GUIA A LEITURAS DE OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA E DOS SERTÕES DO NORTE HOJE ONLINE E ON THE ROAD       

 

            Os Sertões

 

                                      

                                                                                                            NOTAS À 3ª EDIÇÃO

                                                                                            27-4-1903

[467]         

este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque [aos] singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiquezas

[468]        

                Neste salto mortal de 466 páginas

[469]        

E compreendo que Antônio Conselheiro repontasse como uma "integração de caracteres diferenciais, vagos e indefinidos, mal percebidos quando dispersos pela multidão" - e não como simples caso patológico, porque a sua figura de pequeno grande homem se explica precisamente pela circunstância rara de sintetizar, de uma maneira empolgante e sugestiva, todos os erros, todas as crendices e superstições, que são o lastro do nosso temperamento. 

                                

 

                                  NOTA PRELIMINAR

[5]     Intentamos esboçar (...) os traços atuais mais expressivos das subraças sertanejas do Brasil. E fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexos, de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tornam talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização (...)

      O jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo e o caipira simplório serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes ou extintas.

     Campanha de Canudos (...) um primeiro assalto em luta talvez longa (...) [na luta dessa] implacável "força motriz da História" que Gumplowicz, maior do que Hobbes, (...) lobrigou (...) no inevitável esmagamento das raças fracas pelas fortes.

     Campanha lembra um refluxo para o passado (...) e foi, na significação integral da palavra, um crime.

                                                                                              São Paulo, 1901

Desde o século XVII o sertão tornou-se um grande pasto natural: embora a água fosse escassa a terra era vasta e plana. Sua produção de carne e couro era consumida em toda a Colônia (...). A vastidão do território e a necessidade de pouca mão-de-obra para tocar a produção criaram uma cultura regional bastante diferente da litorânea, conhecida como "cultura sertaneja" ou "civilização do couro".

 

É aqui nesta terra de Deus que fundo nosso império do Belo Monte e vamos viver em paz até chegarem os soldados do anticristo. Quando chegarem, o certão vai virar praia e a praia vai virar certão.

 

                                        

 

 

 

 

                De     Os Sertões

 

 

 

 

  Tanquinho: Esse logar maldicto   

      A Província de São Paulo

     22 de setembro de 1897

     - chegada de Euclides da Cunha

          a Canudos

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                              

 

                 Os Sertões               Euclides da Cunha & Os Sertões

                   O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

 Canudos Hoje: Tendão dos Milagres X O Amuleto de Ogum   

 

 

                                                  

          uma série revoluciomnibus.com que inclui também

  TRISTERESINA  

      BANGUE-BANGUE

      NA  TERRA DO SOL

 

           

           duna 

   do pôr do sol

Coriscos & Dadás Lampiões &  Marias Bonitas

  Até calango pede sombra  

 

 

 

GLAUBER ROCHA OU A POÉTICA DA LUZ DO SERTÃO NO CINEMA NOVO BRASILEIRO  

 

A INDÚSTRIA 

DA SECA

 

No Pátio dos Milagres do Padim Ciço

O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

INDISSECA

   índice remissivo

 

                                                                                            

 

                 Os Sertões               Euclides da Cunha & Os Sertões

                   O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

 Canudos Hoje: Tendão dos Milagres X O Amuleto de Ogum   

        

Se o Brasil fosse os Estados Unidos e produzisse filmes como Hollywood, haveria aqui mais filmes com Moreira César e Pajeú, Tamarindo e João Abade do que há nos Estados Unidos com o general Custer e Touro Sentado. Canudos, entre outras coisas, é uma esplêndida história, com uma trama de emoções e imprevistos.

 e é essa a forte impressão que Euclides da Cunha dá sobretudo quando narra a derrocada da armada de brancaleone da expedição Moreira César - em que inapelavelmente o leitor se vê torcendo pelos índios ou foras-da-lei da situação...

        O filme A Guerra de Canudos está em Os Sertões de Euclides da Cunha. Faltando só filmá-lo.

 

CANUDOS

   BRASIL

     1897

Toda e qualquer aventura nos sertões do norte (Nordeste) começa - e acaba? - em Os Sertões de Euclides da Cunha

Embora haja muitos que garantam que Os Sertões prejudica o conhecimento da comunidade

Prógonos e epígonos. Machado, Euclides da Cunha e depois

seus sucessores, ensaístas, poetas e romancistas.

Ele abriu as porteiras - e as fronteiras - para toda a espécie de especulação, conjetura - Grande Sertão:Veredas - foi o primeiro a falar delas. Nonada. Do nada. 

Até agora foi o primeiro e único a produzir O épico. 

E cada um junta sua acha, o seu acho.

Alguns analistas consideram que Os Sertões prejudica o conhecimento da comunidade. Outros observam que  Euclides da Cunha foi o primeiro a descer a fundo na alma nativa ao captar o transe alucinado da campanha militar

Sem a intervenção da arte é impossível transmitir aos pósteros a sensação exata do que se passou. Só a arte sabe perpetuar o que foi a vida. Canudos teve a sorte de topar em seu caminho um estilo a serviço de uma consciência. Não fora isso, e o drama lá estaria até hoje reduzido à mentiralha de encomenda dum relatório tendencioso, apologético para o vencedor, capaz de meter na história, como heróis, gente que Euclides atou ao pelourinho. 

                                                                                                             Monteiro Lobato

Canudos estava destinado a ser enterrado em cova rasa na vala comum da história não fosse (...) Euclides da Cunha [e] Os Sertões, talvez o maior clássico da literatura brasileira.

 

     Canudos, Brasil ?   Canudos, Brasil : 

   de capitão a marechal para cortar o mal da Favela pela raiz 

 

                     

                 BRASIL VÊ REPÚBLICA POR UM CANUDO

                 BRASIL CANUDOS HÁ MAIS DE 100 ANOS 

Canudos, Brasil? Canudos, Brasil há mais de cem anos: de capitão a marechal para cortar o mal da Favela pela raiz desde 1896-97:

  diligência policial comandada pelo capitão Virgílio Pereira de Almeida, desbaratada.

  1ª expedição comandada pelo tenente Pires Ferreira, vencido em Uauá

  2ª expedição comandada pelo major Febrônio de Brito, vencido no Cambaio

  3ª expedição comandada. pelo coronel Moreira César, morto em Canudos

  4ª expedição comandada. pelo general Arthur Oscar

  com o apoio do marechal Bittencourt, Ministro da Guerra do governo de Prudente de Moraes

 

 

 

 CANUDOS

   BRASIL

     1897

 

 

 Como a descreve Euclides, uma tapera amedronta dora,

      Afeitos às proporções exíguas das cidades sertanejas, tolhiças e minúsculas, assombrava-os aquela espécie de Babilônia de casebres, avassalando colinas. 

      Canudos tinha naquela ocasião - foram uma a uma contadas depois - cinco mil e duzentas casas vivendas.

 Como a descreve Henrique Duque-Estrada de Macedo, tenente participante da campanha, no relato Guerrra de Canudos, publicado em 1903, 

       Nesse tempo, quem da Favela olhasse Canudos, veria a edificação encaminhar-se de Norte e Oeste, espraiando-se pelas devesas, galgando morros, obstruindo vales. Aleijados, doentes, cegos, e macróbios, também para lá convergiram. Em pouco tempo se viam seis e quinhentas habitações e trinta mil seres se agitavam promíscua mente. 

         

 os "canudólogos" dão pouca ou nenhuma importância aos antecedentes e coincidentes regionais-locais devidamente contextualizados e esmiuçados por Euclides da Cunha no intróito a A LUTA.

Quase ao mesmo tempo menosprezam o enquadramento histórico que faz do fenômeno de Canudos de que emerge uma realidade para a qual o Brasil esteve alheio até pelo menos o fim da ditadura militar 1964-1985, a de um país cuja história não é a de "três raças muito tristes"e "ordeiras" mas que também "pega, mata e come" e se sublevam contra toda a sorte de escravidão. E pois que Sem o entendimento do meio seria difícil explicar a sublevação antirrepublicana do Conselheiro ou o sentido social de Canudos, cujos antecedentes históricos, remontados às mesmas causas, se desenvolveram, no século XIX, [por exemplo], nas guerras civis da época da Regência: Cabanagem, no Amazonas e Pará; Balaiada, no Maranhão; Sabinada, Bahia; Revolta Praieira, Pernambuco e, em outra dimensão, no episódio dos fanáticos da Pedra Bonita, em Pernambuco, sacrificando crianças e mulheres em ritos idólatras, ou em outras "guerras sertanejas"de cariz diverso, como as da expulsão dos holandeses e a do quilombo de Zumbi, a que alude para ilustrar questões de estratégia militar que levaram ao prolongamento da guerra do sertão baiano

ANTECEDENTES, COINCIDENTES, CONTEXTO E ESMIUÇAMENTO DO PANORAMA NACIONAL QUANDO DA ECLOSÃO DE CANUDOS DEVEM TAMBÉM ESTAR PRESENTES 

1894 - passagem do poder de Floriano para Prudente de Morais. Começava o longo reinado das oligarquias que fez da República Velha um regime de que não podemos nos orgulhar. Moreira César, o carniceiro dos monarquistas do sul do país, era outro ícone florianista - e simbolizou (...) tudo o que podia haver de cruel e insano

O governo do marechal Floriano Peixoto, considerado o primeiro ditador de fato da história do Brasil, era inconstitucional: o artigo 42 dizia que se o presidente não completasse metade do mandato (Deodoro da Fonseca afastou-se antes desse prazo) novas eleições deveriam ser convocadas

Tornou-se o Marechal de Ferro

O principal problema (...) que enfrentou em seus três anos como "vice-presidente em exercício" (assim ele assinava seus atos) foi a Revolução Federalista, que estourou no Rio Grande do Sul em fevereiro de 1893. Floriano tomou o partido de Júlio de Castilhos no confronto com os federalistas, os maragatos, unidos em torno de Gaspar Silveira Martins (prestigiosa figura do Partido Liberal nos tempos do império). Em fins de 1893, os integrantes da Revolta da Armada se uniram aos maragatos (...) e tomaram a cidade de Nossa Senhora do Desterro, capital de Santa Catarina, proclamando-a sede do "governo provisório do Brasil". Em abril de 1894, as forças legalistas retomaram a cidade, deflagrando, sob o comando do coronel Moreira César, furiosa repressão aos rebeldes. Em outubro de 1894, depois de muitos fuzilamentos sumários, veio o castigo final: a troca de seu nome "pelo nome em homenagem ao seu algoz".

a Armada não participou do golpe que instaurou a República: a instituição era monarquista.

Custódio de Melo derrubara Deodoro da Fonseca na Primeira Revolta da Armada, em 1891. Junto com Gama, liderou a Segunda Revolta, que pretendia depor o marechal Floriano e eclodiu a 6 de setembro de 1893

Em 13 de março de 1895, depois de um ano e meio de revolta infrutífera na baía de Guanabara, os rebeldes desistiram

jacobinos (republicanos exaltados e radicais, inimigos dos oligarcas) se uniram a Floriano de imediato.

A eleição de Prudente de Morais, em 15 de novembro de 1894, representou o retorno da classe latifundiária - que fora o sustentáculo do império - ao comando da nação. 

Desde o início Prudente seria tido por pusilânime.

aliados de Floriano haviam articulado um golpe para impedir sua posse

O fato de Prudente decidir anistiar os rebeldes gaúchos - acabando com a guerra civil- foi visto como um ato de fraqueza pelo florianistas, e a campanha de desmoralização do presidente começou.

Em novembro de 1896, doente, Prudente teve de se afastar da Presidência - e o vice, Manuel Vitorino Pereira, florianista, assumiu o cargo. Em março de 1897 retornou ao posto. Em novembro, decretou estado de sítio, mandou fechar o Clube Militar, prendeu senadores e deputados (...) e consolidou a República Oligárquica, ou "dos Fazendeiros", que duraria até 1930. 

o vice Manuel Vitorino Pereira (baiano e primeiro governador do seu Estado depois da república) substituiu todos os ministros trocando aliados de Prudentes de Morais por florianistas convictos.

o "ruído exterior" para que escancarou as janelas do Palácio do Catete, que comprou para ser sede do governo, eram os urras a Floriano, que adquiriram um tom verdadeiramente messiânico, após a morte do Marechal de Ferro em junho de 1895. Muitas vezes rezavam em seu túmulo e havia aqueles que distribuíam seu retrato como se fosse um santo. A sombra do marechal nacionalista pairava sobre a República Oligárquica.

civis também eram conservadores latifundiários e oligárquicos.

jacobinos e florianistas logo começaram a tramar contra a vida de Prudente após seu retorno ao poder

a 5 de novembro fora ao embarcadouro do Arsenal de Guerra recepcionar o navio que retornava da Bahia com a primeira tropa vitoriosa no combate de Canudos.

um soldado, Marcelino Bispo de Melo, se aproximou do presidente e sacou uma garrucha. (...) Mas a arma falhou cinco vezes 

conseguiu esfaquear o ministro da Guerra, Carlos Bittencourt, que morreu.

ficou claro que Marcelino estava ligado ao jornal "O Jacobino"

Os jacobinos eram inimigos de morte da república liberal, descentralizada e federalista com que sonhavam os cafeicultores paulistas.

A paranoia dos jacobinos: viam em tudo o dedo oculto dos monarquistas 

GUERRAS NO FIM DO MUNDO mESMO,  NOS DOIS SENTIDOS - E EM TODAS AS FRENTES

Esses conflitos (Federalista e Canudos) não tiveram nada em comum a não ser a brutalidade absurda: as batalhas sem prisioneiros, com degola dos vencidos

Canudos, por seu turno, foi a guerra mais trágica do Brasil - mais dramática e violenta que a derrocada de Palmares. Só a existência de dois Brasis inteiramente distintos e incompatíveis - o Brasil das elites urbanas e o Brasil dos miseráveis olvidados - pode explicar a "guerra do fim do mundo". (...) Canudos foi exemplar, revelando ao país, ao final do século 19, a trágica dicotomia com que ele haveria de conviver ao longo de todo o século 20.

revolta federalista deixou pelo menos dez mil mortos - muitos por degola.

 

Nos três primeiros séculos da História do Brasil o Nordeste era o centro da produção açucareira e a região mais rica e povoada do imenso território. A partir do final do século XIX, com o declínio dos preços do açúcar e do algodão, sua economia estagnou-se e inúmeros negócios foram à falência. (...) a seca - um fenômeno natural que, embora sempre tenha afetado o sertão, foi agravado pelo tipo de ocupação ali predominante, que acentuou a devastação da natureza. A falta de políticas públicas para a região, desde os tempos do Brasil Colônia, só tem aprofundado o problema. (...) no Nordeste os salários são mais baixos que no restante do país, a renda e a riqueza estão concentradas nas mãos de poucos, a subnutrição atinge altos níveis e periodicamente milhares de pessoas deixam a região fugindo das secas.

