"Que interessante! A gente não está ouvindo, está vendo. Parece que a cantora está dentro do gramofone. Quem é?"

"Não precisa ensinar nada que, na hora da bossa, eu entro com a bossalidade."

 "a imigrante lusitana, a balconista, a cantora cafona, a estrela brega de Hollywood que foi precursora do tropicalismo" 

"Há quem afirme que seu maior sucesso foi como criadora de modas, mas creio [que ela foi o que foi pelo] seu êxito em todas as áreas [em que] atuou."

 

 

VIDA                                 - 1967
PAIXÃO
E BANANA
DO TROPICALISMO         - 1968

                   programa de TV escrito

                   por José Carlos Capinan e Torquato Neto

                   fala de Caetano Veloso:

... eu respiro o doce e melancólico vazio brasileiro. Carmen Miranda bole comigo no meu sono.

viva Ipanema-ma-ma-ma

viva Iracema-ma-ma-ma-ma

...

viva a bossa-sa-sa-sa

viva a palhoça-ça-ça-ça-ça

...

viva a banda-da-da-da

Carmen Miranda-da-da-da-da

Caetano Veloso  -  Tropicália

 

 

           Tropicamp

    Hélio Oiticica, Nova York, 1971

"No filme Harlot (filme chave do início da fase falada de Warhol), em determinado momento Mario Montez menciona Carmen Miranda como 'that tutti-frutti hat girl", numa cena em que a conversa gira em torno de bananas. ... A importância e o interesse para nós da encarnação-personagem Mario Montez é justamente essa de que ele é a concreção do clichê latino-americano como um todo, que me faz pensar no que Soy Loco Por Ti, América, de Gil-Capinan, foi para a música Tropicália no Brasil e ainda mais  porque essa imagem-encarnação-personagem foi criada nos States. ... Mario Montez e Carmen Miranda, duas personagens precursoras do que chamarei aqui de Tropicamp, e por isso são superídolos no underground americano."

 

                             psicotropicamp

            "Chica Chica Boom Chic"

quando Schubert a contratou, ele exigiu que ela fosse apresentada como The South American Bombshell, mas ela respondeu-lhe convicta: Não aceito! Tem que ser como The Brazilian Bombshell

"Carmen Miranda é brasileira, já a Maria do Carmo, conquanto nascida em Portugal, poderia reivindicar a condição de brasileira, pois foi pequenina para o Brasil. Mas desde que, com a retirada do meu nome de batismo, surgiu a Carmen Miranda, apareceu uma cantora brasileiríssima. Vejam o meu repertório, vejam os nomes que nele surgem a cada momento. Olhem para mim e vejam se não tenho o Brasil em cada curva do meu corpo."

 

      tudo aquilo que o malandro pronuncia

     com voz macia é brasileiro

     já passou de português

                   Noel Rosa - Não Tem Tradução 

 

                         

          ciberzine   & narrativas de james anhanguera

 

      MÚSICA DO BRASIL DE CABO A RABO

         O LIVRO DA SELVA

   3. OS CANTORES DO RÁDIO

                    CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

          fenômeno da cultura de massa do século XX 

 

                     A FALSA BAIANA   ou   O QUE É QUE A BAIANA TEM?         

                        The Lady With The Tutti-Frutti Hat 
           Bananas Is My Business
                                                                                                     

                                                                                   

                                            

                               

 

DEPRESSÃO

Em 1946 perdeu a criança que esperava para os próximos sete meses. Ela já estava com quase 40 anos e sabia que essa fora sua derradeira oportunidade para ser mãe. Após essa frustração Carmen nunca mais foi a mesma, afundando-se numa fossa de crises existenciais depressivas.

Quando tomou conhecimento do que representava para si e para os outros, Carmen não conseguiu segurar a barra. 

Vivia entre uma depressão nervosa e outra. Tomava pílulas para dormir e para ficar acordada.

... porque é uma daquelas mulheres que significam tudo, sexo, tristeza - pelo negócio das drogas e do marido que não deu certo, mas também por ter permanecido uma caricatura de quem era.

A voz de Carmen Miranda carregava a mesma vivacidade que, por ironia e desafeto do destino, a aprisionou em sucessivas crises de depressão até ser fulminada por um ataque cardíaco em 5 de agosto de 1955.

1954

Carmen chega ao Rio dia 3 de dezembro.

As cenas de seu regresso ao Brasil em 1954, meses antes de morrer, são bem a imagem do filme de terror que o star-system hollywoodiano podia fazer seus astros viver, dependendo de sua trajetória e firmeza de pulso.

Quando desembarcou no aeroporto internacional do Rio de Janeiro todos perceberam seu rosto inchado, abatido, cansado, bem diferente da mulher bonita do passado.

sua doença era um fortíssimo esgotamento nervoso.

A propósito, foi mesmo estafa com overdose de desgosto e bolinha. Carmen pifou feio várias vezes e chegou a levar choque elétrico. Quando pela última vez visitou o Brasil, entre dezembro de 1954 e abril de 1955, passou 49 dias confinada num suíte dupla do hotel Copacabana Palace, por ordem médica. 

A mando do dr. Aluísio Salles, na porta de seu quarto foi afixado um aviso: "Estão Proibidas Visitas, Sem Exceção". A entrevista coletiva foi cancelada e Carmen ficou cinco dias reclusa. Disse a um grupo de amigos: Só saí uma vez, para dar uma volta aqui por perto, mas nem cheguei  a ir à praia, porque de repente tudo me enervou e pedi que me trouxessem para casa imediatamente, antes que eu me pusesse a gritar ali mesmo na rua. Limito-me a espiar um pedacinho da praia e vê-la ali do fundo, da área do apartamento. Por enquanto não estou para violências!

na alegria francesa há cálculo de inteligência, há medida; a alegria nacional, no entanto, é feita de generosidade, dissipação, esbanjamento de vida.

Parece haver chegado àquele ponto, ainda na observação de Paulo Mendes Campos, "em que o sucesso profissional esfalfa o corpo e o espírito".

Deixa a impressão, nas falas, de que procurava fugir daquele "tipo falsificado em que Hollywood a transformara", mencionado numa crônica do cronista mineiro .

[em reportagem gravada da Rádio Nacional semanas depois disse] ... que não cantava as músicas mais modernas porque os americanos não se cansavam de ouvir as velhas melodias como Mamãe Eu Quero

Embarca para Hollywood dia 4 de abril.

MORTE       

           Who Killed Carmen Miranda  (Quem Matou Carmen Miranda)

A propósito, foi mesmo estafa com overdose de desgosto e bolinha. Carmen pifou feio várias vezes e chegou a levar choque elétrico.

                Carmen foi do getulismo ao capitalismo                  Arnaldo Jabor

E ouvi o diálogo entre ela e Jimmy Durante. Carmen cai: Oh... eu não consigo respirar. Jimmy: Não se preocupe, eu digo as falas.

No dia 5 de agosto de 1955 todos que assistiam ao noticiário da cadeia norte-americana de televisão ouviram Carmen dizer baixinho a Jimmy Durante: I'm out of breath, enquanto ele a segurava firmemente pelo braço. O vídeo-teipe do programa Texaco Star Theatre começava mostrando uma cena de cais do porto, repleto de pessoas aguardando ansiosas a chegada de Carmen, que descia do navio com imensa bagagem tropical. Após curto diálogo em português ela cantava Delicado,  de Waldir Azevedo, acompanhada pelo Bando da Lua, com letra feita especialmente para ela por seu escudeiro Aloysio de Oliveira, diferente dos versos consagrados na gravação de Ademilde Fonseca. Em seguida, apresentava uma série de danças e canções que evoluía com marcação de vaudeville. Chega o momento em que ela, perdendo o equilíbrio, cai de joelhos e balbucia para Jimmy Durante, mas levanta-se e termina o número. No final do show ela cantava Good-Night e Mambo, uma canção de despedida a Durante e ao público. Com sua figura já distante, vai saindo de mansinho entre as cortinas, acenando e andando de costas, até desaparecer na escuridão do cenário.

FUNERAL

um dos funerais mais espetaculares da época, somente comparado ao de Getúlio Vargas e Francisco Alves

TÚMULO

túmulo 1724, aléia 5, letra E do cemitério São João Batista, em Botafogo, onde Carmem está enterrada.

Foi sepultada ao som de um de seus grandes sucessos: "Adeus, oh, oh, adeus / Meu pandeiro de samba / Tamborim de bamba / Já é de madrugada / Vou-me embora chorando / Mas com o coração sorrindo / Porque vou deixar todo mundo / valorizando a batucada..."  Adeus Batucada - Synval Silva

                                             MODA  

No verão de 1972, ao regressarem do exílio forçado de três anos em Londres, Caetano Veloso e Gilberto Gil estavam up-to-date com a moda jovem internacional (também no som).  Estavam muito andróginos (Gil talvez só pela magreza saudável da macrobiótica) - no bom sentido... A par com uma avassaladora onda de nostalgia, no bom e no mau sentido, a androginia estava muito em voga naqueles anos no mundo do rock, com Roxy Music, David Bowie, Marc Bolan e de um certo & qual modo Alice Cooper a exagerar na maquilagem. Ou como Ney Matogrosso e Secos & Molhados pouco depois. Com a cara e a coragem com que antes defrontou as feras com as provocações tropicalistas, e o aplomb de quem desembarca de uma das capitais do mundo, nos shows de regresso nos Teatros João Caetano do Rio de Janeiro e Tuca de São Paulo Caetano perpetrou sua primeira e última atitude explícita de travestimento vestido de baiana/Carmen (uma baiana mais calcada em tecido e rendas brancas da vestimenta das pretas do acarajé, não nas hipercoloridas de Carmen). Luiz Henrique Saia recorda o episódio e dá o background do gesto caetalouco numa página de seu livrinho sobre a cantatriz  transtylist       transestilista

  

                  

        Angústia & Balangandãs

MODA  Entre os empregos que teve antes de se tornar cantora profissional trabalhou em uma chapelaria, onde foi ser modista de chapéus, reformando velhos e fazendo novos, habilidade que usaria mais tarde para criar seus trajes e turbantes.

aquela fantástica figura de 1,53m que equilibrava como ninguém um inacreditável turbante de 2,58 quilos.

- A vida de Carmen pode ser contada através das bijoux. Ela era o Lacroix dos anos 40. Misturava estilos e só tinha compromisso com o over. Enquanto as mulheres vestiam tailleurs, ela esbaldava brilho.

Em 1948, quando se apresentou no Palladium Theatre de Londres, um despacho da agência Associated Press informava que o agrado foi geral mas o seu chapéu foi a atração e o Times descrevia no melhor british style o seu chapéu exótico e bonito como uma árvore de natal, de um pé de altura, feito de penas verdes, contas iguais a esmeraldas e ameixas e uvas de vidro cintilante.

A personagem que fez da atriz a mulher que mais pagava imposto de renda nos Estados Unidos em 1946 nasceu em Banana da Terra, de 38. Por achar um absurdo a estrela ganhar 20 contos de réis e ele apenas cinco, Ary Barroso retirou Na Baixa do Sapateiro do filme, deixando o caminho livre para um jovem músico baiano. Dorival Caymmi só precisou cantar O Que É Que a Baiana Tem uma vez para garantir o emprego. Ex-ajudante da chapeleira francesa Madame Boss, Carmen pediu que a irmã Aurora comprasse "três Bs" (bom, bonito e barato) e confeccionou a fantasia que ia vestindo à medida que a música era cantada. Foi essa imagem que o empresário Lee Schubert levou para os Estados Unidos.

 

         

 

Alguns meses após sua chegada a imprensa a chamou de "The Girl That Saved Broadway From The World' Fair" e uma das mais importantes lojas de Nova Iorque, o Sacks Fifth Avenue, dedicou todas as suas vitrines ao lançamento da moda baiana, onde os manequins tinham o rosto e os gestos da Brazilian Bombshell. Um jornal declarava meses depois da sua chegada: "Carmen Miranda introduziu em Nova York alguma coisa que até agora estava faltando, alguma coisa que até este momento era desconhecida do povo norte-americano: a dinâmica personalidade de uma sul-americana que provou não ser necessária a nudez para causar sensação. Carmen Miranda serviu igualmente para fomentar aquilo a que se chama 'febre sul-americana'. E mais que tudo, por ter invadido um campo que até agora era apenas de Paris: o campo da moda feminina. Carmen introduziu os enormes e coloridos turbantes com que se apresentava na revista Streets of Paris e desde essa ocasião os modismos passaram a desenhar os 'turbantes à Carmen Miranda' ou 'turbantes à sul-americana'. Também os joalheiros estão ocupados dia e noite atendendo aos pedidos das mulheres, que hoje em dia só querem se apresentar com três ou quatro colares de cores distintas, iguais aos que Carmen usa com suas roupas de baiana. Por tudo isso Carmen passou a ser citada entre as dez mulheres mais salientes do ano."

Em entrevista ao Diário de Sâo Paulo, em maio de 1940, com matéria intitulada A Baiana na Moda Norte-Americana, Mme. Rosita, modista que dirigia as pellerias Americana e Wulff, recém-chegada de Nova York, onde em todas as estações ia pesquisar as últimas tendências, declarou: "Fiquei de fato encantada com o entusiasmo com que as elegantes de Nova Iorque adotaram os modelos inspirados na baiana."

...

Helena Solberg alterna no seu filme Bananas Is My Business imagens documentais pesquisadas em arquivos e cenas em que o transformista brasileiro Erick Barrreto representa Carmen Miranda, que se popularizou internacionalmente travestida de baiana e é até hoje um ícone da idade de ouro dos musicais de Hollywood e um dos maiores símbolos da cultura gay.

Helena Solberg: Carmen é uma personalidade da cultura de massa americana.

O estilo over da cantora, que antecipava o estilo montado de boa parte do povinho clubber

 

             Tropicamp

                                             Hélio Oiticica, Nova York, 1971

"No filme Harlot (filme chave do início da fase falada de Warhol), em determinado momento Mario Montez menciona Carmen Miranda como 'that tutti-gfrutti hat girl", numa cena em que a conversa gira em torno de bananas. ... A importância e o interesse para nós da encarnação-personagem Mario Montez é justamente essa de que ele é a concreção do clichê latino-americano como um todo, que me faz pensar no que Soy Loco Por Ti, América, de Gil-Capinan, foi para a música Tropicália no Brasil e ainda mais  porque essa imagem-encarnação-personagem foi criada nos States. ... Mario Montez e Carmen Miranda, duas personagens precursoras do que chamarei aqui de Tropicamp, e por isso são superídolos no underground americano."

