turkey, abstinência de heroína ou coisa que o valha e a sentir-me literalmente encostado à parede, se fico uma noite será mais difícil dizer depois que não fico dividindo a casa, me conheço o bastante para saber que quando chegar a hora de me mandar já estarei envolvido no drama e não terei como me desembaraçar, portanto por um lado não posso ficar aqui, por outro não posso sair rua fora antes das seis da matina e são só três, me deixo ficar por ali mesmo com a cabeça apoiada ao colchão fingindo que durmo até que durmo e quando acordo a outra está dormindo ou morta, não sei bem, com a mão perto do bocal do telefone, que continua fora do gancho, saio sem pô-lo no lugar e sem sequer arrumar os caracóis para nunca mais.

   

 

Entro num consórcio com Ivan e uma coroa francesa que mora no Alto do Restelo para alugar uma casa com sala, três quartos, pequeno jardim e garagem, no Alto de Caselas, do outro lado da Avenida das Descobertas, onde mora a francesa, com quem Ivan diz estar tendo um caso. Me apresenta a ela numa tarde em que são servidos ao lanche chá de papoulas, bolinhos de haxixe e éter, após o que decidimos tomar um ácido. A subida é feita ao som de Os Alquimistas Estão Chegando de Jorge Ben e One Size Fits All de Frank Zappa, que abrindo com Inca Roads surpreende pela interessante analogia com Eram os Deuses Astronautas, de Ben, e que levam a viagem para a sátira e o sarcasmo, sinais caracteriais que passam a ser – ou passo a ver como - dominantes na personalidade de Ivan.

                  

 

 

     Munido de uma bengala de cana do Malawi que Cleo me deu desço com ele até Belém para irmos a uma festa no ateliê do pintor Lagoa Henriques, para mim a do bota-fora da dita Revolução, com o tout Lisbonne, o beautiful people da capital. Cleo é a anfitriã e me pede para dar início ao party. Ponho (Come Up to See Me) Make Me Smile de Steve Harley and the Cockney Rebels, uma cançoneta de sucesso muito do nosso agrado. Luís Arcanjo, outro morador da casa do Alto, que parece sósia de Bryan Ferry, veste-se de terno preto e usa um lacinho de tira e ao descer a escada de madeira do galpão é o próprio Gary Cooper adentrando um saloon de faroeste, cenário do trip, em que na maior parte do tempo Marco Antônio e Cleo, que namoram, parecem discutir sua relação. Marco Antônio tem nariz adunco e cabelo meio ondulado sobre a testa e barba aparada. Nariz, pintura dos olhos e vestido fazem dela a imagem rediviva de Cleópatra. Entabulam conversa tipo ajuste de contas. Talvez impulsionado pela onda histórico-erística em que acabamos por entrar Ivan agacha-se à sua frente e fica longo tempo seguindo as suas confabulações. Amiúde, enquanto fala ou ouve a companheira, Marco olha-o com ar carrancudo, como que dizendo o que é que esse pilantra está fazendo aqui? Passamos pelos Jerônimos já de manhã a caminho da Fábrica de Pastéis de Belém quando Ivan decide me pôr à prova fazendo comentários irônico-cínicos sobre minha relação com Eloísa, que segundo ele eu não deveria dar por acabada, sobretudo nas suas (dela) circunstâncias. Para pôr fim à manha vejo-me obrigado a acertar uma bengalada em arco no chão, com que quase abro o pulso.

 

 

Jamais vejo a francesa na casa que alugamos. De mobília tem apenas três poltronas e uma mesa mais um som, um colchão de casal no chão de um dos quartos e outros dois de solteiro sobre estrados de ferro nos aposentos restantes e um fogareirozinho elétrico de uma boca, um fogão e uma geladeira na cozinha providenciados por ela. É como um refúgio de delinquentes do tipo de They Drive By Night. Além da cama tipo catre de armar o meu pequeno quarto tem apenas um pôster de A Fúria do Dragão de Bruce Lee. Ivan ocupou o quarto mais amplo, com um armário embutido na parede onde pendurou a sua bela jaqueta de couro e um casaco de antílope, herança dos tempos romanos. Uma de minhas principais ocupações do dia é providenciar um lugar para tomar banho, porque não há gás para esquentar água e para piorar o anticlímax do pós-25 de Novembro, o golpe que pôs fim ao chamado período revolucionário em curso ou PREC, o inverno 75-76 afigura-se geladíssimo.

Peter é o maior animador do local. Ainda não aprendeu realmente a tocar violão mas sendo inclusive também canhoto produz acordes distorcidos com riqueza tímbrica e sonoridade que, em sequência, fazem lembrar Hendrix.

Peter e Ivan deixaram Moçambique ainda crianças, quando os pais tiveram de cair fora por envolvimento com a Frelimo, numa época em que após o assassinato de Eduardo Mondlane, logo no início da guerra colonial, a Defa (a secreta das Forças Armadas) fez uma razia nos quadros do partido. O pai estivera preso e saiu direto da cadeia, onde chegou a ser visitado por Tristan Tzara, para o exílio em Copenhague. A essa altura a mãe, jornalista, já vivia em Londres. Ivan fez o ginásio em Lisboa, onde os dois ficaram aos cuidados da avó materna, sua verdadeira mãe segundo ele. Os dois gêmeos univitelinos cujas mãos são iguaizinhas entre si e por sua vez assustadoramente semelhantes às do pai encontravam-se de quando em vez na casa da mãe ou do pai e de um tio pintor que mora em Roma, onde o tio descobriu que, aos 17 anos, Peter estava envolvido com heroína integrado a um bando em que pontificava John Paul Getty III, o tal que pelo mesmo motivo e outras mutretas fez-se cortar uma orelha para simular um sequestro e sacar do avô uma polpuda soma em dinheiro. Psiquiatrizaram-no - a Peter bem entendido - numa estúpida tentativa de tirá-lo do vício. Doido já ele devia ser há muito tempo. Mas o processo tornou-o ainda mais dependente de afeto e dinheiro, porque ficou tonto a ponto de não mais estudar e não se afeiçoar a nenhuma atividade além de pintar, o que executa como que por hobby com um gênio inato, oriundo talvez do tio, que faz com que se pense que um dia ainda será famoso. Mas para já é só um jovem muito desregulado. Chegou à casa de Caselas vindo de mais uma estada em Roma, sem nada para fazer a não ser pintar ou desenhar quando tem condições, ou seja, papel, cartão ou tela, tinta, pincéis, lápis ou um pedaço de carvão à mão. Certo dia aparece de unhas pintadas de vermelho. Os vizinhos do vilarejo, que tem apenas uma venda, já não deviam estar vendo com bons olhos os novos moradores. Imagina agora, quando Peter chega a incomodar o próprio irmão, que entretanto, de prosa, sempre fala dele como um gênio.

 

 

Eu e Ivan costumamos ir para casa de táxi juntos porque os ônibus acabam à meia-noite e normalmente temos mais que fazer na cidade até um pouco além dessa hora. Invariavelmente, quando se faz tarde passo pelo Tramps, que Ivan frequenta assiduamente na atual temporada. Um novo hábito pegou os jovens mais desbundados em cheio em meio mundo: tomar Mandrix e mandar muito álcool pro bucho, o que faz com que em festas privadas ou em locais públicos boa parte da população viva aos tropeços e de olhos revirados como bêbados no penúltimo estágio de embriaguês. Chama-se a isso ser ou estar roxy.

São duas da manhã, Ivan está roxy pra dedéu e mal consegue entrar no Mercedes 180 que nos espera. O táxi avança pela Rua da Escola Politécnica. Com uma mão Ivan me acena e revira os olhos como para dizer: que loucura! O taxista trava para parar no sinal antes de entrar no Rato. Muito roxy e muito louco o corpo de Ivan não resiste ao leve solavanco e, embriagadíssimo, projeta-se sobre o banco corrido da frente. Da boca do companheiro sai de jato uma quantidade inaudita de vômito que se esparrama do vidro da frente ao tabliê.

- Ma... ma... – o taxista olha para trás atônito e sem condições de dizer nada.

- Desculpe senhor – balbucia o outro com a voz embargada pelo engulho mas também na maior calma.

- Mas homem! Veja só o que o senhor fez! Acabei de sair da garagem para lavar o carro e agora vou ter de voltar para lá de novo! Mas... isto não pode ser! É uma noite perdida!

Ivan paga a corrida e outras duas.

Espero junto à porta. Já tinha avisado que estava sem chave. Muito menos roxy, mais para o desengonçado, Ivan põe a mão num bolso do blazer, no outro, as duas apertam os dois bolsos de fora e parece até estar fazendo cena quando estampa um ar de espanto:

- Perdi a chave!

Duas e meia da manhã. O remédio é quebrar o vidro da sala à pedrada como dois assaltantes, mas com estardalhaço.

 

 

       Amigos da francesa, donos de fazenda no Alentejo, jovens mas potenciais eleitores da AD, do Partido Popular Monárquico ou do Partido Democrata Cristão, guardam um Mercedes na garagem, primeira vez que ela vai à casa desde que a alugou há três meses. Preparam uma viagem ao Marrocos em poucos dias. De lá vão a Paris. Em duas semanas Ivan fica a par de que o grupo enchera as portas do carro de haxe, que pretendia vender na capital francesa. Devem ter flipado, porque andavam nele em Paris quando sofreram um acidente à hora de pico em L’Étoile. Estão presos. A casa de Caselas fora alugada para ser uma das bases da transa. Somos obrigados a evacuar o quanto antes.