Durante a estiagem de 1877 a 1880 pela primeira vez o governo procurou instituir uma política de salvação para a região. D. Pedro II, encantado com uma visita que fizera ao Egito, mandou importar camelos do Saara e criá-los para salvar o sertão. Os problemas no entanto eram muito mais graves. Um número de sertanejos quase quatro vezes maior do que a população de Fortaleza ocupou a capital cearense, buscando fugir da seca. O resultado disso foram epidemias, fome, saques e crimes.

Durante essa seca criou-se o conceito de retirante - o homem que deixa sua terra para escapar dos efeitos da estiagem.

Estiagem de 1877, para lá de meados da existência de um dos muitos "messias de feira" (Euclides da Cunha: Os Sertões) do nordeste brasileiro. Um componente marcante num drama que redundou na que é tida como a maior tragédia da história do país e de que é muito útil para a contextualização da crise do Nordeste e do Brasil em que eclode o fenômeno Canudos ter mais dados. 

Aquela Grande Seca, além de levar d. Pedro II a dizer que era capaz de vender as jóias da Coroa para debelar os problemas do Nordeste, fez com que em um estúdio de Fortaleza abrisse a era do fotojornalismo no Brasil.

A situação de penúria dos moradores do Ceará por causa da falta d'água nos anos de 1877 e 1878 é o primeiro registro fotojornalístico [de] que se tem notícia no país.

As fotos, feitas durante uma visita de inspeção parlamentar por iniciativa de José do Patrocínio, foram publicadas em O Bezouro, jornal quinzenal do Rio de Janeiro com a legenda

Páginas tristes. Cenas e aspectos do Ceará para sua magestade, o senhor governo e os senhores fornecedores verem. Cópias fidelíssimas de fotografias remetidas por amigo e colega José do Patrocínio.

e os versos que acompanham cada uma delas. Todos eles, em tom de lamento, fazem referência à situação sofrida das pessoas que aparecem nas fotos. Acredita-se que os versos foram escritos por José do Patrocínio, enviado especial ao Ceará pelo jornal Gazeta de Notícias para checar de perto os arrasos da seca.. A participação dele na campanha contra a seca foi registrada em livros como a História da Seca no Ceará, de Rodolpho Teophilo.

     - A oposição estava começando a gritar contra o imperador, dizendo que a concorrência para o envio de mantimentos para acabar com a fome no Nordeste não era lícita e que a comida estava sendo desviada - explicou Joaquim Marçal, chefe da seção de Iconografia da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que as descobriu na década de 1990 nos arquivos da instituição. Cópias da mesma série de fotos usadas em postais foram entretanto encontradas também nos arquivos do Museu Diocesano de Sobral, no Ceará. 

     - A briga foi tão grande que resolveram checar se realmente havia tantos problemas longe da Corte. Principalmente para ver se as verbas estavam sendo bem empregadas.

São nove pessoas que aparecem de maneiras diferentes nas 14 fotos. Muitos deles, inclusive, estão em mais de uma.

       
 
                            
                      

Na estiagem seguinte, em 1915, para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense criou campos de concentração nos arredores das grandes cidades, nas quais recolhia os flagelados.

 

No território miserável do sertão, Conselheiro encontrara terreno fértil para sua pregação messiânica. A decadência dos engenhos, o fim da escravidão, a seca terrível de 1878 (durante a qual, só no Ceará, cerca de 100 mil pessoas morreram de fome), a limitação do mercado de trabalho provocada pelo fluxo incessante de imigrantes europeus; tudo conduzira ao caos social no Nordeste.

 

 

 

d. Sebastião - O sumiço do corpo do jovem [24 anos] rei na batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, pela conquista cruzadista de terras aos mouros ímpios, daria início ao culto chamado sebastianismo - crença messiânica cujos reflexos se prolongariam até o trágico episódio de Canudos.

no Brasil como em Portugal duas décadas depois da implantação da República no Brasil sebastianismo passou a ser associado a saudosismo da monarquia

 

messianismo. S. m. 1. Rel. Na Bíblia, a expectativa do Messias. 2. Crença na intervenção de ocorrências extraordinárias, ou de individualidades providenciais ou carismáticas, para o surgimento de uma era de plena felicidade espiritual e social. 

                                                                                  ***

 

                 Os Sertões               Euclides da Cunha & Os Sertões

 O triste e belo fim de Joana Imaginária & Antônio Conselheiro

 Canudos Hoje: 

Tendão dos Milagres 

 X 

O Amuleto de Ogum 

  

 

TRECHOS COM O ESSENCIAL PARA A COMPREENSÃO DO CONTEÚDO DE OS SERTÕES E DESTA PÁGINA

a partir do texto original da terceira edição de acordo com as revisões feitas pelo próprio Euclides da Cunha num exemplar que está na Academia Brasileira de Letras   

OS SERTÕES, 3ª EDIÇÃO: RIO DE JANEIRO, LAEMMERT, 1905

EM OUTRA PÁGINA revoluciomnibus.com  ACESSÍVEL A PARTIR DAQUI

&

O ESSENCIAL DO QUE SE DIZ E ESCREVE SOBRE EUCLIDES DA CUNHA E 

         Os Sertões

EM OUTRA PÁGINA revoluciomnibus.com  ACESSÍVEL A PARTIR DAQUI

 

 

          CANUDOS

            BRASIL

             1897

 

Euclides da Cunha e as críticas a sua avaliação negativa do movimento religioso e da atuação de seu líder

Historiadores, teólogos, curiosos e marxistas tentam desvendar o fenômeno Canudos até hoje. 

A Guerra de Canudos durou quase um ano, quatro tentativas do Exército e da Polícia [de] desmontar uma cidade de beatos e a morte de um número nunca precisado de pessoas, talvez 15 mil - cifra que só seria superada pelas 33 mil baixas brasileiras na Guerra do Paraguai.

Exército, política, religião, raça, praticamente todas as instituições, todos os conceitos caros a um país tiveram um papel importante na crise de Canudos em 1896-97.

Uma definição que é um ponto de partida para uma digressão em torno da questão: 

Depois da Revolução Federalista, que, esta sim, assumiu contornos de guerra civil, com 31 meses de duração e 10 mil mortos, do Rio Grande do Sul ao Paraná, a guerra de Canudos, que não era nem guerra, sequer levante, quando muito mal-entendido social ...

Foi o que viu Euclides da Cunha. Para ele aquilo comprovava a existência de dois Brasis, o do litoral civilizado [com sua "civilização de empréstimo"...] e o do sertão ainda em plena fase colonial

Euclides foi o primeiro a descer a fundo na alma nativa ao captar o transe alucinado da campanha militar

É o que pensam uns e muita gente dispensa.

Historiadores e antropólogos se afastaram nas últimas décadas da interpretação de Euclides, criticado por sua avaliação negativa do movimento religioso e da atuação de seu líder

O escritor explicou alguns dos aspectos misteriosos da guerra, como a luta quase suicida dos conselheiristas ou a migração para Canudos em pleno conflito. Mas equivocou-se em múltiplos aspectos, segundo muitos historiadores e pensadores. Pudera - ainda que assim fosse. 

Para o escritor baiano José Calasans, "canudólogo" eminente, começou a surgir a partir dos anos 1950 um outro Canudos, diferente daquele criado por Euclides. 

Canudos não-euclidiano

O escritor paulista Ataliba Nogueira contribuiu para a virada ao divulgar em 1974 os escritos do líder da comunidade no ensaio Antônio Conselheiro e Canudos. Segundo ele  

Os [seus] sermões mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico retratado por Euclides: um sertanejo letrado, com posições políticas e religiosas vinculadas a um catolicismo devocional, frequente entre pregadores do Nordeste.[Esse] profetismo com seu ideal de martírio e o de salvação, não continha, ao contrário de Euclides, crenças sebastianistas ou esperanças milenaristas na criação do paraíso na terra.

Os sermões mostram um Discurso organizado e coerente, perfeitamente lógico, uma vez aceitas as premissas religiosas.

           Segundo outro especialista Até bem recentemente as ciências humanas negligenciaram o estudo empírico da religião e, mesmo muito depois de Euclides da Cunha, a manifesta consistência religiosa que caracteriza a defesa de Canudos é reduzida ao estatuto de ignorância e fanatismo. 

O sonho cresce na medida da privação. E quando aparece Antônio Vicente Maciel, o andarilho cearense, rapidamente forma-se um elo de comunicação e empatia.

Pois é bem de vida nova que se trata. Em torno do "santo homem" articula-se um tipo de parentesco altamente satisfatório, não mais puramente consanguíneo nem familiar, mas decorrente da figura do solitário habitante do santuário que se situa no centro do povoado.

Em seu ímpeto repressor, na verdade, a autoridade eclesiástica aliava-se à aflição dos coroneis do sertão, que se viam ameaçados duplamente no poder econômico e no poder político. Estudiosos contemporâneos, como o brasilianista americano Ralph Della Cava, demonstraram como o Conselheiro, e também o padre Cícero, no Ceará, na mesma época, drenavam a mão-de-obra das fazendas, ao mesmo tempo [em] que retiravam da influência dos chefetes os votos de cabresto que lhe garantiam o controle dos instrumentos do Estado.

        [não é acaso que mitos da estampa de Conselheiro e Cícero sejam também fenômenos contemporâneos]

O foco de Euclides da Cunha foi o O fanatismo, o espírito de seita, a febre que acomete. místicos, visionários e xiitas e por esse prisma há quem pense que a escalada do conflito foi fora do comum mas não a sua natureza. Os detalhes variaram, mas desde os Anabatistas de Münster, em 1534-35, até os adeptos da Seita Davidiana, em Waco, no Texas, em 1993, as comunidades de dissidentes religiosos têm sofrido constantemente esse tipo de repressão violenta. No início de Os Sertões Euclides da Cunha retrata Antônio Conselheiro como um fanático insano e um proponente da promiscuidade, nos moldes de David Koresh de Waco, Texas - escreveu um analista de um ponto de vista anglossaxão. O mesmo ponto de vista de Robert M. Levine, que no entanto faz uma análise consentânea com a perspectiva de Ataliba Nogueira.

Autor de Vale of Tears, tido como o mais abrangente relato histórico sobre Canudos e que foi publicado em 1994 pela Edusp com o título O Sertão Prometido, também autor do video Canudos Revisited, com as imagens da guerra, Levine declarou que EUCLIDES VIA CANUDOS EM PRETO E BRANCO (ou em Branco ou Preto?)  e para ele Antônio Conselheiro não era nem herege nem fanático, embora fosse monarquista. Ao menos até o momento em que foi atacado, ele era apenas um pregador popular que expressava a piedade tradicional e o messianismo de uma região menosprezada pela hierarquia brasileira da Igreja católica. 

Euclides da Cunha, para Levine, foi culpado de injetar "as pessoas comuns menosprezadas do Brasil na consciência nacional como fanáticos meio loucos". Conselheiro apenas fazia sermões como muitos missionários leigos da região. Criou uma cidade austera, mas bem organizada, com comida para todos, onde eles aguardavam o milênio, o fim do mundo. Houve outros locais onde as pessoas se recusaram a pagar impostos e queimaram as leis da República. Isso faz parte do momento político da época.

Vivia-se então - argumenta-se também - um processo de "romanização" dentro da Igreja que não deixava espaço para os inúmeros beatos que infestavam o sertão atraindo multidões de retirantes tangidos pela seca. A hierarquia eclesiástica era intolerante quanto às manifestações da religiosidade popular. Antes do Conselheiro, o Padre Mestre Ibiapina - homem-santo que ainda hoje tem lugar de destaque no imaginário sertanejo - fora alvo de perseguições. A Igreja queria enquadrar todos os padres e todas as seitas no figurino do Vaticano. Nesse quadro, a figura messiânica do Conselheiro era inadmissível.

O trágico destino do arraial, conforme esse prisma, não foi selado pelos militares republicanos - muitos tão fanáticos quanto os conselheiristas -, mas pela visita que fez a Canudos, em 1895, o frei João Evangelista do Monte Marciano, enviado pela Igreja para parlamentar com Antônio Conselheiro. A inabilidade do frade capuchinho foi registrada por Euclides da Cunha em Os Sertões. Monte Marciano acabou escorraçado pelos jagunços. E fez um relatório aos superiores em que retratou Canudos como um reduto de monarquistas radicais. Daí para o delírio de que os canudenses eram financiados por potências estrangeiras foi um passo. 

outro conto

A república era o Anticristo, era a ordem de Satanás. Ousara separar a Igreja do Estado. E, entre outras disposições odiosas, instituíra o casamento civil, roubando da Igreja a exclusividade de celebrar matrimônios. O novo regime também delegara aos municípios a cobrança de impostos. Vendo os matutos inconformados com os impostos anunciados em editais nos povoados, incentiva os de um deles a destruí-los. Isso é desobediência civil. Em consequência, uma tropa policial sai-lhe ao encalço. Depois de um choque violento na localidade de Massetê, que resulta em três mortes de cada lado, a tropa retira-se, mas para o Conselheiro fica o sinal de alerta. Ao cabo de vinte anos de andanças, chegou a hora de mudar de vida...

Quem era, grosso modo (à parte o mito extraordinário e uma das maiores lendas brasileiras em que se transformou E foi transformado), esse cearense que procurava a paz de Deus mas acabou joguete dessa obra do Demo que são as guerras fraticidas?

Essas figuras de guias espirituais surgiam no interior do Nordeste muito em função da ausência de padres, buscou explicar de sua vez Cândido da Costa e Silva, professor de História das Religiões na Universidade Federal da Bahia e autor de Roteiro da Vida e da Morte, um estudo sobre o catolicismo sertanejo.  

- O sertão não tinha padres como as aldeias francesas, que davam assistência permanente às famílias e acompanhavam-nas ao cemitério, inclusive, levando seus mortos. Daí os tiradores de rezas e incelências - eram figuras e fórmulas que supriam a falta de pessoal e de liturgia oficial. A pessoa ascendia à condição de beato ou conselheiro pelo destaque que haviam obtido na sociedade, em virtude de sua liderança. sua capacidade de expressão, piedade e outras qualidades.

Parte razoável da multidão de pesquisadores que se ocupou do tema durante um século não fugiu ao clichê de chamar o episódio Canudos de um "espelho" do Brasil - ou dos dois Brasis que Euclides da Cunha descobriu.

Que Euclides da Cunha descobriu e melhor que outros Caminhas narrou.

Mario Vargas Llosa lançou em 1981, pela Seix Barral, Barcelona, o seu La guerra del fin del mundo. Disse então ver no episódio de Canudos um caso exemplar de conflito movido pela insensatez das ideias fixas. Uma guerra ideológica que serve de modelo, até hoje, para as explosões de fanatismo que trituram os dias do continente latinoamericano. Llosa viu de um lado um homem em surto místico que transformou seu delírio em combustível para a ação política; de outro a brutalidade estúpida das forças republicanas, que imaginavam caçar fantasmas enquanto enfrentavam homens reais e miseráveis. "Em Canudos vê-se pela primeira vez no continente como a ideologia consegue fragmentar a sociedade", declarou.

