ciberzine & narrativas de james anhanguera 

         destrincha o pato à Beijing, ou xadrez, ou laqueado

                               

          2008 d.C. O Mundo

          finalmente acorda 

         para a emergência

         alimentar. Mas 

     Que mundo?

          Que emergência

         Que alimento?

Do caviar ao feijão com arroz (branco? preto?

integral?) ou feijão com farinha de mandioca

um universo de inguinorãça e hipocrisia separa 

a humanidade carente.               De comida? 

 Só de comida? 

Ou também de sapiência e vergonha na cara? 

                                                                                                                                                                                          

    

banco de dados revoluciomnibus.com do dossiê  A Fome no Mundo e os Canibais

                  e                  ANHANGUERA         PAPERS
                                                                  

A FOME NO MUNDO E OS CANIBAIS

                       
   

             

              Afirma uma firma que o Brasil confirma:

                    ”Vamos substituir o Café pelo Aço”.

          Vai ser duríssimo descondicionar o paladar.

                                                             Cacaso

 

                                                                                                                                                                                

                                                                                                               Este Admirável Mundo Louco - Ruth Rocha, 22ª impressão, ...   ilustrações Walter Ono

                

     

     A FOME  NO MUNDO E OS CANIBAIS

 

                                

       AFriCa AMériCA EuROPa                                                                     

nossos enviados reportam de três continentes as causas e consequências de duas emergências previstas para nostro domus Terra há milhares de luas, baseados no que vêem e no banco de dados revoluciomnibus

        em          A FOME  NO MUNDO E OS CANIBAIS

  

          huxley na fome do mundo

                                   

 

CRISE 2008: DE CRACK EM CRACK A COMANDITA ENCHE O PAPO

                                                 

       ALIMENTAÇÃO      ENERGIA

     

      GUERRA      E      PAZ

      

     Oh como os brancos são bons

   Come sono buoni i bianchi

       

A INDÚSTRIA DA SECA

 

                                              

         

      Oh como os brancos são bons

     Come sono buoni i bianchi

SÉCULO XIX : SÉCULO XXI

EM 100 ANOS A ÁFRICA SAI DA OBSCURIDADE PARA AS TREVAS E VOLTA PARA A OBSCURIDADE NAS TREVAS

A África Negra representou durante muitos séculos uma fatia obscura do mundo, terra de homens exóticos e estranhos; e que só começou a ser (pouco) desvendada (ao mesmo tempo em que era destruída) a partir do fim do século XIX.
 

veja, são paulo, 12 de novembro de 2008

Sarah Palin [candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos] achava que a África era um país, não um continente.

isca lançada no oceano das especulações por um blogger que a mídia mordeu mas que de todo modo serve de mote para este blogger sobre o mar de penumbra que rodeia o continente perdido após um século de depredação

 

veja também aqui

 

           BRASIL-ÁFRICA ÁFRICA-BRASIL

 

 20 MILHÕES DE BRASILEIROS ESTAVAM - ABAIXO DA LINHA DA MISÉRIA -, OU SEJA - EM SITUAÇÃO ALIMENTAR GRAVE -, EM OUTRAS PALAVRAS - PASSANDO FOME - EM 2007 - SEIS MILHÕES A MAIS QUE EM 2004, SEGUNDO UM ESTUDO DO IPEA (INSTITUTO DE PESQUISAS E ANÁLISES APLICADAS) BASEADO NUMA PNAD (PESQUISA NACIONAL DE AMOSTRAS AO DOMICÍLIO) DO IBGE (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA). TAIS CIFRAS CORRESPONDIAM A QUASE UM DÉCIMO DA POPULAÇÃO DO BRASIL E A POUCO MAIS OU MENOS DOIS POR CENTO DO CONTINGENTE DE UM BILHÃO DE PESSOAS QUE PASSAM FOME NO MUNDO. ERAM OUTROSSIM POUCO MAIS OU MENOS EQUIVALENTES AO PORCENTUAL DA CONTRIBUIÇÃO DO BRASIL PARA O COMÉRCIO MUNDIAL, EM QUE OS ALIMENTOS TÊM PESO CONSIDERÁVEL. OS ESFOMEADOS SÃO 11 MILHÕES, DIZ UM ESTUDO DO IBASE (INSTITUTO BRASILEIRO DE ANALISES SOCIAIS E ESTATISTICAS) CITADO NO FILME GARAPA, DE JOSÉ PADILHA. 20 OU 11 MILHÕES É DE TODO MODO GENTE DEMAIS PASSANDO FOME EM UM PAÍS EM QUE 

Brasileiro
passa fome
sem razão

Jornal do Brasil 22 de julho 1993
A fome não se explica pela falta de alimentos, constatou o Tribunal de Contas da União baseado numa auditoria feita aos
Programas de Suplementação Alimentar do governo envolvendo
Fundação de Assistência ao Estudante (FAE)
Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (Inan)
Legião Brasileira de Assistência (LBA) e
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)
EM CADA PROGRAMA FORAM OBSERVADAS IRREGULARIDADES E FALHAS GRAVES
Com uma média de 59 milhões de toneladas de grãos (arroz, feijão, trigo, milho, soja) e a disponibilidade interna desses produtos e dos demais produtos tradicionalmente consumidos no país é superior às necessidades diárias de calorias e proteínas da população.
Dispõe-se de 3 280 calorias e 87 gramas de proteínas per capita/dia para uma necessidade de 2 242 calorias e 53 gramas de proteínas.

 

Robert Anton Wilson   dá o bote em   The Illuminati Papers   e dá o mote das premissas de 

A Fome No Mundo e os Canibais::

Duas pessoas eminentemente inteligentes, R. Buckminster Fuller e Werner Ehrard, propuseram que podemos e devemos abolir a fome até o final deste século. [século XX] Este objetivo é racional, prático e desejável, de modo que, naturalmente, foi denunciado como utópico, fantástico e absurdo.
... se gastaria muito menos dinheiro em tremendas imbecilidades organizadas como a corrida aos armamentos, sobrando bastante mais para investir em projetos fomentadores de vida.

História do novo mundo, história da perpetuação dos erros humanos, dos enganos da civilização ocidental - fome no mundo. Erros de interpretação. A presunção do intérprete, que impõe a sua visão. Malthusianos e antimalthusianos, isto e aquilo. Isto ou aquilo. Terra arrasada e acabou. Não se fala mais nisso.

 Chegados à África Central, rumam para o interior, iniciando a sua aventura, que é essencialmente a da deslocação cultural, a passagem de uma cultura para outra.
A PASSAGEM DE UMA CULTURA PARA OUTRA: OS CANIBAIS  

  QUEM CANIBALIZA QUEM OU O QUÊ
 
CANIBALISMUS / ESCRAVISMO: eis o que de uma forma ou de outra funda o Brasil: regime de devorar ou "gastar gente" - usar e jogar fora, como os índios, os negros. Darcy Ribeiro dizia que ele torrou 10 milhões de almas.
 

dicas do cardápio de  A Fome no Mundo e os Canibais da perspectiva

            Oh como os brancos são bons               

       Come sono buoni i bianchi

 

ISHMAEL Como o Mundo Veio a Ser o Que É   DANIEL QUINN 1992
[ a história do homem é a de Pegadores e Largadores, uma encenação]
Alguns pensadores pessimistas do século 19, como Robert Wallace e Thomas Robert Malthus, olharam para baixo. Mil anos antes, até mesmo quinhentos anos antes, provavelmente nada teriam notado. Mas o que eles vêem agora assusta-os. Era como se o solo se precipitasse ao seu encontro - como se estivessem a despenhar-se. Pensam um pouco e concluem: "Se assim continuarmos depararemos com grandes problemas num futuro não muito distante." Os outros Pegadores ignoraram as suas previsões.
"A intensificação da produção no sentido de alimentar uma população aumentada causa um aumento ainda maior na população." Os Pegadores respondem: "Tudo bem, só precisamos de colocar gente a pedalar na criação de um método fiável de controle de nascimentos. Então a Águia Pegadora voará para sempre."

 
... mas não enquanto as pessoas da tua cultura estiverem a encenar esta história.    

   controle de natalidade

"... sempre deixado para o futuro. Ele foi deixado para o futuro quando éreis três bilhões em 1960."
 "... enquanto as pessoas da tua cultura estiverem a encenar esta história. Enquanto encenarem elas esta história continuarão a reagir à fome aumentando a produção de alimentos. Viste já os anúncios para o envio de alimentos aos povos famintos do mundo?"
    "Sim."
    "Viste já anúncios para o envio de contraceptivos para algum lugar?"
    "Não."
    "Nunca. A Mãe Cultura tem dois pesos e duas medidas. Quando lhe falamos em explosão populacional ela responde controle populacional global mas quando lhe falamos em fome ela responde aumento da produção alimentar. Na verdade porém o aumento da produção alimentar é um evento anual e o controle populacional global é algo que jamais acontece."


Quem se recusar a ocupar um lugar na história não terá alimento - Mãe Cultura por oposição a Mãe Natura            - Daniel Quinn: Ismael
(...) enquanto encenardes uma história que diz terem os deuses feito o mundo para o homem o usar como muito bem o entenda (...) a Mãe Cultura exigirá aumento de produção para hoje, prometendo controle populacional para amanhã.
(...) A fome não é apanágio exclusivo dos humanos. Todas as espécies estão sujeitas a ela, em qualquer parte do mundo. (...) uma população que ultrapassou os seus recursos, apressa-se a enviar-lhe alimentos do exterior, garantindo assim que na próxima geração haja ainda mais pessoas morrendo de fome. Como nunca se permite à população reduzir-se a ponto de poder sustentar-se através dos seus próprios recursos (...)
(...) Os seus colegas do mundo todo entenderam perfeitamente o que dizia ele, mas têm o bom senso de não contestar a Mãe Cultura (...)
... não é bondade nenhuma trazer comida do exterior para conservar o seu número em quarenta mil. Isso só garante a continuidade da fome.
 


A propósito desse Quinn se poderia colocar assim: para alguns autores DO CONTRA vivemos a encenação de UMA HISTÓRIA.
 

mais dicas do cardápio de A Fome no Mundo e os Canibais da perspectiva

             Oh como os brancos são bons               

         Come sono buoni i bianchi

 

OPERATING MANUAL FOR SPACESHIP EARTH
R. BUCKMINSTER FULLER 1969

Surgiu então Thomas Malthus, professor de economia política da Companhia das Índias Orientais dos Grandes Piratas, que disse que o homem se estava multiplicando a um ritmo geométrico enquanto os alimentos apenas se multiplicavam a um ritmo aritmético. E finalmente, trinta e cinco anos depois, foi a vez de Charles Darwin, o servo especialista dos G.P.'s, que explicando a sua teoria da evolução animal  disse que a sobrevivência era só para os mais aptos.

 

África-Brasil

a face cruel do paraíso terrestre na fazenda cafeeira: o calor sem trégua, os mosquitos, o regime de semi-escravidão, a prepotência dos patrões. - Sérgio Mauro em O Estado de São Paulo sobre Giovannina, de conde Afonso Celso (1896)

"capitalismo selvagem" significa modernização na marra.
 

os "atravessadores" - "ideológicos" - das campanhas de auxílio durante as guerras de libertação africanas

             - Alguém aqui está ciente da existência da África?
             - Angola? Sei... onde é que fica mesmo?
             - Desapareceu do mapa do século XXI como nele mal figurou até o século XIX. Falta água encanada mesmo nos melhores hotéis de Lagos, Nigéria.
               Luanda? Onde é que fica Luanda?

       ÁFRICA  HYPE

mythos de papel e celulóide - leões de papel e celulóide

Kurt, Heart of Darkness, Joseph Conrad, fantasmagoricamente real África

- os mitos da selva - Tara, Fantasma, Hollywood -
                     ficaram lá no século XX e sem serventia volta-se ao século XIX

  antes do Mapa Cor-de-rosa.
 

FERRERI OBCECADO PELO TEMA
COMIDA, ALIMENTAÇÃO E CONSUMISMO

A gula de um grupo de gourmands num retiro de fim-de-semana de degustação culinária leva a uma razia. LA GRANDE BOUFFE era um soco no estômago. De direto.
No final de L'ULTIMA DONNA - la MUTI, que passa o filme nua em pelo, CORTA O Pênis de Depardieu com uma serra elétrica de pão na cozinha do cubículo de ambos numa das praças fortes da Italia bene classe média de operários, Milano 2, na linha do primeiro grande tiro do barão Silvio Berlusconi, a especulação imobiliária speculazione edilizia
Dillinger è Morto É UMA LAUTA REFEIÇÃO. O olfato e o ouvido. Piccoli, com pinta de executivo settled down, passa o filme fazendo janta para um em uma das cozinhas mais bem equipadas e fornecidas do mundo, inclusive um revólver embrulhado no jornal do dia da morte de Dillinger. A mulher, Anita Pallenberg, mulher de Keith Richards, dorme. O som de fundo, enquanto Piccoli cozinha e restaura o revólver enferrujado, é o de uma estação de rádio italiana tocando o que há de mais belo ou divertido no repertório daquela nuova canzone dos anos 1960. Vê-se o filme e escuta-se rádio. Com muito gosto. Após a janta, ao que tudo indica sem uma ponta de ira ou raiva, Piccoli mata la Pallenberg dormente com um tiro da arma restaurada e sai. Chega a uma praia, nada e se oferece para trabalhar como cozinheiro num iate.


África e A grande farsa da democracia burguesa ocidental.
No ARCO de uma geração põe-se um continente inteiro a lidar com valores a que é totalmente estranho e a que se chegou na Europa após milênios de história.
Do kimbu, a aldeia kimbunda, de tanga a lankar (comer) o seu funji (pirão), acossados pela fome, por toda a sorte de doenças e milhões de minas terrestres convivendo via satélite com o kimbu global. Como se dá o exercício do "direito" do voto universal em tais circunstâncias se no Brasil, onde mais de 100 milhões de pessoas com genes transplantados desde há meio milênio da Europa e Oriente Médio e Japão, é como se não fora familiar, congênito.
E aqui um dado fundamental, tratando-se de nomes e números, é o do grau de consciência desse direito, que por ser ainda obrigatório - ou dever na marra - torna-se matéria muito complicada, que implica já não só o fato de o cidadão analfabeto ou alfabetizado que pode exercer o tão propalado direito (e dever) e dever (dever) cívico ser na grande maioria (70 por cento da população, segundo o Inaf/2008) analfabeto funcional. Pode-se ponderar sem dar margem ao engano que uma ínfima minoria - apesar de como a quase totalidade pertencer ao coro que anda entoando o refrão POLÍTICO É TUDO LADRÃO SAFADO -, os pouquíssimos milhões que lêem umas centenas de livros e publicações periódicas por ano, ter realmente alguma idéia do que está fazendo. E como por aqui se vê como em termos de estatísticas sociais África e Brasil ou vice-versa são grosso modo ou mais ou menos a mesma coisa, torna-se muito palpável que, de novo na obscuridade - agora laboratório de investimentos de tigres asiáticos (China a impingir-lhe suas armas e quinquilharias pirateadas) - África é apenas e só, no máximo, um contra senso, um paradoxo. Ou nem isso.

    problemas reais, escaldantes, das populações: fome, guerra, refugiados e urbanização.
   refugiados permanentes: um continente no continente, entre cinco a dez milhões de pessoas

... no ano 2000 mais de metade da população do planeta viverá nas cidades,  a maior parte das quais serão mais perigosas que os efeitos de uma guerra atômica, selvas urbanas dilaceradas por novos, terríveis problemas, grande crise de identidade, de cultura e de emprego
Cidade do México: cidade-pesadelo
Cairo: um formigueiro humano, a que diariamente afluem 5 milhões de habitantes da periferia
Nas maiores cidades dos Estados Unidos 45 por cento dos jovens negros não têm emprego e 16 por cento dos adultos são analfabetos.
Cidades africanas e asiáticas tornaram-se inabitáveis pelo excesso de população e a falta de serviços, nomeadamente um mínimo de infra-estrutura sanitária, criminalidade crescente e mal-estar geral.
Estudiosos da África, Ásia e Américas fizeram notar que os problemas das cidades do futuro não serão apenas derivados da poluição, do tráfego, desemprego, da burocracia ou das drogas mas sobretudo da dissolução dos valores atuais, do desenraizamento das instituições, da ignorância e da pobreza.
Habitantes de muitas cidades africanas caminham por três dias até outras regiões em busca de lenha para cozinhar.

Carga Infernal, filme de Fernando d'Almeida e Silva
                                                                                                                    Jornal do Brasil 28 de junho de 1995
a carga de cereais, fruto da "ajuda humanitária" que o navio transportava, financiada por fundos europeus, vem de Chernobyl e está altamente contaminada - mas permitem aos transportadores embolsar uma pequena fortuna. (...) produtos importados no limite da validade que vão parar em Angola e Moçambique. A Europa até manda comida velha, mas não proporciona trabalho aos africanos quando eles chegam mais perto.

FERRERI: COME SONO BUONI I BIANCHI
CRITICA AOS AUXÍLIOS À ÁFRICA
 ROMA 9 JUNHO 1987
O diretor italiano Marco Ferreri acabou de rodar nos desertos do Marrocos e da Mauritânia um filme, segundo disse, "com um final feliz".
(...) e compraram farinha de peixe e todas aquelas porcarias que se dão aos esfomeados.
Para se assegurarem que os seus auxílios chegariam aos destinatários e não seriam desviados para alimentar o exército local, enriquecerem os comerciantes ou serem deixados a estragar, como aconteceu tantas vezes, decidem entregá-los diretamente.
 

Chegados à África Central, rumam para o interior, iniciando a sua aventura, que é essencialmente a da deslocação cultural, a passagem de uma cultura para outra.


          
A PASSAGEM DE UMA CULTURA PARA OUTRA: OS CANIBAIS

                            QUEM CANIBALIZA QUEM OU O QUÊ
 

O pessoal está achando que os protagonistas acabam por ser comidos, embora o diretor nada tenha revelado sobre o "final feliz" do filme. Disse apenas que "a conclusão do filme pode ser definida como política, ou humanitária".
Contra todas as evidências Ferreri declarou que não pretendeu "fazer ironia com as grandes organizações internacionais de auxílios aos povos africanos esfomeados, que morrem por causa da seca e da carestia".
"O que eu quero dizer através do filme é que na minha opinião uma caridade desse tipo não serve a quem a recebe, apenas dá prazer a quem a faz. Seria muito mais caridoso matar Reagan ou alguém como ele."
"Penso que seria melhor deixar aquela pobre gente morrer em vez de ajudá-la como a ajudamos.
"Quarenta anos atrás tínhamos as colônias e os negros eram apenas 'mão-de-obra'. Agora tornaram-se 'consumidores'. E nós levamos farinha para países em que nunca se comeu pão e quando o comem, por não estarem habituados, passam mal; levamos a farinha láctea e as mães africanas, que pagam 750 000 escudos por uma lata, vêem-se obrigadas a fazê-las durar o mais possível, acrescentando-lhes água demais, dando a seus filhos mais água do que leite - e ei-los com as famosas barrigas inchadas que todos conhecemos das fotografias."
Ele é radicalmente contra as grandes campanhas humanitárias internacionais de auxílio a populações africanas vítimas de desastres naturais ou de guerras:
"Os grandes impérios coloniais não acabaram. Transformaram-se em grandes impérios econômicos. A atroz miséria africana continua sendo o seu território de conquista. Engordam à custa dos esfomeados, através dos auxílios, e não das armas, como dantes. Inventam a nova escravidão da fome."
Esperando "que um dia os africanos encham o saco de serem ajudados" o diretor afirma, categórico, que "as expedições de socorro deveriam ser feitas aos nossos próprios países, a caridade deveria ser dirigida aos nossos próprios velhos, e não ser feita apenas para transformar africanos livres em assistidos permanentes que se comem uns aos outros".
Para se informar sobre o assunto, segundo ele
"Basta viajar, conversar, olhar e pensar que por exemplo agora está na moda a ecologia, nos esforçamos por entender a truta e as suas razões, mas não temos nenhum respeito pelos outros seres humanos, impomos-lhes a nossa cultura e os nossos hábitos, inclusive alimentares."
O filme é fruto do intenso debate que se vem travando na Itália em torno dos auxílios ao Terceiro Mundo.
Seus lautos investimentos a fundo perdido em três continentes do sul do planeta foram ensombrados por uma série de denúncias de favorecimentos de empresas que operam no setor, desvios de fundos e da má qualidade dos produtores alimentares enviados, além de projetos técnicos inúteis ou descabidos, como os que envolveram deslocações em massa de etíopes das suas para outras regiões.

FERRERI: COME SONO BUONI I BIANCHI
AUXÍLIOS À AFRICA: POLÊMICA SOBRE FILME DE MARCO FERRERI
18 janeiro 1988
o último filme de Marco Ferreri estreia a 20 de janeiro em Paris em meio a muita polêmica.
"O diretor vai além das convenções com uma provocante lucidez radical, e sempre provocou escândalos, mas desta vez não reflete sobre a "comilança" consumista mortífera ou sobre a solitária derrota do macho: conta a simples história de europeus que vão à África levar comida e acabam por ser comidos por africanos" - revela La Stampa, o jornal diário de Turim.
"Conta-a para fazer polêmica contra a nova caridade branca, para desmistificar a grande campanha internacional que comoveu o mundo, mobilizou milhões de pessoas piedosas, de boa vontade, e induziu os governos a doar grandes somas de dinheiro por causa da África esfomeada e com sede."
"Fazem-se documentários sobre a fome no Sahel, mas ninguém fala das condições de abandono dos velhos nos nossos hospitais, das nossas misérias" - diz Ferreri, para quem "a aventura caridosa também é uma operação colonial".
Michel Piccoli (La Grande Bouffe, Dillinger è Morto)
narra as vicissitudes de uma campanha de auxílio ao Sahel chamada
Operação Anjos Azuis.
Três cidades da Itália, França e Espanha fazem uma coleta entre crianças das escolas para estarem seguros de que os alimentos comprados com o dinheiro coletado chegarão de fato à população a que se destinam.  Os organizadores da campanha decidem entregá-lo diretamente mas dois deles acabam por ser comidos.
"Não sou o único a pensar que no futuro os povos do Terceiro Mundo dominarão o mundo ocidental. Mais tarde ou mais cedo irão nos comer. E se ainda estiver por aqui não vou chorar por causa disso. Para mim nossa civilização deveria acabar rapidamente."
"No passado existia a operação colonial, a aventura exótico-colonialista, com legionários, camelos, fortins nos desertos, imposição aos outros de uma civilização. Hoje existe a Operação Caridade, a aventura exótico-benéfica, com comida, remédios, know-how, novas culturas, a mesma imposição aos outros de uma civilização."
"São apenas válvulas para o sistema ocidental, que servem aos negócios, a exorcizar a revolta negra, a provocar a boa vontade dos jovens e dos inquietos, a conquistar territórios ou mercados: é a mesma coisa; o sistema econômico não mudou."
A CONQUISTAR TERRITÓRIOS OU MERCADOS
O filme, para Alberto Moravia, é "mais sobre a Itália que sobre a África". Para ele "ajudar a médio ou longo prazo é melhor que não ajudar".
Prevê-se que em 1988 a Itália invista 4 BILHÕES de DÓLARES em auxílios ao Terceiro Mundo.

roma 7 maio 1988
ESCÂNDALOS ITALIANOS NO TERCEIRO MUNDO
Come Sono Buoni I Bianchi é uma espécie de documentário com que Marco Ferreri quis envolver a opinião pública italiana no debate sobre os auxílios dos países industrializados ao Terceiro Mundo, que se tem circunscrito aos especialistas e aos meios políticos. Tentativa malograda. Na Itália o filme foi um fracasso de bilheteria e foi retirado das salas duas semanas após a estréia.
A atual política de cooperação e auxílios de emergência foi impulsionada pelo Partido Radical, que em 1979 iniciou uma campanha com o objetivo de alertar as autoridades e a opinião pública para a "fome no mundo", expressão que se tornaria célebre.
Nos nove anos que se seguiram registrou-se uma subida em flecha dos investimentos no setor, numa dinâmica que não esconde a determinação da diplomacia romana em de algum modo obrigar os países hoje ajudados, detentores de preciosas reservas de matérias-primas, a futuras relações econômicas privilegiadas com os seus protetores.
(...)
o arroz da campanha Noi Con Voi estava estragado e pertencia a uma remessa de 25 mil toneladas transacionada fraudu-lentamente com a cumplicidade de meia dúzia de funcionários do Fundo de Auxílios Italianos, entre eles o seu diretor-geral Claudio Moreno, e envolvendo
várias empresas (entre as quais a do Noi Con Voi).
o subsídio da CEE era sobre a exportação e no total teriam embolsado 35 milhões de dólares com a transação

"O auxílio pode levar ao caos e mesmo sufocar os países que os recebem.
São dezenas de países doadores, de agências mundiais, de organizações de voluntários, centenas de projetos variados, que muitas vezes colidem uns com os outros." - Pedro Pires, primeiro-ministro de Cabo Verde
"Preferimos os auxílios modestos mas dilagados no tempo, programados com antecipação e por isso inseríveis nos nossos planos a imprevisíveis explosões de generosidade que dificilmente absorvemos."

roma, 12 fevereiro 1988
ALESSANDRO NATTA secretário-geral do Partido Comunista Italiano CRITICA AUXÍLIOS AO TERCEIRO MUNDO
os auxílios ao Terceiro Mundo "são migalhas dos excedentes de capital da corrida armamentista".
"Na atitude dos colossos financeiros, tecnológicos e comerciais, como na de muita imprensa eurocêntrica, entreve-se uma concepção de segurança como um processo que diz respeito apenas ao 'centro', não se hesitando em espezinhar a periferia."
A corrida entre os EUA e a URSS fez com que o Terceiro Mundo sofra "de forma inenarrável".
Parte considerável das dívidas dos países em vias de desenvolvimento resulta das importações de armas. Segundo cálculos da ONU, 20 por cento dos débitos.
A Itália investiu desde 1980 2,5 bilhões de dólares na cooperação para o desenvolvimento. Em 1986 tornou-se o país da OCDE com o maior índice de despesas com o Terceiro Mundo em relação ao PIB.

"É uma glória para Francesco Forte manter um pequeno ditador que encheu as prisões do seu país de gente cujo único erro é o de não pertencer ao seu clã e de não pensar como ele?"

COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE AUXÍLIOS ITALIANOS À ÁFRICA
"OBRIGARAM-NOS A PRODUZIR O QUE NÃO CONSUMÍAMOS E A CONSUMIR O QUE NÃO PRODUZÍAMOS", DISSE EM ROMA O PRESIDENTE DE UGANDA, YOWERI MUSEWENI, A PROPÓSITO DA CRISE NA ÁFRICA.
COLÓQUIO "CRISE africana e Intervenção Italiana" no Grand Hotel
"Motivos históricos e ambientais estão na base da situação dramática com que se debate a maior parte da população do continente, entre os quais o colonialismo do passado."


reunião da FAO para ajuda à África: mais um ato de show-off dos desenvolvidos?
projetos de auxílio a vinte países africanos atingidos pela seca em um dossiê: medidas para reestruturação agrícola. Custo US$ 200 milhões. Como obtê-los?
Os próprios responsáveis pelo recém-criado Departamento de Operações de Urgência da ONU afirmam que os países desenvolvidos ajudam o Terceiro Mundo não por idealismo mas por necessidade de esvaziar os seus depósitos de estoques reguladores de produtos alimentares: os depósitos estão abarrotados por questões de política de mercado.
Auxílios em gêneros não vão servir para acabar com a fome. Só uma reestruturação da produção agrícola. É evidente o empenho dos países do Norte em, através dos auxílios, se distinguirem aos olhos da opinião pública pela generosidade para com os necessitados do Sul. Show-off ou blefe de ricos esbanjadores, é o que está por trás da dança de cifras e toneladas de alimentos doados, enquanto perspectivas de mudança da situação no Terceiro Mundo permanecem imutáveis.
Em troca dos benefícios, os países agraciados são pressionados a aderir às políticas de livre mercado.
Mais de quatro milhões de pessoas afligidas pela fome em Moçambique carecem de 700 mil toneladas de cereais.
Pontes aéreas ou lançamentos de provisões com pára-quedas deverão ser organizadas para acudir as populações flageladas.

