um cibercordel

   revoluciomnibus.com  OU A POÉTICA DA LUZ DO SERTÃO

 

   ciberzine   & narrativas de james anhanguera

        

             

          O triste e belo fim

                    de Joana Imaginária  

         & Antônio Conselheiro                       

                                                                 

 

                                                 

               uma série revoluciomnibus.com que inclui

                                                                                   

 

                 Os Sertões               Euclides da Cunha & Os Sertões

                   O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

 Canudos Hoje: Tendão dos Milagres X O Amuleto de Ogum   

  TRISTERESINA  

      BANGUE-BANGUE

      NA  TERRA DO SOL

 

           

           duna 

   do pôr do sol

Coriscos & Dadás Lampiões &  Marias Bonitas

  Até calango pede sombra  

 

GLAUBER ROCHA OU A POÉTICA DA LUZ DO SERTÃO NO CINEMA NOVO BRASILEIRO  

 

A INDÚSTRIA 

DA SECA

 

No Pátio dos Milagres do Padim Ciço

O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

INDISSECA

   índice remissivo

 

                   

                     cibercordel

         DO  MAIOR VIVEIRO CULTURAL  

                             DO BRASIL E UMA DAS REGIÕES   

                             MAIS    POBRES    DO       MUNDO 

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          O triste e belo fim

                    de Joana Imaginária  

         & Antônio Conselheiro                       

                                                                 

 

 

 

                       

                                                                                                                                                       Canudos ou Belo Monte em gravura da época

     Trechos de   

                        

                       Entre rios Belos Montes quem é esse que vagueia... Edu Lobo-Cacaso

   

     O Conselheiro pregava em voz baixa e com os olhos no chão. Os olhos negros tinham uma cintilação ofuscante, a atração de um ímã.

    O bufão, na definição enxuta do engenheiro, repórter e escritor, misturava conselhos dogmáticos e preceitos vulgares da moral cristã.

    Dizia que a Igreja romana tinha perdido a glória e se rendido ao Satanás. Ousava um latim rudimentar.

   Cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa, face escaveirada, olhar fulgurante, monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano, abordoado ao clássico bastão.

   Crucifixo pendurado no pescoço e de sandálias, apossado de uma possível psicose mística, na visão euclidiana, começa a arrastar uma multidão, de cidade em cidade, rezando e cantando ladainhas, com cruzes, imagens e bandeiras do Divino Espírito Santo, numa procissão interminável pelo sertão que ele, cearense, conhecia como a palma das mãos.

E profetizava:

Em 1896 hão-de rebanhos mil correr da praia para o sertão e o sertão vai virar praia e a praia vai virar sertão. Das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo o seu Exército.

Acertou em cheio no ano. Só que o comandante não era o rei-infante morto em 1578 na batalha de Alcácer Quibir, em cujos campos ao que se conta os portugueses deixaram dez mil exemplares de um híbrido de alaúde e guitarra portuguesa, mas o general Artur Ramos à frente de um contingente de cinco, oito mil homens.

 

 

...

 

 

            Tudo começou no Norte da Bahia por volta de 1877, em Chorrochó, lugarejo de poucas centenas de pessoas cuja feira semanal às margens do Velho Chico atraía toda a população das redondezas. Chorrochó seria um dos cenários de pregação preferidos de Antônio Conselheiro nos dez anos seguintes.

    Naquele dia o Conselheiro tomou as dores de uma velha que não tinha como pagar impostos à Monarquia e fez discurso flamejante. Tratando-se do sertanejo mais popular da história, tudo é lenda de ouvir contar, até as dramáticas cenas do declínio em Canudos, quando 12 jornais mandaram enviados especiais ao sertão, entre os quais o engenheiro de pontes e publicista Euclides da Cunha.

    Começou em Chorrochó a série de milagres de Antônio Conselheiro. À sombra de uma capela, acompanhado por duas professas, reza terços e ladainhas e faz prédicas. Longos discursos numa retórica bárbara, arrepiadora, truncada, desconexa, abstrusa, agravada, inextricável, confusa, esdrúxula, como a nonadjetivou Euclides da Cunha em Os Sertões.

 

...

 

 

O evangelizador "transviado", segundo o autor de Os Sertões - a "bíblia da nacionalidade", como o definiu Joaquim Nabuco, nas suas quase 11 milhões de palavras - tinha pasto fértil para fundar um rebanho: uma terra onde até hoje não há cinemas mas que tem igrejas de todos os cultos e até pouco tempo muito gente ainda aprendia a ler lendo a Bíblia. Sertões onde sobrevivem intactos, devido a seu isolamento forçado por reis e políticos, todos os terrores da cidade cristalizados no catolicismo popular à época em que foi colonizado (séculos XVI e XVII). Como o mito do retorno do rei d. Sebastião.

Isolada do litoral e de suas influências, aferrada às tradições mais remotas, a religiosidade sertaneja teria estacionado, segundo estudiosos, num estágio de vivência primordial, ligada à tradição bíblica e a um beatismo extremado, gerando um messianismo endêmico, que sempre fez perambular pelos sertões hordas de propagandistas da fé. E que não raro leva ao fanatismo. Algo a não estranhar se já em 1989, com o país à beira do caos econômico com uma inflação de 50% ao mês, um grande empresário garantia que somente uma guerra santa liderada por um herói com determinação resgatará a nação de todos os males. Investia na eleição à presidência de Fernando Collor de Melo. O mundo viu no que aquilo deu.