Explorando uma perspectiva de resto muito llosiana e muito em voga desde a queda do muro de Berlim escreveu Renato Janine Ribeiro em O Estado de São Paulo (5 de outubro de 1997, nos 100 Anos de Canudos) referindo-se de caras ao Fim da ilusão jacobina que 

Não houve racionalidade no Terror jacobino. Ele resultou dos malefícios que a ideologia em estado puro - a vontade de mudar o mundo com regra e esquadro - acarreta.

Segundo ele, vários grandes temas euclidianos estão perto do ideário positivista e /ou militar: a demarcação das fronteiras, o conhecimento do Brasil profundo, a integração nacional e sobretudo a fusão da ciência e da ordem na ideia de progresso, que constituem o eixo do positivismo como aqui foi apropriado num ideal que mesclava o espírito republicano e a formação militar.

Posto de outra forma,

Euclides da Cunha trouxe para o estudo da gente do sertão da Bahia toda a bagagem intelectual da teoria social positivista europeia do século XIX. Apesar de ele próprio ser um "mestiço", de início encarou a rebelião de Canudos como uma obra atávica de raças "inferiores", o Brasil de mestiços e negros, uma abordagem que faz com que o leitor moderno se sinta constrangido.

Mas no decorrer do livro muda de posição. Com base na força de sua própria observação, começa a ver naqueles sertanejos obstinadamente corajosos "o verdadeiro cerne da nossa nacionalidade, o alicerce da nossa raça", e no coronel Moreira César e nos de sua espécie o dogmatismo cruel de verdadeiro fanático. Deixando de lado sua pomposa prosa latina para se tornar mais conciso e direto, ele se lança numa narrativa absorvente da campanha de Canudos (...) "Transforma-se numa grande exaltação do sertanejo e numa violenta crítica do jacobinismo militar que se transformou numa cruzada de extermínio", disse Roberto Ventura, professor de literatura da Universidade de São Paulo. 

Pinto Ferreira em ensaio publicado na (...) Revista Brasiliense atestou que O primeiro grande escritor marxista do país é Euclides da Cunha (...), [e como tal] retratou com mestria, como marxista que era, o desnível das classes nos sertões e a guerra campesina de Canudos.

O "aplauso" do cronista de Os Sertões ao socialismo científico de Marx, contra o idealismo utópico de Proudhon e do anarco-sindicalismo, é apenas um sinal de seus dogmas embora se objete que ele não seguiu as doutrinas filosóficas de forma incondicional. Ao contrário, Explorou sempre os limites de tais teorias

Uma formação e uma seriedade intelectual raras tornam nosso autor capaz de reavaliar suas convicções e o fazem passar, do jacobino padrão, que vê em Canudos "a nossa Vendéia", àquele escritor que revelará não só a extensão do massacre mas sobretudo o descaso que o centro do poder, a capital litorânea, sente pelo enorme sertão.

Walnice Nogueira Galvão também criticou à distância de um século sua "noção de linearidade do progresso": 

Nunca lhe tinha ocorrido que a modernização é causa de dores e perdas para os pobres, aos quais chacina sem piedade quando os encontra em seu caminho - escreveu. Para ele os canudenses deviam ter sido tratados a cartilha e não a bala, concluindo pela ilusão ilustrada de acreditar na educação como panaceia para a iniquidade. Seu grande feito segundo a historiadora foi ter conseguido expressar (e nisso reside para ela o alcance universal do livro) o que a modernização faz aos pobres, atormentando-os de tal maneira até a extinção do seu mundo pelo Apocalipse do progresso sem mais nem quê.

Nota bene: Euclides da Cunha Foi adepto do positivismo do francês Auguste Comte, que defendia a superação da religião pela ciência. Aderiu ao evolucionismo do inglês Herbert Spencer, que trazia a certeza do aprimoramento da sociedade. Mas - para frisar - Explorou sempre os limites de tais teorias

Vinca-se o que ele escreveu para o jornal A Província de São Paulo já ou ainda de Tanquinho - "esse logar maldicto"-, a caminho de Monte Santo e Canudos, a 4 de setembro de 1897

Não me apedrejeis, companheiros de impiedade, poupae-me livres pensadores, iconoclastas ferozes! Violento e inamolgável na lucta franca das ideas, firmemente abroqueado na unica philosophia que merece tal nome, eu não menti às minhas crenças e não trahi a nossa fé, transigindo com a rude sinceridade do filho do sertão. 

E sobre tais paradogmas deixaria impresso Graciliano Ramos em São Bernardo a fala do coronel Paulo Honório sobre as atividades de sua esposa:

Sim senhor, comunista! Eu construindo e ela desmanchando.

        Materialista. Lembrei-me de ter ouvido Costa Pinto falar em materialismo histórico. Que significava materialismo histórico?

      Comunista, materialista. Bonito casamento. (...) Que haveria nas palestras? Reformas sociais ou coisa pior. Mulher sem religião é capaz de tudo.

Até bem recentemente as ciências humanas negligenciaram o estudo empírico da religião e, mesmo muito depois de Euclides da Cunha, a manifesta consistência religiosa que caracteriza a defesa de Canudos é reduzida ao estatuto de ignorância e fanatismo ...

Materialismo histórico, direis. Pois não foi o próprio Friedrich Engels quem escreveu que "A religião tem suas raízes nas concepções limitadas e ignorantes do estado de selvageria"?

Tal como, pela própria biografia, é descrito como um trágico - sendo até, pela opera magna, o Shakespeare tupiniquim - e é capaz de toda a ironia contida em trechos de seu relato sobre a tragédia de Canudos, pelos olhos de seus grandes apreciadores sente-se a visão de um homem capaz de tudo. De morrer por amor - ou, o que parece mais provável tendo sido como foi, pela honra ferida... - como de renunciar a crenças que se diria, pelo que se percebe nele também, (isso mesmo) atávicas. Como no materialismo histórico ou no tão racionalista quanto positivismo. Mas não no ateísmo, que se revela avassaladoramente - como gostava de escrever - em seu "livro vingador". Onde no entanto transparece em alguns trechos que ele dá umas na ferradura e que e não conseguiu se desvencilhar da Igreja, acabando por aplaudir, através da ação de alguns de seus apóstolos, a religião dos sofistas canonizados dos concílios - como a chama -, ou seja, a religião que deixou de ser religião. 

 Canudos: o que foi, como se tornou no que foi - e como se presta a leituras tão díspares 

Nas igrejas pentecostais brasileiras, em plena expansão, e no movimento militante dos sem-terra não é difícil reconhecer os descendentes de Canudos, sintetizou a revista semanal inglesa The Economist em reportagem publicada por ocasião do centenário de Canudos.

Em Canudos encontrava-se água facilidade e a antiga fazenda em terreno doado à paróquia de Santo Antônio era um entroncamento de estrada para onde facilmente confluíam víveres e munição. Em 1893, depois dos primeiros incidentes com a polícia e já com cerca de oito mil seguidores o Conselheiro optou por fazer das antigas terras de Garcia D'Avila uma base segura - até o final dos tempos, que julgava muito próximo. Canudos se transformou no tempo recorde de três anos, num híbrido de favela e cooperativa agrícola, de acordo com o entendimento de alguns canudólogos, com de dez a trinta mil habitantes, segundo as também muito díspares estimativas dos mesmos historiadores. De todo modo em fins de 1896 Juazeiro, a maior cidade do norte da Bahia, tinha 3.000 moradores e a capital, Salvador, 200 mil.

 Ao estado burguês apoiado pelos latifundiários, o Conselheiro opunha uma comunidade socialista, concluiu o historiador Edmundo Moniz antes da queda do Muro.

Canudos não tinha nada a ver com a questão agrária e os conselheiristas não foram os primeiros sem-terra, como pensam alguns. O que o povoado fez foi deixar a região desprovida de trabalho braçal -contrapunha o historiador Cícero Antônio de Almeida:

abolição da escravatura Sertão e insulamento, seca, miséria - terá sido a abolição da escravatura a fazer entornar o caldo e A BESTA aparecer em Canudos? Sobre um ponto há mais de um parecer do mesmo prisma, expressado o pesquisador José Calasans em 1989:

- Acho que o fator fundamental foi a evasão da mão-de-obra na região. Os 30 mil seguidores do Conselheiro eram, na sua maioria, ex-escravos e vaqueiros. O deslocamento dessa gente para Canudos desorganizou a economia de vários Estados nordestinos. Para os ex-escravos que após a abolição não sabiam como sobreviver Canudos tornou-se uma alternativa muito atraente. (...) o único a perceber e a se sensibilizar com a situação deplorável dos ex-escravos foi [o Conselheiro]. Antes da abolição não mais que 100 pessoas o acompanhavam, (...) Cartas da época, narrando as peregrinações de Conselheiro pelo Nordeste, comprovam que depois de 1888 (Lei Áurea) a maior parte de seus seguidores era negra.

(Chegou-se a sugerir que em Canudos se desenvolveu reforma agrária e que Conselheiro se inspirou na Utopia de Thomas Morus para administrar o local.)

- Antônio Conselheiro tinha uma missão exclusivamente religiosa. Se ultrapassou os limites da beatice o fez para instalar uma população grande demais para continuar nômade.

                                                       

Em A Sociologia d'Os Sertões (1996), Arnaldo Brandão faz um apanhado do que até então se escrevera sobre o livro e o fenômeno de Canudos e ensaia uma explanação da tábua de matérias e do instrumental usado pelo cronista, assim como do que terá sido e representado o arraial do Belo Monte - fenômeno único.

Segundo ele, 

Com muitos anos de antecipação a Osburn, que criou a expressão cultural lag para definir o processo social do sertão nordestino ("os sertões do norte", como é chamado em Os Sertões). 

O que a opinião oficial julgara uma insurreição de caráter monarquista, financiada por agentes estrangeiros, com a cumplicidade da contrarrevolução interna e dos amigos da dinastia deposta, na qual Antônio Conselheiro era simples títere, na verdade não era mais do que um gigantesco hiato social, um cultural lag, a "demora cultural" entre o litoral e o sertão, entre a capital e o interior, entre jagunços e citadinos, caipiras e civilizados e, de certa forma, entre o Norte e o Sul, no que aquele tinha de anacrônico e este de atual

Antônio Candido [considera] que a sociologia de Euclides da Cunha falhou.

[O escritor t]eria deixado a desejar (...) quando, ao analisar Canudos como organização social - "tapera colossal que parecia estereografar a feição moral da sociedade ali acoitada"- não percebeu que a "Tróia de taipa dos jagunços", em vez de representar um fenômeno patológico de desorganização social, significava inclusive uma tentativa desesperada de uma nova organização, nova integração, com novas formas de ajustamento coletivo (...), uma solução própria que reforçasse a coesão grupal ameaçada pela interferência da cultura urbana.

[Mas] como observou Cândido Motta Filho, "para ele Canudos não tinha um significado restrito nem episódico [;] era a expressão de uma totalidade, um aspecto que denunciava, na sua insuficiência trágica, um mal orgânico do país".

Ao seguir para a Bahia (...) acreditava que a sedição (...) tinha como causa o fanatismo religioso, superstições e ignorância dos jagunços além do monarquismo do Conselheiro, admitindo [haver] uma rebelião anti-republicana [como demonstrou em] dois longos artigos intitulados A Nossa Vendeia [publicados em A Província de São Paulo a 14 de março e 17 de julho de 1897, considerando o Conselheiro] demente ou paranoico.

E Canudos era a Vendéa...

Logo (...) percebeu que a realidade (...) era outra. (...) [Que se tratava de] Um conflito de raízes seculares, remontando [a heranças] da Península Ibérica, abrangendo causas antropológicas, políticas, econômicas, sociais e institucionais [de que] Canudos e (...) [o] Conselheiro eram meras consequências [e] que perdurariam enquanto [não fossem] estirpadas.  (...) os crimes (...) de que os rebeldes eram acusados deviam-se a governo, sistemas políticos (monarquia, regime colonial) do passado, [que deixara] o sertanejo isolado, abandonado, ignorado, esquecido dos poderes públicos, (...) lembrando apenas para servir nas guerras, pagar impostos ou ser levado no cabresto para votar em candidatos do interesse governamental. [Qual anormalidade ou loucura, profecias, visões messiânicas e penitências do Conselheiro eram manifestações típicas] do meio social interiorano [e o] chamado "sebastianismo" (...) em perfeita sintonia com a história do sertão, (...) a herança portuguesa [e a] formação religiosa do Brasil colonial. [E Canudos] era resultante da ignorância recíproca em que viviam as (...) sociedades (...) do litoral e do sertão, [o país real e o oficial].

[Os sertanejos reagiam à República porque para eles ela nada significava] sendo apenas uma abstração incompreensível diante de uma tradição monárquica de quatro séculos, (...) com seu regime "democrático" falseado na prática, em eleições viciadas e corrompidas, [e com a amaeaça de manutenção do] autocratismo de oligarquias regionais, relações de trabalho, sistema econômico, explorações e injustiças (...) de que eram vítimas (...) Conselheiro vinha em resposta aos anseios da gente desesperançada do interior, vítima de uma natureza adversa e da violência dos "coroneis", [donos] do poder, (...) fazendeiros latifundiários que viviam no litoral sem maiores conhecimentos quanto aos seus domínios, enquanto (...) trabalhava numa "servidão inconsciente". 

[Trabalha com] dados objetivos recolhidos (...) no local [e através de] documentos e de longos e aprofundados estudos, pesquisas nos arquivos e bibliotecas públicos [e] consultas bibliográficas

OS SERTÕES 

"Livro vingador" [quis chamá-lo depois de] presenciar a valentia dos jagunços, o idealismo dos canudenses, o papel desempenhado pelo Conselheiro, o ânimo e o caráter do sertanejo (...)  assumindo a posição de advogado da causa de Canudos [certo de que as] campanhas, aparato bélico, mobilização militar, violência do governo contra a população inocente [fora] um "crime monstruoso" (...). "Ali estava o cerne da nacionalidade brasileira" (...) "a gênese de uma futura raça" (...) [denunciou os] crimes cometidos pelos chefes militares contra as populações que se [rendiam e] eram friamente degoladas; (...) torturas cometidas pelos sitiantes contra os sitiados; (...) [o] abandono em que viviam os [habitantes] da região do São Francisco, esquecidos há quatro séculos pelo resto do Brasil.

(...) cuja civilização estacionara há trezentos anos atrás (...)