 

psicotropicamp

 

HOLLYWOOD

Lembra a apropriação do mito por Andy Warhol, no filme Harlot, em que Mario Montez se refere às bananas fálicas de The Gang's All Here.

 

              

 

Seu magnetismo não vinha da extravagância de suas roupas. "Ela tinha uma chama interior, um carisma indiscutível que sobrevive até hoje."

- No início da carreira Carmen carregava cinco pulseiras em cada braço e vários colares. Quando gostava de algum anel comprava logo 20. Às vezes usava três broches iguais na lapela. O mesmo balangandã podia aparecer um dia no decote, outro na orelha e ainda no turbante.

roupas da cantora, além de jóias e balangandãs criados por ela.

criadora responsável por todas as etapas de sua criação, da plataforma ao turbante.

balangandãs, turbantes, bijuterias e trejeitos afetados

suas roupas de baiana estilizada, seus turbantes e colares pomareiros, suas sandálias-plataforma, seus lábios de carmim

sua imagem clownesca, seus enfeites, seu jeito vibrante de cantar com as mãos, os olhos, o corpo, o riso, propõem uma carnavalização da arte e da vida.

 

Depois de consagrada no show de estreia, entrou em sua vida um senhor especializado em divulgação e publicidade chamado Claude Gleneker que desenvolveu uma série de promoções em torno de sua personalidade, lançando campanha favorável à moda de turbantes, sapatos e balangandãs, enfim, a baiana que Carmen rodava para a mulher e o homem norte-americano.

Impulsionada por Claude Gleneker, começa a ensinar como fazer e usar um turbante e as vitrinas das lojas da Quinta Avenida só mostravam trajes inspirados em seu visual: saias rodadas multicoloridas, balangandãs nos braços e pescoço, turbantes enormes enfeitados com frutas e flores, tamancos de saltos altíssimos, brilho fulgurante de lantejoulas e lamês e as unhas e os lábios vermelho-escarlate... era assim a imagem americana da badaladíssima show-woman.

    

                                         Carmen Dior

ESTILO  o jeito de mexer os braços e o corpo, o modo de revirar os olhos, e os dedos adejantes como borboletas sedutoras

     a arte saltitante de Carmen

     e olhinhos faiscantes

a fenomenal Carmen Miranda, desafio erótico às vedetes de hoje. Carmen Miranda tem um nariz grande, uma boca enorme, pirâmides de frutas e flores na cabeça, além de usar vestidos incríveis. Rainha de um paraíso dos mares do sul, ela cria momentos inesquecíveis para os amantes do cinema.

               

balangandãs, turbantes, bijuterias  trejeitos afetados

No show Streets Of Paris, torna-se a coqueluche camp do universo camp do eixo New York-Hollywood

Nesse espetáculo ela foi vista pela mais vasta elite de estrelas de Hollywood: Greta Garbo, Errol Flynn, Frederich March, Norma Shearer, Robert Taylor, Mickey Rooney, Barbara Stanwick, Dorothy Lamour, David Niven, Lana Turner. Antes da estreia na Broadway ela se apresentou no Waldorf Astoria em contrato estipulado para quatro semanas mas que foi prorrogado para nove, tamanho o sucesso.

 

 

Ainda está para aparecer uma cantora igual - Oswaldo Eboli, o Vadeco, um dos integrantes do Bando da Lua, que a acompanhou no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, disse em 1992.

                           

No Olimpo da música popular brasileira da Época de Ouro ela tem o lugar de intérprete máxima, dionisíaca encarnação do ritmo, da alegria e do pique tropical, simétrica e oposta a outro grande, Mário Reis.  Gustavo Dahl

A voz de Carmen Miranda jamais soou tão limpa, tão clara, tão cheia de vida como agora (na era do CD).

a importância da cantora Carmen Miranda Ela foi uma estilista. Criou maneira especial de cantar, de pronunciar as sílabas (seus erres viraram padrão: Elizeth Cardoso os seguiu, por conselho de um produtor português), um tipo de humor brejeiro que não existia. Era o símbolo da alegria num tempo em que o país era alegre.

A edição de suas gravações em CD permitiu uma melhor avaliação da razão do seu sucesso, dos motivos que levaram a ex-vendedora de chapéus a transformar-se na primeira grande estrela brasileira da era moderna, conquistando o público a partir do rádio, então nascente no Brasil, e dos telões dos cinemas.
Dona de um pequeno corpo elétrico Carmen tinha também um it na voz, dizia-se na época, para distingui-la das demais cantoras de sucesso.
O timbre vocal, a sensualidade e brejeirice que irradiava em suas interpretações - apesar de ter de berrar enquanto os músicos que a acompanhavam tocavam o mais alto possível para imprimir vozes e instrumentos na cera -, fizeram dela a precursora de todas as cantoras modernas brasileiras. É o que dizem os especialistas.
Há quem vá além, incluindo no rol das suas especialidades, além do charme pessoal, uma grande sensibilidade para a escolha de repertório.
De Joubert de Carvalho ao seu motorista Sinval Silva, João de Barro, Lamartine Babo, Assis Valente, Ari Barrroso e Dorival Caymmi, Carmen lançou quase todos os grandes compositores da chamada de fase de ouro da musica popular brasileira, a da definição das formas do samba e da canção brasileira modernos.
A alegria transbordante e o domínio animalesco dos meios em que trabalhava - palco, radio, cinema e, no final da carreira, TV - teriam dado corpo ao "fenômeno" em palcos e telas.
Sua lenda, repleta de ingredientes de melodrama e arquetípica do sonho de sucesso e fortuna do showbusiness e da autofagia hollywoodiana, sobrevive às reavaliações (mesmo com o inglês errado que era obrigada a falar, e a que se refere o "bananas is" do titulo do documentário de Helena Solberg) e ao avanço tecnológico.
A portuguesinha bizarra e alegre, que conquistou o mundo com muita garra, samba no corpo, uma fruteira na cabeça, roupa de baiana e sapato-plataforma, causa espanto também na era do home theater.
 

Seu primeiro grande sucesso - Taí, de Joubert de Carvalho - tornou-se um hit permanente da música popular brasileira. Em menos de dois anos era o xodó nacional.

     ESTILO                    VIVACIDADE                             DEPRESSÃO

A voz de Carmen Miranda carregava a mesma vivacidade que, por ironia e desafeto do destino, a aprisionou em sucessivas crises de depressão até ser fulminada por um ataque cardíaco em 5 de agosto de 1955.

Desdenhada por Noel Rosa como uma intérprete superficial, segundo testemunhas, é quase sempre vista entre os especialistas como intérprete singular e inovadora na cena da MPB dos anos 30, do grande sucesso no rádio, no disco e no cinema brasileiro à explosão na Broadway e em Hollywood.

 

 

                              folha de são paulo   10 de janeiro de 1990   Luís Antônio Giron

              LP mostra que Carmen Miranda adorava plagiar

 

Cartão de Visita, uma coleção de 14 registros inéditos em LP da cantora, realizados entre 1929 e 1934. Uma fase em que ela tentava se desvencilhar das influências alheias, paradoxalmente imitando-as.

Carmen mergulhou nos estilos de suas antecessoras numa suíte de traços reconhecíveis ao citar a sertaneja Stefana de Macedo (1903-?), Otília Amorim (1894-1970) e seu escracho erótico, a quase-pornô Aracy Cortes (1906-1984), e Pepa Delgado (?-1945), rainha das cançonetas de segundo sentido.

... e veio a público pelo disco sem uma imagem estabelecida. Em dois meses de mercado já aparecia como "a cantora com o 'it' na voz", intérprete da marchinha Ta'hi, de Joubert de Carvalho, seu primeiro grande sucesso.

Até Carmen estrear no palco, em março de 1930 no concurso de Miss Rio de Janeiro, no Praia Clube carioca, ao ouvinte cabia deduzir um corpo a partir da voz.

Já Carmen produzia sensualidade com o "it" da voz. O referencial físico - o timbre - não estava no teatro, mas saía do alto-falante.

... duas faixas do disco de estreia de Carmen - com o samba Não Vá Simbora e o choro Se o Samba É Moda, ambos de Josué de Barros - gravadas provavelmente em setembro de 1929 na gravadora Brunswick e lançadas  em janeiro de 1930. O disco não fez sucesso. A Brunswick era uma gravadora pequena e não divulgava seus títulos. No mês de lançamento do disco Carmen já estreava na Victor, gravadora bem maior, com a canção-toada Triste Jandaya (editada na coletânea Junto de Vocês, selo Revivendo, em janeiro de 1989) e o samba Dona Balbina, ambos de Josué de Barros.

As gravações Brunswick têm qualidade péssima. É impossível entender frases inteiras e o acompanhamento de violões, pelo Trio Barros, vira mera abstração. Seria necessário um trabalho de remasterização, mas o Revivendo não tem condições técnicas para tanto. Em Não Vá Simbora ela dá uma de Stefana de Macedo: canta fino e com jeitinho de caipira. Em Se o Samba é Moda as ironias sexo-banais de Otília Amorim são o modelo para os gestos sonoros mal pronunciados e levemente obscenos de Carmen.

Ela conseguiu flagrar a figura de uma Carmen Miranda pré-mito, antes da construção da imagem da cantora do rádio de meados dos anos 30, e da baiana

 

                   "Chica-Chica-Boom-Chic"

 

de Hollywood. Indica também uma nova estratégia de promoção baseada no ocultamento da imagem para fisgar a curiosidade do público. Curiosamente, essa imagem não só consolidou a fama da cantora como, no fim das contas, abafou-a.

A "bossa", o "it" e o ritmo foram as armas iniciais de Carmen Miranda.

Pepa Delgado fizera sucesso entre 1900 e 1915 com insinuações pornô. Carmen tentou imitá-la.

Não tinha voz, mas timbre.

 

 

 folha de são paulo  23 de dezembro de 1990  Luís Antônio Giron sobrevida digital

 

os três timbres (Orlando Silva, Francisco Alves, Carmen Miranda) surgem suprimidos à lei do chiado. Sem chiado, os fetiches perdem a densidade. Viram coisa comum. Cai a lenda de que a música brasileira teve sua "época de ouro".

cera das bolachas de 78 rpm, quando era contratada da Odeon, entre 1935 e 1940.

 

Carmen era uma estrela consagrada e seu filete musical possuía um timbre expressivo, permitindo-lhe virtuosismos de vocalizar no samba, proporcionando um fraseado rápido, com um silabar leve, corrido, além de cantar sorrindo, sem quebrar o ritmo e sem transformar a interpretação num palavreado caótico.

 

O pop  de Carmen Miranda  precursora do videoclipe

 

Carmen aparece como uma espécie de Madonna dos anos 30, no sentido em que soube aproveitar como ninguém todas as linguagens da mídia da época - o rádio, o disco, o cinema e a televisão - e influenciou moda e comportamento. Concluindo evidências como as que a cantora portuguesa foi precursora do pop, do tropicalismo e da multimídia.

... o sucesso de Carmen na primeira fase da carreira, de 1929 a 1939, quando gravou 270 sambas e marchinhas, coincidiu com a afirmação do carnaval e a ascensão do rádio e da indústria do disco.

 

 

Filme apresenta Carmen Miranda como Elvis tropical

      Stephen Holden do New York Times

Carmen incorporou o camp antes que o conceito tivesse sido inventado

 

 

A personagem da brazilian bombshell que ela estreou em 1940 no filme Down Argentine Way rapidamente tornou-se uma autoparódia e uma camisa-de-força criativa da qual ela não conseguiu sair.

Mas a longo prazo Carmen Miranda adquiriu um significado cultural não muito diferente do de Elvis Presley. Da mesma forma que Elvis, um branco do sul, ajudou a popularizar o rhythm and blues negro, Carmen, uma mulher de ascendência portuguesa, popularizou a música não-européia e tribal de uma antiga colônia de seu país.

Os clips de Carmen nos anos de Hollywood são como descargas de eletricidade, transmitindo uma vitalidade incandescente aliada à sua agressividade vocal.

Arto Lindsay                  ESTILO

Assim como o Caetano foi o artista que apareceu na época da televisão e entendeu tudo aquilo, a Carmen foi a grande cantora que surgiu com o rádio

... porque é uma daquelas mulheres que significam tudo, sexo, tristeza - pelo negócio das drogas e do marido que não deu certo, mas também por ter permanecido uma caricatura de quem era. Aprendeu a falar inglês mas continuou a falar daquele jeito porque eles exigiam nos filmes.

Foi o auge mundial das canções.

... do grande sucesso no rádio, no disco e no cinema brasileiro à explosão na Broadway e em Hollywood

pré-pop  e multimídia

Cristina Fonseca

autora de A Embaixatriz do Samba, documentário sobre Carmen Miranda. Direção musical: Carlos Rennó

Carmen Miranda está entre as maiores cantoras de MPB de todos os tempos. Foi basicamente uma intérprete, mas pertencente ao raro grupo dos que recriam as músicas que interpretam. Sua voz estranha e ágil, modular entre o agudo e o grave e dotada de uma capacidade de adaptação tanto a marchas brejeiras como a sambas dolentes, acentuava a ironia implícita em muitas canções de seu repertório, unindo deboche e seriedade num fraseado próprio, meio canto-falado, que inovou a interpretação do período. Não foi porém só com a voz que Carmen inovou, mas também com o corpo, usado como instrumento a mais de interpretação.

Carmen Miranda descobriu que a música popular poderia ser uma realidade recriada em nível sonoro e também visual. Não seria exagero afirmar que ela utilizou-se precursoramente de um procedimento comum entre os cantores de rock anos mais tarde. Opondo-se à tradição na qual a interpretação se baseava só nos recursos vocais, propôs a música popular como performance áudio-visual, à maneira dos pop-stars que viriam situar suas vozes entre o canto e a mise-en-scène, como Little Richard, Elvis Presley, Mick Jagger.