Euclides da Cunha ensaiou de início explicar o fenômeno de Canudos atribuindo-o ao fato de o sertão nordestino conter um amálgama de sub-raças que se extinguiriam no esmagamento das raças mais fracas pelas mais fortes, tese racista - alega-se em sua defesa - mais ou menos natural naquele tempo.

 

 

...

 

 

 

Segundo Euclides, na sua trajetória histórica – ou o que se queira – o Conselheiro, mas se poderia dizer também, o sertão Parou aí, indefinidamente, nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona mental onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos, e se acotovelam gênios e degenerados. Não a transpôs. Recalcado pela disciplina rigorosa de uma sociedade culta, a sua nevrose explodiria na revolta, o seu misticismo comprimido esmagaria a razão.

    Por isso para ele ou Antônio Conselheiro entrava na história ou no hospício. Movido talvez por um carisma demoníaco, no bom sentido, sua saga entrou para a história como um marco profundo e um profundo ferimento. Um mero matuto demente talvez, na visão de Euclides, tornou-se por vacilos da oligarquia um dos personagens mais perturbadores da História do Brasil, pivô à priori involuntário de um dos episódios mais extravagantes, equivocados e trágicos da indignacionalidade brasileira.

    Euclides explica a guerra como choque entre dois processos de mestiçagem: a litorânea e a sertaneja. O mestiço do sertão apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral em função do isolamento histórico e da ausência de componentes africanos, que tornariam sua evolução mais estável.

 

Mas para Ataliba Nogueira, em Antônio Conselheiro e Canudos (1974), Os [seus] sermões mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico retratado por Euclides: um sertanejo letrado, com posições políticas e religiosas vinculadas a um catolicismo devocional, frequente entre pregadores do Nordeste. Profetismo com seu ideal de martírio e o de salvação, não continha, ao contrário de Euclides, crenças sebastianistas ou esperanças milenaristas na criação do paraíso na terra.

Discurso organizado e coerente, perfeitamente lógico, uma vez aceitas as premissas religiosas.

Decidiu fundar o arraial em 1893 após quatro incidentes com as forças policiais da Bahia – encontra em Canudos pequeno núcleo de 50 casebres e dois negociantes e criadores. As terras pertenciam à capela de Santo Antônio, doadas pela família Garcia D’Ávila, uma das que mais terras possuiu ao longo de quase toda a história do Nordeste.

 

...

 

 

 

           UM BEATO  NORMAL, DENTRO DA  NORMALIDADE SERTANEJA

           UM BEATO ANORMAL, DENTRO DA ANORMALIDADE SERTANEJA

 

 

 

...

 

 

 

    Tudo poderá ter começado muitos anos antes do episódio de Chorrochó, em Quixeramobim, no Ceará, onde o futuro Conselheiro assistiu à morte do pai e do avô por pistoleiros contratados por um clã que acusava a família Maciel de pequenos furtos e partiu para a vendeta pessoal.

    Foi caixeiro viajante, escrivão de juiz, solicitador e requerente da Justiça. Seria a mulher, Brasilina, ao fugir ou ser raptada por um soldado da Guarda Nacional, a dar-lhe a sobrecarga emocional que adicionada à tremenda carga hereditária, no dizer engraçado de Euclides, levou-o a incessantes peregrinações e martírios pelos sertões, anos a fio a perder o traço

               Inhambupe, Bom Conselho

               Jacobina, Quixadá

               entre rios, belos montes

               quem é esse que vagueia

até alcançá-lo em Chorrochó, com preceitos de cristão montanhista e o aspecto sinistro de um messias de feira ensandecido.

   

    Por onde passa funda uma igreja. Ajuda a restaurar cemitérios. Patrocina batizados e novenas. Conta por enquanto com a condescendência da igreja católica face às práticas religiosas populares. Por ela não haveria nenhum problema.

    Como quase sempre nesses casos a hierarquia católica está com um pé cá e outro lá em relação ao fenômeno, no fundo a aplaudir os seus ataques à separação do Estado da Igreja e à instituição do casamento civil.

    Não era monarquista nem sebastianista. Apenas refutava como que por instinto o pseudo-laicismo do novo regime republicano, que quis pegá-lo como bode expiatório (ver o Bode Ioiô no Pátio dos Milagres do Padim Ciço) e acabou por fazer dele um mártir, um herói de caráter e colhões, sobretudo quando confrontado com o coronel Moreira César que dele seria o algoz – e de carreira, assim sendo, talvez presidente da República nomeado após um golpe militar – e acaba por ser sua maior vítima. De Conselheiro. E de si mesmo.

O Treme-Terra, o Anticristo, acabou por figurar na história como um borra-botas.

   

...

 

Ah, sim, Joana Imaginária...

Pois tanto quanto é dado saber 

Su existência, hasta ayer concebida como imaginativa

                                                           imaginária

continua imaginativa

Ela nem deixou rastros.

Ns narrativas das andanças do Conselheiro, mal aparece - a última mulher para quem TERIA olhado, logo desaparece. Não existem testemunhos. Ninguém a viu. Além do nome só se diz que ele se deve a que ela fazia imagens. De santos.

Fazia imagens do Santo Conselheiro?

É muito menos que Maria Madalena.

Euclides da Cunha nem a ela se refere.

