VIM PARA MATAR OU MORRER - FORAM SUAS FAMOSAS ÚLTIMAS PALAVRAS

      GUIA A LEITURAS DE OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA E DOS SERTÕES DO NORTE HOJE ONLINE E ON THE ROAD       

O ESSENCIAL DO QUE SE DIZ E ESCREVE SOBRE EUCLIDES DA CUNHA E 

         Os Sertões

                                      

                                                                                                            NOTAS À 3ª EDIÇÃO

                                                                                            27-4-1903

[467]         

este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque [aos] singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiquezas

[468]        

                Neste salto mortal de 466 páginas

[469]        

E compreendo que Antônio Conselheiro repontasse como uma "integração de caracteres diferenciais, vagos e indefinidos, mal percebidos quando dispersos pela multidão" - e não como simples caso patológico, porque a sua figura de pequeno grande homem se explica precisamente pela circunstância rara de sintetizar, de uma maneira empolgante e sugestiva, todos os erros, todas as crendices e superstições, que são o lastro do nosso temperamento. 

   

      Sem a intervenção da arte é impossível transmitir aos pósteros a sensação exata do que se passou. Só a arte sabe perpetuar o que foi a vida. Canudos teve a sorte de topar em seu caminho um estilo a serviço de uma consciência. Não fora isso, e o drama lá estaria até hoje reduzido à mentiralha de encomenda dum relatório tendencioso, apologético para o vencedor, capaz de meter na história, como heróis, gente que Euclides atou ao pelourinho.                                                                                     Monteiro Lobato

 

Canudos estava destinado a ser enterrado em cova rasa na vala comum da história não fosse (...) Euclides da Cunha [e] Os Sertões, talvez o maior clássico da literatura brasileira.

 

com citações do texto original da terceira edição de acordo com as revisões feitas pelo próprio Euclides da Cunha num exemplar que está na Academia Brasileira de Letras   

OS SERTÕES, 3ª EDIÇÃO: RIO DE JANEIRO, LAEMMERT, 1905

 

                                                                                            

 

                 Os Sertões               Euclides da Cunha & Os Sertões

                   O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

 Canudos Hoje: Tendão dos Milagres X O Amuleto de Ogum   

 

 

                                                  

       uma série revoluciomnibus.com que inclui também

  TRISTERESINA  

      BANGUE-BANGUE

      NA  TERRA DO SOL

 

           

           duna 

   do pôr do sol

Coriscos & Dadás Lampiões &  Marias Bonitas

  Até calango pede sombra  

 

GLAUBER ROCHA OU A POÉTICA DA LUZ DO SERTÃO NO CINEMA NOVO BRASILEIRO  

 

A INDÚSTRIA 

DA SECA

 

No Pátio dos Milagres do Padim Ciço

O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

INDISSECA

índice remissivo

     Euclides da Cunha

            VIM PARA MATAR OU MORRER - FORAM SUAS FAMOSAS ÚLTIMAS PALAVRAS

Euclides, homem angustiado e trágico Inquieto e torturado

segundo Miguel Reale em A Face Oculta de Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, Topbooks, 1993

EUCLIDES DA CUNHA: oficial do Exército, engenheiro, jornalista, professor de Lógica, chefe da Comissão Mista Brasil-Peru para a demarcação das fronteiras entre [os] dois países, no Acre. (...) foi acima de tudo escritor e cientista social, além de sociólogo, historiador, geógrafo, etnógrafo, antropólogo, pensador político e nacionalista exaltado. 

EM CANUDOS (...) numa pesquisa inédita, com métodos pioneiros em Ciências Sociais (...) fez levantamentos geológicos, climatológicos, físico-geográficos e humanos, botânicos, zoológicos, físico-antropológicos (raciais), [com] observações sobre língua, costumes, tradições, religião, folclore, sistema de trabalho, (...) toda a vida social da gente cabocla da região do vale do São Francisco (...)

 

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha

Nasceu em 1866 em Cantagalo, Província do Rio de Janeiro, e em 1886 ingressou na Escola Militar, em que foi cadete até 1888.

Aos 22 anos protagoniza o famoso episódio do sabre na Escola Militar do Rio de Janeiro

Furioso por ver-se sempre preterido nas promoções, num ato de rebeldia tentou quebrar seu sabre e depois o jogou diante do ministro da Guerra do Império durante uma cerimônia, o que provocou sua expulsão.

Reintegrado após a proclamação da República continua reclamando da farda pesada do Colégio Militar, onde se gradua engenheiro aos 26 anos, em 1892.

Dedica-se aos estudos de biologia, filosofia, mineralogia, geografia, geologia e diversas outras matérias.

Aos 31 anos estava em Canudos no último mês da campanha, acompanhando um batalhão de reforço que viera de São Paulo. Presenciou apenas três semanas de cerco e sua última matéria data de 1º de outubro, quando, adoentado, abandonou o campo de batalha sem assistir o massacre final. 

Antes da excursão e em meio aos 11 outros jornais presentes na primeira cobertura ao vivo de uma guerra no Brasil. num primeiro momento o escritor não soube entender a complexidade de um movimento religioso que ocorria numa região de enormes contrastes e conflitos sociais.

Trabalhando como engenheiro em função pública, residiu em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, por cerca de três anos, de 1898 a 1901, para reconstruir a ponte metálica sobre o rio, que caíra com uma enchente. Escrevia sobre a "charqueada" de Canudos, como também chamou a campanha, em uma pequena barraca de folhas, à sombra de uma paineira, à beira do rio, de onde fiscalizava as obras.

Custeando a impressão com seu dinheiro, editou o que pretendeu chamar "livro vingador" em 1902, lançando 2 mil exemplares rapidamente esgotados. O sucesso levou-o para a Academia Brasileira de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico e em 1905, quando trabalhava como cartógrafo do Itamaraty, para a chefia da comissão de reconhecimento de fronteiras na Amazônia, convidado pelo amigo barão do Rio Branco. Da viagem nasceram os livros Peru X Bolívia e À Margem da História.

Em julho de 1909 entrou como professor de Lógica para o Colégio Nacional Dom Pedro II. Aprovado em segundo lugar no concurso, amargou a humilhação de necessitar do favorecimento de sua amizade com o barão do Rio Branco para obter o posto. Conquistara enfim a estabilidade profissional de que abrira mão ao deixar a carreira militar em 1895, desiludido com o Exército e a República.

No dia 15 de agosto, armado, foi tirar satisfações com o amante de sua mulher, Ana, o aspirante do Exército Dilermando de Assis. Chegou gritando: "Vim para matar ou morrer". Atirou três vezes no jovem e acertou o irmão do militar pelas costas. Dilermando, bom atirador, alvejou o escritor mortalmente. Absolvido anos mais tarde, já casado com Ana, Assis matou também em legítima defesa o filho do autor de Os Sertões, que tentava vingar a morte do pai, num lance de verdadeira "tragédia grega", como o definiu Monteiro Lobato.

 

67 – Euclides, no fundo, identificava-se com Antônio Conselheiro ambos maridos enganados – um morre no sertão o outro com um tiro quando tenta pela terceira vez matar o amante da mulher

 

 
        

               A chave de Os Sertões reside no conceito de isolamento ou insulamento.

[189] O governo estadual, porém, (...) levantando o espantalho de uma ameaça à soberania do Estado (...)

(...) ninguém se iludia ante a situação sertaneja. Acima do desequilibrado que a dirigia estava toda uma sociedade de retardatários. O ambiente moral dos sertões favorecia o contágio (...)

     

     E a estrada ciclópica de muros laterais, de alvenaria, a desabarem em certos trechos, cheia de degraus fendidos, tortuosa, lembra uma enorme escadaria em ruínas. (...)

[196] - como um parêntesis naquele sertão aspérrimo -  

     Quando as praças das expedições contra Canudos depois que 

         Paravam nos passos, (...) olhavam o panorama [do] "alto da Santa Cruz", (...) quedavam-se de pasmo:

Ali estava - defronte - o sertão...

 

     Salta-se do trem, transpõe-se poucas centenas de metros entre casas deprimidas e topa-se, para logo, à fímbria da praça - o sertão...

     Está-se num ponto de tangência de duas sociedades, de todo alheias uma da outra.

o espantalho de uma ameaça à soberania do Estado

ninguém se iludia ante a situação sertaneja. Acima do desequilibrado que a dirigia estava toda uma sociedade de retardatários. O ambiente moral dos sertões favorecia o contágio

         Ali estava - defronte - o sertão...

e topa-se, para logo, à fímbria da praça - o sertão...

     Está-se num ponto de tangência de duas sociedades, de todo alheias uma da outra.

                A chave de Os Sertões reside no conceito de isolamento ou insulamento.

 

                                  NOTA PRELIMINAR

[5]     Intentamos esboçar (...) os traços atuais mais expressivos das subraças sertanejas do Brasil. E fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexos, de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tornam talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização (...)

      O jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo e o caipira simplório serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes ou extintas.

     Campanha de Canudos (...) um primeiro assalto em luta talvez longa (...) [na luta dessa] implacável "força motriz da História" que Gumplowicz, maior do que Hobbes, (...) lobrigou (...) no inevitável esmagamento das raças fracas pelas fortes.

     Campanha lembra um refluxo para o passado (...) e foi, na significação integral da palavra, um crime.

                                                                                              São Paulo, 1901

 

   Talvez a maior entre as muitas polêmicas em torno às teses defendidas e conjeturas feitas por Euclides da Cunha em Os Sertões reside nos trechos da NOTA PRELIMINAR que assinou de São Paulo, 1901 e manteve até o fim da vida.

(...) Se uns poucos aludem à existência de "racismo" na linguagem euclidiana (...) certo é que [ele] recusou o arianismo ou as teses (...) sobre superioridade absoluta da "raça branca".

(...) conceitos [como] raça, etnia, cultura, povo, nação, nacionalidade e grupo racial (...) não estavam bem definidos [à época em que livro foi escrito] (...)

Os ataques dirigidos ao livro polemizam trechos [que] apontam uma suposta antropologia racista

(...) A mestiçagem extremada é um retrocesso. 

(...) em Um Parênteses Irritante refere-se a teorias da época em que os mestiços são comparados aos "histéricos" e o mestiço

(...) é, quase sempre, um desequilibrado.

[Ao referir-se], na mesma página, a "raças superiores" e "raças inferiores" [sintetiza] linhas dominantes das ciências do homem (...) daquele tempo [pelas quais] o sertanejo, ou seja, o mestiço, representaria uma "raça fraca", [acaba] demonstrando suas falhas [porque] o conceito que mais se [lhe] adaptaria seria exatamente o de uma "raça forte"

(...) No sertão, ao contrário do que seria de esperar, consoante as teorias importadas, a integridade do mestiço desponta inteiriça e robusta, imune às estranhas mesclas, capaz de evolver, diferenciando-se, acomodando-se a novos e mais altos destinos, porque é sólida base física do desenvolvimento moral ulterior. 

