revoluciomnibus.com

almanaque das ideias cores e sons do maior movimento de juventude da história

 

da era do rock

& da contracultura

o livro do rock e da contracultura

                                    ciberzine & narrativas de james anhanguera 

           

Por dentro e por fora em Londres

Terra da Dama Eletroacústica

Medo, atraso e rock no grotão

Era uma vez a revolução

Droga Loucura e Vagabundagem

- Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

Rumo às ilhas da Utopia  

Era uma vez as revoluções

    so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

                                   narrativas de rock estrada e assuntos ligados

   

Cedo me apercebi de que o remédio era cavalgar o tigre em que montara sem pensar muito no destino, cavalgar só para não ficar parado sobre a fera que a todo instante ameaça me engolir.

...

- Mas vem cá, tá tudo muito careta à nossa volta e os caretas desbundando tanto nas ondas mais vergonhosas que a gente até se retrai.

janela com vista para a contracultura e opara a cultura contra natura

    

         

              divertissement ilustrado, cronistória romanceada, docudrama

 

     Por dentro e por fora em Londres

                                                                                                         Inglaterra e Lisboa, 1970-71

   Um mergulho de cabeça numa das capitais do rock e da contracultura e na grande noite arcaica, decadente e clandestina, nos ícones, paradigmas e paradoxos dos estertores da ditadura salazarista-marcelista.

   Edgar Lessa, brasileiro de 16 anos, estréia em Lisboa entre duas etapas em Londres. Vive (e revive) na Swinging London o que resta do sonho pop-rock ou de contracultura, um outro vastíssimo subterrâneo ou mundo paralelo de luta por maior liberdade no pós-guerra de prosperidade e cinismo.

   Em Londres reencontra Jimi, amigo de infância no Rio de Janeiro e seu alter-ego, ou vice-versa. Shows/concertos, festivais e astros de rock, no estúdio e na estrada com o d.j. John Peel, de norte a sul da ilha, dizendo Hello Goodbye  a um grande sonho.

                                                                                  capítulo 1 de

                                                                                  

                 Por dentro e por fora em Londres 

                Terra da Dama Eletroacústica

                Medo, atraso e rock no grotão

                Era uma vez a revolução  

                Droga, Loucura e Vagabundagem

                           3

                          - Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

 

                             Rumo às ilhas da Utopia  

                             Era uma vez as revoluções

           

Mas onde está o mal, Sr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns padres, alguns proprietários obesos e alguns marqueses caquéticos! Era uma limpezinha!... E fazia o gesto de afiar a faca.

          Eça de Queirós – O Primo Basílio

 

    Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!

                 Pum! pum! pum! pum! pum!

 Pum! 

 

Álvaro de Campos

   

O inimigo era, e ainda é, o político, isto é, a pessoa que quer organizar a vida dos outros e pô-los na linha.

 

           W. H. Auden

 

 

       Jimi Hendrix, If 6 Was 9 - recitativo:

Conservadores de colarinho branco relampejam rua abaixo apontando seus dedos de plástico em minha direção. Esperam que os da minha laia morram e apodreçam, mas vou fazer a minha bandeira freak ondular bem alto...

                

          Por dentro e por fora em Londres

 

              Trechos   

O Boeing 737 da BEA desce em Lisboa sob forte turbulência em função do vento num fim de tarde de Setembro de 1970. Vê-se uma favela entre hortas a dois passos do aeroporto, que de tão pequeno mais parece uma aerogare como a de Casablanca.

         Quase um menino selvagem, com cabelos em caracóis cacheados alongando-se sobre os ombros, barba rala e inculta, roupas e adereços comprados nas feiras de Portobello Road e Camden, onde Londres tem mais ar de metrópole secular, cheia de antilheses com as suas originais toucas de lã auriverdes&rubronegras, turbantes e barbas sikhs e saris hindus, jaquetão de sarja e mochila verde-escuros, T-shirt verde e preta imitando as de beisebol, com um 4 bem grande estampado no peito, sapatos rasos com uma presilha ao lado do peito do pé, como os de Marc Bolan do Tyrannossaurus Rex, e uma meia amarelo-ovo e outra vermelho vivo debaixo de um só em princípio sóbrio par de jeans marrons de cotelê, porque com incisões em canelado formando floreados de alto a baixo é capaz de também dar nas vistas além da conta, atravesso a cidade quase sem dar por ela, olhando pela janela do táxi sem prestar atenção a nada, o coração apertado porque não queria deixar Londres e desde que parti do Rio de Janeiro para lá há três meses Lisboa era um espectro de destino quase inevitável a evitar a todo custo. Mas o frio mais intenso já estava chegando e não dava para sobreviver com poucos recursos numa cidade tão cara.

Só acordo dos maus pensamentos quando o Mercedes 180 passa pelo Cais do Sodré e a estreitristeza do cenário, comparado aos de amplos horizontes das margens do Tâmisa e dos parques e do Rio, mistura-se à minha, de perspectivas tão cinzentas.

 

     

      Rompi o cordão umbilical ao trocar o Rio por Londres, alegadamente para praticar inglês mas já com a idéia de ficar para me deliciar devagar com uma fatia do bolo da capa de Let it Bleed dos Stones sobre um prato de vitrola - o sonho pop que já se diz acabado e de que de um certo modo me despedi ao ver a

                                                        

                                                         

                        foto de Jack Bruce à esquerda e Eric Clapton no outro extremo, de olho nos dedos no instrumento, e Ginger Baker ao meio, olhando de lado com os braços sobre os ombros dos já ex-colegas no show de despedida do Cream no Royal Albert Hall, em dezembro de 1968.

 

Cultura adolescente na era da juventude e música em toda a sua novíssima dimensão eletrônica. A caminho dos 15 anos, li a notícia e recortei a fotografia ao som da eletrizante versão de Joe Cocker de With a Little Help From My Friends, um canto estraçalhado de sirene do rock num ano explosivo, com Street Fighting Man, dos Stones, Electric Ladyland, de Jimi Hendrix, e Hello I Love You, do The Doors, e o álbum branco dos Beatles, entre uma porrada de sons siderais. Nunca é tarde, para mim o sonho apenas começara. Ouvia música pop e rock o dia todo. Em menos de dois anos estava em Londres, até porque lá estão dois exilados eméritos que sobre mim exerceram influência extraordinária em termos comportamentais, Gilberto Gil e Caetano Veloso, os ‘papas’ da Tropicália.

 

O aspecto do taxista já me parece opressivo, boné preto que, ao parar num sinal, tira com uma mão e coça com o mindinho e o seu vizinho o alto da testa, onde começam os cabelos castanhos claros ondulados e muito curtos. Olha-me pelo retrovisor anafado na sua camisa de manga curta cingida ao corpo com ar reprovador, como se estivesse vendo um bicho e pensando: veio de avião ou é um marciano?

...

   

 

De brechó, mas roupa tinindo de nova, jaquetão e mochila saídos do almoxarifado do glorioso British Army onde só fizeram escala sem ser desembalados entre a fábrica e os mercados de Camden e de Portobello, belo, numa rua insolitamente buliçosa aos sábados de manhã num bairro dormente, mais que adormecido, junto a Notting Hill Gate.

- Hi, Guil!!

Um espeto igual a Ed, ar de marinheiro mediterrâneo esquálido, fauces róseo-púrpuras, o cara ultra-famoso, Stephen Georgiou, filho do dono de um restaurante grego das redondezas a que deram a alcunha de Cat - Cat Stevens, bate no ombro de Gilberto Gil, que se dá com gregos e troianos no mundo do rock, franzino também após alguns meses de macrobiótica e reflexão sobre a prisão num quartel do Rio de Janeiro a que foi parar não porque roubou ou matou e a distância a que foi projetado no exílio forçado. Reflete horas a fio sentado sobre uma esteira de tatame e só fala quando, após longas sequências de dedilhamento e acordes, num paciente estudo de violão, como que perdendo a paciência grita mas eu tenho que dominar esses dois dedos!, querendo dizer separar o mais possível o mindinho do anelar para explorar ao máximo o potencial da mão na execução do que agora, mais que um meio de vida, é uma arma de resistência aos fantasmas da dúvida que o assaltam, longe da terra em que, ao ser obrigado a abandonar, lançou o seu maior sucesso popular, Aquele Abraço de despedida, temendo que seja a da própria carreira.

Gil acaba de lançar em vinil a necessária aposta numa carreira internacional a partir de Londres, com uma tocante versão solo de Can’t Find My Way Home, que Steve Winwood lançou no lendário LP do Blind Faith e de que fez a mais perfeita tradução do sentimento em relação ao difícil momento político que o seu país, sob ditadura militar, e existencial que ele, no exílio, vivem: Desça do seu trono e esqueça o seu corpo, alguém tem de mudar.

 

Um dia telefonei a John Walters, ex-trompetista do Alan Price Set, que fez muito sucesso em meados da década, e produtor de Top Gear, o programa de John Peel na Radio 1 da BBC.

 

 

- Hi ya John,  I’m  a  brazilian youngster  just mad about John Peel’s work, I’m  in  London  for a brief  journey  and  would  love  to  introduce  ya  both  to some outrageous brazilian fellow who  plays  lots of good music, like a gorgeous solo version of  Can’t Find My Way Home,  would  ya like to hear it?  Man, it’s the prettiest thing that ever came out of the rock scene in Brazil!

- Oh, yeah... Brazil, then... I’da...

 

  - Ok,   so   would   you   like   to   make  an  appointment  with me to show the stuff and see if Peel would like to play it too?

 

   - Right, would you care to show up  here  at the Broadcasting House next Saturday at 2 p.m.? Tell the attendant to call me.

- Oi, John, sou um jovem brasileiro que curte demais o trabalho de John Peel, estou em Londres de passagem  e  adoraria apresentá-los a um brasuca arrasador que  faz  música de alto nível, como uma esplêndida versão solo de Can’t Find My Way Home, você gostaria de ouvi- la? Olha, é a coisa mais linda que já se fez na cena rock brasileira!

- Oh, sim... Brasil, então... Eu... é...

- Ok, então,  gostaria  de  marcar  um  encontro  comigo  para  eu  lhes mostrar a coisa e ver se Peel gostaria de tocá-la?

      - Certo,  você  se  importaria  de  vir à Broadcasting  House  sábado  às duas da tarde? Diga ao contínuo para  me chamar. 

   

...

 

   

      Uma coisa nos distingue mais que qualquer outra. Ao contrário de mim Jimi é um moço extrovertido e sociável. Dispara ao amigo português que me levou até lá uma série de perguntas sobre a teia de correspondentes da BBC para me pôr ao corrente da sua grandiosidade enquanto rumamos à cantina da Bush House. É também um tanto mitômano este Jimi.

Na fila do self-service vemos Ivan Lessa, fundador e correspondente do Pasquim, primeiro e por enquanto único órgão da imprensa alternativa brasileiro, que conhecemos de vista de uma incursão ao Zepelim, um bar de Ipanema. O português nos apresenta como dois amigos brasileiros.

- E alguém duvida? – ironiza o jornalista, cujo mau (ou, de outro ponto de vista, bom) humor é já lendário, apontando de longe para o passaporte entalado entre o cinto e a blusa de lã de Shetland roxa que acabo de comprar numa loja das imediações. – Brasil gigante, tricampeão do mundo de futebol, Sérgio Mendez and Brazil sixty-six, tudo bem! Mas não precisa exagerar! – alfineta, me jogando à cara o estigma de um outro ex-preso político no exílio, se bem que de certo modo voluntário, e acertando no alvo, logo enrubescido, porque ditadura à parte, e já tínhamos uma base mínima de formação política, dias antes em Santa Teresa jactava-me de estar em trânsito para o berço do football mal o capitão Carlos Alberto Torres ergueu a taça no Estádio Azteca da Cidade do México e interrogava-me sem empáfia se haveria ufanismo patriótico em se sentir orgulho de ser do país que levara também a famosa cantora, anos antes, a sugerir: so listen to the rhythm of the gentle bossa nova.

 

...

 

 

Jimi Sawyer é apelido, dá para ver. Um dia na floresta, não há tanto tempo assim, disse que resolvera mudar de nome. A idéia veio-lhe dias antes, quando decidiu escrever sobre rock impulsionado pela primeira audição de um disco ao vivo do The Byrds com uma versão de 18 minutos de Eight Miles High, uma das primeiras faixas que ocupa um lado inteiro de um LP.

    - Que se dane o (...seu verdadeiro nome)!

    E decretou que a partir de então os dois amigos, eu e Solemar, estávamos proibidos de sequer lembrá-lo do verdadeiro nome.

     - O Jimi parece óbvio... Jimi Hendrix – assenti.