Depois de Brasilina ter fugido com um cabo de polícia, por ele não há mais mulheres na vida dele e diz apenas que não lhes dirigiu mais o olhar. Nem às beatas velhas que o assistiam como a um papa. 

 

 

    Idolatrado e seguido em procissão por homens, mulheres e crianças, pobres e latifundiários, gente honesta e jagunços, o Conselheiro funda numa fazenda abandonada as margens do rio Vaza-Barris, no lugar de Canudos, o céu do sertão, uma escada para o céu - um lugar de onde se vislumbraria a terra da promissão, lá onde corre um rio de leite e as barrancas são de cuscuz de milho - o nosso reino, como definia a sua Belo Monte.

   Do alto do morro da Favela – a favela primordial brasileira – o repórter Euclides avistou uma Tróia de taipa

Uma Meca de Barro

sem saneamento, um monstruoso anfiteatro rodeado de montanhas de onde um total de 13 mil homens desferiu três ataques em menos de um ano, já que o primeiro foi barrado em Uauá.

   

No último deles, cerca de oito mil soldados arregimentados do norte ao sul do país (des)apoiados por um canhão Withworth 32, que os jagunços apelidaram de Matadeira e que acabaria por servir apenas para arrasar as torres da igreja nova de Canudos.

    Ou se destrói Canudos ou o Brasil vai ver a República por um canudo, disse-se naquele 1897 marcado pelo sentimento de derrota de parte a parte. Deleta Cartago.  

    Os republicanos estavam em apuros e nada mudou: em vez de impulsionar as reformas estruturais, como a reforma agrária, a oligarquia da terra tratou de preservar os seus seculares direitos de donos de sesmarias e  terra-tenentes. Sem temor a Deus.

 

    A Canaã nordestina era muito pior que as favelas de hoje, asseguram historiadores. Uma casa rudimentar como aquelas, de paus, barro cru e folhas de coqueiro secas, custa hoje uns 200 reais. E como tem disso ainda hoje no Nordeste brasileiro. Juntas, as 5200 casas lembrariam, segundo um historiador, os aldeamentos dos gauleses à época de César, sem ruas mas com filas tortuosas de casebres, réplica de burgo medieval: a favela brasileira de hoje.

   

    Repartições dos governos provincial e federal eram proibidas em Canudos, que escorraçava os cobradores de impostos da República.

     Cada morador deveria doar dois terços de seus bens a um fundo comunitário destinado ao atendimento dos mais necessitados. Alguns fazendeiros das imediações doavam gado ou dinheiro. A bebida era proibida. O trabalho era dividido de modo a que os homens cuidassem das roças e as mulheres das lides domésticas. Não era crime punível pelas férreas leis do Conselheiro um estupro, por exemplo, e sim faltar às orações diárias em que o Conselheiro falava em tom baixo e calava todo mundo.

    

 

...

 

 

    Não se tem idéia do que ter levado a tamanha violência em Canudos, onde a cidade atacou inapelavelmente o campo numa suposta luta entre o moderno e o arcaico, duas faces do mesmo país - dois Brasis, onde no entanto uma se confundiria com a outra, e vice-versa - num embate desigual que se afigura um extermínio em massa.

    A ordem do presidente da República Prudente de Moraes ao comando da quarta e última expedição foi para que não ficasse pedra sobre pedra. Documentos da época mostram o crescente pavor do clero e dos governantes locais pela ameaça para eles representada pelo lunático que anunciava o fim do mundo em 1900, líder da que em apenas três anos transformara-se na segunda maior cidade da Bahia. O fenômeno Conselheiro contrariou todas as leis seculares, gerando até mesmo uma explosão demográfica em pleno semideserto.

    Atribui-se também a atitude radical dos governantes a uma luta de poder entre os civilistas, chefiados pelo que era o primeiro presidente civil brasileiro, também chamado pelo apelido de Prudente Demais, e os militaristas que comandaram a implantação da República. A gota d'água que fez transbordar um copo cheio de vergonha pelas derrotas nas campanhas anteriores foi o medo de que os jagunços do Conselheiro atacassem Juazeiro, porque um comerciante daquela cidade se recusava a enviar madeira já comprada para a conclusão das obras da igreja nova.

 

    Armados de espingardas, facas e paus os bravos jagunços, que tinham resistido a emboscadas e expedições do exército no último ano numa espécie de guerra de guerrilha, foram degolados no que Euclides da Cunha classificou de um crime monstruoso contra a nacionalidade brasileira. Conselheiro morreu provavelmente em consequência de um ferimento numa perna.

    O que há a combater e debelar é a seca, sentenciou seis anos depois o autor dos Sertões. Canudos não se rendeu; resistiu até o esgotamento, sublinhou.

    Muitas das cerca de trezentas mulheres e crianças com de oito a 15 anos de idade, feitas prisioneiras de guerra, foram vendidas para a prostituição depois de cada viela da colméia de taipa ter sido meticulosamente incendiada em derradeiro gesto de purificação, como rezam as crônicas.

    Conselheiro foi desenterrado do cemitério - onde não admitia o enterro de índios e negros - e sua cabeça enviada para Salvador para que fosse diagnosticado o seu estado de saúde mental. Os médicos concluíram que sua caixa encefálica era a de um homem são.

    O vale de Canudos foi inundado na década de 1980 pelas águas de um grande açude sem serventia, como tantos outros no sertão contemporâneo. Construído talvez não para matar a sede mas para apagar da memória um dos episódios mais chocantes da história do "país da cordialidade" e da bonomia. E encher os bolsos dos eminentes políticos.