 

 

 

 

         No laboratório da Apelação, a par com a atividade de ‘crítico’ me proponho traduzir Playpower de Richard Neville, que ao narrar os bastidores dos grandes acontecimentos do movimento de contracultura pop-rock dos anos 60 em Londres, Paris e periferia de um ponto de vista underground desenrola a teoria segundo a qual eles inauguram uma nova era em que, em função do desenvolvimento tecnológico, a humanidade da parte ocidental tende a ter cada vez mais disponibilidade para o prazer e a brincadeira. Mexendo com o passado e bulindo com o futuro, quando o desemprego aumenta e o trabalho braçal se tornaria obsoleto e teremos de ter muita imaginação para nos sentirmos ocupados e realizados mesmo sem fazer nada de aparentemente útil, como uma criança, com prazer total no ócio. O poder da brincadeira.

 

 

 

JCP em streaking – a grande moda em todo o mundo – Príncipe Real e Academia de Ciências abaixo até o Rato. Vai parar no Governo Civil onde a ex-mulher, psicóloga, o resgata, e só para que conste às autoridades tem de passar uma noite no Júlio de Matos.

         - O que é que te deu?

         - Eu sei lá, pá... Uma loucura que me passou pela cabeça...

         Raptus de resistência contra o reenquadramento, o reespertilhamento.

 

 

         Um coronel líbio chega a Lisboa e eu e Afonso, que reencontro entre duas idas ‘à Europa’, recebemos uma baba que nos deviam no Página 1, as quais são devidamente rentabilizadas na compra a Júlio da Maianga de um boi excepcional que o irmão rasta, Caleb, regressado de rappel a Luanda, lhe faz chegar às mãos e de que compro 50 gramas a 500 paus, que a custo embalo num saco de vomitar de avião sentado num banco do Parque Eduardo VII ao lado de Afonso que já prepara um beise e quando fumamos surge do nada um jovem com pinta de frique americano que começa a falar de... Jeeesus Craist! – mais um Jesus Freak. Billy Graham &/ou os Seus Acólitos souberam do comunist uprising in Portugal e trataram de mandar os seus muchachos aos milhares, numoutra invasão de marcianos em Lisboa. Canta acompanhando-se do violão.

- Is that your guiTAR?! Love-ly. Who gave it to ya? – provoca Afonso.

         - God gave it to me.

Passa cuspe na seda e pisca-me o olho - Quem deu? Foi Deus. Fudeu! Dá até para brincar: quem, Deus? (e mirando o jovem ianque:) So, if God gave it to ya, why dont’cha give it to me, ‘cause I’m in a terrible need of such a beautiful guitar like yours?! Gimme that!!!

         Afonso está aprendendo os primeiros acordes e usa Dylan para o fazer, com as da primeira fase. Mas é fascinado por Selfportrait. Dá os três primeiros acordes e ataca:

         - Blue moon, you left me stan... Não, essa não se adequa ao momento.

         Muda de atitude. Dá um acorde. Dois. Olhando-se para além do Parque na direção do rio, o sol se pondo nas nossas costas, o horizonte tem a cor do Mar da Palha.

 All the tired horses in the sun

 How’m I supposed to get any riding done

  Hmmmm, hmmmm, hmm, hmm, hmm

- cantamos enquanto fumamos, até a cor de palha desfazer-se no azul com o Jesus Freak só olhando o par de loucos que encontrou por azar.

 

 

 

O projeto de traduzir Playpower ficou por isso mesmo. Na promessa de um dia voltar a ser um trabalho prazeroso.

Pego a minha já velha mochila de lona verde do exército britânico e nunca mais verei a minha segunda leva de melhores discos e livros que deixo inadvertidamente na Apelação, porque a estrada me chama sem que o saiba, primeiro passo, após um lauto café da manhã na Ferrari, um fim de semana na Costa na casa da família de Carlos Lobo, autodenominado Lobão, onde a porta nunca é aberta porque os seus pais se recusam a lhe dar a chave e todos entram e saem pela janela, o que vai dar no mesmo. Lá chegamos porque encontramos o Lobo Grande na praia e estou com a mão na massa pronto para enrolar mais um e ele nos convida a ir até lá em casa.

Revolução é também uma canção de estrada – nomadismo, condição natural do homem, segundo alguns antropólogos, de que estudei uns ensaios na Apelação, na coleção 10/18, com uma compilação de estudos publicados pela revista Cause Commune, e em que leio em epígrafe de um deles:

A vagabundagem nada mais é que o primeiro passo rumo à prisão, quando não ao cadafalso; a vagabundagem está para o aprendiz como a prostituição para a jovem operária: é uma espécie de proclamação da independência, um primeiro desafio à ordem social.

                                                           Edouard DUCPETIEAUX. 1843

A partir de Candy Mountain de Robert Frank e Rudy Wurlitzer (1985)  

 

      el cantor non tiene residencia fija; su morada está donde la noche lo sorprende; su fortuna en sus versos y su voz

                                                       Domingo Sarmiento: Facundo - 1848

 

 

        Estamos de novo na praia quando vejo Dio a vir em contreplongé, e mal se senta e já está perguntando se não temos dinheiro para o pôr para almoçar.

        - Tou cá com uma larica! Nem sei como ontem à noite fui parar sozinho no pinhal da Lagoa de Albufeira e o carro atolou na areia. Com aquele peso vou precisar de uma porrada de gente para tirá-lo de lá.

         Fumamos um, vamos almoçar e vamos pedir carona para ver se conseguimos desatolar o mastodonte, o que fazemos com a ajuda do casal que nos leva. É a última vez que vejo Dio de carro, porque como o Mini no Alentejo o Record será deixado no Algarve numa das muitas supostas viagens de regresso do seu dono do Marrocos.

        Desde que começamos a varar madrugadas juntos, no tempo dos giros pelos cabarés, quando nossos encontros eram mais raros, ao passar por uma praça, enquanto alguém enrolava um, Diogo costumava exibir as proezas de ginasta que começou a desenvolver no Colégio Militar, onde fez parte do ginásio. Barra fixa, mortal no solo, cambalhotas – era um ás. Até que uma noite, já há algum tempo, ao dar uma cambalhota numa barra transversal e jogar as pernas sobre as costas deu um grito de dor que chamou a atenção de todos e caiu. Era o ciático revelando-se pela primeira vez em público. A partir de então os esgares de dor acompanhando a mão nas costas com o corpo inclinado passaram a secundar cada exibição do atleta, que em menos de um ano deixou de atender aos pedidos das platéias, já em tom de gozo: Dio, dá mais uma! Se diria que pelo aspecto físico, a indumentária e os carros quebrados em três anos foi de um lado ao outro do espectro existencial, de guri bem das Avenidas Novas, com melhores perspectivas que as do pai militar em pleno recrudescimento da guerra colonial, ao frique tresloucado que se mete em situações em que parece em total desatino. Sem caminho de volta. Com a mulher, com quem discute de modo violento em público e com frequência. Na vida profissional, que de momento nem se fala nisso, parece não ter mais profissão ou outra qualquer ocupação possível, se a vagabundagem não é uma. Quase sempre parece paranóico, com tom de voz baixo e olhos que só muito a custo encaram os interlocutores. Pode-se dizer que a esta altura foi banido pela classe e está perdido. Só vive à noite, quase beijou a sarjeta, não fosse um anjo, embora caído.

 

 

     

          Estou com Sim Cler, com quem pego uma carona de amigos até o Algarve para um fim de semana em Pedras d’El Rei, próximo a Tavira. Após uma churrascada de peixe e mariscos no terraço marroquino da casinha alugada pelos nossos eu e Sim tomamos um acê, que curtimos na praia e em duas tabernas entre Cabanas e Fuzeta e caras curtidas de pescadores à luz de lampião com muito medronho e jeropiga à mistura. Na última noite, enquanto jantamos em grupo em Olhão, decidimos não voltar com os amigos.  O clima tá mas é para uma digressão pela costa algarvia, concluímos. O saco de vomitar tem boi para mais de uma semana e o dinheiro que me resta das colaborações do Página 1 dá para uma bela refeição diária dos dois, que poderemos ter onde dormir em Portimão e Lagos e não fará mal nenhum, embora sem saco de dormir, dormir na praia em Albufeira, onde os amigos nos deixam à meia-noite e – que sorte! – já nos dirigimos à praia quando avistamos o cantor Very Nice, que está trabalhando num restaurante da vila e nos convida para ficar num casão sobre o mar no início da estrada para Armação de Pera, onde mora sozinho e nos hospedamos como dois barões, a acordar a meio da manhã, descer até uma prainha deserta entre as rochas, os pés virados para as bandas do Brasil sobre o mar prateado à contraluz do sol, subir para o banho e descer à vila e das duas uma: um tabernáculo a um canto da praia dos pescadores onde uma senhora velhinha nos serve peixe grelhado na brasa e vinho a granel ou uma cervejaria logo atrás onde, sentados ao balcão a ponto de quase desabar, nos deliciamos em looongos repastos com dúzia e meia de sardinhas assadas, batata cozida e salada mista mais uma garrafa de Lagoa a 13o etílicos.

A trilha sonora a contento, ouvindo quase sem cessar Native Dancer, de Wayne Shorter, com Ron Carter mais Herbie Hancock e a turma de Milton Nascimento, em que o sopro langoroso do saxofonista, o fumo e a canção Tarde nos fazem sonhar com as mulheres para trás e à nossa frente:  

                        das sombras quero voltar

                            somente aprendi muita dor

                            e vi com tristeza

                            o amor morrer devagar

                            se apagar

 

 

 

 

Do terraço da casa de três andares uma visão de sonho de ilhas gregas, ciprestes ao redor de um pequeno cemitério e o mar a toda a largura do horizonte piscando cintilações de prataria. Sim Cler quer ir lá com a namorada de carona com os amigos da excursão a Pedras d’El Rei, que se fossem legais bem que poderiam também me levar até Marselha, porque Ivan insiste que o visite em Paris antes que o seu estágio acabe.