   - Sim, o Grande Jimi, mas há também os Jims. Você conhece aquela história do The Byrds, tá lembrado? As suas primeiras formações davam idéia de que era um grupo de garagem de dois irmãos mas em que só um deles, Jim McGuinn, que parece sobrenome de bandoleiro de western, atuava quando começou a tocar profissionalmente. O tal do Jim desapareceu e Roger, que o substituiu, diz que veio para o Brasil. Diz-se que Jim foi uma invenção dele e que o que fez foi mudar de nome. Não importa. Ontem, sem mais o que fazer, fiquei pensando em alter-egos e viagens imaginárias. A de James Douglas Morrison, dito Jim, filho de um oficial da US Navy ou coisa que o valha, no deserto de Nevada mais os lagartos e o xamanismo dos índios navajos da região. Fiquei magicando também no que poderia Jim McGuinn vir fazer no Brasil, se existisse e tivesse realmente vindo para cá. Onde poderia estar? Nem por acaso no Repórter Esso dão uma notícia sobre aqueles índios que os irmãos Villas Boas contataram pela primeira vez no Amapá, os Waiãpi. O cacique chama-se Wai Wai. Tive o estalo. E se os Vilas Boas vissem entre eles um americano esquisito que se tivesse embrenhado na floresta e decidido ir até onde nenhum homem branco jamais fora? E pensei numa notícia de jornal americano – e aponta no ar com um dedo: Jim McGuinn está vivo e bem entre os wai wai – em negrito porque enfatiza como um locutor de telejornal. - Porque cê sacumé, americano confunde tudo, poderiam perfeitamente trocar o nome da tribo pelo do cacique. Já pensou? Um branco temerário enlouquecido, sem qualquer interesse pela vida civilizada, que vai até o fim do mundo para, quem sabe, encontrar um xamã, entusiasmado pelas lendas contadas por um jovem poeta louco que conheceu em Venice Beach, Jim Morrison.

- Que história, Jimi! Mas o que tem a ver o Sawyer com os Jims e Jimis?

- O Sawyer é uma homenagem à infância, à cabeça dos seres ditos selvagens, aos primitivos, aos que como nós vivem do cheiro do húmus da terra úmida e do canto dos pássaros. E depois, entre os pântanos do grande Mississipi e esta floresta há muita diferença, mas estar aqui a dois passos dos arranha-céus da grande cidade, em pleno mato que como sabemos foi replantado depois de ter sido devastado por plantadores de chá e café, mas ainda assim quase virgem, onde não se escuta uma buzina, e no sul dos Estados Unidos há um século e meio, por incrível que pareça é quase o mesmo que estar lá, naquela época, quando ainda havia mata virgem ao lado dos campos de algodão. E aqui e lá havia a mesma escravidão. É uma homenagem à criança e ao aventureiro.

 

   

...

   

 

- Aos 16 anos estamos no pomo da maçã. Bichada, já? Sou novo e ingênuo demais para digerir e alinhar os pensamentos contraditórios que me assaltam a cada instante a partir do que lemos e ouvimos e vemos à nossa volta. Há meses Paul McCartney convocou a imprensa pela última vez na sede da Apple Corp. – não é assim que se chama agora, Apple Corporation?... -  para anunciar o fim dos Beatles, segundo ele por sua vontade... Os outros ficaram mudos, mas tudo indica que acabaram mesmo. Harrison está no estúdio gravando um disco solo. O anúncio foi uma manobra de Mc para vender mais cópias do seu disquinho em família, mas de qualquer modo é o fim de uma era. Imagina; já Brian Jones ter saído, ou ter sido posto fora!, dos Stones, e logo depois ser encontrado morto na piscina... É como se Erasmo e Roberto Carlos se separassem! Irmãos que, mais do que brigados, como Solemar e Lu Silveira quase sempre, só se comunicam através de advogados. Um fim de sonho, não? Pop, rock, contracultura... Três anos parece uma vida quando se tem 16, mas no fundo será só um piscar de olhos. Se aos 16, quase 17, vejo toda a vida à minha frente, três anos, como os que nos separam da ascensão da contracultura, representada pelo famoso Verão do Amor... Summer of Love... e a que seria, agora, a nossa estação de florescimento, não equivalem sequer à primeira infância...

- É. Ridículos ou elegantemente modernos naquela farda de paletó sem lapela e calças cingidas ao corpo, que depois se transformou em uniforme oficial de Roberto Carlos e chusma e de metade dos grupos pop do planeta, logo os Beatles passam à auto-paródia na capa de Sgt. Pepper’s, que é como que um índice de citações das suas influências na música, no cinema, na ciência e na religião, ou nas vestes, letras e sons ainda mais bizarros de Magical Mistery Tour. Lembra-se de que no ano passado dizíamos que os Beatles, os Stones e tantos outros se tinham tornado figuras carnavalescas, pela forma como se vestiam e as coisas que faziam? Lennon abusou mais ainda na campanha pela paz, ao lado da para todos os efeitos patética esposa, em nus frontais na capa de Two Virgins, de pijama e camisa de noite no bed-in no Hilton de Amsterdã e no bed-in e no be-in de gravação de Give Peace a Chance em Toronto, que parece uma macumba pela paz, em The Ballad of John and Yoko, no financiamento do barco que iria difundir mensagens de paz pelos portos do mundo em tempos de Vietnam e Bangla Desh, no concerto War is Over, os dois ridiculamente espontâneos e sinceros na luta por uma causa... perdida? Devolve a MBE, a medalha de honra do Império, e o que vale é o gesto. Foi morar em Nova York com Yoko. Yoko... aparentemente uma visão de pesadelo em comparação com a ex-fiancée do ex-beatle, Cynthia, pelo próprio nome uma espécie de misto de pin-up com princesa – porque estamos na sede do Reino, vivemos ainda uma mistura de pesadelo pós-industrial e fantasias da corte do rei Artur, em que de repente um plebeu pode transformar-se por serviços prestados à Rainha num aristocrata e quem sabe numa revolução impensável ascender ao trono... Um absurdo ainda maior porque o que me espanta é como, num turbilhão de pesadelos de sociedade superdesenvolvida, em que perspectivas de dias melhores estariam apenas nas propostas do movimento a que se chama de contracultura, a monarquia consiga manter-se tão estável, incontestada, à sombra ou acima de um jogo de alternância política Tories-Labour a que ninguém de bom senso deveria dar o mínimo de crédito, mas segue impávida e serena.  

                                 

- A ida dos Lennon para Nova York é o sinal mais claro de que, depois das jornadas do Congresso sobre Dialética da Libertação na Roundhouse, com debates e happenings sobre toda a sorte de matérias alternativas que chegaram a fazer parte do currículo das universidades sublevadas, do tipo como lembra aqui o Richard Neville..., olha só esta, Das Histórias em Quadrinhos à Dança de Shiva: Amnésia Espiritual e Filosofia da Auto-Alienação... que loucura... em que o Pink Floyd deu show de som e luzes, transplantando para a Inglaterra as inovações cênicas dos grupos da Costa Oeste, em San Francisco, e com o fim do british boom nos EUA, em 67, o centro dos acontecimentos – embora o pólo de maior agitação política tenha sempre estado lá – deslocou-se para Oeste, onde no entanto a dramática evolução das coisas, em que cada vez mais se vê que os EUA não conseguem sair do atoleiro do Vietnam, parece ter tornado inútil maiores mobilizações contra a guerra, no fundo, como diz aqui o Neville, o leitmotiv do Movimento ou objeto em que se condensou um ódio sem forma definida ao Sistema.

- Mas o rabo do cometa british boom deixou rastro: com as crescentes exigências de produção de shows e equipamentos de som ninguém se sustenta só com o mercado europeu. E é ver os grupos que regressam de tours triunfais aos Estados Unidos, que é como que um diploma indispensável de avaliação do seu fôlego comercial. Business, Business! Mas agora, após ter provado o gosto para ele amargo do estrelato, Peter A. Green, um dos três guitarristas dos fabulosos Fleetwood Mac, volta anunciando, para o meu mais profundo desgosto – porque me dá uma sensação de orfandade -, o abandono não só do grupo mas de toda a extraordinária carreira que pelos dotes e-méritos tinha pela frente. Como pode alguém que por anos a fio lutou consigo mesmo para saber o que sabe de música e do seu instrumento renunciar a tudo justamente quando começa a ser reconhecido? A recusa assusta e, a meus olhos, enobrece, pela coragem e desfaçatez do gesto. É o que você quis dizer. Nós ainda de chegada e tanto ido e tantos idos e indo.

                      

 

 

...

 

  

  Circulo em High Street olhando as vitrines, olhos abismados para a horda de operários-ciclistas passando de saída das fábricas. Alguns deles vê-se no pub onde tomo um ou dois pints quando estou por aqui. Se os ingressos para um show dos Faces, o The Small Faces renovado, com dois dos antigos e um cantor que se diz de estalo, Rod Stewart, que trabalhava no Jeff Beck Group, não estivessem esgotados, ainda teria ido a Londres. Vou jantar à guest house e, sem o que fazer, invisto 60 pfennings para ver no Civic Theatre dose tripla, como é hábito, de rock, Judy Blue Eyes (ô,ô...), Stackridge e Stray, um grupo do gênero power trio, tipo Free, que vai muito de moda, e que acaba de lançar pela Transatlantic um LP intitulado Suicide, anunciado como um portento do heavy rock.

  Nada imaginativos esses Blue Eyes, já pelo nome. Stackridge faz country-folk. O seu único compacto vendeu seis cópias worldwide - ao largo e à volta do mundo, diz-me à inglesa o baixista depois do set de 45m. O seu highlight chama-se Slarck e começa com uma jiga que faz o público levantar-se das cadeiras batendo palmas. Fala de uma garota que é raptada por extraterrestres numa praia. O cara ao meu lado acende um jointão de hash e, após dar três ou quatro tragadas que enchem o ar em volta de fumo, pergunta-me se quero. Pergunto-lhe de que se trata. Enquanto me responde arregala os olhos entre o espanto e o susto. Não recuso. Não fumo há meses e nunca fumei haxixe e parece que sou eu que vou com os ETs para Slarck, onde quer que isso seja, e nem dou pelo intervalo até que sou prensado contra as costas da cadeira pelo impacto das zoeira atordoante do som de suicídio que vem do palco, a uns 30 metros, que ouvi com o meu fonezinho, no quarto, no Kid Jensen Show da Radio Luxembourg, e que já esperava ser pesado, mas não EARBLASHING rock – de estourar os tímpanos. Com tanto fumo de gelo seco e hash – porque o delinquente ao lado, que é como se afigura, acaba de acender o rappel -, é só excitação, têm razão os velhos gagás quando dizem que isto não é música, é o dobro do ruído suficiente para causar pânico aos ouvidos de ouvintes menos abertos a qualquer tipo de excitação, quase todo o público foi como que projetado das cadeiras para as passadeiras onde move-se como possuído pelo demo, tento ver se batendo os pés no chão com toda a força consigo fazer com que minha cabeça não exploda de tanta dor, mas é impossível. Só passa quando chego ao quarto, me deito e fico um monte de tempo ouvindo o silêncio. A melhor coisa da banda é o lightshow, que embala o ritmo em estilo terremoto, ainda para mais acompanhado de explosão de bombas que, para mim, é superior em qualidade ao som dos Stray, que Deus os proteja. MC5 – que dizem ser o que há de mais pesado - deve ser menos torturante. Tentativa de fuga de um mundo doido e só interessado em progresso material, desligado da mente humana, em que hoje se vive? – pergunto ao bloco de notas antes de dormir, depois de ainda piores sobressaltos.

  A pé, de regresso após o show, ainda atordoado pela sessão de tortura mais as preocupações permanentes com a dureza total iminente e com a barriga roncando depois de tanto haxe fumado e aspirado, entoo baixo America, de Paul Simon, uma das melhores companhias nessas horas de solidão e incertezas

         Let us be lovers

         we’ll marry our fortunes together

         I’ve got a real estate here in  my bag...

quando ouço uma risada rouca e barulho num arbusto por que acabo de passar e três gorilas pulam para a calçada onde surgem, quais personagens macabros de um tiquetaque de laranja, avançando para mim, agora decididamente em estado de suicídio, e por milagre consigo inventar um estratagema quando, após declarar que não sou inglês, desato a falar na língua de Camões com sotaque de Jorge Ben, expediente de improviso que dá certo, porque noto que a sua primeira reação ao ouvir um idioma de que não sabem sequer a origem é de espanto, que de jato produz um curto circuito nos respectivos neurônios e logo o impasse, o vacilo, o embaraço, na dúvida tratam de se mandar porque até aqui só lidaram com cockney e olhe lá. Escapo da boa, como por milagre.