(...) o livro (...) abriga várias teses. A mais original, talvez, (...) a existência de dois Brasis: o litorâneo e o sertanejo [do norte]. O primeiro, moderno, europeizado, urbano e progressista, em constantes mudanças sociais, trabalhado pela imigração estrangeira e pela civilização, cosmopolita e letrado [embora tudo isso refletido numa "civilização de empréstimo"]; o segundo, o Brasil do sertão, tradicionalista, arcaico, estático, homogêneo [do] ponto de vista antropológico-racial e cultural, ingênuo, vivendo em função da Natureza (...), com outros hábitos, costumes e linguagem - o Brasil caboclo, mestiço, rural.

Fazia-se assim um paralelo histórico entre os realistas franceses, os chouans (*) de 1793, as charnecas vendeanas e os jagunços das caatingas. Até serem vencidos, camponeses dizimaram sucessivas colunas do Exército contra eles enviadas.  

(*) Jean Chouan, um dos chefes realistas, um dos chefes realistas, fanático, religioso, astuto e sem compaixão, responsável por diversas vitórias dos rebeldes, utilizando-se de tática de guerrilhas. [como a das guerrilhas sertanejas "adotada" pelos jagunços do Belo Monte]

E doutrinava-se: "Trata-se da Restauração: conspira-se; forma-se o exército imperialista."

Assim recapitula o cronista d'Os Sertões no livro homönimo:

O espantalho da restauração monárquica negrejava, de novo, no horizonte político atroado de tormentas. A despeito das ordens do dia, em que se cantava vitória, os sertanejos apareciam como chouans depois de Fontenay. (...) Olhava-se a História através de uma ocular invertida... João Abade era um Charette* de chapéu de couro.

* Charette ou Carrette, o "Cavaleiro Charete", companheiro de Jean Chouan e guerrilheiro tão perigoso quanto este

Euclides da Cunha, que nos seus despachos de repórter seguirá a sanha patrioteira em voga, mas que no seu "livro vingador" adotou uma postura crítica, escreve em Os Sertões: "A paixão patriótica roçava, derrancada, pela insânia."

  Os republicanos transformaram o Conselheiro num símbolo da reação monarquista. Nas ruas do Rio de Janeiro, num reflexo distante, os sebastianistas (monarquistas) e jacobinos (saudosistas do governo forte de Floriano Peixoto) entraram em choque por causa de seu amor ou de seu ódio ao Conselheiro.

Interpretando corretamente os fatos [Euclides da Cunha] explica em Os Sertões::

O caso era mais complexo... Envolvia dados entre os quais nada valiam os sonâmbulos erradios e imersos em sonhos da restauração imperial...

     Insulado no espaço o no tempo, o jagunço, um anacronismo étnico, só podia fazer o que fez - bater, bater terrivelmente a nacionalidade que, depois de o enjeitar cerca de três séculos, procurava levá-lo para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado [de] baionetas, mostrando-lhe o brilho da civilização através do clarão de descargas.

(...) Canudos era uma tapera miserável, fora dos nosso mapas, perdida no deserto, aparecendo, indecifrável, como uma página truncada a sem-número das nossas tradições. (...)

(...)

Aquele afloramento originalíssimo do passado, patenteando todas as falhas da nossa evolução, era um belo ensejo para estudarmo-las, corrigirmo-las ou anularmo-las. Não entendemos a lição eloquente.

     Ao invés, preferimos liquidá-lo a ferro e fogo... 

 

É neste conceito de isolamento ou insulamento que reside a chave de Os Sertões.

O CONFLITO CULTURAL DE CANUDOS

conflito cultural [ou] incompatibilidade entre valores culturais diferentes

(...) até chegar à sua expressão social mais aguda, na violência coletiva, na luta aberta, na guerra, como aconteceu em Canudos

Salta-se do trem, transpõe-se poucas centenas de metros entre casas deprimidas e topa-se, para logo, à fímbria da praça - o sertão...

     Está-se num ponto de tangência de duas sociedades, de todo alheias uma da outra.

Os soldados que iam do Sul ou das capitais do Norte (...) "sentiam-se fora do Brasil", (...) "em território estrangeiro".

CONSEQUÊNCIAS DO ISOLAMENTO SOCIAL

Canudos [uma ficção geográfica] tinha, muito apropriadamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntesis; um hiato. Era um vácuo...

Como fenômeno social, o insulamento (...) ou isolamento, denominação moderna, é dos mais conhecidos e estudados na literatura sociológica atual (...) [e no livro temos:] isolamento geográfico ou espacial (...) isolamento estrutural (...) isolamento estrutural [e] isolamento psíquico (...) À medida em que todos estes conceitos se inserem em Os Sertões, evidencia-se a antecipação de seu autor aos modernos. 

Conselheiro era muito mais do que "um exemplo raro de atavismo", porque representava a síntese da sociedade que o gerara. (...)

A ignorância dos cartógrafos sobre a remota região [que como ele cita logo atrás está "a menos de quarenta léguas da antiga metrópole"] provocou o epíteto euclidiano "terra ignota" descrita como

... quase um deserto, (...)

Abordando-o, compreende-se que até hoje escasseiem sobre tão grande tracto de território, que quase abarcaria a Holanda, (...) notícias exatas ou pormenorizadas. As nossas melhores cartas (...) lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra Ignota, em que se aventura o rabisco de um rio problemático ou idealização de uma corda de serras.

(...)

Ali, cercado de montanhas, da vegetação impenetrável das caatingas, de trechos desertos que lembram (...) oueds do Saara [Oued - termo geográfico, de origem árabe. As pequenas fontes de água ou riachos encontrados em regiões desérticas E oásis], (...) vivia (...) a "sociedade rude dos vaqueiros". 

(...) inteiramente divorciados do resto do Brasil e do mundo (...) aquela rude sociedade, incompreendida e olvidada, era o cerne vigoroso da nossa nacionalidade (...) 

O POLÍGRAFO D'OS SERTÕES não se prende exclusivamente às causas geofísicas (...), como querem alguns [mas entre "Causas muito enérgicas [que] determinaram o insulamento (...)"] destaca  

 as grandes concessões das sesmarias, definidoras da feição mais durável do nosso feudalismo tacanho.  

AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS DE CANUDOS

AS INSTITUIÇÕES DOMÉSTICAS

Durante séculos a família patriarcal sertaneja se organizou sobre fundamentos e valores originados da religião católica, em função da união entre o Estado (...) e a Igreja. Com o advento da República [há uma afronta] aos hábitos coletivos tradicionais da vida social sertaneja. 

Recusando o casamento civil em face da Igreja, que concordava com a República e com as leis advindas do novo regime, admite-se que o grupo social de Canudos, apanhando de surpresa numa transformação social para a qual não estava preparado, buscou, sob a liderança do Conselheiro, uma nova forma de organização, através da criação de outras instituições, mais condizentes com a herança social, os mores do grupo, as expectativas normativas da coletividade sertaneja, os propósitos e os fins característicos da comunidade que se estabelecera em Belo Monte. Assim, o quadro fixado por Euclides quanto à organização familial canudense parece refletir um momento ainda não muito definido, objetivo e autônomo da vida coletiva em processo de franca ebulição, rumo à cristalização [até "a lenta exaustão da vida"]

     Que os homens se desmandassem ou agissem virtuosamente - era questão de somenos. Consentia de boa feição que errassem, mas que todas as impurezas e todas as escorralhas de uma vida infame caíssem, afinal, gota a gota, nas lágrimas vertidas.

     Ao saber de caso escandaloso em que a lubricidade de um devasso maculara incauta donzela, teve, certa vez, uma frase ferozmente cínica, que os sertanejos repetiam depois, sem lhe aquilatarem a torpeza:

     "Seguiu o caminho de todas, passou por baixo da árvore do bem e do mal!"

     Não é para admirar que se esboçasse logo, em Canudos, a promiscuidade de um hetairismo infrene. Os filhos espúrios não tinham à fronte o labéu indelével da origem, a situação infamante dos bancklings entre  os germanos. Eram legião.

     Porque o dominador, se não estimulava, tolerava o amor livre. Nos conselhos diários não cogitava da vida conjugal, traçando normas aos casais ingênuos. E era lógico. Contados os últimos dias do mundo, fora malbaratá-los, agitando preceitos vãos, quando o cataclisma iminente viria, em breve, apagar para sempre as uniões mais íntimas, dispersar os lares e confundir no mesmo vórtice todas as virtudes e todas as abominações. (...) Pregava então os jejuns prolongados, as agonias da fome, a lenta exaustão da vida. (...)

As instituições domésticas ou familiais dizem respeito às necessidades sociais de companheirismo, satisfação do sexo, filhos, manutenção da prole, cooperação dos casais e às necessidades de ordem econômica, obtenção de alimento e vestuário.

Quanto [ao resto, naquele estágio e em vista das próprias premissas do Conselheiro, O martírio do homem, ali, é reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida...

     Nasce do martírio secular da terra...

"Não cogitava de instituições garantidoras de um destino na Terra."

[construção de Canudos] 

As necessidades de alojamento foram atendidas pela construção de casas, por conta individual, sem outros títulos, salvo a posse.

A tecnologia era rudimentar

A edificação rudimentar permitia à multidão sem lares fazer até doze casas por dia - e, à medida que se formava, a tapera colossal, parecia estereografar a feição moral da sociedade ali acoutada. Era a objetivação daquela insânia imensa. (...)

A DIVISÃO DO TRABALHO

[no essencial é a mesma que fora da comuna, salvo - e fundamental - que sem patrões, senhores das terras.] 

Três áreas de atividades profissionais [principais] podiam ser identificadas (...): pastoreio (...), lavoura e fabricação certos instrumentos (armas e instrumentos agrícolas).

O REGIME DE PROPRIEDADE

Em que pesem os trabalhos do professor Pinto Ferreira, Otávio Brandão e Edmundo Muniz, não se evidenciava, em Canudos, (...), um regime comunista ou comunista primitivo, totalmente oposto ao de propriedade individual, a partir da definição, ainda não comprovada, que considera ser a propriedade comum estágio universal e imperativo da infância dos povos 

citando Euclides ele insiste em que o POLÍGRAFO não permite dizer que Canudos fosse um Estado camponês. (...) Os jagunços errantes ali armavam pela derradeira vez as tendas, na romaria miraculosa para os céus ...

cita Edmundo Muniz: O importante era a tentativa de uma sociedade comunitária capaz de satisfazer os anseios naturais das camadas sofridas da população sertaneja. [não cita origem]

MAS os irmãos Vila Nova, comerciantes do arraial que já lá estavam quando o conselheiro fundou o seu Belo Monte em 1893 e que mereceram papel de destaque no romance A Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa, saíram da revisão da leitura do fenômeno de Canudos chamuscados. Conforme o relato do professor José Calasans os Vila Nova usavam de meios bem menos sofisticados que o dumping para manter o monopólio dos negócios em Canudos. Trucidavam os concorrentes.

[O Conselheiro] Agia como os antigos patriarcas bíblicos, reis-sacerdotes, juízes-profetas, santos-legisladores, por consenso social e carisma mítico-religioso.

PRODUÇÃO, CONSUMO E DISTRIBUIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS

Manoel Benício, correspondente do Jornal do Commercio junto às forças do Exército em Canudos,  em um livro publicado em 1899, O Rei dos Jagunços, relata que nas (...) vizinhanças do burgo (...) havia (...) muita fartura de hortaliças e roças abandonadas

MAS Toda aquela fartura (...) não foi suficiente para manter a economia alimentar da população (...), devido à verdadeira explosão demográfica (...) ameaçando o povoado de (...) escassez de alimentos (...) Para complementar a fonte de suprimentos e a falta de certos bens, recorriam excepcionalmente ao saque às comunidades estrangeiras ou "de fora".

(...) Dali partiam bandos turbulentos arremetendo com os arredores. Toda a sorte de tropelias eram permitidas, desde que aumentassem o patrimônio da grei. Em 1894 (...) tornaram-se alarmantes.

[o patrimônio era também enriquecido por doações voluntárias em dinheiro] 

[há quem garanta que a] população possa ter chegado a 30 mil pessoas, mas Euclides escreveu que as casas "se concentravam numa extensão de mil metros de comprimento por mil metros de largura" e que sua população nunca se aproximou dos 25 mil habitantes, possuindo, no máximo, 10 mil pessoas"]

O CONTROLE SOCIAL - GRUPOS DE CONTROLE

[exercidos como exposto

as leis eram o arbítrio do chefe e a justiça as suas decisões irrevogáveis.

os controles informais e os grupos de controle religioso teriam que desempenhar papel mais atuante, [a partir do ponto em que a população] 

     Aceitando, às cegas, tudo quanto lhe ensinara aquele (...)

Mas controles formais, coativos, também se [fazem] presentes: 

Graças a seus braços fortes, Antônio Conselheiro dominava o arraial, corrigindo os que saíam das trilhas demarcadas. Na cadeia ali paradoxalmente instituída - a poeira, no dizer dos jagunços - viam-se, diariamente, presos pelos que haviam cometido a leve falta de alguns homicídios os que haviam perpetrado o crime abominável de faltar às rezas.

A ORGANIZAÇÃO SOCIAL DE CANUDOS

Afeitos às proporções exíguas das cidades sertanejas, tolhiças e minúsculas, assombrava-os aquela espécie de Babilônia de casebres, avassalando colinas. 

Canudos tinha naquela ocasião - foram uma a uma contadas depois - cinco mil e duzentas casas vivendas.

arraial. Este surpreendia-os. Afeitos às proporções exíguas das cidades sertanejas, tolhiças e minúsculas, assombrava-os aquela Babilônia de casebres, avassalando colinas.

 Nesse tempo, quem da Favela olhasse Canudos, veria a edificação encaminhar-se de Norte e Oeste, espraiando-se pelas devesas, galgando morros, obstruindo vales. Aleijados, doentes, cegos, e macróbios, também para lá convergiram. Em pouco tempo se viam seis e quinhentas habitações e trinta mil seres se agitavam promíscua mente.  ica

de Guerrra de Canudos - 1903, Henrique Duque-Estrada de Macedo, tenente participante da campanha

tipos e condições sociais presentes na comunidade: vaqueiros, criadores ricos e gandaeiros  

Todas as idades, todos os tipos, todas as cores...

Conselheiro foi o agente social ou elemento social catalisador que provocou o fenômeno da cooperação antagônica (...), com a supressão dos antagonismos inevitáveis em toda sociedade mais ou menos numerosa, em vista da convivência superior em fazer causa comum contra os inimigos (...) do grupo social que se fixou em Canudos.

(...) em apenas quatro anos operou-se verdadeira mudança social (...) ao passar de cinquenta para cinco mil casas (...e) de cinquenta para cerca de vinte mil pessoas.

(...) resistência a transformações vindas "de fora", e à cultura litorânea foi (...) muito mais significativa, aparecendo, (...) como uma das causas, senão a principal, para a explicação do conflito aberto, transformado em luta armadas entre a população canudense e a civilização periférica, com suas instituições "modernas", recusadas pela tradição folk-ways, costumes e sistema de valores sertanejos.