Além disso, as intervenções da cantora também participaram, desde cedo, do campo da moda. Assim, enquanto o mercado brasileiro e mundial era dominado pela costura francesa, criou um original estilo tropicalista que se tornaria célebre no exterior e produto de sucesso nas vitrines nova-iorquinas.

Carmen Miranda foi uma artista da modernidade: pré-pop, pré-tropicalista e pré-multimídia, capaz de adaptar-se a todas as mídias emergentes do período, do disco ao rádio, do cinema à TV.

sua imagem clownesca, seus enfeites, seu jeito vibrante de cantar com as mãos, os olhos, o corpo, o riso, propõem uma carnavalização da arte e da vida.

 

             uma carnavalização da arte e da vida

 

PAULO FRANCIS FOI PRO CÉU

Carmen entrou na cultura do Ocidente. Seu talento, limitado, era original e sacudiu o calvinismo dominante então nos EUA.

Todo mundo que conta a notou, como mostra o tributo de Woody Allen em Radio Days, em que Denise Dumont reproduz o clássico The South American Way.

É mote permanente de travestis, tal qual Marlene, Bette Davis, Judy Garland, Gloria Swanson, mulheres maiores do que as de carne e osso.

Sérgio Augusto

Supremo ícone carnavalesco da cultura "camp", com suas roupas de baiana estilizada, seus turbantes e colares pomareiros, suas sandálias-plataforma, seus lábios de carmim e seu jeitão "drag queen" acabou desbancando Maria Montez do altar das deusas cultuadas pela comunidade gay internacional.

Carmen já havia servido como modelo de júbilo pagão para astros de Hollywood, que não resistiram à tentação de imitá-la.

O Mickey Rooney de Calouros na Broadway (Babes On Broadway) e o Bob Hope de A Caminho do Rio (Road To Rio) foram apenas os casos mais badalados.

 

 

 

Não foi grande cantora, não dançava bem, estava longe de ser boa atriz, não era muito bonita. No entanto foi das mais brilhantes estrelas do show business internacional e ainda é presença muito viva na memória de seus fãs.

  pequeno corpo elétrico       dinamismo      vitalidade           vivacidade

       alegria transbordante e domínio animalesco dos meios em que trabalhava

a cantora com um it na voz

               humor picante, charme único do Rio

     A "bossa", o "it" e o ritmo foram as armas iniciais de Carmen Miranda.

                            

Embora dissesse em entrevista em 1932 preferir o gênero alegre, esse que não faz chorar nem dá dor de cabeça e de o poeta Ascenso Ferreira a ter apresentado no Teatro Santa Isabel, em Recife, dizendo que

com ela a tragédia foi morta pelo bom humor, a tristeza nativa mudou-se em festa de batuques e bumbos... E ela empolga a alma da gente convidando-nos a ser felizes

talvez porque no fundo não o fosse, ela bem que foi o retrato em alto contraste da tragédia íntima dos tropicais indolentes, gênios domésticos  incapazes de alguma vez se confrontarem com a maior máquina de fazer ídolos e sonhos de castelos de contos de fadas da história - Hollywood.

Carmen tem o dom de nunca passar o clima de fossa - mesmo as suas, na vida privada, segundo os amigos. Porém, ao conhecê-la, meses antes de sua morte, o poeta e cronista Paulo Mendes Campos viu nela a imagem contrária da alegria e, talvez deveras impressionado pela máscara mortuária que ela lhe terá exibido, escreveu depois que Muito antes de Nora Ney, Carmen era a cantora da fossa. E muito antes de Dalva de Oliveira cantar as suas desgraças pessoais, deixava gravadas, ao lado de suas alegrias, todas as suas mágoas e tristezas. Certo; cantava Eu Sou do Barulho, de Joubert de Carvalho, e muitos outros ressacolejos mas em sua parceria com Pixinguinha, por exemplo, lá vinha ela de queixume, ainda que (sempre) bem humorado: Os Home Implica Comigo. Ao regressar pela primeira vez ao Brasil, já numa roda viva de compromissos nos States, vaiada pela "aristocracia" do Cassino da Urca que a havia exportado para os Estados Unidos como imagem de marca brasileira por ter voltado "americanizada", como ela mesma cantou (Disseram Que Voltei Americanizada), teve que garantir no mesmo cassino que Disso (de samba, remelexo) É Que Eu Gosto.

Carmen tem o dom de nunca passar o clima de fossa

talvez deveras impressionado pela máscara mortuária que ela lhe terá exibido, escreveu depois que Muito antes de Nora Ney, Carmen era a cantora da fossa.

em sua parceria com Pixinguinha, por exemplo, lá vinha ela de queixume, ainda que (sempre) bem humorado

Como de resto evidenciam as próprias imagens da saída da cantora do avião que a transportou de Los Angeles, a vibração passada pela cantatriz a quem a conheceu na última viagem em vida devia ser a de uma tremenda barra pesada, esgotamento terminal, a ponto de levar Paulo Mendes Campos a discorrer em sua crônica em clima fúnebre que na alegria francesa há cálculo de inteligência, há medida; a alegria nacional, no entanto, é feita de generosidade, dissipação, esbanjamento de vida.

Carmen Miranda talvez tenha sucumbido precisamente em função da distância que vai da generosidade ao cálculo. Natural, quando se pensa em sua trajetória de um provinciano quintalão nos batefundos da América ao estrelato mundial a partir da autofágica Hollywood. Sua irmã Aurora, com quem brilhou em As Cantoras do Rádio, disse que Carmen morreu sem saber quem era Carmen Miranda. Ela não tinha a mínima idéia do que representava.

Será que sim? Não há uma passagem num longo e vasto inquérito que indique que possa alguma vez ter pecado por ingenuidade (o casamento não conta e no episódio da famosa foto sem calcinha ela "peca" no máximo por distração, eventualmente grave). Talvez o Brasil que contava e que conta, o das ditas elites burras - que passou a ter muito pouco ou a não ter nada a ver com o processo -, é que nunca se tenha dado conta de quem era Carmen Miranda. Pois que inclusive ela

Deixa a impressão, nas falas, de que procurava fugir daquele "tipo falsificado em que Hollywood a transformara", mencionado numa crônica de Paulo Mendes Campos. Parece haver chegado àquele ponto, ainda na observação do cronista mineiro, "em que o sucesso profissional esfalfa o corpo e o espírito".

                           A FALSA BAIANA, PORTUGUESA DE ORIGEM, CARIOCA DA GEMA

 

 

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu no povoado de São Martinho da Aliviada, freguesia de Várzea da Ovelha, concelho de Marco de Canavezes, no distrito do Porto, e com um ano de idade muda-se com a família para o Rio de Janeiro, onde o pai se estabelece como barbeiro. A infância de Carmen, que tinha um olho castanho e outro verde, é descrita como tendo sido quase miserável. O pai alugou um sobrado na Rua da Candelária, de que mais tarde subalugou dois terços dos cômodos para aliviar as despesas.

No início de 1915 José Maria transferiu-se com a família para a Rua Joaquim Silva, na Lapa boêmia. Nesse ano nasceu Aurora, a irmã caçula. Pouco tempo depois Carmen é matriculada no Colégio de Santa Tereza, um colégio de freiras, e chegou a pensar em ser freira. Sua primeira apresentação pública foi aos 13 anos numa festa do colégio em que recitou para o Rei Alberto da Bélgica (que visitava o Brasil nos festejos do Centenário da Independência) e para o Núncio Apostólico. Para melhor equilibrar o orçamento familiar a família muda-se para a Travessa do Comércio, onde D. Maria Emília passou a fornecer pensão. Aos 15 anos já trabalhava como balconista. Depois foi chapeleira numa loja mais fina, reformando velhos chapéus e fazendo novos, habilidade que usaria mais tarde para criar seus trajes e turbantes.

Em 1928, entre os frequentadores da pensão da família onde ela costumava cantar com as irmãs, um dos que mais admiravam sua voz era o deputado baiano Aníbal Duarte, que resolveu organizar uma festa de caridade no Instituto Nacional de Música e confiou a direção artística ao professor de violão e compositor Josué de Barros, a quem apresentou Carmen,  Horas depois, na residência de um embaixador na Lagoa Rodrigo de Freitas, ela desfiou seu repertório de tangos argentinos.

 

                       

                                                 de uma foto autografada da cantatriz

Josué de Barros a levou para a Rádio Sociedade em 1929 e depois para outras emissoras.

Sua estreia na Rádio Sociedade foi auspiciosa. Carmen cantou Iaiá-Ioiô, que Josué de Barros compôs especialmente para a ocasião e que pouco depois ela gravou para o selo Brunswick.

No início de 1930 o compositor Joubert de Carvalho passava pela Rua Gonçalves Dias e o sr. Abreu, gerente da Casa Melodia, chamou-o para lhe mostrar a gravação de uma nova cantora. Colocou Triste Jandaia, de Josué de Barros, para ele ouvir e ficou observando-o. Joubert, depois de ouvir o disco, comentou: "Que interessante! A gente não está ouvindo, está vendo. Parece que a cantora está dentro da vitrola. Quem é?" O comerciante disse que era uma novata muito simpática e Joubert completou: "Pois eu gostaria de compor uma música para ela. Como posso encontrá-la?" Abreu, pensativo, respondeu-lhe: "Ela costuma vir aqui todas as tardes - e olhando para a porta de entrada apontou: Taí ela chegando".

Começaram a ensaiar e, enquanto lhe ensinava a letra, Joubert chamou a atenção de Carmen para um pormenor que desejava ver observado na interpretação, ao que ela se voltou e disse, piscando um olho: "Não precisa ensinar nada que, na hora da bossa, eu entro com a bossalidade".

Taí, o primeiro sucesso da cantora com o it na voz, como a apresentou a Victor, tornou-se um hit permanente da música popular brasileira e em menos de dois anos ela já era o xodó nacional.

RÁDIO  AS CANTORAS DO RÁDIO
Eram tempos pioneiros. Só em 1934 a Rádio Record de São Paulo introduziria o broadcasting profissional e exclusivo, oferecendo salários altíssimos e começando a corrida ao ouro. Com a fama repentina, Carmen Miranda foi a primeira artista a merecer, na Rádio Mayrink Veiga, um contrato, sendo que antes todos os artistas recebiam na base do cachê. 
  

 

  

    Ora, transcorrendo desse modo e assim contada essa estória é o enredo de

     a

    ESTreLa       SoBE

 romance de Marques Rebelo que é a base do capítulo 3. OS CANTORES DO RÁDIO  de  MÚSICA DO BRASIL DE CABO A RABO cuja íntegra dos outros trechos acessíveis neste revoluciomnibus

  

 Sessão Nostalgia de Vovô

   

   ou um inquérito sobre algumas coisas que

   desapareceram no Rio de Janeiro desde a   

          ÉPOCA DE OURO e os ANOS DOURADOS

 

 a partir de A Estrela Sobe 

 romance de Marques Rebello 

 Tristes Tropiques 

 de Claude Lévi-Strauss

 e Brasil, País do Futuro

 de Stefan Zweig

   

                        Brasil 1930-1960

           Rio de Janeiro capital federal

 

                             pode ser acessada a partir   DAQUI  

Em poucos anos a ex-balconista de uma loja de roupas e ex-modista de chapéus é estrela de primeira grandeza. Segundo a crônica Carmen Miranda foi a primeira cantora a ganhar um salário milionário como contratada de uma emissora - 5 contos de réis por mês na Rádio Tupy, além dos 30 contos a que tinha direito como cantora do Cassino da Urca, no Rio de Janeiro.

Carmen Miranda é O modelo do romancista carioca Marques Rebelo numa das melhores crônicas de época e um dos melhores documentários sobre o nascimento da era do rádio no Brasil.

Atenção, porém: a trajetória de Leniza Méier não é a de Carmen Miranda e  a ESTreLa SoBE não é sua biografia. Carmen já é ali uma lenda:

           - A senhora também não acha, dona Leniza?

                                  

Leniza acorda:

- O quê?

- Que não há outra igual a Carmen Miranda.

- Que dúvida!

Dona Manuela não acha. Gosta dela, sim, mas gosta mais de Araci Cortes. Acha-a mais mimosa. Tinha-a visto no teatro, há muito tempo, poucos dias antes de o marido cair entrevado, coitado. Muito mimosa. Seu Alberto ria.

- Qual, dona Manuela, a senhora está muito atrasada. A Araci é material da monarquia.

    Dona Manuela dá um muchocho de quem não acredita – que esperança! Leniza está longe outra vez. Cantar no rádio! Por que não? Ir lá, cantar pra eles... Seu Alberto tinha razão. Ir lá. Tinha voz. Tinha jeito... Quantas piores?

 

Leniza parece transformar-se de repente também em uma jovem cantora muito senhora de si. Mas seu repertório sentimentalóide com canções do tipo dor-de-cotovelo destoa em descante com o tom de humor - e muitas vezes de galhofa - predominante no repertório de Carmen. Mesmo quando mais "séria", como nas marchas e nos sambas de exaltação ou alegóricos, em geral o tom é para cima, para o lado ensolarado da vida (Primavera no Rio é um ótimo exemplo, entre muitos). Carmen tem o dom de nunca passar o clima de fossa - mesmo as suas, na vida privada, segundo os amigos. Por isso no que chega aos Estados Unidos é tomada como uma andorinha que anuncia o fim da Depressão.

Da Rádio Sociedade a Radio Days, o filme de Woody Allen, Carmen Miranda foi a primeira e a única - e é o modelo dos modelos (do lado de baixo - ou do lado). Mas, como já se disse e redisse, inimitável - ou irreplicável. E no sucesso e na tragédia, ou vice-versa, irretocável.

Não fez, como os seus modelos, o trajeto do teatro de revista, ou "rebolado", para o disco e o rádio. Mas lá faria também uma review na Broadway em sua estreia americana.

Foi pioneira de duas indústrias no Brasil. E chegou onde ninguém mais (do lado de baixo - ou do lado) chegou em seus ramos.

"Portuguesinha?" Talvez só pela "genica" (o pique de uma "portuguesinha" de exceção) e questão burocrática. Carioca da gema. Sem tradução (Bananas Is...).

