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da era do rock

& da contracultura

o livro do rock e da contracultura

 

                                    ciberzine & narrativas de james anhanguera 

           

Por dentro e por fora em Londres

Terra da Dama Eletroacústica

Medo, atraso e rock no grotão

Era uma vez a revolução

Droga Loucura e Vagabundagem

- Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

Rumo às ilhas da Utopia  

Era uma vez as revoluções

    so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

                                   narrativas de rock estrada e assuntos ligados

   

Cedo me apercebi de que o remédio era cavalgar o tigre em que montara sem pensar muito no destino, cavalgar só para não ficar parado sobre a fera que a todo instante ameaça me engolir.

...

- Mas vem cá, tá tudo muito careta à nossa volta e os caretas desbundando tanto nas ondas mais vergonhosas que a gente até se retrai.

janela com vista para a contracultura e opara a cultura contra natura

    

                                                          © Gilbert Shelton

                          

          divertissement ilustrado, cronistória romanceada, docudrama

       

                         Trechos BR

 

    Droga Loucura e Vagabundagem 

 

 

                                                    Droga Loucura e vagabundagem

                                       Lisboa, Algarve, Marselha, Paris, Vilar de Mouros, 1974-82

Um suicídio e a psiquiatrização e morte de uma personagem dão o tom de um penoso regresso à ‘normalidade’ após um ano e meio de psicodramas individuais e coletivos num cotidiano totalmente fora de qualquer padrão de rotina.

   Portugal ‘entra nos eixos’ muito metamorfoseado, sem um Ultramar de pesadelos e a braços com um destino inexorável: a Europa e a ‘invasão espanhola’ (Eça de Queirós).

    A estrada. Nomadismo e vagabundagem ontem e hoje.

 

Só a partir dos anos 1990, quando as neurociências progridem de espanto, é que o cérebro começou a deixar de ser a caixa preta de que se montou a indústria da ideia da loucura desde L'Âge classique como a transdisseou michel Foucault. 

canta Frances, ou melhor, Eloith - o destino de Eloísa e Lilith de Edgar Lessa e Robert Rossen, quando os cães de guarda do Sistema no departamento de higiene mental ainda se arvoravam a Deuses e punham e dispunham dos desajustados.

                                                                                                                                 capítulo 5 de

                                                                                                                                

                Por dentro e por fora em Londres

                Terra da Dama Eletroacústica  

                 Medo atraso e rock no grotão  

                 Era uma vez a revolução   

                Droga, Loucura e Vagabundagem

                           3

                          - Da Teoria à Prática ou Vice-Versa

 

                             Rumo às ilhas da Utopia  

                             Era uma vez as revoluções

                                                so listen to the rhythm of the gentle bossa nova

                                   narrativas de rock estrada e assuntos ligados

    

                                              Droga Loucura e Vagabundagem

                    Droga Loucura e Vagabundagem

                                             Trechos  

 

 

       

 

           Uma vez ou outra ela lá se predispõe a sair às compras e “às compras”, num caso ou no outro sempre como que desmotivada, sem vontade de ver ou fazer. Passamos no Calhariz onde nos deparamos com Cleo, uma das amigas da casa do Alto.

          - Olá, Elô, tudo bom? – brinca ela, em paz com a vida.

    Um permanente grande sorriso, os olhos como dois faróis nos médios focados no nada, e nada. Em poucas semanas as centelhas flamejantes apagaram-se e os olhos azuis às vezes acinzentados assumem uma luz entorpecida e fria de néon, com um letreiro a projetando em anúncio acendendo e apagando    L-O-U-C-U-R-A  frente aos interlocutores, que se entreolham com ar de caso. Frieza de gata asceta, pena de pavão, Sidharta, que lê e relê. Assim falou Ed: ou bem que sou eu ou é ela que está fora de si. A sensualidade deserotizou-se, eclipsou-se a chama de atração recíproca Câncer-Aquarius.