  Tremo só de vê-los andando imponentes nas suas carcaças de naus almirantes, musculosos, sempre com feições de maus e tatuados, pelo hall e pelo cais da estação e fazendo ribombar o chão dos vagões com suas botas cardadas, com que se pegam de ponta algum gagá ou cabeludo solitário ou em franca minoria estouram-lhe os miolos. São covardes, claro, os skinheads, só pegam pessoas sós ou em minoria, desprevenidas, mas quem houvera de dizer – pularem assim de trás do arbusto à meia-noite e meia, numa pacata cidade em que o maior acontecimento é o desfile diário de centenas de operários de bicicleta no ir e vir das fábricas, especialmente belo quando um sinal de trânsito obriga o bando a parar numa faixa de pedestres.

  Jonathan King escreveu há um ano que a era dos skinheads já passou, como tantas outras modas, mas quem pode garantir que já passou ou passará, quanto mais ele que nem anda de trem pela periferia? Davam caça incessante aos mods até serem expulsos da cidade, franja direitista (?) do Movimento, como os não menos temíveis Hell’s Angels, e que sobreviverão e irão impor-se como facção política por gerações a vir.

  A que sistema e, já agora, a que cisma pertencem estes tipos tão contrastantes com os pacíficos hippies e com os mods, já passados com a integração dos seus toques de mestre vitorianos e eduardianos à moda do cidadão comum à la page, calças sem cós e apertadas, uma mais ou menos discreta boca-de-sino, um ou outro floreado nos punhos ou na fileira central de botões, nada demais. Belicosos ao mero olhar, intoleráveis, intolerantes, violentos como os piores sujeitos da sociedade estabelecida, autoritária, truculenta e materialista, porque também roubam. Punks, delinquentes, nobodies. Skinheads.

  Jimi está lendo enroscado no cobertor quando chego ao cubículo. Arregala os olhos ao ver o meu aspecto. Depois disso, um refresco. Vou ao Queen Elizabeth Hall assistir Taste e Cochise. Estes vêm da safra de excelentes músicos que a produção de Elton John está gerando e surpreendem pela sabedoria na perfeita dosagem de lirismo e pancadaria sonora. Taste, liderado pelo guitarrista Rory Gallagher, e que promove o seu disco de estréia, é mais uma benção dos pródigos céus irlandeses. Desde já o melhor power trio da minha vida. Caminho milhas e milhas até o trem do leite e chego à cama às três e meia com a sensação de que os pesadelos da véspera foram há vários anos.

 

      ...  

 

    

  

  

  

  

  

        Underground e music hall: Londres 3 visões   

     A aura tipo introspectiva de Peel baseia-se numa lenda ancorada ao largo das águas territoriais britânicas, Radio London, onde fez a fama.

 

No dia 29 de Março de 1964 começa a operar de um navio ancorado ao largo de Frinton, no condado de Essex, a primeira estação de rádio ‘livre’, tendo por objetivo transmitir a música que a programação da conservadora BBC, única estação de rádio com potência para cobrir todo o território britânico, não permitia. Alguns meses mais tarde, Roman O’Rahilly, o responsável pela empreitada, adquiriu o Frederyka e deslocou a emissora ‘pirata’ para a Costa Sul da Inglaterra, onde a Radio Caroline passa a transmitir em força, ocupando durante 18 horas a banda dos 201 metros de Onda Média. O seu mastro principal era uma antena.

     Uma rádio muito mais dinâmica do que a inglesa até então, que sacou os tiques & os toques do modelo americano de estação Top 40, concebida para tocar apenas discos que chegam às tabelas de classificação de vendas. Surge na Europa a maquineta de jingles, através da qual os disc jockeys lançam pequenos spots cantados ou instrumentais que lhes dão tempo para engolir a saliva, molhar os lábios e continuar apresentando hits em velocidade estonteante.

     Surge entretanto uma outra estação flutuante a transmitir fora das águas territoriais britânicas, no Mar do Norte, com um programa chamado Perfumed Garden (a partir do título de um espécie de Kama Sutra árabe), que foge ao esquema Top 40, transmitindo uma música menos ‘instantânea’, apresentada de maneira completamente diferente da fórmula dos d.j.s. O seu realizador, John Peel, trouxe da América, onde trabalhou em estações Top 40, o modelo das estações de FM que surgiram na esteira da pioneira KMPX-FM, de Tom Donahue, em São Francisco. A exemplo da Caroline, em pouquíssimo tempo a Radio London virou lenda – the Big L.

Lei da Rainha de 1967 põe os piratas definitivamente na clandestinidade e as estações fecham. Em troca a BBC oferece-lhes nove horas de emissão do seu primeiro canal, Radio 1, que passa a ser a primeira pop music radio station européia. Mas o monopólio da BBC continua e em 1969 surgem no Mar do Norte outras três estações piratas: Radio Nord See, com potência para cobrir toda a Europa, e Radios Veronica e Capital, que mal cobriam o território britânico. Na guerra que volta a desencadear-se o British Post passa a bombardear a banda dos 270 metros da North Sea com sinais de mil ciclos e a rádio sai do ar, para voltar com muito menos potência em 1970, quando nasce a Radio Geronimo, que transmite de Andorra com uma potência de 400 watts, oito vezes superior à da Radio London.

     O fenômeno das rádios piratas pop irá durar ainda alguns anos com a Veronica, a Nord See International e a nova Radio Caroline operando a cerca de cinco milhas da costa holandesa, por alturas de Scheveningen, com antenas de 10 KW que mal dão para atingir o sul da Inglaterra. O seu pessoal recebe salários com meses de atraso e só pode deslocar-se a terra de três em três semanas. Operando 24 horas por dia a Radio Caroline transmite em holandês (6h-18h) e inglês (18h-6h). O trabalho de estúdio é feito por quatro locutores, que também fazem a limpeza e vigiam da torre os movimentos da polícia costeira, tal como acontece com a tripulação do Mi Amigo, o barco da Radio Nord See.

 

            Piratas radiofônicos. Cresci a pensar, em simultâneo com o ato ilícito de fumar ma-co-nha – e ao que tudo indica aquela brotou espontaneamente (na base do que dizia Caminha na carta a El-Rei, com a diferença de que, em vez de em se plantando, deveria ter escrito em se lançando à terra, dá) -, que aqueles jovens aparentemente muito honestos estavam cometendo infração penal. Crime de pi-ra-ta-ria, com um estilo de vida fora dos padrões, embora se saiba que a tripulação se comprometia a não usar drogas a bordo. Se gente tão diferente como Peel ou Jonathan King, superstars avant la lettre e superegos, não a tivessem já, saíam de lá com a cabeça virada. Além do mais a lidar com bootlegs – discos piratas, que Peel é um dos poucos a passar na rádio inglesa, como agora o do concerto dos Rolling Stones de homenagem a Brian Jones no Hyde Park.

 

 

 

 

     O encontro é às dez. Com cuidado, o porteiro põe a mão no ombro e olha bem na cara de Jimi. Parece hesitar e chega a causar pânico com a ameaça de pedir os nossos documentos e nos barrar a entrada.

     Lá embaixo uma equipe de televisão grava cenas para um programa sobre um livro que acaba de ser publicado, Groupie, de que nem ouvi falar. À entrada e espalhados por toda a sala posters de publicidade do livro. ‘fuzz’ (penugem), ‘speed’ (...), ‘spliffs’ (?!). A sensacional história de Kathie, Groupie de 19 anos enquanto ela “pulls” (com aspas) de grupo pop em grupo pop.

     - Como é? – pergunto a John.

     Faz ar de enjôo.

- A coisa mais interessante, agilidade da heroína à parte, é que parece que foi escrito por uma máquina.

     Winwood está numa mesa com duas gorgeous ladies, uma loura, outra mulata, que parecem saídas da capa de Electric Ladyland. Peel vai até lá e limita-se a cumprimentar e trocar duas palavras com o ex-colega de Spencer Davis e Eric Clapton, a que nos apresenta. Ficamos ali por perto, no meio da confusão. Deve ter constado que haveria gravação de um programa de TV e dezenas de groupies ocupam mais de metade da sala. Uma espécie diferente de profissionais do sexo? – pergunto-me, pela primeira vez face a tal aspecto da vida sócio-econômica do rock. Groupies são galinhas que giram em torno dos astros do rock, supostamente sem nenhuma pretensão a carreira(s), mas quantas já não se casaram/se amancebaram com eles? – e quantas não vão passar a vida rodando a bolsa? Talvez as que estão com Steve também o sejam, embora pela discrição não aparentem. Tudo muito apropriado tratando-se de um speakeasy.

     Não parece relevante que banda esteja a tocar. Se Cristo reaparecesse aqui ninguém daria por isso. Juicy Lucy é entusiasmante, mas nada justificaria os puxões e empurrões das Lucys sumarentas à nossa volta, lutando desesperadamente para aparecer na TV.

     - É bom ver Glenn Campbell readquirindo a forma de quando o seu trabalho de guitarra podia transformar metal básico em ouro – comenta John ao pé do meu ouvido, na primeira vez que o ouço a altear o tom de voz. Claro que o Campbell da guitarra não tem nada a ver com o porta-voz das maravilhosas canções de Jim Webb.

Peel assiste apenas a um set e despede-se dizendo que está desorientado pelo roça-roça de veludos e ensurdecido pelos gritos estridentes das ‘damas da coelheira’, ao mesmo tempo em que quase no tapa, dando tudo por tudo para parecerem cool e indiferentes nas câmeras de TV.

    - Uma pena, realmente, porque o Speakeasy é um bom lugar para encontrar amigos e ouvir novas bandas.

Dá o seu número de telefone dizendo que gostaria de nos mostrar alguma rough, raw, raucous music. Música rude, crua, rouca... Notei nos seus escritos que tem especial predileção por esses termos. E por esse tipo de música.

Ficamos a pensar em pegar o ‘trem do leite’ das duas da manhã porque este sempre é o primeiro concerto de rock da minha vida – fora o dos Mutantes.

 

 

 

 

‘Fumar’ já é um programa em si. Ir a um parque até um ponto em que se fica a uma distância razoável das pessoas mais próximas e atento a todos os quadrantes para ver se alguém se aproxima ou ir para uma ponte e temerariamente atravessar de um lado a outro à aproximação de alguém. O mais das vezes, no quarto, isolando as frestas debaixo da porta de entrada e das de comunicação com os aposentos anexos com cobertores, nos lembramos de como ‘tudo’ era mais simples e natural na floresta, onde bastava cruzar o portão e se ficava à vontade, sem temer a aproximação de alguém. ‘Temer a aproximação’, diz-se. E pela força da expressão penso se esta atividade ilícita não estará por si só também nos ajudando a conviver com a nossa solidão, isto é, com cada um de nós se havendo consigo e só consigo mesmo e ver cabimento e ter prazer nisso, e se isso não nos poderá ser... fatal, aqui neste banco em Kensington, de onde fico admirado admirando o gramado com a largura de dois campos de futebol e lá no fundo, de entre as árvores que delimitam o park, o Royal Albert Hall, onde ontem assistimos a um show do Blood Sweat & Tears que nos deixou bestas, três dias após meu regresso do norte, sempre num third stall, de binóculo, ainda bem que o som chega mais que forte aqui em cima, viemos para ver mais uma daquelas catarses de rock e não houve esse tipo de catarse, o que aconteceu foi uma jam quase permanente de muito rhythm & blues, quase free jazz, porque a gig não é totalmente free e só um músico tem em cada música aqueles 32, 64 ... compassos para improvisar na sucessão de peças/canções do noneto que se desenvolve como qualquer show de rock ou music hall, só que por metade da longuíssima apresentação do clássico God Bless The Child, por exemplo, o conjunto, ensaiadíssimo, desata num improviso coletivo que parece totalmente anárquico, aparentemente tão free como poderia ser, com um desencadeamento em turbilhão vulcânico de sons destoantes e ensurdecedores, produzindo no entanto uma harmonia por isso mesmo absolutamente singular, percebendo-se só de vez em quando lá no fundo que todos estão atentos a não perder o fio inaudível da sequência à meada e a aguentar, ora uns, ora outros, a ‘malha’ sutil do tema ao mesmo tempo em que em alguns instantes vai cada um por si ao ponto do mais completo desvencilhamento/destrambelhamento – jazz de sensações inexprimíveis e que não têm nada dos estereótipos do rock, e em que os textos são longamente estudados por cada solista para compor uma espécie de caos ensaiado a partir da estrutura de base, sem uma extrapolação ou desatino. O nosso primeiro contato com o jazz a anos-luz de entendê-lo. Chegamos em casa a pé ainda em desassossego: seria de David Clayton-Thomas a voz de Gary Puckett que com o Union Gap produziu um enorme sucesso pop, Young Girl, que ajudou a encher de encanto o nosso Inverno brasileiro de 1967?

   ...