Seu caso é um dos mais emblemáticos da autofagia de Hollywood, equiparando-se aos de outras mulheres para todo o serviço suas contemporâneas, a cantatriz Judy Garland e a quebradora de (bons) galhos também no (en)canto Marylin Monroe.

  Os ritmos populares urbanos brasileiros cristalizam-se quando Getúlio Vargas toma o poder. A qualidade dos discos melhora muito com o sistema de gravação eletrônica e o rádio, que rapidamente se difunde das metrópoles nascentes aos grotões de Lampiões acesos, logo descobre que sua vocação é fazer vibrar as multidões com a música a cujos ritmos, urbanos ou rurais, o Rio delirava, sobretudo em época de carnaval, cuja fama já dava a volta ao mundo. Com ela a Cinédia começa a ensaiar as primeiras imitações dos musicais de Hollywood. O cassino da Urca é uma pequena réplica da Broadway à entrada da baía de Guanabara. Surge o star system made in Brazil Carmen Miranda, a Garota Notável, Mário Reis, Francisco Alves, o Rei da Voz, Noel Rosa, Ari Barroso são astros de primeira grandeza num país sorridente e galhofeiro como Assis Valente ou prazenteiro como Dorival Caymmi, dois baianos da gema que dão mais consistência à falsa baiana Carmen Miranda. Que de esperta (diz-se que antes de partir para Nova York não deixou de tomar as bençãos e se fazer aconselhar pelo pajé do Catete, o Velho Getúlio Vargas) recusa-se a dar voz ao insolente telegrama em que o autor de Camisa Listrada anuncia

o tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

andou dizendo que o molho da baiana melhorou o seu prato

 

 Carmen Miranda/Leniza, de balconista, através de Josué de Barros, irá transformar-se na maior estrela brasileira da história. De um metro e meio de altura mas com ego e carisma mais altos que os sapatos-plataforma ou, melhor, os turbantes-fruteiras que se tornaram imagem de marca da falsa baiana. Diz-se que foi o Velho que a induziu a garantir por contrato que o Bando da Lua a acompanhasse nos States. Cria uma task force para a campanha me disseram que eu voltei americanizada, que produz sete músicas. Espampanante, um tanto destrambelhada às vezes e folgazã sim. Vivaz e espirituosa, na vida privada como nos palcos e no set. Mas bastante ponderada e consciente dos seus papéis quando se trata de tomar decisões sobre o que fazer com eles.

 Toma Brasil Pandeiro como uma indelicadeza para com os americanos e se recusa a gravar o samba, o que lhe custa a amizade com Assis Valente, que lhe cedera alguns dos seus maiores sucessos.

 Sente-se toda e só brasileira e absoluta necessidade de afirmar sua brasilidade a toda hora. Mesmo que no fundo para americanos ou quejandos isso pouco importe, porque a capital do Brasil era Buenos Aires.

Carmen Miranda/Leniza é um dos símbolos – senão o maior – da dita época de ouro, a da fixação dos estilos urbanos e de vocalização, orquestração e temática das canções. Funda-se ali também, através de uma indústria “cultural” e de entretenimento que se consolida a partir do rádio, a vida de artista, que para o senso comum ainda se caracteriza sobretudo pela permissividade sexual e vadiagem, ou malandragem.

 

REPERTÓRIO
 

O lançamento em CD de 129 gravações remasterizadas da cantora - uma caixa com cinco CDs contendo a maior parte das gravações que ela fez entre 1935 e 1940 - e do documentário Bananas is my Business, de Helena Solberg, marcaram no Brasil a passagem dos 40 anos da morte de Carmen Miranda em 1995.
A edição dos CDs foi um grande acontecimento para fãs e estudiosos da carreira da Brazilian Bombshell. Pela primeira vez muitos dos seus maiores sucessos, como O que É Que a Baiana Tem, No Tabuleiro da Baiana, Camisa Listrada e Na Baixa do Sapateiro, puderam ser ouvidos sem os chiados dos velhos 78 rotações por minuto que impediam uma melhor avaliação dos seus dotes vocais e de interpretação.
Até então só as gravações da primeira fase da cantora, entre 1929 e 1935, tinham sido remasterizadas e publicadas em CD.

Carmen Miranda cantou de tudo um pouco em matéria de música popular de grande consumo do seu tempo, sobretudo marchinhas de carnaval como Taí ou Primavera do Rio ou sambas como Burucuntum, de J.B. da Silva, o Sinhô, reavivado nos alvores dos anos 1980 com vestimenta instrumental funky (arranjo de Lincoln Olivetti) por Lucinha Turnbull.

O sucesso de Carmen na primeira fase da carreira, de 1929 a 1939 (década infausta), quando gravou 270 sambas e marchinhas, coincidiu também com a afirmação do carnaval como um dos instrumentos decisivos para a ascensão da popularidade do rádio e da consolidação da indústria do disco.

Seu repertório contém alguns dos documentos mais expressivos sobre modas e costumes da época. Em sua obra gravada estão exemplos vívidos de acontecimentos vividos e atitudes tomadas no Brasil na década de 30 do seu século. A tomada de poder de Getúlio Vargas, por exemplo, foi assinalada em sua obra com uma marchinha de carnaval que dizia o meu amor me tomou para semente in-cons-ti-tu-cio-na-li-ssi-ma-mente.  

Carmen foi também a intérprete privilegiada de alguns dos mais famosos sambas de exaltação das belezas e riquezas do paraíso tropical transracial que marcaram a vida musical brasileira do seu tempo, servindo a poderosa máquina de propaganda da ditadura Vargas.

Foi uma inovadora da interpretação musical e a cantora mais importante para a divulgação dos compositores no Brasil [e alguns deles no mundo todo]. Foi através dela que Assis Valente, Pixinguinha, Alberto Ribeiro, Vicente Paiva, Lamartine Babo, João de Barro (o Braguinha), Ary Barroso e outros chegaram ao grande público.  Havia uma espécie de lei de compensação, como lembrava Caymmi: "Ela era uma cantora que valorizava os compositores, porque sabia que a matéria-prima do sucesso é o compositor." Caetano Veloso a definiu no documentário A Embaixatriz do Samba como a figura mais importante na formação do que passou chamar-se música popular brasileira: "Do modo como ela se desenvolveu comercialmente e sobretudo da força que ela tem no plano internacional."

Ao compositor Assis Valente acabou por caber um papel peculiar no meio de toda aquela onda de euforia derivada da conquista de enorme popularidade de uma brasileira no coração do novo império colonizador, do grande mito norte-americano.

Como Noel Rosa em Não Tem Tradução, no samba Goodbye, lançado por Carmen em 1933, quando ela começou a gravar as músicas do compositor (e logo duas de uma vez - do outro lado do disco estava Etc.), Assis Valente comenta com ironia a anglinização do linguajar brasileiro em decorrência do domínio inglês no comércio e na indústria desde a abertura dos portos em 1806 e com sua paulatina substituição pelo predomínio ianque desde o início da queda do império onde o sol nunca se punha e de sua influência nos costumes locais nomeadamente através dos filmes de Hollywood

goodbye, goodbye boy, deixa a mania do inglês

é tão feio pra você, morena ou frajola

que nunca frequentou as aulas da escola

...

já se desprezou lampião de querosene

lá no morro só se usa luz da Light

Em Brasil Pandeiro, relançado com enorme sucesso artístico pelos Novos Baianos em 1972, com a mesma cintilante ironia ele comentava o clima diplomático derivado do namoro do governo americano com as colônias latino-americanas determinado pela política do New Deal e que para muita gente alavancou a carreira de sua amiga nos Estados Unidos

o tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

andou dizendo que o molho da baiana melhorou o seu prato

Carmen perdeu o amigo mas não perdeu a pose: recusou-se a lançar a música, receosa de que a sensibilidade americana não atingisse o tom da brincadeira.

Brasil Pandeiro, feito especialmente para ela levar aos EUA, não agradou: "Assis, isso não presta... que mau gosto. Acho que você ficou borocoxô". ... Carmen, claro, não era boba e desejava continuar nas boas-graças dos americanos, temendo o caráter irreverente da música ... e a maneira como ele mostrava os americanos curtindo aquela exótica música tropical: Há quem sambe diferente / Noutras terras / Outras gentes / Num batuque de matar. Embora tivesse cantado a música uma vez na Rádio Mayrink Veiga, ela não a gravou. Essa afronta Assis nunca perdoou, principalmente porque sacou que a música era boa mesmo, sendo gravada com sucesso no mesmo ano pelo conjunto Anjos do Inferno.

Carmen manteve Goodbye em seu repertório nos Estados Unidos

 Espampanante, um tanto destrambelhada às vezes e folgazã sim. Vivaz e espirituosa, na vida privada como nos palcos e no set. Mas bastante ponderada e consciente dos seus papéis quando se trata de tomar decisões sobre o que fazer com eles.

 

Pela sua projeção, reuniu ao seu redor a nata de compositores, músicos e cantores. O conjunto regional de Como Vaes Você, por exemplo, é comandado por Pixinguinha. Dalva de Oliveira e seu Trio de Ouro dividem com Carmen os vocais de Na Bahia.  Silvio Caldas revela-se parceiro constante em duetos. Teve outros parceiros ilustres como a irmã Aurora (Cantoras do Rádio), Francisco Alves, Caymmi, Almirante, Ary Barroso. Breno Ferreira está no contracanto da antológica gravação de Malandro (André Filho).

Em 1938 grava o samba-jongo Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso) sem obter sucesso, mas posteriormente Walt Disney incluiu a música numa cena em que Aurora aparecia cantando ao lado de personagens e cenários típicos e aí a música foi sucesso no mundo inteiro. Carmen também gravou No Tabuleiro da Baiana do mineiro Ary Barroso com Luís Barbosa e sua suíte Quando Eu Penso Na Bahia com Silvio Caldas. O Que É Que a Baiana Tem? fez um sucesso enorme e até popularizou a palavra balangandãs, pouco conhecida no sul, lançando definitivamente para o sucesso Dorival Caymmi. E a melhor receita do que Tárik de Souza chamou de vatapá de exaltações à Bahia que surgiu em sequência é a do próprio baiano Caymmi, que estreou em dupla com Carmen Miranda na "scena typica bahiana" A Preta do Acarajé, de 1939, e depois gravou Você Já Foi à Bahia? (do filme The Three Caballeros, de Walt Disney) com os Anjos do Inferno.

Em A Preta do Acarajé a então desconhecida Dalva de Oliveira fazia o backing vocal nos agudos que a voz de Carmen não alcançava.

A gravação de Anoiteceu, tida por uns quantos como uma das melhores composições de Ary Barroso, teve o acompanhamento dos Diabos do Céu (Pixinguinha, Donga, João da Baiana - uma santíssima trindade da música popular carioca - entre outros).

Gravou 313 faixas, das quais um terço no quinquênio em que foi contratada da Odeon. 270 no Brasil e 32 nos Estados Unidos. Ela ainda atuou em seis filmes nacionais e 14 nos Estados Unidos.

Não foi grande cantora, não dançava bem, estava longe de ser boa atriz, não era muito bonita. No entanto foi das mais brilhantes estrelas do show business internacional e ainda é presença muito viva na memória de seus fãs. Aclamada ou desdenhada, com chiado ou sem chiado, a cantora poderia não ter aquela voz, mas tinha timbre e como.  E vivacidade, alegria. Espontaneidade. Como as gravações eram feitas em take único, vocal e instrumental, ia tudo junto. E chega ao ouvinte tudo junto. Parece que a banda, o bloco, a rua enfim - porque parece que a banda, o bloco, estão na rua - entram em casa ou no jardim. Com aquela vivacidade, alegria, espontaneidade... e o resto. Ouvir as melhores (e melhores, para a época, são o que são) gravações de Carmen Miranda é uma experiência tras-bordan-te. Entra-se num transe. E a casa, o estúdio, o jardim, enfim... viram aquela rua. Rio de Janeiro, década de 1930, tempos que se diria, apesar da década infausta, mais alegres. Ou a alegria era toda dela?

De fato,  Parece que a cantora está dentro do gramofone. Vitrola, toca-disco, CD player, MP...10...

REPERTÓRIO  dessa época  alguns exemplos além do já citado e a citar dos melhores momentos brasileiros de Carmem Miranda

O Tique-Taque do Meu Coração, do pianista Alcyr Pires Vermelho e do baterista Walfrido Silva, Camisa Listada (Assis Valente), Adeus Batucada (do seu motorista Sinval Silva), E o Mundo Não Se Acabou (Assis Valente), Carnavá Tá Aí (Pixinguinha), Tenho Um Novo Amor (Cartola), Tão Grande, Tão Bobo (Assis Valente), Assim, Sim (marchinha do trio elétrico Francisco Alves, Ismael Silva e Noel Rosa).

O QUE É QUE A BAIANA TEM?

Existem duas versões cinematográficas de interpretações de Carmen Miranda de O Que é Que a Baiana Tem, que lançou em duo com o autor, Dorival Caymmi. As duas com acompanhamento do Bando da Lua. A de Banana da Terra é de longe a mais expressiva e "autêntica", se quisermos, porque para americano a capital do Brasil era Buenos Aires mesmo - e olhe lá, porque Baires era uma coqueluche naqueles tempos. Os ritmos das músicas que ela cantava nas fitas de Hollywood, mesmo querendo vir a propósito e apesar do Bando da Lua, pouco tinham a ver com o Brasil, estavam mais para rumbas... estilizadas.

    A FALSA BAIANA

                                                        

Dorival Caymmi com seu violão característico e a voz grave são um caso à parte. Ele contracena com Carmen na cantiga infantil Roda Pião, no pregão de rua A Preta do Acarajé e em O Que É Que a Baiana Tem?, música que determinaria a viagem da cantora aos EUA e cuja coreografia de requebros se transformaria em seu clip e logomarca.