    Mas nem mesmo ali o sertão virou mar. Com a seca no sertão de Canudos e o enxugamento do Açude do Cocorobó, em setembro de 1996, no centenário do primeiro ataque militar a Canudos, o que restou de Belo Monte - as ruínas da igreja nova e o cemitério - reemergiu das águas. Talvez para lembrar que a cidadela do Conselheiro não se rendeu. Resistiu até o esgotamento e queimou como uma danação bíblica.    

 

 ...

 

 

xique-xique xeque-xeque

xoque-xoque prucumpum

arremate chuta a bola

troque-troque belzebu

 

belzebu dos montes claros

como a luz desse sertão

zéque-zéque toca a mula

montes santos de montão

  ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

RELIGIÃO MESTIÇA E RELIGIOSIDADE SERTANEJA  CATOLICISMO POPULAR NO NORDESTE E ANTÔNIO CONSELHEIRO EM OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA

a partir do texto original da terceira edição de acordo com as revisões feitas pelo próprio Euclides da Cunha num exemplar que está na Academia Brasileira de Letras   

OS SERTÕES, 3ª EDIÇÃO: RIO DE JANEIRO, LAEMMERT, 1905

EM OUTRA PÁGINA revoluciomnibus.com  ACESSÍVEL A PARTIR DAQUI

&

RELIGIOSIDADE SERTANEJA E BRASILEIRA ONTEM E HOJE - UMA REFLEXÃO SOBRE TEOLOGIA, PREGADORES E SEGUIDORES A PARTIR DA ABORDAGEM DO TEMA POR EUCLIDES DA CUNHA DA CUNHA EM 

         Os Sertões

EM OUTRA PÁGINA revoluciomnibus.com  ACESSÍVEL A PARTIR DAQUI

 

 

RELIGIÃO MESTIÇA E RELIGIOSIDADE SERTANEJA  CATOLICISMO POPULAR NO NORDESTE E ANTÔNIO CONSELHEIRO EM OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA

[108]        RELIGIÃO MESTIÇA      

Está na fase religiosa de um monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate o feiticismo do índio e do africano. É o homem primitivo, audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas. (...) as benzeduras cabalísticas para curar os animais, para amassar e vender sezões; todas as visualidades, todas as aparições fantásticas, todas as profecias esdrúxulas de messias insanos; e as romarias piedosas; (...) todas as manifestações complexas de religiosidade indefinidas são explicáveis.

        FATORES HISTÓRICOS DA RELIGIÃO MESTIÇA      

Ali estão, francos, o antropismo do selvagem, o animismo

[109] do africano e, o que é mais, o próprio aspecto emocional da raça superior, na época do descobrimento e da colonização.

     Este último é um caso notável de atavismo, na história. 

     Considerando as agitações religiosas do sertão e os evangelizadores e messias singulares, que, intermitentemente, o atravessam, ascetas mortificados de flagícios, encalçados sempre pelos sequazes numerosos, que fanatizam, que arrastam, que dominam, que endoidecem - espontaneamente recordamos a fase mais crítica da alma portuguesa, a partir do final do século XVI, quando, depois de haver por momentos centralizado a história, o mais interessante dos povos caiu, de súbito, em decomposição rápida, mal disfarçada pela corte oriental de D. Manuel.

     O povoamento do Brasil fez-se intenso com D. João III, precisamente no fastígio de completo desequilíbrio moral, quando "todos os terrores da Idade Média tinham cristalizado no catolicismo peninsular".

     Uma grande herança de abusões extravagantes, extinta na orla marítima pelo influxo modificador de outras crenças e de outras raças, no sertão ficou intacta. (...) Vinham cheias daquele misticismo feroz em que o fervor religioso reverberava à cadência forte das fogueiras inquisitoriais, lavrando intensas na Península. (...) E da mesma gente que após Alcácer Quibir, em plena "cachexia nacional", segundo dizer vigoroso de Oliveira Martins, procurava, ante a ruína iminente, como salvação única, a fórmula superior das esperanças mesiânicas.

     De feito, considerando as desordens sertanejas, hoje, e os messias insanos que as provocam, irresistivelmente nos assaltam, empolgantes, as figuras dos profetas peninsulares de outrora.

[110] Imóvel o tempo sobre a rústica sociedade sertaneja, despeada do movimento geral da evolução humana, ela respira ainda na mesma atmosfera moral dos iluminados que encalçavam, doidos, o Miguelinho ou o Bandarra. Nem lhe falta, para completar o símile, o misticismo político do Sebastiasnismo. Extinto em Portugal, ele persiste todo, hoje, de modo singularmente impressionador, nos sertões do norte.

      CARÁTER VARIÁVEL DA RELIGIOSIDADE SERTANEJA       

     Estes estigmas atávicos tiveram, entre nós, favoráveis, as reações do meio, determinando psicologia especial.

É uma variável dependente no jogar dos elementos. Da consciência da fraqueza para os debelar Em paragens mais benéficas a necessidade de uma tutela sobrenatural não seria tão imperiosa.