 

 

  

NOS PEEL ACRES

Cinco minutos antes da hora combinada estamos à porta de Peel. Desta vez, cavanhaque bem desenhado por falta de pelos nas extremidades do lábio inferior e nada de bigode. Tem um pequeno badge redondo no peito do pulôver com um I’m a Super Bore pintado à mão.

  Vive em Hampstead numa casa de dois andares numa fileira de prédios vitorianos.

  - Benvindos aos Peel Acres – diz ao abrir a porta. - Normalmente isto aqui fervilha com grupos de visitantes e desalojados - informa, como que estranhando que tudo esteja tão calmo. John produz cantores e grupos debutantes que lança no seu selo, Dandelion - The company that doesn’t quite make it, como a define. Um avião que não decola...

  - Mal os Forest, eufóricos porque acabam de publicar o seu primeiro LP pela Harvest, se mandaram, depois de terem levantado as não negligenciáveis pilhas de pó da casa com os seus sapatos roubados e bem escambados, hoje de manhã pulo da cama com uma vigorosa disposição para enfrentar o dia e encontro remanescentes de três grupos espalhados pela minha sala de pintura estilo Louis IV: Principal Edwards Magic Theatre, Business, excelente grupo de Liverpool, do tipo de músicos bem lépidos, e o duo Medicine Head. Devem estar aí estourando de novo.

  Diz que vai fazer um chá e pede que o acompanhemos à cozinha.

  - A casa seria enorme não fosse o constante entra e sai de gente que acampa num ou nos dois quartos de hóspedes up in the roof, o andar de cima, ou onde dá para ficar.

  Seria ampla o suficiente, noto de volta à sala, não fosse o espaço estar apinhado de aparelhos de som e os cerca de dois mil LPs, EPs, compactos e 78 rpm que Peel diz colecionar há 16 anos e para que está  construindo um ‘sistema de encaixe bem elaborado’ que calcula poder estar pronto por volta de 1980, além de ‘milhas e milhas’ de fitas de gravação que enchem quase todas as paredes da casa, inclusive as dos quartos de hóspedes no ‘telhado’.

  - Ouçam isto. Stack Waddy, de Buxton. Vão tocar lá num festival semana que vem. Se quiserem vir, lhes dou carona. Tenho aqui uma fita deles que aliás, ao saber que vinham, pus no ponto para mostrá-la a vocês que vêm do Brasil, porque eles fizeram como que numa espécie de piada uma coisa que penso que acharão interessante.

  Pelo ampli Akai estoura um hard rock inconcebível. ‘Feroz’, digo, só para corresponder a uma sua insistente interpelação com o olhar aos dois. Trabalham na construção civil, informa, o que nos ajuda a entender a razão daquele som de britadeira.

  - Todo o disco que deveremos lançar é assim, com a única diferença que, no final, por brincadeira, eles gravaram uma sua versão – adivinhem de quê?

  E após um hiato entra no ar uma versão de... Girl from Ipanema! Qual João Gilberto... O vocalista parece ter querido seguir à letra um dos supostos pressupostos da bossa nova – desafinar, e o acompanhamento tosco dá a entender que o executante pôs-se a gravar a base de violão logo após ter posto de lado a britadeira. Mas a mensagem dos Stack Waddy é clara: querem musiquinha bonitinha e bem tocada, seus burgueses de merda?!

  Não dá para de primeira captar o sentido da letra da faixa que Peel põe a seguir, a pedidos, porque lá no Rio líamos a sua coluna no Disc and Music Echo – que comprávamos quase que exclusivamente por sua causa - e volta e meia ele falava nele, compacto que põe no prato do Goldring Lemco com uma canção chamada 1917 Revolution, de um certo Beau. Olhos nos olhos continua-se a não se perceber se ele fala a sério ou de brincadeira quando confirma, entre risos, que chegou ao topo das listas de vendas de discos no Líbano.

  Estamos sentados no carpete da sala de pintura Luís IV à volta de uma grande mesa de vidro baixa onde se vê alguns livros de farmacologia de Pig, como chama a sua namorada, uma grande coleção de joaninhas magnéticas coloridas e uma gaiola com uma espécie de rato branco que diz ser uma gerba.

  - Apresento-lhes Uproar, assim chamada porque não deixa ninguém dormir pulando a noite inteira de um lado para o outro. O meu manual de tratamento de gerbos e hamsters diz que eles não mordem, mas não aconselho ninguém a chegar perto desta.

  Num grande armário baixo encostado a uma parede circula outro animal do gênero, Biscuit, uma hamster. Sobre o armário, uma outra gaiola com três hamsters chineses.

  Toca o telefone. John Walters na linha. Peel ri muito. O seu produtor é de Manchester e telefona para tirar um sarro do amigo, um fanático torcedor do Liverpool, que voltou a perder de goleada, desta vez para o próprio Manchester United, por 4 a 1. Ultimamente os red devils têm prodigalizado os torcedores com exibições do gênero, e Peel mostra-se perfeitamente adequado à fase de baixa, permitindo-se gozar com a situação.

  - O céu aqui em cima encheu-se de raios e estranhas criaturas, bruxas velhas voando baixo em longas, obscenas e borbulhantes cerimônias – sussurra ao aparelho, quando pára de rir e antes de convidar o interlocutor a vir a sua casa.

  Ao voltar põe uma faixa de um LP do Burnin’ Red Ivanhoe, grupo que conheceu na Dinamarca e de que faz muita publicidade. Informa que tocaram antes com dois músicos de jazz que vivem lá, John Tchcai e Don Cherry. Digo yeah como quem reage a um mugido de vaca. Mal sei quem é Cherry e nunca ouvi falar de Tchcai. Como se não bastasse, Penal Reform – que Peel apresenta como réus confessos de ser influenciados por música turca e Ornette Coleman. Eis-nos no mundo bizarro de Peel.

  Diz que Walters deverá estar chegando com um bando e convida-nos para comermos alguma coisa enquanto esperamos. Tira do forno um carneiro assado que serve com batatas e cenouras esquentadas em banho maria.

  Choca em Peel de forma um tanto quanto negativa a simplicidade e singeleza dele, da sua casa e dos utensílios, a comer de colher e a agarrar um pedaço de carneiro com a mão, sem nada daquela aura de brilhantismo que se espera dos grandes astros.

  É noite de Monty Python’s Flying Circus na BBC e comemos entre risos. A insolência do grupo, totalmente fora dos parâmetros normais, me leva a pensar em como a estação oficial admite uma coisa do gênero, porque não respeitam a Rainha nem os hábitos mais consagrados dos seus súditos. Spam, spam, spam... é o bordão de um deles, num quadro de restaurante, segundo Peel de gozação com a monotonia da culinária local, em que o sabor de todos os pratos, por mais requintados que sejam, seria o mesmo que o do molho de spice (especiarias) ham (presunto)enlatado, ou presuntada, que alimentou muitos americanos na Grande Depressão, base da pirâmide do junk food e suprassumo do fast food. Monty Pythons não é para iniciantes como nós.

  Ding-Dong soa a campainha. Chega Walters mais um bando de cabeludos e a noite fervilha.

  Ouve-se Nothin’ Shakin’, de Eddie Fontaine, numa cópia toda picada que Peel diz ter comprado a um homem em Chettenham, Principal Edwards Magic Theatre, Zoot Suit pelo High Numbers, a primeira formação do The Who, Chuck Berry, Johnny and the Hurricanes, Little Richard, Fats Domino, Hey Doll Baby, pelos Everly Brothers, vários membros do Principal e do Business rolando excitados como macacos no chão do salão dos palacianos Peel Acres até que finalmente, para acalmar os ânimos e pôr fim à pândega, o senhor dos domínios põe a balada Take Into Your Eyes, de Roy Harper.

  Numa das idas à cozinha Jimi topou com parte do bando a fumar um cigarrão de hash, em que deu umas belas tragadas. Bela farra para começar.

 

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Fica em Derbyshire, a 48 milhas de Chester, 24 de Chesterfield, 34 de Derby, 35 de Huddersfield, 12 de Macclesfield, 25 de Manchester, – ah, sim! - 28 de Sheffield, 24 de Stock-on-Trent e a 159 milhas de Londres...

   

no extremo sul dos Peninos, no coração do Parque Nacional de Yorkshire do Sul.

 

 

 

 

  

Lay-abouts, hippies, skinheads, capitães de times de cricket, rockers, mods, empregados de lavandaria, Hell’s Angels em crise num drama de investigação sobre doping de cavalos – tudo continua sendo alvo de sermões do vigário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

          Joni Mitchell   Grécia  1971

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

  Grace Slick in Wonder   land

After Bathing at Buxton’s

  A excursão a Buxton cai em excelente hora. Dinheiro no bolso e fumo na bolsa.

  - Onde fica isso? – pergunto a John.

  - De brincadeira - apesar da sisudez britânica, com o não menos típico humour dá-lhes muito para a brincadeira infanto-juvenil -, tive a paciência de fazer os cálculos no mapa que talvez inclua na minha coluna do Music Echo (outra brincadeira, porque em tom de chalaça ainda mais baixo que o normal diz que de boa música, ali, só se tem ecos). Fica em Derbyshire, a 48 milhas de Chester, 24 de Chesterfield, 34 de Derby, 35 de Huddersfield, 12 de Macclesfield, 25 de Manchester, – ah, sim! - 28 de Sheffield, 24 de Stock-on-Trent e a 159 milhas de Londres... Local improvável para um fim de semana de alegrias. Serão duas noites de música da Dandelion, associada a vários pequenos produtores, e curiosamente patrocinadas pelo clube de futebol e rugby da cidade.

  Vamos na sua kombi com a doce e gentil Pig, de longos cabelos pretos lisos e escorridos, que estuda Farmácia e costuma fazer desenhos em nanquim no estilo dos de Lennon, e que aproveita a carona para seguir até Bolton, além-Manchester, para passar o fim de semana com a família, e – se tivermos sorte com o carro – descer com a gente na volta. Peel chama carinhosamente a viatura de Peelmobile. É uma Bedford Dormobile. Na retaguarda fez um original arranjo com o banco traseiro e dois pequenos estrados de sobe e desce, fixados por rolamentos às laterais e com que compõe camas que segundo ele dão para quatro pessoas. Diz que está muito desgastada e que já nem se arrisca a sair com ela de Londres – este talvez seja o seu último passeio.

  Acaba por ser uma viagem de seis horas, com paragens para almoço e chá na beira da estrada, quando aproveitamos para recalibrar as baterias com o hash do Business às escondidas de John, que não sabemos se fuma ou não, mas se o faz é às escondidas de nós, talvez por especial cautela em relação ao fato de sermos menores de idade. Por curiosidade nossa o resto da manhã e a tarde decorrem sob o signo de uma das grandes invenções da década, os festivais de rock.

  - Houve tão bons concertos, festivais e reuniões nesses anos. Alguns atraíram centenas de milhar, outros só uma mão cheia de pessoas. Alguns gratuitos, outros caros demais. Alguns com ampla publicidade, outros acontecendo de forma quase espontânea para uns poucos amigos. Com eles houve uma vasta revolução musical e a música popular nunca mais será a mesma, mas imprensa, rádio e televisão não se dão conta disso.

  Cansou, diz, e para ele nada de big festivals.

  - Dou todo meu apoio a qualquer tipo de manifestação de resistência ao Sistema, mas não há mais espaço para o sonho. Concertos em Fairfield Halls, Albert Halls, Free Trade Halls e coisas do gênero só funcionam se não forem ‘estruturados’ demais, e isso é impossível. Também os pequenos e aconchegantes teatros das faculdades, com a sua atmosfera formal, não parecem funcionar bem para grupos. Há duas semanas fui ao University College Theatre para ver parte de uma série de mixed media evenings. Desde meados dos anos 60 tem-se abusado do termo, como foi o caso, porque não houve teatro, mímica, poesia, shows de luzes e coisas do gênero. O problema é que desde o ano passado os festivais, que poderiam ser uma excelente alternativa aos teatros tradicionais, inadequados para o gênero, passaram a ser tentativas de negócios chorudos. Todos a querer ser mais importantes que Woodstock mas, como se viu em Altamont, a história não se repete. Nem Wight em 69 foi tão bom.

  - Para você Woodstock foi só business?

  - Não, pelo contrário, os tipos lá nem tinham idéia do que estavam fazendo e de quão grande e importante a coisa ia se tornar, e foi importante porque reuniu quase meio milhão de pessoas mas sobretudo pela atenção que o enorme engarrafamento que provocou e a falta de comida despertaram em todo o país, e também no mundo, sobretudo porque não houve um incidente sequer. Os ‘quadrados’ ficaram pasmos que se possa viver numa cidade sem polícia. O problema é quando se organiza uma coisa do gênero e, aspectos técnicos à parte, já se tem na cabeça o que será: um caça-níqueis. É claro que as pessoas devem poder aspirar a viver da música rock e usá-la também como um negócio, mas não abusar e tentar enganar os outros com um produto absolutamente novo que logo se desvirtuou.