          Eu e a amiga trocamos informações de circunstância e nos despedimos, eu a modos que, para variar, embaraçado. Cleo despede-se de Eloísa e ela, nada.

       Retomamos a marcha para a Calçada do Combro.

- Por quê não falaste à Cleo?

- Não tinha nada para lhe dizer...

- Ué. Sei que o mais das vezes é só uma formalidade mas deve-se ao menos dar boa tarde às pessoas.

- Ah, não me enchas. Se não estou a fim de falar com as pessoas não falo e pronto. Que mal há nisso?

- Ouve lá, se fores à padaria comprar pão e não disseres boa tarde, dê-me cinco pãezinhos, vais morrer de fome, é ou não é?

Sinais claros do que, a partir de leituras de Laing e Cooper, de quem estou lendo Grammar of Living, acabadinho de sair do forno, identifico como esquizofrenia. Ou será oligofrenia pura e simples?

Cada vez mais distante e fria nada parece animá-la, nem comer. Quase não fala. Num final de tarde tento uma reaproximação física. Afago-lhe os cabelos, acaricio-lhe os ombros e avanço para os seios propondo-lhe fazer amor. Sentada na cama com Zaratustra, I Ching, Tao Te Ching e Sidharta à frente, esquiva-se uma e outra vez.

- Olha, não adianta tentares. Sexo para mim agora não quer dizer nada. Não tenho a mínima apetência e parece-me até ridículo. Estou noutra. Para que insistires? Tá bom, vem, se queres.

       Põe-se em pé na cama, tira de uma vez a camisa de noite e deita-se, puxando-me para cima dela.

       Possuo-a, como se usava dizer na melhor literatura rockmântica, mas é como se ela se tivesse transformado numa estátua, como Anne de Les Visiteurs du Soir, ou num bloco de gelo no Ártico.

       - Pronto, satisfeito? Agora sai – diz com desprezo, tirando-me de uma vez de dentro de si e já se sentando na cama. – Vês? Não vale a pena. A plenitude que busco está noutra coisa. Sexo para mim não tem a mínima importância. Aliás, é como se não existisse. Como se nunca tivesse feito ou fosse fazer. Não me faz falta. Se quiseres e se fazes tanta questão disso podes procurar outra. Eu não me importo.

       Hesse para que te quero... Budista asceta sem um mínimo de ironia. Sidharta. Zaratustra. Que Nietzsche tivesse morrido doidinho da silva pelo treponema pálido que lhe terá azucrinado o cerebelo, e se tivesse deixado embriagar pela visão do eterno retorno – e quem sou eu para discutir o mito do ‘eterno retorno do instante’ mais o que isso possa querer dizer -, pela vontade da potência, o super-homem, mas pode alguém acreditar nisso tudo tão profundamente quando ele mesmo disse que Deus morreu, porra! Porventura terá ele pretendido criar uma nova doutrina mística?! Posso até alinhar no princípio do imperativo categórico do outro – et pour cause! – e concordar totalmente com suas críticas à moral e à hipocrisia do sentimento de compaixão judaico-cristãs, que também condeno. Ou com suas críticas à democracia burguesa e à cultura e civilização ocidentais. Absurdo é que alguém leve os aforismos tão a sério.

       Por outras palavras. Zen sim mas não trôpego. Sou até demais e quero ser mais ainda, não fundir a cuca nem para dar aquela palha, isto está me cheirando a Friednietzsche e comparsas perigosamente ao pé da letra.

Apiedamento também não quero mas, egoístas ao máximo, nestes momentos tentamos convencer o outro que sem nós não há salvação – e é o que eu faço aqui. E depois, se a coisa para o outro dá pro torto, cobertos de razão, avança-se: eu não disse?!

Sintoma de falta de sabedoria. Será que ela não entende isso? Se entende, não diz.