A MAIOR PARTE DOS FÁRMACOS É INÚTIL
ROMA, 5 AGOSTO 1986
250 remédios bastariam para combater as doenças mais frequentes no planeta
a maior parte das cerca de 50 mil marcas comerciais de produtos farmacêuticos é inútil e muitos deles são até prejudiciais à saúde.
"A proliferação dos fármacos e o uso indiscriminado que deles se faz é um sintoma alarmante da aceitação acrítica de uma lógica que em última análise é a da morte" - teólogo Giannino Piana.
O Parlamento Europeu aprovou uma norma regulamentando a exportação de fármacos para países do Terceiro Mundo destinada a combater uma verdadeira tragédia provocada pela venda a países subdesenvolvidos de remédios com escassas informações terapêuticas na embalagem e que frequentemente são ineficazes, quando não prejudiciais pelos efeitos colaterais que provocam.
Inúmeras indústrias farmacêuticas européias exportam para o Terceiro Mundo enormes quantidades de produtos que não obtiveram autorização de venda nos respectivos países ou que foram retirados do mercado por terem sido superados ou pelos efeitos colaterais que provocam.
"O Terceiro Mundo é a lixeira da indústria farmacêutica", afirma a irlandesa Mary Banotti, um dos redatores da regulamentação.
A Europa Ocidental detém 32,5 por cento de um mercado que fatura cerca de US$  100 bilhões de dólares/ano e exporta 45 por cento da sua produção.

          1988... 1998... 2008...

18 janeiro 1988
"Fazem-se documentários sobre a fome no Sahel, mas ninguém fala das condições de abandono dos velhos nos nossos hospitais, das nossas misérias" - diz Ferreri, para quem "a aventura caridosa também é uma operação colonial".

30 julho 2009

"Uma notícia surpreendente: 3 milhões de italianos vivem na miséria absoluta e  milhões são pobres. Um quarto da população da Região Sul da Itália é pobre."

               Incidente em Darfur

                               1983... 2003... 2008...

problemas reais, escaldantes, das populações: fome, guerra, refugiados e urbanização.
refugiados permanentes: um continente no continente, entre cinco a dez milhões de pessoas

a Operação Caridade, a aventura exótico-benéfica dos anos 2003, e 4, e 5 e tempo afora chama-se Darfur, no Sudão,  130 campos de refugiados com centenas de milhares de crianças subnutridas, e onde já morreram 300 000 pessoas.

Como se vê pelos trechos de parte do banco de dados revoluciomnibus expostos acima e abaixo,

RELATÓRIO DO FONDO ITALIANO CONTRO LA FAME
ROMA 2 maio 1986

5 mil toneladas de farinha para o Sudão, país ainda com zonas de subnutrição endêmica
102 toneladas de arroz
e também estruturas de armazenamento, ônibus, ambulâncias e unidades sanitárias móveis.

Folha de São Paulo 19 de julho de 1991
Migração envenena relações entre os Estados africanos
Refugiados se tornam dado político importante na África
René Le Marchand
prof. Universidade da Flórida

Sudão, neste momento, nos mostra a extensão do desastre que ameaça as populações do sul do país, após uma seca catastrófica
Cartum, a capital, barra ajuda internacional às áreas mais atingidas pela fome, confiando na redução da resistência do sul à dominação do norte, onde está o governo do general Omar Hasan al-Beshir.

Folha de São Paulo 2 DE MAIO DE 1993
ÁFRICA DESAPARECE NA GEOPOLÍTICA DE MERCADO
José Sachetta Ramos
A saída dos militares norte-americanos da Somália põe fim a uma encenação da Nova Ordem Mundial. Intervenção "humanitária" não põe fim a problemas sociais.
Washington poderia ter optado por intervir no Sudão ou Etiópia, países vizinhos, com guerras civis e milhões de esfomeados.

Sudão: islamização forçada de animistas e cristãos do sul levou a um conflito de três décadas de duração.

Etiópia e Sudão iniciaram programas de irrigação e drenagem das águas do Nilo Azul, que nasce na Etiópia, une-se ao Nilo Branco no Sudão e desce para o Egito. Ao frear a irrigação, as guerras civis adiaram um conflito ainda maior.
 

A FRAGILIDADE DA DEMOCRACIA AFRICANA
GAZETA MERCANTIL 15 DE FEVEREIRO DE 1996
Michael Holman
Financial Times

guerra no Zaire, Libéria, Sudão, Ruanda
 

vai para trinta anos que o caldo engrossou, como força de expressão, por aquelas lendárias paragens de minas de reis salomões. A guerra de milênios ali junto do Corno de África, em sua face contemporânea, estourou em 1983, quando os católicos do sul finalmente se rebelaram contra o domínio dos muçulmanos do norte numa guerra em que já morreram 2 000 000 de pessoas. 300 000, 2 000 000, 2008 e 9 e tempo afora são só números

como se constata por dados incluídos abaixo, troca-se Angola por Sudão ou Libéria ou..., 1983 ou 2015 e não se muda uma vírgula quando a mídia, até por falta de assunto, passa em revista o que se poderia pôr na revista e... vai de colar os mesmos epítetos de sempre: "tragédia invisível", "guerra que há muito perdeu qualquer propósito".

   

África-Brasil

ESCRAVOS - NEGROS - MISERÁVEIS
escravos contemporâneos - escravos da miséria, previstos por Joaquim Nabuco logo após a Lei Áurea em profético discurso.

 

"O Terceiro Mundo é a lixeira da indústria farmacêutica".

O antigo Terceiro Mundo, hoje Países em Vias de Desenvolvimento, é a lixeira - e ponto.

banco de dados revoluciomnibus.com

do dossiê  A Fome no Mundo e os Canibais

                  e                  ANHANGUERA         PAPERS
                                                                  

recapitulam a história voltando mais ou menos ao último grande CRASH, 1986, 88, por aí - a que se referia a montagem de Gerald Thomas THE FLASH AND CRASH DAYS -, recapitula a história desconhecida da África das maleitas e da miséria, mas mais conhecida pelas histórias do Fantasma do que por qualquer outra coisa,  até aportar no grande bode expiatório de 2008, que fez o mundo por um breve lapso de tempo reacordar para a África, Robert Mugabe - e afinal bode expiatório DO QUÊ? De uma história de atrocidades para que acordaram a África no século XV até o Mapa-Cor-de-Rosa?

Essa é a história que não contam (eles não falam do mar e dos peixes nem deixam ver a moça pôr a canção...)

O antigo Terceiro Mundo, hoje Países em Vias de Desenvolvimento, é a lixeira dos detritos de toda a espécie da Civilização Ocidental, agora com Índia, Rússia China e os tigres de papéis "podres" asiáticos - armas de segunda mão, ex-marcas-fetiches pirateadas, produtos fora do prazo de validade ou lixo mesmo, para os mercados "negros" africanos. África hoje talvez seja apenas o maior lixão do planeta.

Nos reportamos a um passado já remoto ma non troppo: os anos de Reagan, Thatcher e dos Yuppies, quando o chamado neoliberalismo assentava banca e A BOLHA da especulação financeira tomava proporções de um Mugabe, Idi Amin Dada, Mobutu Seze Seko e quantos vieram ao caso juntos - e ainda sobraria atrocidades (a dinheirama da corrupção e do narcotráfico circulando pelo gás dA BOLHA, por exemplo) para muitos mais ditadorzecos do gênero. Mamulengos do antigo e do neocolonialismo - nada demais.

África hype, pois sim: lixão. África-Brasil

JOSUÉ DE CASTRO
médico pernambucano, 1908-1973
revelou o flagelo da fome no Brasil
em 1952 foi eleito diretor-geral da FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura
Às vésperas do golpe de 1964 foi vetado pelo próprio partido, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), para o Ministério da Agricultura do governo João Goulart
morreu no exílio

Geopolítica da Fome  -  Geografia da Fome: obras de referência básica e consulta obrigatória

Theothonio dos Santos, economista 12 de setembro de 1993 Jornal do Brasil:
Ele foi fundo na busca das causas desse quadro de fome, ao processo de colonização e do seu caráter predatório baseado na busca do lucro fácil, do atendimento dos apetites e necessidades dos povos colonizadores, da implantação de regimes de trabalho servis. Destacou ainda o peso atual desta herança numa agricultura dominada pelo latifúndio, numa industrialização baseada no protecionismo e na inflação,  em uma urbanização desequilibrada e incapaz de absorver os trabalhadores vindos do campo e de gerar um mercado urbano capaz de estimular uma economia agrícola moderna.
Alertava para uma centralização econômica que abandonava as regiões mais pobres à sua sorte. Durante os anos de crescimento econômico vitorioso era um dos poucos que criticava, de forma contundente, um crescimento industrial que marginalizava a agricultura e acentuava a concentração de renda e a centralização econômica.
O golpe de 1964 reinstalou no poder a oligarquia da terra, obrigando-a somente a modernizar-se e tornar-se mais produtiva por força de um Estatuto da Terra que preservava suas propriedades anti-econômicas e anti-sociais, o capital internacional e os interesses monopolistas e centralizadores.
Atualidade de Josué de Castro na advertência ao caráter paradigmático da evolução de Recife:
O que os sociólogos chamam de 'cidades inchadas', como a do Recife, com 200 mil marginais improdutivos, oriundos do interior, são uma demonstração evidente de que, longe de se atenuar, se vai agravando no Brasil nos últimos tempos o desequilíbrio entre a cidade e o campo. Como se agrava o desnível entre a região industrializada do Sul e as regiões predominantemente agrícolas do Norte e Nordeste do país, vindo a situação do Nordeste a constituir-se no mais grave problema nacional (...).
Como médico criou a profissão de nutricionista
pesquisou o valor nutricional de um grande número de produtos agrícolas brasileiros
estudou as doenças alimentares mais graves do país
professor de Geografia Humana nas Universidades do Brasil e do Recife
romance
Homens e Caranguejos - homens que moram no mangue e vivem na lama como os caranguejos que vivem no mangue e moram na lama
Josué aprofundou sua visão ecológica da geografia humana que influenciou tão fortemente a ONU para a realização da famosa Conferência de Estocolmo em 1972 sobre ecologia e meio ambiente, em que a ditadura militar se opôs à defesa do meio ambiente em nome do desenvolvimento.
Ninguém se lembrou dele 20 anos depois como precursor do enfoque ecológico dos problemas humanos.
Seus trabalhos deste período foram publicados sob o título
Fome: um tema proibido

"A fome se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe e nos bairros pobres de Recife."

páginas finais de
GEOGRAFIA DA FOME, 1946:
... dualidade da civilização brasileira, com sua estrutura econômica bem integrada e próspera no setor da indústria e sua estrutura agrária arcaica, de tipo semicolonial, com manifesta tendência à monocultura latifundiária, (...)
Nenhum fator é mais negativo para a situação de abastecimento alimentar do país que a sua estrutura agrária feudal, com um regime inadequado de propriedade, com relações de trabalho socialmente superadas e com a não-utilização da riqueza potencial dos solos.
Também fator de agravamento da situação alimentar tem sido o surto de expansão industrial do país, sem o paralelo incremento da produção agrícola, de forma a atender à crescente procura de alimentos de uma população que procura levar os seus padrões de vida, principalmente nas cidades.
A alimentação do brasileiro se mostra assim imprópria em toda a extensão do território nacional, apresentando-se em regra insuficiente, incompleta e desarmônica, arrastando o país a um regime habitual de fome - seja de fome epidêmica, como na área do sertão, exposta às secas periódicas, a do Nordeste açucareiro e a da monocultura do cacau, seja da subnutrição crônica, de carências mais discretas, como nas áreas do Centro e do Sul.
... as inúmeras carências que o estado de nutrição do nosso povo manifesta constitui (...) o fator principal da lenta integração econômica do país. Por conta dessa condição biológica tremendamente degradante - a desnutrição crônica - decorrem graves deficiências do nosso continente demográfico.
 

Josué de Castro morreu em Setembro de 1973. Pioneiro no Brasil de estudos sobre alimentação e nutrição - 1945: Geografia da Fome 1952: Geopolítica da Fome - alertou para os danos que pode causar a falta de qualquer um dos 40 elementos nutritivos indispensáveis à salvaguarda da saúde, e não só para situações terminais como a inanição causada por falta de alimentos.
Provou que dois terços da população mundial passa fome ou sofre de doenças por má nutrição.
Para ele a questão não é produzir mais, mas distribuir melhor e repartir mais equitativamente; problemas fundamentais são políticos.

O Estado de São Paulo 16 de janeiro de 1994
MILTON SANTOS, professor titular de Geografia Humana da USP e autor dos livros
Croissance Démographique
Croissance Alimentaire dans les Pays Sous-Développés, CDU, Paris, 1967
A Urbanização Brasileira, HUCITEC, São Paulo, 1993
FOME SÓ ACABA COM PACTO SOCIAL DURADOURO
... o sonho do após guerra, de que Josué de Castro foi um paladino, de um mundo onde todos pudessem se alimentar devidamente, mostrou-se vão.
... a fome globalizada é diferente daquela fome localizada do passado.
... Antes os migrantes fugiam dos seus lugares para escapar ao flagelo, enquanto hoje continuam famintos no lugar onde chegam.
... uma urbanização galopante (em 1991, o número do urbano é igual ao total de brasileiros em 1980) e por migrações colossais desenraizadoras (eram 8 por cento os brasileiros ausentes do seu lugar de nascimento em 1940, hoje são mais de 45 por cento), levando a uma concentração gigantesca das populações em pequeno número de cidades (são 12 as cidades com mais de um milhão de habitantes e as Regiões Metropolitanas abrigam cerca de 30 por cento da população nacional).
... o problema da fome, quando se torna estrutural como agora, na escala do planeta, não se resolve metendo na mão dos necessitados um prato de comida. A comunhão instantânea tem de ser substituída por um verdadeiro e duradouro pacto social.

FOME E SECA; HISTÓRIA E ATUALIDADE         INDÚSTRIA DA SECA
MOACIR WERNECK DE CASTRO
Jornal do Brasil 24 de março 1993
Evocando os antecedentes do problema, escrevia Josué de Castro em Geopolítica da Fome:
São mais fatores de ordem social do que fatores de ordem natural que determinam a precariedade e a escassez alimentar neste continente. (...) A fome reinante nas terras sul-americanas é uma consequência direta do seu passado histórico: da história e da sua exploração colonial, de tipo mercantil, desdobrada em ciclos sucessivos de economias destrutivas.
Monocultura e latifúndio constituem um dos maiores males do continente, que entravam de maneira terrível o seu desenvolvimento agrícola e consequentemente suas possibilidades de abastecimento alimentar.
Em outro livro,
Sete palmos de terra e um caixão - Ensaio sobre o Nordeste, uma área explosiva, escrito pouco antes de 1964,
Josué de Castro analisa aspectos do problema da seca (...) A indústria da seca (...) vem de longa data (...) historia os precedentes de tentativas e fracassos a partir da criação do primeiro órgão destinado a enfrentar o problema: a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas.
Inicialmente se pretendia resolver a situação através de soluções técnicas, de engenharia hidráulica. Mas os açudes construídos "limitavam-se a refletir nas suas águas a beleza do azul do céu e a concentrar nas suas margens, como pontos de resistência, as negras massas de retirantes das épocas de calamidade".
Escreve ele que mais grave que a miopia técnica foi a mistificação política. O órgão federal "canalizava para os bolsos dos senhores das terras e dos seus apaniguados quase todos os recursos que deviam ser destinados a alimentar, a educar, a ajudar a viver os camponeses da região". Sua ação se fazia sempre "ao sabor das influências e do prestígio político".
As medidas posteriores, orientadas por uma mentalidade desenvolvimentista e não apenas paternalista, beneficiou "mais certos grupos apaniguados do que propriamente as vítimas do flagelo", com sua execução entregue a "colaboradores altamente comprometidos com a estrutura agrário-feudal, amparada no capital estrangeiro".
Daí a pouco o golpe militar faria do autor um proscrito
(autor, estudioso, professor, executivo - diretor-geral da FAO - Food and Agriculture Organization)

PERSEGUIDOS POLÍTICOS DA DITADURA MILITAR BRASILEIRA 1964-1985

Paulo Freire
Celso Furtado
Anísio Teixeira
Darcy Ribeiro
Josué de Castro

OPÇÃO GERAL
O MAU EXEMPLO VEM DE CIMA

MILHARES MORRERAM NA GUERRA EM BIAFRA Folha de São Paulo 27 DE AGOSTO DE 1993
Quando a Nigéria se tornou independente do Reino Unido, em 1960, formou uma federação de três regiões - Norte, Leste, Oeste. O crescimento da tensão regional, especialmente entre os hausas do Norte e os ibos do sudeste, levou a um golpe militar em janeiro de 1966, visto como uma tentativa dos ibos de tomar o poder. Houve um contragolpe liderado por um general do Norte e em 1967 os ibos fundaram a República do Biafra. Seguiu-se uma guerra civil de três anos e centenas de milhares de vítimas na qual os ibos foram derrotados.

O GLOBO 26 DE JUNHO DE 1994 CONTRA A INTERVENÇÃO ESTRANGEIRA
Africanista Roland Oliver, inglês, autor de
A Experiência Africana
África dos hominídeos aos nossos dias
o crescimento repentino e desordenado da população devido à redução das taxas de mortalidade infantil sem uma correlação nas ambições das famílias, que continuaram numerosas.
Sendo a recolonização internacional da África inconcebível, essas crises têm de ser atacadas internamente. Os esforços da ONU e dos EUA se destinam a manter as aparências para satisfazer uma opinião pública que sempre espera o impossível. Eles precisam de mostrar que estão fazendo algo mas sempre se abstendo de arriscar suas vidas ou seu dinheiro.

O HORROR NOS CAMPOS DO APOCALIPSE VEJA 3 DE AGOSTO DE 1994
Dois milhões de ruandenses fogem da guerra civil e encontram um novo flagelo - a cólera
controle demográfico pela guerra
A população encolhe - estimativa do governo dos EUA
8,2 milhões antes da guerra civil - 5,4 milhões mortos e refugiados - 2,8 milhões permanecem em Ruanda
Zaire: 2,2 milhões de refugiados
Tanzânia: 400 mil refugiados

QUÊNIA - PAÍS JÁ FOI MODELO PARA O RESTO DA ÁFRICA Folha de São Paulo 1º de julho de 1993
problema do crescimento demográfico - média de 4,3 por cento ao ano - e crescimento econômico nulo
sete filhos por mulher
salário mínimo de US$ 30, renda per capita de US$ 370
índice de analfabetismo de 69 por cento,
denúncias de corrupção

O Estado de São Paulo 3 DE JULHO DE 1994 FMI E Bird SE TORNARAM AS NOVAS POTÊNCIAS
John Darnton
The New York Times

crise econômica
600 milhões de pessoas ao sul do Saara
Tirando a África do Sul, PIB equivale ao da Bélgica, com 10 milhões de pessoas
Em grande parte dependentes das exportações de bens primários como café, cacau e cobre.
Preços desses produtos nos anos 1980 desabaram por causa da recessão mundial.
Explosão demográfica, com aumento da população de 3,2 por cento ao ano.
Em meo arroz da campanha Noi Con Voi estava estragado e pertencia a uma remessa de 25 mil toneladas transacionada fraudulentamente com a cumplicidade de meia dúzia de funcionários do Fundo de Auxílios Italianos, entre eles o seu diretor-geral Claudio Moreno, e envolvendo várias empresas (entre as quais a do Noi Con Voi).
o subsídio da CEE era sobre a exportação e no total teriam embolsado 35 milhões de dólares com a transação
ANOS NEGROS

RELATÓRIO DO FONDO ITALIANO CONTRO LA FAME
ROMA 2 maio 1986
FAI em um ano aplicou 750 milhões de dólares
criado em 1984 com uma dotação de 1,5 bilhão de dólares.
Centro Italiano de Projetos Especiais Para o Exterior - Cipres
Somália em primeiro lugar com 250 milhões de dólares
No conjunto os países do chamado Corno d'Africa (Chifre da África) foram beneficiados com 500 milhões de dólares.
10 mil toneladas de milho branco para Moçambique
5 mil toneladas de farinha para o Sudão, país ainda com zonas de subnutrição endêmica
102 toneladas de arroz
e também estruturas de armazenamento, ônibus, ambulâncias e unidades sanitárias móveis.

Roma, 15 maio 1986
DESERTIFICAÇÃO DA ÁFRICA: A DESERTIFICAÇÃO NÃO É UM PROBLEMA CIRCUNSCRITO MAS UMA TENDÊNCIA DE ALCANCE PLANETÁRIO.
Um sétimo da população mundial vive em terras em vias de desertificação. Um território tão vasto como o das duas Américas é considerado de alto risco erosivo. Vinte e um milhões de hectares tornam-se todos os anos inutilizáveis para fins agrícolas. Na África a Sul do Saara o deserto avança 30 kms por ano.
"Um ambiente que perde o seu sujeito, o homem, está condenado à degradação."

Roma 27 maio 1986
ITÁLIA/DIA DA ÁFRICA: Francesco Cossiga, presidente italiano, no Dia da África: o empenho no esforço de cooperação da Itália com o desenvolvimento e a erradicação das condições de pobreza de milhões de seres humanos na África corresponde a uma convicção profundamente enraizada na consciência civil do povo italiano de que eles são elementos fundamentais para a paz, estabilidade e segurança duradouras dos países do continente. As soluções não podem estar condicionadas por lógicas externas ao continente e devem responder às aspirações de paz dos países e dos povos, no respeito dos princípios de inviolabilidade das fronteiras e da integridade dos Estados - declarou.

roma 27 fevereiro 1987
ITÁLIA GASTARÁ 3,6 BILHÕES DE DÓLARES NA COOPERAÇÃO EM 1987
No quinquênio 1979-1984 a Itália investiu 4,20 bilhões de dólares em programas de cooperação e em programas de auxílio de emergência.

roma, 2 fevereiro 1988
AUXÍLIOS À ÁFRICA
só metade, ou mesmo apenas 20 por cento dos auxílios chegam às populações locais - segundo Panorama.
"O auxílio pode levar ao caos e mesmo sufocar os países que os recebem. São dezenas de países doadores, de agências mundiais, de organizações de voluntários, centenas de projetos variados, que muitas vezes colidem uns com os outros." - declarou Pedro Pires, primeiro-ministro de Cabo Verde
"Preferimos os auxílios modestos mas dilagados no tempo, programados com antecipação e por isso inseríveis nos nossos planos a imprevisíveis explosões de generosidade que dificilmente absorvemos."

roma, 12 fevereiro 1988
ALESSANDRO NATTA CRITICA AUXÍLIOS AO TERCEIRO MUNDO
Os auxílios ao Terceiro Mundo "são migalhas dos excedentes de capital da corrida armamentista".
"Na atitude dos colossos financeiros, tecnológicos e comerciais, como na de muita imprensa eurocêntrica, entrevê-se uma concepção de segurança como um processo que diz respeito apenas ao 'centro', não se hesitando em espezinhar a periferia."
A corrida entre os EUA e a URSS fez com que o Terceiro Mundo sofra "de forma inenarrável".
Parte considerável das dívidas dos países em vias de desenvolvimento resulta das importações de armas. Segundo cálculos da ONU, 20 por cento dos débitos.
A Itália investiu desde 1980 mais de 2 bilhões de dólares na cooperação para o desenvolvimento. Em 1986 tornou-se o país da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento) com o maior índice de despesas com o Terceiro Mundo em relação ao PIB.

roma, 5 abril 1988
RADICAIS PEDEM INQUÉRITO À COOPERAÇÃO ÍTALO-SOMALA
O Parido Radical pediu à Procuradoria da República italiana que investigue os auxílios italianos à Somália no biênio 1985-1987.
Os radicais baseiam-se em declarações de Ali Khalif Ghalayo, ex-ministro da Indústria sômalo, à Justiça italiana segundo as quais parte do montante dos auxílios foi manipulada no seu próprio interesse pelo socialista Francesco Forte, dirigente do extinto FAI, e pelo presidente da Somália, Siad Barre.
Ghalayo referiu-se nomeadamente à construção de uma fábrica de adubos orçada em cerca de oito milhões e cuja adjudicação a uma empresa italiana foi feita sem concurso público.
"Estamos apenas destampando a panela", declarou Francesco Rutelli, chefe do grupo parlamentar radical, que também pretende que sejam investigados outros projetos de infraestrutura em vários setores, alguns nunca concluídos e outros dados por peritos como completamente inúteis.
Outro ex-ministro sômalo cuja identidade não foi revelada confirmou informações de Ghalayo de que é o próprio Siad Barre quem decide sobre o destino a dar nomeadamente aos auxílios italianos para projetos de desenvolvimento em seu país.
Em deslocação a Mogadíscio em fevereiro Francesco Forte recebeu de Barre o título de cidadão honorário sômalo.
Em fevereiro de 1987 foi instituída a Direção-Geral para a Cooperação ao Desenvolvimento em substituição do FAI.
Dos 4 bilhões de dólares que a Itália deverá investir em cooperação em 1988 40 por cento serão destinados aos programas multilaterais da ONU e o restante a programas bilaterais com países africanos, sobretudo com os do chamado Corno d'África (Chifre da África).

roma 11 abril 1998
DIPLOMATAS APÓIAM INQUÉRITO À COOPERAÇÃO ITALO-SOMALA
ENTRE 1985 E 1987 o extinto FAI concedeu à Somália subsídios no valor de 500 milhões de dólares destinados a financiar uma série de projetos de grande envergadura.
Francesco Forte foi acusado de cumplicidade com o "autoritário e corrupto" presidente sômalo.
A associação de diplomatas criticou também a concessão pela Direção-Geral para a Cooperação ao Desenvolvimento, que substituiu o FAI, de um subsídio de 1,281 milhão de dólares destinado à formação de quadros sindicais na Somália.
A gestão do subsídio foi confiada à UIL, central sindical socialista, também criticada pelos diplomatas, para quem "Siad Barre não só não tolera greves como institui leis que prevêem a pena de morte contra quem as promove".
Protestaram também contra os que permitem o pagamento a cerca de 200 docentes da Universidade de Mogadiscio de salários de dez mil dólares depositados numa conta especial de um banco suíço.
Nigrizia, revista mensal dos missionários combonianos, publicou no seu último número um artigo em que critica os termos e os fins da cooperação ítalo-sômala, intitulado MATRIMONIO SOCIALISTA CON BOCCAGRANDE
e ilustrado com uma foto de Bettino Craxi, secretário-geral do PSI (Partido Socialista Italiano), com Siad Barre.
(sabe-se que fim levou Craxi e onde depois da Operação Mãos Limpas: refugiado... na Somália )
"É uma glória para Francesco Forte manter um pequeno ditador que encheu as prisões do seu país de gente cujo único erro é o de não pertencer ao seu clã e de não pensar como ele?" - pergunta o diretor da revista, padre Aurelio Boscaini.
O Partido Radical apresentou entretanto uma denúncia relativa à concessão pela Direção-Geral para a Cooperação ao Desenvolvimento de um subsídio de sete milhões de dólares para o combate à malária na região etíope de Tana Beles.
"Pressionado pela guerrilha antigovernamental, Haile Menghistu deportou para a pantanosa região gente que sempre viveu no planalto, agora condenada a morrer de malária" - comentou Francesco Rutelli.

