| revoluciomnibus.com | James Anhanguera | ERa Uma Vez A RevolUÇÃo ...V | DROGA LOUCURA E VAGABUNDAGEM | EM MANQUE |
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Em ritmo lento e estilo ondulante chegam a Coimbra, onde passam duas noites em casas de amigos de Paulinho e após um desvio por Tomar acabam por entrar em Lisboa em pleno recolher obrigatório. Ed está de mudança para a casa de Paula, uma hospedeira da TAP que conheceu no Vá Vá e que nos primeiros meses de Lisboa abastecia-o com peças de roupa da feira hippie de Ipanema e exemplares da melhor ‘imprensa alternativa’ brasileira. Com medo de ser pego pela tropa Paulinho deixa-o na Ave de Roma, a uns 200 metros do apartamento junto à via férrea onde pernoitaria pela primeira vez. Shlap-shlotoc, shlap-shlotoc, fazem as suas novas socas de madeira compradas em Viseu que ainda não mandou revestir com sola de borracha e ao caminhar, ainda que com o maior cuidado para não fazer demasiado barulho e marar, não podendo também andar pé ante pé para abreviar o risco de ser apanhado pelo inimigo, parece que está a montar centenas de takes de sons de claquete em ritmo compassado e síncopes regulares. Chega ao intercomunicador sem condições de falar alto e mal tem fôlego para dar a senha. Quando entra a amiga está no quarto sobre um supercolchão a falar com alguém ao telefone. Falar não é o termo. A voz é quase inaudível e o corpo é sacudido por convulsões, está inquieta, muda o tempo todo de posição, às vezes soluça e funga, funga e soluça, ainda interrompe a conversa e aos tropeços e com a língua entramelada indica-lhe o seu quarto, mas puxa-o pela mão e diz-lhe para se sentar ali mesmo, na cama, volta a pegar o telefone e desata num pranto descontrolado, custa-lhe a entender, logo khe ocorre que a chavala deve estar mas é em manque, cold turkey, abstinência de herôa ou coisa que o valha e a sentir-se literalmente contra a parede, se fica uma noite será mais difícil dizer depois que não fica a dividir a casa, conhece-se o suficiente para saber que quando chegar a hora de basar já estará envolvido no drama e não terá como desembaraçar-se, portanto por um lado não posde cubar aqui, por outro não posde sair rua fora antes das seis da matina e são só três, deixa-se estar por ali mesmo com a cabeça apoiada ao colchão a fingir que dorme até que dorme e quando acorda a outra está adormecida ou morta, não se sabe, com a mão perto do bocal do telefone, que continua fora do gancho, sai sem pô-lo no lugar e sem sequer ajeitar os caracóis para nunca mais. |
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