A personagem que fez da atriz a mulher que mais pagava imposto de renda nos Estados Unidos em 1946 nasceu em Banana da Terra, de 38. Por achar um absurdo a estrela ganhar 20 contos de réis e ele apenas cinco, Ary Barroso retirou Na Baixa do Sapateiro do filme, deixando o caminho livre para um jovem músico baiano. Dorival Caymmi só precisou cantar O Que É Que a Baiana Tem uma vez para garantir o emprego. Ex-ajudante da chapeleira francesa Madame Boss, Carmen pediu que a irmã Aurora comprasse "três Bs" (bom, bonito e barato) e confeccionou a fantasia que ia vestindo à medida que a música era cantada. Foi essa imagem que o empresário Lee Schubert levou para os Estados Unidos.

O QUE É QUE A BAIANA TEM?

Abel Cardoso Junior lembra por exemplo no texto de apresentação de O Que É Que a Baiana Tem que Carmen deveria cantar uma música de Ari Barroso para a trilha do filme Banana da Terra, no qual apareceria vestida de baiana pela primeira vez. Mas Ari Barroso cobrou caro por Na Baixa do Sapateiro e a produção foi procurar outro samba que falasse da Bahia. Almirante lembrou-se de que fora apresentado a um certo Dorival Caymmi - isso aconteceu em 1938 - que tinha um samba: O Que É Que a Baiana Tem. Acharam a letra curta, pediram a Caymmi que a aumentasse, falando da roupa da baiana. E por causa da descrição de Caymmi foi criada a baiana estilizada com que Carmen ganharia Hollywood.

Lançado às vésperas do carnaval, o filme Banana da Terra [de João de Barro, de 1938] foi marco importante por muitos motivos: o enredo saboroso, o lastro musical, a desenvoltura dos atores, o apuro técnico e por ser o último filme de Carmen no Brasil.

Almirante relatou: "Nesse filme, nós íamos cantar Boneca de Piche e No Tabuleiro da Baiana de Ary Barroso. Estava tudo combinado, tudo pronto para a gravação e a filmagem, até os figurinos, quando surgiu o Ary querendo receber 5 mil cruzeiros (antigos) por música, soma bastante alta para a época. ... Saímos pela cidade procurando Ary, esperando convencê-lo a abrir mão do dinheiro. Mas ele desapareceu e a filmagem não podia esperar. Precisando substituir as músicas, os produtores começaram por Pirulito Que Bate, Bate, de João de Barro e Alberto Ribeiro, que nada tinha a ver com as roupas de Boneca de Piche, mas acabou ficando. Quando se pensava no número da baiana, me lembrei de um compositor desconhecido que estava sempre na Rádio Nacional, ele se chamava Dorival Caymmi e tinha acabado de compor O Que É Que a Baiana Tem?.

 

O Que É Que a Baiana Tem? fez um sucesso enorme e até popularizou a palavra balangandãs, pouco conhecida no sul, lançando definitivamente para o sucesso Dorival Caymmi.

REPERTÓRIO

Camisa Listrada  samba-choro

FILMOGRAFIA BRASIL

Arnaldo Jabor: Só existem oito minutos de cenas de Carmen filmadas no país. Não só os filmes eram mal preservados. Vemos mais que isso nas dolorosíssimas imagens precárias do nosso passado: é que a realidade era também trêmula e mal preservada, que tudo era ingênuo e pobre, que éramos atores "aquém" de nossa época.

No Brasil fez 6 filmes e em Hollywood 14.

DESPREZO

de todos seus filmes brasileiros só resta Alô, Alô Carnaval.

Foi no Cassino da Urca, acompanhada pelo Bando da Lua e fazendo o número O Que É Que a Baiana Tem?, adaptado para o palco, que despertou o primeiro click no empresário Lee Schubert e sua amante Sonja Henie, que a convidaram para cantar na Broadway. ... Depois de sua ida, produtores inescrupulosos incluíram num filme menor, Laranja da China, o quadro da baiana roubado de Banana da Terra, ... Esse filme representa os primeiros sinais da deterioração alienada do filme musical, abrindo caminho para as chanchadas da Atlântida.

FILMOGRAFIA BRASIL

REPERTÓRIO

DA CINÉDIA A HOLLYWOOD

A Voz do Carnaval não é, como afirmam, o primeiro filme de Carmen Miranda, que já tinha participado de um média-metragem feito um ano antes pela V.R. Castro Produtora e que se chamava O Carnaval Cantado no Rio. Quanto a A Voz do Carnaval [de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, 1933], sabe-se que é um documentário estreado às vésperas do carnaval e com trilha sonora dando o brado retumbante das marchinhas e dos sambas. Nele, Carmen só fazia números de microfone. 

[Em 1935] o filme musical retomou seu ritmo com Alô, Alô Brasil [de Adhemar Gonzaga, 1935], feito nos estúdios da Cinédia, em condições precárias, com som direto: a música era gravada com um só microfone, ao mesmo tempo em que era filmada a cena com uma só câmera. Carmen cantava-interpretava dois números: Primavera no Rio e Salada Portuguesa, o último em dueto com Manoel Monteiro, célebre cantor de fados. No enredo de João de Barro e Alberto Ribeiro, Mário Reis lançava a inesquecível Rasguei Minha Fantasia; Francisco Alves cantava o samba Foi Ela, na base da tradicional dor de cotovelo, e Aurora Miranda interpretava o futuro hino do Estado da Guanabara, Cidade Maravilhosa. O inesperado sucesso do filme fez com que Wallace Downey, produtor do primeiro filme musical brasileiro, Coisas Nossas (produzido em São Paulo, ainda pelo processo de usar o disco para o som), investisse em Estudantes, filme que abordava as festas juninas.

Prossegue o ciclo carnavalesco com Alô, Alô Carnaval (de Adhemar Gonzaga, 1936], onde Carmen e Aurora, juntas, cantavam com esmero e encanto Cantoras do Rádio, e Carmen, sozinha, de palazzo pijama de lamê, diabólica, sensual, rebolativa, instigava: "Adão, meu querido Adão / Todo mundo sabe que perdeste o juízo / Por causa da serpente tentadora / O nosso mestre te expulsou do paraíso...."

Lançado às vésperas do carnaval, o filme Banana da Terra [de João de Barro, de 1938] foi marco importante por muitos motivos: o enredo saboroso, o lastro musical, a desenvoltura dos atores, o apuro técnico e por ser o último filme de Carmen no Brasil.

PARTIDA

     CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

                                    fenômeno da cultura de massa doéséculo XX   

            Bananas Is My Business

                                     

                          S.S. Uruguay    STREETS OF PARIS    Tropicana

 

 

Carmen foi descoberta por um empresário americano no Cassino da Urca, a catedral das noites cariocas até os anos 50, cujos shows, segundo um cronista, tentavam exaltar "a força e a grandeza dos Estados Unidos",  segundo a política de boa vizinhança do presidente Franklin Roosevelt. [Ainda não] Eram tempos de New Deal, quando na alavancada para transformar-se numa das maiores potências do mundo os Estados Unidos decidiriam demarcar o quintal dos fundos, abaixo do Texas. O Brasil de Getúlio Vargas estava de namorico com a Europa dos Ditadores. Roosevelt estende-lhe a mão viril e abre-lhe as portas da Broadway, de Hollywood e do Tropicana (Havana, Cuba) - tudo a que um artista poderia aspirar naquele tempo - para que mostre ao mundo o que havia de melhor no bananal - exotismo tropical. Nos braços de King Kong Lupe Velez era The Mexican Spitfire; Carmen, The Brazilian Bombshell,  

O empresário Lee Schubert e sua namorada Sonja Henie, a famosa ex-patinadora alemã, ficam basbaques no show do cassino, hoje sede do Instituto Europeu de Design, (para quem não é do ramo e do tempo, ou vice-versa) ao lado do Morro Cara de Cão, onde a cidade foi fundada ia para 400 anos), com aquela baianinha brrraaanca e indiabrada, acompanhada pelo Bando da Lua, em que pontificava Aloysio de Oliveira, que conhecera ia para nove anos e que para a crônica ficou como paixão de sua vida e para a história como um dos artífices de proezas dos filmes em que Walt Disney lança Joe Carioca para o estrelato internacional, a voz de Disney nos programas da Disneylândia, emérito produtor de discos e como tal um dos fautores do estouro da bossa nova e parceiro de Tom Jobim em Inútil Paisagem entre outras bossas novas.

Foi no Cassino da Urca, acompanhada pelo Bando da Lua e fazendo o número O Que É Que a Baiana Tem?, adaptado para o palco, que despertou o primeiro click no empresário Lee Schubert e sua amante Sonia Henie, que a convidaram para cantar na Broadway. ... Depois de sua ida, produtores inescrupulosos incluíram num filme menor, Laranja da China, o quadro da baiana roubado de Banana da Terra, ... Esse filme representa os primeiros sinais da deterioração alienada do filme musical, abrindo caminho para as chanchadas da Atlântida.

Luiz Henrique Saia, em Carmen Miranda RODANDO A BAIANA, precioso livrinho da coleção Encanto Radical  da Editora Brasiliense, São Paulo, 1984, aqui profusamente citado, conta que, no camarim, Carmen não deu muita bola para o convite de Lee e Sonja para se apresentar na Broadway, até porque já cansada de cantadas do gênero que não tinham dado em nada (imagina!). De regresso aos Estados Unidos a bordo do S.S. Normandie, o casal promove uma festa de fantasias em que a ex-patinadora que então já só patinava em filmes de Hollywood usou uma das baianas que Carmen tinha lhe dado de presente. Quando Sonja apareceu os turistas aplaudiram histericamente, gritando: "Carmen", "Samba". Schubert, que não era bobo, no ato comprou a idéia que a própria Sonja lhe instigara e imediatamente pensou no futuro brilhante que Carmen não seria para o seu bolso. Sonja Henie ganhou o primeiro prêmio e Carmen Miranda alguns dias depois recebia um telegrama estabelecendo as bases sólidas para o contrato de 400 dólares por semana.

Ora, transcorrendo desse modo e assim contada essa estória é 

      CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

                    fenômeno da cultura de massa do século XX

Foi para os Estados Unidos pela primeira vez, em 4 de maio de 1939. PARTIDA  Embarca no navio Uruguai, acompanhada pelo Bando da Lua.

STREETS OF PARIS

Carmen foi convidada pelo empresário norte-americano Lee Schubert para fazer uma temporada na Broadway. Atuando em apenas seis minutos do show Streets of Paris, conquistou os norte-americanos de tal modo que logo foi contratada para trabalhar em Hollywood, onde estrearia em 1940.
 

Diz que Schubert não topou no ato contratar também o Bando da Lua, que foi o Velho que convenceu Carmen Miranda a insistir com o empresário para que o futuro Moon's Gang fosse contratado, que

Acontece que pela mesma época realizava-se a grande Feira Mundial em Nova York - lembra Vadeco. - Tínhamos amigos importantes, Lourival Fontes, Alzirinha e Lutero Vargas, de modo que conseguimos ir para o pavilhão brasileiro. Lá, Schubert topou nos contratar. Estreamos na revista Streets of Paris, que ficou um ano e meio em cartaz.

Folha - Existe uma referência forte no filme sobre o significado da chegada dela aos EUA.

Helena Solberg - Sim. Nós encontramos em um jornal da época. O que dizia era que quando Carmen chegou aos EUA todos souberam que a Depressão havia terminado.

David Meyer - E isso tem relação com a força e dignificação dela. Poucos meses depois de chegar ela já tinha gravado as mãos e os pés na "calçada da fama" de Hollywood.

STREETS OF PARIS

Carmen Miranda estourou nos Estados Unidos em 1939, meses antes do início da II Guerra Mundial, quando Roosevelt não havia sequer concebido sua política de boa vizinhança. Ela foi a grande sensação do espetáculo As Ruas de Paris, encenado na Broadway, onde cantava músicas como Mamãe Eu Quero e Touradas em Madri, que logo ocuparam as rádios. 

No dia 29 de maio, estreia em pré-temporada de teste em Boston o musical Streets of Paris, em que atua durante seis minutos

Streets of Paris estreia na Broadway no dia 16 de junho de 1939.

O TIO SAM ESTÁ QUERENDO CONHECER A NOSSA BATUCADA

Assim, nos primeiros dias de maio de 1939, Carmen Miranda embarcava a bordo do S.S. Uruguai com o Bando da Lua, lá conhecido como The Moon's Gang. Depois de uma semana de fase experimental em Boston a revista estreou na Broadway, no Broadhurst Theatre, onde ficou um ano em cartaz. Vadeco, ex-integrante do Bando da Lua, declarou: "Nunca houve caso de outra atriz estrangeira que tenha chegado à Broadway e abafado no primeiro momento como Carmen Miranda." Nesse espetáculo ela cantava: Touradas em Madri, Marchinha do Grande Galo, Bambo do Bambu, Mamãe Eu Quero e a rumba South American Way. Aloysio de Oliveira conta em seu livro: "E lá estávamos em Boston no dia da estreia. Um grupo de brasileiros nervosos naquele ambiente estranho. Foi quando entramos no palco que senti realmente aquela dimensão que a Carmen possuía. Não foi fácil descrever o que vi na minha frente. Do meu lugar eu observava a Carmen e depois a plateia, que aos poucos ia ficando hipnotizada com a presença daquela moça de pequena estatura, que se agigantava a cada segundo. Seus olhos não brilhavam: faiscavam. Seus movimentos pareciam ter sido preparados por uma Eleonora Duse. Suas mãos davam a impressão de traduzir as palavras que brotavam do sorriso contagiante. Quando no último número ela pronunciou a primeira palavra em inglês: The Souce American Way o teatro inteiro vibrou. ... Os aplausos foram extraordinários. Quando saímos do palco, aquela Carmen vibrante e nervosa disse para nós: "Não estou entendendo nada. Como é que esses gringos gostam de uma coisa que não entendem?"