O A B C de Canudos, recolhido por Euclides, conforme consta na Caderneta de Campo, (...) refletindo a psicologia coletiva, traduz a resistência da sociedade sertaneja às mudanças impostas pela "civilização", como as quadras transcritas, exemplo da literatura oral e poesia anônima [mais uma]

Saiu D. Pedro Segundo

Para o reino de Lisboa

Acabou-se a monarquia

O Brasil ficou atôa!

[O] grupo social permanente, embora seus moradores vivessem imbuídos da ideia de uma vida terrena passageira,

Canudos "era a estrada para o céu", "ante-sala do Paraíso", "terra da Promissão".

    Canudos era o Cosmos. (...)

     E este mesmo transitório e breve; um ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam sem demora; o último pouso na travessia de um deserto - a Terra. Os jagunços errantes ali armavam pela derradeira vez as tendas, na romaria miraculosa para os céus.

Segundo Walnice Nogueira Galvão Euclides da Cunha tomou ainda emprestada dos canudenses milenaristas e messianistas - a visão escatológica. E mostra como por meio da inversão demoníaca das imagens bíblicas que presidem à crença salvacionista é possível aderir ao ponto de vista deles. Isso se efetiva por meio da mimese do grande sintagma narrativo da Bíblia, por meio do qual é traçado o arco que vai da criação do arraial de Canudos, o Gênesis bíblico, até seu aniquilamento pelo fogo, o Apocalipse, em conjunção com as profecias das sagradas escrituras.

- Nunca lhe tinha ocorrido que a modernização é causa de dores e perdas para os pobres, aos quais chacina sem piedade quando os encontra em seu caminho.

- Os canudenses deviam ter sido tratados a cartilha e não a bala, concluindo pela ilusão ilustrada de acreditar na educação como panaceia para a iniquidade. Seu grande feito foi ter conseguido expressar (e nisso reside o alcance universal do livro) o que a modernização faz aos pobres, atormentando-os de tal maneira que seu mundo

 - O Belo Monte, na denominação que deram a Canudos, ou Nova Jerusalém, segundo Os Sertões - que tinha tudo para ser o paraíso no qual aguardariam o Juízo Final, se metamorfoseia no seu contrário, ou seja, o inferno.

No final o exército ateou fogo à cidade com tochas de querosene.

O Brasil (...) bem que poderia conter em si mesmo uma cisterna de bárbaros, que um dia esmagariam e redimiriam nossa mediocridade. Acontece que as elites que temos sempre trataram nossos bárbaros e semibárbaros de maneira tão abominável que eles perderam o viço. Pode ser que nosso sertanejo tenha sido sobretudo um forte, como queria Euclides da Cunha, mas o próprio Euclides em Os Sertões descreveu o que fizeram nossa jovem República e seu brioso Exército com esses fortes. Em Canudos sobrou menos gente do que em Hiroshima. - Antônio Callado, 1993

Os erros profissionais foram analisados e em parte sanados nos anos seguintes, com o desenvolvimento de um serviço de logística (suprimentos) mais moderno. Já os erros políticos demoraram mais. De uma obra como "A História do Exército Brasileiro", publicada em 1972 pelo Estado-Maior do Exército, não consta a descrição do massacre dos jagunços prisioneiros.

Estamos precisamente no auge do anticlímax da passagem do poder de Floriano para Prudente de Morais, em 1894. Começava o longo reinado das oligarquias que fez da República Velha um regime de que nenhum país deverá se orgulhar. Moreira César, o carniceiro dos monarquistas do sul do país, era outro ícone florianista - e simbolizou (...) tudo o que podia haver de cruel e insano

Canudos deu também a desculpa para se impor, a partir de 1898, a política dos governadores, que foi uma traição aos princípios liberais do Partido Republicano de 1870, ao impedir a escolha popular dos representantes políticos. Canudos foi ainda uma das causas da Revolução de 30 e também da Revolução de 64. Foi o momento em que a elite nacional decidiu governar o país de modo antidemocrático, fechando o jogo político da República.

Não se tratava de uma luta de caboclos, de pessoas mestiças de raças inferiores, afirma quem contesta a visão do conflito transmitida por Euclides da Cunha. Não é preciso reler nem ler entre as linhas que no final para Ele também A selvageria não foi só da parte dos jagunços, mas também do Exército. A ideia que dá é a de que, se existe, a linha divisória entre civilização e barbárie ao menos certas vezes é muito tênue.

Canudos foi uma guerra moderna. Os engenheiros fizeram milagres, construindo redes de trilhos até Monte Santo para transportar munições e canhões.

Canudos só veio a cair (...) depois de um cerco de quatro meses que envolveu no final 8 mil soldados 

Talvez 15 mil pessoas tenham morrido ao todo, quem sabe?

A campanha foi fotografada por Flávio de Barros, fotógrafo oficial do Exército durante o conflito, e pelo espanhol Gutierrez, que foi o primeiro fotógrafo morto em ação na história do fotojornalismo.

As fotos de Flávio de Barros apresentam também uma das mais lamentadas lacunas dessa mesma história: por força da censura, ou das obrigações que o prendiam ao Exército, ou ambas as coisas, ele deixou de documentar a selvageria e as atrocidades que caracterizaram o fim do conflito.

Uma delas, que mostra o conflito entre soldados e conselheiristas, é nitidamente "armada": há homens rindo e olhando para a câmera.

 

Mais de cem anos depois, o relato cronológico da triste e triste saga de Canudos que guia as narrativas dela é o de Euclides da Cunha, cujos trechos essenciais DEVIDAMENTE ENQUADRADOS E CONTEXTUALIZADOS NA HISTORIA em outra webpage revoluciomnibus.com DA SÉRIE  podem também ser acessados a partir DAQUI

 

           Guerra de Canudos: um resumo

                   

Novembro de 1896. Correram rumores em Juazeiro, à margem do Rio São Francisco e a noroeste de Canudos, de que por causa do atraso na entrega de uma encomenda de madeira para a construção da nova igreja do arraial, os conselheiristas preparavam uma invasão da cidade. A população assustou-se com o boato, o juiz local notificou o governador do Estado, Luís Viana, e este resolveu enviar a Canudos uma expedição punitiva. Tinha 104 homens, era comandada por um tenente, Pires Ferreira, e estava destinada ao primeiro dos sucessivos vexames que seriam impostos aos militares. Quando os soldados estavam estacionados no povoado de Uauá, já perto de Canudos, sentiram a aproximação de um estranho cortejo - uma fila de gente que rezava e entoava cânticos religiosos, tendo à frente uma grande cruz e uma bandeira do Divino.  Eram 300 sertanejos armados de trabucos, facões, paus, pedras e foices. Depois de quatro horas de combate, e apesar de 150 homens do Conselheiro terem sido mortos, contra apenas dez mortos e 16 soldados feridos, as forças legais fugiram. Terminava aquela que passou para a História como a primeira expedição.

Antes do fim de novembro, 543 soldados, 14 oficiais, duas metralhadoras e dois canhões foram enviados numa expedição punitiva, comandada pelo major Febrônio de Brito. Pela primeira vez Monte Santo, 100 quilômetros a sul de Canudos,  foi usada como base de apoio e ponto de partida da ofensiva. No dia 20 de janeiro, desmoralizada, faminta e de fardas rasgadas, essa segunda tropa batia em retirada sob a vaia e o fogo cerrado dos sertanejos.

O coronel Moreira César, paulista de Pindamonhangaba, 47 anos, responsável pelo fuzilamento sumário de 49 rebeldes em Desterro (SC) durante a Revolta da Armada, foi convocado para chefiar os 1330 soldados e vários oficiais que com metralhadoras, fuzis, 15 milhões de cartuchos e quatro canhões formariam a terceira expedição.

A tropa partiu de trem de Salvador no dia 3 de fevereiro. No dia 18 acampou em Monte Santo.

Após dois ataques de epilepsia, mas exalando confiança, o coronel Moreira César disse: "Vamos almoçar em Canudos."

Foi imprevidente.  Mandou seus homens ao ataque em 2 de março, depois de longo dia de marcha penosa, sem descanso, famintos e sedentos. Fê-los avançar até para dentro do arraial e entrar numa luta corpo-a-corpo com os conselheiristas - o que, além de facilitar a movimentação do adversário, familiarizado com o labirinto de ruelas, inutilizou a artilharia. As ruelas de Canudos pareciam um labirinto e, ao entrarem na cidade, os soldados viraram alvo fácil para os franco-atiradores postados no alto das torres da nova igreja. Moreira César tomou nova decisão equivocada ao ordenar o avanço da cavalaria, incapaz de manobras entre as ruelas e os casebres que serviam de abrigo aos nativos. Ao investir ele próprio contra o arraial, o arrogante coronel tombou morto. A retirada das tropas é um dos muitos trechos deveras "pintorescos" de Os Sertões de Euclides da Cunha.

A quarta expedição, minuciosamente planejada, foi dividida em duas colunas: a primeira, em que seguiria o general Artur Oscar, tinha 2.000 homens e partiria de Monte Santo, passando pela serra do Calumbi; a segunda, sob o comando do general Savaget, reunia 2.350 homens e sairia de Sergipe rumo a Jeremoabo, na Bahia. Os dois grupos levaram mais de 700 toneladas de munição.

No dia 25 de junho, ao partir de Jeremoabo rumo ao arraial, guerrilheiros no planalto de Cocorobó atacaram a coluna comandada pelo general Savaget. Depois de mais de oito horas de combate 178 militares estavam mortos. Ao mesmo tempo, na frente sul, a tropa do comandante-chefe também estava cercada no morro da Favela. A força avassaladora, com Matadeira e tudo acabou, uma vez em Canudos, atrapalhada e impotente como as expedições anteriores.

Para lá afluíram reforços que montaram a 3 000 homens suplementares reunidos às pressas por todo o país.

Em fins de julho o exército já tivera mil baixas.

No dia 24 de julho um tiro da "Matadeira" derrubou o sino da igreja de Canudos, que duas semanas depois foi reduzida a escombros.

22 de setembro: morre Conselheiro.

No dia 3 de outubro de 1897 uma bandeira branca foi erguida entre as ruínas de Canudos. Dois jagunços - um deles era Antônio Beato, "chefe da polícia do arraial"- foram negociar com o Exército a rendição de 300 mulheres, velhos e crianças.

No dia 3 os combates reiniciaram e no dia 5 enfim o Exército entrou em Canudos:

     estória contada por Roberto Pompeu de Toledo em veja nos 100 anos da tragédia de Canudos

 

Sessenta anos depois o sertão era visitado pelo cachorrinho Samba. O cachorrinho Samba é um personagem da escritora de livros infantis Maria José Dupré. Em O Cachorrinho Samba na Bahia, de 1957, o cachorro paulista visita Canudos. Ele aprende então que os sertanejos, "sendo pessoas atrasadas, não sabendo ler ou sem instrução alguma, acreditavam em tudo que dizia o Conselheiro". Muitos habitantes de Canudos não trabalhavam - "viviam de papo pro ar". Quando faltavam alimentos, "saíam aí pelo sertão, roubavam bois, mantimentos, tudo o que podiam". E depois chegavam a Canudos "com cara de inocentes e iam rezar na igreja". Para ela a Guerra de Canudos foi "um ato de delinquência", como nota Clímaco Dias, pesquisador da Universidade Estadual da Bahia, que num artigo foi desencavar a reveladora peça. Para Dupré "o Conselheiro era um ignorante, não sabia nem interpretar a religião, fazia tudo à moda dele".

 

TRECHO FINAL DA WEBPAGE  revoluciomnibus.com DA SÉRIE  COM OS TRECHOS ESSENCIAIS DE OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA DEVIDAMENTE ENQUADRADOS E CONTEXTUALIZADOS NA HISTORIA

 

                                    

(...) mulheres, sem-número de mulheres, velhas espectrais, moças envelhecidas, velhas e moças indistintas na mesma fealdade, escaveiradas e sujas, filhos escanchados nos quadris desnalgados, filhos encarrapitados às costas, filhos suspensos

           

aos peitos murchos, filhos arrastados pelos braços passando; crianças, sem número de crianças; velhos, sem-número de velhos; raros homens, enfermos opilados, faces túmidas e mortas, de cera, bustos dobrados, andar cambaleante.

 

                    

                                                                          

 

 

Algumas prisioneiras, que uma foto da época mostra cadavéricas e esqueléticas, foram levadas pelos soldados para o Rio de Janeiro, onde foram morar no morro da Saúde. Surgiu daí a palavra favela, como referência a uma planta da caatinga e à encosta em que as forças do exército se instalaram para bombardear Canudos.

(...)

[462] 

(...)

sobressaía um traço de uniformidade rara nas linhas fisionômicas mais características. Raro um branco ou um negro puro. Um ar de família em todos delatando, iniludível, a fusão perfeita das três raças.

(...)

[463]

(...)

     A noite de 2 entrou, ruidosamente, sulcada de tiroteios vivos.

[464]                         VI

                              O FIM 

     Não há relatar o que houve a 3 e 4.

(...)

numa cava quadrangular, de pouco mais de metro de fundo, ao lado da igreja nova, uns vinte lutadores, esfomeados e rotos, medonhos de ver-se, perdispunham-se a um suicídio formidável.

No dia 3 de outubro de 1897 uma bandeira branca foi erguida entre as ruínas de Canudos. Dois jagunços - um deles era Antônio Beato, "chefe da polícia do arraial"- foram negociar com o Exército a rendição de 300 mulheres, velhos e crianças.

No dia 3 os combates reiniciaram e no dia 5 enfim o Exército entrou em Canudos:

(...)

[465] 

                CANUDOS NÃO SE RENDEU      

     Fechemos este livro.

    Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. (...)

(...)

(...) No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.

                              O CADÁVER DO CONSELHEIRO

(*) Trecho da parte de combate do comandante da 1ª coluna: "... pelo que ordenei que se retirasse daquela cova, com todo o cuidado, o defunto, e o levassem para a praça e assim se poder melhor verificar a identidade de pessoa: tendo-se reconhecido ser o do famigerado e bárbaro Antônio Vicente Mendes Maciel (vulgo Bom Jesus Conselheiro), como consta da ata, lavrada; mandei-o fotografar para terem a certeza de ser ele, aqueles que o conheceram."

                                      

[466]

Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas no peito, rosto tumefacto e esquálido, olhos fundos cheios de terra - mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.

Até hoje não se sabe o que o matou: estilhaços de granada, parada cardíaca, problemas gastrointestinais provocados pela má alimentação, desgosto profundo, pura premonição?

(...)

     Restituiram-no à cova. Pensaram, porém, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita - e como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sangue, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores...

  

 

Os astros da degola

                    

O telégrafo, conquista recente do país, estendido até Monte Santo para as necessidades da ocasião, fornecia o suporte técnico do empreendimento.

