revoluciomnibus.com  James   Anhanguera ERa   Uma   Vez  A   RevolUÇÃo. ...I I I     MEDO ATRASO E ROCK NAS BERÇAS   

O S  M Ú S I C ODN O I  T E

JCP e Jimi Sawyer, que passou a disputar comigo duelos de gravadores portáteis Phillips em torno das novidades da música popular brasileira, combinam fazer uma reportagem para o Cinéfilo sobre os músicos ‘da noite’. Cabaré, de João Bosco e Aldir Blanc, destaca-se na banda sonora da cinematográfica reportagem nos táxis que os levam de um antro a outro. Os dois repórteres não têm ideias claras sobre o conteúdo do trabalho, partindo do princípio de que se definirá ao longo do caminho, que será longo. Novo jornalismo, uma ideia de fundo na cabeça e gravadores na mão, os dois propõem-se cobrir quatro cabarés em duas noites de digressão com o fotógrafo designado pela agenda da revista. Acompanho-os sempre.

Na primeira arribamos os quatro ao Toco, à Ave Conde Redondo, onde as bebidas são por conta da casa. Tomamos uns três cuba libres cada e chegamos ao Bolero já a todo o gás. JCP e Jimi sobem o pequeno palco e põem-se a entrevistar o pianista cego. Estou de pé, meio afastado, a domar o movimento do cabaré quando vejo o fotógrafo a descer do palco, postar-se embaixo para fotografar o pianista de frente em contreplongé e inopinadamente dar um rodopio e estatelar-se no chão, desmaiado. Baixa na equipa. Fotógrafo reanimado e posto num táxi rumo a casa apanhamos outro na senda do Cantinho, levando à boleia uma das meninas mais assíduas do buraco infernal, baixinha, feiota e uma pequena corcunda que a destaca entre as demais. Vai já animada a rapariga, que é a segunda pessoa a entrar no banco traseiro do 180, entre mim e JCP. Brincadeirinha com um, brincadeirinha com outro, um e outro nada entusiasmados, pelo contrário, aproveita o embalo do carro em curva da Rua dos Condes para a Ave da Liberdade e tasca-me um beijo na boca. Sem escapatória, sou obrigado a absorver o líquido melento que a peguinha me manda à boca, quase a vomitar para a dela de repulsa, após o que cuspo tudo pela janela, emitindo um blergh! E não engulo saliva até - como quase sempre quando em digressão com JCP, numa base de frente para o palco (this is the way to Amarillo, pum! pum!) quase ao canto da sala, recebo a cerveja encomendada, sorvo o primeiro gole, com que enxáguo a boca e cuspo entre as pernas no chão, e mais outro e mais outro, quase toda a cerveja a servir de desinfectante.

- Bom, o fotógrafo já se foi e eu também já não me sinto lá muito bem da cabecita. Nada de grave! Só que já não dá para sair daqui para entrevistar esses gajos. Enfim, o que me apetece é ficar aqui tranquilo, a tomar a minha cervejinha calmamente. Que tal prosseguirmos noutra noite? – propõe JCP a Jimi. Uma noite, dois cabarés, metade do previsto no plano de voo.

            

Aiiii, quem sabe de si

nesses bares escuros

quem sabe dos outros,

das grades, dos muros – geme Elis no gravador

Um cuba libre treme na mão fria

ao triste strip tease da agonia

lá fora a luz do dia fere os olhos...

25 antes durante depois

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