revoluciomnibus.com  James Anhanguera ERa Uma Vez A RevolUÇÃo. ...I I I     MEDO ATRASO E ROCK NAS BERÇAS  CLANDESTINOS

        O país é todo ouvidos. Moita carrasco. Comentar um facto ou boato político é uma temeridade. Uma noite, num encontro casual com colegas de ofício e a bem dizer já também de resistência à saída da Rádio Renascença, Edgar conhece uma jovem que após uma ou outra troca de impressões genéricas sobre a situação política e a informação diz-se interessada em conversar mais com ele. Dá-lhe o seu telefone e em poucos dias ela chama-o para um encontro.

        Diz que milita numa organização de que não revela o nome nem aos três pastorinhos e de resto quando fala sobre isso mostra-se extremamente renitente em revelar qualquer detalhe, mantendo sobre a sua militância uma aura de mistério que afinal é o maior elo de atracção e ao mesmo tempo de repulsa, porque sabe-se lá se ela não é masé uma informadora da Pide. O papel de Ed é claro – mas, e o dela? Quer recrutá-lo e só abre o jogo se ele se predispuser a juntar-se à organização. Diz que tem um namorado com quem milita no misterioso grupo e ele a magicar, que romântico, o amor na clandestinidade, um amor à Daniel Filipe, autor de uma das bíblias da resistência, A Invenção do Amor, de que me oferece um exemplar num café da Rua Castilho com um recorte de um artigo da sua autoria em linguagem cifrada a criticar a visão ‘alienada’ de Missa Leiga, uma peça de Chico de Assis que está a ser representada no São Luís por uma companhia brasileira, publicado na primeira página do República talvez para cobrir à última hora espaço deixado em branco por uma notícia censurada.

        Vive-se ao fim e ao cabo o mais possível clandestino mesmo em relação a quem se é mais chegado, sempre a tentar ‘pôr um pauzinho na engrenagem’, do lado de cá (de baixo, do subterrâneo, underground), a tentar trazer alguém do lado de lá para a causa, que não é outra: a da liberdade e igualdade social. Não tem muita consciência dos riscos que corre e nem pensa nisso, até porque a Pide-DGS terá muito mais com que se preocupar do que com um gato pingado como ele, mas dar um passo para a militância política directa e a clandestinidade não lhe passa sequer pela cabeça. Cumpre o seu papel como pode, na luta linha a linha, palavra a palavra, entre as linhas.

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