roma 22 abril 1988
LIV ULLMAN SOBRE A FOME APÓS VISITA A QUATRO PAÍSES AFRICANOS
atriz norueguesa
Interrogada sobre se haverá uma maior sensibilidade para os sofrimentos da fome após o bombardeamento de imagens de crianças esqueléticas e com a barriga inchada por ocasião da carestia na Etiópia e no Sahel, disse que
"Aquelas imagens se referiam ao último estágio da fome e podem nos induzir a pensar que onde não existem crianças-esqueletos o problema da subnutrição não existe.
Mas não é bem assim: nos países que acabei de visitar as barrigas são um pouco mais gordas do que o normal e as pernas e os braços só um pouco mais magros, mas a fome e a subnutrição atingem as crianças com grande violência.
Quero com isto dizer que aquelas fotografias dramáticas podem ter-nos desviado do verdadeiro problema. Afinal, naqueles mesmos meses morriam mais crianças no México e na Índia que em todo o Sahel, e ninguém sabia disso."

roma 24 abril 1986
ÁFRICA, UM CONTINENTE PARA PRIVATIZAR, SEGUNDO JORNAL ITALIANO
il manifesto
A exemplo de Guiné-Conakry e Nigéria, "Moçambique lança um duríssimo plano de reativação econômica e Guiné-Bissau vende à iniciativa privada tudo o que não é considerado economicamente estratégico".
"Desde o fim do colonialismo mais ou menos em toda a África negra o Estado é o principal agente econômico.
"Na base dessa escolha estiveram a falta de quadros técnicos preparados e a convicção que desse modo seria mais fácil iniciar processos de modernização. Mas com o andar do carro de boi as empresas estatais acumularam imponentes déficits e a economia está gravemente comprometida.
"Nestas condições a liberalização econômica é vista como um meio de aligeirar a situação financeira e entre várias medidas destacam-se os despedimentos maciços de funcionários públicos, a desvalorização das moedas, a liberalização dos preços e sobretudo a privatização de muitas estatais.
"Na sequência de iniciativas congêneres já tomadas em países como Guiné-Conakry, Camarões e Mali rigorosos critérios de produtividade levarão a despedimentos em massa nos próximos meses em Moçambique.
A desvalorização da moeda decretada nos últimos meses em Moçambique, Guiné-Bissau e Serra Leoa tem o objetivo comum de combater o mercado negro, fortíssimo em toda parte e com cotas que atingem 50 por cento do PIB. Dar prestígio à divisa, atribuindo-lhe um valor mais econômico que político, visa atingir os intermediários, que enriquecem rapidamente e muitas vezes formam comunidades nacionais separadas.
Baixam-se também leis de investimentos extremamente abertas e liberais para estimular a criação de empresas de capital mista.
"Todos os governos africanos sabem dos efeitos sociais devastadores que tais medidas muitas vezes provocam, como já aconteceu na Tunísia, Jamaica e Zâmbia mas apesar disso insistem em adotá-las porque é cada vez maior a percepção de que não se pode continuar com enormes aparatos estatais ineficazes e deficitários e com a retórica de supostas políticas igualitárias, quando as diferenças sociais entre os extratos urbanos e rurais são abissais.
"Na falta de propostas adequadas da parte de outras forças políticas acaba por ser inevitável recorrer aos conselhos interessados do Fundo Monetário Internacional, de cuja política na África medidas como a liberalização econômica, a reforma da administração estatal e as privatizações são eixos."

roma 8 maio 1988
DEMITIDO DIRETOR DA REVISTA MISSIONÁRIA ITALIANA NIGRIZIA
O padre comboniano Alessandro Zanotelli, há dez anos diretor da revista mensal Nigrizia, foi demitido do seu cargo por ordem da Congregação do Vaticano para a Evangelização dos Povos (Propaganda Fide), segundo o próprio padre por pressão do governo de Roma junto da sede da Igreja por causa dos seus incendiários editoriais com acusações ao Ministério das Relações Exteriores da Itália e aos governos africanos.
Em 1985 Zanotelli protestou contra a lei que estabeleceu o envio em dois anos de auxílios italianos ao Terceiro Mundo de mais de 1,5 bilhão de dólares.
"Tais auxílios servirão apenas para tornar os países africanos mais dependentes dos interesses italianos", escreveu.
"Em vez de ajudá-la a Itália fornece à África 93 por cento da sua produção de armas, alimentando os focos de guerra civil."
Um ano antes o diretor de Nigrizia denunciara o tráfico de armas de um porto italiano para a África do Sul e definiu o então ministro da Defesa Giovanni Spadolini como um "vendedor de armas".
Zanotelli precisou que as pressões para que fosse demitido de Nigrizia partiram do ministro italiano das Relações Exteriores, Giulio Andreotti, e do ex-ministro Spadolini, que segundo ele chegou a contatar diretamente o papa João Paulo II para reclamar da linha editorial da revista.
O padre disse que desde outubro de 1985 vinha sendo ameaçado de afastamento pela Propaganda Fide caso "não abandonasse o tom polêmico e de barricada e não renunciasse às batalhas contra o tráfico de armas".
"Abandono o cargo em função de um ultimato do cardeal Josef Tomko, prefeito da congregação."
Zanotelli, que viveu no norte do Sudão entre 1965 e 1973, anunciou que partirá para a Etiópia onde pretende trabalhar como missionário numa favela de Nairobi.

roma 20 maio 1986
AUXÍLIOS AO TERCEIRO MUNDO: NOTIFICAÇÃO JUDICIAL
A magistratura de Milão notificou Francesco Forte de que estão em curso investigações judiciais sobre suas atividades como secretário de Estado das Relações Exteriores da Itália.
As investigações estão a ser feitas no âmbito da instrução de um processo por suspeita de fraude num fornecimento de 150 mil toneladas de arroz a vários países africanos, entre os quais Angola e Moçambique, em 1985.
Duas empresas de rizicultura alegam que o FAI atribuiu o fornecimento a uma concorrente sem realizar um concurso público.
O edital do FAI não obrigava a empresa a fornecer arroz italiano e ela recorreu ao mercado fora da Comunidade Européia.
Na época a Itália tinha um excedente de 250 mil toneladas de arroz.
Segundo um jornal belga o arroz foi comprado na Indonésia, onde custa 200 dólares a tonelada, mas dado como oriundo da CEE, onde a tonelada custa 500 dólares mas quem o compra para exportar ganha um subsídio comunitário de 400 dólares.
Forte é também acusado de participar numa série de casos de fraude e corrupção em projetos de auxílio à Somália.

PEMBA MOÇAMBIQUE
PEMBA MOÇAMBIQUE
PEMBA MOÇAMBIQUE
18 jul 1986
PARTE DE RAVENNA NAVIO DE SOLIDARIEDADE COM MOÇAMBIQUE
Transportará mantimentos de emergência e material técnico recolhidos junto da população da cidade de Reggio Emilia e do Fundo de Auxílio de Emergência (FAI).
A campanha 'Noi con Voi' foi iniciativa da prefeitura e teve o apoio do governo da região da Emilia Romagna, das secretarias regionais das três confederações sindicais italianas e da unidade sanitária local do Serviço Nacional de Saúde italiano.
Constituiu-se de material destinado ao hospital de Pemba, entre ele uma ambulância e uma cozinha, à drenagem de terras cultiváveis e outros equipamentos agrícolas e de limpeza urbana, além de 700 mil peças de vestuário, tecidos, bicicletas, máquinas de costura e material escolar.
O projeto parte do princípio de que o auxílio às populações carentes do Terceiro Mundo não pode ser realizado apenas através de macro-projetos a que chamam de CATEDRAIS NO DESERTO, muitas vezes impraticáveis por motivos econômicos ou técnicos
A região da Emilia Romagna lançou esta semana o III Programa de Desenvolvimento no âmbito de um plano de cooperação econômica com seis países da África, da América Latina e da Ásia (China).
A junta de governo regional pretende servir de elo entre o poder central e o sistema produtivo local. A cidade de Reggio Emilia já coopera com Pemba-Cabo Delgado desde 1970, antes da independência de Moçambique, quando fornecia equipamento e remédios ao seu hospital.

Roma, 29 agosto 1986
AUXÍLIO A MOÇAMBIQUE ALVO DE POLÊMICA NA ITÁLIA
acusação: 700 mil peças de vestuário que fizeram parte dos mantimentos recolhidos junto da população de Reggio Emilia não foram distribuídas gratuitamente e estão sendo vendidas em lojas de funcionários do governo de Maputo.
doações orçadas em sete milhões de dólares
um dos promotores da iniciativa disse que um dos objetivos da campanha era o de dinamizar o mecanismo de trocas comerciais na cidade moçambicana, que se encontra paralisado.
"Trata-se não de uma venda mas de uma troca, uma permuta. Para obter artigos que não sejam de primeiríssima necessidade as pessoas devem trabalhar, trocar mercadoria com trabalho, o que serve para estimular o crescimento do país."
O produto da troca deverá ser reinvestido pelo governo em projetos de desenvolvimento - disse a fonte, membro comunista do conselho do governo municipal.
O projeto passou a ser visto como uma burla levada a cabo às custas e nas costas da população.
O principal alvo da polêmica é o assessor das relações internacionais da prefeitura, Giuseppe Soncini, coordenador da campanha.
O assessor admitiu o erro de "não ter informado cabalmente a população reggiana de que o vestuário era destinado a venda e não a doação".
O FAI contribuiu para a campanha com 300 mil contos destinados a projetos de desenvolvimento agrícola, à compra de duas toneladas de arroz e ao aluguel do navio de transporte.
À polêmica juntam-se elementos obscuros relacionados com a operação, como o fornecimento de material diverso no valor de 450 mil dólares subsidiado pelo FAI por uma misteriosa empresa cujo verdadeiro proprietário se esconde no anonimato - ISTM, International Suppliers Trading Marketing - e foi registrada em nome de uma dona de casa.

Roma, 10 setembro 1986
MAGISTRATURA DE REGGIO EMILIA ABRE INQUÉRITO SOBRE AUXÍLIO A MOÇAMBIQUE
a pedido da própria junta municipal e da federação local do Partido Comunista Italiano, que ocupa todos os cargos no governo.
A empresa a que a prefeitura de Reggio Emilia encomendou o fornecimento de equipamento portuário no valor de 450 mil dólares foi criada uma semana depois do anúncio da liberação de 2 milhões de dólares de subsídio do FAI para a campanha.

roma, 17 setembro 1986
PROSSEGUEM INVESTIGAÇÕES A AUXÍLIO A MOÇAMBIQUE
Prestações de contas: suspeitas de que comitê superfaturou o balanço de despesas na compra de mantimentos e equipamento em entre 10 a 15 por cento, que poderão ter servido para o pagamento de propinas a atravessadores.
O sub-secretário de Estado das Relações Exteriores, Francesco Forte, decidiu não apoiar mais iniciativas do gênero de caráter local, mas apenas as de órgãos de tutela do governo.
A de Reggio Emilia foi a primeira e única
Em entrevista ao jornal Corriere della Sera Forte disse estranhar a compra do equipamento portuário à ISTM quando o FAI possui os seus próprios fornecedores.
O verdadeiro proprietário da empresa é um dos consultores do comitê de solidariedade, a que terá servido simultaneamente como comprador e vendedor.

roma, 20 setembro 1986
AUXÍLIO A MOÇAMBIQUE
A procuradoria da República de Reggio Emilia emitiu oito comunicações judiciais por suspeita de peculato
Subsídio do FAI para a campanha: entre 2 a 3 milhões de dólares, segundo diferentes fontes
Reggio Emilia é uma das praças fortes comunistas da região centro-norte da Itália
O comitê Noi Con Voi não possuía os requisitos exigidos por lei para obter financiamento do governo.
Por esse motivo o contributo do FAI foi canalizado para o Comitê de Solidariedade Pemba-Cabo Delgado, criado em 1975, aquando da independência de Moçambique, e que também careceria de reconhecimento oficial através de decreto do Ministério das Relações Exteriores.

roma, 28 novembro 1986
ARROZ ITALIANO PARA O TERCEIRO MUNDO: FRAUDE DE 35 milhões de dólares
Surge agora a suspeita de que o arroz transportado pelo cargueiro Chris para Pemba, em Moçambique, era em quantidade inferior à declarada e estava estragado.
A suspeita foi levantada por uma empresa produtora de arroz que após ter perdido o concurso para a adjudicação da encomenda fez uma denúncia às autoridades oficiais.
As novas investigações, que estão a ser realizadas em conjunto pelas magistraturas de Reggio Emilia e Roma, visam desvendar eventuais fraudes em torno dos fornecimentos de arroz incluídos nas campanhas de auxílio de emergência.

5 DEZEMBRO 1986
Campanha de Auxílio a Moçambique - Reggio Emilia
NOVE INDIVÍDUOS ALVO de processo aberto pela magistratura local
entre eles o comunista Giuseppe Soncini, ex-assessor da prefeitura, principal responsável pela iniciativa, e um irmão do prefeito, que coordenaram a compra dos auxílios. Além deles está sendo investigado um fornecedor do material.
O cargueiro Chris zarpou  em julho do porto italiano de Ravenna com cerca de sete milhões de dólares de arroz, roupas e equipamentos diversos destinados à cidade-irmã Pemba, na província de Cabo Delgado.
Envolvidos nas fraudes estariam também seis dirigentes do FAI (órgão da Secretaria de Estado das Relações Exteriores), entre eles o diretor-geral Claudio Moreno.
As magistraturas de Reggio Emilia e de Roma investigam também diversas remessas de arroz para países do Terceiro Mundo que teriam causado prejuízos da ordem de 35 milhões de dólares à CEE.
Quase todo o arroz embarcado na Itália estaria estragado, inclusive as mil toneladas que seguiram no Chris para Pemba.
Um dos processos judiciais em curso relaciona-se com a compra de 25 mil toneladas de arroz dadas como oriundas da CEE
campanha Noi Con Voi  Nós Com Vocês do Comitê de Solidariedade de Reggio Emilia com Moçambique.

Roma, 23 dezembro 1986
Beira: a segunda maior cidade de Moçambique está há quatro meses sem luz e água, é impossível encontrar roupas, açúcar e carne no mercado oficial e há muito pouca coisa à venda também no mercado negro.
Moçambique é hoje pouco mais que uma expressão geográfica.

LATICÍNIOS RADIOATIVOS ITALIANOS PARA O TERCEIRO MUNDO
Roma 12 dezembro 1986 - contaminados de radioatividade após a fuga de partículas atômicas da central de Chernobyl, na URSS, serão leiloados para venda no Terceiro Mundo.
O edital da agência estatal para intervenção agrícola italiana especifica que os produtos destinam-se a alimentação zootécnica na Itália e em países extra-Comunidade Européia "e não aos consumidores habituais".
Escândalos relacionados com o envio a países do Terceiro Mundo como auxílio de emergência de gêneros alimentícios estragados, como tomate e arroz.
Os laticínios ao Césio 137 e nano-curies serão vendidos a "preços muito baixos", anuncia o edital de vésperas de Natal.

roma, 21 outubro 1986
300 MILHÕES DE ´DÓLARES DA ITÁLIA PARA O TERCEIRO MUNDO
O Comitê Interministerial para a Política Externa (Cipes) aprovou a concessão de 300 milhões de dólares a organismos internacionais que superentendem a cooperação com países em vias de desenvolvimento.
60 por cento do subsídio serão distribuídos pelo Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD, UNDP), pela Unicef e pelo PAM (Programa Mundial de Alimentação).
O restante será destinado a diversos organismos de pesquisa, cooperação econômica e auxílio a refugiados.

ROMA, 3 NOVEMBRO 1986
PARTE NAVIO COM QUATRO TONELADAS DE AJUDAS A MOÇAMBIQUE
do porto italiano de Livorno.
Anna Maria Elle
com gêneros de primeira necessidade e material diverso
800 toneladas de arroz, 700 de farinha de milho, leite, sabão, roupas, cobertores e calçado, material escolar, equipamento sanitário e agrícola, maquinas de costura, fios e tecidos calculados em cerca de 2,5 milhões de dólares.
A iniciativa do "Navio Para Moçambique" é do Comitê Amigos de Moçambique, de Roma, que mobilizou cinco mil pessoas na angariação dos bens, destinados à organização local da Caritas Internacional.
Um quarto da população de Moçambique (3,4 milhões de pessoas) é vítima da fome e de doenças graves.
O índice de mortalidade infantil no país é de 119 óbitos por mil nascimentos.
Expectativa de vida: 45 anos
1 médico para 39 mil pessoas.
75 mil italianos fizeram doações em dinheiro.
Caritas deu no passado garantias precisas de distribuição rápida e racional dos auxílios.

Roma 13 novembro 1986
COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE AUXÍLIOS ITALIANOS À ÁFRICA
"FOMOS OBRIGADOS A PRODUZIR O QUE NÃO CONSUMÍAMOS E A CONSUMIR O QUE NÃO PRODUZÍAMOS", DISSE EM ROMA O PRESIDENTE DE UGANDA, YOWERI MUSEWENI, A PROPÓSITO DA CRISE NA ÁFRICA.
COLÓQUIO "CRISE africana e Intervenção Italiana" no  GRAND HOTEL
"Motivos históricos e ambientais estão na base da situação dramática com que se debate a maior parte da população do continente, entre os quais o colonialismo do passado."
Organizado pelo Instituto para a Cooperação Econômica Italiana (ICEI) para fazer o balanço de um ano e meio de atividade do FAI.
Desde 1985 o FAI investiu 1,5 bilhão de dólares em programas de ajuda de emergência e de desenvolvimento agrícola de várias regiões africanas.
O papel da Itália na cooperação deriva de "uma opção humana", segundo Francesco Forte.

Roma, 10 dezembro 1986
250 mil crianças morrem por semana de infecções e subnutrição
nos países em vias de desenvolvimento, segundo relatório da Unicef sobre a condição da infância no mundo.
Programa Revolução Para a Sobrevivência e o Desenvolvimento da Criança salvou quatro milhões de crianças por ano desde 1982.
Sete milhões poderão ser salvas a cada ano nos próximos anos através de campanhas de vacinação, reidratação oral para o combate da diarréia, controle de crescimento e do aleitamento materno.
Campanhas de vacinação contra a tosse convulsa, sarampo, tuberculose, tétano e difteria têm salvo um milhão de crianças por ano.
1982: 125 milhões de doses de vacinas fornecidas a 100 países
1985: 377 milhões de doses.

FAO
reunião da FAO para ajuda à África: mais um ato de show-off dos desenvolvidos?
projetos de auxílio a vinte países africanos atingidos pela seca
em um dossiê: medidas para reestruturação agrícola. Custo US$ 200 milhões. Como obtê-los?
Os próprios responsáveis pelo recém-criado Departamento de Operações de Urgência da ONU afirmam que os países desenvolvidos ajudam o Terceiro Mundo não por idealismo mas por necessidade de esvaziar os seus depósitos de estoques reguladores de produtos alimentares, que estão abarrotados por questões de política de mercado.
Auxílios em gêneros não vão servir para acabar com a fome. Só uma reestruturação da produção agrícola.
É evidente o empenho dos países do Norte em, através dos auxílios, se distinguirem aos olhos da opinião pública pela generosidade para com os necessitados do Sul. Show-off ou blefe de ricos esbanjadores, é o que está por trás da dança de cifras e toneladas de alimentos doados, enquanto perspectivas de mudança da situação no Terceiro Mundo são nulas.
Em troca dos benefícios os países agraciados são pressionados a aderir às políticas de livre mercado.
Mais de quatro milhões de pessoas afligidas pela fome em Moçambique carecem de 700 mil toneladas de cereais.
Deverão ser organizadas pontes aéreas ou lançamentos de provisões com pára-quedas para acudir as populações flageladas.

FAO
Roma, 14 Julho 1986
300 milhões de pessoas são vítimas da subalimentação na Ásia, mas o continente está vencendo a luta contra a fome.
Graças à adoção de políticas que não penalizam os agricultores, ao contrário do que acontece em muitas áreas do Sul, sobretudo na África, hoje Ásia e Pacífico são exportadores de arroz.
A relação entre preços agrícolas e preços industriais tornou-se aceitável para os camponeses e incentivou a produção e investimentos de recursos na agricultura.
Arroz cobre mais de metade das necessidades alimentares da região.
Mas a subalimentação ainda é um fato, em consequência de uma pobreza "em massa".
A disponibilidade de terreno cultivável está praticamente esgotada na região.

FAO
roma, 21 outubro 1986
O diretor-geral da FAO Edouard Saouma exprimiu o seu "grande alarme pela dramática queda dos preços de exportação de produtos agrícolas em 1985, sobretudo porque muitos países subdesenvolvidos e mesmo com alto grau de desenvolvimento dependem de maneira crítica das divisas provenientes desses intercâmbios para equilibrar sua balança comercial e reforçar suas reservas monetárias.

ITALIA/MUNDO
Roma, 5 agosto 1986
36% DA POPULAÇÃO ITALIANA É POBRE
segundo estatística baseada em índices de consumo alimentar familiar divulgados pelo Banco da Itália: consomem de 0 a 70 por cento da média de consumo total de alimentos.
Na faixa acima, 48 por cento da população vivem entre condições modestas e relativo bem-estar, consumindo de 70 a 150 por cento da média total.
15 por cento estão na faixa dos privilegiados.
54 por cento dos 20 milhões de habitantes da Região Sul vivem na miséria absoluta, na pobreza ou com problemas econômicos.

roma, 18 setembro 1986
NOVE POR CENTO DAS FAMÍLIAS ITALIANAS VIVEM MAL - relatório vida econômica na Itália em 1985 - INSTITUTO ITALIANO DE ESTATÍSTICA (ISTAT)
outros números da mesma ordem:
com renda igual ou abaixo de 500 dólares mensais 
apenas 8 por cento das famílias italianas podem ser consideradas como tendo um bom nível de vida, com rendimento mensal de 2 mil dólares por mês.
desde 1970 o índice de consumo registrou aumento de 42,7 por cento, tendo despesas com higiene, saúde, educação e entretenimento quase igualada aos gastos com alimentação, que desceu de 37 para 29 por cento do rendimento per capita.
taxa de poupança: 20 por cento
taxa de investimento: 20 por cento do PIB em 1980, mais 9,9 por cento em 1984 e mais 3,5 por cento em 1985.

A MAIOR PARTE DOS FÁRMACOS É INÚTIL
ROMA, 5 AGO 1986
250 remédios bastariam para combater as doenças mais frequentes no planeta.
A maior parte das cerca de 50 mil marcas comerciais de produtos farmacêuticos é inútil e muitos deles são até prejudiciais à saúde.
"A proliferação dos fármacos e o uso indiscriminado que deles se faz é um sintoma alarmante da aceitação acrítica de uma lógica que em última análise é a da morte" - defende o teólogo Giannino Piana.
O Parlamento Europeu aprovou uma norma regulamentando a exportação de fármacos para países do Terceiro Mundo destinada a combater uma verdadeira tragédia provocada pela venda a países subdesenvolvidos de remédios com escassas informações terapêuticas na embalagem e que frequentemente são ineficazes, quando não prejudiciais pelos efeitos colaterais que provocam.
Inúmeras indústrias farmacêuticas européias exportam para o Terceiro Mundo enormes quantidades de produtos que não obtiveram autorização de venda nos respectivos países ou que foram retirados do mercado por terem sido superados ou pelos efeitos colaterais que provocam.
"O Terceiro Mundo é a lixeira da indústria farmacêutica", afirma a irlandesa Mary Banotti, um dos redatores da regulamentação.
A Europa Ocidental detém 32,5 por cento de um mercado que fatura cerca de 100 bilhões de dólares/ano e exporta 45 por cento da sua produção.
 

Roma, 6 junho 1988

GUINÉ-BISSAU ACEITA DETRITOS TÓXICOS  - O governo de Guiné-Bissau assinou com uma empresa suíça, em outubro de 1987, um contrato em que se compromete a receber três milhos de toneladas de detritos tóxicos nos próximos dez anos.

A notícia foi divulgada domingo pelo telejornal do segundo canal da RAI e é aprofundada em reportagem publicada pelo semanário L'Espresso.

"As autoridades da república africana não puderam recusar a proposta de transformar seu território numa lixeira de venenos químicos, porque a Intercontrat e outras empresas do norte da Europa e norte-americanas se comprometeram a pagar 120 milhões de dólares por ano pelo negócio" - lê-se na revista, que o apelida de O ÚLTIMO MULTIMILIONÁRIO ECO-BUSINESS.

A Intercontrat é a mesma empresa que se responsabilizou pela liquidação de duas mil toneladas de detritos tóxicos que vai para um ano encontram-se no cargueiro sírio Zanoobia, há meses ancorado ao largo do porto italiano de Marina di Carrara, no mar Ligúrio.

Os detritos que Guiné-Bissau vai receber estão destinados a um depósito a ser construído numa região escolhida para um projeto de desenvolvimento rural da Comunidade Européia e que, segundo L'Espresso, pela alta umidade do ar e permeabilidade da terra, é "absolutamente contra-indicado para lixeira de detritos tóxicos".

Gianfranco Ambrosini, proprietário da Intercontrat, diz que é muito simples achar depósitos para os detritos dos países industrializados: "A gente vai a um desses países semi-desérticos e esfomeados, fala com as autoridades, paga bem e começa a escavar a descarga, um buraco de trinta metros que é impermeabilizado conforme as normas dos Estados Unidos, da Comunidade Européia e da Suíça."

"Mas atenção, os depósitos nos custam uma enormidade de grana. Os negros dão apenas um pedaço de terra do tamanho de um campo de futebol, sem estradas de acesso e a que se deve fazer chegar os caminhões.  Além do mais o pessoal lá embaixo é muito devagar, e para se ativar um depósito leva-se meses - seis meses, para ser exato."

Ambrosini considera ser muito melhor responder desse modo ao que para ele se caracteriza como uma enorme emergência do que continuar sepultando detritos em fossas, rios, lixeiras e em mar aberto, uma atividade ilegal muito praticada e que ao que diz "se deve à aversão das populações européias em geral à abertura de descargas nas suas próprias regiões".

L'Espresso informa que somente um quarto das cerca de 25 milhões de toneladas de detritos industriais produzidos anualmente na Itália é queimado nos três incineradores existentes no país.

Após a revelação do caso do Zanoobia, que vagou pelos mares de meio mundo em busca de autorização para descarregar detritos tóxicos que transportava, a opinião pública foi alertada para a existência de uma grande frota de "navios fantasmas" que cruzam os mares em busca de um destino para sua mercadoria indesejada, alguns com registros fictícios ou de embarcações desaparecidas.

Estima-se que em todo o mundo sejam produzidas anualmente um bilhão de toneladas de detritos tóxicos, um terço das quais de altíssima periculosidade.