Não fosse o boi e talvez não fôssemos tão longe. Hora da despedida de Albufeira, a meio da tarde vamos para o posto de gasolina a ver se conseguimos chegar a Portimão, vagabundos de mochilas às costas – e qual o quê, quem é que lá está, numa esplanada, pregando sermão com o seu violão? O Jesus Frique do Parque Eduardo VII.

Não conseguimos carona ali e quase nos vemos obrigados a voltar da estrada de barlavento a sotavento, ou vice-versa, porque pela primeira vez constato como é difícil dois marmanjos com ar de vagabundos de verão pegar carona em Portugal.

Still de Candy Mountain de Robert Frank e Rudy Wurlitzer (1985)  

         Ao sabor da brisa, chegados a Portimão vamos direto à casa de João Antônio, um jovem amigo de Lisboa que passa os dias fumando, cheirando, tomando Lipo-Perdur ou Mandrix e escutando jazz-rock, a grande onda do momento, em vilegiatura algarvia, mas ele está com a pequena casa de veraneio dos pais superlotada de friques e nos vemos obrigados, após lauta janta, a dormir num ônibus mal fechado estacionado perto da estação de trem. Um mergulho na praia da Rocha e ala para Lagos, que já se faz tarde e carona é tão difícil de apanhar.

 

 

Vamos para uma excelente pensão em que Sim Cler, a namorada e Ivan ficaram no verão passado. Dinheiro para pagá-la não há, vou logo avisando ao amigo, que a esta altura pensa que minha reserva está num bolso sem fundo. Acho que não vamos ter problema, diz, pelo que vi não é muito difícil se mandar de lá sem pagar.

Restam mil e duzentos paus, com o café da manhã na pensão dá para comer e beber bem por quatro dias e ainda sobra dinheiro para despesas na subida, de carona. Três noites depois, quando já não queremos outra vida, curtir uma da Índios da Meia Praia e comer o excelente peixe no mesmo restaurante e quase afogarmos em garrafa e meia do mesmo Bucelas branco, quase mil paus já voaram, estamos no mesmo restaurante planejando minuciosamente a fuga da pensão sem pagar. Não é difícil ver da escada quando nos seus afazeres o dono ou a dona se ausentam da recepção e aí, ó, se picamos. Às dez horas da manhã... Mas, com tanto vinho e boi, que ainda acendemos um antes de dormir, só acordo às onze, quando já seria tarde demais, mas lá conseguimos executar o plano à perfeição, com o único senão de da porta da pensão à estrada de saída para Silves gastarmos toda a energia da subida do antepenúltimo beise de boi em corrida desenfreada.

         Mal refeitos da comoção estamos na beira da estrada para pedir carona quando vemos uma carochinha de patrulha se aproximando e parar bem à nossa frente, com dois policiais que se põem a mirar-nos fixamente por alguns segundos, como se fôssemos justamente os gajos que procuravam. Tamos fritos, penso, tentando disfarçar mas já nos vendo na choldra, quando inopinadamente o motorista engata a primeira e zarpa.

Ufa. Vamos mas é de trem até Silves só para escapar de eventual perseguição. Da estação à estrada para Lisboa vai uma bela marcha num início de tarde esplendoroso de julho. Numa curva ao alto vemos uma figueira pejada de frutos carnudos nos chamando. Como duas crianças marroquinas num oásis em Zagora galgamos os seus galhos e nos pomos a almoçar na figuêra, que às vezes, como agora, melhor almoço não há – e há aqui alguém pensando no dia de amanhã? - e vendo abaixo da longuíssima vereda, em plongé decubital, um povoado a que vamos e onde tomamos um tinto de estalo com duas pedrinhas de gelo só para refrescar um pouco antes de seguir para a carona, que são duas conquistadas após muito tempo de polegares na horizontal até chegar a exatos 13km do Alentejo, que percorremos a pé ao lado de uma fila infindável de carros passando num fim de tarde de domingo e dizendo como é difícil pegar carona em Portugal e, noite já, arribamos a uma taberna só com uma luz de lampião a gás onde comemos sardinhas enlatadas e pão e tomamos vinho e saímos para dormir ao relento, sobre o chão de chaparro, e fazemos o primeiro contato com o chão de chaparro, muito duro e pedregoso, sentados a enrolar o último beise, que em plena escuridão, enquanto ainda é esmifrado, escorrega da mão de Sim Cler e nós tentando alumiar o chão para ver se conseguimos recuperar o boi e acabamos por talvez fumar terra, o que não faz muita diferença, porque altos já estamos com o fumado à tarde e com o vinho da tasca, de onde ouvimos gritos e risadas enquanto adormecemos sob um manto estrelado.

Como são belas as manhãs de verão alentejanas. Ainda se anda uns bons quilômetros até pegar carona de um caminhão e depois de Ourique finalmente uma de carro que nos leva à Praça de Espanha. Verão de sol – o verdadeiro Verão Quente a compensar da falta de festa no ambiente em Portugal.

 

 

Os dois jovens amigos pretendiam zarpar de Lisboa e ir até a Grécia no seu belo BMW vermelho pra paquera, mas já se lixaram porque não escapam de levar três de carona, eu, Sim Cler e Gina, a sua namorada, ao menos até Marselha (os dois a ver se até lá os convencem a carregá-los até o destino final). Em Madri, à meia-noite, entramos num drugstore da Josè Antonio em estilo art nouveau e ao passar por um bar aberto para o corredor principal vemos dois homens brigando num embate furioso, ocupando o espaço de lés a lés, até que um dos contendentes agarra na cabeça do outro e acerta-a quatro vezes com a nuca contra a balaustrada aveludada vermelho vinho até soltá-la e o outro dar um rodopio e desabar no chão, que quando a cabeça o toca já o alaga de sangue, sangue da guelra, de touros de morte – incrível como depois de uma tal cena ainda se consegue comer um belo hambúrguer com muito ketchup e, o dinheiro é pouco, durmo no carro fora de um motel à saída da cidade, na estrada de Saragoça, que começamos a ver a meio da tarde, um ponto quase indistinguível no meio da planície deserta crescendo até se ver a cúpula da catedral ao centro, crescendo ainda ao longe até desaparecer entre os prédios e passamos por ela no centro da cidade e depois as vemos de trás, a cidade, a catedral, até desaparecerem no horizonte crepuscular, truta com amêndoas junto às Ramblas no El Chino, onde se dorme num hotel baratucho em quarto ‘triplo’ depois de uma visão de Gaudí em traveling, e na tarde seguinte Marselha.

 

 

Massília, milenar colônia comercial, antigo entreposto grego, hoje grande demais, suja, barulhenta, atafulhada de gente e perigosa, operária e sem charme, diz-se. Hospedamo-nos no pior hotel da minha vida, em Belsunse, entre a estação e o porto, um aglomerado de imigrantes pobres. De jelabas folgadas e chinelos pontiagudos mercadores norte-africanos tomam chá. Comemos pão e camembert e tomamos vin du clochard num miradouro de Le Panier com vista para o porto, quase toda a cidade lá embaixo, onde à noite eu e Sim Cler tomamos um ácido com Pernod caríssimo – uma vez... sem exemplo – enquanto uma dupla de jovens violinistas toca Mozart bem de frente para nós no Vieux-Port, vamos até um lugar sem gente junto ao cais onde ouvimos ao longe o burburinho das esplanadas superlotadas. Veleiros e pequenas embarcações pesqueiras com luzes de vigia, densa floresta de mastros balouçantes à brisa que quase não se sente, uma e outra lancha não chegam a quebrar o encanto do transporte a noites muito antigas de partidas e chegadas de galeões de corsários de e para a aventura, o desconhecido.

 

O casal parte para a Grécia no trem das duas da manhã rumo a Ventimiglia e Brindisi.

 Minha mochila vem leve mas a subida até a estação St. Charles pela sua ampla escadaria cerimonial é difícil. Temos tempo para respirar e olhar rindo para Les Colonies d’Afrique: uma mulher de seios nus, braceletes e colares, entre macacos e presas de elefante. Gina – brinca Sim Cler, cuja namorada é uma mulatinha da Guiné. Vamos até uma outra estátua ao lado, que retrata uma mulher oriental: Les Colonies d’Asie.

Os dois acenam do trem a caminho da Grécia para onde eu queria ir também. Me estendo no banco esperando o trem das quatro que me levará à Gare de Lyon, onde chego ao final da manhã. Ivan desconhece dia e hora da minha chegada. Telefono-lhe. Ninguém responde. Vagueio pelo Quartier Latin toda santa tarde entre um telefonema e outro para a casa de Ivan e um sanduíche de jambon e outra de patê com Coca-Cola. Nada. Não entro em pânico. Vou até a Nôtre Dame e, dando-lhe a volta, sou atraído por som de música que vem de trás, chego à Square Jean XXIII e um outro duo de violino e celo executa clássicos ao relento quente, após o que procuro abrigo para o sono... nos quai, depois da ilha de St. Louis, chego ao Quai Malaquais - mais c’est raté, como já cantava o velho Leo Ferré – de nada vale. Sento-me num banco e cansado do trip, da viagem e das andanças em torno de St. Mich ainda adormeço mas logo acordo estremunhado e vejo uma ratazana de uns 20cm correndo junto ao muro e penso clochard, sim, mas sem exageros. Subo em busca de melhor abrigo. Sigo na direção da Nôtre Dame e vejo um ônibus com ar de abandono e alguns vidros quebrados e durmo no banco traseiro como se aquela fosse a melhor cama do mundo.

Na manhã seguinte, ao sair e olhar para o meu primeiro quarto em Paris, vejo colado a um vidro de janela ainda intacto um letreiro com o anúncio GRÈCE 300 FRANCS – é só o que preciso. Vou tentar vender um artigo sobre MPB e pedir um adiantamento para chegar lá. É o meu verão de mar e a idéia de os meus estarem viajando via Itália para as ilhas junta uma coisa com a outra. Encontrar Raoul Dengdett na redação do Rock&Folk, 14, rue Chaptal,  e vender a idéia.