Os principais jornais do Rio, de São Paulo e Salvador enviaram correspondentes à guerra,

O Paiz, 18 de julho de 1897 O monstro de Canudos

"O monstro, ao longe, nas profundezas do sertão misterioso, escancara as guelras insaciáveis, pedindo mais gente, mais pasto de corações republicanos, um farnel mais opulento de heróis, e a fera ir-se-á abastecendo e devorando até que num assomo de raiva, ao sentir a falta de ucharia, desses abastecimento de corpos, desgrenhe a juba e com um arranque de sua pata monstruosa queira esmagar a pátria, em crepe pela morte dos seus filhos mais amados, pelo massacre do seu exército glorioso!" - No Calor da Hora, Walnice Nogueira Galvão

a força avassaladora reunida para vencer os sertanejos, mais de 5 000 homens, duas colunas, Matadeira e tudo, acabou, uma vez em Canudos, atrapalhada e impotente como as expedições anteriores.

para lá afluíram reforços que montaram a 3 000 homens suplementares.

               A SANGUE FRIO

                                    sabres convenientemente amolados

Tornaram-se célebres as "gravatas vermelhas" aplicadas no pescoço dos conselheiristas.

Um estudante de medicina de Salvador que esteve a guerra com o corpo médico, Alvim Martins Horcades, descreveu num livro publicado antes de Os Sertões (Descrição de uma Viagem a Canudos), e com uma crueza a que Euclides não chegaria, a degola dos prisioneiros.

"Belo exemplo de civismo e progredimento social! Levar-se homens de braços atados para trás, como criminosos de lesa-majestade, indefesos, e perto mesmo de seus companheiros, para maior escárnio, levantar-se pelo nariz a cabeça, como se fora de uma ave, e cortar-lhes com o assassino ferro o pescoço, deixando cair a cabeça sobre o solo - é o cúmulo do banditismo praticado a sangue frio, como se fora uma ação nobilitante.

Acontecia certas ocasiões estarem muitos daqueles miseráveis dormindo e serem acordados para se lhes dar a morte. Depois de feita a chamada, organizava-se aquele batalhão de mártires, de braços atados, arrochados um ao outro, tendo cada qual dois guardas e seguiam... seguiam para ainda uma vez provar cabalmente a sua coragem intimorata. Caminhavam um pequeno pedaço de terra e lá ia sendo assassinado um após o outro. Eram encarregados desse serviço dois cabos e um soldado, a mando do sanguinário alferes Maranhão, os quais, peritos na arte, já traziam os seus sabres convenientemente amolados, de maneira que, ao tocarem a carótida, o sangue começava a extravasar-se, sendo então decepada toda aquela região, de modo a produzir-se um jorro de sangue, tendo pouco mais ou menos 25 centímetros de espessura, em circunferência."

Horcades conta que a princípio as execuções eram feitas à noite, mas depois se tornaram "cousa naturalíssima", e "eram eles supliciados mesmo ao clarão dourado dos raios solares, e as turmas duplicaram, triplicaram e quadruplicaram."

Ariano Suassuna descolou uma imagem muito nítida desse ciclo: As rebeliões de Canudos, Contestado e Palmares foram momentos em que o Brasil real levantou a cabeça e o Brasil oficial cortou.          

 

 

       

                                                                                                                                                       Canudos ou Belo Monte em gravura da época

    

    QUEM É ESSE QUE VAGUEIA?... 

    

     O Conselheiro pregava em voz baixa e com os olhos no chão. Os olhos negros tinham uma cintilação ofuscante, a atração de um ímã.

    O bufão, na definição enxuta do engenheiro, repórter e escritor, misturava conselhos dogmáticos e preceitos vulgares da moral cristã.

    Dizia que a Igreja romana tinha perdido a glória e se rendido ao Satanás. Ousava um latim rudimentar.

   Cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa, face escaveirada, olhar fulgurante, monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano, abordoado ao clássico bastão.

   Crucifixo pendurado no pescoço e de sandálias, apossado de uma possível psicose mística, na visão euclidiana, começa a arrastar uma multidão, de cidade em cidade, rezando e cantando ladainhas, com cruzes, imagens e bandeiras do Divino Espírito Santo, numa procissão interminável pelo sertão que ele, cearense, conhecia como a palma das mãos.

E profetizava:

Em 1896 hão-de rebanhos mil correr da praia para o sertão e o sertão vai virar praia e a praia vai virar sertão. Das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo o seu Exército.

Acertou em cheio no ano. Só que o comandante não era o rei-infante morto em 1578 na batalha de Alcácer Quibir, em cujos campos ao que se conta os portugueses deixaram dez mil exemplares de um híbrido de alaúde e guitarra portuguesa, mas o general Artur Ramos à frente de um contingente de cinco, oito mil homens.

 

 

...

 

 

            Tudo começou no Norte da Bahia por volta de 1877, em Chorrochó, lugarejo de poucas centenas de pessoas cuja feira semanal às margens do Velho Chico atraía toda a população das redondezas. Chorrochó seria um dos cenários de pregação preferidos de Antônio Conselheiro nos dez anos seguintes.

    Naquele dia o Conselheiro tomou as dores de uma velha que não tinha como pagar impostos à Monarquia e fez discurso flamejante. Tratando-se do sertanejo mais popular da história, tudo é lenda de ouvir contar, até as dramáticas cenas do declínio em Canudos, quando 12 jornais mandaram enviados especiais ao sertão, entre os quais o engenheiro de pontes e publicista Euclides da Cunha.

    Começou em Chorrochó a série de milagres de Antônio Conselheiro. À sombra de uma capela, acompanhado por duas professas, reza terços e ladainhas e faz prédicas. Longos discursos numa retórica bárbara, arrepiadora, truncada, desconexa, abstrusa, agravada, inextricável, confusa, esdrúxula, como a nonadjetivou Euclides da Cunha em Os Sertões.

 

...

 

 

O evangelizador "transviado", segundo o autor de Os Sertões - a "bíblia da nacionalidade", como o definiu Joaquim Nabuco, nas suas quase 11 milhões de palavras - tinha pasto fértil para fundar um rebanho: uma terra onde até hoje não há cinemas mas que tem igrejas de todos os cultos e até pouco tempo muito gente ainda aprendia a ler lendo a Bíblia. Sertões onde sobrevivem intactos, devido a seu isolamento forçado por reis e políticos, todos os terrores da cidade cristalizados no catolicismo popular à época em que foi colonizado (séculos XVI e XVII). Como o mito do retorno do rei d. Sebastião.

Isolada do litoral e de suas influências, aferrada às tradições mais remotas, a religiosidade sertaneja teria estacionado, segundo estudiosos, num estágio de vivência primordial, ligada à tradição bíblica e a um beatismo extremado, gerando um messianismo endêmico, que sempre fez perambular pelos sertões hordas de propagandistas da fé. E que não raro leva ao fanatismo. Algo a não estranhar se já em 1989, com o país à beira do caos econômico com uma inflação de 50% ao mês, um grande empresário garantia que somente uma guerra santa liderada por um herói com determinação resgatará a nação de todos os males. Investia na eleição à presidência de Fernando Collor de Melo. O mundo viu no que aquilo deu.

Euclides da Cunha ensaiou de início explicar o fenômeno de Canudos atribuindo-o ao fato de o sertão nordestino conter um amálgama de sub-raças que se extinguiriam no esmagamento das raças mais fracas pelas mais fortes, tese racista - alega-se em sua defesa - mais ou menos natural naquele tempo.

 

 

...

 

 

 

Segundo Euclides da Cunha, na sua trajetória histórica – ou o que se queira – o Conselheiro, mas se poderia dizer também, o sertão Parou aí, indefinidamente, nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona mental onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos, e se acotovelam gênios e degenerados. Não a transpôs. Recalcado pela disciplina rigorosa de uma sociedade culta, a sua nevrose explodiria na revolta, o seu misticismo comprimido esmagaria a razão.

    Por isso para ele ou Antônio Conselheiro entrava na história ou no hospício. Movido talvez por um carisma demoníaco, no bom sentido, sua saga entrou para a história como um marco profundo e um profundo ferimento. Um mero matuto demente talvez, na visão de Euclides, tornou-se por vacilos da oligarquia um dos personagens mais perturbadores da História do Brasil, pivô à priori involuntário de um dos episódios mais extravagantes, equivocados e trágicos da indignacionalidade brasileira.

    Euclides explica a guerra como choque entre dois processos de mestiçagem: a litorânea e a sertaneja. O mestiço do sertão apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral em função do isolamento histórico e da ausência de componentes africanos, que tornariam sua evolução mais estável.

 

...

 

           UM BEATO  NORMAL, DENTRO DA  NORMALIDADE SERTANEJA

           UM BEATO ANORMAL, DENTRO DA ANORMALIDADE SERTANEJA

 

 

 

...

 

 

 

    Tudo poderá ter começado muitos anos antes do episódio de Chorrochó, em Quixeramobim, no Ceará, onde o futuro Conselheiro assistiu à morte do pai e do avô por pistoleiros contratados por um clã que acusava a família Maciel de pequenos furtos e partiu para a vendeta pessoal.

    Foi caixeiro viajante, escrivão de juiz, solicitador e requerente da Justiça. Seria a mulher, Brasilina, ao fugir ou ser raptada por um soldado da Guarda Nacional, a dar-lhe a sobrecarga emocional que adicionada à tremenda carga hereditária, no dizer engraçado de Euclides, levou-o a incessantes peregrinações e martírios pelos sertões, anos a fio a perder o traço

               Inhambupe, Bom Conselho

               Jacobina, Quixadá

               entre rios, belos montes

               quem é esse que vagueia

até alcançá-lo em Chorrochó, com preceitos de cristão montanhista e o aspecto sinistro de um messias de feira ensandecido.

   

    Por onde passa funda uma igreja. Ajuda a restaurar cemitérios. Patrocina batizados e novenas. Conta por enquanto com a condescendência da igreja católica face às práticas religiosas populares. Por ela não haveria nenhum problema.

    Como quase sempre nesses casos a hierarquia católica está com um pé cá e outro lá em relação ao fenômeno, no fundo a aplaudir os seus ataques à separação do Estado da Igreja e à instituição do casamento civil.

    Não era monarquista nem sebastianista. Apenas refutava como que por instinto o pseudo-laicismo do novo regime republicano, que quis pegá-lo como bode expiatório (ver o Bode Ioiô no Pátio dos Milagres do Padim Ciço) e acabou por fazer dele um mártir, um herói de caráter e colhões, sobretudo quando confrontado com o coronel Moreira César que dele seria o algoz – e de carreira, assim sendo, talvez presidente da República nomeado após um golpe militar – e acaba por ser sua maior vítima. De Conselheiro. E de si mesmo.

O Treme-Terra, o Anticristo, acabou por figurar na história como um borra-botas.

 

 

 

...

 

 

 

    Idolatrado  e seguido em procissão por homens, mulheres e crianças, pobres e latifundiários, gente honesta e jagunços, o Conselheiro funda numa fazenda abandonada as margens do rio Vaza-Barris, no lugar de Canudos, o céu do sertão, uma escada para o céu - um lugar de onde se vislumbraria a terra da promissão, lá onde corre um rio de leite e as barrancas são de cuscuz de milho - o nosso reino, como definia a sua Belo Monte.

   Do alto do morro da Favela – a favela primordial brasileira – o repórter Euclides avistou uma  Tróia de taipa

Uma Meca de Barro

sem saneamento, um monstruoso anfiteatro rodeado de montanhas de onde um total de 13 mil homens desferiu três ataques em menos de um ano, já que o primeiro foi barrado em Uauá.

    No último deles, cerca de oito mil soldados arregimentados do norte ao sul do país (des)apoiados por um canhão Withworth 32, que os jagunços apelidaram de Matadeira e que acabaria por servir apenas para arrasar as torres da igreja nova de Canudos.

    Ou se destrói Canudos ou o Brasil vai ver a República por um canudo, disse-se naquele 1897 marcado pelo sentimento de derrota de parte a parte. Deleta Cartago.  

    Os republicanos estavam em apuros e nada mudou: em vez de impulsionar as reformas estruturais, como a reforma agrária, a oligarquia da terra tratou de preservar os seus seculares direitos de donos de sesmarias e  terra-tenentes. Sem temor a Deus.

 

    A Canaã nordestina era muito pior que as favelas de hoje, asseguram historiadores. Uma casa rudimentar como aquelas, de paus, barro cru e folhas de coqueiro secas, custa hoje uns 200 reais. E como tem disso ainda hoje no Nordeste brasileiro. Juntas, as 5200 casas lembrariam, segundo um historiador, os aldeamentos dos gauleses à época de César, sem ruas mas com filas tortuosas de casebres, réplica de burgo medieval: a favela brasileira de hoje.

   

    Repartições dos governos provincial e federal eram proibidas em Canudos, que escorraçava os cobradores de impostos da República.

      Cada morador deveria doar dois terços de seus bens a um fundo comunitário destinado ao atendimento dos mais necessitados. Alguns fazendeiros das imediações doavam gado ou dinheiro. A bebida era proibida. O trabalho era dividido de modo a que os homens cuidassem das roças e as mulheres das lides domésticas. Não era crime punível pelas férreas leis do Conselheiro um estupro, por exemplo, e sim faltar às orações diárias em que o Conselheiro falava em tom baixo e calava todo mundo.

    

 

...

 

 

    Não se tem idéia do que ter levado a tamanha violência em Canudos, onde a cidade atacou inapelavelmente o campo numa suposta luta entre o moderno e o arcaico, duas faces do mesmo país - dois Brasis, onde no entanto uma se confundiria com a outra, e vice-versa - num embate desigual que se afigura um extermínio em massa.

    A ordem do presidente da República Prudente de Moraes ao comando da quarta e última expedição foi para que não ficasse pedra sobre pedra. Documentos da época mostram o crescente pavor do clero e dos governantes locais pela ameaça para eles representada pelo lunático que anunciava o fim do mundo em 1900, líder da que em apenas três anos transformara-se na segunda maior cidade da Bahia. O fenômeno Conselheiro contrariou todas as leis seculares, gerando até mesmo uma explosão demográfica em pleno semideserto.

    Atribui-se também a atitude radical dos governantes a uma luta de poder entre os civilistas, chefiados pelo que era o primeiro presidente civil brasileiro, também chamado pelo apelido de Prudente Demais, e os militaristas que comandaram a implantação da República. A gota d'água que fez transbordar um copo cheio de vergonha pelas derrotas nas campanhas anteriores foi o medo de que os jagunços do Conselheiro atacassem Juazeiro, porque um comerciante daquela cidade se recusava a enviar madeira já comprada para a conclusão das obras da igreja nova.

 

    Armados de espingardas, facas e paus os bravos jagunços, que tinham resistido a emboscadas e expedições do exército no último ano numa espécie de guerra de guerrilha, foram degolados no que Euclides da Cunha classificou de um crime monstruoso contra a nacionalidade brasileira. Conselheiro morreu provavelmente em consequência de um ferimento numa perna.