 

 

 

              ÁFRICA-BRASILBRASIL- ÁFRICA

 

1980-2008

 

Daniel Quinn: Ismael - Como o Mundo Veio a Ser o Que É
controle de natalidade - sempre deixado para o futuro.
            "Ele foi deixado para o futuro quando éreis três bilhões em 1960. (...)

... enquanto as pessoas da tua cultura estiverem a encenar esta história. Enquanto encenarem elas esta história, continuarão a reagir à fome aumentando a produção dos alimentos. Viste já os anúncios para o envio de alimentos aos povos famintos do mundo?"
            "Sim."
            "Viste já anúncios para o envio de contraceptivos para algum lugar?"
            "Não."
           "Nunca. A Mãe Cultura tem dois pesos e duas medidas a este respeito. Quando lhe falamos em explosão populacional ela responde controle populacional global, mas quando lhe falamos em fome ela responde aumento da produção alimentar. Na verdade porém o aumento da produção alimentar é um evento anual, e o controle populacional global jamais acontece.
... enquanto encenardes uma história que diz terem os deuses feito o mundo para o homem o usar como muito bem o entenda (...) a Mãe Cultura exigirá aumento de produção para hoje, prometendo controle populacional para amanhã.
... A fome não é apanágio exclusivo dos humanos. Todas as espécies estão sujeitas a ela, em qualquer parte do mundo. (...) uma população que ultrapassou os seus recursos, apressa-se a enviar-lhe alimentos do exterior, garantindo assim que na próxima geração haja ainda mais pessoas morrendo de fome. Como nunca se permite à população reduzir-se a ponto de poder sustentar-se através dos seus próprios recursos (...)
(...) Os seus colegas do mundo todo entenderam perfeitamente o que dizia ele, mas têm o bom senso de não contestar a Mãe Cultura (...) não é bondade nenhuma trazer comida do exterior para conservar o seu número em quarenta mil. Isso só garante a continuidade da fome.

 


1991: um bilhão de famintos
Países ricos precisariam doar 100 milhões de toneladas de alimentos por ano até 2050

A Fome no Mundo é a fome da ganância de subir na vida e de lucro fácil deles.

os "atravessadores" - "ideológicos" - das campanhas de auxílio durante as guerras de libertação africanas

We Are The World    LIVE AID - a pioneira: depois de relançar Michael Jackson projetando-o às estratosferas do showbizz Quincy Jones produziu mais um milagre mas - we are supposed to build a better place so let's start givin' - só americano mesmo: afinal, money makes the world go around
Doações desviadas para venda por atravessadores - em Pemba (Moçambique) ou Barra (Bahia)
Shows de caridade, de benemerência, beneficência - o ego inflado e o brio religioso id.


            - Alguém aqui está ciente da existência da África?
            - Angola? Sei... onde é que fica mesmo?
            - Desapareceu do mapa do século XXI como nele mal figurou até o século XIX. Falta água encanada mesmo nos melhores hotéis de Lagos, Nigéria.

veja 12 de setembro de 2001
HÁ MOUROS NA PRAIA
marroquinos: hoje maior colônia estrangeira na Espanha: 300 mil
antes do BOOM espanhol preferiam emigrar para França, onde são 700 mil.
Na Espanha foram presos 20 000 clandestinos desde janeiro
Miséria galopante no Marrocos.
Em 30 anos população dobrou de 15 para 30 milhões.
4 milhões vivem em favelas.
Índice de desemprego entre moradores de áreas urbanas: 20 por cento.

veja 9 de dezembro de 1992
OPERAÇÃO COMIDA
Decisão histórica: Conselho de Segurança da ONU aprovou envio de tropas à Somália. Missão: viabilizar entrega de alimentos aos 2 milhões de somalianos - um terço da população do país, devastado pela guerra - na iminência de morrer de fome.
A cada dia de atraso 1 000 mortos no inferno somaliano.
Primeira tarefa dos marines: ocupar aeroporto de Mogadíscio.
Facções beligerantes apropriam-se de 75 por cento dos alimentos enviados do exterior, pistoleiros maltrapilhos extorquem dinheiro de funcionários de organizações humanitárias, atacam comboios e roubam comida.
Força estrangeira terá de expulsar achacadores que ficam nos portos e armazéns.
No aeroporto há 30 000 toneladas de grãos, suficientes para alimentar 1 milhão de pessoas durante 4 meses.
Por que não usar também a força para deter a matança de civis na ex-Iugoslávia?
Em estado de convulsão desde a derrubada do ditador Siad Barre há 11 meses.

VISÃO 16 DE DEZEMBRO DE 1999
ANGOLA
CORRU

nos de 25 anos, se esta tendência continuar, quase 30 nações duplicarão sua população.
PRODUÇÃO DE ALIMENTOS É 20 por cento  INFERIOR À DE 1970
Problemas de saúde e de produção de alimentos catastróficos por causa da guerra, seca e degradação do solo, que sofre o avanço do deserto, acrescidos de políticas contrárias à rentabilidade da agricultura,
            - Agricultura não é só produção de alimentos. É preciso ter mercado, meios de acesso e infraestrutura.
Zâmbia: proporção de crianças desnutridas aumentou de 5 para 25 por cento na última década.
África: 10 mil crianças morrem por dia de causas que se pode prevenir e outras 10 mil incapacitadas pelo resto da vida.
Os gastos com cada estudante diminuíram em um terço

O Estado de São Paulo 20 DE DEZEMBRO DE 1992
ÁFRICA
MORTANDADE SE IGUALA A HOLOCAUSTO
Em vários países cidadãos desesperados começam a sonhar com o fim da independência.
            - África está sofrendo uma verdadeira tragédia malthusiana com todos os seus elementos básicos: fome, guerra, pobreza e doenças.
INVESTIMENTOS COMEÇAM A FUGIR
80 por cento dos investimentos no Terceiro Mundo vão para a Ásia e 7 por cento para a África.
Em 1989 a dívida externa desses países já equivalia ao triplo das suas exportações anuais.
DIVISÃO ARTIFICIAL DE PAÍSES VIROU BOMBA-RELÓGIO
            - O futuro do Terceiro Mundo irá depender das condições que forem impostas pelo Primeiro Mundo e da qualidade das lideranças no Terceiro Mundo.
[E da qualidade das lideranças do Primeiro Mundo.]
Mas os países do Primeiro Mundo renegaram uma nova ordem econômica com melhores condições de troca, como por exemplo preços mínimos para as matérias-primas.
Os africanos frequentemente sucumbiram à tentação de realizar projetos gigantescos e supostamente supermodernos, em cuja contratação corriam sempre enormes subornos e propinas. Os beneficiários disso muitas vezes não têm o menor sentimento de culpa: para eles a prioridade não é o interesse do Estado mas o bem-estar do seu próprio grupo familiar ou tribal. Em muitos países os dirigentes saqueavam sem quaisquer escrúpulos os bancos centrais. A "cleptocracia" instalou-se como forma de governo.
CLEPTOCRACIA
Agora que os donativos dos ricos estão diminuindo ou desapareceram completamente
as regiões pobres do mundo, principalmente a África situada às portas da Europa: explosivo potencial para o caos.

Jornal do Brasil 29 DE MAIO DE 1996
PAÍSES RICOS CORTAM AJUDA A MISERÁVEIS
Relatório sobre as catástrofes no mundo/1996 - Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha
Alerta para um colapso na ajuda humanitária:
verba dos países ricos diminui e fome nos países pobres aumenta.
Em todo mundo
1985 - refugiados internos e externos: 22 milhões
1995 - refugiados internos e externos:  45 milhões
em 2005 podem chegar a 90 milhões
Suécia costumava contribuir com 1 por cento do PIB ou US$ 2 bilhões e vai reduzir para 0,7 por cento, ainda assim seis vezes mais que as doações dos EUA.
Falta de alimentos em algumas regiões e má distribuição e gestão dos recursos.

Folha de São Paulo 22 de agosto de 1993
John Torode
The Independent
NIGÉRIA
ditadura militar
88 milhões de habitantes
importantes reservas de petróleo, o país mais populoso e potencialmente o mais rico país da África.
90 por cento da receita: petróleo
Cronicamente instável devido às divisões tribais entre os Ibos (sudeste), os Yorubas (sudoeste) e os muçulmanos Hausa/Fulani (norte).
A Nigéria existe como um único país apenas porque o Reino Unido forjou uma união entre o sul e o norte em 1917.

O Estado de São Paulo 7 de fevereiro de 1993
PAÍSES CORREM O RISCO DE SE FRAGMENTAR
Joy Aschenbach
National Geographic
Se todos os grupos étnicos tivessem a sua nação-Estado haveria entre 850 e mil países no continente.
A população muda como as areias. É impossível registrar a população no mapa.
A Somália, cujos habitantes estão morrendo de fome, era uma nação-Estado homogênea (com língua comum e religião muçulmana), mas a base de sua política são os clãs familiares.
Guerra civil na Etiópia (dominada por cristãos) pela independência da Eritréia (mulçumana): 30 anos.
Fronteira entre Nigéria e Benin: linha traçada no centro do Estado Yorubá, no meio de um Estado pré-colonial coerente. Existem agora duas nacionalidades yorubá, uma anglófona e outra francófona.
DESAFIO MAIOR É ACABAR COM DITADORES
MARTIN WOOLLACOTT
THE GUARDIAN
Mobutu é o homem a quem foi aplicada pela primeira vez a frase: É um criminoso, mas nosso criminoso.
(Que diferença faz?)
Banco Mundial
agenda africana:
continuar com programas de reforma econômica e política que estimulem o crescimento e incentivem o aumento da produtividade e eficiência
[nos padrões ocidentais - em uma geração o salto da tribo para a aldeia global de alta tecnologia e corrupção]
aumentar o investimento em recursos de desenvolvimento humano para de 8 a 10 por cento do PIB no final da década
dobrar o crescimento da produção agrícola em 4 por cento
tomar providências urgentes contra a degradação do meio ambiente e dos recursos naturais
Banco Mundial
1985: 191 milhões de pobres - 1992: 228 milhões
Pobreza aumenta em função do declínio do comércio externo e de causas internas como a seca e adoção de políticas não apropriadas.

Jornal do Brasil  2 de novembro de 1993 A GUERRA SUJA DE ANGOLA    ARTUR POERNER
Em meados de 1988 - quando os prejuízos causados a Angola já eram estimados em US$ 12 bilhões, além dos milhares de mortos e mutilados...

Jornal do Brasil 27 de fevereiro de 1994
A GUERRA SANGRENTA QUE O MUNDO ESQUECEU
ANGOLA: só no Huambo chegam a cair 9 mil bombas por dia.
O Brasil vende armas ao governo de Angola.
Grupos paramilitares da África do Sul, Arábia Saudita, Marrocos e Zaire suprem a Unita.
A Europa vende a Angola armas de ferro-velho.
Israel vende mina que flagela, não mata, e eficiente também porque cada soldado mutilado será carregado por outros dois.

Jornal do Brasil 22 de agosto de 1993
A rota acidentada da democracia na África
Scott Kraft
Los Angeles Times
Nigéria dividida em 250 grupos étnicos que falam aproximadamente 400 línguas
90 milhões de habitantes: quase um sexto dos africanos

Folha de São Paulo 28 de agosto de 1994
Eeben Barlow, mercenário sul-africano, nas décadas de 1970 e 80 lutou no exército do seu país contra o governo de Angola, a que desde 1993 presta ajuda na guerra contra a Unita através da sua empresa Executive Outcomes.

Jornal do Brasil 8 de janeiro de 1994
Salário mínimo em Angola: US$ 1 - em Moçambique: US$ 12
Moçambique, terra de Tara, onde passa o rio Zambeze.
PIB: US$ 1,5 bilhão   Dívida externa: 6 bilhões
saindo da pior seca do século
Hotel Polana, em Maputo, foi construído em 1922 por Walter Reid, autor do projeto do Copacabana Palace

O Estado de São Paulo 13 de fevereiro de 1994
Minas terrestres espalham a morte em 62 países
Donovan Webster
The New York Times Magazine
São fabricadas até 30 milhões por ano.

Folha de São Paulo  8 de dezembro de 1989
comunidade "doadora"
para permanecer no ponto em que estão e não piorar  segundo o Banco Mundial´
as economias africanas precisam crescer pelo menos 4 a 5 por cento ao ano.
África não tem condições de disputar mercado internacional em quase nenhuma área.
"Fuga de cérebros", ou evasão de cientistas: calcula-se que pelo menos 70 mil tenham optado por ficar na Europa ou EUA, onde se formam.
EUA abrigam 34 mil estudantes africanos.
Especialistas em ciências exatas são estrangeiros.
Agricultura: a maior chance de a África retomar o desenvolvimento
Produção agrícola deverá crescer até 5 por cento ao ano ou será impossível alimentar uma população que dobrou em 30 anos e dobrará nos próximos 30.
Expansão das áreas cultiváveis
aquisição de equipamentos, ferramentas, técnicas para maior produtividade do solo, pesquisas sobre espécies agrícolas mais produtivas, resistentes e adaptáveis.
Conter a devastação ecológica para impedir a desertificação do solo.

O Estado de São Paulo 18 DE MAIO DE 1997
A SEGUNDA MORTE DO IMPERIO FRANCÊS       GILLES LAPOUGE
Zaire, o coração estratégico - geográfico e financeiro - da África.
Em 1994, o presidente de Ruanda foi assassinado. Nos dias que se seguiram os hutus, da sua etnia, massacraram 1 milhão de membros da etnia tutsi.
Leste do Zaire: antigas colônias belgas de Ruanda e Burundi e ex-colônia inglesa de Uganda.
Tropas de Laurent Kabila têm, além de zairenses, ruandenses e ugandeses.
É claro que se deve criticar a colonização, mas a da França foi bem menos brutal, insensível ou egoísta que a de outras potências imperialistas.
[Que diferença faz?]

ANGOLA: DOENÇAS MATAM TANTO QUANTO A GUERRA O Estado de São Paulo 28 DE JANEIRO DE 1996
Unicef, órgão das Nações Unidas para a Infância, apontou Angola como o país de maior ocorrência de mortalidade infantil no mundo em 1995.
A malária dizima populações inteiras no país.
"Há uma epidemia em Angola de todas as doenças que se possa imaginar", chegou a dizer uma funcionária de uma agência humanitária.
Guerrilheiros ou Exército saqueiam tudo: medicamentos, freezers, geradores de energia, carros, alimentos. Angola era o segundo maior produtor de alimentos da África e o quarto maior exportador de diamantes e de café do mundo, tem uma das maiores reservas de petróleo e gás natural do planeta, depósitos significativos de ouro, ferro, fosfato, manganês, chumbo, cobre, quartzo, mármore, granito e zinco, potencial para produzir 600 mil toneladas anuais em pesca e - muito importante na África - tem água em abundância - um Brasil oito vezes menor
Catoca, considerado o maior filão de diamantes do mundo, maior até que o de Kimberley, o famoso centro diamantífero sul-africano
Produzia US$ 700 milhões e esperava produzir US$ 2 bilhões na extração de diamantes por esta altura - mas boa parte dessa riqueza não reverte para o Estado porque é desviada para o contrabando.

O Estado de São Paulo 17 DE NOVEMBRO DE 1996 RUANDA FECHA FRONTEIRA PARA CONTER REFUGIADOS
ONU indica que medida é temporária e visa apenas tentar controlar a gigantesca onda de civis hutus, que voltavam do Zaire em ritmo acelerado - mais de 200 por minuto.
FRONTEIRAS CICATRIZES CRIAM ÁFRICA ABSURDA       GILLES LAPOUGE
a região dos Grandes Lagos (leste do Zaire, Ruanda, Burundi e Uganda)
Ruanda: hutus, maioria, e tutsis, 15 por cento
Ruanda e Burundi: poder na mão dos tutsis
tutsis: redesenhar as fronteiras do centro da África para reagrupar a etnia que hoje se estende ao Zaire
África tem 700 etnias e 1,2 mil línguas (ver acima outra cifra).

Jornal do Brasil 24 DE NOVEMBRO DE 1996
O DECANO DOS DITADORES DA ÁFRICA
JUAN CARLOS SANZ EL PAÍS
Zaire: cinco vezes a Espanha com quase a mesma população (42 milhões)
No subsolo jazem algumas das reservas de cobre, cobalto e diamante mais ricas do planeta. Com mais de 250 grupos tribais, cinco idiomas e dezenas de dialetos
MAURÍCIO THUSWOHL Jornal do Brasil
Zaire: refúgio para 2 milhões de hutus ruandenses.
Dois grandes campos foram montados pela ONU na região de Kivu.
RICOS TIRAM PÃO DA BOCA DOS POBRES
JOHN FRIEDMAN NEWSDAY
Sistema global de assistência pós-Segunda Guerra Mundial, que supria os países pobres com gigantescos excedentes de alimentos dos países ricos, terminou com o encerramento da Cúpula Mundial de Alimentação em Roma.
            - Os países que não podem alimentar a si mesmos ficarão ao desabrigo - resumiu um funcionário do primeiro escalão do WFP, World Food Program,  ou PAM, Programa Mundial de Alimentação..
Declaração final promete reduzir à metade os 840 milhões de pessoas que passam fome no mundo até o ano 2010.
Os excedentes têm praticamente desaparecido e os contribuintes dos EUA e da Europa não se acham dispostos a pagar para alimentar os países pobres.
Previsões: por volta de 2025 haverá mais 2,6 bilhões de bocas
15 milhões de toneladas de ajuda alimentícia de que os países pobres necessitam este ano aumentarão para pelo menos 27 milhões, talvez 40 milhões, em 2005. A maior parte do crescimento das necessidades estará na África subsaariana.
Ajudas em alimentos:
1992: 15,2 milhões de toneladas
1995: 8,4 milhões

O Estado de São Paulo 29 DE OUTUBRO DE 1996
RUANDA E BURUNDI APÓIAM OFENSIVA REBELDE NO ZAIRE
Cerca de 500 mil refugiados hutus que viviam em acampamentos desde o fim da guerra civil ruandesa em 1994 se movimentam em desespero ao longo das margens do Lago Kivu em busca de lugar seguro para escapar dos ataques tutsis.
Banyamulenges - tribo tutsi refugiada no Zaire há várias gerações.
As Nações Unidas não conseguiram convencer os refugiados a voltar ao seu país e os países ocidentais que pagam a conta se cansaram de contribuir com US$ 300 milhões por ano para sustentá-los.
Em Ruanda os hutus tomaram o poder em 1959 e expulsaram milhares de tutsis. No Burundi foram os tutsis que controlaram o poder por meio de brutal repressão.
Mas de momento os dois governos são integrados por tutsis, apenas com alguns membros hutus.

FINANCIAL TIMES GAZETA MERCANTIL 30-09-1993
O volume da dívida da África subsaariana cresceu de cerca de US$ 90 bilhões em 1980 para US$ 183 bilhões, valor superior ao Produto Interno Bruto da região.
Gana, que implementou um programa de recuperação econômica durante uma década com as bênçãos do FMI, ainda entrega 25 por cento das receitas de suas exportações em pagamento do serviço da dívida e precisa pedir mais ajuda para cobrir seu déficit do balanço de pagamentos.

NOVAS GUERRAS CRIAM LEGIÕES DE REFUGIADOS O GLOBO 14 de agosto de 1994
JOHN DARNTON THE NEW YORK TIMES
O êxodo de dois milhões de refugiados de Ruanda, trágico e escandaloso.
Em todo mundo:
1974: 2,4 milhões de refugiados
1984: 10,5 milhões
1994: 23 milhões
Em regiões como o Chifre da África a combinação da seca com a guerra castigou de tal forma o solo que não é mais possível extrair dele a sobrevivência.
As raízes da crise ruandesa vêm de 1959: meio milhão de refugiados, quase todos da minoria tutsi, fugiram para escapar da "revolução social" promovida pelos hutus antes da independência, em 1962.
Campos de Kivu: enorme concentração de pessoas sem água limpa para beber ou condições sanitárias que evitassem o alastramento de doenças como cólera, tifo e disenteria.
Só nos campos de refugiados de Goma já morreram 20 mil pessoas.

Folha de São Paulo  24 DE JUNHO 1993
DITADOR DA NIGÉRIA ANULA ELEIÇÃO E RESOLVE PERMANECER NO PODER
vitória quase certa do empresário muçulmano Moshood Abiola, originário do sul do país, onde a maioria da população é cristã.
Com quase 120 milhões de habitantes (? - ver acima),
Guerra do Biafra: mais de um milhão de mortos

GUERRAS QUE O MUNDO NÃO VÊ O GLOBO 16 de maio de 1996
DRAMA DE REFUGIADOS DA LIBÉRIA MOSTRA DESCASO DA COMUNIDADE INTERNACIONAL
fugitivos de mais um país sem importância que se esvai em sangue na desarrumação do mundo pós-Guerra Fria.
Milicianos assassinando milicianos a tiro e a faca nas ruas de Monróvia.
A Europa permitiu que muçulmanos, croatas e sérvios se matassem por atacado durante cinco anos na Bósnia. Se foi indiferente a Srebrenica e Sarajevo, como esperar que se comova com a África subsaariana?

    OVER BURUNDI MOUNTAINS  CODONA

O GLOBO 24 DE DEZEMBRO DE 2000
GUERRAS MATARAM CEM MIL PESSOAS EM UM ANO
Balanço Militar 2000, Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com sede em Londres
nove guerras internacionais e 27 conflitos internos armados
60 por cento das mortes se concentram na África subsaariana
economias mais pobres do mundo estão sendo destruídas por conflitos armados
cresce o mercado de armas
14 operações mundiais de paz mantidas pela ONU
comércio internacional de armas caiu em 1999: US$ 53,4 bilhões
1998: US$ 58 bilhões
gastos militares globais: US$ 809 bilhões
"O objetivo da operação de paz da ONU em Serra Leoa não está claro, assim como é bastante questionável sua capacidade de fazer uma contribuição sensata a uma região altamente instável como o Congo."

Jornal do Brasil 14 de dezembro de 1996
Kofi Annan
Trinta anos a serviço da organização (das Nações Unidas)
Quase impossível de transitar incólume pelos corredores minados da ONU
em Nova York.
 

O Estado de São Paulo 12 DE MAIO DE 1996
NA PENÚRIA, ONU USA FUNDO DE OPERAÇÕES DE PAZ    Renan Antunes de Oliveira
10 mil barnabés da sede do Secretariado Geral, em Manhattan. Vem aí uma redução de 10 por cento entre os 54 mil funcionários espalhados pelo mundo, nas entidades afiliadas.
Operação em Angola com 1118 capacetes azuis custa US$ 1 milhão/dia
Até o fim da Guerra Fria o uso da ONU pelos USA era diferente do que é hoje.
Ações e decisões da ONU repousam na aparência no bom senso mas às vezes demora tanto que deixa um país se consumir, como aconteceu em Ruanda, para depois ir lá catar os pedaços.
Todos gostam de missão fora. São o filé. Angola paga US$ 61 de diária, fora o salário que fica na conta em Noiva York.
 

No capítulo A Natureza da Guerra de Ends and Means (Fins e Meios) Aldous Huxley aponta para a maior contradição dos estatutos da Liga das Nações, antecessora da Organização das Nações Unidas: a de só admitir como membros países que tenham exércitos, pressupondo que devem estar preparados para a guerra e não para a paz. Um claro sinal do verdadeiro espírito dos governantes, estando-se, como tudo indica em 1937, na iminência de um novo conflito bélico. Mais uma prova de que o homem nunca se prontificou a encontrar uma alternativa para a guerra, argumenta.

Leia mais reflexões de Huxley sobre o desgoverno mundial em

          huxley na fome do mundo

                                   

 

O PERIGO QUE ESPREITA A CADA PASSO VEJA 17 de abril de 1996
minas terrestres, arma estúpida
Convenção das Nações Unidas sobre Armas Desumanas, aprovada em 1981 mas só ratificada agora - um contra-senso
arma simples, barata e perversa, arma preferida pelos exércitos maltrapilhos nas guerras esquecidas do Terceiro Mundo
mais de 110 milhões espalhadas por 64 países
fábricas instaladas em 36 países produziram 2 milhões em 1994
matam 24 000 pessoas por ano
algumas custam menos de 3 dólares
Retirá-las custa de 300 a 1 000 dólares, de acordo com a ONU
erradicá-las custaria US$ 33 bilhões
China: mais de 1 milhão de minas deixadas pela Guerra Civil de 1949 e pelo conflito de fronteiras com a ex-URSS na década de 1960
Angola: entre 15 a 20 milhões, uma para cada habitante
200 pessoas dão entrada em hospitais por semana com as pernas esmigalhadas. Há mais de 70 000 mutilados.
Irã: mais de 10 milhões
Bósnia: 3 milhões de minas espalhadas por muçulmanos, croatas e sérvios

Jornal do Brasil       Zaire
orçamento para a saúde em 1991: R$ 0,05/habitante
Mobutu alugava Concordes por R$ 1 milhão
1991: só 10 por cento da receita dos diamantes foram para os cofres públicos
madeiras nobres, além de solos férteis para a produção de café e cacau.
Zaire foi o canal para a ajuda americana à Unita

O FIM DO IMPÉRIO FRANCÊS AFRICANO    Jornal do Brasil 11 DE MAIO DE 1997
Mobutu recebeu em seu território os fugitivos ruandenses da etnia hutu, protegidos da França e responsáveis pelo genocídio de cerca de 1 milhão de tutsis e hutus moderados.
Laurent Kabila ainda NÃO CHEGOU A KINSHASA MAS ESQUADRILHAS DE JATOS EXECUTIVOS já estão aterrissando no aeroporto de Kisangani, subitamente transformada em meca dos bons negócios.

Heart of Darkness, coração das trevas, Kurt
antecessores de Mobutu Sese Seko inspiraram romance de Conrad:
Horror! Horror!


O Estado de São Paulo 7 de agosto de 1994
Alguns especialistas dizem que a saída está no chamado realismo econômico: a ajuda econômica só dará resultado se os africanos ajudarem a si mesmos.
Por um lado o respeito a essas fronteiras ajudou a proteger o fraco do forte - as guerras entre Estados africanos são raras - elas forçaram etnias tradicionalmente inimigas a conviver sob a mesma bandeira.
12 dos 47 países têm sofrido com sucessivas guerras civis
40 golpes de Estado nos últimos 30 anos
importações cresceram 10 vezes nos últimos 30 anos

PARA GUEVARA, KABILA ERA BÊBADO E MULHERENGO O Estado de São Paulo 13 de abril 1997
A única pergunta que os observadores da África Central fazem é se ele será menos ou mais corrupto, menos ou mais despótico do que Mobutu.
... sabe-se que 50 por cento da produção das minas de diamante sai ilegalmente do Zaire.
Os tubarões anglo-americanos e sul-africanos dos metais não-ferrosos e dos diamantes já estão de conchavo com Kabila.
Zaire, um dos países mais ricos em minério do mundo, ocupa lugar estratégico no centro do continente.
[E o que isso interessa agora?]

O Estado de São Paulo 18 de dezembro de 1996
Enquanto isso na Tanzânia - outro país a receber centenas de milhares de refugiados após a guerra civil ruandense - cerca de 300 mil hutus continuavam se dirigindo à fronteira ruandesa, depois de terem sido praticamente expulsos dos campos pelo Exército tanzaniano.