Vou à Nôtre Dame. Que melhor lugar no mundo para fazer o ménage? – arrumar como posso os cabelos em caracóis e passar uma água nos olhos – que a pia batismal da catedral de Nostradamus e depois, totalmente a sós, sentar-me, e envolto no mais absoluto silêncio contemplar um a um, levantar-me devagar e avançar pé ante pé para close, recuar para trabalhar com as variações de luz e de novo avançar para mirar melhor cada vitral. Ainda talvez sentindo o ácido - ou será que quem os montou usava fungo de ergotina fermentado para fazê-los?

Campa de Jim Morrison no cemitério Père Lachaise, Paris - Foto: Helena Celestino - O Globo

Desavisado como um daqueles sanduíches de carne assada otomanos junto a uma carroça ali ao lado que me obriga a mandar duas Coca-Colas para lavar a pimenta da língua e vou a pé até o Père Lachaise, onde sem querer vejo-me mandando um telegrama a Jimi. Tenho uma pedrinha de haxe de que faço um beise e me sento em frente à campa de Jim Morrison a fumá-lo, tudo em volta cheio de pichações em reverência ao REI LAGARTO do rock, a melhor das quais, para mim, sempre foi e é no one here gets out alive, ninguém sai daqui vivo, ainda é muito cedo e não há nenhum idólatra a reverenciá-lo, não o faço eu também embora me veja a cantar Straaange days HAVE found us e Riders on the storm... a lembrar-me de quando soube da sua morte em Kennington, Jimi, a Jimi faço uma pequena homenagem enquanto fumo este, Jimi – e vêm-me lágrimas aos olhos – também a dizer Prost! (como os teus lá das regiões mais a norte da Itália) a ti, enquanto penso que ele possivelmente nem estará ali, onde se lê James Douglas Morrison 1944-1971, Jim Morrison está vivo e bem entre os wai wai. Saio e no primeiro orelhão telefono a Ivan, que finalmente me responde. Onde estás? No Père Lachaise... Já?! – pergunta-me o morto.

 

 

Nôtre Dame não faz milagre. Vou à do Rock&Folk, perto do Pigalle, onde me é dito que por brincadeira Raoul Dengdett, que procuro por causa de uma crítica dele a Minas de Milton Nascimento publicada na revista, chama-se Laurent Goddet e é editor do Jazz Hot. Onde posso encontrá-lo? Aqui mesmo atrás, na redação da revista. Um misto de Frank Sinatra e Gérard Philippe quando jovens. Diz que R&F não publicaria um artigo sobre MPB mas ele sim, umas 30 laudas em duas partes, o que poderia pagar é ridículo e de adiantamento nem se fala porque o dinheiro é curto. Então não sabe? Boris Vian nunca recebeu um níquel pelo que escreveu pra cá em décadas! Ensaio outra saída: combinei com Rui Pereira, amigo e colega com fortes relações em Paris e correspondente em Lisboa do Libé, receber em seu nome uns dinheiros que o jornal lhe deve, e lá vou eu para um endereço estranho, tratando-se de um jornal algo M-L, ou marxista-leninista, estação de metrô Stalingrad, numa rua de pequenas fábricas que terá ficado bem num filme de Renoir está a redação do jornal, entra-se pela casa das máquinas e sobe-se por uma escada rústica de madeira até a redação, o que me reporta aos tempos do República. Enquanto espero Serge July entra um mottard de jaqueta de couro e cabelos longos escorridos pela cara com uma bela Kawasaki 750 vermelha tinindo de nova como uma bela gamine que trouxe na garupa e estaciona as duas ali mesmo, num vão livre antes das máquinas. O aspecto da redação não lembra em nada o da Gazeta da Semana, onde o meu amigo trabalha, o pessoal sempre de cara amarrada e com roupas descoloridas e tristes dos emeéle e afins, aqui pelo contrário, tudo muito bem vestido em roupas modernas e multicoloridas e com aspecto jovial e descontraído. July me recebe junto da mesa do chefe de redação onde atende uma chamada de um enviado ao Midi e põe-se a gozar com o outro, nós aqui em calores infernais e tu na praia a beber cassis.

- Ah, il pleut au Midi?! Regardez, les gars, il pleut au Midi!!    

Desliga o telefone e enquanto com uma mão segura o cachimbo com a outra coça o saco o tempo todo e me põe a pensar em como poderei arrumar dinheiro para o trem ou o ônibus de volta para Lisboa, porque diz que não há grana, cheguei a Paris com apenas 90 francos e Ivan também não anda lá muito bem de saúde.

Ivan passa a maior parte do tempo em casa de amigos em Meudon-Val Fleury, onde vou uma tarde para um lauto barbecue de steak au poivre com tanto luar de pleine lune, Bourgogne e haxe que me obrigam, em êxtase, a ralentar os passos a caminho da estação, perder o último trem para Paris e me perder no caminho de volta e, perambulante madrugada fora, ir dar ao portão do Observatório Astronômico, onde me estendo sobre um banco feito de meio tronco de árvore e desfaleço, ignaro que pela contracapa do exemplar de Voyage au Bout de la Nuit de Louis-Ferdinand Celine, que viajou comigo de Lisboa, serei informado de que o autor viveu e morreu onde sonho ao relento numa noite au grand clair de lune.

Celine no portão em Meudon      

 

 

Laurent me deu o telefone de Naná Vasconcelos, com quem marco encontro numa noite de domingo, véspera da partida, em que o percussionista brasileiro me recebe sentado no carpete da saleta de entrada do apartamento desmobiliado dos Halles e fala enquanto cofia a barba com um olho em mim e outro, desorbitado, num ponto indefinido atrás dos meus ombros, da sua vida desde quando aos 14 anos iniciou a carreira como baterista de gafieira em Recife, Pernambuco, do trabalho com crianças lelés baseado em percussões e das suas pesquisas sobre as origens geges e nagôs e bantos da música brasileira.

         Saio chapadão sem nada ter fumado. Faço as contas e troco um quarto de pensão na última noite em Paris, porque Ivan já desocupou o apartamento onde estava, por uma noite na rua em ácido e o café da manhã no Café de la Paix, de frente para a Ópera, propondo uma ação que faria o sonho de Walter Benjamin: vagabundear sem rumo por Paris.

No Boulevard Sébastopol sonho com um suco de laranja para ingerir a pílula, vejo um indivíduo puxando a grade de ferro do último bistrô, apresso-me desesperançado que me valha mas Nôtre Dame opera um milagre e num minuto estou com uma Fanta na mão e a pílula no bucho. Caminho na direção do Sena. As imediações do Palácio da Justiça estão muito mais iluminadas do que o normal. Parece de propósito para a subida. Atravesso a ponte a perguntar-me o que será. Uma equipe filmando! Caminho ao longo do fosso nas traseiras do edifício, o Quais des Orfèvres. Fico a ver o vai e vem de membros da equipe que vêm jantar ou tomar um drink no Pepé – Restaurante Ambulante Para Filmagens. Uma aula de rodagem em exteriores. Quem será o professor – o diretor? Volto ao Quai de L’Horologe.

         Ah, Robert Bresson. Cada vez melhor. Fico admirando do alto o grande cineasta filmar em quatro horas não três cenas mas apenas três shots/inserções: um tiro na água, um rapaz de cabelos longos e escorridos atirando no leito do rio iluminado e depois passando por uma garota no cais. Ambos com ar de personagens de Bresson, muito jovens, cabelos longos e escorridos e fisionomia pálida e doce.

         Aproxima-se um jovem árabe cheio de speed com ar de quem se pergunta o que se passa e ao ver o que se passa, galvaniza-se e instala-se logo ao meu lado.

-  Qu’est ce que c’est ça? Qui est ce gars-là? C’est un artiste?      

-  Robert Bresson, un métteur-en-scène, vous le connaissez déjà?                    

- Robert Bresson... Ah oui, je l’ai vu à la telé!                 

 - O que é isso? Quem é esse cara?  É um artista?

- Robert Bresson, um diretor, já ouviu falar dele?

- Robert Bresson... Ah sim, já o vi na televisão.

         Bresson roda o seu último filme: Le Diable Probablement.

 

         Tenho dificuldade de me desembaraçar do argelino ao chegarmos aos grandes Magasins Printemps. Quer festa... Do Pont Neuf ao amanhecer caminho em direção a um grande edifício quadrado que vejo do alto da ponte dos amantes e que ao aproximar-me, numa extraordinária aula de volume e perspectiva na arquitectura neoclássica, com o prédio aumentando au ralenti à medida em que me aproximo, revela-se num flash o Louvre. Sigo pela praça ao fundo e à direita até a Ópera, onde sento-me na esplanada do Café de la Paix e passo o café da manhã brincando com as estátuas nos nichos da fachada, cada qual numa empostação canora, ora todos em coro, ora a soprano a solar:

         Ó patria  mia non ti vedrò mai più... Mai più... Mai più...

 

 

 

 

 

 

Compromisso no mirante para tomar um orange. Há um preceito primordial. Toma-se ácido, como eu com Afonso na FIL, sabendo-se quando se vai tomar e com quem. Não é como dar uma tragada ou três num beise. Fazemo-lo com quem queremos estar ou não vemos problemas em estar, por causa da tal da bad vibe. Set e setting a postos. Se sozinho já se fica tão exposto ao acaso, como me senti em Paris, em grupo só vale a pena com malta fixe, para que eventuais cortes não sejam mais fundos ou duradouros. E como é uma viagem de no mínimo oito, dez horas, tudo é combinado e preparado a preceito com antecedência. Como uma viagem ao cosmos da NASA. Nada nos escapa. Com cintos de segurança. Porque ninguém aqui é louco. Ao menos até prova em contrário.