Alguns meses após sua chegada a imprensa a chamou de "The Girl That Saved Broadway From The World's Fair" e uma das mais importantes lojas de Nova Iorque, o Sacks Fifth Avenue, dedicou todas as suas vitrines ao lançamento da moda baiana, onde os manequins tinham o rosto e os gestos da Brazilian Bombshell. Um jornal declarava meses depois da sua chegada: "Carmen Miranda introduziu em Nova York alguma coisa que até agora estava faltando, alguma coisa que até este momento era desconhecida do povo norte-americano: a dinâmica personalidade de uma sul-americana que provou não ser necessária a nudez para causar sensação. Carmen Miranda serviu igualmente para fomentar aquilo [a] que se chama 'febre sul-americana'. E mais que tudo, por ter invadido um campo que até agora era apenas de Paris: o campo da moda feminina. Carmen introduziu os enormes e coloridos turbantes com que se apresentava na revista Streets of Paris, e desde essa ocasião os modismos passaram a desenhar os 'turbantes à Carmen Miranda' ou 'turbantes à sul-americana'. Também os joalheiros estão ocupados dia e noite atendendo aos pedidos das mulheres que, hoje em dia, só querem se apresentar com três ou quatro colares de cores distintas, iguais aos que Carmen usa com suas roupas de baiana. Por tudo isso, Carmen passou a ser citada entre as dez mulheres mais salientes do ano."

A 11 de março de 1941 - um ano e meio apos ter pisado solo americano primeira vez  -, deixou a marca de mãos e pés na Calçada da Fama de Los Angeles, selando o inicio de uma década de estrondoso sucesso (chegou a ganhar o maior cachê da meca do cinema).

 

 

         

CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

DESPREZO I

O mito vive mas apesar de tudo no Brasil, sua terra, não se nota muito.

MUSEU  Carmen Miranda é tema constante de performances de música e teatro e de concursos de beleza ao redor do mundo, mas no Brasil Dulce Tupy, ex-diretora do Museu Carmen Miranda do Rio de Janeiro, chegou a queixar-se de ter de implorar por espaço na imprensa para divulgar uma exposição de fotografias, cartazes e filmes da cantora em 1992.
Trajes de cena, vestidos de noite, as imortais sandálias-plataforma, pulseiras, colares, turbantes, fotos, cartazes e convites de filmes e shows, folhetos publicitários e troféus. O acervo de mais de três mil peças do museu carioca está em constante crescimento graças às doações de colecionadores e foi substancialmente enriquecido com centenas de peças da coleção de Cassio Barsante, jornalista brasileiro que organizou Carmen Miranda, o álbum com a mais completa coletânea de fotos da cantora.
O Museu foi montado numa pequena construção redonda em estilo moderno, encoberta pelas árvores numa das extremidades do Parque do Flamengo, a partir de um projeto do arquiteto Eduardo Reidy, que se notabilizou com a planta do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, na outra extremidade do parque.

A construção foi projetada para ser um sanitário infantil. Não tinha a estrutura necessária para abrigar um museu e por isso o prédio foi reformado. Antes de ser Museu Carmem Miranda o espaço serviu de sede do Museu de Artes e Tradições Populares.
 

Não há na violência que a linguagem imita algo da violência propriamente dita? - Antônio Carlos de Brito, Cacaso, As Aparências Revelam
 

O estranho edifício lembra algumas das obras mais polêmicas de Oscar Niemeyer, o criador dos principais edifícios públicos de Brasília.
O museu parece um bunker, com pequenas vigias por onde quase não entra luz.
Lá dentro, entre manequins e vitrines com objetos da estrela, respira-se uma atmosfera de mausoléu, como a da câmara funerária do presidente Juscelino Kubitschek no Memorial JK, em Brasília, assinado por Niemeyer.
Vestidos, balangandãs e fotos do museu dão apenas uma pálida imagem da grande vitalidade da Pequena Notável, como a chamou Almirante porque tinha 1,53 m de altura, e do coquetel de cores, ritmo, alegria e "genica" (ou pique) tropical com que conquistou o mundo.
Fosse em outro pais o museu teria uma sala de projeção e retrospectivas periódicas de alguns de suas quase duas dezenas de
filmes (cinco ou seis brasileiros, dos quais só um foi preservado, e 14 norte-americanos) e dos filmes de sua época - a do apogeu dos musicais nos EUA e no Brasil.
O museu poria à disposição do publico os discos que gravou - devidamente remasterizados e trranspostos para CD ou em réplicas dos de 78 rpm, os de 33 rpm lançados por vários pequenos selos desde sua morte, enfim... E promoveria eventos alusivos a sua obra não apenas no seu centenário (1909-2009) ou octogenário do início de carreira (1929-2009) ou septuagenário da partida para os Estados Unidos (1939-2009).
Esquecido sob as árvores de uma aléia do parque, entre as duas pistas de alta velocidade do Aterro do Flamengo e o corredor de passagem pelo Morro da Viúva, o pequeno museu é a expressão exata do esquecimento em que caiu em seu pais adotivo um mito só comparável aos de Pelé e Ayrton Senna.
Mais de metade das cerca de duas mil pessoas que o visitam anualmente são estrangeiras, como se ali não estivesse a memória de um ícone da idade áurea do celulóide made in Brazil.
Divas de celulóide foram feitas para brilhar apenas nas telas? Ou é só o desprezo que os brasileiros devotam aos compatriotas de sucesso como se queixava outro brasileiro de renome internacional, o maestro Antonio Carlos Jobim.
O criador da bossa nova, que por causa disso foi também foi acusado de ter "americanizado" a musica popular brasileira,  via no famoso episódio de rejeição da cantora pelo público do Rio de Janeiro, após uma temporada de sucesso na Broadway, em 1940, um claro sinal desse desprezo. Tom costumava dizer que os brasileiros não sentem orgulho de seus talentos, como seria exemplo o próprio Pelé. Ao contrário. Segundo ele, sentem é inveja do seu sucesso.

Só existem oito minutos de cenas de Carmen filmadas no país. Não só os filmes eram mal preservados. Vemos mais que isso nas dolorosíssimas imagens precárias do nosso passado: é que a realidade era também trêmula e mal preservada, que tudo era ingênuo e pobre, que éramos atores "aquém" de nossa época.

DESPREZO

Os promotores da reedição de "gravações limpas", remasterizadas, de Carmen Miranda na década de 1990 experimentaram o gosto da decepção. Apostavam muito no carisma de Carmen, na fidelidade de seus fãs, na raridade das gravações que, limpas, fariam a delícia dos colecionadores. Pois nada disso aconteceu.

O que parece confirmar a desconfiança de mestre Jota Efegê de que "fã de Carmem Miranda não é muito de disco". Ou seja, prefere o visual à voz.

SERÁ?

Não é de hoje, porém. [Com toda aquela alegria, vitalidade, "genica" (ou pique)...] Foi rejeitada aqui como "americanizada" e deformada no Norte como uma reles "chicana" cômica. (Arnaldo Jabor)

Desde os anos 40 e até sua morte em 1955 difundiu uma imagem ambígua do Brasil: de um lado havia a alegria latina - que representou explosivamente -, de outro a imagem um tanto caricatural de um país atrasado (ligado exclusivamente à agricultura).

Helena Solberg: Carmen é uma personalidade da cultura de massa americana.

David Nasser, logo quem, acusou-a de "achincalhar o Brasil", com a salada de frutas que usava na cabeça.

Para os jornais da época Carmen Miranda era apenas "uma portuguesa cantando músicas negróides de mau estilo".

DESPREZO

No Rio de Janeiro de 1947 o então vereador Ary Barroso estava sendo criticadíssimo por propor à Câmara uma homenagem oficial a Carmen Miranda ... Ele queria condecorá-la com uma medalha de ouro e os títulos de Cidadã Carioca e Embaixatriz Artística do Brasil.

 O Brasil já tinha lhe aprontado algumas, inclusive o fato embaraçoso de negar-lhe o passaporte brasileiro,  que só lhe foi concedido no fim de sua vida. A proposta de Ary Barroso foi recusada.

 

CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

DESPREZO II

1940

DISSERAM QUE VOLTEI AMERICANIZADA  De volta ao Brasil, é acusada, devido a um show no Cassino da Urca, de se ter americanizado.

Naquela noite, cinco dias após chegar de sua temporada de estreia nos Estados Unidos ..., a cantora viveu sua primeira manifestação negativa do Brasil em relação aos rumos que sua carreira começava a tomar. O misto de vergonha e desprezo que invadiu o Cassino esconde até hoje uma questão fundamental para se entender o mito: seus trejeitos e balangandãs. Carmen Miranda fez uma caricatura do Brasil, justificando a rejeição da Urca, ou realmente espalhou cultura brasileira pelo mundo?

Seus seis minutos diários de sucesso na peça que apresentara na Broadway já tinham proporcionado um contrato com a 20th Century Fox para a realização de musicais em Hollywood. Em dezembro de 1939 já havia gravado algumas canções americanas feitas especialmente para ela - South American Way, I Want My Mamma, Bamboo-Bamboo, entre outras - que Carmen preparara para arrebatar o público do Cassino. Só que, ao contrário do povão que estava na rua, a elite presente naquela noite beneficente, promovida pela primeira-dama Darcy Vargas, torceu o nariz empinado assim que Carmen - brincando? - cumprimentou-os com um "Good night people" [ou terá sido "Good evening people"?]. Ela cantou alguns números americanos e depois, tentando reverter a situação, interpretou O Que É Que a Baiana Tem?, número que a consagrara um ano antes na mesma casa de espetáculos. A plateia não se alterou e Carmen foi chorar no camarim. 


Um ano antes, o publico do Cassino da Urca, onde atuava desde o inicio da carreira, a ovacionava. Carmen acabava de lançar mais um grande sucesso, O Que É Que a Baiana Tem, dando voz, através da canção de Dorival Caymmi, à personagem que passara a encarnar nos palcos: a (falsa?) baiana.
Para os biógrafos da estrela Carmen não foi para a capital do cinema para propagandear a amizade EUA-latinos, como se diz comumente, mas em virtude do seu sucesso na Broadway.
Para a intelighensia brasileira da época, ela errou de qualquer modo ao aceitar "americanizar-se" e ajudar Hollywood a dar uma imagem
fake de si mesma e de seu pais adotivo.

DISSERAM QUE VOLTEI AMERICANIZADA

O cronista social dos anos 40 Caribé da Rocha estava lá e deu um excelente depoimento sobre aquele show fatídico.

Depois de um ano e meio ausente, Carmen Miranda, com saudades, resolveu passar alguns meses no Brasil, sendo recebida num desfile que parou a cidade, sob intensa aclamação popular.

Joaquim Rolas, o dono do Cassino da Urca, quis reapresentá-la ao seu público e preparou uma estreia de gala, num espetáculo onde estariam presentes a nata do high society e os jornalistas e críticos e que foi um desastre. O público transformou o cassino em um ... iceberg e muitos vaiaram o show, que ela abria cantando South American Way. O mestre de cerimônias, Carlos Machado, lembrou o episódio: "O repertório de Carmen só tinha duas músicas brasileiras e o público ficou gelado. No fim do quinto número, Carmen abandonou o microfone e passou por mim atordoada, dizendo: 'Machado, eu não canto mais'.  Aloysio de Oliveira lembrou em seu livro de memórias: "Cantamos juntos O Que É Que a Baiana Tem? como um encore do que havia acontecido da última vez e o gelo foi ainda maior. A Carmen retirou-se do palco aos prantos e revoltada."

Rolas contratou Vicente Paiva e Luiz Peixoto para refazerem o repertório da cantora e Machado foi pessoalmente com os compositores convencê-la a ensaiar as novas músicas e voltar a enfrentar o público. O repertório criado em uma semana incluía: Disseram Que Voltei Americanizada, Disso É Que Eu Gosto, Voltei Pro Morro, Bruxinha de Pano e a engraçada Diz Que Tem (Vicente Paiva-Aníbal Cruz), todas músicas-respostas para as críticas desfavoráveis.

Carmen retribuiu o apoio que recebeu de Carlos Machado no Cassino da Urca, quando uma estreia desastrosa foi compensada por quatro semanas de êxito espetacular. Se a vaia marcou profundamente sua vida, em sua cabeça ficou a impressão negativa de um público sem personalidade.

DESPREZO

Paulo Francis: Luzes apagadas e a plateia se espalhava em risos com Carmen, vivaz, deliciosa, sempre, mas sempre cantando um número inteiro em português como deve ser cantado. Depois dela só Elis nos deu esse humor picante, charme único do Rio.

Paulo Francis escreveu de Nova York [1983]: "Revi domingo Aquela Noite no Rio de 1941. Com Carmen Miranda. Me lembro da ocasião da estreia. Todo mundo deliciado, no escuro. Na saída, todo mundo reclamando que Carmen nos representava como 'macaquitos' (de que já nos chamavam os argentinos) para divertir os americanos. Ou seja: as pessoas adoraram Miranda, 'coisa nossa' brilhando em Hollywood, mas só na escuridão protetora do cinema. Na rua virávamos patriotas. ... Só uma cantora está no nível de Carmen Miranda: Elis Regina. As duas partilham uma vivacidade, verve, uma intensidade que me parecem entorpecidas sob baianismos e outras forças estranhas. O 'cai, cai, eu não vou te levantar' dela neste filme não pode ser melhorado. Carmen sempre insistia num número autenticamente brasileiro em todos os filmes. ... O sucesso dela nos EUA nunca foi igualado por qualquer outro brasileiro. Era uma estrela americana e internacional. Só no Brasil era vilificada (e respondeu memoravelmente em Dizem Que Voltei Americanizada) e é até hoje, como Judy Garland e Joan Crawford, ídolo das bichas. ... Carmen caiu por causa do 'macartismo'.  Estava sem calcinhas numa fotografia, o que lhe valeu campanha política e fim de carreira, naquele período anterior de 'maioria moral'. ... Macaquito? Sem dúvida. Ralph Ellison, negro, escreveu O Homem Invisível sobre o negro americano que o branco não quer ver. É meio difícil não ver brancos, mas se de uma cultura 'estranha' como a brasileira é preciso apalhaçá-la, para não assustar a 'maioria moral'. Hollywood fez isso com franceses, russos, alemães, ingleses, por que escaparmos? Mas Carmen, como Groucho Marx (uma sátira ao judeu vigarista feita por um judeu de gênio), tirou o máximo do que lhe deram. O filme só sobe quando ela está em cena, já que Don Ameche e Alice Faye nasceram sete palmos abaixo. Quem se lembra de Alice (que quando garoto achei gostosíssima)? Carmen é imortal."