       Os primeiros acessos do mal... Outros sintomas não são evidentes. Não tem nada a ver pensar em inferno legal-burocrático. Estamos acima. Passaremos longe dele. Estamos além do bem e do mal, numa nebulosa que se cristalizará no seio ou à margem do sistema. Não se pensa sequer em labirinto, huit-clos, beco sem saída à bout de souffle. Ou pensa-se, porque estão lá, na literatura, nos filmes, nas peças de teatro, são parte da vida. Dos outros.

       O trepidar constante (do rock gregário) - e depois nada? À sua volta, uma aura de profundo recolhimento, in-di-vi-dua-li-da-de ao extremo. O brilhozinho dos olhos é que não engana ninguém.

...

 

Nem a falange anarca representa minimamente o bandoleirismo anarco-hippie de Pepe y sus muchachos quando ele vem a Lisboa e telefona desafiando os amigos para a vagabundagem. Quando está na cidade é o que acontece, entre visitas a amigos em Lisboa e redondezas, quase sempre divertidas e instrutivas. Fins de setembro, reúne-se a mim, Dio e Joana e decidimos ir a Cascais para visitar Júlio Andrade, que acaba de se mudar com Maurício e los chilenos para uma casa de dois andares no Alto de Cascais. Ao longo do ano o grupo acampou no Chiado vendendo um produto em tese absurdo: colares e pulseiras feitos de macarrão pintado.

O grupo decide comprar peixe no porto para cozinhar na nova casa. Compramos um polvo bem grande, arroz e condimentos para o refogado. Alho, cebola e pimentão vermelho coram e fritam no azeite, passamos o polvo lavado e cortado no refogado e quando já está quase cosido mandamos-lhe o arroz por cima. Júlio compra pão e vinho. Seis para a janta, com ele e uma amiga. Depois, desculpem lá mas estamos esperando visitas, os quatro nos vemos desolados sem nada para fazer em Cascais e sem querer voltar para Lisboa, porque tínhamos decidido também passar o domingo por lá.

Decidimos procurar Júlio da Maianga, que com o produto das primeiras vendas da poderosa liamba trazida de Angola alojou a mãe num e instalou-se com a namorada em outro apartamento de um prédio enorme de uma nova urbanização da cidadezinha praieira. Venta muito e o imenso corredor do edifício onde tocamos a uma porta parece um túnel de aceleração de partículas atômicas. Ninguém responde. Estamos na baía quando Joana tem uma idéia.

- Que tal nos fazermos passar por iarns e dormirmos num hotel? Amanhã podemos ir à praia e ver se encontramos o Júlio.

Vamos a uns três hotéis de Cascais e chegamos ao lobby do Estoril Sol, sempre com o mesmo papo que não deu certo nas tentativas anteriores, quando em última instância os empregados dizem que estão cheios de iarns.

- Boa noite. Nós somos do IARN, estamos sem os nossos cartões aqui mas precisamos de dormida. Será que os senhores podem nos hospedar?

- Desculpe, mas sem as cartões é impossível.

       Continuamos tentando até chegar a um hotel numa casa tipo Psycho no Monte Estoril. Passamos o portãozinho e seguimos entre o jardim até a porta de entrada, quase no breu. Dentro, escuridão completa. É quase meia-noite. Diogo vai na frente, seguido por mim, Pepe e Joana, que já descrente de termos qualquer sucesso fica na calçada, apoiada ao muro. Dio toca a campainha. Ninguém responde. Toca outra vez e dá no mesmo. Insiste. À quinta ou sexta tentativa finalmente abrem a gelosia da porta e aparece um senhor atrás das grades. Nada a fazer, diz. Dio insiste mas o homem não se apieda e já perdendo a paciência dá a entender que decididamente não está para argumentos, despedindo-se e fechando a portinhola num gesto abrupto, a que Dio reage com fúria.