  Trouxe para Londres um artigo reproduzido num jornal do Rio:

  Não sei se a ‘imaginação está no poder’ no seio da juventude americana mas Jean-Jacques Rousseau sim, sem dúvida. ‘O bom selvagem’, a não-violência, a não agressividade agressiva, a droga agradável, o homem nu e aperfeiçoável. A radiosa utopia. Woodstock, a cerca de 4 horas de N.Y. Dois rapazes empreendedores, um hippy sem chavo e um futuro herdeiro de milhões tinham dito ‘Faz-se lá um festival de rock e ganha-se uns trocados’. Ganharam foi 2 milhões e meio de prejuízo e 400 000 jovens em cima. Na véspera do festival os organizadores acordaram: 30 mil jovens acampam no recinto (teórico) do teatro ao ar livre em frente do estrado... John Roberts tinha gasto a sua herança em 12 horas. ‘Já não tenho nada a não ser dívidas, mas os jovens foram formidáveis e isso vale por tudo.’

  O médico-chefe do serviço sanitário disse: ‘Nunca vi nada como isso aqui. Os kids foram formidáveis.’ Afirmou Joan Baez: ‘Foi fantástico. Na chuva, na lama, sem teto, uma cidade gigante de jovens, dormindo por toda a parte.’

  Richard Reeves, do N.Y. Times Sunday Magazine

 - E Wight?

  - Fui lá. Legal. Mas muita confusão e atrapalhação, com horas de espera entre uma apresentação e outra. E Bob Dylan desiludiu. Se não quer tocar, para quê cobrar 42 mil libras ou o que foi para fazer de conta que toca, de trombas? Não ganhou já dinheiro suficiente?

  Por uma vez, a abrilhantar o primeiro passeio pela Inglaterra, além da monótona viagem ida-e-volta pelos subúrbios fabris na linha de Chelmsford, quase não se vê uma nuvem no céu. Em dia excepcional a temperatura beira os 30 graus e o Dormobile tem problemas de radiador. Peel receia ter de deixá-lo em Buxton e pegar uma carona. Nesse caso teríamos de voltar de trem, o que já não seria tão divertido. Duas vezes paramos e na segunda aumenta o fervor com que o acompanhamos em murmúrios de encorajamento à valiosa máquina enquanto se enche o radiador que parece a ponto de explodir.

  Fala-se – fala ele, a pedidos – de rádio.

  - A coisa mais engraçada que me aconteceu na vida foi ano passado. Nas minhas primeiras férias em 14 anos fui com Pig e meu irmão Allen no Grand Tour do Continente. Estávamos com o Peelmobile e ele também teve problemas até chegarmos a Luxemburgo, onde tivemos de ficar dois dias esperando o conserto. Como bem sabem aqui não dá para ouvir Radio Luxembourg em boas condições. Aproveitamos para saber como seria ouvindo-a de perto. Quatro da tarde, Teenybopper Turn-On Time – Hora da Sintonia Teenybopper, não sei o que é propriamente um teenybopper mas deve ser um painfully abused group – um grupo penosamente espinafrado... Quando a sintonia é melhor Radio Luxembourg parece ainda pior do que quando se ouve entre aqueles ruídos e altos e baixos de volume da má captação.

  Radio Luxembourg em inglês funciona das quatro da tarde às duas da manhã, e serve apenas para se dizer que existe uma alternativa à BBC, porque toda a programação até meia-noite, quando entra no ar o Kid Jensen Show, feito por um disc jockey canadense com muito bom gosto, beirando o underground, tudo é igual ou pior que a Radio One, com puro plástico de usar e jogar fora.

  Peel esteve apenas seis meses na Radio London. Em 1969, no segundo aniversário da Radio 1, britain’s only pop music station (enquanto na América elas as há aos montes há muito tempo), foi eleito em sondagens o melhor disc jockey britânico com o dobro de votos dos segundos colocados, gente como Kenny Everett e Emperor Rosko.

  - As pessoas tendem a pensar que existia mais liberdade nas piratas que na Radio One. Mas nas duas, Rádios London e Caroline, havia uma rígida grade musical a ser seguida e era muito comum a proibição de discos. Desdemona, do John’s Children, o segundo grupo de Marc Bolan, por exemplo, foi proibida. As piratas tinham a vantagem de dar a ilusão de liberdade e também a de haver uma genuína amizade entre os seus disc jockeys. Pudera, vivendo praticamente um em cima do outro por meses a fio, não fosse assim e o barco iria a pique...

  Buxton fica no extremo sul dos Peninos, no coração do Parque Nacional de Yorkshire do Sul. Eu e Jimi vamos dormir no... Dormobile, John numa casa que estava abandonada e que foi ocupada por membros do que ele chama de gozação de Principal Edwards Magical Trousers, onde poderemos tomar uma ducha e comer.

  - Recentemente Scene, uma seção do Disc, descreveu o Paradiso de Amsterdam como um ‘hive’ (cortiço) para ‘lay-abouts’ (andarilhos sem eira nem beira). Ora, alguns dos meus melhores amigos são ‘lay-abouts’. Lay-abouts, hippies, skinheads, capitães de times de cricket, rockers, mods, empregados de lavandaria, Hell’s Angels em crise num drama de investigação sobre doping de cavalos – tudo continua sendo alvo de sermões do vigário. Vocês vão poder testemunhar em Buxton a hordas de grupos nunca vistos. Ao fim ao cabo bandos de ‘lay-abouts’ – promete-nos.

  Nem perguntamos, e ficamos surpresos – e de certo modo desiludidos, porque nunca estivemos em um – ao saber que o festival não é ao ar livre mas num ginásio de esportes. Mais uma vez acorreu muito mais gente do que o previsto e uma multidão tem de ficar do lado de fora espreitando pelas janelas ou ouvindo das caixas de som instaladas na cafeteria, sempre abarrotada. Não é propriamente um festival mas uma série de duas noites de shows mais alargadas que o normal, que é a apresentação de três artistas por noite. Quando entramos está tocando o Occasional Word, a que se segue Mike Hart, um ex-cantor de um grupo obscuro chamado Liverpool Scene, com os já familiares Business. Impressionante a quantidade de músicas do repertório do Cream que o pessoal toca em 1970:Crossroads,Politician, Sitting On The Top of the World. Algumas nem sequer connheço – identifico-as pelo título ou pelas letras de Pete Brown, o letrista parceiro de Jack Bruce, colega de Lennon na escola técnica de arte de Liverpool. O som é muito ruim, pouco mais se ouve além de um ritmo viril e muitos entre os de espírito mais fraco são levados a procurar alívio e conforto no bar.

  A primeira noite fecha com Spirit of John Morgan, que é o nome do líder e organista do grupo, que usa uma capa que de longe parece uma cortina velha. Blues do melhor, mas à inglesa. Spirit não apresenta nenhum clássico do gênero. Morgan está de muito bom humor:

  – Look serious, man, this is the blues! – grita entre duas músicas, em reação a urros da platéia. – Don (o vocalista) gostaria de cantar sobre campos de algodão mas nunca esteve em nenhum – alfineta os cultores do estilo mais tradicionalistas.

  Entrar de graça, ser parte da cena. Jimi delira enquanto se fuma num jardinzinho atrás de uma igreja em estilo neo-gótico que deve ser o monumento mais importante da cidadezinha, na fronteira da região altamente industrializada de Sheffield, Manchester, Merseyside e Liverpool e com a mítica Nottingham nas costas, mantendo ares de pequena cidade de montanha com longos declives gramados que devem ser uma delícia para se deslizar de tobogã no inverno. Quase não dormimos, na conversa fiada, rindo das cenas da noite, excitadíssimos.

  Saímos de manhã cedo, fechamos a kombi, deixamos a chave pendurada num gancho ao lado da porta da cozinha e vamos passear pela cidadezinha. Tomamos banho e almoçamos em casa das Calças Mágicas, para variar um stew vegetariano como o dos indianos de Londres em que comemos estufado de legumes com molho de soja e muito chá preto. Noto no entanto que sobretudo dois membros dos Trousers, com os curiosos nomes de Root e Bindy, dão-lhe bem direto do gargalo de uma garrafa de gin. Comunidade alegre e engraçada, esses Principal, um bando que, por analogia sugerida pela nossa localização, parece saído de uma aventura de Robin Hood, embelezado por três garotas muito jovens e cheias de garbo que parecem bem integradas ao grupo. Passamos a tarde jiboiando atrás da igreja.

  - O cenário seria perfeito para nossa estréia em LSD, ahn? Dá para imaginar quantas tocas de coelho haverá nessa encosta – põe-se Jimi a delirar. O dolírio, como logo o apelidei, começou quando nos preparávamos para a viagem em Londres e depois do banho ele se pôs a fazer um trocadilho com o título do terceiro disco do Jefferson Airplane, After Bathing at Baxter’s, que ouvíamos no Rio em sessões contínuas, como em mini-seminários ou cerimônias iniciáticas, à luz de velas e perfume de incenso fornecido por Lu Silveira para lhes dar uma atmosfera mais consentânea com o clima psicodélico de que fazíamos também boa idéia pelas descrições em flashback do Rolling Stone das jams em salas como o Matrix e o Fillmore West de San Francisco, no auge da era flower power.

  - Mesmo sem ácido temos a base material e teórica para um verdadeiro After Bathing at Buxton’s, embora ainda também nos falte ler o monólogo de Molly Bloom, de Ulisses, em que Grace Slick e Paul Kantner se inspiraram para fazer o disco – viajava enquanto enrolava e arrumava as camisetas na mochila.

  - And if you go chasing rabbits and you’re going to fall, tell ‘em... ah... a smoking... E se daqui a gente fosse caçar coelhos e caísse numa toca... diríamos a eles que... a smoking caterpillar... UMA LAGARTA FUMADORA!... – dá uma tragada mais funda e no vácuo da sua pausa entro na atmosfera do travesseiro surrealista de Jefferson:

  - A smoking caterpillar has given you the call!! – destoo urrando acima da sua voz fanhosa. – E CHAMA A ALICE QUANDO ELA ESTAVA DO MESMO TAMANHO! – após o que caio no sono, talvez sonhando com Alice ali com a gente, encosta abaixo, procurando tocas de coelho para dar umas baforadas num narguilé bem temperado, e só acordo na hora de irmos correndo para o encontro com Peel, que já entrou, e ficamos horas olhando de fora esperando que alguém o chame, mas qual nada, até que ele estranhe nossa ausência já é muito tarde, e nem nos apercebemos de quem toca, porque mal entramos e já estamos de saída para o regresso.

  Peel não quer arriscar-se a ficar no meio da estrada de madrugada com o Peelmobile enguiçado. Arruma uma carona para nós no caminhão do equipamento do East of Eden, que tocou antes de chegarmos ao ginásio, e segue no carro de John Morgan.

  É impressionante a estrutura que mesmo uma pequena banda tem de manter e carregar. Um caminhão de equipamento, no mínimo um engenheiro de som para ligar as engenhocas e garantir a qualidade do espetáculo e dois road managers, que se revezam entre contatos sobre questões logísticas e técnicas de produção com os promotores locais e a função básica de carregar e descarregar equipamento.

  Este East of Eden já está num escalão mais alto, com um LP no mercado com que adquiriram uma certa projeção. Os três road managers vão na cabine. Eu e Jimi num vão livre da carroçaria onde estão um sofá velho de um lugar e um divã com colchão para fazer face a imprevistos. Morto de cansaço, Jimi estende o seu saco-cama, mete-se dentro dele e cai em sono profundo ao cerrar os olhos. Me enfio no meu e fico estirado no sofá com as pernas sobre os pés da cama. Custo a pregar olho, apesar da estafa e de tanto hash na cabeça. O aparelho de rádio do caminhão sintonizado na Radio 1 só transmite flashbacks e jingles pré-gravados. Quando entram Baby, Now That I Found You e Any Old Time You’re Lonely And Sad, sucessos de um e dois anos atrás do Foundations, pretensa réplica inglesa do Four Tops, dou por mim mais alerta que antes dançando e batendo palmas ao ritmo delas num recanto da floresta de onde se divisa o Pão de Açúcar entre as árvores, longe de sonhar em vir para a Inglaterra. Entra Dizzy, de Tommy Roe, que ouvi pela primeira vez em dezembro de 1968 num pacote de compactos que Lu Silveira levou de Londres, juntamente com o primeiro de Joe Cocker e Fire, de um tal de Crazy World of Arthur Brown. No conjunto, por coincidência, a trilha sonora de minhas primeiras festinhas. Somos acordados pelo motorista ao amanhecer ao lado do parque de Battersea.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  – Look serious, man, this is the blues!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

  Grace Slick in Wonder land

 

 

 ...