Jornal do Brasil 5 de janeiro de 1997
REFUGIADOS, UM PROBLEMA SEM FIM
resistência dos países desenvolvidos a conceder asilo. A França, conhecida pela sua liberalidade na concessão de vistos, cerrou as portas inclusive para naturais de suas ex-colônias como a Argélia.
condição de meteco (do grego metoikos, ou quem muda de casa)
Entre os que todo ano jogam flores para Iemanjá nos mares do Brasil muitos não sabem que os primeiros negros escravizados jogavam flores na esperança de que chegassem ao país da origem, para onde queriam voltar. A oferenda é um pedido de dias melhores de nossos primeiros metecos.

O Estado de São Paulo 1º de novembro 1996
Goma, no nordeste do Zaire, centro das operações humanitárias para mais de 1 milhão de refugiados hutus.
Mugunga, com mais de 400 mil pessoas, já é o maior e o mais densamente povoado campo de refugiados do mundo.
Kabila, líder do grupo tutsi Aliança de Forças Democráticas para a Libertação do Congo-Zaire
O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) exigiu a abertura de "CORREDORES HUMANITÁRIOS", sem que se saiba ao certo a partir de onde e em que direção.
Aos políticos ocidentais o que não falta é coragem. Eles detestam violência, injustiça, desprezo pelos direitos humanos. Mas estão de mãos e pés atados.

O Estado de São Paulo 5 DE ABRIL DE 1995
FALTA DE AJUDA AMEAÇA DEMOCRATIZAÇÃO
HOWARD W. FRENCH
THE NEW YORK TIMES
OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que monitora o fluxo líquido de verba assistencial dirigida aos países em vias de desenvolvimento.
neologismo ilógico

DOAÇÕES:
1992: US$ 60,85 bilhões
1995: US$ 55,96 bilhões
África: US$ 20 bilhões
EUA:
1985: US$ 1,72 bilhão
1992: US$ 1,2 bilhão
Departamento dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional fechou 8 de suas 35 missões africanas.
"O mundo ao redor da África está sendo rapidamente unificado e esse continente corre o grave risco de tornar-se um espaço isolado do mundo", anteviu Anthony Lake, consultor de segurança nacional do ex-presidente Bill Clinton.
... o pagamento das dívidas que beneficiaram as contas pessoais dos ditadores
Mali, país banhado pelo Rio Niger, privilegiado com um delta fértil que ofereceria a salvação para uma região que importa há muitos anos grandes quantidades de grãos. Se esse potencial for explorado, os especialistas alegam que o país necessitaria injeções de dinheiro e assistência técnica. Os diplomatas também chamam a atenção para esse extenso país no coração da região do Sahel, sul do Saara, como uma barreira contra a expansão da militância islâmica proveniente do vizinho ao norte, a Argélia.
indiferença do Ocidente
despotismo
Ocidente virou as costas e depositou todo seu interesse em outros países


Continente precisaria de décadas para adquirir know-how de Bolsas de Valores para abrigar investimentos de fundos de pensão.

GAZETA MERCANTIL 8 DE JUNHO DE 1995
ÁFRICA AMEAÇA FRUTICULTURA EUROPEIA
Vantagens concedidas a Pretória podem afetar produtores do Mediterrâneo
JAMES HARDING
FINANCIAL TIMES
O apoio da UE ao processamento industrial de frutas, que já cobriu mais de 40 por cento dos custos dos pêssegos, agora geralmente cobre menos de 15 por cento.
... [produtores de frutas europeus pedem] compensação ao setor por acordos bilaterais existentes com produtores de frutas tropicais.
... a facilidade com que competidores externos podem capturar uma fatia do mercado é chocante.
... existem cerca de 575 mil pessoas empregadas em horticultura na África do Sul, das quais dependem outros 2,7 milhões de pessoas.
"Qualquer coisa que dificulte o acesso ao mercado europeu impedirá a geração de lucros pelos fazendeiros sul-africanos, inclusive o investimento na agricultura e a manutenção dos empregos que garantem o tecido social do país"

Jornal do Brasil 18 de dezembro de 1994
MOÇAMBIQUE EM PAZ SABOREIA DEMOCRACIA
Se a comunidade internacional parasse hoje de dar dinheiro a Moçambique amanhã o país estaria quebrado.
Renda per capita anual: US$ 80
Mortalidade infantil: 150 em cada 1 000
Desmobilização de 90 mil homens da Frelimo e da Renamo.
56 por cento do orçamento do Estado vêm de outros governos e instituições estrangeiras.
Das 6 mil escolas antes existentes, restam 3 mil
e só metade dos 2500 postos de saúde

O Estado de São Paulo 18 DE DEZEMBRO DE 1994
MOÇAMBIQUE ENFRENTA DESAFIO DA DEMOCRACIA
Moçambique tem muitos recursos naturais (como carvão e gás), bons portos e a maior hidrelétrica africana, Cabora Bassa, no Zambeze - rio das aventuras de Tarzan -, que opera com 10 por cento da capacidade.

Folha de São Paulo 17 de maio de 1997
APÓS 32 ANOS MOBUTU DEIXA ZAIRE FALIDO
João Batista Natali
Renda per capita: metade dos US$ 230 de 1990
Ingere-se em média 1500 calorias/dia, 1000 a menos que o necessário à nutrição.
Metade das crianças sofre de paludismo/malária
51 por cento das mortes são por infecções e doenças parasitárias.
Por sua posição estratégica Zaire tornou-se pivô continental dos confrontos Leste-Oeste.
Os soviéticos apoiavam Patrice Lumumba (que era primeiro-ministro quando Mobutu tomou o poder após guerra civil através de golpe de Estado patrocinado pela CIA), e os belgas e norte-americanos a Província Separatista de Katanga, governada por Moisés Tchombé.
Além da Unita, apoiou na África do Sul os adversários do CNA (Congresso Nacional Africano) de Mandela.
RIQUEZA DIFICULTOU O FIM DA COLONIZAÇÃO
Técnicos europeus designam o Zaire um "escândalo geológico"
Guerra da Argélia matou de 300 a 600 mil pessoas

Jornal do Brasil 17 DE MAIO DE 1997
MOBUTU ABANDONA O PODER
e voou para a mansão-fortaleza conhecida como Versalhes da Selva que possui em Gbadolite, no Norte do país.
Mais de 70 milhões de dólares no Marrocos em propriedades localizadas principalmente na área de Marrakesh.
Palácio na Riviera francesa.
Uma residência em Lausanne no valor de US$ 2,5 milhões.
Apartamentos em Paris e Bruxelas.
Enorme quinta no Algarve com 14 mil garrafas de vinho de safras preciosas.
Proprietário de fazendas de café no Brasil.
SESE   SEKO   KUKU   NGBENDU   WAZA   BANGA aliás, Joseph Desiré Mobutu
            - As elites francesas encaram a África como um continente habitado por selvagens, por violentas tribos que precisam de um ditador para controlá-las.

Folha de São Paulo 19 de julho de 1991
Migração envenena relações entre os Estados africanos
Refugiados se tornam dado político importante na África
René Le Marchand
prof. Universidade da Flórida
fugindo da morte e da miséria
África: seis milhões de refugiados;
se acrescentar aos imigrados os deslocados no interior de cada Estado: 15 milhões.
Moçambique: 1 milhão
e 900 mil refugiados em Malawi
Nigéria, durante o BOOM do petróleo atraiu trabalhadores; em 1983, expulsou 500 mil estrangeiros
Sudão, neste momento, nos mostra a extensão do desastre que ameaça as populações do sul do país, após uma seca catastrófica
Cartum, a capital, barra ajuda internacional às áreas mais atingidas pela fome, confiando na redução da resistência do sul à dominação do norte, onde está o governo do general Omar Hasan al-Beshir.
Diante dos interesses em jogo o desaparecimento de 7 milhões de vidas humanas.
Etiópia 1984-85: deportação de 1,5 milhão de pessoas para o país atacadas pela seca, entre as mais refratárias ao governo de Adis Abeba, e do mesmo modo governo recusa a permissão de ajuda internacional.
Fracasso da política de urbanização dos regimes afro-marxistas. Na Etiópia programa de urbanização das Forças Armadas planejou deslocar 30 milhões de habitantes entre 1985 e 1995. Em 1987, enquanto os militares se gabavam de ter reagrupado 3 milhões de pessoas em nome da revolução agrária, 700 etíopes chegavam por dia ao campo de Aguessa, na Somália, fugindo da arregimentação.
Violência em confrontos no reagrupamento de populações rurais em Moçambique é atribuída a erros da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) muito mais que ao apoio da África do Sul à Resistência Nacional Moçambicana (Renamo). População vítima de atrocidades de ambas as partes.
Políticas de desenvolvimento, na maioria dos casos, têm por objetivo permitir às elites que se apropriem de terras valorizadas pelo planejamento do espaço, um dos aspectos menos conhecidos dos fenômenos migratórios.

e quando já é mais que evidente o descalabro
ÁFRICA: DEMOCRACIAS ENGATINHAM EM MEIO À TRAGÉDIA
Jornal do Brasil 7 abril 1991 Eric Fottorino Le Monde
África parece longe de tudo, como se não servisse para nada.
O Magreb, na África do Norte, interessa mais aos europeus pela proximidade e o perigo que podem representar para o Norte.
Organização de Urgência das Nações Unidas (Undro) encontra dificuldades há cinco meses para acudir as populações atingidas pela guerra civil na Libéria. Pediu US$ 14 milhões para dar ajuda a meio milhão de pessoas bloqueadas na capital, sem água potável e com poucos sacos de arroz, mas só conseguiu um décimo desse valor.
"Trade, Not Aid" foi o slogan no fim da chamada "década perdida para o desenvolvimento" também na África, quando a queda dos preços das matérias-primas tropicais (café, cacau, algodão) e do cobre do CINTURÃO DO COBRE zairo-zambiano mostraram quanto a África tinha ainda a perder em trocas comerciais decididamente desiguais: 41 países, dos quais 21 africanos, contribuíam apenas com 1 por cento para o comércio mundial, em que a África não exerce qualquer influência na formação dos preços ou na distribuição dos produtos. As importações, por outro lado, tornam-se mais caras e a cada ano o continente se afasta mais da auto-suficiência alimentar.
Desenraizamento das populações em cidades abarrotadas de gente e sub-equipadas.
África, a região mais endividada do mundo (US$ 130 bilhões) em relação ao Produto Interno Bruto. Pelo destino dado aos recursos pelos seus governantes, ninguém de bom senso poderia pretender convencer a opinião pública-contribuinte a aceitar o perdão da dívida. E o endividamento é de somenos quando se pensa na falta de poupança e de estímulo ao investimento privado.
Na Conferência Mundial para a Reparação à África e aos Africanos da Diáspora a Nigéria propõe aos países ricos o pagamento de uma indenização de US$ 25 bilhões pelos cinco séculos de escravidão negra.
(A quem serviriam eles?)

Uganda: alguém aí se lembra das atrocidades de um certo Idi Amin Dada nos anos 1970? E do papel ridículo de leão coroado de Jean-Bedel Bokassa na República-Império Centro-Africana?

Jornal do Brasil 27 DE OUTUBRO DE 1996
(MAIS UM) GENOCÍDIO À VISTA NO CORAÇÃO DA ÁFRICA
Ruanda: pelo menos 800 mil pessoas mortas em 1994
(prenúncio insuspeitável da queda de Mobutu) no Leste do Zaire Exército enfrenta rebelião de tutsis zairenses ou baniamulenges, acossados no outro flanco por mais de 1 milhão de refugiados hutus de Ruanda e Burundi.
Zaire: 60 por cento das reservas mundiais de cobalto, diamantes, cobre cádmio, zinco, ouro, prata, estanho, manganês, urânio, rádio
Mobutu: fortuna estimada em 4 a 6 bilhões de dólares
região dos Grandes Lagos do Centro da África (Vitória, Tanganica, Albert e Niasa)
ALFONSO ARMADA, EL PAÍS
Libéria: escravos libertos chegados dos EUA subjugaram os nativos durante mais de um século e meio.
Burundi: 6,5 milhões de habitantes, 150 mil mortos em conflitos étnicos nos últimos três anos.
ministro das Instituições Eugene Nindodera: As diferenças entre valões e flamengos na Bélgica foram transplantadas para a colônia: os valões apoiaram os tutsis e os flamengos os hutus. Antes da chegada dos europeus não havia questão étnica.
(talvez houvesse)
tutsis: a maioria criadores e negociantes de gado
hutus: agricultores
(não reproduzirão também uma certa guerra dos primórdios da história ocidental?)

A FRAGILIDADE DA DEMOCRACIA AFRICANA
GAZETA MERCANTIL 15 DE FEVEREIRO DE 1996
Michael Holman
Financial Times
golpes no Níger e Serra Leoa
agitação na Guiné Equatorial
agravamento da crise na Nigéria
guerra no Zaire, Libéria, Sudão, Ruanda
As lealdades tribais determinam a fidelidade dos eleitores.
Críticos também destacam que os mesmos doadores não permitiram que a questão dos direitos humanos impedisse o aumento do comércio com a China

GAZETA MERCANTIL 29 DE JANEIRO DE 1996
ANGOLA, UM PARAÍSO DE MERCENÁRIOS
Cerca de 70 companhias do setor da segurança estão competindo em Angola na esperança de preencher o vazio deixado pela saída formal da sul-africana Executive Outcomes, convidada a deixar o país por pressão do presidente norte-americano Bill Clinton.

O Estado de São Paulo 1º  DE FEVEREIRO DE 1996
ANGOLANOS JÁ NEM SABEM POR QUE GUERREIAM
Thomas L. Friedman
The New York Times
Num continente cheio de guerras insensatas, a de Angola consegue ser a mais insensata: as duas coisas que mantêm esta guerra em andamento agora são o ego de Savimbi e os diamantes.

Folha de São Paulo 29 DE MARÇO DE 1991 MOÇAMBIQUE TEM A MAIOR POBREZA DO MUNDO
Relatório do Desenvolvimento do Banco Mundial
Renda per capita: US$ 100 (1988)
Mortalidade infantil: 144 mortes em 1 000 crianças com menos de 1 ano
PIB caiu 5,9 por cento ao ano entre 1982 e 1985
Taxa de crescimento demográfico:: 2,7 por cento
desabastecimento, corrupção e mercado negro
Política agrícola desastrosa: Experiência das aldeias comunais e das fazendas estatais de produção coletiva em grande escala revelou-se ineficiente e desagregadora do sistema tradicional de organização das dez tribos do país.
Os portugueses deixaram uma colônia fortemente dependente de importações e destituída de quadros de gestão econômica.
Ao contrário das colônias britânicas, a população foi marginalizada pelo sistema educacional.
[Taxa de analfabetismo em meados da década de 1970 era de 90 por cento e quando o então ministro da Cultura Luís Bernardo Onwana falou na adoção do inglês como língua oficial porque o país está rodeado de anglófonos a última flor do Lácio bradou ao escândalo: que diferença faz para quem teria de ser alfabetizado de qualquer jeito?]

O Estado de São Paulo 25 de setembro de 1991
Zaire: país montado pelos belgas se esfacela
Gilles Lapouge
mais de cem etnias (diz ele), 15 milhões de bantus, três milhões de sudaneses e 100 mil pigmeus
Parece que voltamos à obscura Idade Média européia quando homens e mulheres viam os filhos morrer de fome e os poderosos construíam palácios de ouro e matavam e destruíam ao acaso.

23 de novembro de 1991
O Estado de São Paulo

ONU: Enfraquecida e pouco operante por várias décadas, a organização vem ganhando força desde o fim da guerra fria. Teve papel decisivo na guerra do Golfo ao autorizar o uso da força contra o Iraque.
(em nome de quê e de quem?)

ISTOÉ 12 de julho 1995
PAZ DE CEMITÉRIO
Angola: existe o temor de que ocorram levantes de populações desesperadas com a fome
[quem as conhece não pensa sequer em coisa do gênero - em nenhum lugar é assim - nem na Bósnia isso aconteceu. As populações estão subjugadas.]

Folha de São Paulo 2 de janeiro de 1995
REFORMA NA ÁFRICA DO SUL AMEAÇA REINO ZULU
até agora os zulus conseguiram manter um alto grau de independência em seu reino, a Zululândia - ou KwaZulu, na língua de 22 por cento dos sul-africanos.
A tendência agora é a de perder a autonomia relativa que teve mesmo sob o regime de apartheid (1948-1990).
O resultado mais visível das transformações são as brigas entre militantes do Partido da Liberdade Inkatha (zulu) e do CNA, de Nelson Mandela, de origem xhosa: mais de 10 mil mortos desde 1990.

Missão de paz requer diálogo e poder de fogo
Folha de São Paulo 20 de novembro de 1994
Moçambique: 2 milhões de minas explosivas espalhadas pelo território.
Caminhões com alimentos são assaltados por guerrilheiros. Banditismo endêmico. [como na Somália]

Jornal do Brasil 20 de junho 1993
GUERRA EM ANGOLA CONTINUA IGNORADA PELO RESTO DO MUNDO
Trata-se de uma guerra de Terceiro Mundo, travada com equipamentos obsoletos e poucas armas de destruição em massa.
[uma guerra de terceira categoria]
Meio milhão de crianças morreram desde a retomada da guerra

O Estado de São Paulo 14 de fevereiro 1993
ÁFRICA
um terço dos conflitos de toda ordem registrados ao redor do mundo: 15 países conflagrados

Folha de São Paulo 2 DE MAIO DE 1993
ÁFRICA DESAPARECE NA GEOPOLÍTICA DE MERCADO
José Sachetta Ramos
A saída dos militares norte-americanos da Somália põe fim a uma encenação da Nova Ordem Mundial. Intervenção "humanitária" não põe fim a problemas sociais.
Washington poderia ter optado por intervir no Sudão ou Etiópia, países vizinhos, com guerras civis e milhões de esfomeados.
Somália se formou em 1990 da junção de duas ex-colônias, uma britânica outra italiana.
Até 1977 a ex-URSS forneceu-lhe ajuda. Depois voltou-se para a inimiga Etiópia. Os EUA ocuparam o vácuo. Em meio a uma seca devastadora, a Etiópia invade o país, que já nasceu sob o signo das disputa de clãs tribais. Estado de ficção, numa região com 65 por cento de nômades.
Sudão: islamização forçada de animistas e cristãos do sul levou a um conflito de três décadas de duração.
Seca, fome e guerra: cenário contemporâneo do Chifre da África.
Etiópia e Sudão iniciaram programas de irrigação e drenagem das águas do Nilo Azul, que nasce na Etiópia, une-se ao Nilo Branco no Sudão e desce para o Egito. Ao frear a irrigação, as guerras civis adiaram um conflito ainda maior.

veja 16 de abril de 1977
UM REGIME ROLA LADEIRA ABAIXO
Mobutu nunca fez distinção entre tesouro nacional e fortuna pessoal
já gastou 50 milhões de dólares com a campanha militar

Jornal do Brasil 16 de junho 1991
Neil Henry
The Washington Post
NOVA ÁFRICA EMERGE DA GUERRA FRIA
Finalmente desprezado pelos Estados Unidos, o regime sômalo de Mohamed Siad Barre (que servia de tampão contra a vizinha Etiópia, apoiada pelos soviéticos) esboroou-se.
Agora os Estados Unidos ajudam uma insurreição rural antes apoiada por Moscou a assumir o poder.
Sete milhões de etíopes estão ameaçados de morrer de fome.

Jornal do Brasil 30 de novembro 1994
ONU DENUNCIA CORRUPÇÃO NO GOVERNO DE MOÇAMBIQUE
A ONUMOZ, missão das Nações Unidas, descobriu que 20 mil dos 85 mil soldados da Frelimo nunca existiram, denunciou o representante especial da organização, Aldo Ajello:
            - Era um negócio como outro qualquer. O Ministério das Finanças pagava e alguém no Ministério da Defesa pegava o dinheiro.

O Estado de São Paulo 20 de março de 1997
Zaire, definido no guia The World's Most Dangerous Places, do norte-americano Robert Young Pelton: Sujo, desagradável, corrupto, violento, mas fora isso não tão ruim. O buraco do inferno da África Central.

Jornal do Brasil 29 DE OUTUBRO DE 1995
ÁFRICA AINDA VIVE NA ERA DO RÁDIO
Ondas radiofônicas amplificam tradição verbal e servem como principal instrumento de propaganda e informação no continente
John Balzar
Los Angeles Times
abril de 1994
O locutor disse que o avião que transportava o presidente tinha caído e ele morrera.
A estação era um braço do movimento extremista hutu.
Radio Mille Collines
"Quem vai acabar de encher as sepulturas meio vazias?"
Foram 500 mil mortos.
Na maioria dos países da África o controle do rádio é competência exclusiva do governo. Outros permitem estações independentes, mas geralmente controladas por pessoas ligadas ao governo.
países doadores do Ocidente
Usando a ajuda como cenoura e porrete, países ocidentais vêm lisonjeando e intimidando o Quênia para que permita maior competição política e econômica.
Libéria, uma guerra civil longa e caótica


Costa do Marfim - 12 milhões de habitantes e 80 grupos étnicos

Côte d'Ivoire - eis um toque de ÁFRICA  HYPE

 

marfinenses se vestem de rei mesmo para ir à feira com túnicas, vestidos e turbantes

Jornal da Tarde s/d
A África Negra representou durante muitos séculos uma fatia obscura do mundo, terra de homens exóticos e estranhos; e que só começou a ser (pouco) desvendada (ao mesmo tempo em que era destruída) a partir do fim do século XIX.

GAZETA MERCANTIL 08 de fevereiro
[QUAIS MRS. LIVINGSTONES]
EMPRESÁRIOS VASCULHAM O CONTINENTE EM BUSCA DE NEGÓCIOS
KEN WELLS
THE WALL STREET JOURNAL
a capital decadente de Uganda, onde não faz muito tempo o ditador Idi Amin cometeu atrocidades inenarráveis
África do Sul já importa anualmente 120 bilhões de dólares em bens e serviços.
Moçambique e Angola - países com abundância de recursos cujo potencial imenso permanece inexplorado.

Folha de São Paulo NATUREZA É PROGRAMA OFICIAL EM ZIMBÁBUE 1º DE AGOSTO DE 1991
José Sachetta Ramos
Cataratas de Vitória, os grandes rios, a savana, animais grandes e estranhos levam o viajante a um cenário cinematográfico.


Jornal do Brasil  7 de julho 1991
ANGOLA: AS MARCAS DA GUERRA
Vêem-se por todos os lados homens usando muletas para substituir pernas estraçalhadas nos campos minados.
Os melhores hotéis da cidade mantêm nos apartamentos águas em baldes pois, pelas torneiras, ela raramente aparece.

O Estado de São Paulo 1º  DE OUTUBRO DE 1991
PAÍSES RICOS IGNORAM IMPLOSÃO DA ÁFRICA
jamais assimilaram regimes democráticos do tipo ocidental. Muitos de seus dirigentes estão desgastados pela usura do poder, pelo nepotismo e corrupção.

veja 18 de junho de 1997
CONVULSÃO COLETIVA
Três países africanos vivem situações de violência, mas pode ser o final de um longo ciclo
Resumindo assim, parece uma repetição de velhos clichês sobre o continente de ditadores corruptos, tribos em pé de guerra e caos político

GAZETA MERCANTIL s/d
FRACASSO NAS INTERVENÇÕES ABALA A CREDIBILIDADE DA ONU

ONU REVELA QUE 1 BILHÃO DE PESSOAS VIVEM COM FOME EM TODO O PLANETA
países ricos precisariam doar 100 milhões de toneladas de alimentos por ano até 2050


Folha de São Paulo 19 de junho 1991
O número de subnutridos no continente africano deve subir de 142 milhões registrados em 1983-85 para cerca de 200 milhões no ano 2000.

POBREZA MATA 12 MILHÕES DE CRIANÇAS POR ANO SEGUNDO RELATÓRIO DA OMS O Estado de São Paulo 2 DE MAIO DE 1995
Miséria atinge um quinto da população
30 por cento das crianças não se alimentam adequadamente

Folha de São Paulo 12 de maio 1991
A América Latina precisa de US$ 200 bilhões só para realizar um saneamento básico contra a cólera - Fernando Gabeira de Berlim.

O Globo 7 de julho de 1991
Um bilhão de pessoas vivem com US$ 1 ao dia
O Desafio do Desenvolvimento - Banco Mundial
"TAXA DE MORTALIDADE NO BRASIL É MAIOR DO QUE EM MUITOS PAÍSES
DA ÁFRICA E DA ÁSIA
"

"OS PAÍSES RICOS TÊM A RESPONSABILIDADE DE ABRIR O MERCADO PARA OS POBRES"

"AS PERSPECTIVAS DOS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO ESTÃO EM SUAS PRÓPRIAS MÃOS"

 

            BRASIL-ÁFRICA ÁFRICA-BRASIL

 

                   GARIMPEIROS URBANOS  BOCA DO LIXO  MISÉRIA

Brasil-África: doação de alimentos é alvo de críticas
Rio de Janeiro, 16 Junho 1997 - Uma lei sancionada sexta-feira por Fernando Henrique Cardoso, ordenando o envio de 80 mil toneladas de alimentos para Angola, Cuba, Namíbia e Moçambique, suscitou nova onda de críticas ao Presidente brasileiro.
O "Jornal do Brasil", do Rio de Janeiro, destaca ao dar a notícia a informação de que aquela quantidade dos alimentos doados é suficiente para alimentar um milhão de pessoas e ressalta que o programa brasileiro de ajudas de emergência Comunidade Solidária irá atender este ano somente seis dos 32 milhões de indigentes do país.
De acordo com a lei, cada país irá receber 20 mil toneladas de grãos dos estoques públicos administrados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
"Serão doados preferencialmente os produtos com maior risco de perda de qualidade", afirma o texto da lei aprovada pelo Congresso Nacional, que deverá ser sancionada pelo Presidente.
As despesas com o transporte das mercadorias, a partir dos portos brasileiros, ficarão a cargo dos países beneficiados.
A notícia da doação fora já objeto de duras críticas de outros órgãos de comunicação no início da votação do projeto de lei, da autoria dos Ministérios da Agricultura e das Relações Exteriores.
Repercutindo a notícia do "Jornal do Brasil", uma rede de emissoras de rádio está transmitindo hoje um inquérito de rua em que habitantes de São Paulo condenam a doação de grãos.
A maioria dos entrevistados afirma que o país deveria cuidar, em primeiro lugar, do seu povo faminto.
Angolanos, cubanos, namibianos e moçambicanos irão receber o equivalente a 0,001 por cento da safra brasileira de grãos em 1997, que deverá ser de 79,4 milhões de toneladas.
O programa Comunidade Solidária, dirigido pela primeira-dama Ruth Cardoso, pretende distribuir 450 mil toneladas de comida, ou 0,005 por cento da safra, informa o diário carioca, segundo o qual por trás do sancionamento da lei está o desejo do Brasil de conquistar o lugar reservado a um país da América Latina no Conselho de Segurança da ONU a partir de fevereiro de 1998.