       - Mas, está a bater-me com a porta na cara?! – e acerta a mão espalmada no vidro, que se despedaça com estardalhaço. Não acredito no que vivo. Olho para trás e vejo Pepe com os olhos esbugalhados. Para a frente, e Dio esbraceja e grita impropérios à janela despedaçada. Volto a olhar para trás e vejo Joan correndo rua abaixo e Pepe olhando de frente para trás e detrás para a frente e dando uma passada decidida rumo ao portãozinho, que ultrapassa correndo e eu atrás dele e atrás de mim Dio até o cassino.

      - Melhor pegar um táxi para Lisboa.

      Pelo caminho a divertida e ao mesmo tempo acabrunhante sensação de ser um delinquente, um irresponsável, um pateta alegre em loucas aventuras tipo Freak Brothers, eu Freewheeling ou Phineas? em pequenos crimes de garotos. Até que, eu sem dar por isso, a cabeça ainda num turbilhão, assoprando a adrenalina, chegamos a Lisboa e alguém diz: o que é aquilo? O casarão da Embaixada de Espanha está em chamas.

Após uma manifestação contra a execução de militantes antifranquistas os anarcas decidiram invadir a embaixada a que puseram fogo e saqueiam peças de mobiliário e obras de arte, causando um prejuízo de milhões. Fat Fred na cabeça: Primeiro a embaixada, depois o país! Me sinto redimido. Isso sim é que é loucura. E pensar que há bem pouco tempo ainda o cantautor José Afonso lançou o verso Praça de Londres a arder e, mais que surreal, a imagem parecia totalmente absurda.

                                                                                                

                                                          © Gilbert Shelton

                                    

 

...

   

Freak Brothers en route, inopinadamente ao Algarve de carona com Dio e Joan. Eu e Pepe nos estendemos muito ganzados na areia preparados para dormir ao relento na praia de Olho d’Água e de olhos abertos sonhamos mirando estrelas de noite de São Lourenço e ouvindo o mar dando e enredando quando entre os sons intrometem-se os da voz altercada de Dio e sopapos vindos de uma tenda próxima, onde o casal pernoitaria.

Não me digno a erguer a cabeça porque à segunda série de sopapos entremeados de gritos de Joan Pepe levanta-se de jato rindo e resmungando.

- Porra, meu, esses gajos vão se matar um ao outro – e lá os vai apartar.

Tempos difíceis estes em que um indivíduo não se preocupa nem com o que vai ou não comer no dia seguinte, porque um dia em que não se come... o céu a fundir-se no mar da mesma cor e todas as cambiantes do vermelho vivo ao rosa a nascente, é mais um dia de vida, estica-se os braços, olha-se para o mar e ele chama por ti com um bater de onda seco e o borbulhar e murmurejar da água, nem uma nuvem no céu, água tépida, ou é o que parece.

No regresso Pepe acaba de enrolar um fininho.

- Que legal!

- Eu já vou lá chegar bem apanhadinho – debocha o outro, esticando o linguão para passar cuspe na seda, que insisto em pedir nas tabacarias pelo termo ‘papel de enrolar cigarros’ – às vezes até a comprar um pacote de Drum também para disfarçar...

- O que um gajo não é obrigado a fazer para garantir carona para Lisboa – escarneia Pepe da cena da noite anterior, boca aberta numa careta açucarada por um riso caminhando para o mar onde mergulha como uma lontra desapressada.

 

...

  

Uma tarde, o choque. Eloísa foi parar na emergência do Júlio de Matos e de lá transferida para a clínica da Idanha. O pessoal de Sintra não aguentou os seus desvarios, o seu modo de estar tão à toa e de passagem sua atitude ninfômana e total dependência dos outros e telefonou aos pais para a pegarem. De volta a casa, um dia, numa discussão, terá passado dos limites na altercação e foi levada ao Júlio onde para acalmá-la puseram-na em sono insulínico. De quadrúpedes, pelas primeiras impressões, porque o seu problema é estar abobalhada, quase inerte. Poderão tê-la transformado em vegetal. Para mim é como se tivesse morrido. Psiquiatrização, uma viagem sem volta? Despeço-me de Eloísa agachado junto ao fogareiro elétrico da cozinha esperando que a água se decida a ferver, as mãos na cabeça, os olhos marejados, a angústia me atabafando como se também a mim me tivessem dado um choque insulínico. Como se estivesse num quarto da ‘clínica’. Vêm-me à mente aqueles filmes de terror barato passados em hospícios no apogeu da Idade Clássica e todas as histórias de loucura que conheci de perto e de que ouvi falar. Do amigo Solemar que aos 15 anos, quando os pais souberam que fumava maconha, foi internado no Hospital Auguste Pinel do Rio e entre mais uma e outra internação acabou por morrer.