É que, mesmo em períodos normais, a sua religião é indefinida e vária. Da mesma forma que os negros Haussás, adaptando à liturgia todo o ritual iorubano, realizam o fato anômalo, mas vulgar mesmo na capital da Bahia, de seguirem para as solenidades da Igerja por ordem dos feiços, os sertanejos, herdeiros infelizes de vícios seculares, saem das missas consagradas para ágapes selvagens de candomblés africanos ou poracês do tupi. 

[donde talvez o pasto para evangelizadores puritano-protestantes?] [a sanha e o argumento]

[111]    A "PEDRA BONITA"      

     As agitações sertanejas, do Maranhão à Bahia, não tiveram ainda um historiador.

Pageú, em Pernambuco, (...) na serra Talhada, dominando majestosa, toda a região em torno e convergindo em largo anfiteatro acessível apenas por estreita garganta, entre muralhas a pique. No âmbito daquele, como púlpito gigantesco, ergue-se um bloco solitário - a Pedra Bonita.

em 1837, teatro de cenas que recordam as sinistras solenidades religiosas dos Achantis. Um mamaluco ou cafuz, um iluminado, ali congregou toda a população dos sítios convizinhos e, engrimpando-se à pedra, anunciava, convicto, o próximo advento do reino encantando do rei D. Sebastião. Quebrada a pedra, a que subira, não a pancadas de marreta, mas pela ação miraculosa do sangue das crianças, esparzido sobre ela 

[112] em holocausto, o grande rei irromperia envolto de sua guarda fulgurante, castigando, inexorável, a Humanidade ingrata, mas cumulando de riquezas os que houvessem contribuído para o desencanto.  

A alma de um matuto é inerte ante as influências que a agitam. De acordo com estas pode ir da extrema brutalidade ao máximo devotamento.

           MONTE-SANTO

- do século XVII, quando as descobertas das minas (...) os aventureiros que ao norte investiam com o sertão, a finais do século XVIII:] descobriu-a um missionário - Apolônio de Todi (...) o maior apóstolo do norte (...) achando-a semelhante ao Calvário de Jerusalém", que planejou logo a ereção de uma capela - [e foi ele que a batizou de Monte-Santo

[113] a extensa via sacra de três quilômetros de comprimento, em que se erigem, a espaços, vinte e cinco capelas de alvenaria, encerrando paineis dos passos, (...) é um prodígio de engenharia rude e audaciosa 

     À medida que ascende, ofegante, estacionando nos passos, o observador depara perspectivas que seguem num crescendo de grandezas soberanas: primeiro, os planos das chapadas e tabuleiros, esbatidos em baixo em planícies vastas; depois, as serranias remotas, agrupadas, longe, em todos os quadrantes; e, atingido o alto, o olhar a cavaleiro das serras - o espaço indefinido, a emoção estranha da altura imensa, realçada pelo aspecto da pequena vila, em baixo,

[114]   AS MISSÕES ATUAIS  

     Infelizmente, o apóstolo não teve continuadores. Salvo raríssimas exceções o missionário moderno é um agente prejudicialíssimo no agravar todos os desequilíbrios do estado emocional dos tabareus. (...) a sua ação (...) destrói, apaga e perverte o que incutiram de bom naqueles espíritos ingênuos os ensinamentos dos primeiros evangelizadores (...) não aconselha e consola, aterra e amaldiçoa; não ora, esbraveja. (...) uma emboscada armada à credulidade incondicional dos que o escutam. (...) não alevanta a imagem arrebatadora dos céus; descreve o inferno truculento e flanívulo, numa algaravia de frases rebarbativas a que completam gestos de maluco e esgares de truão.

     É ridículo e medonho. Tem o privilégio estranho das bufonerias melodramáticas. As parvoíces saem-lhe da boca trágicas.

     Não traça ante os matutos simples a feição honesta e superior da vida - não a conhece; mas brama em todos os tons contra o pecado; esboça grosseiros quadros de torturas; e espalha sobre o auditório fulminado avalanches de penitências, extravagando largo tempo, em palavrear interminável, fungando as pitadas habituais e engendrando catástrofes, abrindo alternativamente a caixa de rapé e a boceta de Pandora...

     E alucina o sertanejo crédulo; alucina-o, deprime-o, perverte-o.

  OS "SERENOS"  

Deus o dissera - em mau português, em mau italiano, em mau latim - estava farto dos desmandos da Terra.  (...) - Pedra Bonita: o Reino Encantado, Araripe Júnior.

[116] ANTÔNIO CONSELHEIRO,  DOCUMENTO VIVO DO ATAVISMO   

É natural que estas camadas profundas da nossa estratificação étnica se sublevassem num anticlinal extraordinária - Antônio Conselheiro.

o historiador só pode avaliar a altitude daquele homem, que por si nada valeu, considerando a psicologia da sociedade que o criou. 

Isolado, ele se perde na turba dos nevróticos vulgares. Pode ser incluído numa modalidade qualquer de psicose progressiva. Mas posto em função do meio, assombra. É uma diatese, e é uma síntese. (...)

     Todas as crenças ingênuas, do feiticismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja, se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante. Ele foi, simultaneamente, o elemento ativo e passivo da agitação de que surgiu. O temperamento mais impressionável apenas fê-lo absorver as crenças ambientes, a princípio numa quase passividade pela receptividade mórbida do espírito torturado de reveses, e elas refluíram, depois, mais fortemente, sobre o próprio meio de onde haviam partido, partindo da sua consciência delirante.

     É difícil traçar no fenômeno a linha divisória entre as tendências pessoais e as tendências coletivas; a vida resumida do homem é um capítulo da vida de sua sociedade...