 Decola-se com uma cônica de haxe às onze e meia da noite. Velvet Underground nos ouvidos, The Gift, que história.

Marco Antônio fala como que em elipse ascendente de um simulacro de sistema cósmico que a mim que, finda a estrambólica história de Lou Reed, acabo de sintonizá-lo, e talvez por analogia com alguma coisa que me passa pela cabeça, parece situar-se no espaço sideral algures entre Saturno e Urano, numa algaraviada conceitual de se lhe tirar o chapéu.

- ... que as apreende conceitualmente no seu encadeamento cósmico... e está ciente de que a totalidade do conteúdo da experiência... tem por forma o ser em si mesmo do espírito, estabelecendo um estado... é... de turbulência... composta de interação... multiplicativa... de infinitos campos de agregação, tás a ver?... ééé... numa dimensão cósmica... extraterritorial... e... atemporal.

Cosmografia, meu?! O ‘interlocutor’, rindo com ar de lelé e às vezes, por esgares, dando a entender não estar sacando bulhufas do que lhe é dito, mas que de lelé não tem nada, quando finge captar algum sinal inteligível do emissor limita-se a dizer iá e a fazer hum-hum e a mover a cabeça de baixo para cima e vice-versa. E o outro, impávido, disparatando uma catadupa de considerações pré-ou-pós-conceituais sobre o ser cósmico em si e face ao espaço intergalático, porque alguma coisa sobre Urano ou Plutão me parece ter ouvido. Demonstra profundo incômodo pela minha ‘sintonização’, como no acê do ateliê com Ivan, enquanto supostamente discutia o seu futuro com Cleo e o meu se postou agachado e apoiado no seu próprio joelho acompanhando tudo – parece perseguição! Esforço-me para desviar a atenção e concentrar-me noutra coisa mas sequer consigo mover a cabeça e nem pisco, embora arreliado com o seu ar misto de doutoral e demente e ao mesmo tempo, já agora, empenhadíssimo em saber do que se trata no solilóquio, mas não atino – Que besteira! Tá lelé!

Mas ao mesmo tempo, em ácido, tal como é difícil sair-se de uma ‘onda’ em que se mergulha a parâmetros insondáveis também não há gentio que aguente por muito tempo botar ou ouvir discurso, porque mal se enceta, para a contraparte, ‘noutra onda’, tudo tende a soar como sendo o que efetivamente é: puro abstracionismo. Não tarda muito e cada qual fica na sua, a ouvir-ver música e folheando len ta men te livros de arte, e vice-versa, ou a contemplar a(s) paisagem(ns).

         Ivan, uma vez ou outra, murmura num esgar, só para não ficar calado ou para dar a entender que a ‘sua’ é a melhor e a maior:

- Meu... que ácido! Edinho, que loucuuura!

E ponto. Ou reticências. Talvez porque não haja viagem mais profunda para dentro e fora de si quase não se vai além quando se está em ácido, e um relato cabal sobre o que se passa na cabeça de cada um só seria possível falando sozinho para um gravador, como fez Huxley no decurso da sua sondagem com mescalina, em cujo relato acerta a mão no que se refere a vício, dissociando-a (e por força faço o mesmo em relação ao LSD ou à cannabis) dos opiáceos, por exemplo, pelo seu reduzido grau de toxicidade, não causando ressaca e portanto não compelindo o usuário a uma recarga da dose. Incrível é entretanto a extraordinária semelhança de quem escreve e consegue descrevê-las com acuidade com as minhas experiências extra-sensoriais em ácido, e portanto – imagino - de muita gente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         Começa-se, segundo Huxley, pela percepção de formas geométricas coloridas ‘animadas’ – o que faz do caleidoscópio e do estroboscópio delícias para quem ‘viaja’ -, em contínua e permanente mudança. Vêm a seguir ‘figuras heróicas’ a que Blake (em ergotina fermentada?) chamou ‘Os Serafins’ e depois os animais fabulosos, nada relativo ao passado do ‘visionário’ nem por ele inventado, por tratar-se de algo que não é produto do self mas de ‘um compartimento mental altamente diferenciado’, e então pontos estelares, o que a alguns parece fragmentos de vitrais, ‘fluxos incontáveis de focos de luz (muito) branca’, linhas ziguezagueantes de cores ultrabrilhantes, torres góticas de desenhos elaboradíssimos e enormes pedras preciosas em bruto.

Pelos anais de Anaïs Nin e os meus olhos quando se foca o carpete ele não é plano e sem vida mas campos alvoroçados ou ondulantes; portas, paredes e janelas parecem liquifazerem-se, objetos perdem a rigidez como se se estivesse num mundo submarino ondulante, de repente um pegador de fechadura parece uma serpente, como se tudo fosse elemento vivo e animado e respirasse, inclusive árvores, nuvens e gramados e passasse por metamorfoses como as de Alice no Jardim das Maravilhas, lendo, adormecendo e caindo na toca do coelho, uma dentada no bolinho de cogumelos alucinógenos e... FLASH!

         Refrão com Huxley, para quem as ‘criaturas psicológicas que habitam as mais remotas regiões da nossa mente’ são como os marsupiais para um habitante do Velho Mundo, por demais bizarros mas tudo somado aceitáveis, apesar da sua inverosimilhança, porque a sua existência ‘obedece a leis reconhecíveis’:

   Every mescalin experience, every vision arising under hypnosis, is unique; but all recognizably belong to the same species. The landscapes, the architectures, the clustering gems, the brilliant and intricate patterns – these, in their atmosphere of praeternatural light, praeternatural colour ,and praeternatural significance, are the stuff of wich the mind’s antipodes are made. Why this should be so, we have no idea. It is a brute fact of experience wich, whether we like it or not, we have to accept – just as we have to accept the fact of the kangoroos.

   Toda experiência com mescalina, toda visão que brota da hipnose, é única; mas todas pertencem inegavelmente à mesma espécie. Paisagens, as arquiteturas,  gemas cacheadas, brilhantes e intrincados padrões – estes, com sua atmosfera de luz transcendental, cores transcendentais e significado transcendental são os materiais de que são feitos os antípodas  mentais.  Por que há  de  ser  assim, não sabemos. É  um  grosseiro  dado  da  experiência  que temos  de  aceitar,  quer gostemos  ou  não  -   da mesma forma como temos de aceitar a existência dos cangurus.

Decido mais uma vez dar uma de d.j. e passo a primeira parte do AC pondo música, uma sequência com Heroin e Waiting for the Man do VU, Sunday Morning com Nico, sempre May I de Kevin Ayers, duas ou três coisas de Paris 1919 de John Cale, Frontera de Phil Manzanera e outras tantas de Pin Ups e Young Americans de David Bowie.

Anaïs, de tão picuínha na sua tentativa de fazer uma literatura analítica nos diários acabou por, na única experiência de LSD que nos conta, ser altamente concreta e específica sobre algo tão subjetivo, e como é belo lê-la traduzindo à lupa o que sinto agora

My senses were mutiplied as if I had a hundred eyes, a hundred ears, a hundred  fingertips. The music vibrated through my body as if I were one of the instruments and I felt myself becoming a full percussion orchestra, becoming green, blue, organe. The waves of the sound ran through my hair like a caress. The music ran down my back and came out of  my fingertips. I was a cascade of red-blue rainfall, a rainbow.

Meus sentidos multiplicaram-se como se eu tivesse cem olhos, ouvidos e pontas de dedos. A música vibrava pelo meu corpo como se eu fosse um dos instrumentos e senti-me a tornar-me toda uma orquestra de percussão, verde, azul, órgão. As ondas de som lambiam os meus cabelos como uma carícia. A música lambia as minhas costas e saía pelas pontas dos dedos. Era uma cascata de chuva rubro-azul, um arco-íris

                                                         

 

 

 

 

 

 

         Quando amanhece colo Stairway to Heaven a Moon in June e ponho-me a olhar o Tejo me projetando em flashback na houseboat de Kevin Ayers sobre o Tamisa. How I miss the rain – ticky-tucky-ticky!...

Após a performance Ivan vem ao meu encontro no ‘miradouro’. É fuxiqueiro e embora esse tipo de assunto não venha nada a propósito sob a influência de ácido lisérgico revela-me a falar lentamente, como procurando a cada sílaba não perder a própria linha de raciocínio, que após o rompimento com Cleo Marco envolveu-se com um padeiro, função que, segundo ele mesmo, tem exercido com outro morador da casa. É a primeira vez que em tom acintoso e que parece de provocação fala sobre sua pretensa bissexualidade. Mulato afinal mal assumido, na praia discute comigo sobre quem está mais bronzeado, e é claro que sou eu, branco quase seráfico no inverno, talvez também pela palidez de todo aquariano, mas com pigmentação em que o sol produz uma extraordinária metamorfose, fruto da infância carioca. Discorre lentamente sobre isso, como é mal aceite pelos pretos, porque seria filho de uma vendida aos brancos, e como é incómodo viver só entre brancos.

- Minha terra é Cabo Verde – augura olhando o fio d’água do Tejo em frente.

         Questão afinal inerente a muitos filhos da antiga África portuguesa, que nunca se habituaram a ser tratados nem como uma coisa nem como outra. Eu só o vejo em Moçambique, embora seja impossível imaginá-lo lá nas atuais circunstâncias, tão assombrosamente contrastantes com a imagem de cartão postal dylanesca. Outro reflexo do 25, Portugal multicoloriu-se. Antes só se via dois mulatos na RTP e uma porção deles na região do Poço dos Negros. Agora estão cada vez mais por todo lado. Com muitos negros também. Ivan começa a ter gente com que se identifica também pela cor, em que reconhece a sua cor de apátrida, de caboverdiano fadista que em Paris, Amsterdan ou Lisboa só fala crioulo e ouve e dança mornas, coladeras e reggae. Mas não é a mesma coisa. Penso em mim caso não pudesse prospectivar-me de volta ao Rio, excluindo-o da minha vida. E a cidade de Ivan já mudou até de nome. Está condenado a onde quer que esteja ser um estrangeiro.