Cuba entra na lista de países a que o Brasil poderá doar alimentos em "risco de perda de qualidade"
Rio de Janeiro, 7 fevereiro 1997 - Cuba foi incluída na lista dos países a que o Brasil deverá doar alimentos "com maior risco de perda de qualidade, muitas vezes impróprios para comercialização", conforme uma proposta do Governo brasileiro em votação no Congresso Nacional de Brasília.
Os outros três países "beneficiários" da medida seriam Angola, Namíbia e Moçambique.
O projeto de lei, da iniciativa do Ministro brasileiro das Relações Exteriores, Luís Felipe Lampreia, e do seu ex-colega da Agricultura, José Eduardo Andrade Vieira, e que foi enviado à Câmara de Deputados em 1996, foi aprovado quinta-feira pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara de Deputados.
Desde a sua chegada à Câmara o projeto original sofreu importantes alterações.
Ele previa de início que fossem fornecidas anualmente dez mil toneladas de produtos aos três países africanos, mas o relator do projeto na Comissão de Constituição e Justiça, deputado Nilson Gibson, decidiu propor o aumento para 40 mil toneladas e incluir Cuba na lista dos receptores.
Aprovado por unanimidade pela Comissão de Relações Exteriores o projeto de lei foi rejeitado por unanimidade pela Comissão de Agricultura e Política Rural.
Segundo o parecer do relator do projeto nesta última comissão, Silverani Santos, um país com 32 milhões de famintos não deveria dar-se ao luxo de fornecer gratuitamente alimentos a terceiros.
O jornal "O Globo", do Rio de Janeiro, informa hoje que, mesmo tendo-o reprovado, a maioria dos deputados da Comissão de Agricultura e Política Rural deverá aprová-lo quando ele for levado à votação no plenário da Câmara de Deputados em março.
O jornal cita um deputado da referida comissão, que votou contra mas mudou de idéia segundo o qual há muitos produtos que o mercado brasileiro "não aceita consumir, como arroz e feijão velhos".
O projeto do Governo prevê que sejam doados alimentos que se encontram em depósitos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), empresa estatal brasileira que mantém estoques reguladores de cereais e grãos, e que as despesas de transportes dos depósitos até o destino sejam cobertas pelos países "beneficiários".
Cuba é o país que tem demonstrado maior interesse em receber os alimentos, segundo "O Globo", que informa ainda que a Conab tem cinco milhões de toneladas de cereais e grãos em estoque e que o Governo brasileiro pretende distribuir 300 mil toneladas de comida a 18 milhões de famílias carentes do seu país até o final do ano.
As 40 mil toneladas a serem fornecidas aos países africanos e Cuba corresponderiam, hoje, a apenas 0,8 por cento de todo o estoque regulador brasileiro e estariam orçadas no equivalente a seis milhões de dólares.

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Brasil: morre Betinho, o maior incentivador do espírito de cidadania entre os brasileiros
Rio de Janeiro, 10 Agosto 1997 - Morreu sábado, no Rio de Janeiro, de insuficiência hepática, o sociólogo brasileiro Herbert de Souza, o Betinho, tido como o maior impulsionador de ações pela tomada de consciência do espírito de cidadania pela população do seu país.
Betinho, que tinha 62 anos e era hemofílico, lutava há uma década contra a aids, doença que contraiu através de uma transfusão de sangue.
Sua figura franzina e a sua expressão afável e sorridente tornaram-se muito populares no Brasil desde que, em 1992, lançou a Ação pela Cidadania, Contra a Fome e a Miséria, que mobilizou milhões de pessoas numa campanha destinada a acudir a população mais carente do país.
A sua "lenda" começou a ser construída uma década e meia antes, quando a cantora Elis Regina gravou o samba "O bêbado e a equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, um dos maiores libelos contra a ditadura militar brasileira de 1964-85.
Nascido em Minas Gerais, Betinho militou na Ação Popular (AP), grupo de inspiração católica que se engajou na luta do governo do Presidente João Goulart (1962-64) pela promoção das chamadas reformas de base, que deveriam mudar radicalmente as relações sociais e econômicas no Brasil.
Obrigado a exilar-se do seu país após o golpe militar de abril de 1964, que derrubou João Goulart, só regressaria ao Brasil em 1979.
Até os anos 90 Betinho foi conhecido sobretudo como o "irmão do Henfil", como é chamado em "O bêbado e a equilibrista", que falava sobre o drama do exílio político no Brasil da ditadura ("Meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil/ com tanta gente que partiu/ num rabo de foguete", dizia o trecho da letra em que lhe é feita referência).
Betinho era irmão do cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, cujas histórias em cartum denunciavam as arbitrariedades e injustiças da sociedade brasileira das décadas de 1970 e 80.
Também hemofílicos, tanto Henfil como o outro irmão de Betinho, o compositor Francisco Mário, acabariam por morrer poucos meses após terem contraído a aids, igualmente através de transfusões de sangue.
Betinho fundara entretanto o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), organização não-governamental através da qual lançou as campanhas que fariam com que se tornasse uma das personalidades mais marcantes do Brasil nos últimos anos.
No final de 1988, após a Prefeitura do Rio de Janeiro ter decretado a falência da cidade, lançou a campanha "Se liga, Rio", em que procurou mobilizar os cariocas para a recuperação do sentimento de dignidade e de amor-próprio que pareciam perdidos na maior crise da história da edilidade.
A partir de então deixa de ser apenas o - a um só tempo famoso e obscuro - personagem da canção que Elis popularizara para tornar-se um símbolo da esperança no futuro, apesar de todos os males, inclusive, a chamada doença do século. Esperança personificada na canção pela equilibrista do título.
"O que muda o país é a cidadania, não o poder", declarou ao lançar a Ação pela Cidadania, Contra a Fome e a Miséria, a partir da qual seriam criados centenas de comitês para a articulação de campanhas de angariação de alimentos destinados aos flagelados brasileiros.
Paladino da ética na política, como em cada ação individual do dia-a-dia, Betinho levantou a primeira grande polêmica em torno dos propósitos do atual presidente social-democrata e também sociólogo Fernando Henrique Cardoso ao abandonar o conselho de consultores do Comunidade Solidária, programa oficial de combate à miséria dirigido pela primeira-dama, a antropóloga Ruth Cardoso.
"Não precisamos de novos investimentos sociais, mas que os investimentos cheguem à população" - declarou, ao justificar o abandono, para grande embaraço da suposta boa consciência em torno do governo do que é tido como o primeiro presidente intelectual brasileiro.
Betinho já havia passado então por uma das maiores provas de integridade a que foi submetido ao longo da sua atribulada existência, quando o seu nome surgiu numa lista descoberta em 1994 ao lado de representantes das autoridades e personalidades públicas envolvidas com um controlador do jogo do bicho.
De acordo com os livros de contabilidade do bicheiro Castor de Andrade, Betinho teria recebido dinheiro daquele contraventor - numa das revelações mais chocantes de todo o escândalo.
Já bastante combalido pela aids o sociólogo chorou ao pedir desculpa e compreensão pela ato ilícito segundo ele cometido num momento de desespero.
O dinheiro, disse, foi destinado a uma organização não-governamental de luta contra a aids que não tinha outros meios de sobrevivência.
Personagem tocante, pelo drama pessoal vivido ao longo da sua existência e pela firmeza e determinação demonstradas na luta contra a morte como nas campanhas contra as gritantes injustiças sociais do seu país, Betinho é agora recordado como um homem que transformou a debilidade física e o diminutivo do seu apelido em sinônimo de grandeza.
É também apontado como maior responsável pelo despertar do povo brasileiro para o sentimento de cidadania.
Em 1991 ele recebeu o Prêmio Global 500 da ONU pela sua contribuição para a defesa do meio ambiente.
Sua vida foi tema do enredo do desfile de carnaval da Escola de Samba Império Serrano em 1996 com o título "E verás que um filho teu não foge à luta".

(Rio de Janeiro)© Brasil em campanha por Natal com menos fome  1993
Rio de Janeiro¬ 22 dezembro © ­ Organismos cívicos¬ empresas¬ 
personalidades da cultura e artistas se mobilizaram numa grande
campanha de recolha e distribuição de alimentos entre a população 
carente no Brasil¬ numa campanha intitulada "Natal sem Fome".
Centenas de toneladas de alimentos não perecíveis estão sendo 
doadas por empresas e organizações cívicas ou recolhidas em 
espetáculos artísticos e esportivos realizados nas principais 
cidades do pais¬ onde o público paga a entrada com alimentos.
Os produtos arrecadados são posteriormente distribuídos em 
comunidades carentes e entidades assistenciais.
Cantores e músicos famosos¬ como Milton Nascimento¬ Jon 
Anderson¬ James Taylor¬ Jorge Benjor (ex-ø-Jorge Ben)¬ Daniela Mercury 
e Chico Buarque têm participado em diversos shows organizados 
no âmbito da campanha de solidariedade para um Natal com menos fome.
Ï "Natal sem Fome" ¢ é fruto de uma iniciativa lançada no inicio 
do ano pelo sociólogo Herbert de Souza¬ ï Betinho¬ sob o titulo 
"Ação da Cidadania Pela Vida¬ Contra a Miséria e a Fome"¬ a que 
aderiram o governo federal¬ os mais importantes órgãos de 
comunicação¬ empresas e outras entidades representativas da 
sociedade.®
A coordenação da campanha não é centralizada¬ tendo apenas por 
objetivo despertar o espírito de solidariedade de grupo em cada cidadão. 
Apesar disso¬ ela se confunde com a imagem do seu principal 
mentor e impulsionador¬ um ativista cívico que se tem mantido na 
vanguarda do movimento por uma melhoria das condições de vida da 
população.
Antigo membro de uma organização política clandestina durante a 
ditadura militar¬ quando teve de exilar-se¬ Betinho contraiu aids 
numa transfusão de sangue e está também envolvido em campanhas 
contra a propagação da doença¬ na assistência às crianças e 
adolescentes em risco e na valorização da vida no Rio de Janeiro¬ 
sua cidade adotiva.
No auge de uma crise administrativa que levou o Rio á 
bancarrota¬ em 1988¬ Herbert de Souza organizou uma campanha para 
"levantar o moral" ¢ da "Cidade Maravilhosa"¬ através do movimento "Se 
ìiga¬ Rio".
Na sexta-feira¬ participou de uma paralisação de dois minutos em 
protesto contra a violência na cidade¬ promovida por um movimento com 
objetivos análogos ao do que lançou há cinco anos¬ ï "Viva Rio".
O sociólogo dirige o Instituto de Análises Estatísticas e 
Sociais¬ que estima em 32 milhões o número de indigentes no país.
Fontes oficiais calculam que 43 milhões de brasileiros (quase 
um terço da população © vive abaixo da linha de miséria.
Entre as décadas de 70 e 80¬ a desnutrição infantil diminuiu 50 
por cento
No mesmo período¬ o índice de mortalidade infantil devido à 
desnutrição e falta de saneamento básico caiu de 180 para 60 mortes 
por cada grupo de mil crianças com até cinco anos de idade¬ segundo 
dados da Unicef. æ
Ainda assim¬ o Brasil ainda ostenta índices de miséria que 
estão entre os mais elevados do mundo.
Há quem¬ tendo em conta a seriedade e as boas intenções de  Betinho¬
critique a "Ação pela Vida ¢ por considerá-la 
assistencialista.
Para esses críticos¬ a miséria deveria ser combatida através de 
medidas radicais¬ como o controle de natalidade¬ e é necessário que 
as entidades envolvidas no seu combate reivindiquem transformações 
políticas¬ sob o risco de apenas virem tomar o espaço dos segmentos 
mais conservadores da Igreja.®
Os adeptos da iniciativa rebatem as críticas dizendo tratar-
se de uma campanha de emergência para colmatar a ausência de um 
Estado falido e ineficaz no combate ao flagelo social do país.
A divida social brasileira (entendida como investimentos 
necessários para dotar toda a sociedade de condições de vida digna© 
está orçada em 30 bilhões de dólares.
O Brasil desperdiça 50 bilhões de dólares ou 10 por cento 
do que produz por ano por motivos como uso de técnicas gerenciais 
inadequadas¬ erros de projeto ou mau armazenamento¬ segundo 
cálculos do Ministério da Indústria¬ Comércio e Turismo.
Um estudo publicado em Março pelo Instituto de Pesquisa 
Econômica Aplicada¬ do Ministério do Planejamento © 
revelou que mais de um décimo dos produtos disperdiç ‡ ados são
gêneros alimentícios¬ entre os quais 20 milhões de toneladas de 
grãos¬ hortaliças e frutas.
Tendo atingido o auge nesta quadra natalina¬ a "Ação da 
Cidadania Pela Vida¬ Contra a Miséria e a Fome" ¢ gerou um movimento de 
iniciativas as mais diversas¬ de um jornal que recolhe alimentos de 
grandes empresas anunciantes a posto de gasolina que se proclama "a 
postos com a fome" ¢ ou um famoso ator das telas de TV¬ José Wilker¬ 
que se comprometeu a doar uma cesta básica por mês a uma criança 
carente.
"A mensagem é º se quiser mudar este país¬ começa pela sua casa. ® 
Não basta votar em alguém a cruzar os braços. ® Não dá para ser 
esquerda em praça pública e de direita em casa ¢ ­ justificou o ator.
 

[criada em 1993, em 1995 a campanha Natal Sem Fome já saíra de moda]

HOMENS GABIRUS
Homem Gabiru é um - famoso. Torna-se um fenômeno de mídia: chega a ser invejado pela vizinhança por tanta oferta que recebe. Até que cedo acaba. Dá momentaneamente mais uma oportunidade ao piedoso exercício da caridade - mais: da generosidade - mas solidariedade genuína... é como dizia a outra no vidro do carro delux em Sampa

   Não gosto de balas, não sou sua tia nem tenho trocado


1995, agosto COMUNIDADE SOLIDÁRIA: SÓ DISTRIBUI CESTA BÁSICA
programa era para aumentar projetos na área social
objetivo é combate emergencial à fome e à pobreza
assistencialismo do governo enfrenta primeiras denúncias de irregularidades - denúncia paralisa entrega de cestas básicas

VALE DO JEQUITINHONHA VALE DA MISÉRIA miséria absoluta
anualmente distribuição de cestas básicas do WFP Programa Mundial do Alimento
terra das VIÚVAS DA SECA porque maridos trabalham sete meses em São Paulo no corte de cana
CARDÁPIO BRASILEIRO pinga para enganar a fome das crianças
 

Herbert de Souza, Betinho
14 de setembro 1993 Jornal do Brasil
ditadura militar
Instalada no Palácio e no autoritarismo a economia deitou e rolou no atendimento das elites consorciadas, produzindo a mais fantástica concentração de riqueza de nossa história.
Findo o período da ditadura, mas não do autoritarismo instalado na cultura e nas instituições,

O Estado de São Paulo 21 de dezembro de 1995
BETINHO CRITICA PROGRAMA DE AÇÃO SOCIAL DE FH
O coordenador da Campanha da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida disse que às vezes se sente "como um verdadeiro palhaço ao participar das reuniões do Comunidade Solidária vendo aquele povo todo fazer aquelas mesmas coisas".
"Vamos ter a moeda mais forte do mundo juntamente com a maior miséria do mundo. Não podemos ficar tão passivos e tão pacíficos diante de tanta miséria."

NATAL COM MAIS FOME VEJA 27 DE DEZEMBRO DE 1995
A MODA PASSOU E ATÉ MILITANTES DA CAMPANHA CONTRA A FOME JÁ SE CONSIDERAM CARENTES
Natal feliz em 1993
formando comitês em 22 dos 27 Estados
Ibope, dezembro de 1993: 2,8 milhões de brasileiros estavam engajados na campanha
em 1994 a Ação da Cidadania coletou 1,4 toneladas de mantimentos em Pernambuco. Agora não chega à metade.
Em São Paulo praticamente não houve coleta.
uma entidade que distribui comida para 1 500 pessoas no bairro de São Miguel Paulista:
Ela divide um barraco com a mãe, três filhos, dois irmãos e o pai, que é cego. Renda familiar: 100 reais, da pensão do pai.
            - O impulso de solidariedade dos brasileiros teve fôlego curto - constata um sociólogo.
            - Não dá para dar comida o resto da vida. Não é papel do sindicato fazer assistencialismo. O combate à miséria cabe fundamentalmente ao governo - analisa um sindicalista.
            - Os ricos perderam o medo dos pobres e agora não querem nem ouvir falar em miséria - sublinha o deputado Plínio de Arruda Sampaio, que acha que ela se tornou um paliativo para o desemprego e para a concentração de renda.
perda de apoio das empresas estatais, a espinha dorsal do movimento.
Estado se engajou por ordem do então presidente Itamar Franco.
3000 comitês recenseados no final de 1993
1907 formados por funcionários do Banco do Brasil
Uma agência que funcionou no centro de São Paulo dando 120 sopas por dia aos miseráveis que dormem na Avenida São João fechou por falta de doadores e de voluntários para distribuir o sopão na rua.
Betinho culpa os empresários pelo Natal mais magro.

BETINHO   PROPOSTA  Jornal do Brasil 9 de fevereiro 1991
O Brasil deixou de ser conhecido como oitava economia do mundo para ser o quinquagésimo país em desenvolvimento humano.
É preciso dizer que distribuir renda no Brasil é promover o desenvolvimento e não impedi-lo (...). Distribuição de renda é condição de ampliação do mercado interno, do consumo, da produção.

BETINHO O Estado de São Paulo 17 DE JULHO DE 1995
compara o Brasil ao Titanic a caminho do desastre
A merenda escolar que deveria ser responsável por apenas 15 por cento das necessidades nutricionais de uma criança do Primeiro Mundo, hoje é responsável por 100 por cento das necessidades das crianças brasileiras.
Existe recurso suficiente na sociedade brasileira para resolver o problema.

COMUNIDADE SOLIDÁRIA
COMUNIDADE SOLIDÁRIA

O Estado de São Paulo 23 de julho 1995
COMUNIDADE SOLIDÁRIA   CESTAS BÁSICAS
Sem fluxo de caixa para sustentar qualquer ambicioso programa social, o governo tem promovido ações asssistencialistas. Na semana passada deu início à distribuição de cestas básicas a 185 mil famílias no âmbito de um projeto do programa Comunidade Solidária cuja primeira etapa foi orçada em R$ 9 milhões. A cesta é bem menos nutritiva do que a de governos anteriores: 10 quilos de arroz, 15 de fubá e 5 de macarrão resultantes da troca dos estoques in natura do Ministério da Agricultura por produto beneficiado.
Com 1 bilhão de dólares o Rio de Janeiro pode urbanizar e humanizar todas as suas favelas.

ISTOÉ 28 de fevereiro 1996
COMUNIDADE SOLIDÁRIA: CORRUPÇÃO SOBRE RODAS
Vale do Jequitinhonha, no âmbito do Programa Nacional de Transporte Escolar, o governo liberou R$ 11 milhões para a compra de 230 veículos escolares pelas prefeituras da região.
Castigados pela seca há três anos, os 63 municípios do semi-árido mineiro irrigados com verba milionária transformaram-se em terreno fértil para empresas de transporte e concessionárias de veículos.
Algumas pagaram mais por veículos em segunda mão do que gastariam para comprar ônibus novos. Numa delas na primeira semana de aula seis veículos estavam transportando apenas 89 dos 4800 alunos da rede de ensino público local pela incapacidade dos ônibus de trafegar nas péssimas estradas da região.

DESPERDÍCIO É GORDO NO NORDESTE DA FOME   O GLOBO 14 de janeiro 1996
COM 17 285 528 INDIGENTES, de acordo com o Programa Comunidade Solidária
nos nove estados nordestinos o Globo registrou uma perde de 124 toneladas de frutas e hortaliças apenas nas principais centrais de abastecimento da região. A agroindústria do caju abandona no solo anualmente um milhão e meio de toneladas de pedúnculos, a parte fibrosa e rica em vitamina C da fruta. A polpa renderia sucos, doces, rapaduras, carnes vegetais (como a de soja), vinhos, vinagre, picles, molhos picantes e farinha que pode substituir o bromato de sódio na indústria de panificação.
No Ceará quatro mil toneladas de cabeça de lagosta são jogadas ao mar a cada ano. Se as indústrias do estado a aproveitassem deixariam de jogar fora 157 milhões de dólares do alimento. A exportação das caudas das lagostas rendem anualmente 45 milhões de dólares.

NORDESTE - OBRAS: MAIS DINHEIRO PELO RALO
503 obras públicas de hospitais, açudes, escolas e rodovias estão paralisadas na região, segundo o Tribunal de Contas da União.
Segundo o senador Wilson Campos, do PSDB de Pernambuco, o número de obras inacabadas eleva-se a 617 e requerem investimentos de R$ 6 bilhões para serem concluídas.

GASTOS SOCIAIS FAVORECEM MAIS OS RICOS
Folha de São Paulo 3 de março 1996
Os 20 por cento mais pobres ficam com 15 por cento dos gastos sociais e os 20 por cento mais ricos levam 21 por cento.
Banco Mundial - relatório Brazil: a Poverty Assessment
24 milhões de brasileiros, ou 17,4 por cento da população, viviam abaixo da linha da pobreza em 1990.
Para acabar com a miséria não basta colocar mais dinheiro na área social, mas fazê-lo chegar aos pobres, acabar com a ineficiência, o desperdício e a má administração.
Os gastos públicos com educação no Brasil são regressivos - quanto maior a renda do estudante, mais ele leva: os 20 por cento mais pobres ficam com 16 por cento dos gastos e os 20 por cento mais ricos com 24 por cento.
No Chile a faixa mais pobre leva 27 por cento e a mais rica apenas 7 por cento.
O problema da pobreza do Brasil não é apenas de dinheiro.
Os gastos sociais somavam 19 por cento do PIB em 1990, por exemplo, só que segundo o Bird o dinheiro não chega onde deveria e os indicadores sociais do Brasil permanecem entre os piores do mundo.
Aumentar os gastos é fácil, mas desviá-los de rumo é complicado, dizem os especialistas, porque isso significa mexer em privilégios de determinados grupos.
Na década de 1980 o número de pobres aumentou nas áreas metropolitanas mas eles continuam principalmente no campo (52 por cento) e no Nordeste (32 por cento).
No Nordeste 1/4 das crianças é subnutrida nas cidades e 1/3 no campo.
Preço da terra triplicou nos anos 1970 e subiu 40 por cento na de 1980 e a produção agrícola aumentou muito desde então. Mas os salários dos trabalhadores agrícolas subiu 66 por cento nos anos 1970 e permaneceu estagnado na década seguinte.

REAL PERDE PARA CRUZADO EM GASTO SOCIAL Folha de São Paulo  3 de março 1996
NO SEU PRIMEIRO ANO O GOVERNO destinou menos US$ 1 bilhão à educação e a saúde do que foi gasto em 1988 e 1989, os dois últimos anos muito ruins da presidência de José Sarney. Apesar disso, os quase US$ 18 bilhões investidos foram 20 por cento maiores que os destinados às duas áreas em 1993.

DIVIDA SOCIAL BRASILEIRA É DE R$ 80 BILHÕES Folha de São Paulo 8 DE JANEIRO DE 1996
Segundo cálculos de órgãos do próprio governo federal o déficit de moradias é de 6,4 milhões, o que requer investimentos de R$ 50 bilhões.
4,2 milhões de moradias não têm água encanada e outras 8,9 por cento carecem de ligação à rede de esgoto ou fossa séptica. Para eliminar o déficit anual na área de saneamento é necessário um investimento de R$ 25 bilhões em 15 anos.
Segundo o IBGE em 1991 apenas 61 por cento dos domicílios brasileiros contavam com coleta de lixo. Nas cidades o índice é de 80 por cento.
Cerca de 45 por cento do lixo recolhido é jogado a céu aberto, outro tanto aterrado e apenas 5 por cento recebem tratamento em usina.
Nas regiões Norte e Nordeste 90 por cento do lixo é jogado a céu aberto.
Para atender a toda a população urbana são necessários investimentos de R$ 5 bilhões em 15 anos.

LIXO É FONTE DE RENDA A 20 KM DO PLANALTO
Catadores sobrevivem da venda de detritos da população de Brasília e montam casas com madeira e sucata                  Folha de São Paulo 19 de novembro 1991
É o Lixão ou a Boca do Lixo, área de 50 hectares onde mora uma comunidade com cerca de duas mil pessoas.
GARIMPEIROS URBANOS
caminhões de coleta despejam em torno de 440 toneladas de lixo por dia

UM CHOQUE NA DESIGUALDADE VEJA 6 DE MARÇO 1996
O Real trouxe uma renda extra de 7,3 bilhões de reais para a metade mais pobre da população brasileira.
Com combinação de crescimento econômico e estabilização monetária, em 1995 colocou renda extra de 7,3 bilhões de reais nos bolsos dos brasileiros mais pobres, metade da população.
A FATIA DO BOLO
os 50 por cento mais pobres avançam sua participação na renda nacional em 1,2 por cento
os 20 por cento mais ricos perdem 2,3 por cento
em 1990 a fatia dos mais pobres era 6,5 vezes menor que a do segundo grupo;
agora é 5,5 vezes menor
Continua uma diferença escabrosa
O CC (Consumo de Comida) cresceu 10 por cento
Vendas de eletrodomésticos subiram 50 por cento
inflação alta deixou de atuar como aliada tácita dos mais ricos
imunizados contra a desvalorização da moeda por investimentos financeiros
Anos 1970: 50 por cento mais pobres detinham 15 por cento da riqueza nacional
Fim dos 80: TUDO PELO SOCIAL - a fatia encolhe para 12 por cento
Começo dos anos 90, entre o Plano Collor I e Plano Collor II e o impeachment de Collor a renda per capita caiu 2,3 por cento ao ano e até os 20 por cento mais ricos empobreceram.

Brasileiro
passa fome
sem razão
Jornal do Brasil 22 de julho 1993
a fome não se explica pela falta de alimentos e o Tribunal de Contas da União baseado numa auditoria feita aos Programas de Suplementação Alimentar do governo envolvendo a Fundação de Assistência ao Estudante (FAE), o Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (Inan), a Legião Brasileira de Assistência (LBA) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) constatou EM CADA PROGRAMA IRREGULARIDADES E FALHAS GRAVES
uma média de 59 milhões de toneladas de grãos (arroz, feijão, trigo, milho, soja) e a disponibilidade interna desses produtos e dos demais produtos tradicionalmente consumidos no país é superior às necessidades diárias de calorias e proteínas da população.
Dispõe-se de 3 280 calorias e 87 gramas de proteínas per capita/dia para uma necessidade de 2 242 calorias e 53 gramas de proteínas - demonstrou Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) feita pelo IBGE em 1990 e em que se baseou o Ipea para realizar o Mapa da Fome.
"O PROBLEMA ALIMENTAR É UMA QUESTÃO DE RENDA PARA COMPRAR OS GÊNEROS"
[Pensava-se ainda então que eram 32 milhões os indigentes mas seriam 16 milhões - meia Argentina e duas Somálias]

TESE DEMONSTRA MISÉRIA DE CANAVIEIROS     Jornal do Brasil 13 de maio 1991
Cortadores matam fome com farinha e bebem água poluída.
O trator e o burro sem rabo - consequências da modernização agrícola sobre a mão-de-obra no Brasil
Expedito Rufino de Araújo, do
Instituto Universitário de Estudos de Desenvolvimento de Genebra:
governo dá ampla assistência a usineiros mas esquece-se de legião de cortadores de cana de cinco dos nove estados nordestinos
ausência total na
prestação de assistência médica
educação básica
fiscalização dos direitos dos trabalhadores
aferição de medidas
inspeção de condições de trabalho
proteção da integridade física dos camponeses contra agressões de prepostos dos patrões: existem milícias privadas armadas em boa parte dos 9 mil engenhos
nem sequer se preocupam em informá-los sobre aqueles itens ou proteção contra aplicação de herbicidas e agrotóxicos
63 por cento sofreram acidentes de trabalho
            - A gente chega a fazer duas toneladas por dia. Os três meninos cortam 500 quilos, amarram cem feixes, e se fosse só eu só conseguia cortar 1 500.
            - A gente só não morre de fome porque por aqui por perto tem jaqueira, manga e banana.