Eloísa perdera – se alguma vez tivera – qualquer noção de detachment ou humour. Sem tentar um equilíbrio entre ser e parecer ou perceber a ironia (in)contida em Nietzsche, por exemplo. Ao mesmo tempo em que se arvorava uma altivez de superioridade em relação às coisas simples – as mere things de Huxley - do dia-a-dia, que condenava por reduzirem as pessoas a autômatos, robôs, bonecos ou máquinas que só respondem a estímulos pré-ordenados.

Vai para a casa de um japonês viajante na Várzea de Sintra, uma espécie de sucursal da Casa das Nogueiras com quartinho, saleta e quintal, e abanca até o anfitrião morrer afogado na Praia Grande e voltar à base até ser de novo expelida para enfim ser reenquadrada, algemada, embalsamada em vida com a capa de proteção de ansiolíticos.

Aparentemente não havia nada de tão anormal nela além do distanciamento das pessoas – ao menos daquelas que giravam em sua volta naqueles dias – e das coisas, com a exceção de Assim Falou Zaratustra, do I Ching, das cartas de Tarô ou da doce desventura de Hans Castorp. Tivesse grana e poderia ir para uma pensão, um hotel ou alugar uma casa em Sintra e viver numa boa pelo resto dos dias, como um heroinômano abonado. Doida mas quem sabe feliz. Talvez. Até o dia da overdose... Ninfômana? – quantas não o são e apesar do desvario, ou em função dele, não se administram?

O que a levou lá? – me pergunto angustiado enquanto ponho o saco de chá de jasmim no bule de barro. O que a fez cair na armadilha do manicômio?

E imagino, tentando articular as poucas informações que me foram passadas: uma fúria, o banco do hospital, de madrugada, um shot de insulina.

Como nos filmes em preto e branco de Hollywood. Pior que aquele sobre Freud de John Huston ou Spellbound de Hitchcock.

Conflitos familiares, tormentos d’alma e complicada relação com os outros e com o mundo. Se Jung aqui estivesse diria que há até fortes indícios de permanência do conflito entre o Arquétipo do Animus e o do Pai. Do signo de Câncer tem muita dificuldade de entrar na idade adulta, segundo os especialistas.

Chega Ivan.

- Que coisa absurda. Como é que ela se deixou enredar dessa forma? – comenta, a pretender denunciar uma sua qualquer debilidade – vá – psicológica, porque na sua ótica só um débil mental se deixaria enredar nas malhas da loucura. Talvez tenha razão.

 

...

 

   

Porque o trabalho de campo prossegue. Conhecer uma ‘clínica’ psiquiátrica para libertar uma internada. Leda explicou o que devíamos fazer.

- Poderás fazer-te passar por jornalista em reportagem. A mim já me conhecem pouco mais ou menos. Esperando que Eloísa não esteja de algum modo atordoada arrumamo-la de modo a parecer que tem autorização para dar uma volta e fazemo-la sair pela porta da frente. Há que tomar cuidado com o pessoal, porque aquilo lá não é grande e todo mundo se conhece, tás a ver? O pior será passar pelo portão da guarda, se tiveres de dizer alguma coisa talvez seja bom entrares numa de baratinar o gajo com a história de que estás em reportagem e nós a acompanhar-te. Se não funcionar é que são elas, mas não podemos deixar de tentar. Ela vem aqui para casa, porque minha avó já está acostumada a que aqui passe uns dias, e vemos entretanto se dá para ir para algum lugar onde possa estar em segurança.