Wilson Martins [in História da Inteligência Brasileira, v. 5, São Paulo, Cultrix, 1978] [defende que ao contrário do que se diz ele afirmava que os "inferiores" eram apenas atrasados e os "incapazes", ignorantes]

É certo que [Euclides da Cunha} encarou a evolução social do sertanejo à luz da hipótese da luta de raças teorizada pelo sociólogo polaco Luís Gumplowicz [mas há que considerar] que o sociólogo brasileiro, não possuindo formação especializada em Antropologia, adapta (...) os dados dessa ciência aos postulados teóricos da Sociologia da época [e] as bases da Antropologia Física (...) ainda se assentavam em dados empíricos de valor escasso.

(...) utilizando uma terminologia da época, como por exemplo a palavra "raça" que tem um conceito muito amplo, segundo Rui Facó em A Evolução do Pensamento de Euclides da Cunha. Estudos Sociais, 6. Rio de Janeiro, maio/setembro de 1959:

(...) um conceito bastante elástico o de raça de Euclides da Cunha. Raça, aí, é uma comunidade de mestiços - mulatos, mamelucos, cafusos - além de brancos e negros mais ou menos puros, todos perfeitamente adaptados ao meio, reagindo da mesma forma ante os mesmos fenômenos, trabalhando juntos, sem que as diferenças de cor afetem de modo algum a sua convivência.

[79]                                                     O VAQUEIRO

inteiramente divorciados do resto do Brasil e do mundo (...) aquela rude sociedade, incompreendida e olvidada, era o cerne vigoroso da nossa nacionalidade (...) 

EUCLIDES E A TEORIA DA LUTA DE RAÇAS DE GUMPLOWICZ

No capítulo Uma Raça Forte, [está em pags. 128-129]

É que, neste caso, a raça forte não destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização.

(...) o isolamento em que viviam os vaqueiros mestiços (...) resultando no conflito de Canudos. Convém sublinhar que ao referir-se à "sub-raça" sertaneja, Euclides não tem em mente uma desvalorização do homem, nem usa o termo como sinônimo de inferior. (...)

Num artigo intitulado Ideal Americano, mais tarde incluído em Contrastes e Confrontos, em relação à política do big-stick de Theodore Roosevelt, (...) chama o presidente norte-americano de "discípulo de Hobbes e Gumplowicz", um "fanático da força".

(...) serras e montes em oposição ao mar, ao Atlântico, ao litoral, com sua "civilização de empréstimo" e "mestiços neurastênicos", divergentes dos habitantes da região do rio São Francisco, "a raça forte e antiga" do interior semi-árido, em torno do Vaza-Barris.

              A SOCIOLOGIA D'OS SERTÕES Adelino Brandão Artium Rio de Janeiro 1996

 

O Estado de São Paulo 16 de maio de 1992 

EUCLIDES VIA CANUDOS EM PRETO E BRANCO   Roberto Ventura

sobre Vale of Tears, Robert M. Levine

A selvageria não foi só da parte dos jagunços, mas também do Exército.

Não se tratava de uma luta de caboclos, de pessoas mestiças de raças inferiores

 

The Economist in Gazeta Mercantil 7 de março de 1997 

Atualidade de Euclides da Cunha

Apesar de ele próprio ser um "mestiço", de início encarou a rebelião de Canudos como uma obra atávica de raças "inferiores"o Brasil, de mestiços e negros, uma abordagem que faz com que o leitor moderno se sinta constrangido.

Embora reconhecendo as falhas do livro, seus defensores alegam que Os Sertões está triunfalmente acima delas. Pois, no decorrer do livro, Euclides da Cunha muda de posição. Com base na força de sua própria observação, começa a ver naqueles sertanejos obstinadamente corajosos "o verdadeiro cerne da nossa nacionalidade, o alicerce da nossa raça", e no coronel Moreira César e nos da sua espécie o dogmatismo cruel de verdadeiro fanático. Deixando de lado sua pomposa prosa latina para se tornar mais conciso e direto, ele se lança numa narrativa absorvente da campanha de Canudos (...) "Transforma-se numa grande exaltação do sertanejo e numa violenta crítica do jacobinismo militar que se transformou numa cruzada de extermínio", diz Roberto Ventura, professor de literatura da Universidade de São Paulo.

 

Folha de São Paulo 5 de março de 1993  

Gumplowicz foi influência nefasta sobre o autor Diogo Mainardi 

AO BÁSICO, EM RELAÇÃO AO TEMA 

Sempre achei que a revolta de Canudos era uma grande história, mas que em certa medida Euclides da Cunha havia-a desperdiçado. Parecia-me que, ao concentrar a sua análise em fatores étnicos, ele perdera a possibilidade de construir um verdadeiro épico sobre o conflito entre forças racionais e irracionais, tema muito mais interessante que o mero choque entre duas raças ou subraças no norte da Bahia. Lendo Gumplowicz concluí que a culpa é do próprio Gumplowicz. O modo com que Euclides da Cunha trata a figura de Antônio Conselheiro é um bom exemplo dessa influência nefasta. Depois de aborrecer e afugentar seus leitores nas cem páginas iniciais com tratados pseudocientíficos de geologia, climatologia, botânica e etnologia, ele reserva menos de oito páginas para descrever os 30 anos de andanças sertanejas de Antonio Conselheiro que, vivendo de esmolas em meio a jejuns penitenciais e profecias apocalípticas, acabou por reunir milhares de fanáticos miseráveis numa cidade de barro no meio da caatinga. O motivo de tanta brevidade é a teoria de Gumplowicz segundo a qual "o indivíduo não passa de um meio para obter fins externos a si no campo da sociedade". A mesma ideia é repetida com insistência por Euclides da Cunha com o intuito de anular o papel individual de Antônio Conselheiro no episódio de Canudos. O evangelizador surgiu, monstruoso, mas autômato. Aquele dominador foi um títere. Agiu passivo, como uma sombra. Mas esta condensava o obscurantismo de três raças.

As circunstâncias que determinaram as peregrinações de Antônio Conselheiro merecem um tratamento particularmente resumido. De acordo com Euclides da Cunha a mulher do apóstolo teria fugido com um policial, e fulminado pela vergonha (...) A partir daí, quando funda a sua cidade devota extingue os casamentos, instaurando um regime de amor livre entre os fiéis, e nunca mais olha para uma mulher, falando de costas mesmo às beatas mais velhas. Esse episódio de infidelidade conjugal ganha um relevo inesperado quando Euclides da Cunha foi assassinado pelo amante da mulher, um cadete adolescente obrigado a se defender do violento ataque de ciúmes do marido traído. Por mais que se espere um sinal de simpatia de Euclides da Cunha por Antônio Conselheiro - uma mínima tentativa de traçar um paralelo humano entre ambos - este não ocorre, pois o autor se mantém irredutível, confortavelmente distanciado pelas diferenças de raça e cultura. De fato, demonstrando total falta de senso de medida, ele chega a explicar que ao invés de massacrar os jagunços de Antônio Conselheiro, a civilização deveria ter explorado Canudos com a mesma curiosidade de arqueólogo ao deparar as palafitas de uma aldeia lacustre, junto a uma cidade industrial da Suíça.

Por causa desse insistente cientificismo suíço, o livro de Euclides da Cunha se tornou um tanto obsoleto, uma peculiaridade entre os clássicos da literatura, que têm como característica o poder de se conservar atuais, contestando as ideologias e os preconceitos do seu tempo. Nem ao menos ao repudiar o chamado de berço judaico do cristianismo milagreiro e supersticioso ele consegue superar todos os seus condicionamentos. Apesar de reconhecer corretamente que as célebres profecias de Antônio Conselheiro (o certão vai virar praia e a praia vai virar certão) são fruto do mesmo patetismo sobrenatural que deu origem ao Apocalipse de São João, inclusive nos erros gramaticais, ele não consegue se desvencilhar da Igreja e acaba defendendo a religião dos sofistas canonizados dos concílios, ou seja, a religião que deixou de ser religião. No entanto um livro vale por uma frase e no caso de Os Sertões trata-se da frase final, quando, depois que os cientistas identificam as linhas craniométricas do crime e da loucura na cabeça de Antônio Conselheiro, Euclides da Cunha lamenta que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e crimes das nacionalidades.

Folha de São Paulo 10 de outubro de 1993 

A face nem tão oculta de Euclides da Cunha Roberto Ventura

sobre A Face Oculta de Euclides da Cunha, Miguel Reale, Rio de Janeiro, Topbooks

não seguiu as doutrinas filosóficas de forma incondicional. Foi adepto do positivismo do francês Auguste Comte, que defendia a superação da religião pela ciência. Aderiu ao evolucionismo do inglês Herbert Spencer, que trazia a certeza do aprimoramento da sociedade. Explorou sempre os limites de tais teorias

as doutrinas que Euclides seguia, como a do sociólogo austríaco Gumplowicz (1838-1909) sobre o triunfo inevitável da raça branca sobre as demais. Euclides mostrou, em seu relato do conflito de Canudos, a debilidade de tal fantasia teórica frente ao homem e à cultura do sertão. Reconheceu no sertanejo o verdadeiro brasileiro, resultado de uma mistura étnica condenada pela ciência de seu tempo. Mostrou assim a face oculta de um país que as elites se recusavam a aceitar.

 

Euclides desmedido apego à frenologia:

Ali estavam, no relevo de convulsões expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura.

Canudos: Cesare Lombroso (1835-1909), psiquiatra e criminalista, em 1876 publicou estudo mostrando que criminoso pode ser identificado por determinadas características físicas, como o tamanho do cérebro. 

Euclides da Cunha sobre Antônio Conselheiro:

Jamais deslizou para a demência, havia um encadeamento nunca destruído nas mais exageradas concepções, ordem no próprio desvario, coerência indestrutível nos atos e disciplina rara nas paixões, de sorte que ele tinha na palavra e no gesto a tranquilidade, a altitude e a resignação soberana de um apóstolo antigo

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prógonos e epígonos

Cabral descobriu o Brasil; Cunha os dois Brasis.

Estaríamos falando da guerra - ou massacre - de Canudos não fosse Os Sertões de Euclides da Cunha? Teria havido Deus e o Diabo na Terra do Sol sem Os Sertões de Euclides da Cunha?

Haveria uma ideia de sertões sem Euclides da Cunha?

Haveria uma ideia de dois Brasis sem Euclides da Cunha?