 

 

 

   

Rumo   a   Sunderland   &    Northumberland

 

  Telefono a Peel, que está subindo para Sunderland com Marc Bolan – do you know him, don’t ya? –, e pergunta se não estou disposto a ir, havendo lugar no carro.

  - Sunderland?! Where’s that?!

  - A sul de Newcastle, sobre o mar, na região de Tyne e Wear.

  Fog on the Tyne... fantástico! – lembro-me da brincadeira de Jimi, a bem pensar só uma dúzia de semanas atrás no Rio, estranha é a obra do acaso. Hesito ao pensar no dinheiro curto:

  - Tenho ingresso garantido? Onde nos encontramos e a que horas? – Aqui em casa amanhã às 10, são 250 milhas, oito horas para chegar lá devagar, porque Marc deve estar em forma para a sua performance. Comeremos alguma coisa na estrada.

  Não há lugar para dois mas Jimi, que quase endoida por ficar em Londres lavando prata enquanto me delicio com o que classifica de uma verdadeira expedição ao norte, também não poderia ausentar-se por dois dias, porque perderia o emprego tão perto de casa.

  Longa estirada por toda Inglaterra até quase à Escócia a partir da Motorway 1, muito tempo para ouvir o ‘papa’ da cena inglesa. A propósito dos oito anos de luta de Marc Bolan por um lugar ao sol fazendo a música que faz, Peel discorre sobre o seu ceticismo em relação ao underground:

  - Dois ou três anos atrás as pessoas iam assistir bandas de que nunca tinham ouvido falar. Isto parece muito revolucionário, não? Talvez os meus ouvintes e leitores mais velhos ainda se lembrem desses dias anárquicos em que as platéias aplaudiam atuações e não reputações. É até bom que as bandas mais conhecidas estejam cobrando tanto pelos seus serviços, porque muita gente sem dinheiro vê-se obrigada a trocá-las por outras e isso poderá pôr fim à atual onda de estagnação da cena.

  - Mas aqui não houve a bem dizer uma contestação política, como nos EUA, que ao que se diz gerou-se do medo dos jovens de irem para a guerra.

  - Mas havia um clima que poderia levar a algum lugar além da luta dos partidos políticos e dos sindicatos. Como, não sei, porque por aqui nunca houve movimentos espontâneos, dissociados de uma corporação. Seja como for, na nossa Bretanha o modo tradicional de lidar com a discordância é o de tolerá-la até a morte (o que explica muita coisa em relação à maneira de ser dos ingleses). Esta tática, a par com uma subreptícia campanha de feroz apoquentação, deverá mais uma vez dar frutos e fazer do Underground apenas mais uma etiqueta comercial. No início um pequeno grupo quis criar uma espécie de sociedade alternativa não-egoísta. Na verdade sempre houve um underground. Os primeiros cristãos, por exemplo, difundiram sua mensagem de alegria e amor enquanto sofriam uma violenta perseguição. Com o tempo foram desenvolvendo estruturas e preconceitos que fizeram da igreja uma das instituições menos religiosas do mundo. Cristo teria permissão de entrar na Capela Sistina com o cabelo tão comprido? Quanto amor e alegria emanam de Ian Paisley? O progressivo desvirtuamento do movimento de ocupação dos prédios abandonados do centro de Londres (squatting), que revela insensibilidade, falta de miolos e egocentrismo, é um bom exemplo. Em pouco tempo passou a ser guiado por gente que não tem o que fazer e que no primeiro momento de perigo telefona ao papai ou à mamãe pedindo socorro e faria melhor se pensasse a sério naqueles que nunca tiveram oportunidade de drop-in (inserir-se), quanto mais de drop-out (abandonar o Sistema). Exemplos como esse e outras situações paralelas mostram que a melhor maneira de agir será por meios individuais ou de pequenos grupos trabalhando numa espécie de esquema de guerrilha. Os inimigos não são o dinheiro, o Estado ou os mass media, porque os seus males estão bem à vista. Os inimigos são de ordem interna - o egoísmo, a preguiça, a falta de sinceridade e a aparente inevitabilidade de estruturar. Elege-se um representante e logo começa a decadência. E assim é também na música. Os indivíduos, postos na roda viva dos mecanismos da indústria parasita, vêem-se cercados e prensados contra a parede por toda a sorte de jogos de interesse e, se não renunciam à causa, deixam ao menos de pô-la na frente de tudo o resto.

  Quem nos guia é a mulher de Bolan, Junechild, que pilota por estradas sonolentas enquanto Marc e John lêem Marvel Comics e não desprego os olhos da paisagem. Comemos rubbish em restaurantes de beira de estrada. A viagem decorre sem incidentes. Tommy Vance debita What’s New, que conheci há pouco tempo através de Maria Bethânia, e o entusiasmo cresce quando entra Joe Cocker em Delta Lady. Passamos pelo descampado de Yorkshire, de gloriosa e sanguinolenta fama na guerra pela possessão do território entre saxões, normandos e vikings e depois entre brits e scots, quando se ouve Juicy Lucy. O rádio está sintonizado no canal de televisão da BBC e todos reagem como se o Liverpool tivesse feito um gol, mais pela surpresa de ouvir algo do gênero na TV do que pela música em si.

  - Será que nos enganamos de emissora?! – admiram-se os convivas, cujo entusiasmo faz com que a música passe quase despercebida. A surpresa leva John a falar sobre a relação dos meios de comunicação de massa ingleses com a música do seu país:

  - Se formos olhar para o lado econômico de tudo isso, todos esses grupos trazem ao país uma pá de grana que depois é gasta de todas as formas estúpidas e assassinas em que os governos costumam usar o dinheiro, mas não têm o mínimo apoio da mídia. Ninguém é profeta na própria terra...

  Até aqui, penso. Lembro-me a propósito das cartas enviadas para os semanários de música dos lugares mais recônditos e inesperados e falo-lhe da do Perera de Sri Lanka. Ele pede-me para procurar na sua pasta uma que recebeu há dias de Praga, que pego e leio em voz alta, enquanto o pessoal ri com o inglês capenga:

I wanted ask you if you would be interested in visit of three the Prague beat festival in March. Well in the case the things are going O.K. till then. Sorry ‘bout  my typing. I have to admit they are getting worse till now as you probably see in your papers, in the case you read them. I better stop now. It makes no difference now as we are not allowed travel anyway. Please if you or any of your friends get any of U.S. valuable records, even older. Send them over here just for few fans in little club.

Eu queria saber se estaria interessado em visita de três o festival beat de Praga em março. Bem caso as coisas estejam indo O.K. até lá. Desculpe a datilografia. Tenho de admitir que eles estão piorando até agora como talvez você veja nos vossos jornais, caso os leia. Melhor ficar por aqui. Não faz nenhuma diferença agora porque não temos autorização viajar. Se você ou um amigo conseguir algum disco valioso americano, mesmo antiquado. Mande para cá só para alguns fãs em pequeno clube.

   - Mais uma prova de que a boa música tornou-se mais importante como fator de ligação entre os povos do que a mídia imagina – comenta John.

  - E a música de qualidade dá mais dinheiro, talvez, do que o pop comercial, que só vende muitos compactos e, vá, alguns LPs, mas de repente não rende tanto dinheiro como o das turnês que as melhores bandas fazem por toda a Europa e os EUA – arremata Bolan.

  - Certa vez Steve Ellis, dos Love Affair, escreveu que eu era musicalmente intolerante, o que me deixou muito entristecido, porque o que procuro criar é precisamente um clima de tolerância musical.

  - E de fato você parece ter um gosto bastante eclético.

  - Só não toco certos hits que até acho bastante bons porque os outros já o fazem e não há tempo, num programa de apenas duas horas por semana. Infelizmente muitas pessoas erram o alvo e acham que tudo deve ser progressive, o que quer que isso seja – meros artifícios para dar respeitabilidade à música rock, que ela não quer nem precisa, com casamentos arranjados com o jazz, o clássico e outras coisas. Deep Purple In Concert com a Royal Phillarmonic Orchestra – que necessidade há disso?! Não é por acaso que Ian Gillan está também nessa produção de Jesus Christ Supestar, a rock-opera de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. Pior ainda são os exageros que se comete com essa nova mania do moog synthesiser. Led Zeppelin, por exemplo, sabe usá-lo na dose certa. Não estou seguro de se o LP Five Live Yardbirds ainda está no mercado – é provável que não. Mas é um autêntico tratado. Foi gravado ao vivo no Marquee. Muito mal gravado por sinal. Mas a atmosfera é tão boa! Prefiro mil vezes um disco ruidoso e tosco que todo um balcão de bar lotado de truques de estúdio antisséticos e polidos.

  Charnecas acima em planícies a perder de vista, aqui e ali uma floresta, longos trechos de centros fabris, em geral sem árvores, com vegetação rasteira de musgo e grama. Quase tudo muito inóspito, longe do famoso countryside dos filmes, que deve ficar no sul.

  Peel lembra-se de Nothin’ Shakin’ de Eddie Fontaine e Bolan ataca uma versão a capella. Diz que depois de Sunderland vai para um festival em Bellingham e pergunta-nos se não queremos ir.

  - Eu não posso, como te falei vou tentar conseguir uma carona com algum colega lá em cima, por que você não vai? – rebate Peel e olha para mim.

  - Meu único problema é que tenho pouco dinheiro.

  - Não é problema. Dorme no carro – convida Bolan. – Você tem um saco-cama, pode perfeitamente dormir aqui, não?

  Nem sei onde fica Bellingham. Em Northumberland... Nortúmbria... Pego no Baedeker, um dos bons investimentos que fiz com o dinheiro da venda da passagem, numa rara edição inglesa que tem trechos sobre a história de cada lugar. No sétimo século, sob a liderança dos condes Edwin, Oswald e Oswy, a região proclamou sua autoridade sobre todos os anglo-saxões, dando início ao processo de unificação política da ilha.

  Chegamos a Sunderland, estância balnear sobre o Mar do Norte. O local do show, o Locarno, é chamado pela população de Fill-i-more North, em referência aos famosos Fillmore East e West dos EUA, porque também é um antigo salão de baile com uma atmosfera surreal. Ao seu redor há um jardim com palmeiras de cimento, que segundo Peel foram recentemente ‘alvo’ de Roger Chapman, vocalista dos Family, que já devia estar bem tantã.

  - O Nordeste é uma das melhores regiões do país. O pessoal por aqui é tão simpático e amável. Nunca vi tantas damas assombrosas num só lugar. Qual sul de Espanha! O lugar para passar férias é Sunderland! - entusiasma-se ao sermos recebidos por uma relações públicas da produção, sem sombra de dúvida uma dessas wondrous ladies de que fala.

  Marc precisa encontrar o seu parceiro, que veio de Londres na véspera com a equipe da estrada, e afasta-se rindo e abanando a cabeça abraçado a Junechild.

  O primeiro grupo a tocar chama-se Stone the Crows, banda escocesa de que nunca ouvi falar, e que quase me deixa louco sobretudo por causa da sua vocalista, Maggie Bell, uma espécie de Joe Cocker de saias abaixo do joelho e botas. Penso estar ouvindo a melhor cantora de bluesrock do mundo. Faz lembrar Janis Joplin mas demonstra ter muito mais controle da sua possante voz que a rainha do Texas, que à quarta ou quinta música de Cheap Thrills, do Big Brother and the Holding Company, parece uma máquina de cortar aço.

Após o choque Tyrannossaurus Rex esfria o ambiente quase ao ponto do congelamento, porque sua música pouco ou nada tem a ver com a vibração do bluesrock elétrico e eletrizante, impelindo a sonhos de ambientes diáfanos e etéreos com uma atmosfera que nos transporta aos primórdios de Eddie Fontaine, sim, Buddy Holly, Gene Vincent e Eddie Cochran. Surpreendo-me ao ver Bolan/Ariel, como o idealizo, empunhando uma Fender Stratocaster, porque o clima das longas horas de viagem me fez imaginá-lo um Donovan ou um Caetano Veloso que em pleno palco tiraria da caixa o violão e daria um recital de baladas impressionistas ou surreais. Sua música está a meio caminho entre o rock’n’roll e a balada, e só ele com um outro anjo caído sentado no chão em frente a um par de bongôs marroquinos e uma caixa de onde tira guizos e sinetas não poderiam fazer a sala fervilhar como no set do Stone. Mas apesar de não pretender ser nenhum Eric Clapton, Marc/Ariel faz soar uma porrada de coisas interessantes e originais nos seus solos de guitarra. Micky Finn, por seu turno, parece mal na própria pele no acompanhamento. O set me faz lembrar Sally Robinson e seus big brass and back e madrigais, com um grande encantamento, e desilude. Parece ter sido pensado justamente para trazer o público do frenesi a um clima mais consentâneo com a música do Pink Floyd, que no entanto faz os meus ouvidos estalar pela diferença de decibéis e ao décimo compasso da sua atuação me sinto transportado de Sunderland - em quadrantes nórdicos inimagináveis por toda minha vida – a Urano. Cada música, alucinatória, soa como um risco de vida - Interstellar Overdrive projeta a minha dose de ecstasy a um nível excessivamente perigoso. São três da manhã quando, após quase morrer de frio a fumar um joint de hash atrás de uma sebe, olhando para as palmeiras de pedra e pensando que teria de fazer um esforço dos diachos para me sentir no Posto 8 de Ipanema, reencontro Marc e Junechild para seguir até Bellingham, em Northumberland, a uns 80 km daqui.