Jornal do Brasil 11 de abril 1993
ÁFRICA ESPERA SUA VEZ
UMA FAVELA DE NATAL
Os moradores da África quase não têm o que comer e dormem em casas de papelão com 17 metros quadrados: 990 famílias de moradores.
Merenda escolar é distribuída diariamente a 30 milhões de crianças.

O GLOBO 11 de outubro 1993
Bird diz que 41 por cento dos brasileiros vivem na miséria
vivem abaixo da linha de pobreza: ganham dois dólares por dia
18,7 por cento deles vivem na miséria absoluta ou "pobreza extrema"

O Estado de São Paulo 17 de julho de 1994
NOVA GEOGRAFIA DA FOME ENTRE BRASILEIROS
a expectativa de vida de um nordestino é em média 17 anos menor que a de um brasileiro do Sul
Brasil, o primeiro produtor mundial de laranja, cana-de-açúcar e café
o segundo de cacau, soja e mandioca
o terceiro de milho
o quarto de carne, aves e de ovos
o sétimo de cereais
o oitavo de leite
casta de deserdados
400 mil crianças de zero a cinco anos morrem todos os anos de desnutrição no Brasil, o equivalente ao impacto da Bomba A lançada em 1945 em Hiroshima.
20 por cento mais ricos consomem 32 vezes mais que os 20 por cento mais pobres.
a segunda pior distribuição de renda do mundo; pior, só Botsuana
63º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU
desnutridos de segundo grau (gravidade média) são 10 por cento do total e concentram-se sobretudo nos cinturões de favelas das grandes cidades.
40 por cento dos brasileiros podem apresentar sinais associados às características clínicas que sugerem subnutrição de primeiro grau: baixa estatura, avitaminose, etc.
Uma fração cada vez maior destes está fora do sistema de produção. Vivem de expedientes e das sobras do sistema.
grandes metrópoles concentravam em 1991 29 por cento da população brasileira
Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio - PND: 1990
pobres: 42 milhões
indigentes 16,6 milhões
pobres eram 29 por cento da população residente nas áreas metropolitanas.
a estabilidade da pobreza do ponto de vista da renda ao longo da década de 1980 só foi possível devido à contribuição positiva da evolução demográfica, marcada por forte queda da fecundidade e mudanças compensatórias no mercado de trabalho, nomeadamente pela informalidade, que degradaram ainda mais as condições de vida das pessoas.
O ufanismo tolo que apregoava sermos a sétima economia do mundo.
O ridículo Brasil Grande dá lugar ao igualmente ridículo Brasil Desespero.
os problemas de combate à pobreza reduzem-se a um problema de caridade pública
atenderam prontamente aos apelos de Betinho e da Igreja, o que lhes garante indulgência plena e, talvez, acesso tranquilo ao paraíso.

MISÉRIA CRIA DIETA DE SOBREVIVÊNCIA    O GLOBO 22 DE DEZEMBRO DE 1992
Baixada Fluminense, Rio de Janeiro
acuada pela fome, uma parcela da população está criando alternativas de alimentação
pratos de pelanca, pescoço, pé e vísceras de galinha
usam valas negras e brejos e rios poluídos para a pesca de rãs e muçum
no mato caçam lagartos que chegam a ter três quilos
:
Corta-se a cabeça, mãos e pés.
Tira-se o couro e espeta-se com um palito de fósforo. Se ele tremer é sinal de que está boa, não foi picada por cobra nem está doente. Depois é só temperar como galinha e fritar.
em janeiro há mais fartura na mesa porque é a época do preá, um mamífero roedor a que os meninos chamam "um rato sem rabo".
Diz que a carne lembra a de porco.
muçum, peixe com o dorso marrom ou preto
lagarto de papo amarelo e listras pretas, o preá é criado em gaiolas até atingir três quilos e medir meio metro:
Depois de tirar o couro, é só temperar e fazer o bicho ensopado ou frito. A carne é que a de galinha. Com uma farofa então, fica ótimo.
Menino de um ano e meio. A barriga inchada e as pernas finas chamam atenção.

O Estado de São Paulo s/d POBREZA RURAL ATINGE 1 BILHÃO DE PESSOAS
Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida):
Bolívia é o país com mais alta porcentagem de pobreza no campo: 97 por cento da sua população rural vive abaixo da linha de pobreza.
Malawi: 90 por cento.
Bangla Desh: 86 por cento.
Zâmbia: 80 por cento.
Peru: 75 por cento.
Brasil em sexto lugar: 73 por cento.

O Estado de São Paulo 3 de agosto1993
"Somália Brasileira" terá plano em um mês
Sorocaba, no sudoeste do Estado de São Paulo: 76 por cento da população rural vive na miséria e os índices de mortalidade infantil são os maiores do país.
18 municípios
a maioria da população é constituída de bóias-frias, já que 90 por cento da produção agrícola está nas mãos de grandes proprietários de terra.

O GLOBO 16 DE AGOSTO DE 1993
DOENÇA DA FOME ATACA SERTANEJOS
Bezerros, a 130 km de Recife (PE) -
a pelagra, uma doença de rara frequência, que atinge apenas pessoas com alto grau de desnutrição.
a maior arte não lembra o último dia que comeu farinha e feijão.
de 18 filhos de um, 10 morreram de fome durante as secas dos últimos anos
            - A gente só passa com fubá. Assim mesmo quando Deus quer.
PREFEITURA RECOMENDA COMER CAPIM
Diante da completa falta de alimentos (...) os 150 lavradores com pelagra de Bezerros têm sido orientados pela Prefeitura para comerem capim angola, uma gramínea normalmente usada como ração de gado. O Suco do capim, misturado com açúcar, já chegou até a rede oficial, onde as crianças dos cinco sítios atingidos pela doença estão tomando o líquido.
            - Eu até que queria tomar, pois soube que o gosto do suco parece com o de caldo de cana, mas não tenho liquidificador para bater o capim.
            - Eu me lembro que na seca de 1943 muita gente teve essa doença no sítio Jurema, onde eu morava. Meu irmão se curava com banha de teju. Minha mãe matava o teju, uma espécie de lagarto, arrancava-lhe o couro, fervia a gordura e a guardava numa lata.
Pelagra causa diarréia, dermatite e demência
            - Na realidade o que está acontecendo no interior é uma epidemia de fome.
[endemia]

fome
caderno especial Folha de São Paulo 19 de dezembro de 1993
Brasil desperdiça US$ 5,4 bilhões em alimentos
valor corresponde a 1,3 por cento do PIB e é suficiente para alimentar os 9,2 milhões de famílias indigentes com uma cesta básica mensal de 36 quilos
por dois anos.
Estudo da Coordenadoria de Abastecimento da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo considera apenas perdas agrícolas decorrentes de deficiências nos processos de colheita, transporte e armazenamento de grãos, hortaliças e frutas.
            - Se fosse possível calcular as perdas na agroindústria, supermercados, restaurantes comerciais e industriais e o desperdício doméstico o valor seria bem maior.
Baseada no estudo do Ipea estima-se então em 30 milhões o número de indigentes no país.
Alimentam-se de arroz com mandioca no norte de Minas, cacto e farinha de milho no sertão nordestino, garimpam lixões nas periferias das grandes cidades e recorrem até ao turu, molusco extraído de troncos molhados à beira do Tocantins no Pará.
Em Ouricuri há os "loucos de fome", pessoas com desequilíbrio mental que os médicos associam à subnutrição.
            - Ele fala besteira, conversa sozinho e fica revoltado de repente.
A 20 km do centro de São Paulo 2 000 indigentes frequentam diariamente o "sopão" do Ceagesp.
MOLUSCO AJUDA RIBEIRINHOS A ENGANAR A FOME NO PARÁ
turu, molusco que vive nos troncos de árvores molhadas pela maré do rio Tocantins.
Molusco gelatinoso ajuda a matar a fome de 5 000 habitantes das ilhas de Abaetetuba.
Sete em cada dez crianças da região são subnutridas.
Os peixes do rio são cada vez mais pequenos.
Aumento dos cortadores de turu é consequência da escassez de peixes nas praias do rio.
A devastação dos açaizais por empresas produtoras de palmito também ajudou. O açaí é um alimento importante para a população de baixa renda do Pará.
Um restaurante da cidade serve caldeirada de turu.
Nas ilhas, o molusco é comido vivo.
            - É proteína pura. O turu só faz mal porque muita gente come cru, com areia e sem lavar.
OURICURI: HOSPITAL REGIONAL ATENDE SEIS CASOS POR SEMANA DE "LOUCOS DE FOME"
Palma, planta usada pelos fazendeiros como ração de gado.
Ela serve o cacto cozido, cortado em pequenos cubos e misturado com arroz ou farinha de milho.
MÁ ALIMENTAÇÃO CAUSA ATRASO NO CRESCIMENTO
61,7 por cento da população carente de Manaus está na faixa de pobreza absoluta.
A má alimentação gera atraso no crescimento de 16,7 por cento das crianças amazonenses e 34 por cento delas sofrem de desnutrição.
60 toneladas de peixe são perdidas diariamente devido às péssimas condições de armazenamento no porto de Manaus.
no período de safra em Manaus a oferta diária de peixe é de 300 toneladas, o que representa o dobro da demanda. A inexistência de um sistema de armazenamento adequado faz com que 60 toneladas de peixe apodreçam diariamente.
"DESNUTRIÇÃO DIMINUI COM EDUCAÇÃO", DIZ ANA PELIANO, ECONOMISTA DO IPEA
Metodologia aplicada no estudo da desnutrição é baseada na da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) que caracteriza a indigência como a situação em que o cidadão gasta todo seu dinheiro e consegue, na melhor das hipóteses, pagar só a alimentação.
MAPA DA FOME: SUBSÍDIO À FORMULAÇÃO DE UMA POLÍTICA DE SEGURANÇA ALIMENTAR, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)
INDIGENTES GARIMPAM LIXÕES
em João Pessoa, Paraíba, chama-se Lixão do Róger.
Em meio a urubus, garças, fumaça e forte mau cheiro, centenas de crianças, jovens e velhos disputam pedaços de lixo reciclável para vender no aterro metropolitano do Grande Rio, no Jardim Gramacho, Duque de Caxias, numa área de 1,2 milhão de metros quadrados onde são despejadas 100 toneladas [?] de lixo por mês.
PESCA
O consumo de pescado no Brasil é de 6,5 quilos per capita/ano, metade do mínimo recomendado pela FAO.
O bacalhau importado é o peixe mais consumido pelos brasileiros [mas nem todo e nem de longe é bacalhau mas o tal de "bacalhau saith" e por aí].
A falta de hábito faz com que a maioria dos brasileiros só coma peixe na Semana Santa.

DESNUTRIÇÃO AUMENTOU                 Jornal do Brasil 27 de outubro 1992
programas governamentais de alimentação e nutrição de crianças e adolescentes carentes praticamente desapareceram no governo Collor.
1992: redução de 64 por cento nos recursos destinados a esses programas em relação a 1990.
1989: US$ 1 bilhão gasto em programas nutricionais, enquanto em 1991 foram empregados apenas US$ 364 milhões, ou 42 por cento dos recursos previstos no orçamento para esse fim.
A redução drástica dos recursos para esses programas demonstra o descaso cada vez maior com a assistência à população carente. O Programa Nacional de Alimentação Escolar visa a distribuição de uma refeição durante 200 dias do ano para 29 milhões de crianças de 7 a 14 anos matriculadas nas escolas públicas e filantrópicas. Para garantir esse atendimento seriam necessárias 460 mil toneladas de alimento. Mas de acordo com o Ipea em 1990 e 1991 com os recursos destinados à Fundação de Assistência ao Estudante (FAE) foi possível adquirir somente 135 mil toneladas ao ano.
Programa de Apoio Nutricional e Distribuição de Leite, voltado para o atendimento de gestantes, crianças de 6 a 36 meses e crianças desnutridas: em 1990 foi atendido 1 milhão de beneficiários, o que correspondia a uma redução de 45 por cento em relação a 1988.
Desnutrição de cinco milhões de crianças, das quais 50 por cento no Nordeste.

CARNE DE RATO É ALIMENTO EM TIMBAÍBA, PERNAMBUCO O GLOBO 17 de outubro-1994
campanha RATO NO SACO, FILÉ NO PRATO, lançada para combater a infestação da cidade por ratos, acabou por revelar meio alternativo e repugnante de se matar a fome: churrasco de rato. Centenas de moradores empreenderam verdadeiras caçadas para trocar verdadeiras caçadas para trocar um quilo de ratos - vivos ou mortos - por igual quantidade de carne de vaca de primeira. Na periferia da cidade, a 117 km de Recife, o jornal constatou que por absoluta falta de informação os animais eram capturados no lixo e nos esgotos e devorados inteiros por famílias famintas.
Para essa gente, que nem tomou conhecimento da campanha porque não tem rádio ou TV rato é alimento comum, muitas vezes o único. E sem sal, porque não há dinheiro para comprá-lo. Um casal que vive da venda de papel e plástico recolhidos no lixão há dez anos não come carne de vaca.
            - Depois de queimar os pelos a gente raspa tudo com a faca e bota no braseiro de novo. Quando ele começa a ficar durinho a gente tira do fogo, abre a barriga e retira o fato (as tripas). Depois bota na brasa de novo e deixa tostar para comer assim mesmo, insosso. Se tivesse sal ficava mais gostoso. Que gosto tem? De rato mesmo! Ninguém aqui conhece outro bicho que tenha gosto. Acho que rato é melhor que carne de boi porque faz uma porrada de tempo que não como outra carne. Não me lembro nem do gosto.
Iam passar sábado a água e rato com quatro filhos, dos oito meses aos seis anos.
Timbaúba fica na região canavieira de Pernambuco. Na entressafra da cana a Prefeitura distribui cestas básicas de alimentos para os trabalhadores rurais não morrerem de fome. Apenas 25 por cento da área urbana tem saneamento básico, donde até achar rato em esgoto fica mais difícil.

Folha de São Paulo 4 de outubro de 1994
PROGRAMA DE GOVERNO DE FHC PROMETE ABONO DE R$40
pelo programa de renda mínima, sete milhões de famílias carentes passarão a receber R$ 40 por mês
Programa Comunidade Solidária, principal ferramenta social do futuro governo, deverá ter orçamento de R$ 4 bilhões/ano.

O GLOBO S/D 1994
MISÉRIA DESAFIA FUTURO PRESIDENTE
em Teotônio Vilela, a 110 quilômetros de Maceió, uma das mais altas taxas de mortalidade infantil do mundo: 375 em 1 000 bebês antes de completar um ano. Níger, com a mais alta taxa da África, registra 191 óbitos por 1 000 partos.

VALE DO JEQUITINHONHA: CRIANÇAS AJUDAM CARVOEIROS EM MINAS
Crianças maiores de 12 anos à beira da estrada BR 365, que liga o Triângulo Mineiro ao sul da Bahia, e com adultos carregam caminhões de carvão vegetal produzido ao longo da estrada. Os "chapas", como SÃO CHAMADOS OS CARREGADORES, PASSAM O DIA EM JEJUM. ALGUNS LEVAM UM PIRÃO PARA A ESTRADA, quando sobra do jantar.
Grão Mogol já foi o berço mais fértil do bócio, uma hipertrofia da glândula tireóide, provocada pela falta de iodo no organismo, que incha a garganta formando enormes papos. Hoje os cidadãos do lugar não têm mais bócio, mas vivem ameaçados pela doença de chagas e pela leishmaniose, transmitidos pelo barbeiro e o calazar, que segundo alguns matam mais que a fome.
O marido trabalha na roça, plantando milho e feijão, e a cada 15 dias traz um saco de comida.
            - Nos últimos dias alguns comem e outros não. Quem come ontem não come hoje. No finalzinho mesmo, aí ninguém come nada.
COBRA VENENOSA VIRA REFEIÇÃO EM BRASÍLIA
A falta de comida levou trabalhadores sem terra acampados no DF a transformarem duas cobras venenosas em pratos principais de suas refeições nos arredores de Brasilândia, cidade satélite de Brasília. Duas jararacus de papo amarelo com mais de 1,80 metro de comprimento cada uma foram fritadas em postas. O veneno não os assusta:
            - É só cortar dois palmos abaixo da cabeça e dois palmos acima do rabo que não tem problema.
As cobras tinham gosto de peixe e uma textura entre o peixe e o frango.
            - Corri para a minha barraca e lavei a boca com pinga.

SEM CHORO NEM ESCÂNDALO VEJA 3 DE AGOSTO, 1994
a mortalidade infantil está subindo.
Pastoral da Criança da CNBB:
primeiro trimestre 1993: 53 por mil
1994: 74 por mil
A região atravessou uma das piores secas do século. As chuvas do início do ano pegaram as crianças desnutridas, com pouca resistência no organismo.
Teotônio Vilela, em Alagoas, não tem rede de esgoto, e só há um ano foi instalada rede de abastecimento de água. Maioria da população ganha a vida como bóia-fria nos canaviais. Mas hoje metade das 6 000 residências da cidade não têm fornecimento por falta de pagamento.
desnutrição e água contaminada: infecções respiratórias e do aparelho digestivo.

MUITAS VEZES ATÉ EXISTE DINHEIRO PARA A SAÚDE. MAS O GOVERNO PREFERE ATRASAR O REPASSE APLICANDO O DINHEIRO NA CIRANDA FINANCEIRA. CONSIDERANDO A ALTURA DAS TAXAS DE JURO ATÉ QUE PODERIA SER UM BOM NEGÓCIO. NÃO É. NOS PRIMEIROS CINCO MESES DO ANO O LUCRO COM APLICAÇÕES FINANCEIRAS DO DINHEIRO DO MINISTÉRIO DA SAÚDE FOI DE 200 MILHÕES DE DÓLARES MENSAIS, SEGUNDO LEVANTAMENTO DO BANCO CENTRAL. SÓ QUE EXISTE UMA MEDIDA PROVISÓRIA ASSINADA POR ITAMAR FRANCO A PEDIDO DE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO QUE DETERMINA QUE A RECEITA FINANCEIRA DO GOVERNO NÃO PODE SER DESTINADA ÀS CRIANÇAS NEM AOS HOSPITAIS NEM À COMPRA DE REMÉDIOS. SUA ÚNICA FINALIDADE É HONRAR OS COMPROMISSOS COM A DÍVIDA INTERNA, AQUELE DINHEIRO VOLUMOSO QUE O GOVERNO ROLA DE TEMPOS A TEMPOS E CUJO LUCRO VAI PARAR NA CONTA DOS CIDADÃOS E EMPRESAS COM RECURSOS PARA UMA APLICAÇÃO FINANCEIRA, DESDE GORDOS CDBs A UMA SIMPLES CADERNETA DE POUPANÇA. DE ACORDO COM A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE EM 1989 GASTAVAM-SE NO PAÍS 82 MILHÕES DE DÓLARES POR HABITANTE E NO ANO PASSADO GASTARAM-SE 34 DÓLARES.
Em alguns lugares, enquanto as crianças batizadas têm direito a sepultamento cristão, as que não passaram pelo rito da Igreja são enterradas em cemitérios clandestinos.
cemitério de anjinhos.

o exagero da fome VEJA 13 DE JULHO DE 1994
um estudo mostra que são falsas as estatísticas que apontam 32 milhões de brasileiros famintos.
Betinho: Este é o país onde as estatísticas sociais são terrivelmente precárias, ao contrário das econômicas e financeiras.
Escorando-se exclusivamente no critério "da renda monetária como base para o estabelecimento da linha de pobreza", os cálculos ignoram, por exemplo, que em ambiente rural até 50 por cento do sustento da família não depende de dinheiro.
Betinho: Há três anos fui um dos primeiros a contar os meninos de rua no Rio de Janeiro e mostrar que não eram milhares e sim, na ocasião, 629.

O MAPA DA VERGONHA  ERIC NEPOMUCENO   Jornal do Brasil 19 de setembro 1993
Vivem hoje na América Latina cerca de 185 milhões de miseráveis.
Parcela de latino-americanos na pobreza absoluta: 42 por cento.
Mas 75 por cento dos brasileiros ganham menos de US$ 130 por mês.
julho de 1993, Jornal do Brasil: comida que país joga no lixo daria para impedir que 200 mil crianças morressem de subnutrição até o fim do ano: US$ 4 bilhões/ano. Comida em quantidade suficiente para alimentar seus indigentes.
Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp): joga-se fora uma tonelada de comida/dia.
Dono de uma churrascaria do Rio de Janeiro diz que a cada dia cem quilos de carne de primeira vão parar no lixo.
Mil crianças morrem por dia sob o céu brasileiro de doenças derivadas da fome e da subnutrição.

CARVOEIROS TRABALHAM POR ARROZ E FARINHA folha de são paulo 31 de julho 1994
norte e noroeste de Minas Gerais: homens de crianças de 10 anos para cima trabalham nas carvoarias para pagar arroz e farinha consumidas em armazéns.
Um dia de trabalho não dura menos de 18 horas
Um regime muito parecido com o da escravidão.
Carvoarias utilizam o mecanismo de endividamento para prender os trabalhadores
as áreas de reflorestamento ocupam uma área de 2 milhões de hectares ou 2 milhões de campos de futebol.
Cerca de 70 por cento do carvão vegetal do país é produzido na região.
Logo na entrada do armazém uma irregularidade: a balança que pesa arroz e farinha, vazia, marca 250 gramas.

MIGRANTE VIAJA DE GRAÇA DO SONHO À DECEPÇÃO jornal do brasil 12 DE FEVEREIRO DE 1995
prefeituras do Nordeste chegam a destinar quase R$ 1 mil de seus desnutridos orçamentos para mandar pessoas a São Paulo
governo de São Paulo reserva R$ 130 mil para devolver migrantes nordestinos

NÚMERO DE MISERÁVEIS CRESCE 42 POR CENTO EM SP FOLHA DE SÃO PAULO 20 DE ABRIL 1995
Anos 1990-1994: número dos que vivem em miséria absoluta cresceu cinco vezes mais que a população.
1990: 450 mil famílias; hoje são 640 mil ou 2,3 milhões de indivíduos que não ganham o suficiente para comprar uma cesta básica de R$ 49,87.

COMIDA CHEGA SOB ESCOLTA PARA MATAR FOME NO VALE DO JEQUITINHONHA
12 de fevereiro de 1995
32 quilos de comida doados pelo Programa de Distribuição de Alimentos (Prodea), o PAM brasileiro
518 mil pessoas vivem em situação de miséria no vale
secas atingem 1 milhão
            - Pode acontecer no Vale problema semelhante ao de Teotônio Vilela (Alagoas). Em outubro, só com a distribuição de alimentos reduzimos a mortalidade infantil de 46 em 70 nascidos por mês para um caso. Depois que acabaram os alimentos o número de casos já subiu para 17 em dezembro - informou o diretor da Companhia Nacional de Abastecimento.

(O ÚLTIMO PAU-DE-ARARA) VEJA 10 DE FEVEREIRO, 1993
35 RETIRANTES DESCOBERTOS debaixo da lona de um caminhão ao entrar no Rio de Janeiro, exaustos e famintos, depois de dois dias de viagem de Sobradinho, na Bahia, para São Paulo num percurso total de 2 500 quilômetros em que só se alimentaram de farofa e água, dormindo sentados por falta de espaço e sem poder levantar o encerado sobre suas cabeças. Chico Pinga, que nunca vira o mar, levantou quando o caminhão passava sobre a Ponte Rio-Niterói e foi flagrado por um policial militar.

MISÉRIA, COMO E QUEM VAI PAGAR A DÍVIDA SOCIAL? folha de são paulo 26 DE JUNHO DE 1994
única proposta de programa para debelar a crise social dos presidenciáveis, a de Lula, amparada em expectativas irreais de investimentos e recursos.
economia cresceu 4,9 por cento em 1993
indústria: 11 por cento
emprego: 0 por cento
para absorver os 10 milhões de desempregados (...) o país precisaria crescer como um tigre asiático por quatro anos enquanto distribui renda com a generosidade de um paraíso nórdico.
[por outro lado teria de reciclar e capacitar mão-de-obra em função do baixo nível de formação da grande maioria da população]
"Da condição de pobre à de não-pobre - modelos rurais e urbanos de combate à pobreza" - Roberto Cavalcanti de Albuquerque, do Instituto Nacional de Altos Estudos:
década de 1970: PIB cresceu 81 por cento
o número de pobres caiu de 45 milhões ou 47 por cento da população para
30 milhões ou 25 por cento da população
década de 1980: PIB per capita caiu 4 por cento e o número de pobres subiu para
39 milhões ou 27 por cento da população
Nordeste: nos últimos 20 anos foram investidos US$ 4 bilhões em programas ANTIPOBREZA
as emigrações não cessaram e nos anos 1980 o número de pobres cresceu de 11 milhões ou 66 por cento da população para 12,6 milhões ou 69 por cento da população.
            - A PERSISTÊNCIA DA POBREZA RURAL DO NORDESTE NÃO SE EXPLICA APENAS PELAS DIFICULDADES IMPOSTAS PELA NATUREZA (A SECA) NEM POR RAZÕES ECONÔMICAS E POLÍTICAS. ENCONTRA-SE MAIS NAS CONCEPÇÕES DO MUNDO DO HOMEM: FORMAS DE PERCEPÇÃO E COMPREENSÃO MÍTICAS, TRADICIONAIS E MODERNAS, EM CONFUSO AMÁLGAMA, GERANDO EM MUITOS CASOS IMOBILISMO NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS E PASSIVIDADE ANTE OS DESAFIOS DA NATUREZA.
...
METADE DE MANAUS VIVE EM FAVELAS E CORTIÇOS FLUVIAIS
Processo de favelização atingiu metade da população nos últimos vinte anos: 600 mil pessoas, a maioria vindas do interior do estado, se concentraram junto a igarapés (córregos) e ao rio Negro e outras 200 mil em favelas na periferia.
o surto migratório iniciou-se em 1975 com a instalação da Zona Franca de Manaus.
as águas dos igarapés estão altamente poluídas pelos esgotos domésticos
VIOLÊNCIA MATA MAIS ENTRE OS JOVENS
pesquisa do Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (CBIA), ligado ao Ministério do Bem-Estar Social
constata aumento de mortes violentas entre crianças e jovens:
em 1992: 3 213
seis primeiros meses de 1993: 2 538
Violência gerada por grupos de extermínio, polícia, família e guerra de gangues, nas quais jovens são manipulados pelo chamado crime organizado.O Ministério da Educação afirma que apenas um quarto das crianças se formam no primeiro grau.
Bangla Desh, Peru e Paraguai ultrapassam o país também nesse índice.
VIOLÊNCIA E CAOS MARCAM METRÓPOLES
Seus migrantes não vieram principalmente por uma oferta positiva de vagas no mercado de trabalho mas por uma pressão negativa, expulsos pela pobreza de suas regiões.
Da média de 7 300 a 7 500 homicídios registrados anualmente pela Polícia Civil no Estado de São Paulo dois terços ocorrem na capital.
um processo inédito de fortificação.
Residências foram transformadas em bunkers, ruas gosam fechadas ao trânsito e verdadeiras milícias foram contratadas para dar segurança aos mais abastados.
No Brasil os militares rejeitam o uso das Forças Armadas no combate ao narcotráfico, tese defendida pelo governo norte-americano.
FLORIANÓPOLIS TEM MAIS MISÉRIA QUE RIO E SÃO PAULO
capital de um dos Estados com melhor distribuição de renda do país: cerca de 30 mil pessoas (11,9 por cento da população) vivem em situação de miséria, de acordo com o Ipea, que registra índices de pobreza de 6,3 por cento em São Paulo e 10,2 por cento no Rio de Janeiro.
46 favelas espalhadas pela cidade
CIDADE TEM QUASE 100% DE INDIGÊNCIA
REMÍGIO, 132 KM A NORDESTE DE JOÃO PESSOA (PARAÍBA): 91,4 por cento da população são indigentes
Centro de Referência de Saúde do Trabalhador da UFPB aponta condições desumanas de trabalho nos canaviais do Estado, com jornada de trabalho de até 14 horas e morando em galpões que parecem "alojamentos de escravos", com 60 metros de comprimento e que abrigam entre cem a 120 pessoas.