O filme A Guerra de Canudos está em Os Sertões. Faltando só filmá-lo.

grandes sertões: cidades, periferias

que se não fossem invadidas pelos retirantes continuariam vivendo de costas para o seu interior e de banda para as praias de suas esplêndidas costas, já muito escafedidas a bem da verdade

CANUDOS, VIETNÂ AQUI E AGORA

messianismo e Lula em ascensão de Garanhuns ao ABC da Greve e ao Palácio do Planalto, em Brasília: Tristeresina 

  K*R*I*E*G**I*M**S*E*R*T*Ã*O 

                                   Frankfurt Am Main, Surkamp Verlag, 1994

         Rebellion in the backlands

                           Hautes Terres

   OS SERTÕES, 3ª EDIÇÃO: RIO DE JANEIRO, LAEMMERT, 1905

               prógonos e epígonos

             ATUALIDADE DE EUCLIDES DA CUNHA

     

Já havia exagero há 100 anos e haverá ainda mais hoje em considerar o sertão um mundo à parte do resto do Brasil.

                       veja 3 de setembro de 1997- Roberto Pompeu de Toledo

Quanto a mais de 100 anos deixemos o testemunho a Euclides da Cunha, que sentiu as distâncias na pele. Quanto a hoje, é exagero mesmo.

Hoje o sertão - o sertão a que Euclides chamava sertões do norte - está lá, aqui, em quase todo lugar no Brasil, que se transformou no último meio século num 

                               grande sertão:favelas

Que no Rio de Janeiro lá começa a ser ocupado pelas forças da lei e da ordem e lá vai sendo urbanizado - vielas ocupadas clandestinamente sendo asfaltadas, uma puxadinha aqui, um embolsamento ali, e incorporando-se ao urbanismo do 

      teratardo medievalismo arquitetônico  

que o Brasil não tivera por meio milênio.

                                           "PÁGINA NÃO VIRADA"

 

Bíblia da nacionalidade – Joaquim Nabuco

o maior épico brasileiro       estilo sinuoso e sonoro          texto vibrante e contundente

túrgido de adjetivos e apostos; outros veem nessa sintaxe gongórica uma invenção mimética

     

A Província de São Paulo 22 de setembro de 1897 - chegada de Euclides da Cunha a Canudos

     Tanquinho: Esse logar maldicto 

     John Updike: parece escrito por um engenheiro alemão

Euclides da Cunha: Não existem sinônimos: cada palavra tem o seu exato significado. Quem não entender que vá ao dicionário.

  K*R*I*E*G**I*M**S*E*R*T*Ã*O 

O Barão de Rio Branco e o estilo cipoal: "Esse moço escreve com cipó." 

O abuso de superlativos e as antíteses continuadas correspondem a uma exigência de temperamento.

jogo antitético, oxímoros, paralogicismos - selva de estilo pomposo e oratório, vocábulos enormes, proparoxítonos abundantes

texto vibrante e contundente  e que até hoje não foi completamente entendido

"temo que o meu estilo, algo bárbaro..."

um arsenal de recursos sintáticos e semânticos que a língua portuguesa não via desde os sermões de Vieira

Robert Lowell comparou-o a Guerra e Paz

na época e dadas as circunstâncias especialíssimas, como ele gostava de adjetivar, Euclides da Cunha era enviado ou correspondente de guerra IN BED ED

noção de linearidade do progresso (criticada à distância de um século por Walnice Nogueira Galvão)

e já agora no conceito de evolução da História de Marx e Engels pois que segundo

(...) Pinto Ferreira (...) num ensaio publicado na (...) Revista Brasiliense:  

O primeiro grande escritor marxista do país é Euclides da Cunha (...), retratou com mestria, como marxista que era, o desnível das classes nos sertões e a guerra campesina de Canudos.

[Euclides da Cunha perfilhou  o] socialismo científico de Marx, contra o idealismo utópico de Proudhon e do anarco-sindicalismo

embora se objete que ele

não seguiu as doutrinas filosóficas de forma incondicional.

       Explorou sempre os limites de tais teorias

Força Indômita - True Grit

aqui só esperteza? e bandeirantismo?

lá, até o litoral é outro.

Anhanguera e Daniel Boone, tem diferença ou é igual ao mesmo?

Brasil 1900-1960 só quase litoral. E a Amazônia. E os Andes

Edwiges vira Edvirgens

uricuri, aricuri, ouricuri ou licuri - fruto de palmeira típica do Nordeste

1938: Cumbe, no sertão de Canudos, é chamada Euclides da Cunha

1989: um dentista para 200 mil bocas de seis cidades do sertão de Canudos

      SOBRE EUCLIDES E SOBRE OS SERTÕES

Canudos estava destinado a ser enterrado em cova rasa na vala comum da história não fosse (...) Euclides da Cunha [e] Os Sertões, talvez o maior clássico da literatura brasileira.

Com o talento dos prosadores iluminados, ele redigiu um texto fulgurante, repleto de som e fúria, que tornou aquela luta uma aventura literária comparável às sagas de Homero.

 

Se não fosse Os Sertões - IstoÉ 23 de junho de 1993

o episódio de Canudos provocou 100 anos de desconforto. A história oficial procurou ocultá-lo e, se não fosse o monumento literário que é Os Sertões, se saberia muito menos da guerra do que se sabe hoje. 

Euclides escalpeliza (ops!) - tudo isso em cada detalhe perspectiva e pormenor. Para sublinhar o caráter do sertanejo, bois vivos não se sabe como, numerologia 

de Os Sertões

(107) bois mortos há dias e intactos, que os próprios urubus rejeitam, porque não rompem a bicadas as suas peles esturradas; bois jururus, em roda da clareira de chão enterroado onde foi a aguada predileta;

Toda e qualquer aventura nos sertões do norte (Nordeste) começa - e acaba? - em Os Sertões de Euclides da Cunha 

prógonos e epígonos / José de Alencar: O Guarani, Iracema, As Minas de Prata

prodigioso poder romântico seminal da imaginação em um irrealismo fantástico

genealogia da que, a partir de Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, passaria a ser uma das imagens de marca do Brasil no mundo

Euclides da Cunha "é a máxima encarnação do intelectual brasileiro. Sua obsessão com o estado do país, o desgaste de sua força intelectual em tarefas a ela impróprias, sobretudo seu empenho em pensar os rumos do país quintessenciam a direção assumida desde nossos primeiros românticos até, digamos, Glauber Rocha"

                                                                        Luiz Costa Lima

- a violência da miséria e a miséria da violência

e do fanatismo místico (nordeste do Brasil) ou misticismo fantástico

como no futebol o fanatismo religioso que gera violência

POLÍGRAFO

Brasil - já agora - republicano ou este foi a ele? Canudos foi um acaso? Não era um acaso. Todo mundo meteu a colher. Antes da humilhação Moreira César já era caso de comoção nacional. Machado de Assis escreveu a 31 de janeiro de 1897 ‘contra a perseguição à gente de Antônio Conselheiro’, indagando da natureza do ‘vínculo moral e fortíssimo’ que a prendiam ao líder  

Prógonos e epígonos. São José do Rio Preto em 1900 era ainda quase uma selva, poderia entrevê-la lá de sua cabana de folhagem a imitar as dos matutos incorporados no exército que combateu os valentões de Pajeú. Por algumas quarenta, cinquenta léguas não estava em território de Peri em luta com as forças indevassáveis da natureza selvagem, que pesquisava.  Era muito sensível esse Euclides trágico (tragicômico quase se diria) ouvindo o pio da cotovia e o rujir do jaguar, som da correnteza, chuva diluviana. Só Peri e Ceci sobrevivem ao dilúvio.

De tanto mergulhar nos dois Brasis, que maravilha, da realidade faz ficção fundadora, nativa. Um romance arrebatador quase entre os dois Brasis: a cidade e os sertões. A cidade e as serras. Foi então queirosiano mas não teve que fabular em torno de uma fictícia ilustre casa de Ramires. Teve a Guerra de Canudos. E fez da realidade brasileira, histórica e contemporânea, um romance (quase) épico. Escreveu sobre quase tudo e seu romance é um testemunho a que já então e desde então se vai juntando uma ou outra achega. 

Prógonos e epígonos. Machado, ele e depois

seus sucessores, ensaistas, poetas e romancistas.

Ele abriu as porteiras - e as fronteiras - para toda a espécie de especulação, conjetura - Grande Sertão:Veredas - foi o primeiro a falar delas. Nonada. Do nada. 

Até agora foi o primeiro e único a produzir O épico. 

E cada um junta sua acha, o seu acho.

O prisma pode sertão, ser tão simplista e justo

como o de Graciliano

Ou o coronel Honório. Vidas Secas. Raízes do Brasil. Casa Grande e Senzala. Grande Sertão:Veredas. Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Glauber Rocha começa a filmar Os Sertões, o que faz de melhor. Lógico positivista, é como se fosse obrigado a discorrer de maneira e forma mais precisa e objetiva: geologia, zoologia, botânica - antropologia, sociologia, folclore

Agora isso acabou. A cultura do lugar hoje é tudo quinquilharia, pirataria. A feira já não tem mais o folheto de cordel, tem CD pirata, breganejo e muita bandacalipso, forró eletrônico, coronelismo eletrônico, eu gosto mesmo é de comer com coentro.

Por paronomásia, nos antípodas, suas referências são o Saara - - e os beduínos e tal - e o hachich nacional

paronomásia - S.F. 1. Semelhança entre palavras de línguas diferentes, que indica origem comum. Ret. Emprego de palavras semelhantes no som, porém diversas na significação; agnominação.

 

matuto. Adj. 1. Que vive no mato, na roça. 2. Pertencente ou relativo ao, ou próprio do mato, da roça; caipira. 3. Bras., N. e N.E. Acanhado, tímido, desconfiado. 4. Dado a matutar, cismático, cogitabundo. 5. Fam. Finório, sabido, matreiro. * 6. Bras. V. caipira (1) 7. Bras. Sujeito ignorante e ingênuo.

Do mato, da roça. 

Acanhado, tímido, desconfiado, dado a matutar, cismático, cogitabundo - meditabundo. 

Finório, sabido, matreiro \  ignorante e ingênuo.

Poucos termos são tão euclidianos enquanto de significados afinal tão desconexos ou paradoxais. Oxímoro por si mesmo, substantivo próprio e antonomástico.

semenântica - só se for...

 

Os Sertões

A mais engraçada definição de Os Sertões, de Euclides da Cunha, é a de John Updike, que o leu numa tradução reputada de magistral de Samuel Putnam: parece escrito por um engenheiro alemão. 

Cabral descobriu o Brasil; Euclides da Cunha os dois Brasis. E talvez tenha sido só uma de suas descobertas brasileiras.

Num exercício de esteta, duelou por cinco anos com quase dez milhões de palavras para [anunciar] ao país a existência de Os Sertões, separados do litoral por séculos de civilização. Bom; ele lá a chamou de "nossa civilização de empréstimo".

Stefan Zweig - Brasil, País do Futuro:

Só na segunda metade do século XIX foi que o Brasil apareceu com duas figuras verdadeiramente representativas, Machado de Assis e Euclides da Cunha, na literatura universal. (...) 