Eloísa está quase irreconhecível. Os medicamentos que toma devem ter muito cortisona, porque está toda inchada e com a cara cheia de espinhas. A cada vez que seus olhos se encontram com os meus sorri aparvalhada, com o mesmo ar estúpido com que olha para Leda quando ela lhe dirige a palavra. Só fala quando interrogada.

- Tomaste alguma coisa, algum comprimido?

- Claro! O de sempre, há pouco – e ri.

- Sentes-te bem aqui? – pergunto a contragosto, só para dizer alguma coisa e romper o silêncio sepulcral que faz quando ninguém diz nada, o jardim da vivenda deserto na tarde ensolarada de primeiros dias primaveris.

- Iá – limita-se a dizer, reabrindo a cortina para o sorriso patético.

- Que tal dar um passeio em Lisboa? Depois te trazemos de volta – proponho.

- Tá bom. Vamos já?

Leda pisca o olho na minha direção, só contentamento.

- Sim. Arruma-te só um pouco. Deixa-me ajudar-te.

- Vamos como?

- Paulinho está lá fora. Vamos de carro com ele. Vai ser bom, né? Há quanto tempo estás aqui?

- Nem faço idéia – e ri de novo, arrumando os óculos. – Parece uma vida.

Vou até o criado mudo para um ato trivial de mero passatempo. Earth is Room Enough, livro de contos de Isaac Asimov, em edição de bolso da Panther Books, Areias de Marte, de Arthur C. Clarke, também de bolso, Livros do Brasil, À Beira do Abismo, As férias de Poirot, tudo de bolso.

- Bons, né? – diz Eloísa. – Alguma coisa aí é tua. Nem leio mais, porque passo a maior parte do tempo sob o efeito de drogas que só me dão tontura, mas até que já os li a todos no tempo em que lia um por dia, se me desse vontade.

Fala pausadamente, como se tivesse dificuldade de mexer os músculos da face. Leda acabou de arrumar o seu cabelo com o mesmo carinho com que se ajeita o de uma criança. Endireita o colarinho da sua blusa de malha preta.

- Queres levar alguma coisa?

- A minha bolsa – e pega a velha bolsinha de veludo preto.

   

Não se vê vivalma no corredor mas ouve-se som de passos na escada de madeira. Leda tira a bolsa do ombro de Eloísa e põe na sua sacola presa ao ombro. Passamos por uma enfermeira que olha fixamente para a paciente mas não diz nada. Grande movimento no hall. Até aqui não há perigo. Em várias ocasiões apercebi-me de que Leda é muito nervosa e medrosa, o que expressa plenamente nos passinhos apressados e no rosto tenso. Digo-lhe que se acalme que tudo vai correr bem, mas aperta os lábios e arregala os olhos em sinal de pânico. Passamos a porta antes do jardim maltratado pelo inverno, com algumas roseiras bravas com galhos ressequidos e mato em volta. Seguimos pela aléia até o portão principal, eu dois passos atrás das moças. Ninguém à vista na guarita. Leda parece à beira de um colapso quando me olha para ver se as sigo.

Eloísa pára de repente e agarra-me pelos pulsos.

- Olhem, não vai dar para ir com vocês. Estou a ver que não vai ser fácil sair daqui depois de tanto tempo e ter de lidar com muito movimento. Aqui é tão tranquilo, estou tão bem. Não vai dar para ir hoje, vamos outro dia.

Leda perde o controle:

- Eloísa, que loucura! Que mal poderá fazer-te?! Olha – segura-a pelas mãos e mira-a fixamente nos olhos -, vamos encontrar-nos com o Paulinho que está ali no carro, vamos com ele até minha casa, tás a ver, tranquilamente, vamos para o meu quarto, ficamos lá, fazemos um chá, vamos comprar bolos para fazer um chá, hein? Um chá de luxo! Há quanto tempo não tomamos um chá assim? Anda, vamos!