GUERRA DE NÚMEROS
21% DOS BRASILEIROS SÃO INDIGENTES, DIZ IBGE O Estado de São Paulo 7 de junho 1994
NORDESTE TEM METADE DOS INDIGENTES Jornal do Brasil  7 de junho 1994
21 por cento dos brasileiros ou 9 milhões de famílias
48,67 por cento dos nordestinos
Bahia: 25 por cento dos indigentes nordestinos
Sudeste: 2,6 milhões de famílias ou 29 por cento do total
ganham no máximo apenas o suficiente para comprar no máximo uma cesta básica
Números do Sul surpreendem: abriga 14 por cento dos indigentes do país, a maioria deles vivendo no Paraná e no Rio Grande do Sul.
            - Divisão da terra e modernização dos processos de produção agrícola têm contribuído para expulsar a população do campo.
Rio de Janeiro: 661 favelas; 394 na capital - 16 por cento da população vive lá
São Paulo: 1 257 favelas; 594 na capital - 6,8 por cento da população vive lá
Recife: 48,8 por cento da população vive em favelas
Salvador, entre as capitais, tem o menor índice de favelados (!!!): 4 por cento (!!!)

BURACO NO CHÃO VIRA UMA CASA NO INTERIOR ALAGOANO O GLOBO 17 DE MAIO DE 1992
Lagoa Comprida, perto de Arapiraca, a 145 km de Maceió, um rapaz de 16 anos - o menino-tatu - decidiu morar num buraco com sala, quarto, cozinha e um corredor com quatro entradas

O Estado de São Paulo 16 de janeiro 1994
Num carro de luxo uma senhora circulava com um adesivo dizendo "não gosto de balas, não sou sua tia nem tenho trocado".

Jornal do Brasil s/d PROFESSOR VÊ RISCO DE FOME ABSOLUTA DENTRO DE 20 ANOS
um país de subnutridos, apesar de ser o terceiro maior exportador de alimentos do mundo,
a não ser que sejam tomadas medidas urgentes de aproveitamento dos recursos naturais
a população está crescendo mais do que a oferta de alimentos e no início do próximo milênio o país enfrentará problemas mais graves, não de carência, mas em muitos casos de absoluta falta de alimentos.
Andreoli, Cléverson, da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Paraná
Terceiro Mundo, onde estão 95 por cento dos subnutridos do planeta
não porque faltem alimento mas porque os pobres não têm acesso a eles
1 bilhão consomem alimentos em excesso, num nível que atinge o desperdício
1 bilhão consegue alimentar-se de modo a satisfazer as necessidades básicas do organismo
3 bilhões não conseguem a alimentação mínima para viver

O GLOBO 15 de março 1991
atender aos "descamisados e pés descalços", mote permanente dos discursos de campanha do Presidente

Jornal do Brasil 25 DE JUNHO DE 1995
COMBATE À MISÉRIA COMEÇA A SAIR DO PAPEL
Acabou a "masturbação sociológica" (avaliação do ministro das Comunicações Sérgio Motta do Programa Comunidade Solidária dirigido pela primeira-dama Ruth Cardoso)
Araripe, no Ceará, capital nacional da miséria, onde 73,5 por cento das famílias são indigentes
São Paulo, capital: 204 mil famílias passando fome
Região Nordeste: a Somália brasileira
Comunidade Solidária vai investir R$ 562 milhões em 156 municípios brasileiros onde os níveis de miséria se assemelham aos dos padrões africanos. com ações de combate à desnutrição infantil, alimentação escolar, geração de empregos, execução de serviços urbanos e assentamento rural. Educação: R$ 200 milhões em merenda escolar para 5,5 milhões de estudantes do 1º grau.

NÚMERO DE MISERÁVEIS CRESCEU 42,2% EM SP O Estado de São Paulo 20 DE ABRIL DE 1995
Miseráveis: habitantes que apresentam carência simultânea de habitação, educação, emprego e renda.
Cresceu 42,2 por cento nos últimos quatro anos enquanto a população da região metropolitana aumentou 8 por cento.
1990: 450 000 famílias miseráveis
1994: 640 000 ou 2,3 milhões de pessoas
Grande São Paulo: 4,4 milhões de famílias ou 16,2 milhões de pessoas

Folha de São Paulo 5 de MAIO 1991
LIBÉRATION: capitalismo brasileiro enfrenta crise
O fantasma da convulsão social, anunciado periodicamente por inumeráveis profetas
uma recessão sem precedentes com queda de 4,6 por cento do PIB em 1990
margem de lucro média das empresas brasileiras é das mais elevadas: 52 por cento em relação aos custos de produção
Alemanha: 27 por cento
Brasil - Massa salarial: 17 por cento do PIB
Índia - Massa salarial: 50 por cento

XEPEIROS: A VIDA DE QUEM TIRA O ALMOÇO DAS LATAS DE LIXO O GLOBO 23 de junho 1991
dois mil xepeiros todos os dias vasculham o lixo do Rio de Janeiro
em busca de comida que quase sempre está estragada
vindos do interior do estado ou do Nordeste
arriscando contrair uma série de doenças, como micoses, infecções intestinais, botulismo e leptospirose
prefere recolher legumes, verduras e pão, com os quais faz uma sopa.
            - Tiro a parte de fora dos restos, que fica mais seja. Depois lavo tudo no canal do Jardim de Alá e ponho para ferver. A batata uso com casca e tudo.

Jornal do Brasil 24 de junho 1990
O CONTINENTE PERDIDO
RELATÓRIO SOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO IDH ONU
Brasil: 80º lugar
Em 1985, 30 por cento do PIB brasileiro foram destinados a melhorar a qualidade de vida da população. A Suécia, segundo melhor índice de bem-estar do mundo, gasta 40 por cento. A diferença é que um gasta mal e outro bem.
Estratégia de desperdício é aplicada a todos os setores.
Saúde: investe 78 por cento em medicina curativa
Educação, segundo o economista Carlos Lessa, só 52 por cento dos recursos chegam à sala de aula.
Economista paquistanês Mabul Ul Haq, diretor do Programa de Desenvolvimento da ONU:
O Brasil dá subsídios à Universidade 18 vezes superiores aos que destina à educação primária e no ensino superior o número de pessoas economicamente pobres é de apenas 1 por cento.
EM MEADOS DA DÉCADA DE 1970 EU ERA UM DOS PRINCIPAIS ASSESSORES DE ROBERT McNAMARA, PRESIDENTE DO BANCO MUNDIAL. RECEBÍAMOS MINISTROS DAS FINANÇAS DE DIVERSOS PAÍSES E OS ENCORAJÁVAMOS A TOMAR EMPRESTADO. COMO HAVIA PETRODÓLARES SOBRANDO, O CRESCIMENTO ECONÔMICO PODERIA SER INFINITAMENTE FINANCIADO.
A dívida externa do Brasil, por exemplo, foi toda construída em cima de acordos de curto prazo, ao invés de buscar negociações menos gulosas, mais seguras e permanentes.
e a crise de liquidez emergiu.

TRATA-SE AFINAL AQUI TAMBÉM E NO ESSENCIAL DE DESIGUALDADE

GAZETA MERCANTIL 14 DE ABRIL DE 1993
FRACASSO NA CORREÇÃO DAS DESIGUALDADES
nas últimas três décadas apenas através de uma agência federal, a Sudene, foram transferidos cerca de US$ 18 bilhões ao Nordeste - dados do relatório preliminar de uma comissão mista do Congresso Nacional coordenado pelo senador Beni Veras (PSDB-CE).
No caso do Nordeste os indicadores sociais encontrados pela comissão são equivalentes aos registrados em países como Haiti, Zaire e Honduras, cujo PIB per capita é bem inferior ao nordestino.
Na Amazônia de 1970 a 1985 foram financiados 674 projetos agropecuários e agroindustriais que contribuíram para uma expansão da área rural de 23,2 milhões para 44,9 milhões de hectares principalmente nos estados de Rondônia e Pará.
desse total apenas 94 foram considerados oficialmente implantados até 1985, dos quais apenas três registraram alguma rentabilidade no período.
Constata-se no Nordeste uma real mudança especialmente no setor industrial, que absorveu a maior parte dos investimentos agenciados pela Sudene. No centro da mudança está apenas um estado, a Bahia, e um segmento produtivo: a petroquímica.
o Nordeste apresenta um quadro de operações econômicas marginais muito mais grave que no resto do país: entre 40 a 60 por cento da População Economicamente Ativa de sua área urbana dedica-se a atividades econômicas informais, "dependendo da definição que se adote de setor informal da economia".

Folha de São Paulo 14 de abril 1993
A INDÚSTRIA DA FOME
Gilberto Dimenstein
dados coletados pelo deputado Jaques Wagner (PT-BA) junto da Conab e do Banco do Brasil: 15 mil toneladas de alimentos, o suficiente para alimentar 400 mil crianças durante um ano, foram enterradas. Mais: três mil toneladas estão estragadas e outras 30 mil em fase de apodrecimento nos armazéns.
o Brasil é um dos líderes na América Latina em desnutrição infantil. Perdemos apenas para o Haiti, um dos países mais miseráveis do mundo e por muito pouco da Guatemala.Dos alimentos apodrecendo aos poços do Dnocs, passando pelos subsídios aos usineiros, entre uma infinidade de descasos diários, prova-se que o Brasil já faria uma grande revolução (ganharia muito dinheiro) se apenas reduzisse pela metade o desperdício.

BRASILEIRO COMEU MENOS FEIJÃO NO ANO PASSADO DO QUE EM 1985 Jornal do Brasil 14 de janeiro 1991
então já escasso por conta de quebra de safra
INÊS KNAUT, BASEADA EM PESQUISA DE REBECA CARLOTA DE ANGELIS, DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS DA USP                                              1985: 2,378 milhões de toneladas
1989: 2,6 milhões
1990: 2,340 milhões
corte do feijão no cardápio brasileiro significa a subtração de:
21,7 gramas de proteína em cada nove colheres
345 calorias, com importante reflexo sobre as necessidades energéticas e de construção e conservação de todos os tecidos do corpo humano.
(Para repor a perda é necessária a ingestão de quase meio quilo de arroz.)
corte de cerca de um terço das necessidades diárias de ferro em 100 gramas diárias, e o consequente risco de desenvolvimento de anemia ou queda dos glóbulos vermelhos.
Fibras do grão prejudicam absorção do ferro, o que pode ser compensado com uma dieta complementada com alimentos ricos em vitamina C, importante mediadora do metabolismo.
O feijão tem ainda valor vitamínico, fornecendo vitamina A, B1, B2 e Niacina.
Experiências realizadas há 15 anos com animais de laboratório na área de fisiologia mostram que a combinação arroz-feijão em proporção de 77 por cento de arroz e 23 por cento de feijão torna-os complementares em termos nutricionais. (Na proporção meio a meio é incompleta e limitante em aporte de energia.)
A falta de aminoácidos (substâncias em que a proteína se desdobra no organismo) num dos alimentos é compensada pela presença do outro.
Substituindo o feijão por proteína animal (caseína) os resultados são decepcionantes. A presença de cálcio e vitamina A no feijão é decisiva para a absorção da proteína pelo organismo.
O feijão atua ainda como fator de equilíbrio dos níveis de colesterol, fazendo aumentar a excreção de sais biliares.

Jornal do Brasil  1º de junho 1993
PAÍS DESPERDIÇA US$ 40 BILHÕES ANUAIS
Construção civil: 20 por cento de desperdício na construção civil
frutas: perdas de 30 por cento
hortaliças: entre 30 a 40 por cento
Grãos: milho tem perda de 4,4 milhões de toneladas, equivalentes a US$ 470 milhões
arroz: 20 por cento; feijão: 15 por cento; soja: 10 por cento
Rodovias precárias, atraso tecnológico, armazenamento inadequado e mau sistema de difusão de informações

O Globo 1º de junho 1996 Joelmir Beting
IDH: 70º lugar, 12º na América Latina; PIB: 11º no mundo
EUA: considerada só a população branca: 1º lugar; só a população negra: 31ª posição.

Jornal do Brasil 14 de março 1993
PADRÃO DE VIDA É O PIOR EM 20 ANOS
FALTA DE INVESTIMENTOS E DE CRESCIMENTO AFETA A QUALIDADE DE VIDA E FAZ PAÍS VIVER COMO SE TIVESSE ACABADO DE SAIR DE UMA GUERRA
Só na última década deixaram de ser investidos no Brasil US$ 600 bilhões em função da recessão, inflação alta e da instabilidade política e econômica.
O número de empregos é 13,8 por cento menor que o de 1985, segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
Renda per capita em 1991, de US$ 1912, era cerca de um terço menor que a de argentinos e chilenos.

Jornal do Brasil 30 de maio1993
GOVERNO DESPERDIÇA US$ 33 BILHÕES
Levantamento do Ministério da Fazenda
apenas 40 por cento de recursos liberados pelo governo chegam a seu destino - o restante é desviado "ou se perde no meio do caminho" [o que parece querer dizer o mesmo].
O problema é atribuído ao desmantelamento promovido pela reforma administrativa do governo Collor dos órgãos de controle interno do governo responsáveis pela fiscalização e avaliação dos gastos.
O MINISTÉRIO DA FAZENDA RECONHECE QUE A MUDANÇA FACILITOU A ATUAÇÃO DO ESQUEMA DE CORRUPÇÃO MONTADO POR PAULO CÉSAR FARIAS, O PC, QUE CONTROLOU, SEGUNDO DADOS DO ESTUDO, 30% DO ORÇAMENTO PÚBLICO.

Jornal do Brasil 23 de maio 1993
SALÁRIOS PERDEM 40% DE SEU PODER DE COMPRA
PESQUISA APONTA QUE ENTRE 1986 E 1993 TRABALHADOR NÃO CONSEGUIU ACOMPANHAR INFLAÇÃO DE 1.076.000.000%
ÍNDICE DE PRECARIEDADE DO MERCADO DE TRABALHO MOSTRA EVOLUÇÃO DO SETOR INFORMAL: a taxa passou de 37 para 48 por cento da população economicamente ativa

Folha de São Paulo 16 de maio 1993  editorial Ajuste Inadiável
o PIB por habitante já caiu cerca de 10 por cento no início dos anos 90

Folha de São Paulo 16 de maio 1993
DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS NO PAÍS CHEGA A 30%
A INFORMAÇÃO CONSTA DO LIVRO "PANELA FURADA", de Renata Farhat Borges
Frete, manuseio, empacotamento e armazenamento inadequados são alguns dos responsáveis.
Da produção nacional de 54 milhões de toneladas, avaliada em US$ 9,2 bilhões, o Brasil jogou fora US$ 1,8 bilhão.
O desperdício também se dá nas fazendas, como por exemplo com a não utilização de alimentos que não alcançariam bom valor no mercado, e nas residências, com o não aproveitamento completo de alimentos como a cenoura e sua rama.

NÚMEROS QUE SURPREENDEM O MUNDO       JOSÉ MARTINS FILHO MÉDICO PEDIATRA  REITOR DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP)
Folha de São Paulo 17 de outubro 1995
Unicef: Fundo das Nações Unidas para a Infância - relatório
101 nações em desenvolvimento e 35 em situação de pobreza crônica
entre 1960 e 1990
expectativa de vida subiu de 46 para 62 anos
escolaridade básica de 48 para 77 por cento entre crianças de 6 a 11 anos
taxa de mortalidade infantil caiu de 216 para 107 em cada mil nascimentos
taxa de natalidade decresceu de 6 para 3,8
Calcula-se em US$ 34 bilhões/ano os recursos necessários ao atendimento das necessidade mundiais em saúde e nutrição, educação básica, saneamento básico e planejamento familiar - nada de exorbitante considerando-se gastos anuais com o consumo de cerveja - US$ 160 bilhões -, cigarros - US$ 400 bilhões - ou investimentos militares - US$ 800 bilhões.
O mito malthusiano de que o mundo está tecnicamente impossibilitado de solucionar os problemas sociais imediatos e os da infância.
Brasil:
mortalidade infantil caiu de 118 para 52 por mil, muito longe dos 7 de Itália e Nova Zelândia ou ainda bastante longe da própria Argentina (24)
Brasil: nona economia mundial, com produção agrícola suficiente para alimentar 300 milhões de pessoas.
Isso significa que, com o aumento das desigualdades, a melhoria se deu em todos os patamares, beneficiando mais os mais ricos.
A quinta parte mais rica da população mundial detém 85 por cento da riqueza
A mais pobre, 1,4 por cento.
Não é só trabalho e competência que estabelece essas diferenças mas séculos de colonialismo (espoliação econômica), ajustes econômicos draconianos e juros escorchantes sobre as dívidas

Jornal do Brasil 20 de dezembro 1992
O crescimento das favelas em Porto Alegre não acontece mais por causa dos movimentos migratórios mas pela reprodução da miséria. Nos 22 municípios da região metropolitana o número de favelados aumenta 9,8 por cento ao ano enquanto o crescimento populacional é de 4 por cento. Na capital a população cresce apenas 1 por cento ao ano mas os favelados aumentam a uma taxa de 7 por cento.

DESPERDÍCIO - OUTROS NÚMEROS
PAÍS PERDE ATÉ 14% DO QUE PRODUZ        O Estado de São Paulo S/D (1992)
pesquisa do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP)
um prejuízo de US$ 50 bilhões/ano, quase a metade da dívida externa
US$ 4,7 bilhões de energia elétrica
aproveitamento do couro de boi pela indústria é de apenas 20 por cento por causa da doença do carrapato e não se investe em pesquisa
desperdício na indústria de construção civil é de 33 por cento e 60 por cento desse desperdício na própria fase de construção
custos portuários causam perda de US$ 5 bilhões - enquanto na Holanda são descarregados 27 contêineres por hora no Brasil descarrega-se de seis a oito
tempo de preparação de uma máquina no setor industrial é de 81 minutos, 16 vezes mais que a média mundial
peças perdidas na produção: 200 por milhão no Japão, 26 mil por milhão no Brasil

SUPER-RICOS DETÊM 36% DA RENDA NOS EUA O Estado de São Paulo 13 de setembro 1992
A riqueza dos Estados Unidos se tornou mais concentrada durante os anos 80 do que em qualquer outro período da história
Sylvia Nasar
The New York Times
36,7 milhões de pobres em 1991, mais 2,1 milhões que em 1990

          1.825.059.944.842,56%
Time Magazine diz que esse é o aumento dos preços no Brasil nos últimos 25 anos - 18 de março 1993

DESPERDÍCIO
INFLAÇÃO FAZ DINHEIRO VIRAR LIXO DIARIAMENTE Jornal do Brasil 4 de julho 1993
Nem os bancos hesitam em jogar dinheiro fora. O desprezo pelos restos de cruzeiros é tamanho que o gerente de uma agência bancária no Centro do Rio confessou ter jogado vários sacos de plástico recheados de moedas de 10 centavos. Fazer o que com elas? - resumiu o gerente

[De fato, quando era chegado o tempo de cortar três zeros na moeda ou criar uma nova as calçadas das ruas tremeluziam como se pejadas de lamê de tanta moeda imprestável jogada fora pelos transeuntes.]

Onde está o liberalismo
Raymundo Faoro IstoÉ 29 de abril 1992
Na ótica liberal, isto é assim mesmo: os "incapazes", os "ociosos", os "imprudentes", os "fracos"sucumbem porque a vida é uma luta que não cessa, tolhida pela histeria de gritos de justiça. A justiça da luta é o êxito ou o perecimento.

DESPERDÍCIO
ENERGIA PERDIDA JOELMIR BETING                         O GLOBO 1º de abril 1993
PÓ NO CANO
A ONU informa: no ano 2000 cada terráqueo vai ter um milhão de metros cúbicos de água por ano. Em 1950 a disponibilidade de água doce era de 2,9 milhões por pessoa. Na cidade de São Paulo a água já está sendo puxada de até 150 quilômetros de distância. Com ela a gente lava carros e calçadas.

1997
NORDESTE TEM A MENOR TAXA DE CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO DO BRASIL
MÍRIAM LEITÃO O GLOBO 10 DE AGOSTO DE 1997
IBGE - censo demográfico
Brasil: 1,35 por cento
Nordeste: 1,06 por cento
A área mais pobre do Brasil, o Nordeste rural, perdeu 1,15 milhão de habitantes.
A população das cidades cresceu em 12 milhões
Adolescentes de 15 a 17 anos na escola:
1980: 48,8 por cento
1991: 55,3 por cento
1996: 66,8 por cento
 

1¾ «
Uma mulher aos 36 anos, de Jurema, no agreste de Pernambuco, já teve 12 filhos dos quais 5 morreram e outros 2 tinham poucas chances de sobrevivência.
Magérrimos por conta da desnutrição.
"Eu achava que era Deus que queria levar."
 

veja 30 de outubro de 1996
O MUTIRÃO QUE SALVA OS BEBÊS
Ensiná-los a preparar pratos com casca de ovo, sementes de moranga, folhas de mandioca e de cenoura, refeição com teor vitamínico alto para reduzir desnutrição de crianças e gestantes.
Educação: metade de mães e gestantes da Paraíba não conseguem entender o material impresso pelo Ministério da Saúde sobre aleitamento materno porque é analfabeta.
Média nacional era de 10 por cento de mortes de crianças com até um ano de idade. No Nordeste, o dobro - índice de países miseráveis como Etiópia, Somália e Haiti.
 

2008 ... e  9 (e tempo afora?)

ÁFRICA   SURGE DAS TREVAS E SUBMERGE NAS TREVAS EM UM SÉCULO

O GLOBO 30 DE JUNHO DE 2006
MUGABE ACENA PARA A OPOSIÇÃO
PRESIDENTE DO ZIMBÁBUE DECLARA VITÓRIA E TOMA POSSE DESAFIANDO PRESSÃO INTERNACIONAL
Se o ditador fosse branco... Nicholas D. Kristof, The New York Times
Caminhos incertos para o país após assumir seu sexto mandato
Cerca de três milhões de emigrantes do país vivem na África do Sul, onde sofrem com uma feroz onda anti-imigração.
Mugabe tem dito que pretende ficar no poder até que considere impossível a reversão de terras, tiradas dos fazendeiros brancos e distribuídas a negros pobres

veja 2 de julho, 2008
O FLAGELO DA ÁFRICA
o caos e a violência no Zimbábue podem ser examinados como uma síntese dos flagelos que fazem da África o continente com a maior concentração de países miseráveis.

INDÚSTRIA BRASILEIRA
SETEMBRO 2008
hoje há uma nova integração Sul-Sul. As empresas chinesas, por exemplo, estão investindo na América Latina e na África
[o que para eles deve ser a mesma coisa]
não só para ter acesso às commodities desses países mas também para obter uma posição que lhe permita lucrar com as vendas para a classe média emergente. [quinquilharia, pirataria, etc.]

veja 1º de outubro, 2008
Chantal Blya, a mulher do presidente de Camarões (presidente, é modo de dizer: Paul Blya está no cargo desde 1982 e numa das "reeleições" atingiu o inigualável patamar de 99,8 por cento dos votos).

Folha de São Paulo 2 de janeiro de 1995
REFORMA NA ÁFRICA DO SUL AMEAÇA REINO ZULU
até agora os zulus conseguiram manter um alto grau de independência em seu reino, a Zululândia - ou KwaZulu, na língua de 22 por cento dos sul-africanos.
A tendência agora é a de perder a autonomia relativa que teve mesmo sob o regime de apartheid (1948-1990).
O resultado mais visível das transformações são as brigas entre militantes do Partido da Liberdade Inkatha (zulu) e do CNA, de Nelson Mandela, de origem xhosa: mais de 10 mil mortos desde 1990.
veja 1º de outubro, 2008
O CHEFÃO ZULU
O sucessor (de Mandela) foi seu braço-direito, Thabo Mbeki
(que) tem o mérito de ter sido o arquiteto da recuperação econômica da África do Sul, que cresce 4,5 por cento ao ano desde 2004. Mas duas atitudes deploráveis marcam sua carreira. A proteção que deu a Robert Mugabe, (...)
Seu sucessor, Jacob Zuma, é um retorno às trevas do populismo africano.
... responde a dezesseis processos por corrupção.
sua etnia zulu
 veja, 29 de abril, 2009

EM ESTILO ZULU

O populismo de Jacob Zuma, próximo presidente da África do Sul, é do gênero que faz a desgraça do continente

A vitória do Congresso Nacional Africano nas eleições parlamentares (...) dá ao CNA o direito de indicar o presidente da África do Sul: Jacob Zuma, líder da rebelião na cúpula partidária que forçou o presidente Thabo Mbeki a renunciar. (...) a sucessão representa uma ruptura cultural e ideológica no país que responde por um terço da economia da África abaixo do Saara. (...) Zuma vem da outra metade da população, que é pobre, vive na zona rural e toca a vida de acordo com os costumes tribais. (...) Aos 67 anos Zuma tem uma carreira marcada por escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro, extorsão, fraude e sonegação de impostos (...). Em um julgamento por estupro, em 2006, do qual também saiu absolvido, ele respondeu que pensava que uma ducha poderia evitar a contaminação pelo vírus da aids. (...) A máquina do partido também não quer saber de mudanças. O monopólio sobre a administração pública permitiu a uma pequena elite ligada ao CNA enriquecer rapidamente enquanto os indicadores sociais do país mostram avanços tímidos. O desemprego chega a 40 por cento e uma em cada oito pessoas está infectada com o vírus da aids. Por falta de planejamento no setor energético o país (...) sofre com apagões frequentes. Como prova de que as coisas vão mal, metade dos sul-africanos acredita que sua vida continua igual ou pior que nos tempos do apartheid. Com Zuma a África do Sul fica mais africana. 

Com Zuma a África do Sul fica mais africana

19 de julho 2008 AUXÍLIO A AFRICA
Comissão Européia propôs criação de fundo de um bilhão de euros operacional em 2008 e 2009 para ajudar agricultores da África a enfrentar a subida global do preço dos alimentos

META ONU ATÉ 2015: REDUZIR FOME E MISÉRIA À METADE

Haiti: as cenas dos telejornais de 13 de setembro de 2008 (como se não bastasse mais nada) furacão e (nada mais restando) auxílio de emergência enlatado e disputado como em rinha de galos de briga (como se não faltasse mais nada). Passou o furacão, passou o Haiti.

 

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CRISE 2008 DE CRACK EM CRACK A COMANDITA ENCHE O PAPO

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