O seu tom – monocórdico e quase em sussurro - não é confessional nem de desabafo. Explana-se apenas. Começa a exteriorizar, embora não aparente, uma ferida profunda que dificilmente irá sarar. Nem preto nem branco. Filho de filha de vendida, também vendida – rendida – aos brancos. De um país que ainda não o era e que já não lhe pertencerá. Questão que começa a levantar-se.

            Ívan, café com leite às vezes quase claro, pálido, às vezes mais escuro, nem carne nem peixe, mas over assumido. Como o Dr. G. do Repórter X pavoneia-se ‘pelo mundanismo, dandizado, com prosápias de fidalgo e de árbitro da elegância, do bom gosto, em todos os assuntos de espírito e arte’. Se alguém age de forma que julga incorreta, numa lógica fora dos nossos padrões anormais, é sumariamente epitetado de careta, numa acepção que aos meus olhos é em si mesma careta, embora a sua atitude dandizada, displicente, possa lembrar precisamente a dos hipsters que inventaram os conceitos de square ou straight, que aliás aqui também adaptamos para c’treite. Até que ponto consciente do papel de clown de Fellini ou pierrot ou negróide de Picasso ou de commedia dell’arte envoltos em chamas? Afigura-se agora herói sem nenhum caráter em busca de identidade e pretensamente a querer obrigar os outros a assumir-se... ou sumir. Que ainda se sustenta com a imagem de dandy de bom gosto e uma insolência que no entanto ninguém leva a sério.

Com ele e o poeta filósofo saio na manhã radiosa e entro na Flor do Calhariz para tomar um suco de laranja. Decidimos ir ao Barreiro como se fôssemos atrás do sol nascente mas ele ultrapassa-nos quando atravessamos o Tejo admirando as barcas cor de laranja. Voltamos admirando o sol quase poente cor de laranja, a natureza como que brincando com nossas cabecinhas sugestionadas. When I drew a long orange line, it emitted its own orange tone, Anaïs – sim, penso orange, a cor-símbolo lisérgica, e é como se a cada momento ela irradiasse um tom alaranjado.

 

 

Sem medo das dualidades, pelo contrário, aceitando-as com a mesma bonomia, dependendo da ocasião e das circunstâncias, e do sonho de um mundo pessoal à margem dos circuitos normais, insuportáveis dada a pequenez do meio e a falta de cambiantes.

         Na cidade como na estrada vivo de colaborações para jornais porque a estreitristeza do mercado não permite sequer um esquema de trabalho em free-lancing. Entre uma viagem e outra, porque a maior parte do pessoal – os amigos mais íntimos do meu meio – também parece em regime de espera, e enquanto elas não pousam, dou uma de artista seguindo a máxima que mais se ouve hoje em dia - isto é muito bom para passar férias. Sem outra opção de momento, porque trabalho regular e oportunidades de executar qualquer atividade criativa no nosso ramo escasseiam, damos um tempo, à margem, à aventura, quase sempre no nosso espaço geográfico limitado e explorando as possibilidades de retiro espiritual no Algarve enquanto ainda é tempo e em território sintomáticamente também estendido ao Marrocos, aonde se vai de preferência da costa algarvia e então sempre de Algeciras a Tânger e de lá a Fez e Marrakesh, no sopé do Atlas, de percursora e percussiva viagem dos Stones ao encontro dos Pipes de Joujouka, perto dos centros de prensagem e venda a granel da erva consagrada.

         Cedo se aprende na estrada a subestimar o valor prático e sentimental de objetos e até de pessoas por que se passa, que o viajante vai deixando pelo caminho porque só pode atrelar os/as de primeira necessidade.

         Com o meu Mistério das Catedrais em edição quase de bolso mas de capa dura ocorreu um caso diverso. Afonso dele se apossou porque precisava de livros de capa grossa. A sua principal ocupação em Marrakesh na última incursão aos domínios de Hassan II, depois de algumas excursões para se abastecer, foi a de pacientemente desmiolar as capas de buques de uma minibiblioteca de viagem de negócios para enchê-las de haxe e reemcapá-los, num trabalho artesanal que resultou como de primeiríssimo nível. Fosse por isso, ninguém o flagaria. Mas quem lhe vendeu o produto trabalha em rede com os guardas da alfândega marítima, que lhe apreendem a biblioteca portátil com o de melhor qualidade, o da primeira extração do pólen da planta encantatória para prensagem. Resta-lhe no regresso, não se sabe como nem porquê, justamente o de Fulcanelli, de que fumamos o conteúdo nem de longe tão estupefaciente, ainda que fresquinho, porque de qualidade muito inferior ao açambarcado pelos gendarmes do Rei – é óbvio, para revender e eventualmente dar o golpe em quantos anjinhos caiam na rede.

- E como é que te salvaste?

         - Sei lá, pá. Falei pelos cotovelos, chorei, barafustei-lhes tanto a cabeça jurando que ia apanhar o primeiro barco e nem iria querer ouvir falar mais no Marrocos que me mandaram embora. Aliás, nem precisava chorar, porque já tinham o que queriam e se eu ficasse por ali ia-lhes foder o esquema!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Medito sobre a minha nova condição estudando os Diários de Anaïs, que me fornece subsídios sobre a nossa, em que se arrisca até a perigosas estadias no mundo da LOUCURA – e como estamos, uns mais outro menos, perto disso – para escapar à neurose na que W.H. Auden chamou de A Idade da Ansiedade.

The artist sacrifices a great deal of security, peace of mind, for the perpetual adventure. Malraux says art is our rebellion against man’s fate. La condition humaine is what I have never accepted. That is why I tried to create my own world.

O artista sacrifica boa parte da sua segurança e paz de espírito pela aventura perpétua. Malraux diz que a arte é nossa rebelião contra o destino do homem. La Condition Humaine é algo que nunca engoli. Por isso tentei criar o meu próprio mundo

         Nascemos aventureiros e só a duplicidade da mente humana impede uma clara excomunhão dos aventureiros – escreveu Anaïs: Se falham, serão meros criminosos. Um terço dos criminosos são aventureiros frustrados. Benfeitores da sociedade mas também as suas pestes, num amargo conflito – e nenhum outro é tão amargo - entre o artista/aventureiro e o homem social: duas espécies de vida incompatíveis, o homem social contra o homem livre.

               

         Sinto-me como um fugitivo dos mistérios do labirinto humano. Escapei a inexoráveis grilhões familiares, desejosa de manter-me num mundo à parte dia e noite, um andarilho ou peregrino sem domicílio.

         All I ask of living is to have no chains on me and all I ask of dying is to go naturally, Laura Nyro por B,S&T continua sendo um farol. O hobo, no país feito por aventureiros, institui-se durante a Grande Depressão por necessidade econômica – vaguear sem rumo procurando trabalho, e ao estabelecer-se como tal, por loucura, falta de alternativa ou opção existencial, passa a ser impiedosamente perseguido, como reporta Kerouac. Outros demonstram como o nômade é uma ameaça perene à sociedade sedentária e aos seus valores e ‘como é difícil pegar carona em Portugal’ tem a ver com isso.

 

 

Os jornais nacionalizados começam a deixar de sair e o pessoal caindo no desemprego às vezes aos magotes. Uns vão para as ex-colônias dar aulas em cursos de formação. Alguns desocupados renitentes em aceitar o único novo emprego à vista, a antiga Agência Nacional de Informação (ANI), ocupam um moinho abandonado em Armação de Pera, onde vivem em regime de comuna, pelo qual o que é de um é de todos menos as mulheres e os homens, e inclusive o óleo de haxixe que por dias seguidos é quase o único ‘alimento’ da cambada, que ainda encontra energia para jogar futebol como veio ao mundo na bela praia deserta de se onde se divisa de um lado Albufeira muito ao fundo e do outro a Peninha. Quem lá chega é depenado e imediatamente reduzido à condição do grupo. Vão em bando ‘assaltar’ cozinhas de gente conhecida hospedada na região.

O bando do moinho marcha sobre Pera como o de Falsche Bewegung (Falso Movimento ou Movimento em Falso), só que sem The Troggs nos ouvidos e com muito menos roupa que os também andarilhos de Wim Wenders,  para ver Carlos Lopes correr os dez mil metros nos Jogos Olímpicos. Acaba a Era Eusébio. Portugal afinal também dá baile em modalidades esportivas de elite, possível prenúncio de uma nova era de realizações, como soe dizer-se.

                      A partir de still de Candy Mountain de Robert Frank e Rudy Wurlitzer (1985) 

 

 

Dizem que no tempo do Império Romano a adolescência prolongava-se até os 30 anos ou mais, o que talvez explique o fato de até hoje os italianos ficarem agarrados à saia da mamma às vezes por toda a vida. Sem espaço para exercer o ofício fazemos como aqueles adolescentes americanos dos anos 60, vibrando com música, praias e mar, apreciando o valor da gratuidade rebelando-nos contra todo o tipo de autoridade numa busca incessante por novidade, divertindo-nos, rindo, sentindo e tratando uns aos outros com respeito e alegria, jovens radicais extremamente personalistas empenhados em relações face a face, diretas e abertas, hostis a papéis formalmente estruturados e a padrões burocráticos tradicionais de poder e autoridade, já agora e enquanto é tempo na glorificação do prazer sobre o dever puritano e do lazer sobre o trabalho, gozando o prazer estético da existência, sem stress, enquanto podemos.