     Considerando, em torno, o falso apóstolo, que o próprio excesso de subjetivismo predispusera à revolta contra a ordem natural, como que observou a fórmula do próprio delírio. Não era um incompreendido. A multidão aclamava-o representante natural das suas aspirações mais altas. Não foi, por iso, além. Não deslizou para a demência. No gravitar contínuo para o mínimo de uma curva, para o completo obscurecimento da razão, o meio reagindo por sua vez amparou-o, corrigindo-o, fazendo-o estabelecer encadeamento nunca destruído nas mais exageradas concepções, certa ordem no próprio desvario, coerência indestrutível em todos os atos e disciplina rara em todas as paixões, de sorte que ao atravessar, largos anos,nas práticas ascéticas, o sertão alvorotado, tinha na atitude, na palavra e no gesto, a tranquilidade, a altitude e a resignação soberana de um apóstolo antigo. 

(...)

Em seu desvio ideativo vibrou sempre, a bem dizer exclusiva, a nota étnica. Foi um documento raro de atavismo.

 UM GNÓSTICO BRONCO  

Os traços mais típicos do seu misticismo bronco (...) vimo-los há pouco, de relance, em período angustioso da vida portuguesa.

[118]         UM GRANDE HOMEM PELO AVESSO  

[o] meio em que agiu (...) fortaleceu-o. Era o profeta, o emissário das alturas (...) arrastando a carcaça claudicante (...) mas de algum modo lúcido em todos os atos, (...) 

[119] Parou aí indefinidamente, nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona mental onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos e se acotovelam gênios e degenerados. Não a transpôs. Recalcado pela disciplina rigorosa de uma sociedade culta, a sua nevrose explodiria na revolta, o seu misticismo comprimido esmagaria a razão. 

         REPRESENTANTE NATURAL DO MEIO EM QUE NASCEU 

(...)

O fator sociológico, que cultivara a psicose mística do indivíduo, limitou-a sem comprimir, numa harmonia salvadora.

(...)

      ANTECEDENTES DA FAMÍLIA: OS MACIÉIS

nos sertões entre Quixeramobim e Tamboril Maciéis X Araújos [citação:] "vieram a fazer parte dos grandes fastos criminais do ceará, em uma guerra de família. (...) dois homens desiguais na fortuna e posição social" (...) são um episódio apenas entre as razias, quase permanentes da vida turbulenta dos sertões. (...) que ressaltam, evidentes, a prepotência sem freios dos mandões de aldeia e a exploração pecaminosa por eles exercida sobre a bravura instintiva do sertanejo.

[120]   LUTAS ENTRE MACIÉIS E ARAÚJOS  

Surgiu de (...) pequenos roubos cometidos pelos Maciéis (...) 

Araújos:

Criadores opulentos, senhores de baraço e cutelo, vezados a fazer justiça por si mesmos, (...) chamaram a postos a guarda pretoriana dos capangas. (...) 1833 (...) e um cangaceiro terrível, Vicente Lopes de Aracabiassu. 

morre ali um avô do Conselheiro

[121] numa choupana abandonada, coberta de ramos de oiticica

[123] UMA VIDA BEM AUSPICIADA      

Conselheiro: Antônio Vicente Mendes Maciel

[124] um enlace que lhe foi nefasto

       PRIMEIROS REVESES       

1859: Sobral, caixeiro, em Ipú escrivão de paz, solicitador de requerente no forum, depois em Campo Grande 

A mulher foi a sobrecarga adicionada à tara hereditária (...) Ia-se-lhe (...) na desarmonia do lar, a antiga serenidade

[125] A QUEDA

Foge-lhe a mulher em Ipú, raptada por um policial. (...) Fulminado pela vergonha (...) procura o recesso dos sertões, onde não lhe sabiam o nome: o abrigo da absoluta obscuridade. (...) para o sul do Ceará [mais] para o sul, à toa, na direção do Crato. E desaparece...

     Passaram-se dez anos

    COMO SE FAZ UM MONSTRO

E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos compridos até os ombros (...) 

[descrição acima em Quem é esse que vagueia...]

 (...) Um velho caboclo, preso em Canudos nos últimos dias de campanha, disse-me (...) sem precisar datas (...). Conhecera-o nos sertões de Pernambuco, um ou dois anos depois da partida do Crato. (...)  aquele velho singular, 

[126] de pouco mais de trinta anos, (...) No seio de uma sociedade primitiva que pelas suas qualidades étnicas e influxo das santas missões malévolas compreendia melhor a vida pelo incompreendido dos milagres (...) Precisava de alguém que lhe traduzisse a idealização indefinida, e a guiasse nas trilhas misteriosas para os céus.

    PEREGRINAÇÕES E MARTÍRIOS 

Dos sertões de Pernambuco passou aos de Sergipe (...) Itabaiana, 1874

{127] 

[como se vestia, o que levava]

(...) nos sertões, ao norte da Bahia. Ia-lhe custando o prestígio. (...) Encalçavam-no na rota desnorteada os primeiros fiéis. (...) no geral, gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho, farândula de vencidos da vida, vezada à mândria e à rapina. (...) um oratório tosco, de cedro, encerrando a imagem de Cristo. (...) Entravam com ele, triunfalmente erguido, pelos vilarejos e povoados, num coro de ladaínhas. Assim se apresentou o Conselheiro, em 1876, na vila de Itapicurú de Cima. Já tinha grande renome. 