   Tyrannossaurus Rex & Macbeth

Quem diria, eu aqui com um quase desconhecido e encaracoladíssimo jovem cantautor que conheci em sessões obscuras, à noite, à luz de velas, para dar-lhes um ambiente mais surrealista, com Jimi e Solemar, ouvindo dois discos que encomendamos a Lu Silveira pela enorme curiosidade que a insistência de Peel em falar dele nos despertou. Por nada deste mundo me passaria pela cabeça estar no banco traseiro do carro do futuro precursor do chamado cosmic rock e, pior, da glitter music do inefável Gary Glitter. Sempre pensei, até pelos longuíssimos títulos dos seus primeiros discos, com Steve Peregrine-Took no lugar de Finn, que ele sequer sonhasse com sucesso de vendas - My People Were Fair and Had Stars In Their Hair, But Now They’re Content To Wear Stars On Their Brows; Prophets, Seers and Sages - The Angels of Ages; (She Was Born To Be My) Unicorn. Está em turnê de lançamento de A Beard of Stars, gravado com Finn.

   Relato-lhe baixinho as minhas impressões e rindo ele me fala da reação de Hendrix nos bastidores do programa da BBC Ready, Steady, Go: - Hey, man, you’ve got a funny voice!

     Só engraçada?

A caminho de Bellingham passamos pelos arrebaldes de Newcastle através da região entre as bacias do Tyne e do Wear, um dos berços da indústria moderna, a massa amedrontadora de galpões imensos do que resta das primeiras fábricas e chaminés do planeta a olhar-nos do outro lado, antes de entrarmos na mítica Northumberland, território macbethiano, como dissera Peel de brincadeira. Mas não se vê nem bruma sobre o Tyne...

Atravessamos Northumberland antes do amanhecer, o ambiente perfeito para um filme de mistério e terror. Olmos negros parecem avançar sobre nós à medida que o casario desaparece e começa-se a ver uma ou outra pequena casa isolada como que saída da história da Branca de Neve, com paredes caiadas e sólidas portas e janelas em estilo rústico, sobre a estrada estreita e sem sinalização. Numa colina de um dos lados vê-se as ruínas de um velho castelo em cujas imediações as três weird sisters, as estranhas feiticeiras consultoras do rei, que poderiam muito bem continuar morando ali perto numa gruta, estariam preparando a poção em que fervem os condimentos de uma tragédia sem fim, como sussurra Marc quando falo do alto poder sugestivo da longa brincadeira de Peel em torno das mil e uma peças de Ol’ Will Shakes, como o chamava. Bruxas velhas voando baixo em longas, obscenas e borbulhantes cerimônias, quase também o universo das viagens bolanianas, não fosse ele só mirar entes do bem.

Marc quer dar uma olhada no local do festival onde irá tocar de noite antes de voltar para dormir num hotel por que passamos, à saída de Bellingham. Pensando na voz metálica que entoa melopéias repetitivas e turvas, mais as bizarras letras do bardo que me guia, dou por mim inesperadamente em estado próximo ao terror e, no regresso, quando me vejo sozinho estirado no banco traseiro do Range Rover, penso na estória de ódio, vingança e muito sangue de Shakespeare a que Peel se referiu em detalhe na véspera, entre risadas, sugerindo a possibilidade de scots e brits poderem de novo engalfinhar-se em lutas terríveis como as que viveram em boa parte da história, com emboscadas e chacinas do escurecer à aurora.

Para espantar fantasmas e ver se durmo abro o mapa do Baedeker. Estamos num parque nacional na fronteira com a Escócia, a noroeste das terras de Humber e a dois passos de Fife, num baixio próximo à cadeia dos Cheviot. Cenário de guerras constantes por centenas de anos.

O estado entre o encantamento e o pânico não irá me abandonar até a madrugada seguinte, quando entro no Rover para um dia de viagem de Bellingham a Londres em que eu e Marc passamos quase todo o tempo dormindo guiados por Junechild, que quando não está ao volante deve dormir o tempo todo, porque não a vi desde que chegamos a Bellingham.

   Brancas de Neve, louras, ruivas ou de longos cabelos negros e uns poucos milhares de gnomos e duendes, freaks, um filme absurdo, entre o maravilhante e o aterrador, sobretudo no site do festival, que começou na véspera, cercado por tapumes na orla de uma floresta de urze e olmos cujas manchas negras, entre músicos e roadies de longos cabelos e barbas, vestidos com roupas cada qual mais bizarra, me transportam a um passado remoto de que acordo para mirabolantes viagens eletrônicas ao som de ‘grupos nunca vistos’ nem ouvidos, a começar por Blosson Toes, que faz uma espécie de rhythm and blues bem tosco sob a impecável direção do guitarrista Jim Creegan. Estou no bar após o concerto, comendo um gorduroso sanduíche de carneiro com a boca ardendo por causa do estranho molho de mostarda com pickles com que estragaram o pernil quando se aproxima um cara com ar de mendigo suando em bica, ninguém menos que o próprio guitarrista dos Toes, que pede uma Guiness e um gin puro (!) e que ao pôr os olhos em mim me pergunta:

– Você não é inglês nem escocês, pois não?

Arregala muito os olhos ao saber de onde venho, bate no meu ombro e agradece o cumprimento pela ‘excellent gig’.

- Mas Blosson Toes (Dedos dos Pés, Biqueiras de Sapatos Florescentes) -, o que quer dizer? – engato súbito em sequência.

Nada de especial – responde quase em sussurro.

– Estávamos procurando um nome sem achar nada que prestasse até que certa vez um tipo do management office acordou, disse ‘Blosson Toes’ e voltou a dormir. Achamos ótimo e assim ficou.

Dá uma golada no gin e manda o que sobrou para o copo onde verteu parte da Guiness (!!!) e diz que acabo de ver sua última atuação com a banda, porque acaba de ser contratado para tocar com Family, de Roger Chapman. É a minha vez de arregalar os olhos.

Estamos quase ao lado do palco onde agora atua Chicken Shack, protagonista de um extraordinário sucesso meses atrás com o blues I’d Rather Go Blind, cantado pela mulher do baterista e fundador do Fleetwood Mac, John McVie. Christine Perfect acaba de deixar a banda, que voltou a ser liderada pelo guitarrista Stan Webb, que também atua como vocalista e está à frente de mais uma das inúmeras impagáveis bandas de blues britânicas. Só lamento não ouvir de novo o seu maior sucesso pela voz de Perfect McVie.

O que vem a seguir insere-se no capítulo dos momentos inenarráveis. Um trio chamado Edgar Broughton Band, com o meu homônimo na lead guitar e em vocais de arrepiar defunto e seu irmão Steve na bateria, mais um baixista. Creegan, que se mantém ao meu lado se ‘refrescando’, apesar de esta ser a noite mais fria de minha vida, ri às bandeiras despregadas enquanto aos urros, no meio de uma trovoada constante e ensurdecedora, Edgar Broughton lança o que parece ser uma sucessão de palavras de ordem políticas, e quase não se aguenta em pé quando o ‘cantor’ esbraveja: American army, wait till the Russians get hold of you!!!! – entre um tonitruar de guitarra, baixo, pratos e tambores de jogar os olmos por terra.

     Quem já não se aguenta em pé sou eu, e sentado no chão encostado ao balcão do bar dormito quando não sou acordado pelo estrondo do grupo seguinte, Blodwyn Pig. Creegan já se foi quando me levanto e faço um esforço tremendo para não dormir enquanto Marc e Micky oferecem um esplêndido show, se comparado ao da véspera, talvez porque as dimensões do palco de madeira, bem mais exíguas do que as do Fill-i-more de Sunderland, se afeiçoem mais ao seu estilo de música, entre o rock’n’roll mais puro e sereno e a melopéia algo tântrico-madrigalista que é a imagem de marca do T. (ops!) Rex. Muita gente não ficou até o final, quase às três da manhã. Junto-me a Junechild no carro para, no banco traseiro, passar do sonho encantatório e/ou terrível de um dia de meio-Verão ao sono profundo, entre duas paradas até Londres.

 

 

...

 

 

       

      Interstellar

       Overdrive

     

     

         

       

       

    

    

    

     

     

    

     

 

 

 

com muito vigor e souplesse

 

        

 

 

    

     

 

 

 

 

   

  DOWN TO BATH / PARA BATH

 

 

Big Festivals. 1970 é o ano deles. Em Wight, Bath, Lincoln ou Reading, festivais de música e de ideais parecem esboroar-se em gigantescos empreendimentos comerciais.

Bath, a 150 km de trem em linha reta para oeste através dos campos de Berkshire e Avon, mochila e saco-cama às costas para quedar-me ao relento onde dê e assistir a dois dias do festival pela nada módica quantia de ₤5, que junto com viagens e refeições é o orçamento de quase uma semana de sobrevivência mínima em Londres, mas faz parte do planejamento de despesas extras.

Jimi tem de trabalhar e trocou uma folga para estar lá no último dia do festival e ver Led Zeppelin, doido por perder Pink Floyd e Frank Zappa, de quem também não ouço ecos porque chego ao site uma hora após sua exibição.

O impacto de Interstellar Overdrive no incomensurável descampado onde se delimitou, nem sei como, o recinto do festival é muito maior do que no comparativamente minúsculo Fill-i-more de Sunderland, mas já dá para ficar tonto ao chegar à estação e ver a manada de caras que tomaram a cidade e a estrada campestre rumo a Trowbridge, onde se realiza o festival, e duas horas depois com a visão do mar de gente que se concentra no site.

Interstellar OverdriveDe fato.

Aqui não há nem binóculo, como nos terceiros balcões dos teatros londrinos. Moído da viagem no trem cheio de freaks decido não abrir caminho e fico onde estou. Haverá no mínimo vinte mil pessoas na minha frente. O som vem de meio caminho para trás, alto e claro, mas os músicos, rodeados de uma parafernália de que se destaca um imenso gongo, parecem estar em outra galáxia.

Fog de hashish: pairam ao redor nuvens de fumo durante o show da estratosférica banda, que surpreende também pelo ambiente cênico de luzes, numa sugestão de viagem espacial.

Na maior parte do tempo não há música. Diz-se que 250 mil pessoas estão presentes, mais uma vez muitíssimo mais do que os organizadores esperavam.

Hell’s Angels de porte e expressões ameaçadoras põem ordem na imensa fila em que perco quase uma hora para me abastecer dos hot dogs e da Coca-Cola que compõem a minha única refeição em doze horas, e no meio da confusão quase não ouço e vejo Peter Green, que pela primeira e ao que diz última vez se apresenta com banda própria – e lá descortino o chicagoano Jeremy Spencer, seu ex-colega - num longo set de blues após John Mayall e o Bluebreakers, onde se revelou.

O que se fuma à minha volta me dispensa de sacar os dois cigarrinhos muito mal enrolados que trouxe para me divertir até a chegada do reforço de Jimi. Durmo um sono profundo de quatro horas. Os seguranças não deixam sair ninguém que queira entrar de novo, um absurdo em vista da duração do festival e do caos imperante, e só demovo o jovem que interpelo quando, aos gritos, ameaço arrear as calças e mijar e cagar onde estou.

Quase nem curto a belíssima paisagem da estrada rumo à cidade enquanto não me enfio por um terreno baldio para desanuviar o intestino grosso e a bexiga.

Refúgio de aposentados Bath será muito bela e rica em arquitetura georgiana e nas reparadoras águas termais que lhe deram nome e fama desde os romanos, mas os prédios estão muito sujos. Li no Baedeker enquanto repousava da estirada até o cagador, as pernas ainda tremendo, que há quase 200 anos Jane Austen já dizia que O aspecto geral do lugar é quase só de vapor, sombra e confusão. Imagina se visse o local do festival, só fumaça e confusão.