 

 

 

 

 

         Subo com dois integrantes da comunidade, Quim Castro Lopes e Frida, na base de como é difícil pegar carona em Portugal, ainda para mais dois matulões e uma matulona com ar de delinquentes em potencial, bronzeadíssimos. Já no Alentejo dormimos sobre mesas de piquenique na beira da estrada. De manhã toma-se meio Lipo cada para aguentar o embalo e cortar a fome, porque quase não há dinheiro para comer. À tarde estamos na beira da estrada antes de Grândola, à sombra de um chaparro, tudo em volta planície com um sobreiro lá e outro muito além, à luz do sol inclemente. O efeito do Lipo começa a passar com aquela espécie de sensação de angústia subsequente e os estômagos mais que a roncar. Fala-se sobre isto e aquilo a troco de nada, só para descarregar o speed até que se chega a uma discussão sobre o conceito de mais valia e, por dar cá aquela palha, de Mao Tsé-Tung, que desanco. Quando Quim riposta, dando a entender como se está a léguas de um pensamento verdadeiramente radical mesmo por aqui:

- Mao Tsé-Tung é esta árvore (a única em centenas de metros na planície) e tu não és NADA!

 

 

    O pessoal do moinho abandonado alugou um conjunto de casas de lavradores sem luz e com água de poço, entre a praia e a estrada, a seis quilômetros de Albufeira, e em cuja fachada caiada escreveram em letras bem grandes, como se fosse um aeroporto

   CASA NOSTRA

e em que se continua dividindo tudo, inclusive as carências e exceto as mulheres e os homens, quem os tem. O resto namora neo-hippies nacionais e estrangeiros em trânsito.

         Se sim, é uma comunidade espontânea à beira-mar. Uma dúzia de pessoas. Dio e Joan vivem a alguma distância, numoutra casa entre um matagal do tipo Morro dos Ventos Uivantes, não fosse ser tão próxima de uma praia que ingleses não conhecem nem de folhetos de agentes de viagem. Não há um para fumar. Mas um frique inglês que decidiu largar o táxi em Londres para viver à boa vida diz ter encontrado na fronteira com a Espanha um saco de plástico com erva que é a que se consome ao café da manhã quando se vai à praia, porque ocupou um casebre no alto de um monte no meio da mata sobre o areal onde vive como em Anjuna Beach, e nós a fumar aquele produto da terra, fraco.

         

         Quando um dia não há nada para comer olha-se para dois galos velhos doados pelos lavradores, cujas famílias estão em crise, pois uma das jovens, solitária, costuma ir e vir da praia nua em pêlo, e não há cristão que resista a uma tal miragem, e mesmo para um cristão uma tal visão é miragem, duas mamas tão grandes e tudo somado esbeltas num corpo de mulher jovem nesta paisagem.

         Decide-se matar os galos mas só há três voluntários. O resto refugia-se na área central, com um terraço interno que funciona como núcleo do conjunto. As mulheres são contra a pena de morte. A muito custo eu, Ivan e Afonso conseguimos capturar os enormes galos, que mortos são depenados e limpos. Um deles é cozido num panelão em sal e água com uma ou outra cenoura para dar ares de sopa e para o outro faz-se uma fogueira em que é assado no espeto. Um e outro ficam horas e horas no fogo e o resultado é o mesmo. Apesar da fome quase ninguém os come porque são duros além da conta. Não dariam nem bom caldo e são jogados a dois cães vadios que andam pelas imediações e foram adotados pela comunidade, que se dispersa, madrugada alta, faminta, comentando: Que galos!

 

 

Subo com Ivan para pegar carona. Dois mulatos, vai ser pior ainda. Devíamos sair mais cedo mas anoitece quando chegamos à estrada para Albufêra. Cinquenta metros de caminhada, nada, uma taberna, entramos para tomar um medronho. Mais cinquenta metros, nada, entramos noutra taberna para tomar mais um medronho. Outros cinquenta metros, nada, e tomamos o terceiro medronho, e quando estou sozinho esperando Ivan, que está tomando um Brandymel cinquenta metros adiante, pára uma camioneta que nos dá carona até a vila, onde após o dia de praia, medronhos e brandimeis estamos a fim de uma sardinhada na tal cervejaria, finda a qual com mais garrafa e meia de Lagoa no bucho e o resto de uma na mochila vamos até a praia dos pescadores para respirar um pouco, e o que vemos?, um grupinho incendiando um junto às rochas, são alemães e dele fumamos para depois dizer melhor pegar o último ônibus para a estação e o trem para Lisboa – de carona nós os dois quando é que iríamos lá chegar?

No trem não tarda muito e encontra-se um grupos de friques – de Moçambique! – que nos oferecem um beise e quando acordo Ivan adormeceu com a cara sobre as minhas coxas e mal acordado começara a vomitar nas minhas pernas, serviço que finalizou com o trem a 100 por hora tentando projetar o vômito para fora das janelas sem conseguir. O pessoal da carruagem de olhos esbugalhados. E lá chegamos ao Barreiro...

         A conjuntura de dois anos de rebuliço produz um fenômeno curioso. Com a perda da clientela, quase toda no Brasil ou em Luxemburgo, depois de por um século servir reis e rainhas e personagens mais ou menos brasonados o Restaurante Tavares cindiu-se em dois, o Rico, embaixo, e o Pobre, em cima, só aberto ao almoço e a que petits comités fazem visitas regulares sem se preocupar sequer com a qualidade da comida, mas como para fumar um beise, no caso com formato de garrafas de um Banzão Tinto de 1955, da mesma idade de Ivan e Afonso, e que se mata aspirando os eflúveos de maravilhosos aromas florais e frutíferos da boa terra de Colares, cujo efeito é como o de um bom fumo do Atlas, como se constata uma vez quando depois se vai ver Lolita em um cinema quase ao lado. É um outro tipo de abordagem de Sintra, agora pelos vinhos de chão de areia da Adega Cooperativa de Colares, que também vai mal das pernas e está se desfazendo da garrafeira e vende direto ao público um de 62 a sessenta paus a garrafa. Faço um retiro no Banzão e constato que o próprio vinho corrente de uma taberna sobre a estrada é de grito.

 

 

         Eu e Afonso temos um sério desaguisado por questão de saias agora já em família. Chegamos ao grande dia, em que contra todos os prognósticos – porque a esta altura ninguém do nosso meio e idade acredita que alguém leve minimamente a sério qualquer instituição - Muriel se casa. Sem falar um com o outro, fumando um beisão e recebendo convidados da noiva com martinis, que também já se toma. Ivan chega, senta-se à mesa onde se confeccionou o puro e escreve na velha Lettera 32 que em tempos esteve sobre a mesa de jantar da tia um compte rendu da ‘viagem’ da véspera, que ao tirar da máquina logo me estende em oferta:

        

                .../... SINTRA: 57 COLARES NA BÔCA DA NOITE

 

                   +

 Entrei no palácio feitu de pedrarias

                                     pedra das

 pelas ondas voluptuosas curti

 dos teclados                   curry

 bélicamente pelos campos de Sintra-pedra

 a nova estação ou apenas outra da loucura

 fura-mouros- por tod’lad’

 dissolvendo-se os beijos em Colares 57

 & happenings batuca

batucadas dgi tilin no copo boum!no côrpo

boum!furacão

é música: a voz grita NÃO! há separação

já não és tu

         correndo

é o it                           

em serras regadas por orgasmos

e colheitas escondidas

em cima (Oh! erótica!...) das prateleiras resguardadas

...mas na corda bamba quem foi que fêz SKANK!?!?!KANK!?!?!

eu não fui tu não foste

                                 ora agora toca(o tinto) a mim

                                 ou então tocati(o mim. depois vem longe o )

... ‘vais no carro do Lagôa?!

     não não vou

                        só alinho no Colares’

um autobianchi azul escuro

com o Peugeot alaranjado atrás

o escape rôto é sinfonia

bem no meio das fodas trocadas no banco de trás

o AKAPA branco da Ana indicaminho

praumas quantas tabblettes negras de sintra

a sintra verde que te transporta

                                              abre

                                                   a porta

do baixoteclado

da fanfarraporraloca

do verde acastanhado que não só talos mas essência

quetatira uma magnólia feita em frigideiras facas tabuleiros tristeraivosos

and always the same question: no joint?!no more joint?! no joint?! no more j

ôi! SINTRA DAS VALENÇAS

                          VALE A(PENAS) SORRIR

é tão pouco e o regresso tá perto e o joint tá sempre e a noite taí

num sorriso em 57 sorrisos colar(es)ados idos vindos da barriga dgi mamã

tidos feitos consumidos pela madrugada

transtornados renovados refelizes ensonados:

...já é noite outra vez. o dia passei-o nos sonhos. já é sintra.

 

O convescote é de arromba, num restaurante entre Colares e Banzão, para uns cem convidados. Ivan é o mais elegante: terno de veludo verde garrafa, camisa e sapatos bordô e gravata de seda azul turquesa. Por uma vez sem exemplo despe a capa de demônio semeador e incentivador de discórdia através de mexericos para endossar a de conciliador. Que exerce com afinco e à perfeição, mesmo que para tanto tenha de levar o processo a um desfecho trágico.

Faz questão de que a festa não termine sem que eu e Afonso cheguemos ao menos às falas. Bebe-se de tudo o que há na garrafeira do restaurante em matéria de vinho, inclusive um Colares Tinto de 37. O intermediador ora convida um ora outro para mais uma ronda de negociações, que se desenrolam no pátio do restaurante enquanto enrola mais um e fuma-se, até que ao fim da tarde fumamos um cachimbo da paz apenas provisória, porque sobretudo Afonso não está disposto a sair da sua – tendo lá as suas razões. Eufórico com o relativo sucesso da missão Ivan me propõe celebrar o acordo com o vinho corrente daquela taberna do Banzão e vamos. Após a primeira curva, quase em frente aos Bombeiros de Colares, Ivan posta-se no meio da estrada e braços ao alto mais uma vez comemora:

- Edinhooo, que loucuraaaa!