[citação de ANUÁRIO Folhinha Laemmert, Rio de Janeiro, 1877]

    LENDAS 

[é preso]

diziam-no assassino  da esposa e da própria mãe. 

[E que lenda!]

[128] O ASCETA 

Sonda, perscruta, esquadrinha. E surpreende a cada curva, com visões de ângulos necessárias para a compreensão do fenômeno

em 1876 a repressão legal o atingiu quando (...) O asceta despontava, inteiriço, da rudeza disciplinar de quinze anos de penitência 

descrição incrível! soberba!! inigualável!!! 

do tirocínio brutal da fome, da sede, das fadigas, das angústias recalcadas e das misérias fundas. ( ...) Para quem estava neste tirocínio de amarguras, a ordem de prisão era incidente 

[129] mínimo. (...) levaram-no à capital da Bahia. (...) embarque para o Ceará 

é recambiado

(...) reconhecida a improcedência da denúncia (...) E no mesmo ano reaparece na Bahia (...) estacionando 

1877

de preferência em Chorrochó (...) cuja feira movimentada congrega a maioria dos povoadores daquele trecho do S. Francisco. (...) De 1877 a 1887 erra por aqueles sertões 

[130] (...) Inhambupe, Bom Conselho... (...) 

promovendo benefícios em cemitérios e construção e restaurações de igrejas

(...) A sua entrada nos povoados, seguido pela multidão contrita, em silêncio, alevantando imagens, cruzes e bandeiras do Divino, (...) eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando (...)

    AS PRÉDICAS 

Uma oratória bárbara e arrepiadora 

[online, trechos acima em Quem é esse que vagueia...]

     Era truanesco e era pavoroso. 

     Imagine-se um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse... 

[trecho online acima]

(...) e o olhar - uma cintilação ofuscante... [131] Ninguém ousava contemplá-lo. (...) em que fazia vitoriosa concorrência aos capuchinhos vagabundos das missões, estadeava o sistema religioso incongruente e vago. (...) adoudados, chefes de seita dos primeiros séculos, nota-se a revivescência integral de suas aberrações extintas. (...) O retrógrado do sertão reproduz o fácies dos místicos do passado.

    PRECEITOS DE MONTANHISTA  

Insurge-se contra a Igreja romana, e vibra-lhe objurgatórias, estadeando o mesmo argumento que aquele 

Themison:

ela perdeu a sua glória e obedece a Satanás. (...) 

J O A N A  I M A G I N Á R I A

 Nunca mais olhou para uma mulher. Falava de costas mesmo às beatas velhas (...)

[132] PROFECIAS  

esmaniado apóstolo sertanejo. Como os montanhistas (...) O mesmo milenarismo extravagante, o mesmo pavor do anticristo despontando na derrocada universal da vida. (...) 

* Os dizeres destas profecias estavam escritos em grande número de pequenos cadernos encontrados em Canudos (...) 

     "... Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão; então o certão virará praia e a praia virará certão.

     "Em 1897 haverá muito pasto e pouco rastro e um só pastor e um só rebanho.

     "Em 1898 haverá muitos chapéos e poucas cabeças.

     "Em 1899 ficarão as águas em sangue e o planeta hade aparecer no nascente com o raio de sol que o ramo se confrontará na terra e a terra em algum lugar se confrontará no céu...

     "Hade chover uma grande chuva de estrellas e ahi será o fim do mundo. Em 1900 se apagarão as luzes. Deus disse no Evangelho: eu tenho um rebanho que anda fora deste aprisco e é preciso que se reunam porque ha um só pastor e um só rebanho!"

      (...) "na hora nona, descançando no monte das Oliveiras um dos seus apóstolos perguntou: Senhor! para o fim desta edade que signaes vós deixaes?

     "Elle respondeu: muitos signaes na Lua, no Sol e nas Estrelas. Hade apparecer um Anjo mandado por meu pae terno, pregando sermões pelas portas, fazendo povoações nos desertos, fazendo egrejas e capelinhas e dando seus conselhos..."

[133] 

     E no meio desse extravagar adoudado, rompendo de entre o messianismo da raça levando-o à insurreição contra a forma republicana:

     "Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prussia com a Prussia, das ondas do mar D. Sebestião sahirá com todo o seu exército.

 (...)

     "Neste dia quando sahir com o seu exército tira a todos no fio da espada deste papel da Republica.

(...)"

 

    UM HERESIARCA DO SÉCULO II EM PLENA IDADE MODERNA  

este voltar-se à idade de ouro dos apóstolos e sibilitas (...) reproduz-se em toda a história (...) na mesma rebeldia contra a hierarquia eclesiástica, na mesma exploração do sobrenatural, e no mesmo ansiar pelos céus, a feição primitivamente sonhadora da velha religião, antes que a deformassem os sofistas canonizados dos concílios. 

[134]TENTATIVAS DE REAÇÃO LEGAL   

penitências (...) de ordinário redundavam em benefício das localidades. Reconstruíam-se templos abatidos; renovavam-se cemitérios em abandono; erigiam-se construções novas e elegantes. Os pedreiros e os carpinteiros trabalhavam de graça; os abastados forneciam, grátis, os materiais indispensáveis; o povo carregava pedras. (...)