    O que há a combater e debelar é a seca, sentenciou seis anos depois o autor dos Sertões. Canudos não se rendeu; resistiu até o esgotamento, sublinhou.

    Muitas das cerca de trezentas mulheres e crianças com de oito a 15 anos de idade, feitas prisioneiras de guerra, foram vendidas para a prostituição depois de cada viela da colméia de taipa ter sido meticulosamente incendiada em derradeiro gesto de purificação, como rezam as crônicas.

    Conselheiro foi desenterrado do cemitério - onde não admitia o enterro de índios e negros - e sua cabeça enviada para Salvador para que fosse diagnosticado o seu estado de saúde mental. Os médicos concluíram que sua caixa encefálica era a de um homem são.

    O vale de Canudos foi inundado na década de 1980 pelas águas de um grande açude sem serventia, como tantos outros no sertão contemporâneo. Construído talvez não para matar a sede mas para apagar da memória um dos episódios mais chocantes da história do "país da cordialidade" e da bonomia. E encher os bolsos dos eminentes políticos.

    Mas nem mesmo ali o sertão virou mar. Com a seca no sertão de Canudos e o enxugamento do Açude do Cocorobó, em setembro de 1996, no centenário do primeiro ataque militar a Canudos, o que restou de Belo Monte - as ruínas da igreja nova e o cemitério - reemergiu das águas. Talvez para lembrar que a cidadela do Conselheiro não se rendeu. Resistiu até o esgotamento e queimou como uma danação bíblica.    

 

 

          Canudos Brasil 100 anos depois

 

                                            

                                                    JOSÉ WILKER


         AS MAIORES CIDADES BRASILEIRAS SÃO GRANDES FERIDAS SEM CURA PROVÁVEL A MÉDIO OU LONGO PRAZO. EM TODAS ELAS INSTALOU-SE O CAOS, UMA DESORDEM QUE NEM DE LONGE É SEMENTE QUE VENHA A PRODUZIR UM BOM FRUTO. SEGURANÇA PÚBLICA, SANEAMENTO BÁSICO, SAÚDE, TRÂNSITO, TUDO É UMA IMENSA SUCATA. TEMO QUE OS PRÓXIMOS QUARENTA  ANOS  APENAS  AGRAVEM  A  ATUAL  SITUAÇÃO.

 

        1902, 1903... 2010 :

        Canudos, o alto da Favela, de onde se gerou a seminal, no Rio de Janeiro - os primeiros baianos migrados para a construção civil, o Pedro pedreiro penseiro esperando o trem que-já-vem-que-já-vem-que-já-vem que-já-é o favelão Brasil, país do futebol, do petróleo, da agroindústria, da biodiversidade e do biocombustível.

grandes sertões: cidades, periferias

que se não fossem invadidas pelos retirantes continuariam vivendo de costas para o seu interior e de banda para as praias de suas esplêndidas costas, já muito escafedidas a bem da verdade

     

Já havia exagero há 100 anos e haverá ainda mais hoje em considerar o sertão um mundo à parte do resto do Brasil.

                     veja 3 de setembro de 1997- Roberto Pompeu de Toledo

 

Quanto a mais de 100 anos deixemos o testemunho a Euclides da Cunha, que sentiu as distâncias na pele. Quanto a hoje, é exagero mesmo.

Hoje o sertão - o sertão a que Euclides chamava sertões do norte - está lá, aqui, em quase todo lugar no Brasil, que se transformou no último meio século num 

                   grande sertão:favelas

Que no Rio de Janeiro lá começa a ser ocupado pelas forças da lei e da ordem e lá vai sendo urbanizado - vielas ocupadas clandestinamente sendo asfaltadas, uma puxadinha aqui, um embolsamento ali, e incorporando-se ao urbanismo do 

teratardo medievalismo arquitetônico  

que o Brasil não tivera por meio milênio.

Nordestinos continuam peregrinando para as capitais dos estados ou para o sul em busca de melhores condições de vida, engrossando as populações também flageladas das periferias dos maiores centros habitacionais.

Quinta essência do ideário armorial de Ariano Suassuna, os retirantes espalhados pelos quatro cantos construíram o emaranhado de cidades periféricas que reconstituem os burgos num país que tem que passar pela Idade Média que não teve. No Rio de Janeiro, por exemplo, ao contrário da Europa há milênios, muitos dos redutos famélicos estão nos pontos mais elevados, mas é sobretudo nas baixadas periféricas que eles se fixaram aos milhões.

Em épocas de maior crise voltam para o sertão. Há muito tido entre os racistas do sul como a escumalha da civilização brasileira – embora os antropólogos o considerem a síntese da raça gerada pela mistura de três povos – o sertanejo nordestino é também, como se não faltasse mais nada, vítima de preconceito e segregacionismo – também por conta do seu baixíssimo nível de instrução.

Dois dos cinco milhões de famílias brasileiras não proprietárias de terras encontram-se no Nordeste. Centenas de milhar continuam lutando às vezes até a morte pela posse de propriedades improdutivas como no tempo do ativismo das Ligas Camponesas do Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, em Pernambuco, às vésperas do golpe militar de 1964, feito para acabar de vez com todo tipo de sonho.

Foi o que aconteceu em abril de 1996, quando 19 camponeses sem terra foram chacinados num confronto com 150 soldados da Polícia Militar, no Pará.

     Sociólogos fizeram ligação direta num pulo de cem anos da vasta comunidade reunida em três anos ao redor das promessas messiânicas de Antônio Conselheiro com os atuais acampamentos do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, MST. Um deles escreveu que o movimento gerado pelo Conselheiro era tão religioso quanto o dos sem-terra acampados ao lado das estradas brasileiras, onde sempre se vê uma cruz e se faz orações diárias.

Uma visão propagada até em telenovela.

Deus e o Diabo.

    Todo arame e porteira merece fogo e fogueira é maldição  

 Dá-me um chão  

 probrema é a cerca.

 

Cem anos depois da tragédia Ariano Suassuna dizia que Canudos eram as maiores cidades brasileiras.Os sertões do norte se vingaram transmundando-se em grandes sertões: favelas.

  

 

Quando a maré sobe em Belém do Pará sobe com ela "um lixo de cheiro insuportável" nas imediações do famoso mercado Ver-o-Peso e em Manaus há décadas o esgoto é jogado diretamente no Rio Negro na frente da cidade e "as comunidades do interior são todas um lixo só". Então, não adianta o sujeito que mora em São Paulo ficar falando em emissão de carbono, sustentabilidade, manejo sustentável. Na prática, as coisas não mudam.

                                                                                                Gente X Mato Pedro Martinelli  

 

 

Dez anos decorridos, durante os quais o simples nome de Canudos fazia medo na região - era sinônimo de atrocidade, perseguição, constrangimento -, o local começou a se repovoar. Alguns eram antigos habitantes que voltavam. 

 

        AÇUDE - TAMPÃO DA HISTÓRIA?

O episódio de Canudos foi um espasmo sangrento e tumultuado, e depois o sertão voltou ao sossego de sua eternidade. Aqui o tempo não se mexe.

1989

técnico agrícola encarregado de controlar a pesca no açude de Cocorobó:

"Não há sertanejo que não garanta que o açude foi construído para apagar definitivamente a memória da guerra." Imaginar que o governo federal tenha despejado 250 milhões de metros cúbicos de água do rio Vaza-Barris numa das áreas mais secas da região só para esquecer que houve na história militar do país uma cidade e uma guerra chamada Canudos pode parecer delírio característico de insolação.

1993

ISTOÉ 23 de junho de 1993 Herói Conselheiro

A Canudos de hoje (...) é a terceira Canudos. Vila Nova de Canudos, a 3 quilômetros da área inundada. Há oito anos a vila foi elevada a município, hoje com uma população de 15 mil habitantes, pulverizada por 2.600 quilômetros quadrados.

A represa deve-se a uma determinação do presidente Getúlio Vargas. Leitor de Os Sertões (...) Getúlio visitou Canudos durante o Estado Novo e perguntou a um líder político local o que poderia fazer pela comunidade. "Um açude, senhor presidente", foi a resposta. Demorou 30 anos para ser construído. Hoje, graças à represa, o município conta com 470 hectares de área irrigada. Produz toneladas de banana e pescado. Mas ainda é pouco. A questão da terra é a mesma de 100 anos atrás. As estradas que dão em Canudos são tão precárias quanto no tempo do Conselheiro. O município não conta sequer com um aparelho de raios X.

1997

veja 3 de setembro de 1997 O Legado de Canudos Roberto Pompeu de Toledo

(...) Na década de [19]50 foi projetado um açude que, represando as águas do Rio Vaza-Barris, acabaria por inundar o povoado. Será que a represa precisaria de ser justamente ali, fazendo submergir um lugar histórico como aquele? A pergunta foi feita pelo escritor Paulo Dantas, em 1958, ao engenheiro que chefiava as obras, (...) "Isso é conversa de poetas", respondeu o engenheiro. "O que esta região precisa é de água. A tradição é muito bonita mas não mata a sede nem a fome de ninguém." Em 1969 (...) a represa finalmente inundou Canudos.

 

 1997

O episódio de Canudos foi um espasmo sangrento e tumultuado, e depois o sertão voltou ao sossego de sua eternidade. Aqui o tempo não se mexe.

havia três padres em Monte Santo, mas hoje não há nenhum

Em Euclides da Cunha (...) a igreja permanecia sempre fechada em contrapartida. Em contrapartida, o templo da Igreja Universal do Reino de Deus (...) estava sempre aberto. Esse singelo pormenor pode ser um bom começo para quem quer entender o avanço evangélico sobre as hostes católicas.

O município de Canudos tem 15 000 habitantes, cerca de 60% dos quais na zona rural.

65,4% dos chefes de família recebem menos de um salário mínimo por mês

25,6% recebem de um a três salários mínimos

52% da população acima dos 15 anos são analfabetos

22% das crianças até 6 meses sofrem de desnutrição

Canudos, onde se cria bode, pesca-se no lago e poucas coisas mais, é um dos municípios mais pobres (...) do Brasil.

 

Canudos - Palavra de Deus, Sonho da Terra, organizado por Benjamin Abdala Junior e Isabel M. M. Alexandre, São Paulo, Boitempo Editorial e Editora Senac

Tróia de Taipa: de Como Canudos Queima Aqui, de Francisco Foot Hardman, (...) a exclusão de milhões é a condição para que a farsa "de nossa precária civilização" continue a ser encenada.

Na verdade, não é preciso nenhum apelo ao transcendente para entender por que Canudos ainda é uma ferida aberta na memória nacional.

1989

Lagoa do Saco, um povoado à beira da estrada e a 10 quilômetros de Monte Santo, só garante seu lugar no mapa porque é um dos melhores habitats do sisal  

uricuri, aricuri, ouricuri ou licuri, fruto de uma palmeira típica do Nordeste

O cinema mais próximo fica em Salvador.

[Uauá] a única dentista para as quase 200 mil bocas de de seis cidades do sertão de Canudos.

técnico agrícola encarregado de controlar a pesca no açude de Cocorobó:

"Não há sertanejo que não garanta que o açude foi construído para apagar definitivamente a memória da guerra." Imaginar que o governo federal tenha despejado 250 milhões de metros cúbicos de água do rio Vaza-Barris numa das áreas mais secas da região só para esquecer que houve na história militar do país uma cidade e uma guerra chamada Canudos pode parecer delírio característico de insolação.

Alto Alegre, depois Nova Canudos, a cidade que recebeu a maior parte dos desabrigados pelo açude.

Estão condenados a uma espécie de civilização que contempla dois milhões de baianos - dos 4,5 milhões economicamente ativos - com salários abaixo do mínimo, segundo dados do último Anuário Estatístico do IBGE.

"O que há a combater e debelar nos sertões é o deserto." Euclides da Cunha, Os Sertões.

Existem 300 habitantes de Euclides da Cunha [ex-Cumbe, desde 1938 com o nome do escritor] (...) funcionários da Cal Sublime, uma das sete mineradoras da região, transformaram um forno artesanal construído em 1950 num complexo de lareiras vorazes que hoje queima 110 toneladas diárias de madeira colhida nas poucas matas que ainda sobrevivem à seca e ao corte indiscriminado.

Segundo o IBGE, a Bahia foi o Estado que mais produziu lenha de espécies florestais nativas no ano de 1986 - mais de 21 milhões de metros cúbicos, produção equivalente à extração anual de madeira em toda a Região Norte (...).

 

veja 3 de setembro de 1997 O Legado de Canudos Roberto Pompeu de Toledo

(...) Na década de [19]50 foi projetado um açude que, represando as águas do Rio Vaza-Barris, acabaria por inundar o povoado. Será que a represa precisaria de ser justamente ali, fazendo submergir um lugar histórico como aquele? A pergunta foi feita pelo escritor Paulo Dantas, em 1958, ao engenheiro que chefiava as obras, (...) "Isso é conversa de poetas", respondeu o engenheiro. "O que esta região precisa é de água. A tradição é muito bonita mas não mata a sede nem a fome de ninguém." Em 1969 (...) a represa finalmente inundou Canudos.

 

ISTOÉ 23 de junho de 1993 Herói Conselheiro

A Canudos de hoje (...) é a terceira Canudos. Vila Nova de Canudos, a 3 quilômetros da área inundada. Há oito anos a vila foi elevada a município, hoje com uma população de 15 mil habitantes, pulverizada por 2.600 quilômetros quadrados.

A represa deve-se a uma determinação do presidente Getúlio Vargas. Leitor de Os Sertões (...) Getúlio visitou Canudos durante o Estado Novo e perguntou a um líder político local o que poderia fazer pela comunidade. "Um açude, senhor presidente", foi a resposta. Demorou 30 anos para ser construído. Hoje, graças à represa, o município conta com 470 hectares de área irrigada. Produz toneladas de banana e pescado. Mas ainda é pouco. A questão da terra é a mesma de 100 anos atrás. As estradas que dão em Canudos são tão precárias quanto no tempo do Conselheiro. O município não conta sequer com um aparelho de raios X.

"ACM meu amor", Antônio Carlos qualificou Antônio Conselheiro, que já foi considerado um pária por antecessores seus, como expoente na "luta pela liberdade contra a opressão".

 

 

VIDAS SECAS ISTOÉ SENHOR 29 de janeiro 1992
Irauçuba, a 160 km de Fortaleza teju, lagarto de feições pré-históricas que pode medir mais de um metro. "É um bicho meio nojento, mas fome eu não deixo os meus meninos passarem." calangos, lagartos menores que, fotografados nas mãos dos nordestinos chocaram o mundo em 1983
"Ontem tinha feijão pra comê mas não tinha água pra botá panela no fogo."