Ao contrário de Machado de Assis, Euclides da Cunha não foi escritor profissional. (...) O relato dessa expedição, feito com vigor estupendo e dramático, ampliou-se (...) para constituir uma copiosa descrição psicológica de parte da nação brasileira, do povo e do país, que depois nunca mais foi conseguida com semelhante profundeza de visão e perspicácia sociológica. Essa grandiosa obra, que na literatura universal é com Seven Pillars of Wisdom, na qual Lawrence descreve a luta no deserto, que mais se pode comparar (...) Se a literatura brasileira, em seus romancistas e poetas, realizou enormes progressos em sutileza e em matizes de linguagem, não atingiu com nenhuma outra obra esse proeminente fastígio.

o poeta Robert Lowell comparou-o a Guerra e Paz

      : "Sem a intervenção da arte é impossível transmitir aos pósteros a sensação exata do que se passou. Só a arte sabe perpetuar o que foi a vida. Canudos teve a sorte de topar em seu caminho um estilo a serviço de uma consciência. Não fora isso, e o drama lá estaria até hoje reduzido à mentiralha de encomenda dum relatório tendencioso, apologético para o vencedor, capaz de meter na história, como heróis, gente que Euclides atou ao pelourinho."             Monteiro Lobato

Antes de Os Sertões, a literatura brasileira era em geral frouxa e pouco brasileira. A exceção machadiana confirma a regra. Depois deles, entrou solenemente em plano superior.

Os Sertões foram, por muito tempo, a maior e mais significativa empresa de conhecer o Brasil de que dispusemos.

O que mais caracteriza os eventos de Canudos é o fato de que deram origem a um épico literário que muitos brasileiros consideram ainda ser o maior livro de seu país.

Embora reconhecendo as falhas do livro, seus defensores alegam que Os Sertões está triunfalmente acima delas.

o legado duradouro de Os Sertões está no fato de ele ter dado início a um processo de autodefinição nacional que outros rapidamente expandiram.

(...) considerado (...) [do] ponto de vista literário, artístico, estético-formal [como o maior livro do gênero no idioma] ]Em vão tenta-se classificá-lo: Geografia, História Militar, Sociologia, Jornalismo... (...)

Obra científica ou de Arte, síntese dificílima de ser conseguida, única na literatura brasileira, (...) um autor considerado ensaísta, cronista e ficcionista (pelos recursos [de estilo]) (...)

Em 1944 foi publicado em inglês pela editora da Universidade de Chicago (numa tradução magistral feita por Samuel Putnam) sob o título Rebellion in the Backlands

Esse revival começou com Mario Vargas Llosa, escritor peruano que recorreu intensamente ao trabalho de Euclides da Cunha em seu livro A Guerra do Fim do Mundo, uma novela sobre Canudos publicada em 1981. Nos últimos quatro anos novas traduções do próprio Os Sertões foram publicadas na França e na Alemanha, ao passo que Rebellion in the Backlands foi republicado em 1995.

Os Sertões continua a fascinar, a despeito de algumas falhas de caráter épico. 

       Os Sertões continua a fascinar, a despeito de algumas falhas de caráter épico.

Fez como muitos escritores modernos - como Aldous Huxley, por exemplo. E seu projeto era fazer uma denúncia, não um romance. Quer dizer o que tem a dizer, dar o seu recado, não confabular, tecer uma trama heroica (porque disso a história não tem nada, ao que nos conta. Ressalvando-se que o que possa haver de heroico, do seu ponto de vista, foi da parte dos jagunços). Mas muitas vezes a vida imita melhor ainda a arte, e isso se proporcionando romanceia-se. No estilo e no conteúdo irreal ou hiperreal. 

estilo naturalista, então predominante em literatura, sem prejuízo de alguns retoques parnasianos na evocação da paisagem.

e a noção de linearidade do progresso

intertextualidade               galas de uma retórica do excesso

Em A Terra são mobilizados peritos em geologia, em meteorologia, em botânica, em química. Em O Homem (...) etnologia, história da colonização, folclore, psiquiatria, sociologia

a dificuldade de lidar com uma tal avalanche de saberes é evidente e concretiza-se em paráfrases discordantes que se sucedem sem se resolver. Na impossibilidade de realizar uma síntese, ou mesmo sínteses parciais, o texto avança jogando com todo tipo de antítese, a qual pode tomar o aspecto de uma figura privilegiada, o oxímoro - "Tróia de taipa", "Hércules-Quasímodo" -, ou aparecer no encadeamento de paráfrases que se contradizem

recapitulando

EUCLIDES DA CUNHA: oficial do Exército, engenheiro, jornalista, professor de Lógica, chefe da Comissão Mista Brasil-Peru para a demarcação das fronteiras entre [os] dois países, no Acre. (...) foi acima de tudo escritor e cientista social, além de sociólogo, historiador, geógrafo, etnógrafo, antropólogo, pensador político e nacionalista exaltado. 

EM CANUDOS (...) numa pesquisa inédita, com métodos pioneiros em Ciências Sociais (...) fez levantamentos geológicos, climatológicos, físico-geográficos e humanos, botânicos, zoológicos, físico-antropológicos (raciais), [com] observações sobre língua, costumes, tradições, religião, folclore, sistema de trabalho [sertanejos], (...) toda a vida social da gente cabocla da região do vale do São Francisco (...)

Brasil contraditório e dramático que recriou na epopéia Os Sertões

os sertões

os sermões

"A atmosfera moral é magnífica para batráquios"

                                   "escrevo, como fumo, por vício."

Menciona também os "maîtres-chanteurs", os mestres cantores, trovadores alemães, por sua "tristeza imensa e amarga ironia". Com tais sentimentos titânicos, propõe-se como "advogado dos pobres sertanejos" e, numa passagem notável, cita sua meta de obter "um consórcio entre ciência e arte". (...) o poeta Robert Lowell comparou a Guerra e Paz, de Tolstoi, e que até hoje não foi completamente entendido. É a sina dos clássicos: cada geração os reinterpreta para compreender a si mesma.

um arsenal de recursos sintáticos e semânticos que a literatura de língua portuguesa não via desde os sermões de Vieira. Em cartas posteriores porém Euclides se refere a seu livro no passado como o produto de um impulso irrefreável e, por isso, que padece de "falta de unidade" e "um estilo bárbaro".

Palavras raras e imagens surpreendentes saem de sua pena com naturalidade.

Em 1908 faz nova referência desairosa a Os Sertões - "aquele livro bárbaro de minha mocidade, monstruoso poema de brutalidade e de força". Tiremos o "monstruoso" e o "bárbaro" e a descrição estará perfeita.

texto vibrante e contundente

é a máxima encarnação do intelectual brasileiro. Sua obsessão com o estado do país, o desgaste de sua força intelectual em tarefas a ela impróprias, sobretudo seu empenho em pensar os rumos do país quintessenciam a direção assumida desde nossos primeiros românticos até, digamos, Glauber Rocha.

                                                                           LUIZ COSTA LIMA

Antônio Candido, Literatura e Sociedade:

(...) posto entre a Literatura e a Sociologia Naturalista, (...) assinala (...) o começo da análise científica aplicada dos aspectos mais importantes da sociedade brasileira.

disse Augusto Meyer, em Euclides o vocabulário técnico circula na prosa da literatura portuguesa com inesperado vigor pessoal. (...) O abuso de superlativos e as antíteses continuadas correspondem a uma exigência de temperamento. Meyer relacionou alguns exemplos que perfazem o jogo antitético de Euclides, desde o famoso oxímoro Hércules-Quasímodo até outros da mesma família: paraíso tenebroso, Sol escuro, tumulto sem ruídos, carga paralisada, profecia retrospectiva, construtores de ruínas, etc., incluindo a construção paralógica, relacionados com os documentos encontrados em Canudos, que "valiam tudo porque nada valiam"... 

a selva de estilo pomposo e oratório, vocábulos enormes, proparoxítonos abundantes, o estilo cipó a que se referia o Barão do Rio Branco. De fato Os Sertões não é relato corrido mas avalanche de informações. (...) Aquilo que é defeito nos outros é grandeza nele. E há arte no livro inteiro, como disse Osmar Pimentel, "arte em que o barroco da forma contraponteia, com propriedade, o épico, o trágico e até o lírico da imaginação". 

Canudos e Outros Temas, Brasília, Centro Gráfico do Senado Federal

Canudos - Diário de Uma Expedição

um dos três mais fundamentais escritores brasileiros

o maior épico escrito em língua portuguesa no século 20

Nas 30 reportagens que o livro traz, enviadas da Bahia entre agosto e outubro daquele ano, Os Sertões já está vivo, grandioso, com toda a ambiguidade que faz dele um livro moderno e clássico ao mesmo tempo.

discórdia que envolve Os Sertões. Uns o chamam barroco demais, túrgido de adjetivos e apostos; outros veem nessa sintaxe gongórica uma intenção mimética

Euclides pode ser tratado como um barroco, praticante de um estilo que busca frivolidades de superfície, esteta dos detalhes. Leia-se com atenção e se verá que Euclides tem o objeto de sua escrita permanentemente focado diante de si.

Machado de Assis - seu oposto em estilo, seu igual em estatura.

Nenhuma análise ideológica, depreciativa ou aclamatória, perturbou através de décadas sua qualidade.

Foi o crítico paraense José Veríssimo, no Correio da Manhã, que publicou o primeiro artigo de peso. Apesar dos elogios, fazia reparos ao abuso de termos técnicos, das palavras antigas e inventadas. Considerava também o seu tom muito artificial e rebuscado.

Os Sertões teve três edições em apenas três anos, de 1902 a 1904, em um total de 6 mil exemplares. Um best-seller para os padrões de então. Tornou-se um dos maiores sucessos editorais do Brasil, com cerca de 40 edições (...) Obra para muitos tão difícil de penetrar quanto os emaranhados da caatinga que os soldados atravessaram até Canudos (...)

Denunciou em Os Sertões a campanha militar como crime e mencionou os fatos sobre os quais silenciara nas reportagens: a degola dos prisioneiros e o comércio de mulheres e crianças.

outros jornalistas, como Manoel Benício, do Jornal do Commercio, e Fávila Nunes, da Gazeta de Notícias, não calaram sobre as atrocidades. Talvez Euclides se sentisse tolhido para atacar o exército. Era tenente reformado e fora nomeado adido ao estado-maior para a cobertura da guerra [inbeded]

 

O Rei dos Jagunços, publicado três anos antes de Os Sertões, é uma reportagem romanceada

Benício, cujos artigos escritos no calor da guerra foram publicados naquele jornal [Jornal do Commercio] entre 1° e 24 de julho de 1897, permaneceu no local do conflito do final de junho até o início de setembro daquele ano, como correspondente acreditado junto ao Exército. [inbeded also]

Publicado em 1899, só foi reeditado em 1992

Permeado de termos sertanejos como "capuava" (roça) e "bogó" (pequena bolsa de couro)

apesar de ter a patente de capitão (ao que tudo indica conferida a ele na qualidade de correspondente de guerra), passou a criticar a incompetência da instituição, a partir do insucesso inicial da última expedição. A fria degola dos conselheiristas pelos militares - que não pouparam mulheres e crianças - é ferozmente condenada pelo repórter, que não deixa de exaltar a bravura dos seguidores do Conselheiro e de admirar a fé que eles depositavam no seu líder.