Ainda não vi nada. Ouve-se o zumbido de uma moto de 50 cilindradas além da curva e mais rápido do que seria de esperar surge o novilho a toda. O motorista espanta-se com o que vê quando Ivan se vira de costas e o encara. O novilho não endireita para ver se acha uma escapatória do lidador, incidindo justamente para onde este dá uma passada larga e rápida, os dois a distância suficiente para chegar a um acordo sobre quem deverá ir para que lado. O novilho dá uma ligeira guinada para a sua direita, e passará tranquilo a uma boa distância do peão, que no entanto inesperadamente dá umoutra passada larga agora para a sua esquerda, os dois encaram-se olhos nos olhos e – terá o outro também bebido? – parecem atraídos por uma onda magnética de altíssima densidade, que absurdo, mas tudo bem, têm mais que tempo de negociar o último movimento sem drama, chego a esboçar uma risada quando vejo o novilho a tentar sair de novo pela sua esquerda quase na minha direção, momento decisivo, os dois estão a uns cinco metros um do outro e Ivan parece não ter desgrudado o olho do contendente e agora vai como se o quisesse abraçar pelo cachaço à unha, na sua direção.

Grito: IVAN! – enquanto o vejo projetado a uns três metros de altura desconjuntado como um espantalho elegantemente vestido mas o que vejo ao me acercar dele é que não é um espantalho elegantemente vestido mas a perfeita imagem de um boneco andrajoso, um rasgão pela altura do joelho e um olho já empastelado de sangue. Apelo a um transeunte que passa em frente aos bombeiros para que chame uma ambulância.

- Tou cego! – diz-me Ivan tentando me olhar deitado de costas no meio da pista.

- Vês alguma coisa por esse olho?

         - Vejo sangue...

         - Então não estás cego – e corro para a boda, onde há alguns médicos.

         Após os primeiros socorros no Hospital de Sintra é levado para o São José.

         - O gajo que te costurou o olho é um sapateiro! – é a primeira impressão de uma médica amiga ao ver o resultado da intervenção a que o submeteram.

         Foi pior: o meu era um estagiário e talvez pelo nervoso de um mero – embora grande – corte numa pálpebra causado talvez pelo espelho retrovisor do novilho ébrio, de que me esqueci porque desapareceu do cenário mas soube depois que caiu atrás de uma sebe além da estrada, fez um trabalho de Frankenstein que irá exigir uma bela cirurgia de recomposição.

         Mas o pior é o joelho. De repente era mesmo irreparável ou o médico que o operou era outro sapateiro. Certo é que não se conseguiu reconstituir-lhe a rótula. Três ou quatro cirurgias e algumas infecções hospitalares depois fragmentos de cartilagem produzem-lhe uma disfunção séria dos meniscos. Uma fratura do perônio causa problemas. Passam-se dois anos e Ivan num entra e sai de longas temporadas em hospitais vendo se remedeia o estrago, sem condições de obviar o empastelamento da pálpebra que vai quase da base do nariz à fronte, com doze enormes pontos de remendo mal feito, como se Frankenstein estivesse ansioso demais para dar o último retoque e ver o resultado da sua criação e o fizesse às três pancadas – depois vê-se. Resultado: Ivan fica com sete centímetros a menos e com o joelho da perna esquerda quase imobilizado, usando um sapato para corrigir a altura e muletas para locomover-se.

         Não é a morte do artista mas causa-lhe um profundo trauma, acrescido de que após um longo período de internamento na Idanha, mais para ter onde ficar sossegado que para tratamento, Peter suicida-se.

 

         Ivan sempre descartou qualquer hipótese de Peter voltar a entrar minimamente nos eixos. Talvez porque, conhecendo-o como ninguém, sabia que ali não havia salvação. Mas pela primeira vez nota-se na sua reação imediata que aquilo o abalou de forma profunda. Não aceita condolências de circunstância, ele que sempre reagiu a acontecimentos trágicos como à psiquiatrização e morte de Eloísa e ao abalo que isso me provocou de forma a ter pela primeira vez de pensar aonde pode chegar o cinismo. O bobo da corte sofre o seu primeiro sério abalo e mostra uma faceta insuspeitável. A partir daí o aparente desprezo com que lidava com quase todos os fatos transforma-se em deboche. Sai miraculosamente da heroína com os companheiros com que entrou no processo porque todos pegaram hepatite mas acentua o exagero na coca, nos fumos e no álcool. Festas. Em principio nada de anormal.

         Poderia dar-lhe para a criação de coisas belas e profundas. Deu-lhe para aprofundar sentimentos torpes e atitudes cáusticas, ou vice-versa. Estoura-se-lhe o joelho, que o deixa entrevado, mais o olho e o ar de Frank, a criação não a criatura, por conta de um trabalho de sapateiro, e estouram-se-lhe os miolos – o duro e talvez inevitável preço a pagar para quem pisa o risco e não renuncia à liberdade a troco de nada (quando por aqui só há isso mesmo: trocos) e perde o senso do pecado e do juízo.

        

 

         O Bom Gigante volta da Índia e conta chegada a Velha Goa, a caminho de Anjuna Beach. Descendo a ladeira ocorre-lhe pedir uma informação a um local, que lhe diz: mas você não é americano ou inglês ou...

         - Não, sou português.

         - Ah, português? Mi gostar muito de português. Português comer, beber, foder e não querer saber!...

         Taí uma definição. Ou A definição?

         Foram três anos de muita ganja e LSD por conta-gotas em Anjuna Beach e todos os lugares sagrados de Brâmane - Brahman. Viagens alucinantes, só as interiores. Entrega-se à meditação e à abstinência para atingir o dharma, o Todo, a Clearlight of The Void. Por pressão da mãe foi fazer exames para ver se não está tísico. Pesa 48 dos 86, 90 quilos de antes, muito mais em conformidade com o 1,86m de altura. Está com a cara do Allen Ginsberg quando se banhou no Ganges, só que sem óculos e muitíssimo mais magro. Não admite que Rosário ultrapasse os 50km por hora quando se desloca de carro. Dedilha e arpeja a preceito um belo sitar que trouxe para vender e só ouve música indiana - e quem precisa de ouvir mais alguma coisa?

         - Boom Shankar !

         - Shambô.

 

 

 

        Que isto aqui é muito bom para passar férias é uma das grandes frases feitas sempre ditas e nunca escritas com todas as letras e cada vez mais me apercebo disso. Consigo viver de férias quase todo ano, trabalhando em – e sobre o que – me dá mais prazer, e já não é mau.

      O círculo de relações alargado e em muitos aspectos fascinante. Mas com as convulsões do 25 o número de jornais diminuiu bastante, dos nove diários antigos só restaram quatro e três têm problemas financeiros. Aqui e ali aparecem matutinos e semanários novos mas ou com projetos editoriais de vincada filiação política – tendo quem os sustente – ou popularescos ou sem fôlego editorial e/ou financeiro.

       O rádio continua limitado ao que era, só com uma emissora privada e a pagar – e render, até em termos de projetos – o mesmo de sempre. Mal. Ninguém ousa explorar vias alternativas, por falta de capacidade, espírito de iniciativa ou grana. Mário Soares mete mãos à obra no saneamento das contas públicas no âmbito do projeto de adesão à Comunidade Européia e impõe um regime de austeridade sem precedentes. A mim me dá para a amargura, acentuada altas madrugadas quando ouço Billie Holiday. À meia luz.

  

    Em agosto de 1982 deixo uma bella ragazza no aeroporto e para fugir de um cenário sem ela inviável sigo direto para Vilar de Mouros sob o pretexto de reportar a segunda edição do festival. Onze anos depois da minha quase estréia nos grotões pouco mudou, o que não falta é apetite para uma bela caldeirada em Foz de Ourelhe e olhos para apreciar um dos mais belos panoramas, o do rio Caminha por alturas de Vila Nova de Cerveira, onde me hospedo.

    Na grande noite tomo um ácido. Sun Ra ao fim da tarde e U2 fechando a sessão. A banda irlandesa é a mais nova sensação da quarta ou quinta geração do rock, com pinta de ter bala para suceder a Police ou Clash como a melhor banda jovem do planeta. Mas para quem viu grupos como Led Zeppelin, Ten Years After e The Who e lead singers com a extensão canora de Robert Plant, Roger Daltrey e Chris Farlowe o som bem que ainda poderia enganar... a tolos, porque para bom entendedor salta logo aos olhos que dali não vem nada de novo – sequer a interessante pulsação em contratempo do Police numa espécie de reggae de branco. É uma mistura de liquidificador do déjà vu e a Bono Vox falta o que sentiu necessidade de pôr no sobrenome para dizer que tem, mais parecendo uma galinha choca sem fôlego e que se vê na contingência de galgar uma torre de iluminação, arriscando a vida, para impressionar com um fanho Hi, people! lá do alto.

    Muito melhor é sem dúvida o som da Arkestra de Sun Ra, que tirou o Intergalactic do nome mas ficou tal e qual, afeiçoando-se à perfeição ao meu estado mental:                  

   We’re on the starship Earth...

      Destination unknown...

  We’re on the starship Earth...

      Destination unknown...

   

 

          

 

A vida política mudou mas na sociedade são evidentes os sinais de sufocamento. Terminadas as convulsões da ‘revolução’, findas as esperanças infinitas, Portugal parece de novo possuído pelo fatalismo que sempre o caracterizou; o fado volta a assumir o leme e o país a viver sob a sinistra atmosfera de abandono que leva tanta gente a partir ou a desejar partir.

O cinzento voltou a ser a cor dominante, as pessoas se queixam do custo de vida, da falta de moradia, do desemprego e no caso dos jovens da falta do que fazer.

Volta então a brotar o desejo – decididamente o sonho é parte essencial da alma lusitana - de partir, viajar, sair desta pequena varanda sobre o mundo.

 

     

 

 

   

    

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