MITO                                                               

CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

psicotropicamp

                                        

                                                    

Filme e CDs ajudaram a tirar o mito Carmen Miranda do total esquecimento em que caíra no Brasil. Já nos EUA ele sempre foi bastante cultuado. Talvez porque ele nasceu na Broadway e em Hollywood e a Copacabana de seus filmes era de papelão.
Quem se lembra hoje de Cesar Romero, o ator mexicano com quem Carmen Miranda contracenou em vários filmes, ou de seu conterrâneo Lupe Velez, o "Mexican Spitfire"?
Quase ninguém. Como Romero ou Velez, Carmen teria sido pouco mais ou pouco menos ou mais... ou menos... uma arma de propaganda contratada por Hollywood no âmbito da campanha de "política de boa vizinhança" dos Estados Unidos com os paises latino-americanos, que Washington pretendia desviar da área de influência dos paises do Eixo no inicio da II Guerra Mundial.
Setenta anos depois do estrondo a
Brazilian Bombshell mantém-se no panteão das estrelas de Hollywood côté psicotropicamp com Marlene Dietrich, Joan Crawford, Bette Davis, Judy Garland e Gloria Swanson.
Mulheres maiores que as de carne e osso - escreveu Paulo Francis, para quem Carmen Miranda foi o único sinal de vida naqueles coloridos enjoativos da Fox, com as múmias Don Ameche, Cesar Romero, Alice Faye e John Payne.
Rainha de um paraíso dos mares do sul, ela cria momentos inesquecíveis para os amantes do cinema, dizia o jornal Le Monde, de Paris nos anos 1970 a propósito de sua atuação em
The Gang's All Here.

IDENTIDADE

                                                   

                                                 

quando Schubert a contratou, ele exigiu que ela fosse apresentada como The South American Bombshell, mas ela respondeu-lhe convicta: Não aceito! Tem que ser como The Brazilian Bombshell

"Carmen Miranda é brasileira, já a Maria do Carmo, conquanto nascida em Portugal, poderia reivindicar a condição de brasileira, pois foi pequenina para o Brasil. Mas desde que, com a retirada do meu nome de batismo, surgiu a Carmen Miranda, apareceu uma cantora brasileiríssima. Vejam o meu repertório, vejam os nomes que nele surgem a cada momento. Olhem para mim e vejam se não tenho o Brasil em cada curva do meu corpo."

 

tudo aquilo que o malandro pronuncia

com voz macia é brasileiro

já passou de português

Noel Rosa - Não Tem Tradução 

Carmen, uma mulher de ascendência portuguesa, popularizou a música não-européia e tribal de uma antiga colônia de seu país.

Foi rejeitada aqui como "americanizada" e deformada no Norte como uma reles "chicana" cômica.

A FALSA BAIANA

Identidade é a questão em Carmen Miranda, a "portuguesinha" criada e que atinge o estrelato nacional-brasileiro no Rio de Janeiro, que se destaca nos Estados Unidos e daí no mundo travestida de baiana, casada com um cidadão norte-americano e que afinal se "americaniza" ou se "achicana". Afinal o cinema falado é o grande culpado da transformação  dessa  gente  que  pensa  que um barracão prende mais que um xadrez,

tudo aquilo que o malandro pronuncia

com voz macia é brasileiro

já passou do português

 

"Carmen Miranda é brasileira, já a Maria do Carmo, conquanto nascida em Portugal, poderia reivindicar a condição de brasileira, pois foi pequenina para o Brasil. Mas desde que, com a retirada do meu nome de batismo, surgiu a Carmen Miranda, apareceu uma cantora brasileiríssima. Vejam o meu repertório, vejam os nomes que nele surgem a cada momento. Olhem para mim e vejam se não tenho o Brasil em cada curva do meu corpo.A FALSA BAIANA

caricatura da latinidade, das frutas na cabeça, dos balangandãs e olhinhos faiscantes.

Para os biógrafos da estrela Carmen não foi para a capital do cinema para propagandear a amizade EUA-latinos, como se diz comumente, mas em virtude do seu sucesso na Broadway.
Para a intelighensia brasileira da época, ela errou de qualquer modo ao aceitar "americanizar-se" e ajudar Hollywood a dar uma imagem fake de si mesma e de seu pais adotivo.

CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA

GLAUBER ROCHA

e Glauber chamar Carmen Miranda de agente do imperialismo

Mas o filme de Helena Solberg é a análise de uma geração que desprezava o samba, feita por uma representante da geração que desprezava o imperialismo americano.  

POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA

Arnaldo Jabor: Apenas, Rockfeller tinha criado o Office for the Co-Ordination of Interamerican Affairs. A única finalidade de toda aquela "boa vizinhança" era que os latinos não se aliassem a Hitler e que os produtos americanos tivessem mercado aqui, caso algo acontecesse com a Europa.

Tivemos depois as Operações Pan-Americanas, a Aliança para o Progresso e temos hoje o grande cassino charmoso do neoliberalismo.

Sérgio Cabral - Carmen Miranda, hoje

Quando chegou aos Estados Unidos, em 1939, a política de boa vizinhança ainda não estava em prática. Os americanos nem haviam decidido se entravam na II Guerra Mundial, o que ocorreria de fato mais de dois anos depois. E aí sim, o Brasil foi seduzido pela política de boa vizinhança. Walt Disney utilizou músicas brasileiras, criou o personagem Zé Carioca nos desenhos animados e Orson Welles passou vários meses no país, filmando o Carnaval e os jangadeiros do Ceará.  O êxito de Carmen Miranda no primeiro espetáculo em Nova York foi tão grande e tão rápido que nem haveria tempo para que alguém tentasse convencer o público americano de que deveria aplaudir a cantora porque tal cortesia interessava às relações Brasil-Estados Unidos. Pelo contrário: foi ela que salvou a Broadway de um fracasso, em virtude da concorrência da feira mundial de Nova York. Foi o que disseram os jornais nova-iorquinos na época.

POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA

recriação da turnê dos personagens de Walt Disney ao Brasil, paga pelo governo americano nos anos 40 para fazer propaganda política.

POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA

Certo, em parte era política de boa vizinhança de Franklin Roosevelt, para desinteressar nossos caudilhos de Hitler, e Walt Disney e outros magnatas de Hollywood colaboraram, mas Carmen transcendeu tudo isso.

POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA

Quando Nelson Rockfeller chefiava o Ministério dos Negócios Interamericanos, segundo as diretrizes da política de boa vizinhança de Roosevelt, ampliaram-se as relações dos EUA com a América Latina em todas as frentes possíveis, incluindo rádio, cinema e cultura em geral. O objetivo de neutralizar o esforço dos alemães para influenciar as Américas favoreceu a cantora

POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA

o aspecto da solidariedade continental proporcionado pela política de boa vizinhança já era passado

Ela seria a perfeita embaixadora cultural do Brasil, mais ou menos como o personagem Zé Carioca, criado por Walt Disney na mesma época e com o mesmo objetivo. O roteiro do segundo filme de Carmen em Hollywood, Uma Noite no Rio, chegou a ser submetido à aprovação da embaixada brasileira em Washington, para que a imagem do Brasil chegasse às telas sem equívocos ou distorções, como acontecera com o primeiro, Serenata Tropical.

Carmen Miranda estourou nos Estados Unidos em 1939, meses antes do início da II Guerra Mundial, quando Roosevelt não havia sequer concebido sua política de boa vizinhança. Ela foi a grande sensação do espetáculo As Ruas de Paris, encenado na Broadway, onde cantava músicas como Mamãe Eu Quero e Touradas em Madri, que logo ocuparam as rádios. 

É fato que na mesma época outros artistas brasileiros tentaram a sorte nos Estados Unidos, também na euforia do cooperacionismo promovido por Roosevelt, e não saíram do anonimato.

Se você vir as manchetes dos jornais da época verá que eles só se referem a Carmen Miranda como embaixadora da boa vontade latino-americana. Eu penso que foi impossível para ela controlar isso. A imprensa, que de certa forma interpretava o sentimento do governo e do povo norte-americano, a via assim desde o começo. E quando ela chegou Rockfeller pensava justamente em como usar propaganda, incluindo o cinema, para atrair os países latino-americanos à posição política dos EUA. Carmen chegou então num ótimo momento e foi usada. Nos documentos [do Escritório do Coordenador para Assuntos Latino-Americanos] fica claro que todos os filmes de Carmen passavam por uma espécie de comitê de censura.

política de boa vizinhança

Com Down Argentine Way ... Os argentinos, insultados, depredaram o cinema onde a Fox lançou o filme e Nelson Rockfeller, que comandava um dos braços mais ágeis da "Política da Boa Vizinhança", tirou 40 mil dólares do cofre da CIA e ordenou a Darryl F. Zanuck que refizesse todas as cenas que os argentinos julgaram ofensivas. Carmen só aparece fazendo números: South American Way, Mamãe Eu Quero e Bambo de Bambu. ... That Night in Rio ... É o primeiro filme onde Carmen tem uma personagem ... Ela abre e fecha o filme com chave de ouro, cantando Chica Chica Boom, tendo ao fundo um cenário de papelão que mostra o Rio de Janeiro.  Ela canta também Cai,Cai e I, I, I, I Like Very Much e o filme só resiste por sua presença. Weekend in Havana ... Carmen interpreta Rosita e faz o famoso número When I Love, I Love e Rebola a Bola. ... Em 1942 filma Springtime in the Rockies ... Carmen canta o engraçadíssimo Chatanooga Choo Choo e Tique Taque do Meu Coração.

POLÍTICA DE BOA  VIZINHANÇA

 

CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

CASAMENTO

DEPRESSÃO

O episodio [da rejeição pelo público do Cassino da Urca, em 1940] marcou-a para o resto da vida, segundo a irmã Aurora Miranda, que via nele uma das causas da depressão em que Carmen teria vivido nos últimos 14 anos de vida, junto com o marido e agente, David Sebastian, que a sobrecarregaria de trabalho.
Aurora viveu em polêmica aberta com os amigos de Carmen, que admitiam dificuldades da cantora de conviver com o sucesso mas negavam que ela vivesse em constante estado depressivo.
Carmen teria tido também pelo menos uma grande desilusão amorosa, a rejeição de Aloysio de Oliveira, seu acompanhante no grupo Bando da Lua e futuro compositor e produtor de discos, que não queria ser apenas "o senhor Carmen Miranda".

                        

                         Nos camarins com o Bando da Lua / The Moon's Gang - London Palladium, 1946

(David Sebastian:) tudo o que os amigos de Carmem geralmente falam dele (um explorador que a obrigava a trabalhar pesado para sustentá-lo, um alcoólatra que acabou induzindo-a à bebida, um egoísta que a torturava mantendo um caso com a secretária).

CASAMENTO

HOLLYWOOD

ESTILO

Com David Sebastian só era feliz nas fotografias. Seus amigos aliás nunca entenderam aquele casamento. Falou-se em golpe do baú. Carmen morreu muito rica. Apesar de nunca ter sido estrela dos filmes que rodou em Hollywood, ganhou um bocado de dinheiro em shows e até publicidade (foi garota-propaganda da cerveja Rheingold). Em 1943, só Bette Davis declarou mais dólares do que ela ao imposto de renda. Nem Bing Crosby conseguiu tirá-la do primeiro lugar entre os artistas com maior faturamento em 1945. Sebastian herdou tudo.

CASAMENTO

máquina autofágica de Hollywood

conheceram-se durante as filmagens de Copacabana, onde ele atuava como assistente de produção

HOLLYWOOD

Em quase todos os filmes americanos de que participou ela fazia o papel da secretária ou da jovem sul-americana de férias na Flórida que no fim da história era abandonada pelo galã e trocada pela atriz principal. As cenas de seu regresso ao Brasil em 1954, meses antes de morrer, são bem a imagem do filme de terror que o star-system hollywoodiano podia fazer seus astros viver, dependendo de sua trajetória e firmeza de pulso.

BROKEN ENGLISH

Bananas Is My Business (assim mesmo, em broken english, como ela falava)

Quando no último número ela pronunciou a primeira palavra em inglês: The Souce American Way o teatro inteiro vibrou.

Aprendeu a falar inglês mas continuou a falar daquele jeito porque eles exigiam nos filmes.

 

HOLLYWOOD

Nós descobrimos que em 1941 ou 42, já não estou certa, ela foi a atriz mais bem paga de Hollywood. Isto é um dado do Imposto de Renda dos EUA e fala por si só.

David Meyer, produtor de Bananas Is My Business: ... fomos ver Uma Noite no Rio (de Irving Cummings, 1941). É um filme medíocre. Mas quando ela entra em cena ilumina a tela. Na minha terra Carmen é vista como uma caricatura. Mas é muito mais que isso.

MORTE   A FALSA BAIANA

Deixa a impressão, nas falas, de que procurava fugir daquele "tipo falsificado em que Hollywood a transformara", mencionado numa crônica de Paulo Mendes Campos. Parece haver chegado àquele ponto, ainda na observação do cronista mineiro, "em que o sucesso profissional esfalfa o corpo e o espírito".

ESTILO

No caso dos norte-americanos, eles se recriminam por terem limitado a carreira de Carmen ao estereótipo da baiana sensual e a terem impedido de evoluir como atriz, hipótese do filme de Solberg.

HOLLYWOOD

Arnaldo Jabor: Só os filmes americanos registraram a genialidade de Carmen. Neles, temos o Brasil por tabela, no perfeito technicolor dos [anos] 40.

FÃ CLUBES

Todo mundo que conta a notou, como mostra o tributo de Woody Allen em Radio Days, em que Denise Dumont reproduz o clássico The South American Way.

ESTILO

Carmen era o único sinal de vida naqueles coloridos enjoativos da Fox, com as múmias Don Ameche, Cesar Romero, Alice Faye e John Payne.

Sempre reservava um número em português, em todos os filmes. "Cai, cai, cai, eu não vou te levantar". "Quebra, quebra a cristaleira, quebra tudo que quiser".

DESPREZO

Luzes apagadas e a plateia se espalhava em risos com Carmen, vivaz, deliciosa, sempre, mas sempre cantando um número inteiro em português como deve ser cantado. Depois dela só Elis nos deu esse humor picante, charme único do Rio.