 

Euclides da Cunha chamaria à cadeia de serras [...montanhas...] de "monstruoso anfiteatro" do maior drama da nossa história.

Explicou a guerra como o choque entre dois processos de mestiçagem, o cruzamento de raças no litoral, com o predomínio do mulato, e a formação da raça e da cultura sertanejas, a partir de elementos portugueses e indígenas.

Manteve seu relato sob tensão constante: pelo assunto trágico da guerra, pelo tom épico da narrativa, pelo conflito entre a realidade observada e os modelos evolucionistas e naturalistas que adotava.

Recriou pelo ritmo binário e pela sintaxe labiríntica as oscilações climáticas da caatinga e as formas retorcidas e conturbadas das suas plantas e habitantes.

Euclides atacou a racionalidade urbana e suas pretensões civilizatórias, ainda que tenha encarado Canudos de forma negativa, como comunidade primitiva.

O largo emprego dos arcaísmos, regionalismos, expressões inusitadas, barbarismos léxicos e a maneira renovada de se utilizarem dos sinais de pontuação, com o recurso do travessão numa função estilística inédita

Sendo Facundo anterior a Os Sertões em mais de meio século, este fato poderia fazer supor que a obra brasileira fora inspirada no livro argentino [de Domingo Sarmiento], o que seria um engano. Ambos os autores se basearam na verdade em Victor Hugo, particularmente no seu romance O Noventa e Três, que narra a sublevação dos vendeanos.

As obras de Sarmiento e Euclides, dentro de um estudo crítico-estilístico, no que diz respeito aos processos de composição, estrutura narrativa e recursos de linguagem e pensamento também apresentam grandes coincidências. Ambos os autores, por exemplo, se utilizam dos chouans como recurso comparativo:

La guerra de Bolívar pueden estudiarla en Francia en la de los chouans. Bolívar es un Charette de más anchas dimensiones.

Euclides, embora em outras circunstâncias, repete o objeto de comparação.

Bíblia da nacionalidade – Joaquim Nabuco

 

Rui Barbosa condena adversários nas hierarquias da Igreja e do Estado, Machado de Assis em 31 de janeiro de 1897 manifesta-se ‘contra a perseguição à gente de Antônio Conselheiro’, indagando da natureza do ‘vínculo moral e fortíssimo’ que a prendiam ao líder

 

 

Euclides: sete instrumentos e pioneirismo

 

ambos [Sarmiento e Euclides] merecem o título de pioneiros da pesquisa folclórica campesina na América do Sul, já que os estudos sistemáticos em relação a estes assuntos só viriam a se manifestar bem depois entre os pesquisadores tanto do Brasil quanto da Argentina. A palavra "folclore", inclusive, só viria a ser inventada e veiculada por William Josh Thoms, arqueólogo e pesquisador inglês das tradições orais, em 1846. Note-se a respeito que o Facundo foi escrito em 1845

 (...) Euclides, igualmente pioneiro quanto ao respeito e importância auferidos ao "folclore" nos fins do século XIX no Brasil, registra, talvez motivado por Sarmiento, os cantos e danças tradicionais da gente humilde do Vale do São Francisco.

A imagem literária de Euclides é idêntica à de Sarmiento, quando compara o homem do sertão ao da Idade Média primitiva. Para Sarmiento, o gaúcho vivia ainda no século XII, por sua mentalidade e formas de convivência social. A sociedade campesina do pampa, diz o autor do Facundo,

Es (...) algo parecido a la feudalidade de la Edad Media, en que los barones risidían en el campo... pero aquí faltan el barón y el castillo feudal.

(...) Do ponto de vista etnográfico, antropológico, sociológico e do folclore, assim como da Caracterologia e da Psicologia diferencial e das "raças", a Etnopsicologia, os capítulos que compõem a segunda parte de vista etnográfico, antropológico, sociológico e do folclore, assim como da Caracterologia e da Psicologia diferencial e das "raças", a Etnopsicologia, os capítulos que compõem a segunda parte de Os Sertões, retratam o vaqueiro do Nordeste comparando-o com o gaúcho do Rio Grande do Sul  

Da mesma forma, em toda a primeira parte de seu livro, Euclides desnuda a Terra Ignota, o sertão baiano: os sertões do nordeste, o deserto de Canudos, caatinga, rios que não são rios, salvo em certas épocas do ano, ao chover, flora, fauna, clima, rochas, o fenômeno das secas com os "ciclos regulares", previsíveis pela sabedoria popular, tradicional e anônima da gente sertaneja, serras e montes em oposição ao mar, ao Atlântico, ao litoral, com sua "civilização de empréstimo" e "mestiços neurastênicos", divergentes dos habitantes da região do rio São Francisco, "a raça forte e antiga" do interior semi-árido, em torno do Vaza-Barris.

Verdadeiro ensaio de Geografia Física., humana e regional, tratado de Geografia Comparada

a primeira e verdadeira pesquisa sociológica objetiva realizada no Brasil (...)

teve (...) que criar (...) novos (...) conceitos (...) Por exemplo: o conceito de "demora cultural", (...) "a diferença no ritmo de desenvolvimento entre segmentos de cultura: a material (ergológica) e tecnológica de um lado, e a cultura "espiritual" (não-material) de outro. (...) um hiato ou vazio cultural (...), "um atraso" de uma região ou localidade em face de outra, (...)

O mesmo conceito se aplica à designação do fenômeno social em que o progresso material se acelera, enquanto o moral ou espiritual fica para trás, do ponto de vista étnico, como sucede (...) nos conflitos raciais, religiosos, político-econômicos (...)

     Com muitos anos de antecipação a Osburn, que criou a expressão cultural lag para definir esse processo social, (...). 

(...) podemos atribuir o título de "Pai da Teoria do Desenvolvimento Brasileira" (...)

Em Castro Alves e seu Tempo, quando prevê a transformação da Cachoeira de Paulo Afonso em fonte de energia elétrica abundante e barata, para iluminar as cidades e fazendas do Nordeste; na ideia da construção da TRANSACREANA (hoje integrada com a TRANSAMAZÔNICA); nos planos para ligação de São Paulo - Cuiabá, através da NOROESTE PAULISTA, tal como acontece hoje; nos estudos sobre a ligação transcontinental entre o Pacífico e o Atlântico (...); nos planos para ligação, por meio de canais, das Bacias Amazônica e Platina

(...) o livro (...) abriga várias teses. A mais original, talvez, (...) a existência de dois Brasis

De um modo intuitivo, (...) adianta várias teses sociológicas modernas (...) e apresenta o primeiro estudo sobre as guerrilhas sertanejas (...) e [o primeiro] de biologia racial surgido nas Américas.

teve intuição não menos aguda de outro fenômeno sociológico [refletido em Canudos]: o isolamento. Ou insulamento

É neste conceito de isolamento ou insulamento que reside a chave de Os Sertões.

não se prende exclusivamente às causas geofísicas (...), como querem alguns

[mas a também a outras "Causas muito enérgicas que determinaram o insulamento (...)"]   

(...) inaugurou, para nós, o primeiro capítulo da Sociologia Econômica:

como ressalta Fausto Cunha, que a figura de Euclides da Cunha como sociólogo "se desenha com traços próximos à genialidade".

              OUTROS CONCEITOS DA SOCIOLOGIA EUCLIDIANA

Os modernos conceitos de homem marginal, marginalidade racial, marginalidade cultural [aparecem da mesma forma] bem delineados (...), assim como o de conflito mental, caracterizado no comportamento de Antônio Conselheiro.

(...) indivíduo que perdeu parte de sua cultura originária e somente assimilou parcialmente uma nova cultura, experimentando [por isso] conflitos mentais provenientes desta contradição, quando oscila entre valores antagônicos (...)

              trechos de  A SOCIOLOGIA D'OS SERTÕES Adelino Brandão Artium Rio de Janeiro 1996

 

 Euclides da Cunha & Os Sertões  

o escritor não soube entender, ao menos num primeiro momento, a complexidade de um movimento religioso que ocorria numa região de tamanhos contrastes sociais.

uma formação e uma seriedade intelectual raras tornam nosso autor capaz de reavaliar suas convicções e o fazem passar, do jacobino padrão, que vê em Canudos "a nossa Vendéia", àquele escritor que revelará não só a extensão do massacre mas sobretudo o descaso que o centro do poder, a capital litorânea, sente pelo enorme sertão.

historiadora que acredita em contos de fadas: todos os canudenses eram honrados:

O mesmo autor que, no ponto de partida, está certo da superioridade do ariano e do caráter degenerado do mestiço o qual nem teria a energia psíquica dos seus ancestrais selvagens e nem a capacidade intelectual dos seus ancestrais superiores -, mostrará, narrando os acontecimentos, que os soldados da República são a expressão mesma da infâmia - capazes de enforcar [?!], desventrar e destripar, rindo-se disso -, enquanto os mestiços são corajosos, leais e honrados

 

Euclides da Cunha, para Robert Levine, foi culpado de injetar "as pessoas comuns menosprezadas do Brasil na consciência nacional como fanáticos meio loucos".

vários grandes temas euclidianos estão perto do ideário positivista e/ou militar: a demarcação das fronteiras, o conhecimento do Brasil profundo, a integração nacional e, sobretudo, a fusão da ciência e da ordem na ideia de progresso, que constituem o eixo do positivismo como aqui foi apropriado num ideal que mesclava o espírito republicano e a formação militar.

não seguiu as doutrinas filosóficas de forma incondicional. Foi adepto do positivismo do francês Auguste Comte, que defendia a superação da religião pela ciência. Aderiu ao evolucionismo do inglês Herbert Spencer, que trazia a certeza do aprimoramento da sociedade. Explorou sempre os limites de tais teorias

as doutrinas que Euclides seguia, como a do sociólogo austríaco Gumplowicz (1838-1909) sobre o triunfo inevitável da raça branca sobre as demais. Euclides mostrou, em seu relato do conflito de Canudos, a debilidade de tal fantasia teórica frente ao homem e à cultura do sertão. Reconheceu no sertanejo o verdadeiro brasileiro, resultado de uma mistura étnica condenada pela ciência de seu tempo. Mostrou assim a face oculta de um país que as elites se recusavam a aceitar.

Euclides trouxe para o estudo da gente do sertão da Bahia toda a bagagem intelectual da teoria social positivista europeia do século XIX. Apesar de ele próprio ser um "mestiço", de início encarou a rebelião de Canudos como uma obra atávica de raças "inferiores"o Brasil, de mestiços e negros, uma abordagem que faz com que o leitor moderno se sinta constrangido. (...) Antônio Conselheiro: no início ele o retrata como um fanático insano e um proponente da promiscuidade, nos moldes de David Koresh de Waco, Texas.