     E terminada a empresa o predestinado abalava... para onde? Ao acaso, tomando a primeira vereda, pelos sertões em fora, pelas chapadas multivias, sem olhar sequer para os que o encalçavam. 

     Não o contrariava o antagonismo de um adversário perigoso, o padre (...)

porque o Conselheiro

promovia todos os atos de onde saem os rendimentos do clero (...)

Euclides da Cunha reproduz trechos de Descrições Práticas da Província da Bahia, do Tenente-coronel Durval Vieira de Aguiar, de que é aqui destacada a descrição:

     "Quando por ali passamos (no Cumbe, em 1887) achava-se na povoação um célebre Conselheiro, sujeito baixo, moreno, acaboclado, de barbas e cabelos pretos e crescidos, vestido de camisolão azul, morando sozinho numa desmobilada casa, onde se apinhavam as beatas e afluíam os presentes com os quais se alimentava..."

(...)

(...) em 1882, o arcebispo da Bahia, procurando pôr termo a essa transigência, senão maldisfarçada proteção, (...) 

dirigiu circular a todos os párocos alertando-os contra aquele que difundia

"(...) doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que está perturbando as consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párocos destes lugares (...)"

(...) Foi inútil a intervenção da Igreja. (...) E como se desejasse reviver sempre a lembrança da primeira perseguição sofrida, volve constantemente a Itapicuru, cuja autoridade policial, por fim, apelou aos para os poderes constituídos, em ofício onde (...) disse

o delegado local ao chefe da polícia da Bahia em novembro de 1886:

(...) "é acompanhado por centenas de pessoas (...)  

(...) o fanatismo não tem limites (...) adoram-no como se fosse um Deus vivo. 

     Nos dias de sermões, terços e ladainhas, o ajuntamento sobe a mil pessoas. Na construção desta capela, cuja féria semanal é de quase cem mil réis, décuplo do que devia ser pago, estão empregados cearenses, aos quais Antônio Conselheiro presta a mais cega proteção, tolerando e dissimulando os atentados que cometem, e esse dinheiro sai dos crédulos e ignorantes (...)"

[136] 

(...) "Faz medo aos transeuntes passar por alto, vendo aqueles malvados munidos de cacetes, facas, facões, clavinotes;"

(...) Nenhuma providência se tomou até meados de 1887, quando a diocese da Bahia 

oficiou

ao presidente da província, pedindo providências que contivessem o "indivíduo Antönio Vicente Mendes Maciel que, pregando doutrinas subversivas, fazia um grande mal à religião e ao Estado, distraindo o povo de suas obrigações e arrastando-o após si, procurando convencer de que era o Espírito Santo, etc." (...) o presidente dirigiu-se ao ministro do império, pedindo um lugar para o tresloucado no hospício de Alienados do Rio. O ministro respondeu (...) contrapondo o notável argumento de não haver, naquele estabelecimento, lugar algum vago (...) 

MAIS LENDAS   

(...) Fundou o arraial de Bom Jesus (...) 

(...) chegou a Monte-Santo e determinou que se fizesse uma procissão pela montanha acima, até a última capela, no alto. 

o narrador diz ter tido descrição de "pessoas que se não haviam deixado fanatizar" que no fim do préstito

[137] Duas lágrimas sangrentas rolam, vagarosamente, no rosto imaculado da Virgem Santíssima...

  (...) Espécie de grande homem pelo avesso, (...) reunia no misticismo doentio os erros e superstições que foram o coeficiente de redução da nossa nacionalidade. (...) Arrastava o povo sertanejo não porque o dominasse, mas porque o dominavam as aberrações daquele. (...) [outra descrição do Conselheiro:] longos cabelos despenteados pelos ombros, longas barbas descendo pelo peito; uma velha figura de peregrino a que não faltavam o crucifixo tradicional, suspenso a um lado entre as camandulas da cintura, e o manto poento e gasto, e a borracha de água, e o bordão comprido...

[138] HÉGIRA PARA O SERTÃO   

     Iam-no tornando mau. 

     Viu a República com maus olhos e pregou, coerente, a rebeldia contra as novas leis. Assumiu desde 1893 uma feição combatente inteiramente nova. 

     Originou-a fato de pouca monta.

     Decretada a autonomia dos municípios, as Câmaras das localidades do interior da Bahia tinham afixado nas tábuas tradicionais, que substituíam a Imprensa, editais para a cobrança de impostos, etc.

     Ao surgir esta novidade Antônio Conselheiro estava em Bom Conselho. Irritou-o a imposição; e planejou revide imediato. Reuniu o povo num dia de feira e, entre gritos sediciosos e estrepitar de foguetes, mandou queimar as tábuas numa fogueira, no largo. Levantou a voz sobre o "auto de fé", que a fraqueza das autoridades não impedira, e pregou abertamente a insurreição contra as leis. 

     Avaliou, depois, a gravidade do atentado.

     Deixou a vila, tomando pela estrada de Monte-Santo, para o norte.

     O acontecimento repercutira na Capital, de onde partiu numerosa força de polícia 

de trinta praças, bem armadas, que em Massetê dá de frente

com os jagunços destemerosos. Foram inteiramente desbaratadas, precipitando-se na fuga, de que fora o primeiro a dar exemplo o próprio comandante.

(...)

     Realizada a façanha, os crentes acompanharam, reatando a marcha, a hégira do profeta. Não procuravam mais os povoados, como dantes. Demandavam o deserto.

 

                     

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