O encontro com Jimi é na ponte coberta de Tilteney. As ruas estão tomadas por hordas de jovens com aspecto de maldormidos e subalimentados como eu. Muitos freaks. Entro num Wimpy e satisfaço o apetite com o costumeiro hambúrguer com queijo e alface e café com leite. Os únicos habitantes da cidade que se vê são os empregados do snack. Devem estar todos atrás das cortinas olhando os bárbaros invasores.

Jimi é pontual como o trem do leite. Estando morto de fome voltamos ao Wimpy. Lembro-me de que no site vai ser quase impossível comer alguma coisa. Reforçamos o desjejum e compramos sanduíches e refrigerantes to take away - para viagem.

Vamos ver o conjunto da obra dos John Wood de há 300 anos, a região central do Circus – onde rimos imaginando como pai e filho se divertiram ao planejar uma praça tão redonda -, e o Royal Crescent, a meia-lua complementar do grande desenho arquitetônico, de que só nos apercebemos com exatidão através de uma foto aérea no Baedeker.

Muita confusão nas entradas do recinto do festival, onde chegamos quase mortos da estirada. Os porteiros dizem que não podem deixar entrar mais ninguém. Um grupo de cinco Hell’s Angels quase mata de porrada dois jovens que não queriam perder Led Zeppelin de maneira nenhuma e ao perder as estribeiras perderam tudo, porque são evacuados num Austin 1200 de passagem pelo local para o hospital mais próximo, um deles em cuecas e aparentemente com tíbia e perônio quebrados, grasnando de dor, uma nuvem de raiva paira entre minhas orelhas, seguranças piores que os policiais porque sem lei e sem ética, quando decidem abrir o portão para deixar entrar a multidão, e ao entrar, apertados, deparamos com o que só se poderia comparar a um quadro de Bosch que vimos na National Gallery, gente suja e descabelada antibritânicamente às cotoveladas e aos esbarrões enquanto pula e dança ao ritmo cadenciado do grupo de Julie Driscoll, dirigido pelo novo marido da cantora, o pianista Keith Tippett. Fora Pink Floyd – e talvez Zappa – um festival caótico ao som dos british blues, porque a seguir apresentam-se os reis do gênero e do hard rock.

A espera é longa. Um dos aspectos mais assinaláveis destes festivais será a calma e paciência das multidões. Ouve-se Tommy in-tei-rinho no enorme intervalo, em que eu e Jimi, deitados sobre os sacos-cama, fumamos os meus dois cigarrinhos mais um dos dele antes do infernal quarteto aparecer no imenso palco, quando todos parecem esquecer-se do cansaço, da fome e da brisa fria de uma noite de Verão à inglesa.

Os amplificadores do Zeppelin produzem um estrondo equivalente ao de uma centena de canhões em Waterloo mas com o máximo de apuro sonoro. Tecnologia de ponta, de grande qualidade e potência, é o sustentáculo de grande parte do prestígio de uma banda hoje em dia. Estampido, potência, peso. Os LZ estão em turnê de lançamento de Led Zeppelin II, em que o que mais sobressai é a impactante (para dizer o mínimo) Whole Lotta Love, que parece um Je T’Aime... Moi Non Plus gravado pela tripulação de um B-52 durante um bombardeio no Vietnam e numa boate de Saigon, mas em que todo o resto é até melhor que o seu primeiro hit single, como se sente aqui, entre outros sons turbilhônicos como os de Good Times, Bad Times ou Living Loving Maid, do seu primeiro LP, lançado há apenas oito meses – como Fleetwood Mac ou Jethro Tull, devem ter entrado pela primeira vez no estúdio já com as obras completas ensaiadas e o sucesso do primeiro permitiu-lhes lançar dois longas-durações em menos de um ano.

Com o calor do bafo da horda pela primeira vez sinto-me à noite ao ar livre de camiseta na Inglaterra. 250 mil pessoas são duas ou três vezes a população de Bath. Um gigantesco exército como este poderia varrê-la do mapa em poucas horas.

Som pesado mas não rígido. Ao contrário, muito maleável. Metade do grupo foi durante um tempo uma asa do Yardbirds, sigla abençoada que gerou parcela considerável do bluesrock. E o que é mais admirável é que, apesar da fama de melhor banda de hard rock do mundo, eles não se prendem a uma fórmula. Vão desde o tronco folk a um dos seus ramos, o country, o folk americano. No conjunto, talvez o som mais bem produzido no momento. Tonitruante mas de grande riqueza tímbrica graças ao inteligente jogo de alternância entre o guitarrista e o vocalista, entre as marteladas da seção rítmica claramente distinguíveis nos contratempos entre si e com o guitarrista, alternando-se nas acentuações com muito vigor e souplesse.

       

Tudo é novidade. A guitarra de dois braços com afinações diferentes de Jimmy Page. A jovialidade, o vigor e a beleza de Page e Robert Plant, a voz às vezes esganiçada mas que nunca extrapola além do que de momento definirei como bom gosto. O balanço ondulante do mais puro rock’n’roll e do blues mais autêntico, bem urbano, muito longe dos campos de algodão, mas como se Londres pudesse ter clima do South Side de Chicago, o que está longe de ter. Led Zeppelin Blues Band - como ingleses tão brancos e sardentos conseguem vestir tão bem a pele de lobo, incorporando o feeling e a manemolência dos negros? Hard? Heavy? Ok. Mas sempre muito cadenciado, sensual. Led Zeppelin é único porque, leve ou pesada, é a banda mais sensual do mundo. Como apenas quatro gatos pingados produzem essa explosão sonora tão rica de timbres e tão cheia de volume? Não é só milagre da eletrônica, embora este contribua em grande escala para a qualidade do conjunto, que se baseia no virtuosismo dos músicos e na potência e maleabilidade da voz do cantor mas também no apuro dos seus engenheiros. O concerto decorre sob o signo do êxtase. Qual é então a melhor banda do mundo?

O impacto da música é tanto que Plant nem precisa de inventar truques de cena, limitando-se a dar de vez em quando umas corridinhas como a fugir de um tiroteio.

O fulgor do som quase faz esquecer o de som e luz do Floyd, que maravilham pelo encantamento mas para mim passa definitivamente a fazer parte de um outro departamento, a anos-luz do vigor e entusiasmo do velho rock’n’roll. Um triunfo no que entra para a história como o maior festival da Inglaterra, depois de Wight.

A cabina do trem em que regressamos à estação de Paddington é um excelente dormitório.

 

Foi-se Bath, dois ou três dias em Wight que fossem tornam-se proibitivos. Roo-me de inveja de centenas de milhar que foram, os jornais com páginas e mais páginas sobre o acontecimento, os sensacionalistas denunciando e se deliciando com tantos exemplos de feeble (decrépitas) e scary (medonhas) cenas, que escarrapacham entre letras garrafais. Regresso de Hendrix? Não. As chamadas dos noticiários de rádio e dos telejornais destacam a derrubada das cercas e invasão do site por uma legião de anarquistas franceses. Estar em Londres ou no Rio este fim de semana é o mesmo. A cidade parece vazia de gente e de razão de ser. A capital do mundo é a ilha bem menor a sul.

Só nos semanários lê-se sobre o festival em si, que se nos afigura como mais uma sucessão de show-offs, como o do set de Hendrix com novo grupo, a Band of Gypsies, com o negro Billy Cox no lugar do baixista Noel Redding e Mitch Mitchell na bateria. Talvez porque não estivesse numa daquelas noites ou – como dizem alguns críticos – pela falta de entrosamento da nova seção rítmica, a atuação do gênio não fica na história. 

 

 

 

 

 

a 150 km de trem em linha reta para oeste através dos campos de Berkshire e Avon

 

Whole Lotta Love

Je T’Aime... Moi Non Plus

B-52 durante um bombardeio no Vietnam e numa boate de Saigon

 

South Side Chicago

 

Led Zeppelin Blues Band

T.Y.A. Blues Band

The Rolling Stones Blues Band

 

 

 

 

...

 

 

 

 

    Como o programa do dia é um show do Ten Years After no Coliseum, em Shaftsbury Avenue, decidimos ir calmamente a pé até Soho para um almoço-ajantarado de revival dos já bons velhos tempos de 1970 no Mandeer.

- Hashish, man? – assobia-nos um meliante ao pormos os pés fora da bilheteria do teatro. Seguimos com o descabelado cabeludo na direção de Tottenham Court Road enquanto Jimi negocia e compra dois cigarros – melhor comprá-los prontos que fazê-los e nem temos papel para enrolar, diz, em resposta à pergunta sobre como pode ter a certeza de que é feito. - Cheirei e cheira bem, senhor marquês. Ou mal, dependendo do ponto de vista... - riposta. Voltamos atrás e caminhamos até a ponte da Southwark, onde acendemos um e nos certificamos de que se trata de um ‘árabe legítimo’. E do bom.

Dez anos exatos de existência do Dez Anos Depois. Estamos para variar de binóculos num terceiro balcão. O primeiro support é um tal Keith Christmas, folk singer que se apresenta por meia hora para um público desatento e em meio ao burburinho do entra-e-sai da grande sala, só chamando a atenção quando se dá a manipular magistralmente o seu violão ao estilo de um guitarrista de rock. Seguem-se os notórios desconhecidos Supertramp, quinteto com formação tradicional de piano/órgão, baixo, bateria e guitarra mais – como elemento-supresa - um saxofonista, que não tende a ficar na história. Alvin Lee é o pistoleiro mais rápido do faroeste do rock, capaz de fazer sua guitarra emitir não sei quantas notas por minuto. É tido como um dos dez melhores guitarristas de rock, mas não é muito claro se isso se deve a dotes estilísticos, à velocidade ou ao extraordinário sucesso de Love Like a Man. O parceiro da empreitada desde o início é o baixista Leo Lyons, que talvez por ser fim de tarde de domingo entra no palco... de chinelos. O baterista é Ric Lee e o pianista/organista Chick Churchill. Diria que a tecla é sempre a mesma, bluesrock, e a abrir parece que vieram aqui em estilo informal para mostrar apenas o seu lado de T.Y.A. Blues Band numa noite de remanso. Ingleses de um cão, tocam blues como os pretos mais retintos. Alvin gosta de duelar consigo mesmo, dedos na guitarra e voz em scat. Do blues, como quem não quer a coisa, ao hard rock e daí ao rock’n’roll, e quando atacam seu maior hit hoje em dia, pela performance celebrizada no documentário de Woodstock, Goin’ Home, o teatro ferve a ponto de parecer que o veludo vai estourar pelas costuras. Iam (?) fechar com essa, mas o pessoal, já suando em bica, o Coliseum – bom velho teatro inglês - nem por sonho dando sinal de derrocada, está a fim é de Love Like a Man, que ainda não tocaram e, após um quarto d’ora de palmas para bis, lá voltam eles para tocar aquela, mas qual o quê, mandam Sweet Little Sixteen, e está cada vez melhor, espera-se aquela para acabar mas apesar dos chinelos de quarto e do adiantado da hora Lyons não quer fazer ninguém dormir, e mandam um meddley com Rock Around the Clock, Good Holly Miss Molly e Roll Over Beethoven. São quase onze horas e o trajeto de volta a Kennington parece não durar cinco minutos. Uau! – dizemos, apoiando-nos no muro da ponte dos Blackfriars enquanto fumamos o outro ‘árabe’ ainda afogueados como à saída do teatro.

 
 

 

 

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Terra da Dama Eletroacústica

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ELOÍSA  OU  A MAIS NOVA HELOÍSA 

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um tema fora de moda

   

 

 

Jack Kerouac termina seu livro de crônicas Lonesome Traveler / Viajante Solitário (1960) com o ensaio O Vagabundo Americano em Vias de Extinção. Aquele vagabundo americano -

 

trechos dos capítulos Era uma vez a revolução e  Droga, Loucura e Vagabundagem  que compõem um romance dentro da crônica histórica romanceada sobre a era posterior a Jack Kerouac em que ainda foi possível vagabundear pelas estradas fora em trips interiores e exteriores antes do fechamento das fronteiras ao turismo existencial ou "sem propósito" ou "a despropósito" - a partir daqui

 

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Enquanto crescíamos havia muita gente que acreditava que ainda iria viver num mundo totalmente diferente. Hoje em dia parece que tudo aquilo sequer existiu.

Quem jamais ousará de novo acreditar na regeneração da humanidade?

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1970-1975          2010-2015

40 anos esta noite

25 de Abril de Cabo a Rabo

relato inédito com dados exclusivos de fatos marcantes que precederam e sucederam a queda da ditadura portuguesa 1928-1974 com a cronologia em insights originais dos antecedentes do maior acontecimento da história portuguesa no último meio século, da madrugada dos filhos da madrugada, do chamado PREC (Período Revolucionário em Curso) e do retorno à "normalidade", a uma outra realidade. Ao mesmo fado?   

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