Embora reconhecendo as falhas do livro, seus defensores alegam que Os Sertões está triunfalmente acima delas. Pois, no decorrer do livro, Euclides da Cunha muda de posição. Com base na força de sua própria observação, começa a ver naqueles sertanejos obstinadamente corajosos "o verdadeiro cerne da nossa nacionalidade, o alicerce da nossa raça", e no coronel Moreira César e nos da sua espécie o dogmatismo cruel de verdadeiro fanático. Deixando de lado sua pomposa prosa latina para se tornar mais conciso e direto, ele se lança numa narrativa absorvente da campanha de Canudos (...) "Transforma-se numa grande exaltação do sertanejo e numa violenta crítica do jacobinismo militar que se transformou numa cruzada de extermínio", diz Roberto Ventura, professor de literatura da Universidade de São Paulo.

Vinca-se o que ele escreveu para o jornal A Província de São Paulo já ou ainda de Tanquinho - "esse logar maldicto"-, a caminho de Monte Santo e Canudos, a 4 de setembro de 1897

Não me apedrejeis, companheiros de impiedade, poupae-me livres pensadores, iconoclastas ferozes! Violento e inamolgável na lucta franca das ideas, firmemente abroqueado na unica philosophia que merece tal nome, eu não menti às minhas crenças e não trahi a nossa fé, transigindo com a rude sinceridade do filho do sertão.

E sobre tais paradogmas deixaria impresso Graciliano Ramos em São Bernardo a fala do coronel Paulo Honório sobre as atividades de sua esposa:

      Sim senhor, comunista! Eu construindo e ela desmanchando.

      Materialista. Lembrei-me de ter ouvido Costa Pinto falar em materialismo histórico. Que significava materialismo histórico?

      Comunista, materialista. Bonito casamento. (...) Que haveria nas palestras? Reformas sociais ou coisa pior. Mulher sem religião é capaz de tudo.

Até bem recentemente as ciências humanas negligenciaram o estudo empírico da religião e, mesmo muito depois de Euclides da Cunha, a manifesta consistência religiosa que caracteriza a defesa de Canudos é reduzida ao estatuto de ignorância e fanatismo ...

Materialismo histórico, direis. Pois não foi o próprio Friedrich Engels quem escreveu que "A religião tem suas raízes nas concepções limitadas e ignorantes do estado de selvageria"?

Tal como, pela própria biografia, é descrito como um trágico - sendo até, pela opera magna, o Shakespeare tupiniquim - e é capaz de toda a ironia contida em trechos de seu relato sobre a tragédia de Canudos, pelos olhos de seus grandes apreciadores sente-se a visão de um homem capaz de tudo. De morrer por amor - ou, o que parece mais provável tendo sido como foi, pela honra ferida... - como de renunciar a crenças que se diria, pelo que se percebe nele também, (isso mesmo) atávicas. Como no materialismo histórico ou no tão racionalista quanto positivismo. Mas não no ateísmo, que se revela avassaladoramente - como gostava de escrever - em seu "livro vingador". Onde no entanto transparece em alguns trechos que ele dá umas na ferradura e que e não conseguiu se desvencilhar da Igreja, acabando por aplaudir, através da ação de alguns de seus apóstolos, a religião dos sofistas canonizados dos concílios - como a chama -, ou seja, a religião que deixou de ser religião. 

 

                                              mimese da Bíblia em Os Sertões, Walnice Nogueira Galvão em O Estado de São Paulo 5 de outubro de 1997: O caráter polifônico de uma narrativa de guerra:

   criação do Arraial            Gênesis

   aniquilamento pelo fogo

Apocalipse

tomou ainda emprestada dos canudenses milenaristas e messianistas - a visão escatológica. E mostra como por meio da inversão demoníaca das imagens bíblicas que presidem à crença salvacionista é possível aderir ao ponto de vista deles. Isso se efetiva por meio da mimese do grande sintagma narrativo da Bíblia, por meio do qual é traçado o arco que vai da criação do arraial de Canudos, o Gênesis bíblico, até seu aniquilamento pelo fogo, o Apocalipse, em conjunção com as profecias das sagradas escrituras.

Nunca lhe tinha ocorrido que a modernização é causa de dores e perdas para os pobres, aos quais chacina sem piedade quando os encontra em seu caminho.

canudenses deviam ter sido tratados a cartilha e não a bala, concluindo pela ilusão ilustrada de acreditar na educação como panaceia para a iniquidade. Seu grande feito foi ter conseguido expressar (e nisso reside o alcance universal do livro) o que a modernização faz aos pobres, atormentando-os de tal maneira que seu mundo - O Belo Monte, na denominação que deram a Canudos, ou Nova Jerusalém, segundo Os Sertões - que tinha tudo para ser o paraíso no qual aguardariam o Juízo Final, se metamorfoseia no seu contrário, ou seja, o inferno.

Para ele aquilo comprovava a existência de dois Brasis, o do litoral civilizado [com sua "civilização de empréstimo"...] e o do sertão ainda em plena fase colonial

Euclides foi o primeiro a descer a fundo na alma nativa ao captar o transe alucinado da campanha militar

ele perdera a possibilidade de construir um verdadeiro épico sobre o conflito entre forças racionais e irracionais, tema muito mais interessante que o mero choque entre duas raças ou subraças no norte da Bahia. [conflito entre forças racionais e irracionais - dos dois lados] [Sobre "mentes superiores" e "uma espécie possivelmente um degrau abaixo na escala natural da evolução"]

 

Parecia-me que, ao concentrar a sua análise em fatores étnicos, ele perdera a possibilidade de construir um verdadeiro épico sobre o conflito entre forças racionais e irracionais, tema muito mais interessante que o mero choque entre duas raças ou subraças no norte da Bahia. Lendo Gumplowicz concluí que a culpa é do próprio Gumplowicz. O modo com que Euclides da Cunha trata a figura de Antônio Conselheiro é um bom exemplo dessa influência nefasta. Depois de aborrecer e afugentar seus leitores nas cem páginas iniciais com tratados pseudocientíficos de geologia, climatologia, botânica e etnologia, ele reserva menos de oito páginas para descrever os 30 anos de andanças sertanejas de Antonio Conselheiro que, vivendo de esmolas em meio a jejuns penitenciais e profecias apocalípticas, acabou por reunir milhares de fanáticos miseráveis numa cidade de barro no meio da caatinga. O motivo de tanta brevidade é a teoria de Gumplowicz segundo a qual "o indivíduo não passa de um meio para obter fins externos a si no campo da sociedade". A mesma ideia é repetida com insistência por Euclides da Cunha com o intuito de anular o papel individual de Antônio Conselheiro no episódio de Canudos.

 

uma ação militar republicana - uma ação de seus colegas, em suma - sustar uma revolta de camponeses fanáticos, membros de uma espécie possivelmente um degrau abaixo na escala natural da evolução. O que vê é o contrário. As mentes superiores não produzem uma estratégia militar superior; mostram-se cruéis, comezinhas, tolas. E os sertanejos surpreendem com um heroísmo insuspeitado. [luta entre forças racionais e irracionais e o que seria um tema mais elevado]

 

Transformado num clássico, Os Sertões durante muitas décadas ergueu-se como uma muralha que impedia o avanço de qualquer outro escritor sobre a Saga de Canudos.

Mario Vargas Llosa lançou em 1981, pela Seix Barral, Barcelona, o seu La guerra del fin del mundo, (...)

Hoje, quando os estudos históricos e literários já desmistificaram Euclides e seu suposto cienticifismo, inflado pela ideologia

Historiadores e antropólogos se afastaram nas últimas décadas da interpretação de Euclides, criticado por sua avaliação negativa do movimento religioso e da atuação de seu líder

Explicou alguns dos aspectos misteriosos da guerra, como a luta quase suicida dos conselheiristas ou a migração para Canudos em pleno conflito.

Para o escritor baiano José Calasans começou a surgir a partir dos anos 50 um outro Canudos, diferente daquele criado por Euclides. Esse Canudos não-euclidiano

A imitação dos sentidos - prógonos, contemporâneos e epígonos de Euclides da Cunha, São Paulo, Edusp, 1995

Leopoldo Bernucci analisa com cuidado o "processo imitativo" de que se valeu Euclides (...) começando por Victor Hugo (Quatre-Vingt-Treize, sobre a guerra da Vendeia, (...), [Domingo] Faustino Sarmiento (Facundo) e Afonso Arinos (Os jagunços) (...)

Bernucci quer provar em A Imaginação dos Sentidos que Os Sertões plagiou e foi plagiado por outros autores

sofreu a mesma rapina de Monteiro Lobato e Graciliano Ramos em Cidades Mortas e Vidas Secas

Os Jagunços, do escritor mineiro Afonso Arinos (1868-1916)

Os Sertões virou paradigma para escritores futuros

os acadêmicos não se conformam com o fato de que Euclides não punha notas de pé de página ou, como diz Leopoldo Bernucci (...), "dispensando-se, uma vez mais, de identificar a fonte".

Há quem garanta que Os Sertões prejudica o conhecimento da comunidade

Bernucci se inspira no método de Harold Bloom. Este criou a teoria da "ansiedade da influência" (ou "angústia", como foi traduzida para o português). Segundo Bloom, o resultado de um texto literário pode ser entendido como a leitura que o escritor faz da obra de seus percussores, os quais ele parodia, assimila ou renega.

O abuso de Euclides (...) está em como vampirizou os jornais? "Ele tem uma dívida impagável com os repórteres da época, dos quais não retira apenas informações, mas passagens inteiras e até traços de estilo. Tudo sem citar fonte."

de A SOCIOLOGIA D'OS SERTÕES Adelino Brandão Artium Rio de Janeiro 1996

EUCLIDES E O PENSAMENTO SOCIAL EUROPEU

Positivismo que se desenvolveu, no Brasil de Benjamin Constant ao general Golbery, sistema filosófico que se tornou responsável pelo suporte teórico às nossas "aventuras" republicanas, em sua feição autocrática, político-militar, ou seja, "à brasileira".

 

CLIMATOLOGIA:

Sujeito às determinações do meio físico, o homem modificaria a natureza da mesma forma como por ela seria modificado. Nos tempos primitivos, os pensamentos e desejos do homem teriam sido mais passivos, logo a Humanidade muito mais sofrera com as modificações impostas pelo ambiente do que este pelas mudanças impostas pelo homem. O estudo das forças físicas, portanto, deveria se constituir no primeiro passo para o estudo da história dos grupos humanos e para a compreensão dos fatos da vida social, conclui Buckle. Basta ler com atenção o primeiro capítulo de Os Sertões para que fique evidente, na obra euclidiana, estreitas correlações com o autor inglês.

Na concepção buckleana, clima, solo, alimentação e aspectos gerais da natureza são fatores determinantes dos fatos sociais. Em Os Sertões, primeira parte, (Capítulos I e II, O Solo), Capítulo III, Preliminares e Do alto do Monte Santo, O clima), (Capítulos IV e V, Aspectos gerais da natureza), o fator "alimentação" focalizado por Euclides posteriormente, comprova esta correlação.

Além disto, Buckle admitia que a energia e regularidade no desempenho do trabalho dependiam, exclusivamente, da influência do clima. Em regiões de calor intenso, o homem se mostraria indisposto e parcialmente incapaz para o trabalho.