- Não posso! – e começa a voltar em passo rápido ao casarão, sem dar tempo de alcançá-la. Leda corre atrás dela, que entra e continua andando rumo à escada com a amiga ao lado tentando convencê-la a não voltar para o quarto. Tomo o rumo da saída e me sento no banco traseiro do dois cavalos. Leda chega a dar sinais de que por mais um pouco será ela que precisará  ser internada e gritando: não vou desistir!

    Esta é quase igual ao Lilith de Robert Rossen, com a diferença de que, se ela, Eloísa-Lilith (Jean Seberg) poderia ir embora da clínica e não vai, eu não sou doido como Vincent (Warren Beatty) para embarcar na dela, tão pouco temi perdê-la, e a vertigem da loucura poderá destruí-la mas não a mim - ao menos por enquanto.

 

 

...

     

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E S P E C I AL

Terra da Dama Eletroacústica

 versão integral do capítulo a partir daqui

ELOÍSA  OU  A MAIS NOVA HELOÍSA 

  OU  ELOITH E O DESTINO

trechos dos capítulos Era uma vez a revolução e  Droga, Loucura e Vagabundagem  que compõem um romance dentro da crônica histórica romanceada a partir daqui

 

VAGABUNDAGEM

um tema fora de moda

   

 

 

Jack Kerouac termina seu livro de crônicas Lonesome Traveler / Viajante Solitário (1960) com o ensaio O Vagabundo Americano em Vias de Extinção. Aquele vagabundo americano -

 

trechos dos capítulos Era uma vez a revolução e  Droga, Loucura e Vagabundagem  que compõem um romance dentro da crônica histórica romanceada sobre a era posterior a Jack Kerouac em que ainda foi possível vagabundear pelas estradas fora em trips interiores e exteriores antes do fechamento das fronteiras ao turismo existencial ou "sem propósito" ou "a despropósito" - a partir daqui

 

E S P E C I AL

relato inédito DO 25 de abril

Enquanto crescíamos havia muita gente que acreditava que ainda iria viver num mundo totalmente diferente. Hoje em dia parece que tudo aquilo sequer existiu.

Quem jamais ousará de novo acreditar na regeneração da humanidade?

com dados exclusivos de fatos marcantes que o precederam e sucederam dos palcos da história - cafés, casas de espectáculos, repartições, quarteis, meandros políticos, comunicação social (directo da Rádio Renascença) e submundo

1970-1975          2010-2015

40 anos esta noite

25 de Abril de Cabo a Rabo

relato inédito com dados exclusivos de fatos marcantes que precederam e sucederam a queda da ditadura portuguesa 1928-1974 com a cronologia em insights originais dos antecedentes do maior acontecimento da história portuguesa no último meio século, da madrugada dos filhos da madrugada, do chamado PREC (Período Revolucionário em Curso) e do retorno à "normalidade", a uma outra realidade. Ao mesmo fado?   

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revoluciomnibus.com - ciberzine & narrativas ©james anhanguera 2008-2017 créditos autorais: Era Uma Vez a Revolução, fotos de James Anhanguera; bairro La Victoria, Santiago do Chile, 1993 ... A triste e bela saga dos brasilianos, Falcão/Barilla: FotoReporters 81(Guerin Sportivo, Bolonha, 1982); Zico: Guerin Sportivo, Bolonha, 1982; Falcão Zico, Sócrates, Cerezo, Júnior e seleção brasileira de 1982: Guerin Sportivo, Bolonha, 1982; Falcão e Edinho: Briguglio, Guerin Sportivo, Bolonha, 1982; Falcão e Antognoni: FotoReporters 81, Guerin Sportivo, Bolonha, 1981. E-mAIL

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Carolina Pires da Silva e James Anhanguera

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