HOLLYWOOD FILMOGRAFIA

                                                                                 

                                                                                                                          

 Serenata Tropical (Down Argentine Way, 1940)

Aconteceu em Havana (Weekend in Havana, 1941), de Walter Lang - 20th Century Fox

Uma Noite no Rio (That Night in Rio, 1941)

e Minha Secretária Brasileira (Springtime in the Rockies, 1942), de Irving Cummings - 20 Century Fox   

 Entre a Loura e a Morena (The Gang's All Here, 1943), de Busby Berkeley - 20th Century Fox, com Alice Faye, Benny Goodman e orquestra. Números antológicos como The Lady in the Tutti-Frutti Hat e da orquestra de Benny Goodman

Serenata Boêmia (Greenwich Village, 1944), Walter Lang - 20th Century Fox

Quatro Moças Num Jipe (Four Jillies in a Jeep, 1944), William S. Seiter - 20th Century Fox

Alegria, Rapazes (Something For The Boys, 1944)

Doll Face (Sonhos de Estrela, 1945)

e Se Eu Fosse Feliz (If I Were Lucky, 1946), de Lewis Seller - 20th Century Fox

Copacabana, 1947, Alfred E. Green - United Artists

O Príncipe Encantado (A Date With Judy, 1948), Richard Thorpe - Metro Goldwyn Mayer

Romance Carioca (Nancy Goes To Rio, 1950), Robert Z. Leonard - Metro Goldwyn Mayer

Morrendo de Medo (Scared Stiff, 1953), George Marshall - Paramount Pictures

 

ESTILO

"Ela foi usada para favorecer uma imagem mítica da América Latina, omitindo realidades concretas como conflitos, guerra e exploração."

HOLLYWOOD

Em 1946, segundo jornais americanos da época, Carmen Miranda era a mulher que mais pagava imposto de renda nos EUA.

Ela seria a perfeita embaixadora cultural do Brasil, mais ou menos como o personagem Zé Carioca, criado por Walt Disney na mesma época e com o mesmo objetivo. O roteiro do segundo filme de Carmen em Hollywood, Uma Noite no Rio, chegou a ser submetido à aprovação da embaixada brasileira em Washington, para que a imagem do Brasil chegasse às telas sem equívocos ou distorções, como acontecera com o primeiro, Serenata Tropical.

folha de são paulo Sérgio Augusto - Nem Carmen Miranda salva Copacabana

REPERTÓRIO   POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA   HOLLYWOOD   ESTILO

Martha Gil-Montero: Em Hollywood, quando uma fórmula dá certo, não se muda. A baiana exótica era sucesso total, não quiseram deixar que ela fizesse outras coisas. Foi por isso que ela deixou a Fox., mas mesmo os filmes que fez depois não escaparam do estereótipo tropical.

Paulo Francis escreveu de Nova York [1983]: "Revi domingo Aquela Noite no Rio de 1941. Com Carmen Miranda. Me lembro da ocasião da estreia. Todo mundo deliciado, no escuro. Na saída, todo mundo reclamando que Carmen nos representava como 'macaquitos' (de que já nos chamavam os argentinos) para divertir os americanos. Ou seja: as pessoas adoraram Miranda, 'coisa nossa' brilhando em Hollywood, mas só na escuridão protetora do cinema. Na rua virávamos patriotas. ... Só uma cantora está no nível de Carmen Miranda: Elis Regina. As duas partilham uma vivacidade, verve, uma intensidade que me parecem entorpecidas sob baianismos e outras forças estranhas. O 'cai, cai, eu não vou te levantar' dela neste filme não pode ser melhorado. Carmen sempre insistia num número autenticamente brasileiro em todos os filmes. ... O sucesso dela nos EUA nunca foi igualado por qualquer outro brasileiro. Era uma estrela americana e internacional. Só no Brasil era vilificada (e respondeu memoravelmente em Dizem Que Voltei Americanizada) e é até hoje, como Judy Garland e Joan Crawford, ídolo das bichas. ... Carmen caiu por causa do 'macartismo'. Estava sem calcinhas numa fotografia, o que lhe valeu campanha política e fim de carreira, naquele período anterior de 'maioria moral'. ... Macaquito? Sem dúvida. Ralph Ellison, negro, escreveu O Homem Invisível sobre o negro americano que o branco não quer ver. É meio difícil não ver brancos, mas se de uma cultura 'estranha' como a brasileira é preciso apalhaçá-la, para não assustar a 'maioria moral'. Hollywood fez isso com franceses, russos, alemães, ingleses, por que escaparmos? Mas Carmen, como Groucho Marx (uma sátira ao judeu vigarista feita por um judeu de gênio), tirou o máximo do que lhe deram. O filme só sabe quando ela está em cena, já que Don Ameche e Alice Faye nasceram sete palmos abaixo. Quem se lembra de Alice (que quando garoto achei gostosíssima)? Carmen é imortal."

No Brasil fez 6 filmes e em Hollywood 14.

HOLLYWOOD

o melhor de todos os seus filmes, The Gang's All Here, dirigido pelo mago da coreografia hollywoodiana Busby Berkeley. No elenco, Alice Faye e Benny Goodman e orquestra. É aqui que Carmen faz seu número mais famoso, The Lady With The Tutti-Frutti Hat

PUDENDAS

Em 1946, faz seu último e pior filme na Fox, If I Were Lucky, e durante as filmagens ela se deixou fotografar sem calcinhas, criando forte rebuliço. ... O senador McCarthy ficou uma vara e colocou Carmen em sua lista de "caça às bruxas", impedindo a Fox de renovar o seu contrato. Há quem afirme que a história é outra: ela nunca gostou de usar calcinhas! E há o fato de que comprovei incoerência na história, pois a roupa que aparece na foto proibida é do filme Weekend in Havana [1941] e não de If I Were Lucky [1946].

HOLLYWOOD   ESTILO

Sem contrato fixo, ela faz na United Copacabana, e consegue seu primeiro e único papel principal, ao lado de Groucho. Seu último filme foi feito na Paramount, Scared Stiff, e Carmen contracena com Jerry Lewis, Dean Martin, Lizabeth Scott e Dorothy Malone.

O que é muito engraçado é que no cinema Carmen sempre foi uma estrela coadjuvante que fazia o maior sucesso.

CARREIRA   HOLLYWOOD

Carmen adquiriu respeitável fortuna nos EUA e com o dinheiro ganho comprou oito poços de petróleo no Texas, em sociedade com Clark Gable, John Wayne e Rosalind Russel, que eram administrados pela firma Morgan Incorporated de São Francisco.

PUDENDAS   o episódio em que Carmen foi fotografada rodopiando com o ator Cesar Romero sem calcinhas por baixo do vestido.

                         

Não há menção de que Carmen foi banida de Hollywood pelas ligas moralistas católicas, poderosíssimas até os anos 60, por causa de uma fotografia em que saltava no ar e exibia as pudendas. Darryl F. Zanuck, o executivo-chefe da Fox durante 30 anos, maior patrão de Carmen, diz que a foto foi decisiva para os ostracismo dela no cinema.

PUDENDAS

- Você não aborda a história de que Carmen caiu em desgraça em Hollywood depois de ser fotografada sem calcinhas.

Helena Solberg: - É uma lenda sem fundamento.

PUDENDAS

Em 1946, faz seu último e pior filme na Fox, If I'm Lucky, e durante as filmagens ela se deixou fotografar sem calcinhas, criando forte rebuliço. ... O senador McCarthy ficou uma vara e colocou Carmen em sua lista de "caça às bruxas", impedindo a Fox de renovar o seu contrato. Há quem afirme que a história é outra: ela nunca gostou de usar calcinhas! E há o fato de que comprovei incoerência na história, pois a roupa que aparece na foto proibida é do filme Weekend in Havana [1941] e não de If I'm Lucky [1946].

             616 North Bedford Drive, Bervely Hills

 

Quando o Carnaval Chegar (1972), de Cacá Diegues, com Nara Leão, Maria Bethânia e Chico Buarque, é como que uma réplica moderna das antigas chanchadas da produtora Atlântida filtradas pelas lentes do cinema novo, e por esse prisma talvez mais interessante que a grande maioria delas. É no mínimo uma bela coleção de cineclipes da sua trilha sonora, em que além das músicas de Chico contém um grande sucesso de João de Barro e Alberto Ribeiro que traduz o espírito ingênuo e jovial que, beneficiados pela filtragem de mais de meio século e sem fazer um close na   cama de jornal da personagem de Noel Rosa, podemos sentir de forma ainda muito vibrante perpassando pela quase totalidade do volumoso repertório de jóias raríssimas da Época de Ouro e da Era do Rádio no Rio de Janeiro. 

Era de Carmen Miranda. 

 nós somos as cantoras do rádio

 levamos a vida a cantar

 de noite embalamos teus sonhos

 de manhã nós vamos te acordar

 

 nós somos as cantoras do rádio            nossas canções cruzando o espaço azul

 vão reunir num grande abraço

 corações de norte a sul

                             

               CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

                                      fenômeno da cultura de massa do século XX

Informações e opiniões de fontes e celebridades, além das citadas e das obras incluídas na bibliografia de  MÚSICA DO BRASIL DE CABO A RABO acessível a partir   DAQUI

Informações e opiniões de fontes e celebridades, além das citadas e das obras incluídas na bibliografia de  MÚSICA DO BRASIL DE CABO A RABO acessível a partir   DAQUI

j

jjornais: Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1989; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Elizabeth Orsini, 2 de maio de 1989; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, João Máximo, 28 de janeiro de 1991; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Tárik de Souza, 15 de março de 1994; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 de julho de 1995; Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 1996; O Globo, Rio de Janeiro, 8 de dezembro de 1994; O Globo, Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1995; O Globo, Rio de Janeiro, 7 de julho de 1995; O Globo, Rio de Janeiro, 30 de julho de 1995; O Globo, Rio de Janeiro, 5 de agosto de 1995; O Globo, Rio de Janeiro, João Máximo, 15 de fevereiro de 1996; Folha de São Paulo, 1º de maio de 1989;  Folha de São Paulo, 22 de setembro de 1991; Folha de São Paulo, 1º de janeiro de 1992; Folha de São Paulo, Inácio Araújo, 31 de julho de 1995; Folha de São Paulo, 10 de outubro de 1995; Folha de São Paulo, 16 de fevereiro de 1996; O Estado de São Paulo, 15 de janeiro de 1991; O Estado de São Paulo, Lauro Garcia Lisboa, 1º de janeiro de 1992; O Estado de Sâo Paulo, 5 de dezembro de 1994; O Estado de São Paulo, 29 de julho de 1995; O Estado de São Paulo, 15 de fevereiro de 1996; O Estado de São Paulo, Luiz Zanin Oricchio, 19 de abril de 1996; Voz de Portugal, Rio de Janeiro, 21 a 27 de julho de 1995;

revistas: IstoÉ, São Paulo, 8 de março de 1996; veja, São Paulo, 17 de maio de 1989

 

                      

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Você já deve ter visto, lido ou ouvido falar de muita história da música brasileira da capo  a coda, mas nunca viu, leu ou ouviu falar de uma como esta. Todas as histórias limitam-se à matéria e ao universo musical estrito em que se originam,    quando se sabe que música se origina e fala de tudo. Por que não falar de tudo o que a influenciade que ela fala sobretudo quando a música  popular brasileira tem sido quase sempre um dos melhores veículos de informação no  Brasil? Sem se limitar a dicas sobre formas musicais, biografia dos criadores  e títulos de   maior destaque. Revolvendo todo o terreno em que germinou, o seu mundo e o mundo do  seu tempo, a cada tempo, como fenômeno que ultrapassa - e como - o fato musical em si. 

Destacando sua moldura dessa janela sozinho olhar a cidade me acalma dando-lhe um enquadramento estrela vulgar a vagar, rio e também posso chorar... histórico, social, cultural e pessoal.  Esta é também a história de um aprendizado e vivência pessoal.

De um trabalho que começou há quatro décadas por mera paixão infanto-juvenil, tornou- se matéria de estudo e reflexão quando no exterior, qual Gonçalves Dias, o assunto era um meio de estar perto e conhecer melhor a própria terra distante e por isso até mais atraente. E que como começou continuou focado em cada detalhe por paixão. CONTINUA  AQUI

                                                            

                                                                

                                                                        CORAÇÕES FUTURISTAS nunc et semper  AQUI   

                                                                          

                                    

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ÍNDICE DOS CAPÍTULOS                         

          em destaque capítulos ou seções de capítulos com trechos acessíveis a partir de seus títulos

O LIVRO DA SELVA 

 Productos Tropicaes   e   Abertura em Tom Menor

1.    O BRASIL COLONIZADO

    raízes & influências Colônia e Império   

1. A  Um Índio   1. B Pai Grande      1. C   Um Fado  

2.      TUPY NOT TUPY formação de ritmos e estilos urbanos suburbanos e rurais Rio sec. 19-sec. 20 - Das senzalas às escolas de samba

3.     Os Cantores Do Rádio    

                      a  ESTreLa SoBE

              CARMEN MIRANDA DE CABO A RABO

               fenômeno da cultura de massa do século XX                  

4.     BOSSA NOVA do Brasil ao mundo      

Tom Jobim   INÚTIL PAISAGEM  

de Rumo à Estação Oriente 

5.  BOSSA MAIS NOVA o Brasil no mundo

O LIVRO DE PEDRA

PARA LENNON & McCARTNEY           

VIDA DE ARTISTA crise e preconceito = inguinorãça

CENSURA: não tem discussão. Não            

POE SIA E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

O SOM É MINAS: OS MIL TONS DO PLANETA        

MARIA TRÊS FILHOS

(SEMPRE) NOVOS BAIANOS         

NORDESTONTEM NORDESTHOJE

RIO &TAMBÉM POSSO CHORAR       

FILHOS DE HEITOR VILLA-LOBOS

INSTRUMENTISTAS & INSTRUMENTAL

 Sax Terror      

 SAMBA(S)

BLEQUE RIO UM OUTRO SAMBA DE BREQUE        

FEMININA

MULHERES & HOMENS NO EXÍLIO

o bêbado exilado & a liberdade equilibrista

ANGOLA          

ROCK MADE IN BRAZIL

ou Quando a rapeize solta a franga

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