Ao analisar em Os Sertões o papel do meio físico da Amazônia sobre os naturais ou habitantes da Região Norte, o autor registra que:

(...) A seleção natural, em tal meio, opera-se à custa de compromissos graves com as funções centrais do cérebro, numa progressão inversa prejudicialíssima entre o desenvolvimento intelectual e o físico, firmando inexoravelmente a vitória das expansões instintivas e visando o ideal de uma adaptação que tem, como consequências únicas, a máxima energia orgânica, a mínima fortaleza moral. A aclimação traduz uma evolução regressiva. O tipo desaparece num esvaecimento contínuo, que se lhe transmite à descendência até à extinção total.

Na região nordestina, (...)

Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra, o sertanejo do norte teve uma árdua aprendizagem de reveses. Afez-se, cede, a encontrá-los, de chofre, e a reagir de pronto.

Buckle (...) Nas terras meridionais o trabalho regular seria impedido pelo calor. O sociólogo britânico chega ao exagero ao negar as possibilidades de desenvolvimento para o Brasil, sobre o qual se estende por seis longas páginas, com interesse incomum.

Euclides da Cunha (...) admite (...) que o problema de Canudos poderia ser resolvido se uma estrada houvesse sido construída, ligando o litoral ao interior, o que interferiria na natureza nordestina.

(...)

posteriormente, em À Margem da História (um clima caluniado), apos ter viajado pela Amazônia (Relatório do Rio Purus), retifica-a, mostrando o "milagre" da civilização em Manaus e Belém, concluindo que tudo se reduz a uma questão de política social e controle do meio físico: saneamento, estradas, retificação de rios, profilaxia, escolas, proteção ao trabalhador dos seringais.

No que se refere aos Aspectos Gerais da Natureza, observa Buckle: 

(...) Em face dos fenômenos naturais, tudo aquilo que inspirasse terror, que fosse vago, incontrolável, de grande maravilha, tenderia a levar a imaginação para o caminho da imaginação inflamada, com prejuízo dos processos intelectuais.

 

                                                                                                         AS "FALHAS" DE EUCLIDES

                                                 Antônio Candido [considera] que a sociologia de Euclides da Cunha falhou.

Teria deixado a desejar (...) quando, ao analisar Canudos como organização social - "tapera colossal que parecia estereografar a feição moral da sociedade ali acoitada"- não percebeu que a "Tróia de taipa dos jagunços", em vez de representar um fenômeno patológico de desorganização social, significava inclusive uma tentativa desesperada de uma nova organização, nova integração, com novas formas de ajustamento coletivo (...), uma solução própria que reforçasse a coesão grupal ameaçada pela interferência da cultura urbana.

[mas] como observou Cândido Motta Filho, "para ele Canudos não tinha um significado restrito nem episódico [;] era a expressão de uma totalidade, um aspecto que denunciava, na sua insuficiência trágica, um mal orgânico do país.

 

Abrangendo vários aspectos fundamentais referentes à cultura brasileira, como elementos históricos, geográficos, sociológicos, antropológicos, étnicos e outros, (...) 

A bibliografia euclidiana no Brasil é constituída de cerca de mais de 5000 títulos

EUCLIDES DA CUNHA: oficial do Exército, engenheiro, jornalista, professor de Lógica, chefe da Comissão Mista Brasil-Peru para a demarcação das fronteiras entre [os] dois países, no Acre. (...) foi acima de tudo escritor e cientista social, além de sociólogo, historiador, geógrafo, etnógrafo, antropólogo, pensador político e nacionalista exaltado. 

EM CANUDOS (...) numa pesquisa inédita, com métodos pioneiros em Ciências Sociais (...) fez levantamentos geológicos, climatológicos, físico-geográficos e humanos, botânicos, zoológicos, físico-antropológicos (raciais), [com] observações sobre língua, costumes, tradições, religião, folclore, sistema de trabalho [sertanejos], (...) toda a vida social da gente cabocla da região do vale do São Francisco (...)

(...) dados objetivos recolhidos (...) no local [e através de] documentos e de longos e aprofundados estudos, pesquisas nos arquivos e bibliotecas públicos [e] consultas bibliográficas

(...) considerado (...) [do] ponto de vista literário, artístico, estético-formal [como o maior livro do gênero no idioma] ]Em vão tenta-se classificá-lo: Geografia, História Militar, Sociologia, Jornalismo... (...)

Obra científica ou de Arte, síntese dificílima de ser conseguida, única na literatura brasileira, (...) um autor considerado ensaísta, cronista e ficcionista (pelos recursos [de estilo]) (...)

"Pai do modernismo", pré-modernista (...), no julgamento de Tristão de Ataíde.

Antônio Candido, Literatura e Sociedade:

(...) posto entre a Literatura e a Sociologia Naturalista, (...) assinala (...) o começo da análise científica aplicada dos aspectos mais importantes da sociedade brasileira.

A despeito da linguagem, considerada parnasiana, e da expressão "barroco-científica" (...) se enriquece (...) com regionalismos, brasileirismos, tecnicismos, barbarismos, numa estrutura inovadora, em que (...) cria novas formas de pontuar e adjetivar (...) angústia que provoca no leitor, (...) jogo de antíteses atrevidas, o martelar dos sinônimos e o clímax alucinatório, muitas vezes impressionista, nas descrições dos movimentos coletivos e de massa e na pintura da paisagem agreste do sertão, (...)

                                                                     Euclides, homem angustiado e trágico

                                                                           Inquieto e torturado

um nome de tão poderosa envergadura mental e de prestígio fora de nossas fronteiras

(Euclides) descreve a terra como se armasse um palco onde se desenrolará a tragédia de Canudos

 

a primeira e verdadeira pesquisa sociológica objetiva realizada no Brasil (...)

teve (...) que criar (...) novos (...) conceitos (...) Por exemplo: o conceito de "demora cultural", (...) "a diferença no ritmo de desenvolvimento entre segmentos de cultura: a material (ergológica) e tecnológica de um lado, e a cultura "espiritual" (não-material) de outro. (...) um hiato ou vazio cultural (...), "um atraso" de uma região ou localidade em face de outra, (...)

O mesmo conceito se aplica à designação do fenômeno social em que o progresso material se acelera, enquanto o moral ou espiritual fica para trás, do ponto de vista étnico, como sucede (...) nos conflitos raciais, religiosos, político-econômicos (...)

     Com muitos anos de antecipação a Osburn, que criou a expressão cultural lag para definir esse processo social, (...). 

O que a opinião oficial julgara uma insurreição de caráter monarquista, financiada por agentes estrangeiros, com a cumplicidade da contrarrevolução interna e dos amigos da dinastia deposta, na qual Antônio Conselheiro era simples títere, na verdade não era mais do que um gigantesco hiato social, um cultural lag, a "demora cultural" entre o litoral e o sertão, entre a capital e o interior, entre jagunços e citadinos, caipiras e civilizados e, de certa forma, entre o Norte e o Sul, no que aquele tinha de anacrônico e este de atual

 

(...) podemos atribuir o título de "Pai da Teoria do Desenvolvimento Brasileira" (...)

   A célebre frase: "Estamos fadados à civilização... ou progredimos ou desaparecemos" já encerrava a ideia desenvolvimentista euclidiana que encontraria plena acolhida e justificação em toda sua obra. 

Em Castro Alves e seu Tempo, quando prevê a transformação da Cachoeira de Paulo Afonso em fonte de energia elétrica abundante e barata, para iluminar as cidades e fazendas do Nordeste; na ideia da construção da TRANSACREANA (hoje integrada com a TRANSAMAZÔNICA); nos planos para ligação de São Paulo - Cuiabá, através da NOROESTE PAULISTA, tal como acontece hoje; nos estudos sobre a ligação transcontinental entre o Pacífico e o Atlântico (...); nos planos para ligação, por meio de canais, das Bacias Amazônica e Platina

(...) o livro (...) abriga várias teses. A mais original, talvez, (...) a existência de dois Brasis: o litorâneo e o sertanejo [do norte]. O primeiro, moderno, europeizado, urbano e progressista, em constantes mudanças sociais, trabalhado pela imigração estrangeira e pela civilização, cosmopolita e letrado; o segundo, o Brasil do sertão, tradicionalista, arcaico, estático, homogêneo [do] ponto de vista antropológico-racial e cultural, ingênuo, vivendo em função da Natureza (...), com outros hábitos, costumes e linguagem - o Brasil caboclo, mestiço, rural.

De um modo intuitivo, (...) adianta várias teses sociológicas modernas (...) e apresenta o primeiro estudo sobre as guerrilhas sertanejas (...) e [o primeiro] de biologia racial surgido nas Américas.

teve intuição não menos aguda de outro fenômeno sociológico [refletido em Canudos]: o isolamento. Ou insulamento

É neste conceito de isolamento ou insulamento que reside a chave de Os Sertões.

Como fenômeno social, o insulamento (...) ou isolamento, denominação moderna, é dos mais conhecidos e estudados na literatura sociológica atual (...) [e no livro temos:] isolamento geográfico ou espacial (...) isolamento estrutural (...) isolamento estrutural [e] isolamento psíquico (...) À medida em que todos estes conceitos se inserem em Os Sertões, evidencia-se a antecipação de seu autor aos modernos. 

(   )

não se prende exclusivamente às causas geofísicas (...), como querem alguns

[mas entre "Causas muito enérgicas [que] determinaram o insulamento (...) destaca o regime de sesmarias e a proibição do tráfego de e para o sul - as minas das Gerais  

(...) inaugurou, para nós, o primeiro capítulo da Sociologia Econômica:

como ressalta Fausto Cunha, que a figura de Euclides da Cunha como sociólogo "se desenha com traços próximos à genialidade".

              OUTROS CONCEITOS DA SOCIOLOGIA EUCLIDIANA

Os modernos conceitos de homem marginal, marginalidade racial, marginalidade cultural [aparecem da mesma forma] bem delineados (...), assim como o de conflito mental, caracterizado no comportamento de Antônio Conselheiro.

(...) indivíduo que perdeu parte de sua cultura originária e somente assimilou parcialmente uma nova cultura, experimentando [por isso] conflitos mentais provenientes desta contradição, quando oscila entre valores antagônicos (...)

[Da Sociologia à Psicopatologia e vice-versa] 

(...) Euclides, igualmente pioneiro quanto ao respeito e importância auferidos ao "folclore" nos fins do século XIX, no Brasil, registra, talvez motivado por Sarmiento, os cantos e danças tradicionais da gente humilde do Vale do São Francisco.(...) 