Jornal do Brasil SECA ARRASA METADE DO NORDESTE (1992)
... cestas de alimentos do programa Gente da Gente: cinco quilos de arroz, três de feijão, três de farinha de mandioca, dois quilos de fubá de milho, dois de açúcar e uma lata de óleo.
     Temendo que o comércio fosse saqueado o prefeito de Penaforte a 535 quilômetros de Fortaleza mandou distribuir 2,5 toneladas de alimentos destinados à merenda escolar durante um mês.
cuca de umbu, raiz de umbuzeiro, árvore do semi-árido cujos frutos suculentos são conhecidos por técnicos e cientistas como o refrigério do sertão.
     Antônio disse que já comeu até palma, uma cactácea muito comum ao semi-árido, que resiste à seca e é a única alternativa de alimento para o gado durante a estiagem. "O que tinha o boi já comeu tudo, e agora até o boi já está morrendo de fome."

Jornal do Brasil 10 de janeiro 1992
FLAGELADOS DISPUTAM RAÇÃO DE GADO
     "Já chegou o tempo de comer macambira, a situação é horrível, e a planta não é coisa boa não, até gado reclama. A gente arranca a cabeça, esfola no facão, tira a capa, descasca e pisa no pilão. Lava, escorre e joga fora o BASCULHO (bagaço). O que fica é uma farinha mais fina, que a gente faz a massa e come como cuscuz."
ALASTRADO, como os sertanejos chamam a cactácea xique-xique, cujo sabor chega a ser gostoso: "Torra ela, quando acaba de torrar, deflora da ponta para o pé (tirar a casca grossa e espinhosa). Faz fogo e joga dentro. Depois dá pro gado comer assado. Mas lá em casa o gado é nós mesmo."

Seca obriga paraibanos a consumir água lamacenta
problema atinge 42 cidades do interior do Estado
Folha de São Paulo 29 de dezembro de 1996
... só resta água apodrecida disputada por homens e animais.
... água esverdeada do açude
... algumas pessoas usam cal e cimento para tratá-la: Elas misturam os dois produtos à água e esperam meia hora, até que a lama baixe, deixando-a transparente.
     Para transformar 200 litros de lama em água são necessários 10 kg de cal e 5 kg de cimento.
     As crianças percorrem até 3 km com duas latas de água penduradas em um pau nas costas.
Juazeirinho (Paraíba)
- Quem não tem dinheiro para comprar água na rua tem que beber essa lama mesmo para não morrer de sede.
- O que é que você come em casa?
- Feijão puro quando tem. Quando não tem eu e meus 11 irmãos não comemos nada. Meu pai foi procurar emprego em Campina Grande e não deu notícia. Semana passada a gente comeu uma gordurinha. Hoje vamos comer uns ossinhos.

OS DOIS NORDESTES DE COLLOR   MÁRCIO MOREIRA ALVES Jornal do Brasil
     A atração é tão grande que fez de Petrolina a cidade que mais cresce no Nordeste, enchendo-a de favelas.
     Este é o sétimo ano de seca da década terrível, iniciada em 1979 com cinco anos sem chuvas.
     E ajudas através de distribuição de estoques de farinha é um retrocesso incrível. Miguel Arraes concorda: "É preciso voltarmos a 1932, quando Getúlio mandou feijão e charque do Rio Grande do Sul para os flagelados, para nos lembrarmos de uma seca combatida apenas com distribuição de comida."
     "E que comida!, contrapõe Ciro Gomes. "Nem um grama de proteínas." Arraes acrescenta que na Zona da Mata pernambucana os cortadores de cana estão comendo apenas farinha molhada com garapa, tão arrochado está o salário.

MISÉRIA CRIA DIETA DE SOBREVIVÊNCIA   O GLOBO 22 DE DEZEMBRO DE 1992
Baixada Fluminense, Rio de Janeiro
... acuada pela fome, uma parcela da população está criando alternativas de alimentação
... pratos de pelanca, pescoço, pé e vísceras de galinha
... usam valas negras e brejos e rios poluídos para a pesca de rãs e muçum
no mato caçam lagartos que chegam a ter três quilos
rã:
     Corta-se a cabeça, mãos e pés.
     Tira-se o couro e espeta-se com um palito de fósforo. Se ele tremer é sinal de que está boa, não foi picada por cobra nem está doente. Depois é só temperar como galinha e fritar.
... em janeiro há mais fartura na mesa porque é a época do preá, um mamífero roedor a que os meninos chamam "um rato sem rabo".
     Diz que a carne lembra a de porco.
... muçum, peixe com o dorso marrom ou preto
... lagarto de papo amarelo e listras pretas, o preá é criado em gaiolas até atingir três quilos e medir meio metro:
     Depois de tirar o couro, é só temperar e fazer o bicho ensopado ou frito. A carne é que a de galinha. Com uma farofa então, fica ótimo.
     Menino de um ano e meio. A barriga inchada e as pernas finas chamam atenção.
DOENÇA DA FOME ATACA SERTANEJOS
Bezerros, a 130 km de Recife (PE) -
... a pelagra, uma doença de rara frequência, que atinge apenas pessoas com alto grau de desnutrição
... a maior arte não lembra o último dia que comeu farinha e feijão
... de 18 filhos de um, 10 morreram de fome durante as secas dos últimos anos
- A gente só passa com fubá. Assim mesmo quando Deus quer.
 

veja 22 de novembro de 1993
INFLAÇÃO SOB O SOL DO SERTÃO
Palma, Piauí: alguns dias da semana serve-se só a água em que o arroz é cozido.
"Quando acabar o arroz, faço pirão d'água, com farinha, água e sal fervidos."
Serra da Moça, interior da Paraíba: só quatro pratos: feijão com farinha, xeréu (pasta feita com fubá), cuscuz (fubá, água e sal) e angu (farinha cozida com sal), ou funji de milho e de mandioca. Angu, aos domingos, "porque ninguém trabalha e precisa de menos força".
Água Fria, Bahia: sopa de capim-brodinho e berdoega (pequena erva que dá flores amarelas).
seis de Patos, Bahia, vivem da "feira" que o prefeito distribui "quase todo mês": 3 quilos de arroz, 1 lata de óleo, 1 quilo de fubá e 1 quilo de açúcar. A última vez que a família comeu feijão foi em abril.
cada família dessas passa o dia com cerca de 40 litros de água.
média de consumo diário numa cidade é de 150 litros por pessoa.
causa mortis infantil é quase sempre a mesma: gastroenterite por desnutrição
(...) O pagamento do programa Frentes Produtivas de Trabalho do governo federal a cada seca grave passa dias e dias em contas bancárias alheias, rendendo mas não para os flagelados. O dinheiro é liberado pela SUDENE através do Ministério da Integração Regional
Os atrasos chegam a um mês e a féria nunca chegou ao meio salário mínimo prometido por lei.

 

PREFEITURA RECOMENDA COMER CAPIM
     Diante da completa falta de alimentos (...) os 150 lavradores com pelagra de Bezerros têm sido orientados pela Prefeitura para comerem capim angola, uma gramínea normalmente usada como ração de gado. O Suco do capim, misturado com açúcar, já chegou até a rede oficial, onde as crianças dos cinco sítios atingidos pela doença estão tomando o líquido.
- Eu até que queria tomar, pois soube que o gosto do suco parece com o de caldo de cana, mas não tenho liquidificador para bater o capim.
- Eu me lembro que na seca de 1943 muita gente teve essa doença no sítio Jurema, onde eu morava. Meu irmão se curava com banha de teju. Minha mãe matava o teju, uma espécie de lagarto, arrancava-lhe o couro, fervia a gordura e a guardava numa lata.
     Pelagra causa diarréia, dermatite e demência
- Na realidade o que está acontecendo no interior é uma epidemia de fome.
(endemia)

fome
caderno especial Folha de São Paulo 19 de dezembro de 1993
Brasil desperdiça US$ 5,4 bilhões em alimentos
... valor corresponde a 1,3% do PIB e é suficiente para alimentar os 9,2 milhões de famílias indigentes com uma cesta básica mensal de 36 quilos
por dois anos.
... estudo da Coordenadoria de Abastecimento da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo considera apenas perdas agrícolas decorrentes de deficiências nos processos de colheita, transporte e armazenamento de grãos, hortaliças e frutas.
- Se fosse possível calcular as perdas na agroindústria, supermercados, restaurantes comerciais e industriais e o desperdício doméstico o valor seria bem maior.
     Baseada no estudo do Ipea estima-se então em 30 milhões o número de indigentes no país.
     Alimentam-se de arroz com mandioca no norte de Minas, cacto e farinha de milho no sertão nordestino, garimpam lixões nas periferias das grandes cidades e recorrem até ao turu, molusco extraído de troncos molhados à beira do Tocantins no Pará.
... em Ouricuri há os "loucos de fome", pessoas com desequilíbrio mental que os médicos associam à subnutrição.
- Ele fala besteira, conversa sozinho e fica revoltado de repente.
     A 20 km do centro de São Paulo 2 000 indigentes frequentam diariamente o "sopão" do Ceagesp.
MOLUSCO AJUDA RIBEIRINHOS A ENGANAR A FOME NO PARÁ
turu, molusco que vive nos troncos de árvores molhadas pela maré do rio Tocantins.molusco gelatinoso ajuda a matar a fome de 5 000 habitantes das ilhas de Abaetetuba.
      Sete em cada dez crianças da região são subnutridas.
      Os peixes do rio são cada vez mais pequenos.
    Aumento dos cortadores de turu é consequência da escassez de peixes nas praias do rio.
     A devastação dos açaizais por empresas produtoras de palmito também ajudou. O açaí é um alimento importante para a população de baixa renda do Pará.
Um restaurante da cidade serve caldeirada de turu.
     Nas ilhas, o molusco é comido vivo.
- É proteína pura. O turu só faz mal porque muita gente come cru, com areia e sem lavar.
OURICURI: HOSPITAL REGIONAL ATENDE SEIS CASOS POR SEMANA DE "LOUCOS DE FOME"
     Palma, planta usada pelos fazendeiros como ração de gado.
     Ela serve o cacto cozido, cortado em pequenos cubos e misturado com arroz ou farinha de milho.
MÁ ALIMENTAÇÃO CAUSA ATRASO NO CRESCIMENTO
... 61,7% da população carente de Manaus está na faixa de pobreza absoluta. A má alimentação gera atraso no crescimento de 16,7% das crianças amazonenses e 34% delas sofrem de desnutrição.
... 60 toneladas de peixe são perdidas diariamente devido às péssimas condições de armazenamento no porto de Manaus.
... no período de safra em Manaus a oferta diária de peixe é de 300 toneladas, o que representa o dobro da demanda. A inexistência de um sistema de armazenamento adequado faz com que 60 toneladas de peixe apodreçam diariamente.
DESNUTRIÇÃO DIMINUI COM EDUCAÇÃO DIZ ANA PELIANO ECONOMISTA DO IPEA
     Metodologia aplicada no estudo da desnutrição é baseada na da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) que caracteriza a indigência como a situação em que o cidadão gasta todo seu dinheiro e consegue, na melhor das hipóteses, pagar só a alimentação.
MAPA DA FOME: SUBSÍDIO À FORMULAÇÃO DE UMA POLÍTICA DE SEGURANÇA ALIMENTAR
, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

INDIGENTES GARIMPAM LIXÕES
em João Pessoa, Paraíba, chama-se Lixão do Róger.
     Em meio a urubus, graças, fumaça e forte mau cheiro, centenas de crianças, jovens e velhos disputam pedaços de lixo reciclável para vender no aterro metropolitano do Grande Rio, no Jardim Gramacho, Duque de Caxias, numa área de 1,2 milhão de metros quadrados onde são despejadas 100 toneladas (?) de lixo por mês.
       PESCA
     O consumo de pescado no Brasil é de 6,5 quilos per capita/ano, metade do mínimo recomendado pela FAO.
... o bacalhau importado é o peixe mais consumido pelos brasileiros (mas nem todo e nem de longe é bacalhau mas o tal de "bacalhau saith" e por aí).
... a falta de hábito faz com que a maioria dos brasileiros só coma peixe na Semana Santa.

CARNE DE RATO É ALIMENTO EM TIMBAÍBA, PERNAMBUCO   O GLOBO 17 de outubro 1994
campanha RATO NO SACO, FILÉ NO PRATO, lançada para combater a infestação da cidade por ratos, acabou por revelar meio alternativo e repugnante de se matar a fome: churrasco de rato. Centenas de moradores empreenderam verdadeiras caçadas para trocar um quilo de ratos - vivos ou mortos - por igual quantidade de carne de vaca de primeira. Na periferia da cidade, a 117 km de Recife, o jornal constatou que por absoluta falta de informação os animais eram capturados no lixo e nos esgotos e devorados inteiros por famílias famintas.
     Para essa gente, que nem tomou conhecimento da campanha porque não tem rádio ou TV rato é alimento comum, muitas vezes o único. E sem sal, porque não há dinheiro para comprá-lo. Um casal que vive da venda de papel e plástico recolhidos no lixão há dez anos não come carne de vaca.
- Depois de queimar os pelos a gente raspa tudo com a faca e bota no braseiro de novo. Quando ele começa a ficar durinho a gente tira do fogo, abre a barriga e retira o fato (as tripas). Depois bota na brasa de novo e deixa tostar para comer assim mesmo, insosso. Se tivesse sal ficava mais gostoso. Que gosto tem? De rato mesmo! Ninguém aqui conhece outro bicho que tenha gosto. Acho que rato é melhor que carne de boi porque faz uma porrada de tempo que não como outra carne. Não me lembro nem do gosto.
     Iam passar sábado a água e rato com quatro filhos, dos oito meses aos seis anos.
     Timbaúba fica na região canavieira de Pernambuco. Na entressafra da cana a Prefeitura distribui cestas básicas de alimentos para os trabalhadores rurais não morrerem de fome. Apenas 25% da área urbana tem saneamento básico, donde até achar rato em esgoto fica mais difícil.

VALE DO JEQUITINHONHA: CRIANÇAS AJUDAM CARVOEIROS EM MINAS
     Crianças maiores de 12 anos à beira da estrada BR 365, que liga o Triângulo Mineiro ao sul da Bahia, e com adultos carregam caminhões de carvão vegetal produzido ao longo da estrada. Os "chapas", como SÃO CHAMADOS OS CARREGADORES, PASSAM O DIA EM JEJUM. aLGUNS LEVAM UM PIRÃO PARA A ESTRADA, quando sobra do jantar.
     Grão Mogol já foi o berço mais fértil do bócio, uma hipertrofia da glândula tireóide, provocada pela falta de iodo no organismo, que incha a garganta formando enormes papos. Hoje os cidadãos do lugar não têm mais bócio, mas vivem ameaçados pela doença de chagas e pela leishmaniose, transmitidos pelo barbeiro e o calazar, que segundo alguns matam mais que a fome.
     O marido trabalha na roça, plantando milho e feijão, e a cada 15 dias traz um saco de comida.
- Nos últimos dias alguns comem e outros não. Quem come ontem não come hoje. No finalzinho mesmo, aí ninguém come nada.

 

 

 

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