O largo emprego dos arcaísmos, regionalismos, expressões inusitadas, barbarismos léxicos e a maneira renovada de se utilizarem dos sinais de pontuação, com o recurso do travessão numa função estilística inédita.

de  A SOCIOLOGIA D'OS SERTÕES Adelino Brandão Artium Rio de Janeiro 1996

 

  enfocou selva e sertão com uma mesma imagem: O DESERTO, por seu isolamento geográfico, povoamento rarefeito, territórios desconhecidos que os viajantes evitavam

                                                     TERRA IGNOTA

e que os cartógrafos excluíam de seus mapas.  Paisagens fantásticas que paralisavam o observador tomado por um misto de terror e êxtase

 

Euclides desmedido apego à frenologia: Ali estavam, no relevo de convulsões expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura.

Canudos: Cesare Lombroso (1835-1909), psiquiatra e criminalista, em 1876 publicou estudo mostrando que criminoso pode ser identificado por determinadas características físicas, como o tamanho do cérebro. 

                          Euclides da Cunha sobre Antônio Conselheiro:

Jamais deslizou para a demência, havia um encadeamento nunca destruído nas mais exageradas concepções, ordem no próprio desvario, coerência indestrutível nos atos e disciplina rara nas paixões, de sorte que ele tinha na palavra e no gesto a tranquilidade, a altitude e a resignação soberana de um apóstolo antigo  

Gilberto Freyre: "Na interpretação de Os Sertões, assim como o cientista erraria na descrição dos detalhes de geografia, geologia, botânica ou antropologia, o sociólogo erraria em pormenores de explicações e diagnósticos do povo sertanejo." - citado em A SOCIOLOGIA D'OS SERTÕES Adelino Brandão Artium Rio de Janeiro 1996

       livro prova que Euclides copiava jornais (...) com talentosa escrita barroca  

EUCLIDES, MARX E O SOCIALISMO

Joaquim Nabuco (...) por adotar posições políticas progressistas (abolição da escravatura, eleições livres, escolas populares, educação para todos) foi chamado pelos conservadores da monarquia, de "petroleiro", "radical", "socialista", "comunista", (...)

(...) Pinto Ferreira (...) num ensaio publicado na (...) Revista Brasiliense:  

O primeiro grande escritor marxista do país é Euclides da Cunha (...), retratou com mestria, como marxista que era, o desnível das classes nos sertões e a guerra campesina de Canudos.

[isso talvez porque o escritor aplaudiu o] socialismo científico de Marx, contra o idealismo utópico de Proudhon e do anarco-sindicalismo

 

Flávio de Barros, fotógrafo e expedicionário, únicas da destruição e rendição de Canudos, pertencem ao MASP

 

 

 

Euclides da Cunha 

& Os Sertões: o legado

 

o legado duradouro de Os Sertões está no fato de ele ter dado início a um processo de autodefinição nacional que outros rapidamente expandiram.

todo mundo que conta comeu e bebeu d'Os Sertões

o legado duradouro de Os Sertões está no fato de ele ter dado início a um processo de autodefinição nacional que outros rapidamente expandiram. (...) obrigou a elite costeira europeizada a sair de sua contemplação interior e observar a realidade de seu país dividido e desigual. (...)

As ruínas de Canudos ficaram submersas sob as águas de um reservatório concluído pela ditadura militar no Brasil em [1969]. Mas muitos temas abordados por Euclides da Cunha continuam surpreendentemente atuais. Seus apelos para uma "persistente campanha educacional" no nordeste ainda estão para ser atendidos e a questão racial continua sendo um tema sensível (...). Nas igrejas pentecostais brasileiras, que estão em plena expansão, e no movimento militante dos sem-terra não é difícil reconhecer os descendentes de Canudos.

    Os Sertões conclui que aqueles que foram deixados para trás pela modernização brasileira necessitam de ajuda e compreensão em vez de balas. Um século depois, essa conclusão continua verdadeira.

é a máxima encarnação do intelectual brasileiro. Sua obsessão com o estado do país, o desgaste de sua força intelectual em tarefas a ela impróprias, sobretudo seu empenho em pensar os rumos do país quintessenciam a direção assumida desde nossos primeiros românticos até, digamos, Glauber Rocha

                                                                                  Luiz Costa Lima

Os Sertões virou paradigma para escritores futuros

(...) originando (...) correntes literárias modernas [brasileiras] 

O VALOR DAS CONTRIBUIÇÕES EUCLIDIANAS

teve, mais ainda, o poder de catalisar vocações esparsas, motivando estudiosos que lhe sucederam e que, inspirados nas páginas euclidianas, se lançaram à tarefa de analisar a realidade social brasileira [citando entre outros] Monteiro Lobato, Gilberto Freyre, Artur Ramos, Antônio Candido, Câmara Cascudo e Sérgio Buarque de Holanda.

"Pai do modernismo", pré-modernista (...), no julgamento de Tristão de Ataíde.

 

Euclides da Cunha: outros escritos

 

Nas Cartas reunidas pela Edusp em livro, o escritor delineia o Brasil contraditório e dramático que recriou na epopéia Os Sertões

Correspondência de Euclides da Cunha, São Paulo, Edusp

Manaus, ??, 1905

(A Artur Lemos)

Se escrevesse agora esboçaria miniaturas do caos incompreensíveis e tumultuárias, uma mistura formidável de vastas florestas inundadas de vastos céus resplandecentes. Entre tais extremos está, com as suas inumeráveis modalidades, um novo mundo que me era inteiramente desconhecido... Além disso, esta Amazônia recorda a genial definição do espaço de Milton: esconde-se em si mesma. O forasteiro contempla-a sem a ver através de uma vertigem. Ela só lhe aparece aos poucos, vagarosamente, torturantemente. É uma grandeza que exige a penetração sutil dos microscópios e a visão apertadinha e breve dos analistas; é um infinito que deve ser dosado. Quem terá envergadura para tanto? Por mim não a terei. A notícia que aqui chegou num telegrama de um novo livro tem fundamento: escrevo, como fumo, por vício. Mas irei dar a impressão de um escritor esmagado pelo assunto. E, se realmente conseguir escrever o livro anunciado, não darei título que se relacione demais com a paragem onde Humboldt aventurou as suas profecias e onde Agassiz cometeu os seus maiores erros. Escreverei um "Paraíso Perdido", por exemplo, ou qualquer outro em cuja amplitude eu me forre de uma definição positiva dos aspectos de uma terra que, para ser bem compreendido, requer trato permanente de uma vida inteira.

 

"A atmosfera moral é magnífica para batráquios", diz ele em mais uma das frases lapidares. 

"Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas, usam cartola e leem Stuart Mill e Spencer" [1893]

Euclides era mais radical: "Não existem sinônimos: cada palavra tem o seu exato e único significado. Quem não entender que vá ao dicionário."

 

Canudos e Outros Temas, Brasília, Centro Gráfico do Senado Federal

Canudos - Diário de Uma Expedição

Sobre o sertão baiano:

Logo a partir do 12º paralelo, escondem vários territórios estéreis retratando nos planos desnudos e ásperos os rigores máximos do clima. (...) Quebra-se o encanto de uma ilusão belíssima; a terra empobrece-se, de improviso; despe-se da flora incomparável; abdica o fastígio das montanhas; erma-se e deprime-se; e transmuda-se nos sertões exsicados e brutos mal recortados de rios efêmeros ou desatados em chapas nuas que se sucedem, indefinidas, formando o palco assombrador das secas... O contraste é empolgante. (em As Secas do Norte)

O jagunço é uma tradição justalinear quase do "iluminado" da Idade Média. O mesmo desprendimento pela vida e a mesma indiferença pela morte dão-lhe o mesmo heroísmo mórbido e inconsciente de hipnotizado e impulsivo. (em A Nossa Vendéia 2)

 

CHEGADA DE EUCLIDES DA CUNHA A CANUDOS 

Canudos Diário de uma Expedição

Euclides da Cunha escreveu 25 artigos - Foi mantida grafia da época para preservar sua autenticidade

Tanquinho, 4 de setembro de 1897

Que todos os viandantes fujam destas duas casas velhas e acaçapadas em cuja frente os mandacarús esguios elevantam-se silentes e rígidos, como imensos candelabros implantados no solo, segundo a bella comparação de Humboldt.

Não me apedrejeis, companheiros de impiedade, poupae-me livres pensadores, iconoclastas ferozes! Violento e inamolgável na lucta franca das id[eas, firmemente abroqueado na unica philosophia que merece tal nome, eu não menti às minhas crenças e não trahi a nossa fé, transigindo com a rude sinceridade do filho do sertão.

 

Canudos Diário de uma Expedição

Monte Santo, 6 de setembro

Que diferença extraordinária em todos!

Domingos Leite, um bello typo de flaneur, folgasão nos bons tempos da Escola, um devoto elegante da rua do Ouvidor - abarçou-me e não o conheci. Vi um homem extranho, de barba inculta, e crescida, rosto pallido e tostado, voz aspera, vestindo bombachas enormes, coberto de largo chapeu desabado. Está aqui desde a expedição Moreira Cesar, na faina perigosa e tremenda da engenharia militar, a traçar estradas ao deserto, correndo linhas telegraphicas, dirigindo comboios por veredas difficeis nas quaes o bacharel em mathematica teve muitas vezes de empunhar o ferrão e transformar-se em carreiro.

(...)

Como se muda nestas paragens!

Gustavo Guabirú, outro engenheiro militar, foi uma encontrado por um contingente da força policial da Bahia em tal estado que foi preso como jagunço. E não teve meios de convencer aos do engano em que haviam caído.

(...)

Parece que esta natureza selvagem vae em todos imprimindo uma feição diversa.

O major Martiniano, comandante da praça, um typo desempenado de soldado que sempre vi, desde os tempos acadêmicos, no Rio, de bonet atrevidamente inclinado a tres pancadas, substituiu o antigo cavaignac negro por uma barba branca. Está velho; está aqui há poucos meses.

(...)

Imaginem que, enquanto o exército lhes occupa grande parte das casas e os fulmina quotidianamente, num bombardeio incessante, os fanaticos distribuem de um modo notavel a actividade, revesando-se, da linha de fogo para o campo onde cultivam mandiocas, feijão e milho!

 

"COMPREENDI O GÊNIO SOMBRIO E PRODIGIOSO DE DANTE"  

1º de outubro de 1897

Durante quarenta e oito minutos os canhões da "Sete de Setembro" (...) E durante todo esse tempo sob uma avalanche pesadíssima de ferro, nem uma voz se alteou na zona fulminada, imersa tôda numa quietude pasmosa, inconceptível quase; nem um vulto correndo estonteado pelas vielas estreitas e tortuosas, nem a mais leve agitação patenteavam a existência de sêres ali dentro.

 

impressões colhidas na expedição à região do Alto Purus, no Acre, que chefiou em 1905. Desenhou os mapas que permitiram ao barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, resolver os conflitos de fronteiras entre o Brasil e o Peru em 1909.

Nos ensaios sobre a Amazônia de Contrastes e Confrontos (1907) e À Margem da História (1909) recriou a exuberância da selva tropical e trouxe a público o trabalho semiescravo nos seringais do Acre.

posteriormente, em À Margem da História (um clima caluniado), apos ter viajado pela Amazônia (Relatório do Rio Purus)

 

 

 

                                        

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